7/29/2011

Falsos poemas do interlúdio

I

Entre dois
nadas
Sobrevive
a poesia


II

A moça do carro
sozinha e assustada
me vê atravessando a rua

Ela, mesmo assustada,
não me deixa passar.

Por que, mesmo que por medo,
não me fez uma falsa gentileza?

Fiquei pensando:
hoje em dia, ninguém faz gentilezas
nem para as pessoas que dizem amar,

Quanto mais
para o desconhecido sozinho da rua...

III

No vazio da espera
uma lágrima cai
sozinha
sem motivo.
Não molha nada.

Enquanto o nada não chega
leio Drummond no shopping,
por puro cansaço da existência.

IV

Enfim, casa arrumada,
poucos problemas,
um pouco de dinheiro sobrando
no bolso.
Profissão estável,
silêncio,
liberdade.

Enfim, infeliz.

V

Ontem disse que não conseguiria
te amar.
Meu coração está vazio
e não sinto o que queria sentir
por você.

Hoje,
nós dois,
sozinhos e tristes,
encontramo-nos,
cumprimentamo-nos como amigos,
olhamo-nos nos olhos
– foi quando vi tua tristeza –
e trocamos palavras vazias.
Tu foste logo embora.

Eu,
sozinho,
entro na livraria.

VI

Até quando dura um nada?

VII

Vi o teu retrato por aí
mas não senti nada.
Não sei quem és
o que sentes
se me amarias.

Da minha parte,
apenas a espera.
Olhando um retrato
de quem talvez
um dia me conheça.

3 comentários:

Beta disse...

A redenção - se há alguma possível - reside no que se enuncia no início do poema: a própria poesia. Poema agudo de realidade e lirismo. Lucidez desenganada e um pouco de esperança: "olhando (...) quem talvez um dia me conheça". Volta-se ao início, o que de certa forma justifica e sobrevive. Belíssimo!

Álogos disse...

Obrigado, Roberta.

Só a poesia pode sobreviver...

Aldemar Norek disse...

Sensacional, Álogos!
Gostei muito deste poema, do título ao todo.
Abraço!