8/20/2009

eu queria te dizer



eu queria te dizer
_______________


eu queria te dizer
assim
simples assim
como um poema do Bukovski
para que tu
não te fosses

e tu me verias
esticado
a boca aberta
num grito em pleno
mundo
o desespero só
como numa pintura
de Hieronymus Bosch

eu queria te dizer
mas eu
não sei dizer
mas mesmo
assim
eu queria

ou te demonstrar
em romaria
meu olhar meu olhar
o verde
platina
caído pelas bordas

eu queria te dizer
de alguma forma
como as bolhas
de sabão
e as de champanhe
são gêmeas
como o meu amor
teu nariz
e nossa temperatura
embaixo
nas noites de inverno

mas lembrei
que a única maneira
é te escrever
esse poema
para que nunca
te vás
mas eu vejo
a porta bater

teus cabelos
chanel alguma coisa
voarem
e então eu me sinto
mais só
do que eu já era

já era

e tu nem vais
ler esse poema.



8/18/2009

Rumor Piripkura

Jesus disse: Mostrai-me a pedra que os construtores
rejeitaram, ela é a pedra angular.



O vento é como se fosse invisível
E a árvore balança e dizer
Que o vento move o mamoeiro é singelo
Mas antinatural como se Brasília neste momento
Sob sua luz quase fria e quase branca
Não ouvisse o rumor de dois homens
Sozinhos em mata fechada, fugindo ao norte
Da fome, da morte, carregando um facho
Invisível antes os clarões abertos pelo, como se fosse, progresso.

E no entanto eles serão os últimos
E sua morte será como se a implosão
Distante de uma galáxia num silêncio
Mais profundo, repleto de rumores
Se calassem, levando consigo
Outras tantas centenas de vozes, como se imersas
Nas raras conversas entre os dois
Na solidão ameaçada
Pelas armas da civilização como se uma britadeira
Abrisse caminho e forçasse o tempo a andar mais rápido
No ritmo das rodas dentadas e das faíscas, das sirenes
Que encobrem o mínimo rumor produzido por dois homens
Que matarão com sua morte todas as gerações
Que lenta e pacientemente prepararam a arte
De não deixar o fogo morrer na floresta úmida e escura.

E será como se elas, todas as vozes
Misturadas como se a fala universal de uma criança
Fosse o idioma destes dois homens que carregam fachos
Na floresta escura, nunca
Tivessem existido, ao menos em Brasília
Mais preocupada com a proximidade
Miserável em seus bairros nobres
Das escolas públicas e a qualidade da grama
Que na seca se comporta como se fosse palha morta.

8/13/2009

Depois da Antropofagia, a Coprofagia

Manifesto coprofágico, por Rroche Selavy

1. Rroche Selavy.


2. Como vimos na explicação, existem aqueles que comem cocô por puro tédio, ou para manter o local limpo e sem vestígios, para evitar broncas e punições. Alguns nem chegam a comer todo o cocô, brincam com eles e carregam pedacinhos na boca, que saem sob a forma de gases em canções axé-music, outros ainda usam o cocô na caneta-tinteiro e escrevem seus romances e crônicas com essa matéria-prima, e por fim temos aqueles que cospem a merda no ventilador. Tamufu é composto de ingredientes naturais que deixam as fezes com um sabor e odor nada atraentes. Ele é mais eficaz do que soluções caseiras como, por exemplo, colocar pimenta em cima das fezes, pois como ele é ingerido e processado você não vai precisar ficar vigiando cada ida ao banheiro para colocar a pimenta.


