12/07/2008

nº 93

Dias que se erguem feito muros, muito
altos, diques, e o chão
calcinado ao rés dos movimentos
da memória, longo caminho
a pé, só lhe restou
beber o veneno, mergulhar
no veneno, sem antídoto
à mão, sem cartas
na manga, e depois mijar o veneno de volta
nos muros misturado
às secreções do corpo,
seu corpo, um dia
depois do outro, esperando
minar as bases, contaminar, os olhos
acorrentados no dever
de ver. “Tudo
está aí
”, ele disse, “pura rasura”,
quando escrevia, o coração
a nu, ruína
da paixão de grafitar a paisagem, seu apocalipse
portátil.

(das "Notas Marginais")

12/06/2008

Novo Pequeno Dicionário das Aproximações


Sentido (s.m.)
Miragem.

Sublime (adj.)
Na contabilidade geral que você possa fazer de tudo que o cerca, não há conta onde possa ser lançada esta incrível elaboração da ficção.

Valor (s.m.)
Ilusão. Nada vale nada. Nem você.

12/04/2008

Mais notícias de Udi, ou Aí é que você se engana







Um rio foi picotado e circula debaixo do asfalto com dificuldade, os canos são suas pernas
Mecânicas ao passo que ele anda em Udi
Como quem se despede.

O nome do rio é método e tem comigo uma porção de citações convenientes pra nos fazer acreditar que nascemos na pior das eras já que você não pode se contentar com a irrelevância e o merecido esquecimento, e o outro assunto sério além da teoria é a política e aí é preciso admitir que mesmo não sendo fracassado Hugo Chávez não tenho o charme das derrotas de Che Guevara e eu não me convenço dele mesmo com o boné venezuelano trazido pelo seu amigo, o último comunista
Depois da morte de Aldo Rebelo (você morreu engasgado com os trechos de Gilberto Freyre e Eduardo Prado, mais ácaros de plenário e a hemorróida na língua).

Mas, falando em filosofia barata poderia dizer que isto não é um charuto e que nossa última revolução foi implantar o comunismo no colégio dos tarados salesianos e do professor de religão que queria ver o “terceiro olho” dos alunos,
Pelo menos o ateísmo livrou meu rabo.
Depois disso a queda foi visível e minha verdade
É a farsa, revolvida por pequenas e cirúrgicas
Auto-sabotagens, deixar claro que não tenho meu estilo
Meu estilo é cheio de si (quer dizer, de uma terceira pessoa, do alheio).

Mas nem isso dá pra se levar a sério, a sua consciência perversa é uma profissão
De fé como outra qualquer, um amontoado de clichês, nada mais, literatura não é o álibi perfeito e ressentimento não é autenticidade, não sou eu aqui, entendeu?, é a cópia da minha cópia e você também é a cópia de uma idéia qualquer.

Complexo de Max Weber, Melancolia Uspiana com o Fim dos Tempos, Neurastenia do Escritor que só Consegue se Repetir, Megalomania Deuleziana, Esquizofrenia do Legislador Platônico, Blogueiros Abúlicos, Histeria do Reacionário Afônico, Euforia do Ego Dilacerado pelos Mil Acessos, Nacional-Desenvolvimentismo Congênito Ambidestro, Fobia de Todos os Tipos,

Alguma coisa se salva entre a gente.

12/02/2008

Notícias de Uberlândia II e I

Performances Performáticas ou Notícias de Uberlândia II (ou melhor, de uma ida à Uberlândia)

Sou um terrorista com ética? (há algum sem?)

Assim com o fundador do monoteísmo eu pergunto a Ele:

Quem é você? Eu sou?

Paro na bomba: não há gás! Só explosão!

Estradas de andarilhos solitários, esmos: a esperar a próxima batida?

Sou um ser(tãozinho) em (de)composição? Afinais-nos o Senhor(es)! Não nós leve as batidas! Ou será neste caminho o nosso fim? De quem será hoje?

Talvez um ser musical!

Se alguém matou deuses e deus eu tenho no meu íntimo

A pretensão de matar a filosofia!

Delírios de um iconoclasta:

Contra o pensar e o não pensar!

Contra o racionalismo irracional e o irracionalismo racional!

Contra a superficialidade profunda e a profundidade superficial!

Contra o nomadismo sedentário e o sedentarismo nômade!

Viva os jogos de linguagens? Os jogos poéticos? Os jogos? Aprendendo a jogar? (A amar com certeza não?)

Contra Apolo e Dionísio!

Viva o Aleph, Lete, Funes e o Perdão

Ou simplesmente o céu azul: horizonte da salvação do viajante!

E eventualmente o sexo dos pássaros...

Viva a per(ser)

Forma

mance

Se kant pergunta: o q. é o pensar?

Se Heiddeger (ou algo assim) pergunta: o q. é o pensar?

