2/01/2010

Tédio (com cheiro adolescente)

O tédio constrói nossos divertimentos breves, nossos aparelhos inúteis, nossos shopping centers de estreitos corredores (o maior divertimento em um shopping é acotovelar-se com os idiotas), enfim, nosso vazio com cheiro de merda. Não, eu não quero ler o último best-seller de auto-ajuda no último iPad, ele é uma porcaria (o aparelho). Minha única auto-ajuda é o salário, que, ao desferir a lâmina do cartão nas devidas fendas, me faz lançar esporros de dinheiro pelas veias do sistema econômico, realizando meu gozo, que só dura alguns segundos. Logo depois, coloco toda minha raiva pelo gozo instantâneo num canto qualquer da minha existência, com cheiro de merda.
O contrário do tédio não é o trabalho, nem o ócio criativo, pois não criamos mais nada que possa ser vendido e reconhecido em nossos momentos de ócio. O trabalho me deixa com vontade de dormir e, quando durmo, sonho em trabalhar. O trabalho esvaziou meu cérebro e me preparou para o tédio sacrossanto de todo final de semana, cheirando a merda pelos quatro (ou três) cantos da casa.
Mas, se eu grito “Entretenha-nos!” com os pulmões cheios de ar podre, por que os outros precisam me entreter? Sento na minha tediosa cadeira, olho para a TV, limpo a baba idiotizada da minha contemplação tediosa e começo a pensar. Inicia-se, assim, a fábula do último Prometeu.

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