Quando você é vulgar: apenas negocia convenções, não domina os segredos, qualquer um pode dizer que árvore é o nome de uma cidade, que cidade é o nome de uma arma, que arma é um sentimento, que sentimento é o nome de um faraó. A língua epistolar é a conversa vulgar no desentendimento, mesmo que este ocasione encontros repentinos e imprevistos. É quando uma criança autista diz pra você: se o mundo gira, porque você não fica tonto?
1/24/2012
Em meio ao sono mais profundo você desperta assustado e abre os olhos e enxerga vultos respira fundo e adormece novamente, apagando-se às margens da vida. Esse é o seu grande privilégio: meus olhos são os olhos da noite, você diz a si mesmo apegado nesse breve intervalo, as pedras não suportariam o próprio peso se não tivessem nome e a indescritível obscuridade de tudo sem um relance – a potência das coisas de serem vistas se consagra na brevidade dos meus olhos. Gerações e gerações todas assim, vivendo de intervalos, feitas às pressas, me deixaram esse maravilhoso instrumento com que me consolo: a verdade é um piscar de olhos. Sei quem sou e qual é o meu papel num cenário em que minha grande contribuição é respirar. Deus me fez para que eu testemunhasse tudo e ele se apaixona em suas criaturas quando despejo MINHAS palavras sobre elas. Murmuro, balbucio fragmentos: talvez nem mesmo garatujas: quem sabe nossas palavras vaguem por aí como aqueles animais absurdos do fundo do oceano: isto é: se houver uma inteligência nisso tudo. Tudo é completamente distorcido pela compressão do Absoluto num instante, intuímos.
1/21/2012
nº 95
(imagem colhida no blog http://interessantte.blogspot.com, onde não há autoria mencionada)
A síntese de sua vida
é um móbile, décadas
perdidas dançam suspensas
dando voltas sem sentido
e cada uma é um buraco
negro, matéria
concentrada, memória feita
precipício, espelho fosco, oráculo
que não revela,
e dia após dia você raspa
com as unhas o nitrato
de prata sob o vidro
quando se debate, nas horas
livres da catalepsia que nos cabe
a cada dia,
querendo amalgamar com ele a bala
que lhe atravessasse
o peito, enquanto as décadas exibem
transparências que você forjou
sangrando os dedos, no escuro
de mais uma noite absurda
deste século vomitado
pelos outros.
Memória é mesmo o lugar das coisas mortas.
(das 'Notas Marginais')
A síntese de sua vida
é um móbile, décadas
perdidas dançam suspensas
dando voltas sem sentido
e cada uma é um buraco
negro, matéria
concentrada, memória feita
precipício, espelho fosco, oráculo
que não revela,
e dia após dia você raspa
com as unhas o nitrato
de prata sob o vidro
quando se debate, nas horas
livres da catalepsia que nos cabe
a cada dia,
querendo amalgamar com ele a bala
que lhe atravessasse
o peito, enquanto as décadas exibem
transparências que você forjou
sangrando os dedos, no escuro
de mais uma noite absurda
deste século vomitado
pelos outros.
Memória é mesmo o lugar das coisas mortas.
(das 'Notas Marginais')
1/18/2012
Novos espelhos do tempo
22.
Um tiro de 22 no ouvido não é uma boa idéia. A bala bate no rochedo, ricocheteia e estraçalha os tímpanos. De 45 a bala atravessa o crânio e sai do outro lado: desperdício. O revólver encostado na mandíbula, apontado para cima: tem muito osso no caminho do projétil até o cérebro. O ideal é encostar o cano no céu da boca.
Abre a janela, fecha a janela. Verificar se a porta está trancada. Saltar, com pára-quedas, do terceiro andar.
Tempo é energia sem objetivo.
23.
Me julgam porque sou sozinho. Eu mesmo construí meu túmulo, espelhado por fora. Diagramas, vetores, olhares e vozes: reflexos. Janelas que se abrem para o muro. Corações emparedados. Aquário de demônios que atiram facas pelos olhos. Anjos tremem de medo por estar entre os senhores. Meu crânio poderia ser um globo terrestre. Tudo não passa de ilusão projetiva, sobretudo o espaço, as nuvens e o mau tempo. Doei minha alma para um laboratório psiquiátrico.
A não ser pelo fato de que o tempo devora inclusive os invisíveis.
Um tiro de 22 no ouvido não é uma boa idéia. A bala bate no rochedo, ricocheteia e estraçalha os tímpanos. De 45 a bala atravessa o crânio e sai do outro lado: desperdício. O revólver encostado na mandíbula, apontado para cima: tem muito osso no caminho do projétil até o cérebro. O ideal é encostar o cano no céu da boca.
Abre a janela, fecha a janela. Verificar se a porta está trancada. Saltar, com pára-quedas, do terceiro andar.
Tempo é energia sem objetivo.
23.
Me julgam porque sou sozinho. Eu mesmo construí meu túmulo, espelhado por fora. Diagramas, vetores, olhares e vozes: reflexos. Janelas que se abrem para o muro. Corações emparedados. Aquário de demônios que atiram facas pelos olhos. Anjos tremem de medo por estar entre os senhores. Meu crânio poderia ser um globo terrestre. Tudo não passa de ilusão projetiva, sobretudo o espaço, as nuvens e o mau tempo. Doei minha alma para um laboratório psiquiátrico.
A não ser pelo fato de que o tempo devora inclusive os invisíveis.
1/12/2012
Mais espelhos do tempo
19.
Aos poucos, a chuva pára de cair. Nada é súbito. Gotas batem, arrítmicas, contra o vidro da janela. As rodas dos carros deslizam sobre o asfalto espargindo o que ainda resta de água. Espelho de pássaros (que cantam porque têm fome). Tem dias em que o tempo é lento e determinado, implacável:
Não tenho pressa. A sua hora vai chegar.
20.
Logo após escrever o número 19, saio de casa, para dar uma carona para minha irmã mais nova. Quanto mais me aproximo do lugar onde ela está, a chuva piora. Minha irmã está naquela fase da vida quando o sujeito precisa mostrar merecer as migalhas de felicidade jogadas do céu por Oito-Olhos. Uma densidade encobre o horizonte, deixa tudo numa cor de branco apagado, coeso (uma brancura opressora, indecifrável). A realidade deixa de ser visível, é tátil e brutal: as gotas da chuva oblíqua como luvas de pelica com que o tempo dá tapas nas sensações. O tempo às vezes é um espelho nublado mudando constantemente de figura (sem nunca perder a agressividade). O tempo é emocionalmente instável, talvez devido aos excessos cometidos durante sua gestação.
De qualquer modo, não é aconselhável fazer generalizações sobre o tempo.
21.
O deus azul inexistente vomita um arco-íris: muralhas da cidade quando aprender a ser livre. Há pequenas utopias coloridas piscando na janela, reflexos das luzes de natal aos olhos da menina:
Arrancar
Com seriedade
A alegria enterrada
No jardim das flores frias
E das latas de cerveja.
Resgatar
Os livros trancafiados
Em estantes de metal
Que acumulam
Insetos e invernos,
Abrir
Suas páginas contra
O sol: jogo de espelhos
Para um arco-íris sem razão.
Aos poucos, a chuva pára de cair. Nada é súbito. Gotas batem, arrítmicas, contra o vidro da janela. As rodas dos carros deslizam sobre o asfalto espargindo o que ainda resta de água. Espelho de pássaros (que cantam porque têm fome). Tem dias em que o tempo é lento e determinado, implacável:
Não tenho pressa. A sua hora vai chegar.
20.
Logo após escrever o número 19, saio de casa, para dar uma carona para minha irmã mais nova. Quanto mais me aproximo do lugar onde ela está, a chuva piora. Minha irmã está naquela fase da vida quando o sujeito precisa mostrar merecer as migalhas de felicidade jogadas do céu por Oito-Olhos. Uma densidade encobre o horizonte, deixa tudo numa cor de branco apagado, coeso (uma brancura opressora, indecifrável). A realidade deixa de ser visível, é tátil e brutal: as gotas da chuva oblíqua como luvas de pelica com que o tempo dá tapas nas sensações. O tempo às vezes é um espelho nublado mudando constantemente de figura (sem nunca perder a agressividade). O tempo é emocionalmente instável, talvez devido aos excessos cometidos durante sua gestação.
De qualquer modo, não é aconselhável fazer generalizações sobre o tempo.
21.
O deus azul inexistente vomita um arco-íris: muralhas da cidade quando aprender a ser livre. Há pequenas utopias coloridas piscando na janela, reflexos das luzes de natal aos olhos da menina:
Arrancar
Com seriedade
A alegria enterrada
No jardim das flores frias
E das latas de cerveja.
Resgatar
Os livros trancafiados
Em estantes de metal
Que acumulam
Insetos e invernos,
Abrir
Suas páginas contra
O sol: jogo de espelhos
Para um arco-íris sem razão.