Se Foucault pergunta: o q. é o pensar

(Fonte: Mundo de Sófia)

O pastiche, o ladrão, bricoleur e o caminhoneiro perguntam:

O que é o dançar?

Dança de boleais (que tragicamente podem cair sobre nós)

O que falta ao mundo é a dança!

Menos pensar, mais poesia, menos celular G3 e mais o quê (pergunto aos românticos céticos e aos céticos românticos)?

Talvez uma das faltas seja mais gás do dançar

Dervixe-capoeira e da capoeira-dervixe!

Nós pós-intra-modernos e pós-intra-iluminista e pós-intra-murodeberlim

Somos todos uns porras-loucas?

(meu inconsciente me diz que na verdade sou um egoísta-narciso pós-moderno!)

Porras-loucas dançantes em busca de novas fecundações?

Dervi (xes)res porvires

Loucos

Homens-tempo: o delírio se encarnou em mim? Ou ninguém confessa? (São João da Cruz me salva se você existir!)

Não consegui chegar onde queria...

Mas estou contente afinal não penso e não ando de carro: faço performances, rs.

Pô, pó(?)

Iiiiiiiiiii

É ê e

Zesssssssssss.

Ps1: o problema é que a minha ex e minha psy dizem q. eu não levo nda a sério. A começar por mim.... Só rindo?

Ps2: escrito e psicografado por meio de metodologia quase-kamikaze atrás de caminhões na 262 postado no Blog Língua Epistolar por meio de um lap tope dell(rei?) através da tecnologia 3g na churrascaria Santa Catarina em Araxá.

Ps3: ainda falta 200km.

Para quem chegou até aqui e não leu o I:

Procura-se novos amigos

sou um escritor

sou um escritor?

escrevo o quê?

vivo do passado

mas vivo no presente

aproveito e sofro

desta condição

só e otário?

solitário mas não só?

descobrindo, encobrindo e

indo para os extremos

oestes

eis eu hoje

bebendo uma cerveja

em Uberlândia: Udi et orbi!

M.

Chover no molhado

E é só
Chover no molhado.

As palavras escorrem
Na luz líquida
Do meu computador,
As palavras evaporam
E eu não tenho guarda-chuva
Pra te proteger das gotas
Que caem sobre o desde sempre molhado
Tecalque, teclaque, teclhado, brincadeiras
Redivivas de uma vanguarda que desde meus avós
Só chove no molhado, baby.

Já vi um lugar em que as gotas
De água batendo na água do rio
Faiscavam como se os peixes
Fossem de prata, e não foi
Num filme de walt disney.
Agora, Madame de Saint-Ange
É síndica do meu prédio & me
Diz que sou um anjo e com asas
Porque digo bom dia aos mendigos
& Dolmancé é meu vizinho de parede
& coordena a comissão de diárias
E passagens aéreas e me faz uma reserva
Num hotel de João Pessoa
Pra que, entre conversas sobre a destruição de Pompéia
E a questão cultural do rolete de porco
Eu possa dormir no auditório
Debaixo da mesa do orador, leitor
De Sun Tzu, Paulo Coelho e Washington Olivetto
& Dolmancé que é meu vizinho e meu aluno
E organizador do natal da família
Me diz que por isso eu sou um santo do tipo
Otário que dorme no auditório,
No supositório da cadeira giratória,
Ó simbolistas do apocalipse sem fim...

Mas, menina, molhe seus cabelos
Nessa tela que é sempre e sempre será
Chover no molhado e me esqueça
E de vez em quando se lembre
Que me esqueceu e me deixe
Chover no molhado e me esqueça
De suas palavras abrasivas, e só
Não me diga que dessa água não beberei
Porque tudo é chat, tudo é comments
E a dona poesia anda ensopada
Por temporais de neoparnasianos, neobarrocos,
Pós-concretistas e viscerais
De fim de fila.

11/30/2008

Fantasia fantasmagórica

você é um fantasma
e uma fantasia
em minha vida.

sonho e pesadelo,
você dorme e ressuscita.
desperta e me assusta: ressuscita o passado,
o sentimento guardado e adormecido.

como um tufão, furacão, terremoto
eu tremo
me perco em minha perdição

você surge inesperada esperando
a minha espera
espera dormida, sonhada e silenciosa.

você surge me assusta
me move, mergulho

você tem ritmo
vai e vem

eu e meu coração a deriva

11/29/2008

Algumas brincadeiras com palavras (ou um adolescente aprendendo a escrever)

1º. Ato

O tempo dos Ipês

Em pleno ritual sagrado
as palavras seguintes baixaram
como uma pomba-gira.