3. Wikipedia: Coprofagia (assim como a coprofilia, também conhecido como scat), copro em latim significa "fezes" e fagia "ingestão" sendo assim: prática de ingestão de fezes. Isto ocorre naturalmente em algumas espécies de animais, como cães, gatos, insetos e aves. Relata-se também tal prática em seres humanos, porém sob a categorização de patologia de ordem psíquica, ou desvio sexual (variação da coprofilia). Existe farto material de ordem hedonista a respeito do tema, principalmente proveniente do oriente. Ex. “José Serra falou merda sobre a gripe suína” em práticas de dominação sexual entre duas ou mais pessoas a pessoa dominante por vezes pode defecar sobre seu escravo, não só no corpo mas como também no rosto ou até dentro de sua boca obrigando-a até a ingerir suas fezes (da pessoa dominante), isto também é denominado "scatsex"[carece de fontes?]. Acredita-se que a coprofagia em cães ocorre por falta de alguma enzima no organismo[carece de fontes?]. Um caso de coprofagia que ganhou o interesse da imprensa especializada foi o escândalo da polonesa Cynthia Witthoft

4. Tamufu só funciona nas primeiras 24 horas em casos graves casos graves só depois de 48 horas cada dose de Tamufu corresponde a duas doses de Blue Label no Cruzeiro Hipocrático. Contra-indicações: diarréia em alto mar.

8/06/2009

Amerika. The Powerfull Alpha Male

Rockstars, atores de cinema cientologia, donos de boate, podres de ricos, editores de sítios literários, dramaturgos e padres sex symbol não se explicam porque estão pouco se fudendo, não se esqueça de ser um deles, ao menos como eles, brevidade igual autoridade, o Alpha Male é curto e grosso, think Clint Eastwood, ele é sua própria realidade, todos à sua volta dirigem seus sinais corporais diretinho no seus olhos, o Alpha Male não olha pra nada ou ninguém, mulheres têm uma visão periférica extremamente sensível, vista-se como o sucesso, pronuncia-se suck-cess, transpire felicidade, ha-penis, aja como se todos estivessem below me, blow me, note como as garotas, especialmente garçonetes, riem loucamente de tudo o que Alpha Male diz, você não tem a menor graça, gargalhada é submissão do inconsciente coletivo, o Alph Male usurpa tudo o que pode rolar de Alpha onde ele está, não telefone antes de 24 horas, nem depois de 36 horas, garotas têm memória curta, depois de 36 horas se lembram de você, 58 horas apenas do seu nome, 72 horas começam a pensar que você é um Beta Male, não a convida durante o primeiro encontro, nem pronuncie a palavra encontro, não atende telefone às sextas ou finais de semana, a vida do Alpha Male seria interessante demais pra isso, ela pode pensar que você é um loser disfarçado de Alpha Male, não inicia uma conversa sem um plano bem elaborado, seja diante da reação positiva, neutra ou negativa do seu alvo, sua casa do Alpha Male deve ser limpa, nada de cabelo de female lovers no chuveiro, e principalmente cuidado com a secretária eletrônica ou ímãs com telefones de pizzaria na geladeira, o importante é qualquer assunto levar a uma deep emotional conexão, o Alpha Male descreve a construção de um parque de diversões como se fosse um ato sexual, fale de mitologia ou a hipnotize com uma flor azul que desce so deep in her ela vai sentir entre as coxas, o business card do Alpha Male é azul, não seja um bêbado, o Alpha Male conhece o melhor pôr-do-sol da cidade e no caminho acha que bêbados são desagradáveis, mas uma pequena taça de champagne e um deep kiss, não babe não diga de cara quero comer você a não ser via trocadilhos, você gostou da picanha, baby?, você está me gozando, olhos nos olhos, a transação está completa, um Alpha Male diria que garota se você jogar as cartas certas então pode ser que eu te leve pra cama, se Deus existe tudo é permitido pro Alpha Male, try a little tenderness, elas receberão como um esmola extremamente valiosa, turn off the light, facilite as coisas antes de abrir fogo na fitness.