1/08/2012
à sombra do rei taumaturgo
brota a flor incerta, tateando a terra
a máquina bruta movida a dor a suga
brota a flor, labaredas pétalas
a máquina bruta movida a dor a suga
brota a flor, suave carne
a máquina bruta movida a dor a suga
brota a flor, traços de nanquim
a máquina bruta movida a dor a suga
brota a flor, água explosiva
a máquina bruta movida a dor a suga
brota a flor, dentes pétalas
a máquina bruta movida a dor a suga
brota a flor, terra ascendente que se dissolve
a máquina bruta movida a dor a suga
brota a flor, seiva de lágrima
a máquina bruta movida a dor a suga
brota a flor, animal flecha ao alto
a máquina bruta movida a dor a suga
brota a flor, por onde anjos falam
a máquina bruta movida a dor a suga
brota a flor brota a flor brota
a máquina bruta movida a dor a suga
a máquina bruta movida a dor a suga
a máquina bruta movida a dor a suga
a máquina bruta movida a dor a suga
rei besta fera, aborto com flores tatuadas na pele.
a máquina bruta movida a dor a suga
brota a flor, labaredas pétalas
a máquina bruta movida a dor a suga
brota a flor, suave carne
a máquina bruta movida a dor a suga
brota a flor, traços de nanquim
a máquina bruta movida a dor a suga
brota a flor, água explosiva
a máquina bruta movida a dor a suga
brota a flor, dentes pétalas
a máquina bruta movida a dor a suga
brota a flor, terra ascendente que se dissolve
a máquina bruta movida a dor a suga
brota a flor, seiva de lágrima
a máquina bruta movida a dor a suga
brota a flor, animal flecha ao alto
a máquina bruta movida a dor a suga
brota a flor, por onde anjos falam
a máquina bruta movida a dor a suga
brota a flor brota a flor brota
a máquina bruta movida a dor a suga
a máquina bruta movida a dor a suga
a máquina bruta movida a dor a suga
a máquina bruta movida a dor a suga
rei besta fera, aborto com flores tatuadas na pele.
1/06/2012
Não sou nem quero ser poeta
Não sou e nem quero ser poeta. Não tenho facilidade com palavras e nem sei dizer coisas bonitas. Meu pai quando bebe, mesmo um pouco, já gagueja e quando eu era criança fui um dos únicos na sala de aula a não reconhecer meu nome escrito na cadeira que me tinham reservado. Também não sei inventar nada. Não sou criativo. As palavras não são como nos dá a entender o dicionário. Dicionário é pura meia verdade. O que mantém as palavras ativas é a força empregada na sua criação e na sua condução – por homens feitos às pressas, inúmeros, a perder de vista no fundo do tempo e além. Palavras são destino. No sentido de caminho. No sentido de ponto de chegada. No sentido de maldição. Você nasce num mundo em que há mais palavras no ar do que oxigênio, mais do que microorganismos hostis. As palavras não pedem licença: vão entrando e substituem o puro vazio da sua mente, a força sem destino que é seu íntimo, por uma superfície que lembra uma forma, parece uma coerência, faz pensar numa figura. Meias verdades. Ai de quem acreditar mais nas palavras que na vida – e sei bem em que paradoxo estou me metendo, afinal de contas vida é apenas mais uma palavra. Palavras são fortes, em conjunto, embora ínfimas quando isoladas, frágeis como vírus. Meias formas de vida. Elas corroem, espicaçam, alfinetam, ferem, fazem você dizer bobagens e fingir acreditar em si – quando é nelas que você acredita. Palavras inoculam certezas e outras variantes menos nítidas de veneno. Essa luta ínfima e cotidiana contra elas é o que chamo de espiritualidade. Não sou nem quero ser poeta: tudo o que sei é que quando escrevo fico menos ansioso – por algumas horas.
1/03/2012
O perigo da rede social para os poetas
Meu pressuposto é o de que há uma boa dose de anti-sociabilidade em ser poeta, porque ser poeta é uma descortesia com a camada de conversa fiada que mantém a sociabilidade (pelo menos a atual, que tem como mola propulsora os reclames publicitários). É difícil encontrar pessoas mais orgulhosas do que entre aquelas que pretendem ser escritoras, eu diria até umbiguistas – acreditar que com a escrita você vai além do disciplinar é, de qualquer maneira, querer demais. Mas, ou exatamente por isso, e isso é um tema comentado exaustivamente por todo tipo de escritor: esse mesmo sujeito orgulhoso se comove como o mais sentimentalista dos publicitários diante de qualquer elogio. E quando digo qualquer elogio, é qualquer mesmo. Cada elogio tem um sabor próprio: o chamado elogio consistente, feito por um crítico ou escritor reconhecido (essa palavra é o X da questão, por sinal), o elogio do chamado leitor comum – o fato de estarmos falando de figuras míticas não diminui o impacto afetivo da coisa, muito pelo contrário. O facebook tem um negocinho maldito, o tal do botãozinho curtir. Mas, isso tudo não é coisa só da internet. Um elogio feito à escrita, em qualquer situação, parece ser algo poderosíssimo, o que no fundo revela a imensa fragilidade e solidão do ato de escrever gratuitamente: o caso extremo é daquela pessoa antes considerada uma anta, uma capivara, qualquer um desses animais que tornam o homem mais garboso e saciado à sua vista, que depois de elogiar o poeta passa a ter algum valor, uma percepção aguda, uma sensibilidade especial. Sabe, no fundo ele não é tão idiota assim. E quanto a toda essa babaquice em torno de animais e metáforas pra burrice, é bom lembrar que quase todos os escritores preferem ser considerados homicidas a burros. Se quiserem chamar isso de doença, tem outro nome clichê: narcisismo. Outro dado que aponta para a força da questão (e vamos dizer que as palavras escritor e autor podem ser, elas mesmas, os agentes causadores da moléstia): poucos escritores não sucumbem ao próprio sucesso, e não chamo de sucesso aqui a obra bem realizada - necessariamente. Kerouac é um estilo: decadência lastimável simultânea ao reconhecimento. Rawet: reconhecimento fulgurante seguido de queda irremissível na solidão mais amargurada – os elogios mais como lembrança do elogio perdido. Outro estilo: Graciliano Ramos e Clarice Lispector (essa, naquela conhecida entrevista na TV cultura) – tipos que assumem o sarcasmo, o distanciamento forçado e mesmo a hostilidade diante da horda de elogiadores, como se isso fosse uma espécie de instinto de defesa. Fazendo coisas que o pensamento burguês chamaria de mal-educadas e que o mesmo pensamento burguês vê como idiossincrasias de artista. Esse parece ser o caso mais corriqueiro. Outro estilo ainda dá naquele espetáculo lamentável de quando o escritor vê que uma coisa, uma pegada, uma frase de efeito funciona e começa a agir como um animal de circo, uma foca viciada em aplausos – novamente os animais. O que é quase a mesma coisa de quando se trata do círculo de autoelogiadores – e como bastam 2 pessoas pra se fazer a presença de Deus, imaginem a força de mútuos e interesseiros elogios... Esses últimos exemplos reforçam a sensação da lucidez dos que optam pelo sarcasmo: porque parece que o elogio turva a percepção. A não ser que o próprio sarcasmo faça parte do showzinho lamentável... O que fazer, porém, se quem escreve quer ser lido?
Estarei exagerando ao tomar esses exemplos para falar de blogueiros, poetas de facebook e orkut? Olha aí os entraves do reconhecimento. Mas, não vou deixar de pensar a questão por conta disso. E vou até citar um caso pessoal – que aliás, não impressionou apenas a mim. Não quero relembrar uma história deprimente: mas apenas notar a impressão que causou o fato de textos com zero comentário no blog em que publico (e não somente meus) terem recebidos 10, às vezes 20 comentários com elogios retumbantes, quando apareceram em outro blog, como se fossem de outro autor. Você sabe, conversamos na época, a internet é antes de tudo uma rede social, tudo é uma questão de link e reciprocidade, simpatia. Mesmo assim, rolou aquilo que um psicanalista chamaria de ferida narcísica. A ambigüidade de, de repente, começar a acreditar no próprio valor – mesmo que os elogiadores em questão fossem em outros momentos considerados mais capivaras do que consistentes e ao mesmo tempo se sentir invadido, roubado, saqueado, por uma capivara de bom gosto. É tudo muito sórdido, como vocês estão vendo.