Hoje de supetão minha filha perguntou:
"o que é o tempo"?
ela disse que para ela o tempo era o relógio
mesmo antes do relógio mecânico já existia o de
sol ela me disse.
O tempo é o relógio? (acho que ela queria me perguntar também)

Tentei explicar que sim e não. Fiquei sem saber o que fazer
foi aí que disse: o tempo são as flores do Ipê amarelo.
O tempo é relativo: qual é o tempo das flores do Ipê amarelo?
Acho que ela pensou: as horas do relógio do Ipê amarelo duram um ano
para florir,
os minutos uns meses florindo e os segundos são as flores caindo.

Fiquei com a imagem e a pergunta:
qual é o tempo dos Ipês?
qual é o tempo das suas flores?
belas flores
que florem o céu e a terra

Não há palavras e explicações!
queria ensiná-la a sentir os tempos
queria sentir os tempos

Pelo menos aprendi a desconfiar
e desconfio que o tempo caleidoscópico
dos Ipês é:
amarelo, branco, roxo e madeira.

2º. Ato

Me pedes que fale

Fale de sonhos

Vale a pena ter esperança em sonhar sobre ruínas?

Sem dúvida, o que são dos sonhos sem ruínas

E das runas sem ruínas.

Esperar a esperança, "desesperar jamais".

On toujours sait bien et n'est sais rien.

J'ai sais pas.

On moins il faut essayer d'être vivant.

C'est toujours : tous jours

Jolie la poésie en français mélange ( ?) avec le portugais ?

Ô pessoa e Pessoa ! essa alma minha partida, quer partir

Quer retornar a aparência. O devir me chama pela chama presente ausente

De um ser sendo ou nada.

A angústia do viver me contagia de forma a não saber o que sonhar.

Sonho os sonhos. Talvez meus sonhos sejam esperanças de pesadelos melhores?

Estou fora da morbidez. Estou dentro da espera, expectativa.

O problema é que não sei o que sou, nem vou saber.

O problema é que não sei o que quero.

Às vezes acho que não poderei ser feliz com expectativas pequeno burguês (também minhas) de uma família feliz.

Talvez a esperança resida, como você disse (dizendo das minhas indecisões, da minha incompletude completa),

Nos gatos.

Gatunamente para dentro e para fora. Vivendo o devir temporal da existência, felinamente com um simples e irônico

Só riso.

Só rindo mesmo!

Essas palavras a esmos são o que sou agora, hoje. Um homem

Um projeto de homem perdido com as palavras, a fim de ser

Apenas um pequeno burguês.

Em busca da felicidade da família.

Mas, sobretudo em busca do amor. Da completude incompleta eternamente do amor.

Amor: onde encontrá-lo? Em mim? Em ti? No universo?

Não sei, mas sairei pelas ruas agora em busca da resposta dos gatos.

Miau!

Desejaria ser

Mais irresponsável? Mais centrado? Mais eu? Cuida-te de ti: ô pobre mortal!

A mesma poesia que corre

Falta

Eterna falta!

3º. Ato

tem jeito que quer
acreditar
creditar
no amor

amor eu te perguntaria: vc é uma deusa traiçoeira?
vc é algo que se possa acreditar?
o que distingue vc da paixão?
por alguns amam e outros só tentam?
é preciso deixar nascer?

me dizem que é karma dessa vida e de outras
não tenho tino para o amor (a paixão me domina?)

quem queria acreditar no amor?
me falaram que queriam acreditar em ti: é possível?
é preciso ser crente?

não sabemos quase nada de ti amor,
mas sabemos que quando vc aparece
é a coisa mais linda que se viu passar

mas vc só passa? ou é possível permanecer?
parece que há alguns segredos que só alguns sabem
será que se eu for a terapia poderei começar a amar?

me diz aí amor pois tem uma amiga
que diz que quer
acreditar em ti

eu pelo menos to precisando saldar minha dívida contigo
para só então começar a usufruir de algum crédito
ho vida justa injusta me pq quero tanto descobrir
os segredos amor

se que é que há
haverás?

4º. Ato

> ENCONTRO COM O INSTANTE
> 
> tem certos dias que se encontra
> tem certos dias que se desencontra
> e, ainda, tem certos dias que se reencontra.
> 
> o melhor, quase sempre, é quando se encontra
> desencontra
> e reencontra
> de um só vez (dans seule coupe e couple!).
> 
> o sol que nascia com minha chegada ( à la maison)
> indicia que sim.
> indícios são os detalhes que tornam a beleza da vida tão
> bela como as muitas e relativas renascenças.
> 
> porém, só tempo
> universal, absoluto, humano e relativo
> dirá algo sobre o devir.
> 
> por enquanto:
> foi bom esse encontro
> quase-marcado.
> 
> o instante, essa partícula de tempo,
> é que faz que os encontros sejam simplesmente.
> eles (instantes e encontros)
> não são eternos como as especulativas bolsas femininas
> são apenas o vento a solfejar um perfume.

