5/25/2009

Caminhar com Nietzsche

O andarilho nunca persegue sua própria sombra. Por mais que ame a humanidade, conheça pessoas e dê a elas sábios conselhos, o que mais interessa é que ele se solte da sua sombra. Durante um longo período da sua caminhada solitária, o andarilho escutou todos os conselhos da sombra, assim como a sombra dependia de todas as ideias do andarilho – afinal, ambos precisavam sobreviver. O andarilho trocou inúmeras palavras obscuras com sua sombra, de modo que, na hábil manutenção de enigmas para terceiros, ficassem bons amigos durante o seu inevitável convívio. Mas, quando a luz do conhecimento bate, inesperadamente, sobre o caminho do deserto, algo desaparece como num piscar de olhos. Faço, enfim, a pergunta: quem sumiu de repente com a luz do sol? O andarilho ou a sombra? Ora, a própria sombra teria dito, no início da caminhada, que “todos reconhecerão somente as tuas opiniões ali: ninguém se lembrará da sombra”. É preciso primeiro perder-se no deserto para, quem sabe, reencontrar-se na sua própria imaginação. Perder-se novamente em outros desertos e reencontrar-se novamente em outro lugar... ou outro pensamento... ou outra vida...

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