E o botão de curtir no facebook? É toda uma outra história, outra fenomenologia se assim preferirem. A minha experiência é parecida com a do blog: escassos fulano curtiu, mas suficientes para fazerem aquela pequena explosão: eu tenho futuro. Ou, no caso contrário, para eu desconfiar de um texto de que gostei muito, ninguém curtiu – então deve ser uma merda. Ora, ora: mas então o que fazer com o sem número de merdas, não de minha autoria é claro, que vejo outros curtindo por aí. É tudo uma curtição sem fim, somos mais curtidos que couro de boi. Meu orgulho talvez seja o responsável por eu concluir isso: mas, acho que o ninguém curtiu talvez seja a salvação. O perigo, poetas internautas, pode ser quando curtem. Se ninguém curte, se o blog tem zero comments e você continua escrevendo: bem, é uma forma de manter a espontaneidade. Observando figuras que freqüentam as mesmas redes sociais que eu, e dentre as quais está o Sr Daniel Faria, noto que: às vezes, o fulano curtiu não é a meta, é um subproduto, a chamada cereja do bolo, às vezes é o motor da história. Em todo caso, é de uma vulgaridade a toda prova (no segundo caso, vulgaridade a que se soma a demagogia – o que, além de melancolia, dá ânsia de vômito). Uma vez me chamaram de gênio e o próprio fato de eu ter escrito isso é um sinal de perda de pureza e integridade.
Estarei exagerando ao tomar esses exemplos para falar de blogueiros, poetas de facebook e orkut? Olha aí os entraves do reconhecimento. Mas, não vou deixar de pensar a questão por conta disso. E vou até citar um caso pessoal – que aliás, não impressionou apenas a mim. Não quero relembrar uma história deprimente: mas apenas notar a impressão que causou o fato de textos com zero comentário no blog em que publico (e não somente meus) terem recebidos 10, às vezes 20 comentários com elogios retumbantes, quando apareceram em outro blog, como se fossem de outro autor. Você sabe, conversamos na época, a internet é antes de tudo uma rede social, tudo é uma questão de link e reciprocidade, simpatia. Mesmo assim, rolou aquilo que um psicanalista chamaria de ferida narcísica. A ambigüidade de, de repente, começar a acreditar no próprio valor – mesmo que os elogiadores em questão fossem em outros momentos considerados mais capivaras do que consistentes e ao mesmo tempo se sentir invadido, roubado, saqueado, por uma capivara de bom gosto. É tudo muito sórdido, como vocês estão vendo.
E o botão de curtir no facebook? É toda uma outra história, outra fenomenologia se assim preferirem. A minha experiência é parecida com a do blog: escassos fulano curtiu, mas suficientes para fazerem aquela pequena explosão: eu tenho futuro. Ou, no caso contrário, para eu desconfiar de um texto de que gostei muito, ninguém curtiu – então deve ser uma merda. Ora, ora: mas então o que fazer com o sem número de merdas, não de minha autoria é claro, que vejo outros curtindo por aí. É tudo uma curtição sem fim, somos mais curtidos que couro de boi. Meu orgulho talvez seja o responsável por eu concluir isso: mas, acho que o ninguém curtiu talvez seja a salvação. O perigo, poetas internautas, pode ser quando curtem. Se ninguém curte, se o blog tem zero comments e você continua escrevendo: bem, é uma forma de manter a espontaneidade. Observando figuras que freqüentam as mesmas redes sociais que eu, e dentre as quais está o Sr Daniel Faria, noto que: às vezes, o fulano curtiu não é a meta, é um subproduto, a chamada cereja do bolo, às vezes é o motor da história. Em todo caso, é de uma vulgaridade a toda prova (no segundo caso, vulgaridade a que se soma a demagogia – o que, além de melancolia, dá ânsia de vômito). Uma vez me chamaram de gênio e o próprio fato de eu ter escrito isso é um sinal de perda de pureza e integridade.
12/28/2011
Sangue de lobisomem
De onde vem tanta revolta, um dia sempre me perguntaram. É assustador te ver grunhindo na mesa do bar, toda uma atmosfera de insultos. E logo você tão gentil, logo você tão pacato com aquele rosto cheio de sombras. O velho vizinho meio esquizo às vezes me trata como se eu fosse seu neto e por aí vai. Então de onde vem toda revolta.
A verdade é que não sei e se soubesse talvez você não seria revoltado. Sou revoltado porque não sei o motivo da revolta ser minha. São figuras de admiração: Blake, Blanqui, a cadela Baleia, Ibn Arabi e algumas forças cósmicas profundamente dispersivas. A revolta tem a ver com furor analítico (um gosto pela anarquia): então quando digo figuras da minha admiração não é que sejam modelos existentes perante os quais se ajoelhar e sim que o milagre, o assombroso como força que te obriga a se maravilhar é um eco dessas figuras. Daria no mesmo dizer que ele é, portanto, uma admiração que se figura.
E também eu preciso entender que a revolta é um afeto de amor e não de ódio. A certeza de que somos mais do que isso. De que não existe o tipo do revoltado como tipificação, sobre o qual se lance uma luz. Que a única coisa polêmica que existe foi a liberdade. Não o surto de palavras vazias. Derramar ódio sobre o mundo: não é nada além do que tem sido feito por Oito-Olhos nos séculos dos séculos, amém. O amor do revoltado não é, porém, algo que perfuma o cotidiano sórdido. É mais aquela conversa de Maquiavel no Jardim Oricellari, de pássaros bêbados adormecidos na página de um livro – e como são escuras as páginas de um livro fechado.
Aliás, é a revolta que faz se ver o cotidiano como sórdido. O cotidiano não é sórdido em si mesmo. É sombrio aos olhos (de lince) do revoltado. E de onde vem o revoltado, perguntaríamos academicamente? Abandonemos as pseudo-explicações psicanalíticas, sem bem que a revolta pode mesmo ser uma doença. Uma doença que vem não se sabe de onde e emerge como desejo de ver toda a cidade sob uma nova luz, ainda não nascida, apenas vislumbrada no brilho súbito que brota e morre no coração obscuro dos revoltados – e todo coração é obscuro e a humanidade, sem cessar, repudia.
A verdade é que não sei e se soubesse talvez você não seria revoltado. Sou revoltado porque não sei o motivo da revolta ser minha. São figuras de admiração: Blake, Blanqui, a cadela Baleia, Ibn Arabi e algumas forças cósmicas profundamente dispersivas. A revolta tem a ver com furor analítico (um gosto pela anarquia): então quando digo figuras da minha admiração não é que sejam modelos existentes perante os quais se ajoelhar e sim que o milagre, o assombroso como força que te obriga a se maravilhar é um eco dessas figuras. Daria no mesmo dizer que ele é, portanto, uma admiração que se figura.
E também eu preciso entender que a revolta é um afeto de amor e não de ódio. A certeza de que somos mais do que isso. De que não existe o tipo do revoltado como tipificação, sobre o qual se lance uma luz. Que a única coisa polêmica que existe foi a liberdade. Não o surto de palavras vazias. Derramar ódio sobre o mundo: não é nada além do que tem sido feito por Oito-Olhos nos séculos dos séculos, amém. O amor do revoltado não é, porém, algo que perfuma o cotidiano sórdido. É mais aquela conversa de Maquiavel no Jardim Oricellari, de pássaros bêbados adormecidos na página de um livro – e como são escuras as páginas de um livro fechado.
Aliás, é a revolta que faz se ver o cotidiano como sórdido. O cotidiano não é sórdido em si mesmo. É sombrio aos olhos (de lince) do revoltado. E de onde vem o revoltado, perguntaríamos academicamente? Abandonemos as pseudo-explicações psicanalíticas, sem bem que a revolta pode mesmo ser uma doença. Uma doença que vem não se sabe de onde e emerge como desejo de ver toda a cidade sob uma nova luz, ainda não nascida, apenas vislumbrada no brilho súbito que brota e morre no coração obscuro dos revoltados – e todo coração é obscuro e a humanidade, sem cessar, repudia.
12/23/2011
Retificação
Ao contrário do que foi dito no Faustão domingo passado, Oito-Olhos não se restringe a aparelhos visuais (lupas, telescópios, microscópios, miras noturnas, lentes de contato, óculos, lunetas, colírios, astigmatismo e miopia, visão de raio x). É preciso entender a arte da penetração vocal das mentes para se poder começar a falar em Oito-Olhos. Gritos grudados na parede quente. Getúlio Vargas fantasmagoricamente em todas as salas na Hora do Brasil. Cid Moreira lendo a Bíblia. Pedro Bial lendo um poema apócrifo da Clarice Lispector. Vozeirões. Ainda mais que ouvido não tem pálpebra. Mas também vozes menores, feitas sob medida: vozes de parentes que te sacanearam ressoando pelas ruas, gritos esganiçados de cachorrinhos no apartamento vizinho, até a sua própria voz gravada e você dizendo que nem um otário: essa voz não é minha. Vozes que se dissolvem em ruídos e ruídos que se transmudam em músicas: o fundo musical de tudo, barracas de praia, shopping Center, espera ao telefone da central de atendimento (para quem não sabe, o inferno tem fundo musical). Além disso, quem ainda não percebeu que as palavras são microorganismos que fagocitam as almas dos despreparados, também ainda não sacou o alcance de Oito-Olhos. Ainda mais agora com a internet: estupro mental, trollagem de filhadaputinhas caluniadores, caixa de ressonância que faz qualquer fraco gritar como se fosse Hércules lutando contra os porcos selvagens endemoniados. E tudo isso em silêncio, explorando a maravilhosa invenção do deus Thot, como se pode ler na Wikipédia. Tua alma cheia de buraquinhos, pequenas mordidas, palavras cheias de dentinhos afiados. Também há o recurso da Alta Literatura. O Escritor que come lixo e o recicla ao contrário, soltando seus excrementos direto no receptor, já disseram que a mente é um papel em branco e o sujeito se torna um inteiro esgoto ao deslavar insultos sobre seus próprios delírios de grandeza, enfim: Oito-Olhos é multimídia e se Deus criou o mundo, Oito-Olhos é o editor. E sim, você pode dizer que não conhece Oito-Olhos, mas como diria Raulzito: Oito-Olhos conhece você. O que estou dizendo? Você mesmo é Oito-Olhos: não o dia inteiro, não em qualquer lugar, mas Oito-Olhos é parte de você e você sabe muito bem – conhece o milagre sem saber o nome do santo. Ser Oito-Olhos é uma coisa parecida com ter cheirado cocaína, bebido vodka ou ter atuado como pastor exorcista num rito da Igreja Universal.