5º. Ato

O retorno da grande narrativa, ou as 3 ordens da cultura e da política

XIX Utilitarismo[1]



XX Utilitarianismo[2]



XXI Futilitarismo[3]













[1] Marx, Manifesto Comunista: “Rasgou o sentimentalsimo feudal com a tesoura do cálculo egoísta. Agitação permanente nas pirâmides do Egito, artlharia pesada a preços módicos, construção inacabada da Utopanopticopia”
[2] Alceu amoroso lima. “O suicídio da burguesia”: “Olhares furtivos e acrobáticos flertando com a morte, durante e depois da missa. Cirurgiões usando serrotes e anestésicos”
[3] Washington Olivetto, Google. “Mais difícil do que ter uma grande idéia é reconhecer uma grande idéia. Especialmente se for dos outros!” (rsrsrs...)

11/21/2008

Santidade a preços imperdíveis. Confira!

Melhor não ter nascido seria
Melhor ser esquecido, historiadores
Do futuro vomitarão este miasma
Pra cima dos inocentes?

O encanamento enferrujado sob
As avenidas rasgadas como planícies
No meio de um vale desértico
Se misturou como um enxerto
Em suas veias, querida.

Quantas derrotas até chegar aqui,
Você vive nos parâmetros
Dessa metodologia, ancorada.

Mas, se você guarda as ofensas
Como um tesouro? Como você gosta de dizer
Elas te permitem fazer um gancho
Com o mundo & se quando você
Abre a boca se nota que a saliva
Foi substituída pela lama que restou
Da devastação do cerrado, querida,
Em suas lentas, pegajosas palavras?

Eu sei, não é você
Nem sou eu, a culpa é do tempo,
Fazemos bem em ser esquecidos
Enterrados em pleno deserto, ao invés
De cemitérios.
Nunca foi tão fácil ser confundido
Com anjos, você suspira, parece ter se esquecido
Que você mesma cuspiu lama
Nas asas encardidas de uma coisa parecida.

11/17/2008

O retorno de Maria Bentham

Você não leu Jeremy Bentham? Leu sim. Se você passou por uma escola, hospício,
hospital, quartel ou presídio, acredite: você já leu Bentham. Mais ainda, se você acredita que felicidade tem a ver com a máquina de calcular prazeres e dores que você carrega no bolso e se espera a felicidade à sombra do Legislador, você é Jeremy Bentham. No caso tropical, com uma pitada de sentimentalismo, você migrou para outra identidade, a de Maria Bentham. Apresento aqui a tradução do poeminha mnemotécnico que, segundo Bentham, todo bom governante deveria saber de cor. Pense no sentido amplo de governo, uma pessoa sem governo, um carro desgovernado, ou para seu governo você já leu isso e aquilo.


O poeminha:

“Intense, long, certain, speedy, fruitful, pure –
Such marks in pleasures and pains endure.
Such pleasures seek, if private be thy end;
If it be public, wide let them extend.
Such pains avoid, wichever be thy view
If pains must come, let them extend to few.”




A tradução:

Intenso, duradouro, certeiro, fecundo
Que venha logo o prazer, e puro.
A dor, assim, exconjuro!
Pra seu governo a punheta
Não deve passar de dez minutos
Se não, na certa é sarjeta.
No tempo ótimo, a punheta
Combate o câncer de próstata
E limpa do cabelo a seborréia.
Punheta não causa gonorréia
E acalma os nervos do apóstata

Punheta cura a fúria do capeta.

(Incuráveis, ao bêbado
E aos fornicadores
Que misturam os prazeres com as dores
De nada vale o bom panótico).

11/16/2008

Novo Pequeno Dicionário das Aproximações

Óculos (s.m.)
Artefato destinado a corrigir a visão. É, portanto, uma poderosa metáfora sobre a apreensão do real. Se você faz uso de lentes para perto e necessita olhar para longe, vê um horizonte distorcido, nebuloso. Se está portando lentes para longe e deseja ler, as letras resultam incompreensíveis (para aqueles que já apresentam este importante sinal de decrepitude chamado presbiopia). Se, para evitar esta situação dialética, você opta por lentes multifocais, tem que abdicar de olhar para os lados: qualquer coisa fora de um estreito corredor ao centro das lentes se lhe afigurará como um estranho baile de espectros, e aí tem que conformar a realidade a esta visada estreita, eliminando uma enorme parcela de informações que, muitas vezes, fazem a diferença. Depois de considerar cuidadosamente estas três opções, você percebe que está sempre enganado. Deve ser por isso que muitas pessoas terminam por sucumbir a formas variadas de anestesia, do ópio à programação televisiva, passando pelo álcool, pelo consumismo, pelo sexo ou pela literatura - como Flaubert, quando dizia que o único meio de suportar a existência é aturdir-se na literatura como numa orgia perpétua. Alguns tentam polarizar os efeitos de determinados anestésicos, associando-os dois a dois, ou mais. Todo o referido acima vale também para as lentes de contato, com o desconforto adicional de ter que enfiar o dedo no olho.

