6/05/2010

Sonho proletário – diálogo com Jacques Rancière

Não consigo escrever e pensar durante a noite. Sou um animal diurno, como os proletários. Talvez por isso, quis fugir ao máximo de me tornar um deles. Meu pai, bom operário, acabou no hospital, onde sua vida também acabou. Minha mãe, que já costurou muito, agora definha nos dias de sua solidão. Nascido no centro escuro e perigoso da cidade, sonhei muito desde criança. Já quis ser desenhista, poeta, músico. Já inventei meus próprios brinquedos, recortando em papeis o que jamais ganhei. Como não podia ser nem desenhista, nem poeta, nem músico, contentei-me com a ideia de ser professor. Achei que não me tornaria um proletário. Mas como é infeliz a nossa época, que faz do professor um poeta mudo, ignorado pela estupidez humana ao falar aquilo que não se lê nos livros! O professor virou proletário! Sua fala é roubada e suas noites não são mais suas: ele dorme o sono dos cansados, para, no dia seguinte – com o corpo e a esperança revigorados – esperar que seu chefe lhe dê uma promoção, um aumento, ao menos uma esmola. Mas nada disso chega. Resta a espera. Enquanto isso, no chão próximo à cama, um livro que fala dos sonhos possíveis, da reapropriação da vida. Bobagem. O que resta de meu sonho proletário de ser artista é poder ficar em casa enquanto o mundo trabalha nas ruas. Calado, sozinho, espero que amanhã eu tenha disposição para o trabalho...

Um comentário:

Daniel F disse...

A idéia de ser proletário pode ser libertadora, porque não se tem nada a perder.