Ps: Diante de tudo isso, fica a pergunta: como não enlouquecer? Algumas regras básicas: vomitar ao invés de cagar todo o lixo digerido. Fazer ao redor de si uma barreira sonora que não impede as vozes (não, não se trata de vidro anti-ruído), mas que as sintetiza numa música toda sua, uma oração que seja. Saber que Oito-Olhos não tem ego e muito menos confundir O Príncipe Míchkin com Dostoievski ou a cadela Baleia com Graciliano Ramos e Herman Melville. Saber que Oito-Olhos é real. Tão real quanto essa pessoa que aqui e agora escreve.
Ps: Diante de tudo isso, fica a pergunta: como não enlouquecer? Algumas regras básicas: vomitar ao invés de cagar todo o lixo digerido. Fazer ao redor de si uma barreira sonora que não impede as vozes (não, não se trata de vidro anti-ruído), mas que as sintetiza numa música toda sua, uma oração que seja. Saber que Oito-Olhos não tem ego e muito menos confundir O Príncipe Míchkin com Dostoievski ou a cadela Baleia com Graciliano Ramos e Herman Melville. Saber que Oito-Olhos é real. Tão real quanto essa pessoa que aqui e agora escreve.
12/21/2011
Outro espelho do tempo
18
No dia em que Napoleão nasceu eu acordei com uma pequena dose de mau humor. A luz atravessava Brasília como uma névoa translúcida – um clima de sonho. Eu era amado e perseguido, em cada fantasma havia um coração alheio que era meu também e estranhos pulsavam em meu coração. Alguém planejava um atentado terrorista contra a biblioteca da universidade enquanto um jornalista ensinava como se precaver contra a meningite: poder é perversão de senadores dendrofílicos. Nunca me esquecerei desse dia em que Napoleão nasceu, acontece sempre, sempre retorna – era uma terça-feira. O calendário às vezes me deixa doido da vida. Se Napoleão Bonaparte era um louco que acreditava ser Napoleão Bonaparte, eu é um poeta que acredita ser um louco desejando ser um poeta louco à deriva pelo calendário enquanto se escreve isso, numa terça-feira, dia de nascimento do Napoleão Bonaparte na sua loucura, leitor.
No dia em que Napoleão nasceu eu acordei com uma pequena dose de mau humor. A luz atravessava Brasília como uma névoa translúcida – um clima de sonho. Eu era amado e perseguido, em cada fantasma havia um coração alheio que era meu também e estranhos pulsavam em meu coração. Alguém planejava um atentado terrorista contra a biblioteca da universidade enquanto um jornalista ensinava como se precaver contra a meningite: poder é perversão de senadores dendrofílicos. Nunca me esquecerei desse dia em que Napoleão nasceu, acontece sempre, sempre retorna – era uma terça-feira. O calendário às vezes me deixa doido da vida. Se Napoleão Bonaparte era um louco que acreditava ser Napoleão Bonaparte, eu é um poeta que acredita ser um louco desejando ser um poeta louco à deriva pelo calendário enquanto se escreve isso, numa terça-feira, dia de nascimento do Napoleão Bonaparte na sua loucura, leitor.
12/16/2011
Mais um espelho do tempo
17.
É lento e adocicado e é lentamente que o cheiro de esgoto vai tomando conta da realidade inteira. Um mergulho, outro mergulho, por curiosidade, por revolta ou jogo. Almas fecais emanam gases mefíticos em fotografias e palavras cheias de ranhuras como se dentes curtos e afiados as tivessem roído, remoído, peidado, cagado, vomitado pelos dedos, expelidas mundo virtual afora e mundo fosse desde então eufemismo pra “grande cloaca”. O cheiro de esgoto te acompanha nas ruas, nas tardes anestesiadas: ele é lento e adocicado; impregna todo pensamento à flor da pele como se os corações sofridos dos meninos que sonham com assassinatos e vinganças bombeassem diarréia no lugar de sangue formando uma cúpula verminosa sobre o céu da cidade.
Mais ou menos como disse o filósofo: quando se entra num esgoto, o esgoto também entra em você. Não adianta polir um espelho com a mão suja de bosta.
É lento e adocicado e é lentamente que o cheiro de esgoto vai tomando conta da realidade inteira. Um mergulho, outro mergulho, por curiosidade, por revolta ou jogo. Almas fecais emanam gases mefíticos em fotografias e palavras cheias de ranhuras como se dentes curtos e afiados as tivessem roído, remoído, peidado, cagado, vomitado pelos dedos, expelidas mundo virtual afora e mundo fosse desde então eufemismo pra “grande cloaca”. O cheiro de esgoto te acompanha nas ruas, nas tardes anestesiadas: ele é lento e adocicado; impregna todo pensamento à flor da pele como se os corações sofridos dos meninos que sonham com assassinatos e vinganças bombeassem diarréia no lugar de sangue formando uma cúpula verminosa sobre o céu da cidade.
Mais ou menos como disse o filósofo: quando se entra num esgoto, o esgoto também entra em você. Não adianta polir um espelho com a mão suja de bosta.
12/13/2011
Mais espelhos do tempo
15.
O processo de decadência de uma pessoa não é corrosivo, é acúmulo – por excesso e repetição. Como os rostos mais estranhos sempre são reconhecidos. Como andar pelas ruas procurando um caminho inesperado e sempre chegar ao mesmo (placas verdes sem nome, nada inscrito: toda e qualquer cidade foi vista tantas vezes). Apesar de sermos induzidos a pensar numa pessoa andando e se desfazendo aos poucos, devido à imagem da queda, a decadência é uma pessoa que acumula pedras sobre pedras, pedras entulhadas nos bolsos, na mochila, nas mãos, na alma de lodo de uma pessoa curvada sobre as próprias pegadas marcadas na areia, ao infinito, nunca tocando o mar.
Decair é cair e cair novamente e novamente cair por dentro de si.
16.
Uma vida começa no mesmo instante em que outra vida termina. O fato de essas vidas estarem mutuamente encantadas em estado de paixão faz pensar em Marcilio Ficino quando poderia ter dito: o rastro brilhante de uma estrela que cai e o rastro brilhante de um cometa que sobe são como o espelho em que o tempo se mira e se apaixona por si mesmo. O tempo às vezes é um mágico triste.
O processo de decadência de uma pessoa não é corrosivo, é acúmulo – por excesso e repetição. Como os rostos mais estranhos sempre são reconhecidos. Como andar pelas ruas procurando um caminho inesperado e sempre chegar ao mesmo (placas verdes sem nome, nada inscrito: toda e qualquer cidade foi vista tantas vezes). Apesar de sermos induzidos a pensar numa pessoa andando e se desfazendo aos poucos, devido à imagem da queda, a decadência é uma pessoa que acumula pedras sobre pedras, pedras entulhadas nos bolsos, na mochila, nas mãos, na alma de lodo de uma pessoa curvada sobre as próprias pegadas marcadas na areia, ao infinito, nunca tocando o mar.
Decair é cair e cair novamente e novamente cair por dentro de si.
16.
Uma vida começa no mesmo instante em que outra vida termina. O fato de essas vidas estarem mutuamente encantadas em estado de paixão faz pensar em Marcilio Ficino quando poderia ter dito: o rastro brilhante de uma estrela que cai e o rastro brilhante de um cometa que sobe são como o espelho em que o tempo se mira e se apaixona por si mesmo. O tempo às vezes é um mágico triste.
12/09/2011
Espelhos do tempo 3
11.
Dias e meses se desdobram como sensações. Dirigidas. Latas de cerveja jogadas no jardim.
12.