11/11/2008

O curso-fantasma

Um fantasma ensinando conceitos
Vazios a outros fantasmas,
Na boca do estômago de um grande fantasma, ou seja

O grande fantasma habitado
Por fantasmas contabilistas, fantasmas coletores de palavras
Mortas na respiração de um deus quase morto,
O grande animal envenenado
Com carne e vidro moído, ou seja

Vidro moído, a matéria-prima transparente
Na fabricação dos fantasmas, a multidão
Delirante dos fantasmas, a hemorragia divina,
As pessoas de vidro,
Os conceitos vazios, as palavras
Mortas na ponta da língua do fantasma
Orador e suas palavras de vidro moído, ou seja

Tudo isso
Colado no suor das pequenas metrópoles delirantes
Fantasmas, pesadelos de fantasmas herdeiros
De um fantasma que enterra fantasmas.

11/05/2008

nº 92




Fatos, só eles
são sagrados – “por isto aspiro
ao profano
”, ele disse, negociando
outra vez no intervalo
entre o espírito e a carne, nas margens
do corpo, ali
onde o desejo pulsa desesperado por fazer
sentido , lugar
abandonado tanto
tempo atrás, num dia
que envelheceu junto ao seu registro, história,
lembrança, memória de dor
degenerando células em alguma parte
do seu corpo, enlouquecendo
outra vez algumas doses acima, bem acima
do real.

A memória tem seu preço

A memória não mora
Na cabeça, é na boca
Do estômago
Que se come a memória.

Pergunte ao gato
Que persegue um besouro
A lógica da alegria –
Ele sabe o motivo.
Mas logo esquece o que sabe
E esquece que esquece
E vive fora do tempo
Das suas perguntas e não entende
Porque você lambe o osso
Das lembranças, como uma besta
Faminta.

É no vômito
Criado pela bílis dos mercenários
Injetado como soro intravenoso
Em seu fígado
Que se respira a memória, e tem mais

Você nunca vai se esquecer disso:

Por um precinho camarada os mercenários jogarão o gato morto num aterro qualquer de Cuberlândia, em troca você leva um buraco pesado como chumbo entubado em seu esôfago

como recordação.

11/03/2008

Um cão agoniza na rua, em frente à janela da sala coletiva da unversidade onde uso o computador. Até me esqueço da tagarelice em pequenos chiados que me cercam aqui, em meio a esta estética decadente de computadores velhos como vestígios arqueológicos precoces, usados por muitas mãos. Porque o cão tem os olhos amarelos, a língua esbranquiçada e a respiração funda de quem morre lentamente. Dolorosamente. Sua pele lacerada deve estar cheia de carrapatos, eles têm o dorso tatuado com listras negras que formam pequenos roteiros geográficos, pontilhados de flores amarelas. A pele do cão está grudada no asfalto. Sei que nas poucas vezes em que ele tentou se movimentar, o asfalto arrancou um bom pedaço de couro, e mais uma ferida se abriu na pele do cão. Eu sinto a dor deste cão porque seus nervos se misturaram aos nervos do asfalto e o asfalto está ligado a mim por meio dos raios de calor constantemente jogados na minha cabeça. Eu sinto a dor deste cão e por alguns momentos sinto que sou este cão. Da mesma forma que o asfalto, o sol também brinca de arrancar a dor da minha pele. Também vivo lentamente, ou morro lentamente o que dá no mesmo.

11/01/2008

nº 91


Lugar nenhum. “Se as palavras tocassem
o real (servido sempre
em postas
”, ele disse, “às vezes
quente como os hormônios turbilhonando
pelas veias) só me achariam
nas entrelinhas, fora
de tudo, ou
nem aí, deslocado
qualquer sentido que se deposita
sobre as coisas
”. Foi quando,
abraçado aos fatos, você formulava
outra religião com os estilhaços que lhe vinham
olhos adentro, cravados um a um
na carne da alma, carne
de um nome, palavra, se isso for
a alma – desprezando
as distorções da imaginação até devastar
todas as cenas, até
não sobrar outra escolha a não ser o deserto
para erigir o templo, num
prolongado silêncio entre
as miragens.
(das "Notas Marginais")

10/30/2008

lugar



AQUI,
margem de tudo
trono apodrecido de juncos
absurdo de águas

não posso escrever limpidamente
pois meu pensamento
é uma mistura
de mar, ressaca e lodo

meio deitado
ou de joelhos
na areia, presumo
azuis roxos e lábios

ave em esgar,
um ramalhete de peixes.

sem emprego
sem nome
sem espada

nem guerreiros para comandar
sem escudo
sem estupro

nenhum olho de rei
para comer.



Ilha, 29 Out. 2008.