8/02/2009

Dois pares, um

Vi os seus sapatos junto aos meus, como
se convergindo, lado a lado ao
pé da cama - não sei ainda por qual
vereda, entre tantos caminhos, todos
sem sentido, estas solas nos levam
à deriva, mas unidos, enquanto
os anos, aos saltos, àquele tanto
ou tão pouco que nos coube devoram
vorazes. Alguma força os retém,
nenhum desejo de ir. Então ouço,
pela porta, a água lavar seu corpo
e me deito, querendo um tempo sem
tempo, e agora, como sempre, em mim
tudo vibra esperando você vir.

7/31/2009

O dia em que a Hiena do Cati assombrou a Rua do Ouvidor. (A Federação, Porto Alegre, 19/09/1905)

Quem diria a hiena do Cati ao chegar ao Rio causou o frisson de um sanguinário degolador, sedentos instintos brutais resguardados em moderna fortaleza medieval, na aridez gelada da fronteira sul, na paisagem do rio de mijo, das árvores cujos galhos são ossos humanos, das pétalas de flores que são dentes de hienas, onde os suicidas recorrem ao método feroz da autodegola

(reza a lenda a hiena arranca dentes, capa, degola e estupra inimigos, depois manda os soldados montarem acampamento sobre os cadáveres pra se acostumarem, estoicamente, ao cheiro da morte)

Quem diria a hiena do Cati, neste momento aqui entre nós não destoa do delicioso Chateu D’Yquem, do soberbo Mouton Rotschild e do lubrificante Bourgogne, aqui, entre estas taças o monstro lendário fica ridículo diante do homem

Quem diria a hiena do Cati veio ao Rio e se fez amigo do soberbo, delicioso e lubrificante Coelho Netto, quem vê a hiena nestes espelhos que se desdobram se misturam se multiplicam soberba e deliciosamente a lubrificante figura da hiena sorri feliz, brindemos aliviados, então o “monstro” é este homem!

Ele, o criador do mais moderno valhacouto de degoladores fala, com propriedade, de Zenão e Marco Aurélio? Ele, que já dormiu sobre corpos em decomposição, reconhece os mais finos perfumes? Um feroz criminoso lombrosiano, da mais baixa espécie? Um patriota? Um empresário e escritor?

Hoje, entre estes espelhos, uma lenda morreu, para o bem da humanidade.

7/27/2009

Trajeto




Entrar (, violento, abrupto como cápsula
de metal, nave que incandesce enquanto
cai no ar denso, metáfora brilhando
rubra na escuridão do céu, diáspora
em que não se sai, antes se mergulha
no nada até rebentar no chão qual
semente e, assim, germinar) no real,
cair (, precipitar-se numa fuga
pelo abismo, voluntário mau passo
no vazio, deixando o chão que o arranha-
céu alçou, artificial e estranha-
mente, ao antes impossível espaço
dos pássaros, verter-se até o fim
como quem não vai se encontrar) em si.

Beleza

A beleza
Agride como a paz, como um dia
De luz cortante como lâmina fria
Após uma noite de sono profundo,
Como alguém conversa
E te escuta, profundamente, ali está
A beleza, confunde como quem te conhece
E não te leva a sério, docemente.

Ali está você, olhando pra dentro e pra fora
Sem saber como dizer
Porque a beleza, sem pedir licença,
Decidiu capturar os seus olhos.

A beleza tira o fôlego
Do travesseiro quando você
Chega em casa, e te divide entre
A rua, neste momento vazia, e a solidão.

A beleza te deixa desabrigado
E você bem gostaria que a sua casa
Fosse um hotel, qualquer coisa
A beleza te convida
A deixar-se ir, a fantasiar-se, a sumir
A ser esquecido, a ter o nome apagado
Dos documentos.

A beleza
Cabelos molhados como flores
De um amarelo translúcido
Não colhidas e jamais encarceradas
Em cones plásticos, nunca vendidas
Nem expostas em vitrines frias.

A beleza não anestesia
Nem convoca um batalhão de idéias,
Não é uma confirmação
Do socialmente aceito como beleza,

Flora, as pessoas renegam a beleza
Que eu preferia não ter conhecido
E mudam de assunto.