Amarrado na poltrona. Fátima Bernardes entra na sala, segura minha cabeça com força. Estica minha boca enfiando os dedos nos cantos e puxando, para que eu sorria. Prende o sorriso colando uma fita adesiva entre a boca e a nuca: minha pele repuxada garante a expressão de felicidade. Como a pele é minha, pode-se dizer que colaboro com a situação. Fátima Bernardes tem unhas muito afiadas e é impaciente. Na pressa e na irritação, arranha meu rosto. Um filete de sangue escorre, enquanto sorrio.
13.
Entro no elevador com meu vizinho. Ele me diz por que você fica por aí com essa cara de assustado? Existe alguma coisa de anormal acontecendo? Ele se olha no espelho pra ver se sua imagem está boa e abre um grande sorriso. Seus dentes são de lâmina de aço inoxidável e na hora em que ele sai do espelho deixa um grande vazio, somente comparável ao vazio de tudo o que existiu antes da vida, tudo o que acontecerá depois da morte e o imenso vazio da presença insubstancial do mundo neste preciso momento.
14.
Quando eu começava a ser jovem, numa daquelas férias de verão, subi a ladeira de terra batida, segurando a vontade de chorar. Também não queria chorar na casa dos meus parentes. Era madrugada (tantas estrelas, como as que não vemos em Brasília). Fui pra trás do muro de uma casa em construção e, sob o pretexto de mijar bêbado, deixei as lágrimas correrem soltas. Não todas – algumas guardei e com elas fabrico esse espelho que agora apresento a vocês.
Dias e meses se desdobram como sensações. Dirigidas. Latas de cerveja jogadas no jardim.
12.
Amarrado na poltrona. Fátima Bernardes entra na sala, segura minha cabeça com força. Estica minha boca enfiando os dedos nos cantos e puxando, para que eu sorria. Prende o sorriso colando uma fita adesiva entre a boca e a nuca: minha pele repuxada garante a expressão de felicidade. Como a pele é minha, pode-se dizer que colaboro com a situação. Fátima Bernardes tem unhas muito afiadas e é impaciente. Na pressa e na irritação, arranha meu rosto. Um filete de sangue escorre, enquanto sorrio.
13.
Entro no elevador com meu vizinho. Ele me diz por que você fica por aí com essa cara de assustado? Existe alguma coisa de anormal acontecendo? Ele se olha no espelho pra ver se sua imagem está boa e abre um grande sorriso. Seus dentes são de lâmina de aço inoxidável e na hora em que ele sai do espelho deixa um grande vazio, somente comparável ao vazio de tudo o que existiu antes da vida, tudo o que acontecerá depois da morte e o imenso vazio da presença insubstancial do mundo neste preciso momento.
14.
Quando eu começava a ser jovem, numa daquelas férias de verão, subi a ladeira de terra batida, segurando a vontade de chorar. Também não queria chorar na casa dos meus parentes. Era madrugada (tantas estrelas, como as que não vemos em Brasília). Fui pra trás do muro de uma casa em construção e, sob o pretexto de mijar bêbado, deixei as lágrimas correrem soltas. Não todas – algumas guardei e com elas fabrico esse espelho que agora apresento a vocês.
12/05/2011
Espelhos do tempo 2
5.
O telefone toca:
Dormia muito bem,
O aparelho.
6.
Entre peixe e visão
Refratada
Passa a flecha:
Quando estou onde estive
E não sou.
7.
Pedaços de pulmão
Oxidado
No ralo do chuveiro.
8.
Flores apodrecidas
Na vitrine da floricultura.
9.
O campo de visão se fecha, mas não no sentido habitual de quando fechamos os olhos, de cima para baixo e de baixo para cima, mas lateralmente. Os olhos são ampulhetas que funcionam numa lógica não gravitacional, a areia, a passagem do tempo, corre dos lados para o centro. A poeira vai além, chega até a mente e onde o corpo faz conexões com a alma. Apago-me. Não sei ao certo se ainda enxergo qualquer coisa quando começo a cair. Acordo com o queixo aberto, dentes molares arrebentados. Que despertador foi esse que usaram para me acordar, uma porrada como se estourassem bumbos por dentro do cérebro: é minha cabeça batendo no chão.
Caio em mim como alguém que cai em si.
10.
Atenuem-se as viragens do tempo no “torniquete da consciência” (Piva). Realidade é eufemismo para alucinação. Eppur si muove: a história (vivida) é um caso crônico.
O telefone toca:
Dormia muito bem,
O aparelho.
6.
Entre peixe e visão
Refratada
Passa a flecha:
Quando estou onde estive
E não sou.
7.
Pedaços de pulmão
Oxidado
No ralo do chuveiro.
8.
Flores apodrecidas
Na vitrine da floricultura.
9.
O campo de visão se fecha, mas não no sentido habitual de quando fechamos os olhos, de cima para baixo e de baixo para cima, mas lateralmente. Os olhos são ampulhetas que funcionam numa lógica não gravitacional, a areia, a passagem do tempo, corre dos lados para o centro. A poeira vai além, chega até a mente e onde o corpo faz conexões com a alma. Apago-me. Não sei ao certo se ainda enxergo qualquer coisa quando começo a cair. Acordo com o queixo aberto, dentes molares arrebentados. Que despertador foi esse que usaram para me acordar, uma porrada como se estourassem bumbos por dentro do cérebro: é minha cabeça batendo no chão.
Caio em mim como alguém que cai em si.
10.
Atenuem-se as viragens do tempo no “torniquete da consciência” (Piva). Realidade é eufemismo para alucinação. Eppur si muove: a história (vivida) é um caso crônico.
12/04/2011
Espelhos do tempo
1.
Cartas na mesa
De mão em mão em sentido
Anti-horário, ao contrário
No espelho.
2.
Tédio de astronauta
Flutuando em cápsula
Ao redor da terra.
3.
Relógio com navalhas
No lugar de ponteiros.
4.
Remorso de manhã
À noite:
Fotos de crianças no corredor do apartamento.
Atmosfera azulada
Em névoa televisiva.
Sobe e desce de talheres
Como se um pântano
Fosse o prato do dia.
(No banheiro, o espelho escuro
Reflete as fotografias)
Cartas na mesa
De mão em mão em sentido
Anti-horário, ao contrário
No espelho.
2.
Tédio de astronauta
Flutuando em cápsula
Ao redor da terra.
3.
Relógio com navalhas
No lugar de ponteiros.
4.
Remorso de manhã
À noite:
Fotos de crianças no corredor do apartamento.
Atmosfera azulada
Em névoa televisiva.
Sobe e desce de talheres
Como se um pântano
Fosse o prato do dia.
(No banheiro, o espelho escuro
Reflete as fotografias)
11/25/2011
Sonhos - V
o álbum de toda a minha vida erótica.
eu queria morrer:
o álbum de toda a minha vida erótica por apenas R$ 1,99 num bazar que comercializa pirulito, bombinha e revólver de espoleta. letreiro imenso, de neon, cor verde militar.
é tempo de tortura.
*
os negativos gritam na sala de revelação. correspondências.
se nas fotos aperto o bico dos seios, na outra margem me enforco. (a corda presa ao gancho em que mamãe estendia a rede durante o verão.)
para cada imagem em que surjo deitada, na cama, uma tragédia naquela sala. atropelamento: o sangue empoça no asfalto. é vermelha
a luz.
boquete, suicídio: tiro pela boca.
anal, empurram-me de um poço estreito, fundo, noturno. (abro os braços e as pernas para me amparar nas laterais do PVC, mas o limo não perdoa: escorrego devagar por este cano
metafísico. fisicamente metido
em mim.)
*
é tempo de tortura. um sargento sem corpo, sem voz, sem lugar, emerge deste açude escuro (no furo) do pensamento.
ouve-se o apito: mortos dormem em posição de sentido.
***
(Também publicado em De Ter de Onde se Ir).
11/21/2011
Rock'n roll heaven (Uma crônica)
1. No começo da viagem, propósitos claros. Mas, com o seguinte cuidado: você pensa que está no controle da situação quando o assunto é a sua mente. Um pouco mais de atenção vai te mostrar que a mente é uma parafernália de motos-contínuos independentes e quando você entra num desses movimentos... Bem, isso é o que entendemos por cotidiano, essa banalidade orquestrada por detalhes extravagantes. O pôr-do-sol mais bonito que eu vi foi a bordo de um avião: as nuvens brancas tão retilíneas e contínuas – como se voássemos sobre um continente de vapor branco.
2. Na entrada do espetáculo tudo voltado para nos lembrar que sonhamos por dentro de um grande animal holográfico projetado pelo dinheiro. Animal que regurgita robôs sanguíneos, que expele o desejo como se vomitasse algum alimento mal digerido. Nada tem sabor, nenhuma sensação: tudo representa algo e esse algo é a coisa mais insossa, inodora jamais inventada. A luz dos holofotes parece dar vida a uma pasta cinzenta. O que chamamos de mundo.