10/27/2008

Coisa à toa

Mastigando perdas
Como se fossem pedras
Dentadas, lâminas polidas
Em cristalina
Água de esgoto, ou

Entre peixe e refração,
Anzol banzo
Quando estou onde estive
E não sou, &, enfim

Aquário de canibais
Ornamentais
É a cidade submersa
Em pensamentos alheios,
Cheia de si, e daí
Saio de mim.

Caio na real. E daí.

A cidade está fora de si.

10/25/2008

nº 89


Recriar o mundo à sua imagem, delírio,
câmara escura, tempestades
de sinapses, a 140 pelo asfalto ou
entre os espelhos do paraíso, o chão
do seu pensamento batido
como uma lua (superfícies
geladas) por detritos
em dispersão, no vazio
das coisas, quando não há
saída ou passaporte neste exílio
de desertos, via expressa sem
acostamento.

(das "Notas Marginais")

10/24/2008

O criador de galinhas (mais sobre cidades)

Este aqui já tem uns anos. É sobre a cidade de Franca
+ leitura das cartas do Maquiavel.



1.
O dia esmigalha a noite
a noite retalha o dia
num vapor perfuro-cortante
insones olhos de areia,
lunaquáticos sob a névoa,
saindo pra dentro do lado de cá,
enquanto o criador de galinhas
parece vergar sob o peso da mala
como se mãos saídas de alguma caverna
algum poço de escuridão e palavras
e notas de rodapé e citações entretecidas
puxassem a mala ao chão,
como se a sombra, o pó e o nada
que preenchiam a mala
quisessem morrer, numa espiral
sangrar por ali mesmo
sobre o asfalto ou o chão com cheiro de flores químicas:

“papel sobre papel pesa mais do que pedra
mais do que chumbo
e não é por causa das palavras, que são etéreas,
mesmo as mais piegas,
é a matéria-prima vegetal,
sua capacidade de se espalhar no espaço,
de tomar tudo de assalto;
não é o saber que torna grave
o coração do pensador
é a brutal gravidade das coisas:
não são sem sentido os pesadelos de velhos bibliotecários
morrendo soterrados em livros
que despencaram das estantes”

matuta aquele que bem gostaria
de ser um mero criador de galinhas
enquanto conversa com o porteiro do hotel,
conversas simples e bucólicas
sobre um filho viciado, outro advogado,
a família de médicos e dentistas:

“Que a morte caia sobre todas as múmias egípcias!
E a professora maldita que me fez decorar
a lista dos malditos presidentes desta Merdepública!”
Como é bom falar com o povo simples,
saído das neo-pastorais policialescas puritano-paulistas,
embora este,
diz pra si mesmo o criador de galinhas,
não passe do figurante de cocheiro no Banquete dos Canalhocratas.


2.
Uma mula
Mais a mala
Uma roupa de veludo
E uma faca catalã
Um sobretudo
Mas sobretudo um porém,
esta cidade detona o meu desejo:
em cada esquina um príncipe maquiavélico
de cabelo nem preto nem branco, mas cinza turvo,
com pulgas passeando sobre a calvície evidente,
e no meio da testa uma cicatriz vermelha,
(marca visível dos proscritos enforcados nos postes públicos)
os olhos úmidos, de tamanhos diferentes,
o nariz protuberante, cheio de muco,
a boca torta como a de um tirano qualquer,
Um Lorenzo de Garrastazu Medici Vargas da Silva Bush,
de queixo pontudo e curvo,
acusando-me da conspiração
de que sou vítima
entregando-me a brutal carcereiro
intitulado macunaíma.

- Bom mesmo era criar galinhas...

Suspiro com saudade ao porteiro do hotel.
Mas de noite, fechado em meu quarto sujo,
quando abro minha mala
ela ganha a leveza de pássaros brancos
folhas de papel ao vento
munidas de telescópios pra imaginação,
cheias de vozes de antigos incendiários mortos,
pássaros conspiradores, sabotadores, bêbados,
exilados,
malditos como um príncipe esquecido num pedaço de papel.

10/22/2008

nº 88





Toda cidade tem os abismos que você necessita, olhos
errantes, bocas, labirintos, mapas de engano, cada vez
mais fundo, abandonadas
pra sempre todas as ilusões de quem vê
metafísica na pedra – paredes
não são coisa do espírito, cara, são
carne sem hormônios, mero cenário, fundo
disperso, e no palco a cena é do sangue que pulsa e invade
os tecidos, sem direção, aleatório como os cardumes,
como as moscas.

10/19/2008

2 anos


Pessoal, salvo engano fazemos dois anos de blog este mês. Masé reaparecendo com um poema dos bons, Anderson e Eliana meio longe (tudo bem com vcs?), Löis desaparecido. Daniel e eu teimosos como nunca.