A beleza fere.

Publicitários não entendem
De beleza, belas palavras não são
Beleza, paisagem não é beleza
Beleza não é um jargão.
Beleza não se veste de vermelho,
Não procura cores gritantes
Nem precisa de cumplicidade ou confirmação,
Ou suspiros que são como legendas
Derrotadas de um filme

Mudo. A beleza não
Fala.

A beleza escolhe o azul
Dança de azul, a beleza não faz questão
De ser bela, a beleza não fala, apenas dança e some
Quando sua festa acaba.

7/22/2009

"Well, my mother told my father,
just before I was born,
I got a boy child's comin,
He's gonna be, he's gonna be a rollin stone"

Muddy Waters

"Você há de rolar como as pedras que rolam
na estrada."

Lupicínio Rodrigues


Ao contrário do que parece,
Meu irmão é leve.
O que puxa uma sensação de peso para o centro
É a extensão de sua voz.
O que puxa uma sensação de peso para o centro
É a dinâmica dos gestos, de aceno a soco.
O que puxa uma sensação de peso para o centro

São os dentes, quando ele ri ou ameaça,
Como se eles tivessem sido polidos no rio
De pedras.
O que puxa uma sensação de peso para o centro
São os endereços trocados por engano.
O estado de alerta, as garrafas de cerveja
Jogadas no palco porque a banda não presta.

Mas no centro nada.
No fundo eu e meu irmão somos dois vácuos
Que produzem o próprio peso.

Como não podemos ser exatos – a leveza desgoverna –
Acreditamos em fantasmas ou anjos ou lobisomens
E esperamos o Milagre, vagando por aí.

Nós mesmos somos, por dentro, fantasmas sem contorno,
Escondidos sob o pano branco onde se desenham rostos que são máscaras
De raiva e alegria e tatuagens,
Anjos que apenas são asas se desfazendo sob o sol,
Naquele instante antes da queda.

Ao contrário de nossa leveza,
Acreditamos que nascemos como pedras que caem.

7/18/2009

o que é a poesia?

Depois que os pais morreram
voltou à sua cidade
para vender a casa antiga
onde passou parte da infância

cambiou a quantia obtida na venda
por euros
e transferiu o montante para sua conta
em Bruxelas

onde vivia num pequeno estúdio
alugado, 3 peças dando para os fundos
o que tornava muito silencioso
estar ali, exceto
nos dias de chuva quando as gotas
tamborilavam nas folhas
de zinco sobre a varanda

no ano passado foi encontrado
morto, um assassinato sem pistas que
deixou a polícia aturdida

mas a chuva
nas tardes em que chove
ainda reverbera no telhado
de zinco a sua música
apenas abafada pelos
relâmpagos, quando isso
acontece.

7/14/2009

Por dentro, por fora







Vivendo como um pária, neste exílio
de uma pátria que não existe, a não
ser na mais absurda alucinação,
nenhum dia traduz o seu sentido.
Mas isso é por dentro: além do corpo,
mundo afora, as coisas seguem normais
em seu destino, superficiais
até o limite e assim é o mundo todo.
Só que isto é por fora: sob estas coisas,
sob a pele das coisas arde um tal
incêndio, uma inconstância, um vago mal
estar sem ponto fixo, entre as doidas
vertigens da espiral que é pensar,
via inútil entre tudo o que há.

7/04/2009

Nenhum mar (trecho)




Give it away

Red Hot Chili Pepers

Language is a virus...

W.S. Burroughs

1.

falando às estantes do sebo, às seis,

a porta de enrolar desce forçada

e arranha meu destino e meus ouvidos.

Lanço o corpo na rua em meio aos gases

e a fumaça do que penso me intoxica:

se até deus é abismo, eu tento em vão

não pensar em mais nada, e meus amigos,

as mãos nos bolsos, muitos sem emprego,


seguem sem esperança ou direção

(alguns nas dobras da burocracia).