3. Eu e meu irmão, apesar disso, vamos realizar um sonho: ver o Lynyrd tocando ao vivo. O Lynyrd possível. Boa parte dos caras morreu: queda de avião, acidente de carro, ataque cardíaco, maldição dos anos Karetas, enfim. Vai ser um dia dedicado à amizade celebrando estilhaços do rock’n roll. Aliás, não só nesse dia, sempre é como se uma bomba de babaquice tivesse explodido sobre o mundo e os estilhaços dessa bomba tivessem danificado a parte de nossos cérebros onde a liberdade e a alma se refugiavam. Gaguejamos liberdade e de vez em quando vemos estilhaços de alma brotando entre nossas palavras (geralmente, só mesmo por música). Até por isso não entendemos porque alguns fãs levam a bandeira dos confederados ao festival: subserviência? Esse lado da banda, que por vezes vai gritar no imenso painel luminoso atrás do palco: é melhor não ver. Viemos aqui por causa do rock, do blues, da força e da simplicidade das músicas de Ronnie Van Zant. É assim que a máquina abusa da própria voz e no dia seguinte está rouca, quase muda, de tanto gritar. Um dos motos-contínuos da mente é esse: jogar de volta na cara do mundo algumas doses de raiva, revolta, sensibilidade, emoção bruta (apontar o dedo para o céu bêbado e lembrar que tudo que existe é sagrado – Citação anacrônica? Não vejo motivo para Adam Smith ser mais longevo do que William Blake. A frase virou clichê? Não se você entra no circuito sagrado de tudo o que existe se deixando explodir com os estilhaços da alma e da liberdade). Isso está on the Road demais pro seu gosto? Chega!
4. Por vezes é como se eu andasse com uma bomba-relógio no bolso – é tenso. Nunca vi ninguém arrumar tanta confusão e em tão pouco tempo fazer amizades repentinas justamente com as figuras com quem acabou de quasebrigar quanto o meu irmão. Parece um ritual: quem sobreviver e souber que não é para ele os insultos, passa de fase. E não se trata de insultos propriamente ditos, comuns, mas blasfêmias sobre querer ser tratado como as outras marionetes, sobre pizza com e sem orégano e o abuso do molho pomodoro. Gritar sobre o amigo que caga em todo boteco que entra, observar como Peter Gabriel começou no Genesys e acabou no Apocalipse. Tem muito maloqueiro nessa festa.
5. A amizade, contudo, começa quando aos irmãos e sua fraternidade de sangue circulando entre o noturno e o diurno, vida e morte revezando-se como Cástor e Pólux, soma-se um terceiro. Um encontro inesperado cuz the Candyman is in town. As luzes coloridas que vêm do palco batem no muro de metal que cerca a área vip e rebrilha nas lentes escuras de seus óculos. O paraíso em gotas envolvido num plástico. Então, os três (e o número 3, quando as formas têm potencial, quando os caminhos se dividem em me todos, o círculo intangível do nascimento), então, os três caminham enquanto esperam, em conversas não menos absurdas esperam, e caminham. E às vezes param: onde era mesmo que estávamos indo? Ao show do Lynyrd, lembra?
6. Aos Amarelinhos, só uma coisa a dizer: Perderam, malucos! Algumas sensações foram oferecidas em sacrifício, é verdade, jogadas no asfalto e esmagadas nas poças de chuva e mijo. Mas, passamos por vocês e vocês não nos ganharam. E não foi por falta de esforço, diga-se. Fomos rastreados, vigiados, controlados. Um Amarelinho chegou a se aproximar de mim e farejar como se ele fosse um cachorro na alfândega de um aeroporto e eu fosse exatamente isso: uma mercadoria a ser contrabandeada, apropriada pelo Estado e revendida pelos circuitos extra-oficiais da corrupção policial.
7. É preciso saber o óbvio, que isso aqui não é Woodstock? É uma versão limpa, organizada, normal como Peter Gabriel usando passagens da Nona Sinfonia (“lovely lovely Ludwig Van”) para compor algo no estilo Tenya e trilha sonora da Pequena Sereia. É como se ao invés de álcool e drogas, os jovens românticos do rock tivessem morrido por excesso de anestesia. Mas, também é bom lembrar que nem Woodstock foi tão Woodstock assim. Aquilo aconteceu, apesar do objetivo primordial de tudo: fazer dinheiro.
8. Escapamos atravessando as estruturas montadas com corpos mutilados de jovens anestesiados, seguranças sádicos e empreendedores culturais, e chegamos ao momento. Chega a ser estranho tanto esforço por uma coisa tão simples, uma música tão simples quanto uma conversa entre um menino e sua mãe sobre a importância de ser simples. É que essas coisas não são dadas de mão beijada e o Absoluto pôs o dinheiro e o policiamento no caminho para nos lembrarmos disso: a simplicidade custa esforço. Precisamos do contraste: auto-ajuda, que seja. A sofisticação não passa de outro engodo: Peter Gabriel, você sabe. Johnny Van Zant dedica Free Bird a todos os que estão no paraíso do rock’n roll: e quando a música explode por dentro de nossas cabeças como se tapássemos os ouvidos e falássemos com uma voz estranha, só por curtição, é como se o sonho rompesse as travas do sistema (as bocas que falam sobre e são o sistema, esse véu inexistente que cobre o mundo e interdita) e atravessasse inclusive as nuvens pesadas e cinzentas que pairavam sobre o mundo naquela hora – o sonho subindo mais alto a bordo de um avião conduzido por um piloto alucinado que decidisse subir sem parar para além do limite suportável pela máquina. É como se o sonho rompesse tudo e descobríssemos, para logo depois esquecermos: que as coisas têm coração.
9. Na volta dois maltrapilhos, dois mendigos de sensações com restos de alucinação espalhados como migalhas na mente, fedendo a mijo, cachaça e pizza, orégano e pomodoro entram no avião. Uma turbina quebrada e o vôo foi adiado. Mas, depois de idas e vindas, chegamos em casa. Por enquanto, parece que o mundo voltou ao normal. No dia seguinte me lembro de um poema de Leopoldo María Panero que traduzi assim:
Não temos fé
do outro lado desta vida
só nos espera o rock and roll
me diz a caveira que tenho entre as mãos
dança, dança o rock and roll
para o rock o tempo a vida são miséria
o álcool e o haxixe não dizem nada sobre a vida
sexo, drogas e rock and roll
o sol não brilha por causa do homem
o mesmo para o sexo e o rock e as drogas:
a morte é a buceta do rock and roll.
Dance até que a morte te chame
e diga suavemente vem
entre no reino do rock and roll
11/11/2011
Por dentro do teu ódio
O ódio da horda caçadora por dentro do teu ódio
dentro do teu ódio o ódio das ratazanas contra outras de outra ninhada por dentro do teu ódio ninharias milenares dentro do teu ódio o ódio de gerações por dentro do teu ódio as guerras que estão sendo planejadas dentro do teu ódio todo sentimento é lenha pra fogueira do teu ódio por dentro do teu ódio quanta alegria alheia como uma pedrada na boca do teu ódio por dentro do teu ódio a nostalgia dentro do teu ódio por dentro do teu ódio uma mistura de remorsos e respostas afiadas teu ódio por fora
floresta de dentes ou por fora teu ódio macio como caninos disfarçados de pétalas fora do teu ódio quantas palavras bonitas em teu ódio por fora ou severas: lágrimas, castiçal, fato, flora, metalinguagem por fora teu ódio também se arma de conceitos e as pétalas afiadas e brancas são viscosas de veneno gorduroso por fora do teu ódio o aroma de perfume
excessivo
dentro do teu ódio toda descoberta é tardia por dentro do teu ódio a soma alucinante de desistências e sacrifícios dentro do teu ódio algumas boas verdades dentro do teu ódio que cresce em você como um feto de dentes afiados que você acaricia com unhas de ferro por dentro do teu ódio a certeza do desejo da vitória e como é mesmo o nome daquele sábio chinês que mandou decapitar os covardes por dentro do teu ódio você pensa que seu dia vai chegar de dentro do seu ódio quem mandou você nascer por dentro do ódio neste maldito mundo de ódio por dentro de um elevador com serviçais carregando as malas do teu ódio por dentro do teu ódio nadando como um peixe num aquário de ódio e fora do ódio você sabe
é o absurdo e nada
te deixa mais por dentro do teu ódio quanto
o absurdo.
dentro do teu ódio o ódio das ratazanas contra outras de outra ninhada por dentro do teu ódio ninharias milenares dentro do teu ódio o ódio de gerações por dentro do teu ódio as guerras que estão sendo planejadas dentro do teu ódio todo sentimento é lenha pra fogueira do teu ódio por dentro do teu ódio quanta alegria alheia como uma pedrada na boca do teu ódio por dentro do teu ódio a nostalgia dentro do teu ódio por dentro do teu ódio uma mistura de remorsos e respostas afiadas teu ódio por fora
floresta de dentes ou por fora teu ódio macio como caninos disfarçados de pétalas fora do teu ódio quantas palavras bonitas em teu ódio por fora ou severas: lágrimas, castiçal, fato, flora, metalinguagem por fora teu ódio também se arma de conceitos e as pétalas afiadas e brancas são viscosas de veneno gorduroso por fora do teu ódio o aroma de perfume
excessivo
dentro do teu ódio toda descoberta é tardia por dentro do teu ódio a soma alucinante de desistências e sacrifícios dentro do teu ódio algumas boas verdades dentro do teu ódio que cresce em você como um feto de dentes afiados que você acaricia com unhas de ferro por dentro do teu ódio a certeza do desejo da vitória e como é mesmo o nome daquele sábio chinês que mandou decapitar os covardes por dentro do teu ódio você pensa que seu dia vai chegar de dentro do seu ódio quem mandou você nascer por dentro do ódio neste maldito mundo de ódio por dentro de um elevador com serviçais carregando as malas do teu ódio por dentro do teu ódio nadando como um peixe num aquário de ódio e fora do ódio você sabe
é o absurdo e nada
te deixa mais por dentro do teu ódio quanto
o absurdo.