No entanto acho que vou comemorar, dois anos são dois anos. E estamos indo para a marca de 15000 acessos, a maioria dos quais de nós mesmos, fora os nossos 2,5 inusitados leitores espalhados pela blogosfera - eram 3,5, mas um parece que, caindo em si, desistiu....Estes sim -os 2,5- merecem um troféu.....
Proponho que eles se cadastrem (se é que se revelarem leitores desta espelunca não vai lhe queimar irremediavelmente o próprio filme...), para que enviemos mensalmente para seus endereços uma mariola especial, daquelas de tacho, sem açúcar grudadinho por cima. Pensei também num picolé "Dragão Chinês", mas chegaria derretido...


abraços/beijos a todos os epistolares e leitores.


nº 21




Confessar, agora você pode confessar
que nada estava claro.
Discreto, mascarado, deu rasantes sobre o pântano
de sinais até beber a água escura,
lodosa, e ainda traz lama
em sua asa.

Pode ser que seja ela a cura.

(das "Notas Marginais")

10/18/2008

Relatório de mais um colóquio (ou, Porque trabalhar como caixa bancário deve ser mais gratificante)

“Começando pelos verbos: atravessar, repensar, instigar, inserido e focar.”

“é legal que o Vesúvio tenha inserido suas lavas em Pompéia, porque agora temos um sítio arqueológico intacto e instigante”

“a lava preservou o salão das pinturas eróticas”

“mas focou a pica do prefeito de Pompéia, pão e circo de auditório cultural”

“e se o Vesúvio tivesse estourado sobre Uberlândia, repensaríamos os vestígios que restariam, por exemplo a lista telefônica (o instigante mapeamento da cidade)
AÇOUGUES/ACRÍLICO AÇÚCAR/ADVOGADOS
ADVOGADOS/ALARMES AR/AREIA BISCOITOS/BLOQUEADORES BOMBAS/BOUTIQUES CABELEIREIROS/CAÇA
CAMINHÕES/CAMISETAS CHURRASQUEIRAS/CIRURGIÕES COFRES/COLCHÕES CONTROLE/CÓPIAS CÓPIAS/CORTINAS DEDETIZAÇÃO/DEMOLIÇÕES DESENTUMPIMENTO/DIGITAÇÃO ENTULHO/ENXOVAIS ESCOLAS/ESPUMAS
EVENTOS/FACULDADES FACULDADES/FANTASIAS
FERRO/FESTAS FLORICULTURAS/FOGÕES
FRANGOS/FUNERAIS GUINDASTES/HOSPITAIS

LIMPEZA/LINGERIE MÉDICOS/METAIS
MOTOCICLETAS/MOTOSSERAS NOIVAS/ÓCULOS

PAPELARIAS/PÁRA-CHOQUES PROTÉTICOS/PSICÓLOGOS
SELF/SEX TANQUES/TATUAGENS TERAPIA/TERRAPLANAGEM TURISMO/ULTRASSONOGRAFIA

VIGILÂNCIA/ZÍPERES”

“os cus carbonizados de Pompéia. Mas, como um buraco pode ser carbonizado? Tem aí um problema de método.”

“O cu é uma mistura de carne e veias extremamente sensível, você só focou no buraco. É isso o que aconteceria se o Vesúvio explodisse em Cuberlândia”

“O sonho do hospital próprio”

“Boca inserida na cloaca do caixa eletrônico: finalizando, finalizando, finalizando.”

“E nunca perder o gancho de vista”

10/12/2008

A viagem de Jean-Marie

Rio. Ipanema. Começo de agosto.
Ele chega
de avião.
O esforço da máquina
as rodas raspam o chão
a borracha adere ao asfalto.
Depois o carro atravessa
a cidade engarrafa as minúsculas
os casebres. O túnel
os grandes edifícios em torno
freiam o ar o som dilata
ao longe as montanhas iluminadas invadem
estraçalham a placidez
da lagoa.
Ele carrega o centro em si uma luz branca atravessa seus poros.
Ele ainda não chegou. Carrega sua
lógica intacta. A mala
cada peça de roupa usada guardará por um tempo o suor.
O trabalho com as mãos. O corpo. Perturbado.
E quando ele voltar
os olhos para trás
suas mãos trêmulas
resto de areia sob as unhas.
Quando ele voltar
então não haverá mais nada
entre ele e nós.


Quando ele voltar
a cabeça ainda para trás
O corpo que atravessou as ruas
passou as pernas pela água
salgada.


Quando ele voltar
retomará sua vida regular
seu croissant molhado no café
com leite.
Sua vida regular estará ainda
mais regularizada
a cabeça já estará virada
a origem.
Quando ele voltar
a cabeça ainda um pouco para trás
a enorme foto no metrô
a água azul
a areia branca longe
pelas mãos.

10/10/2008

pulp poetry

1.
Entre os meus planos mais secretos está o de me tornar assassino serial. Sei que isso não encontra eco nas teses de Freud, segundo as quais todo homem deseja (e precisa, metaforicamente) matar o pai – o meu resolveu aliviar este trabalho para mim: se suicidou, lenta e dolorosamente, como se estivesse coadjuvando um filme B. Anos depois descobri que todos estão, mesmo eu e você.