Os tempos que virão nada de meu

terão, porque já dormem loteados

por mercados futuros e outros lances,

nem me seduz o bonde que me leva

a um futuro já colonizado,

mas sigo em frente mesmo sendo eu mesmo.


De pé no cruzamento da avenida

falando com o relógio digital,

Copacabana ruge e cospe cinza

e ele marca 39 graus.

São quase seis e quinze, os carros passam,

ele parece não me ouvir nem ver,

esfinge de metal e sem enigma.

Pergunto pra ninguém, feito um babaca:


pra onde foram todos os hidrantes

e certas pulsações da minha infância

que se perdeu nas dobras da cidade?

Não vou surfar de volta pro passado

porque é lá que não me reconheço,

de lá não sou quem parte pro futuro

pra me encontrar aqui desencontrado

à espera de zarpar, e nenhum mar.

Flip, Chico, eu, ausência e mais o vazio


- observem:
faz tempo que eu
aqui me encontro
ausente


vejam bem
alguém ausente
ainda é algo
que é lembrado
como o esgoto
a casca de banana
e as formigas
nem sempre as vemos
mas estão cá, lá, acolá
e estão vivas


como disse Chico
no (a) Flip:
- escrever é uma chatice!
prefiro ler
(eu) prefiro ler
e Borges também disse isso.
somos cópias das cópias
das cópias
e Caetano também disse isso.

não estou mais aqui
porque estou
ausente
frio
longe
vivo
perplexo
morto

tão perto do vazio.

6/30/2009

Manchete reveladora da FSP

Sapo não esguicha veneno de propósito, diz cientista.

Na antevéspera de sair

Gato se esconde no lençol –
O medo dos ecos
Que agora moram na sala.

* * *
Os ecos chegaram primeiro
Os ecos serão os últimos
Depois da luz apagada e da porta –

Trancados por fora.

* * *

Sala branca, território
Livre para os barulhos da rua:

Gritaria de ecos na sala vazia.

* * *

Gato se esconde na mala –
Conversa de ecos
Na sala desabitada.

* * *

Onde o gato se meteu? –
Ecos conversam
Sobre o medo na sala branca.

* * *

Gato e ecos trocam
Idéias sobre o vazio:
Luz apagada, sala sem móveis,
Mala enviada como relíquia
No caminhão de mudanças.

* * *

Na chegada eram dois
Gatos e oito ecos, na saída
Um gato a menos e quatro
Ecos a mais.

* * *

Gatos se tornam ecos
Quando morrem na cidade
Vazia, ecos são guardados
Nas malas, como relíquias.

Nas malas vão vestígios das salas, vazias.

6/28/2009

Vista sobre a cidade, sem horizonte

Você morreu um pouco, mas não choro
porque a agonia foi minha
e lenta
ainda desfolha, cínica, imagem
por imagem como um atirador
de facas mirando o espelho
até riscar na superfície
do corpo as palavras
mais duras
do real.
Antes não, do oitavo andar à frente
uma névoa, neblina espessa, bruma
tomando de assalto e sem pressa
o espaço todo enquanto
olhando ao fundo o rio de asfalto
desejava o salto até perder-me
no curso opaco dessa lama negra onde
as coisas permanentemente vão,
pra sempre vão
sem volta, desejos
desencontrados – confessar
que desisti, impossível ir
além da margem onde homens
e mulheres andam à deriva
porque pensam, olhos sobre imagens
nos espelhos, nuas, imagens
em camadas que nunca deixam
ver o que por baixo grita: você morreu
um pouco, me sento
a seu lado e converso
com a outra
parte.

6/23/2009

O blues da patricinha visceral

Tudo é testemunho no universo
Da patricinha visceral, o seu umbigo
É o próprio umbigo
Do real.