11/08/2011
Sua história não é minha (uma carta)
1.
Nada mais assegura a integridade do eu
do que a composição orgânica única e refinada que o sustenta e faz de cada corpo uma totalidade reconhecível no mundo, entre outros. Isso, apesar de a pele descamar constantemente, os fios de cabelo descerem pelo ralo, o sangue sair da aorta na velocidade de um conversível esportivo (vide a echarpe de Isadora Duncan presa nas rodas do veículo) –
p. ex. leio as palavras impressas num livro qualquer e é como se elas não entrassem olhos adentro perfurando o cérebro; não, elas fazem uma curva ao redor do meu crânio, são como o vento, circundam a cabeça, o pescoço: a integridade
fictícia
do corpo.
2.
Querida família:
Andar de Jet Ski nas bordas de uma privada de luxo no Terminal Rodoviário de EsgotoCity, usar as fezes expelidas pelos intestinos irritados dos viajantes como creme de proteção solar, o catarro das Múmias entubadas do cu ao nariz nas catacumbas cheias de esqueletos à guisa de loção pós-barba para a night na boate, a cruz de prata usada pelo Capuchinho Cavazzi num ritual de exorcismo serve de colherinha pra adoçar o capuccino numa tarde em Casablanca, igual ao Steven Seagal recorrer ao cartão de crédito como estilete para cortar o pescoço do guardador de carro do estacionamento, algas marinhas na cabeça fazendo uma peruca, concreto armado por dentro do terno – só pra manter a atitude. Sai caro, mas vale a pena.
3.
O seu passado
não me pertence, nem sei onde eu estava quando meu passado aconteceu ou quem era aquele com ar de ausente na fotografia, não sinto calor algum no simples fato de empunharmos um álbum de fotografia como se fosse um salvo-conduto e um domingo dedicado a tais memórias não seria inspirador, enfim, venho por meio desta pra dizer porque não irei ao encontro e nem me sinto compelido a agradecer
não sou dos seus, ainda assim me empenho a explicar: entre vocês sou um estranho sem nome que caiu de pára-quedas, um figurante que atravessa o melodrama e a heráldica com olhos vidrados, perdidos & sempre que digo feliz natal bom ano novo o faço
M-A-Q-U-I-N-A-L-M-E-N-T-E
Nada mais assegura a integridade do eu
do que a composição orgânica única e refinada que o sustenta e faz de cada corpo uma totalidade reconhecível no mundo, entre outros. Isso, apesar de a pele descamar constantemente, os fios de cabelo descerem pelo ralo, o sangue sair da aorta na velocidade de um conversível esportivo (vide a echarpe de Isadora Duncan presa nas rodas do veículo) –
p. ex. leio as palavras impressas num livro qualquer e é como se elas não entrassem olhos adentro perfurando o cérebro; não, elas fazem uma curva ao redor do meu crânio, são como o vento, circundam a cabeça, o pescoço: a integridade
fictícia
do corpo.
2.
Querida família:
Andar de Jet Ski nas bordas de uma privada de luxo no Terminal Rodoviário de EsgotoCity, usar as fezes expelidas pelos intestinos irritados dos viajantes como creme de proteção solar, o catarro das Múmias entubadas do cu ao nariz nas catacumbas cheias de esqueletos à guisa de loção pós-barba para a night na boate, a cruz de prata usada pelo Capuchinho Cavazzi num ritual de exorcismo serve de colherinha pra adoçar o capuccino numa tarde em Casablanca, igual ao Steven Seagal recorrer ao cartão de crédito como estilete para cortar o pescoço do guardador de carro do estacionamento, algas marinhas na cabeça fazendo uma peruca, concreto armado por dentro do terno – só pra manter a atitude. Sai caro, mas vale a pena.
3.
O seu passado
não me pertence, nem sei onde eu estava quando meu passado aconteceu ou quem era aquele com ar de ausente na fotografia, não sinto calor algum no simples fato de empunharmos um álbum de fotografia como se fosse um salvo-conduto e um domingo dedicado a tais memórias não seria inspirador, enfim, venho por meio desta pra dizer porque não irei ao encontro e nem me sinto compelido a agradecer
não sou dos seus, ainda assim me empenho a explicar: entre vocês sou um estranho sem nome que caiu de pára-quedas, um figurante que atravessa o melodrama e a heráldica com olhos vidrados, perdidos & sempre que digo feliz natal bom ano novo o faço
M-A-Q-U-I-N-A-L-M-E-N-T-E
11/03/2011
Quando soltas as palavras são como cães de caça
Quando soltas as palavras são como cães de caça:
sangue sangue sangue sangue plástico sangue carbonizado flor de laranjeira sólido cristal mancomunado com as forças ocultas do orgasmo natal porque tantos peixes nesse campo viscoso seminal saber se Jesus ejaculava a lua ri cheia de dentes na minha imaginação um ímã atraindo os cães do pesadelo notívago lustres flores capturas de repente me lembrei do padre Ivo
veia de arame farpado aranhas sobre a pele adormecida estátua sonora de vulto inconstante espaço aberto gelo ventania, confessar-se e dez ave marias
pétalas facadas um revólver na mão do abominável homem de neve Jesus cristo e os santos uma assembléia de cães gatos e sapos ornitorrincos no campo solto do sonho de onde vem a luz do sonho uma lanterna um leão agoniza uma sombra uma caverna um vulto sem nome uma enxada cortando a cabeça do herói medusa rasteja sob o orvalho o longo fio de cabelo do pássaro morto na memória é tão fácil lutar contra uma abstração onde esqueci a coleira o refúgio a nota de rodapé o produto interno bruto o Sr ministro advoga uma causa perdida entre os escombros
nevoeiro lama respiramos fumaça na cidade incendiada fogo pelos poros pela pele foi a vodka que matou a moça e agora pastor pinguço e sua palestra premiada e seu cartão de ingresso na Festa Absoluta e o rigor da vestimenta a capa vermelha a espada o escudo o míssil a bomba a tiracolo no lugar da pasta e seus papéis e todos os carimbos e os títulos de inspetor do esgoto abúlico do fruto proibido faminto de nozes mordidas pela casca dura dentes quebradiços como uma folha de parreira cobrindo o Ivo viu a vulva de Eva:
Você vai ver como a memória trabalha a seu favor.
sangue sangue sangue sangue plástico sangue carbonizado flor de laranjeira sólido cristal mancomunado com as forças ocultas do orgasmo natal porque tantos peixes nesse campo viscoso seminal saber se Jesus ejaculava a lua ri cheia de dentes na minha imaginação um ímã atraindo os cães do pesadelo notívago lustres flores capturas de repente me lembrei do padre Ivo
veia de arame farpado aranhas sobre a pele adormecida estátua sonora de vulto inconstante espaço aberto gelo ventania, confessar-se e dez ave marias
pétalas facadas um revólver na mão do abominável homem de neve Jesus cristo e os santos uma assembléia de cães gatos e sapos ornitorrincos no campo solto do sonho de onde vem a luz do sonho uma lanterna um leão agoniza uma sombra uma caverna um vulto sem nome uma enxada cortando a cabeça do herói medusa rasteja sob o orvalho o longo fio de cabelo do pássaro morto na memória é tão fácil lutar contra uma abstração onde esqueci a coleira o refúgio a nota de rodapé o produto interno bruto o Sr ministro advoga uma causa perdida entre os escombros
nevoeiro lama respiramos fumaça na cidade incendiada fogo pelos poros pela pele foi a vodka que matou a moça e agora pastor pinguço e sua palestra premiada e seu cartão de ingresso na Festa Absoluta e o rigor da vestimenta a capa vermelha a espada o escudo o míssil a bomba a tiracolo no lugar da pasta e seus papéis e todos os carimbos e os títulos de inspetor do esgoto abúlico do fruto proibido faminto de nozes mordidas pela casca dura dentes quebradiços como uma folha de parreira cobrindo o Ivo viu a vulva de Eva:
Você vai ver como a memória trabalha a seu favor.