2.
Numa de minhas vidas paralelas escrevo e publico revistas populares com informações rápidas, banais e desnecessárias. Como quase toda literatura.

3.
No capítulo “Ditados Cretinos” escrevi à mão: “os olhos são as janelas da alma” e “os olhos são o espelho do mundo”. Para o primeiro caso soterrar cuidadosamente cada órbita. Para o segundo, furar os olhos, vazar os olhos, esfacelar os olhos. Como uma recusa.

4.
Furtivamente penetrar esferas privadas – se necessário lamber as partes mais sujas, como quem reconhece algo, pois é aí que se concentra qualquer história.

5.
Já fui também elefante, pantera, ornitorrinco. Agora me dedico às artes da sombra e emulo bichos peçonhentos.

6.
Ela escreve por aforismos, como se fundasse civilizações na bruma. Persigo encantado, sem chance de aproximação.

7.
Foi quando adotei o “Método das Realidades Paralelas”. Não posso dizer que o desenvolvi, não seria exato nem honesto, embora o tenha construído a partir de indícios que recolhi e sem qualquer auxílio exterior – mas esta revelação não possui qualquer relevância, uma vez que aquilo que apreendemos do real é quase sempre distorcido mesmo se nos movermos dentro dele como num plano único. Cada um de nós é um feixe de esforços que atravessa a sua superfície verticalmente, num sítio aleatório, e daí não se pode observar com precisão muito mais do que o entorno circundante e aparente. Como se não bastasse, o real se move: daí que o explodi em planos paralelos que se podem atravessar sucessivamente, não sem esforço. Apesar de fragmentar nossa já limitada percepção a um ponto praticamente insuportável, amplia fantásticamente a visão.

8.
Num plano sou um homem comum, refém do destino. Em outro penso sobre mais esta limitação. Num sou quem domina, noutro sou domado. Ora sou o que se esquiva. Num dos últimos sou “O Cisne”, mas este plano é nublado de modo intermitente pela metafísica.

9. Ainda na série Ditados Cretinos: “As portas da percepção etc...”.

10.
Não há regras aqui, e isso já foi dito.

10/09/2008

nº 9

Isso não vai durar-
foi uma (cena) roubada, eu sei.
Você não vai chegar a nada, nada”, disse um anjo que caiu
e não se recobrou do estrago.
Retirando (o passado) do gancho: “isto não vai doer” diz
outro anjo entre sorrisos,
e o silêncio agora vicia (e incomoda) tanto
quanto aquele frio
na espinha do amor que nunca se rende.

O ocaso, esse não: ele apenas emerge das cinzas, um navio
aponta no horizonte ('menos se espera'), um espocar de auroras
entre um gozo e outro tatuado no reboco.

O amor gravura um claro-escuro nos intervalos rasos do que não vai ser dito.

(das "Notas Marginais")

10/06/2008

Pobre lobo

Vou por em link, pra não ocupar muito espaço no blog. Não que seja longa, pelo contrário, é uma fábula curta, mas mesmo assim achei melhor.

O autor é Mikhail Saltykov-Schredrin. Cheguei a ele porque num dos raros textos lúcidos sobre o Graciliano Ramos, o Otto Maria Carpeaux disse que o Graciliano escrevia como um fabulista russo do século XIX.

Já pensei que a fábula poderia ter a ver com o estresse do senhor mercado. Mas é claro que vai muito além disso, é sobre a condição humana. Então também é sobre o estresse do senhor mercado.

Lê aí, Aldemar, leiam queridos sumidos epistolares: Pobre lobo.

(Traduzi do inglês, não do russo. Ou seja: é a tradução amadora da tradução da tradução. Ainda assim acho que vale a pena).

10/02/2008

N. 87




A cidade é de carne
Seu sangue é lodo, tubulações
Subterrâneas onde circula
O rio canalizado
(Assassinado), o rio onde nada
Meu avô, que morreu delirando
Com pescarias.

A cidade é a terra
Das minhas pernas
Crivadas de raízes e pequenas plantas
Que arranco, pacientemente.

Se tento fugir
Da cidade é em mim
Que encontro refúgio, e se completo
Minha saída do labirinto
De carne e lodo e musgo que sou
Eu me encontro novamente
Na cidade.
Sou um emaranhado
Infértil
De lodo urbano, mas
Que minha carne seja salva
Junto com a carne da cidade
Que me habita, que eu seja
Condenado como um verme
Roendo sua carniça, qualquer coisa
Menos a ilusão de um nome próprio.
E só
Mais um detalhe:
Traços negros, linhas negras amarrando
Um pedaço de carne, da carne
Da minha carne não é uma imagem
É um pesadelo, dolorosamente
Real.