No shopping center, quando
A patricinha solta
Veneno sobre a arte de comprar
Sapatos
É como se Tutankamon
Dissertasse sobre as virtudes
Da morte
Nas profundezas de uma pirâmide –

A patricinha visceral
È o melhor remédio
Contra as mentiras de amor
Gritadas nos autofalantes das lojas.

A patricinha observa o shopping no prisma
Da arte de ver com olhos
Críticos, seu cinismo é o antídoto
Às pretensões neohippies
Da mercadoria.

Na verdade eu até curto
A patricinha visceral, ela me ensina
A ter raiva e me odeia mas com uma curiosidade
Ambígua
E seu cuspe cítrico
É melhor que milkshake de ovomaltine &
A frieza do olhar que esvazia
Os balões em forma de bichinhos
E corações sob as lentes
Intensas dos óculos de astronauta
Que brilham como um copo de vodka
Azul, tudo como num velho blues, estilo

Baby, fix one more drink.

6/19/2009

Oito-Olhos ataca de Cretinélio e

"A regulamentação inexistente é omissa quanto aos documentos exigidos para a petição que o senhor apresenta. Documentos, estes, também inexistentes, os quais, portanto, só podem não conter as informações que não sabemos se são necessárias porque, obviamente, a regulamentação não pode ser encontrada. Com tal grau de omissão, o regulamento e a documentação só nos levam a uma conclusão: a de que qualquer conclusão não será válida, por ser, ela também, inexistente. Mas não temos nada contra a sua petição sem fundamento. Só não entendemos o motivo da urgência: por acaso o senhor viu algum coelho entrar em alguma toca e por isso acredita que caiu num mundo em que toda negação é denegada, não redundando numa síntese mas numa nova negação renegada? Ora, precisamos de tempo para encontrar os motivos inexistentes para respondermos negativamente à sua petição que vemos com bons olhos (os olhos imateriais do espírito que não temos, porque somos materialistas, mesmo sabendo que boa parte do que consideramos matéria é, de fato, vácuo). Assim que acharmos os papéis que se encontram guardados em não-arquivos, que conferirmos as desinformações inencontráveis nos documentos que apenas antevimos com nossos olhos incorpóreos voltados ao porvir (o não-aqui e o não-agora) poderemos dar seguimento à nossa impossibilidade de opinar sobre o assunto. Salvo disposições em contrário."

6/16/2009

Cretinélio, primo do Conselheiro Acacio & inimigo mortal do Absurdo

A partir de agora, comentários anônimos e
desaforados vão se tornar uma forma
de colaboração ao blog. Estamos,
eu e os xingadores, compondo
um personagem tipicamente internético:
Cretinélio, o inimigo mortal do Absurdo.
Dessa vez, até pra manter o caminho iniciado,
optei pelo método do Fazer o Texto Falar, que
como todos notaram pode ser usado com discursos de
personagens, codinomes e/ou pessoas de carne e osso.


O bordão do Cretinélio, por enquanto, será:

Quem nunca fez uma cretinice anônima que atire
a primeira pedra.


Eis a primeira fala do nosso personagem:




Não... num entendi? Meu... uma certa?
Um REALMENTE tão grosseiro com
O olho gordo da Vila Bad.

Você é um burro equívoco mesmo.
Você, posar de satírico?

A vergonha na base do gênio
Sou eu,
Ou o caramba anônimo não dá.

6/12/2009

Boletim de Ocorrência






a minha navilouca se perdeu

Acontecimentos da USP, na análise do Prof. Chapadonildo

O método de elaboração e mesmo os marcos do "raciocínio" do Prof. Caralhovaldo já passaram por aqui.


Os professores combatentes ilegais venceram, além de serem derrotados.
Seus comandantes marxistas, êxito em situação inferior.
Soltavam essa conseguindo virar os policiais da Pátria da Guerrilha.
Voluntários vermelhos fortemente em combate respiraram melhor o brilhantismo do progresso.






