6/18/2010

Green Mile

Entro na Green Mile. Fico parado, observando a sua longa extensão, que leva nada a lugar nenhum. Parece estar sempre encerada, limpa, brilhante. O rumor que ouço dos calabouços – daqueles que esperam por sua hora – não são gritos de desespero ou de raiva. São ruídos muito leves, de baratas que passam só quando as luzes se apagam. No mais, vejo olhos. Olhos distantes, às vezes fugidios, que captam qualquer vibração, pensamento ou gesto. Qualquer movimento que possa sinalizar uma ajuda a alguém que está marcado para morrer é sempre muito mal visto em Green Mile. Não pode haver nenhum sentimento ali. Talvez só justiça. Justiça, tal como ela nos é ensinada dentro de casa: com labaredas pelos olhos. Sempre os olhos. Em todos os lugares.
Cada passo que faço pela Green Mile ecoa quilômetros. Ela me lembra que muitos morreram por aqui. Será que morrerei aqui também? Quando falo com alguém de algum calabouço, noto em seus olhos uma superficialidade de quem não espera mais por nada. Frio. Muito frio.
Tenho a sensação que, daqui a algum tempo – nunca saberei quanto – entrarei novamente em Green Mile para morrer. O que fiz de tão grave? Não sei, muitos falam que quem vive em Green Mile vendeu sua alma ao diabo. Mas eu só conheci o diabo agora, que não tenho mais esperanças. Não importa o que se faça: quando você está em Green Mile, morrer é pouco. Muito pior são os ruídos das baratas – será que elas já passaram por cima da minha comida? – e os olhos. Muitos olhos. Pergunto quando chegará minha hora. Ouço apenas o eco por toda a Green Mile. Ninguém ousa responder a perguntas por aqui. Você que descubra, se for capaz. Ouvi, há um tempo atrás, de alguém que disse que ouviu de alguém que ouviu em outro lugar que não a Green Mile – tudo se decide fora daqui – que esperarei muito, muito mais que qualquer pessoa, para morrer. Esperar, novamente esperar. O frio se intensifica. Mas não há vento. Não há sequer ventilação em Green Mile – como as baratas sobreviveriam? Esperar, esperar. Enquanto isso, os olhos, grandes, brilhantes. Talvez seja por isso que Green Mile parece sempre tão brilhante.

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