Logo, quando os perigosos cercaram o ambiente, bravamente, a batalha coube
aos Subversivos Públicos. A ação dos perigosos e derrotados combatentes
foi se refugiar no território da bravura. Agradecemos à a sagacidade dos comunistas que, pouco a pouco, capturaram a educação muito forte dos soldados emocionados.





Parabenizamos, como grupo de representantes da bravura, os patriotas
das Verdadeiras Fileiras Suíças. Homens de tenacidade ímpar na defesa
do menor número, para poderem espargir prosperidade. Quais?
Bons aos inimigos, que apesar de soldados guerrilheiros, já começaram
a obrigar ao armamento à brasileira. Resistiram sitiados em fuga, em plena
baixa econômica. Eram mal armados mas lograram à Força o assalto altivo.
Tomados de Ordem, na extrema galhardia Pública. Líderes em quantidade comunista,
havia os guerrilheiros de São Jogo.







Bom para o meu Pau, tentar à força o mesmo com o núcleo, o feroz
Elemento, a dedicação ao grande triunfo, a luta em grande graça, o pum que defende
a Lei contra os Comunistas e mesmo lá os atos de lealdade a São Ar.

6/07/2009

Psico Tio Sukita

ela reclama os restos de inocência
guardados na bolsa
como lixo reciclável –

sob a luz seca
de uma cidade amputada
por estradas e pela natureza
do cerrado –

e eu me explico
eu, o demônio escondido no bolso
do homo sapiens

como eu poderia ser normal
querida
debaixo deste sol de sanguessugas
se há tempos respiro o bolor
de papéis velhos e meu sangue
é verde-musgo, como a lama
de um poço inventado por Poe.

só me resta a esperança
de não ser inofensivo,
deixa de lado a reciclagem
e vamos fazer
um jogo dadaísta.

5/28/2009

Resenha de A Bolsa e a Vida de Le Goff, segundo a doutrina do Acaso Objetivo


Na parte inferior do cérebro, na região que a ciência denomina de estriado, reside o vício financeiro do jogador que se apaixona pelo risco. O estriado, ao provocar ondas de calor que sobem pelo intestino do seu proprietário, também indica a presença da buceta mais desejada de uma festa, razão pela qual o indivíduo que tem o estriado volumoso geralmente acaba se acasalando com jovens advogadas, não importa quão escrotas. O que este tipo de incauto não sabe é que do estriado sai um canal invisível que, descendo pelo cu, faz uma ligação direta com o mais profundo dos infernos. A jovem advogada com quem ele contraiu matrimônio, por ser ótima defensora das moedas que ele insiste em não devolver vomitando, terá que passar o resto dos dias definhando ao lado de seu túmulo, orando interminavelmente, prostituindo-se para os imensos fantasmas dos banqueiros culturais. O coitado somente então entenderá que aquela incômoda ardência em seu rabo não era fruto de prosaicas hemorróidas, mas sim um presságio de que ele teria que passar a eternidade sentado num chão abrasivo, sob uma sufocante chuva de fogo.
Hoje mesmo eu conheci uma dessas jovens e infelizes senhoras. Ao passar pelo lúgubre cemitério mais conhecido como Procon, uma voz me intimou a entrar num de seus mausoléus (o pertencente à família de mafiosos Nossocaixão). O lugar fedia a miojo misturado com guaraná Mineiro. A moça mais parecia uma velhaca decrépita enquanto me convidava para ser seu companheiro de refeição. “Ela deve estar querendo dividir com os pobres o dinheiro conquistado de modo sórdido por seu marido”, pensei. Porém, saí dali assustado quando a vi tirando o prato de dentro de uma daquelas gavetas onde se guardam defuntos. O prato estava cheio de sapos e serpentes, que pelo fedor deviam ter sido cozidos no enxofre.

5/25/2009

nº 94





Corpo, labirinto
entre você e o mundo, perdição
de todos os sentidos, um
a um estendidos em seu limite, tantos anos
buscando a saída pela imagem
de que dentro, mais
ao centro, arde
o que encerra o labirinto perdido, miragem
que pulsa, corpo, sobre outros
labirintos, pedra, asfalto, areia,
carne, pensamento
sem a chave do mistério, no distúrbio
de não ser, além
de si e aquém,
algo mais que estas paredes
nuas e sangue e nervos
com o vazio
ao centro.

(das "Notas Marginais").

5/21/2009

Noturnos (uma letra de música)


NOTURNOS
(Fred Martins/Aldemar Norek)

se uma noite não tem fim
nem promessa de luar
e se o corpo não sentir
quando o mundo lhe tocar
ou se as coisas sem saber
dormem fora de lugar
e lá
você
ficou
sem sonhar

avenidas e sinais
outro clipe casual
paisagens são vitrais
estilhaços do real
que não colam nunca mais

e lá
por sobre o mar
hoje a noite sem estrela
só espelha os olhos dela
longa noite sem estrela
vela os olhos negros dela

(p.s. segundo o Fred, a música é um maracatu. Não sei não.....Mas é uma melodia muito bonita).

5/15/2009

Google traduzir esquizoide

21 St Century Schizoid Man, King Crimson, traduzido pelo google:


Cat's pé ferro garra
Neuro-cirurgiões gritar por mais
Na paranóia veneno da porta.
Século XXI esquizóide homem.

Block rack arame farpado
Polititians' pira funerária
Inocentes violadas com napalm fogo
Século XXI esquizóide homem.

Morte sementes cego da ganância
Poetas' crianças sangram
Nada ele tem que ele realmente necessita
Século XXI esquizóide homem.

5/12/2009

Conciliábulo

Mas porque eu deixaria como rastro
O amor que você,
Cobra me cobra pra
Amar como quem anda armado
Ou se armadilha em

Deserto, desterro ou arquipélago, se
Em sua ilha de amigos belicosos

Rastejar se oferece no cardápio frio
Entre seus perdões de chumbo
Pelo que você não tem, alma –
Ulcera engrenagem vazia, concílio
Devorador de sangue, vômito
Inodoro que o amor desmente,
Ou repudia.

5/06/2009

Meu rito de passagem

O rito: presentificação ou transposição do mito?
Mito de origem?
Meu rito é a transposição do complexo de Édipo em várias instâncias?
Ou simplesmente uma etapa crucial no processo de autoconhecimento?

Transformação, superação, modificação ou apenas externalização de um “eu’ dormente?
Sou quem sempre fui; sou a junção do “eu’ com o “tu”; sou o “nós”!
Que saia o indivíduo! Mas que o indivíduo se esvazie, e que o “nós” prevaleça!
Nenhum homem é uma ilha – que o “eu” fique cheio do “Nós”

Hoje realmente sou quem sempre fui
Na interação com o “tu” meu “eu” surge, todavia o “nós” prevalece!
Feliz do povo cujo “nós” prevalece sobre o “eu”
Feliz de mim!

Cogito ergo sum
Homo lupus homini
Post Tenebras Lux
E na coroa de Louros – Laura; na interação do “eu” com o “tu”, me torno quem sempre fui.
Enfim, depois de um curto tempo na escuridão, a luz surge das trevas!

Meu ritual de passagem foi o Amor;
Um amor que me sorriu numa tarde nublada de domingo
Um amor que, advindo apenas de uma troca de olhares,
Revelou-me que o deserto havia passado
Linda-Loira-Laura – coroa de louros para o perdedor-vencedor
Perdi certezas; ganhei paz e esperança.

5/03/2009

Para não morrer da verdade


Eu ele você os carros
E a santa aureolada
A noite de tantos se foi
Aos pedaços
Nada sobrou
A não ser a mão - na minha
E o travesseiro de pluma
Azulado