10/30/2011
Álbum de perfis
Álbum de perfis. Será que estas efígies que me dirigem nos olhos seus rostos olhando pro lado
pra onde?
Essas múmias cujas faixas são sinais elétricos, entenderão a intensidade desse gesto passado, este sorriso sem pé nem cabeça, uma lembrança sem antes nem depois: o sorriso de expectativa do lado do terreiro noturno da dona Dalva, por exemplo
à espera de quê? Será que ainda? Gravado não sei como não me lembro o motivo, na alma e
onde ficaria a alma, afinal?
Se a memória não é mármore é mar rarefeito no tempo, água-viva, o passado arde na pele do presente, será que estas estrelas
-marinhas que me vivem no sangue algum dia vão entender por que isso é tão nítido, como se agora mesmo eu estivesse sonhando com você aqui sorrindo ao que nunca vai suceder, e outros, tantos outros tão mínimos, nas suas cabeças talvez
não pra mim. Pra mim nada é mínimo. Ou sou um homem feito de mínimos.
Cada mínima ferida
Alegrias menores e o resto
É vazio – vazio de mar
E o cadáver chegou à praia inchado de água, todo marcado por pequenas mordidas de peixe:
a pequena voracidade do tempo.
E como entender que nessas lembranças tão nítidas não há nada
de decisivo, ou que elas são sustentadas por coisa alguma, um duradouro quase nada e mesmo assim elas saltam aos olhos como peixes coloridos e silenciosos e outra:
como entender que apesar disso, elas não são vagas indiferentes. São como feridas que passaram e não deixaram cicatriz e sangram
indolores.
O fodão do colégio que me jogou na lata de lixo, não era bullying, isso não existia, hoje é fotógrafo de casamento – é o que me diz sua múmia. Você, que me disse que os professores me odiavam e isso era sinal de que meu “trabalho” estava sendo bem feito e eu devia continuar. Aquela coisa que ia acontecer na Casa dos Padres e não rolou, Paulinha. Andar de carona no carro velho depois do curso de formação política – comunista aos 13 anos de idade. Qualquer coisa, uma frase, um gesto e um desejo
de sair perguntando: você também se lembra disso? Você também se lembra disso? Se só eu me lembrar então quem sabe
tudo não passou
mesmo de um sonho e querer sair do sofrimento é como se esquecer que se mora numa casa que está
pegando
fogo:
água salgada é fogo condensado,
tudo nessa história é refração,
cenas soltas
não
compõem uma vida.
De quê então
uma vida é composta? Uma vida
é composta?
A memória é um mar iridescente de gestos e frases
irrisórios que emergem
do nada.
ou pensarão
que este xarope pirou porque lembra demais?
pra onde?
Essas múmias cujas faixas são sinais elétricos, entenderão a intensidade desse gesto passado, este sorriso sem pé nem cabeça, uma lembrança sem antes nem depois: o sorriso de expectativa do lado do terreiro noturno da dona Dalva, por exemplo
à espera de quê? Será que ainda? Gravado não sei como não me lembro o motivo, na alma e
onde ficaria a alma, afinal?
Se a memória não é mármore é mar rarefeito no tempo, água-viva, o passado arde na pele do presente, será que estas estrelas
-marinhas que me vivem no sangue algum dia vão entender por que isso é tão nítido, como se agora mesmo eu estivesse sonhando com você aqui sorrindo ao que nunca vai suceder, e outros, tantos outros tão mínimos, nas suas cabeças talvez
não pra mim. Pra mim nada é mínimo. Ou sou um homem feito de mínimos.
Cada mínima ferida
Alegrias menores e o resto
É vazio – vazio de mar
E o cadáver chegou à praia inchado de água, todo marcado por pequenas mordidas de peixe:
a pequena voracidade do tempo.
E como entender que nessas lembranças tão nítidas não há nada
de decisivo, ou que elas são sustentadas por coisa alguma, um duradouro quase nada e mesmo assim elas saltam aos olhos como peixes coloridos e silenciosos e outra:
como entender que apesar disso, elas não são vagas indiferentes. São como feridas que passaram e não deixaram cicatriz e sangram
indolores.
O fodão do colégio que me jogou na lata de lixo, não era bullying, isso não existia, hoje é fotógrafo de casamento – é o que me diz sua múmia. Você, que me disse que os professores me odiavam e isso era sinal de que meu “trabalho” estava sendo bem feito e eu devia continuar. Aquela coisa que ia acontecer na Casa dos Padres e não rolou, Paulinha. Andar de carona no carro velho depois do curso de formação política – comunista aos 13 anos de idade. Qualquer coisa, uma frase, um gesto e um desejo
de sair perguntando: você também se lembra disso? Você também se lembra disso? Se só eu me lembrar então quem sabe
tudo não passou
mesmo de um sonho e querer sair do sofrimento é como se esquecer que se mora numa casa que está
pegando
fogo:
água salgada é fogo condensado,
tudo nessa história é refração,
cenas soltas
não
compõem uma vida.
De quê então
uma vida é composta? Uma vida
é composta?
A memória é um mar iridescente de gestos e frases
irrisórios que emergem
do nada.
ou pensarão
que este xarope pirou porque lembra demais?
10/26/2011
sábado em copacabana
a menina olha o mar
do outro lado da avenida Ela está parada
no calçadão enquanto
os carros passam
as noites passam
as suas chances
passam enquanto seus olhos
trilham o meio do breu das águas
e se perguntam onde foram parar
os dólares e os euros
que clientes americanos e italianos
largavam em cima
do lençol molhado de suor
e esperma Ela não sabe que a máquina
de fabricar notas verdes
está emperrada no além
do breu das águas e os gringos
andam agora com as mãos
nos bolsos no olho
da rua Ela tem sonhos
psycho em que dança
nua com as colunas de uma igreja
abandonada entre
espasmos
numa batida trance
numa batida trance
numa batida trance Ela
tem sonhos ácidos em que seus dedos
gozam quando tocam as notas
verdes que saltam de uma pauta
como cédulas de cinqüenta
na batida
do funk Ela tem sonhos
mínimos em que seu corpo
acende feito neon quando milhões
de mãos se esfregam
em suas pernas
perfeitas de cleópatra
do subúrbio
e seus poros aspiram moedas
que douram seus pelos
como água oxigenada e vão
direto para uma conta
bancária através de cabos
subterrâneos Copacabana
é um delírio nas retinas, este lugar
é um sonho em que você
não consegue dormir uma noite
que seja, ela
pensa de dentro
do inferninho da beira da praia
à meia-luz Ela tem sonhos
turvos com um paraíso
cheio de lojas que seu dinheiro
pode comprar porque Copacabana
tatuou em sua pele
com saliva
todas as línguas
que o mundo fala
quando não quer
dizer nada
do outro lado da avenida Ela está parada
no calçadão enquanto
os carros passam
as noites passam
as suas chances
passam enquanto seus olhos
trilham o meio do breu das águas
e se perguntam onde foram parar
os dólares e os euros
que clientes americanos e italianos
largavam em cima
do lençol molhado de suor
e esperma Ela não sabe que a máquina
de fabricar notas verdes
está emperrada no além
do breu das águas e os gringos
andam agora com as mãos
nos bolsos no olho
da rua Ela tem sonhos
psycho em que dança
nua com as colunas de uma igreja
abandonada entre
espasmos
numa batida trance
numa batida trance
numa batida trance Ela
tem sonhos ácidos em que seus dedos
gozam quando tocam as notas
verdes que saltam de uma pauta
como cédulas de cinqüenta
na batida
do funk Ela tem sonhos
mínimos em que seu corpo
acende feito neon quando milhões
de mãos se esfregam
em suas pernas
perfeitas de cleópatra
do subúrbio
e seus poros aspiram moedas
que douram seus pelos
como água oxigenada e vão
direto para uma conta
bancária através de cabos
subterrâneos Copacabana
é um delírio nas retinas, este lugar
é um sonho em que você
não consegue dormir uma noite
que seja, ela
pensa de dentro
do inferninho da beira da praia
à meia-luz Ela tem sonhos
turvos com um paraíso
cheio de lojas que seu dinheiro
pode comprar porque Copacabana
tatuou em sua pele
com saliva
todas as línguas
que o mundo fala
quando não quer
dizer nada
Considerações sobre um questionário
A minha área:
Aérea.
Meu território:
Onde estive
E não estou.
Meu recorte temporal:
Um caso crônico.
Minha especialidade:
Especiarias
Etéreas.
Minha escola:
Escória na tua mente
Profissional.
Aérea.
Meu território:
Onde estive
E não estou.
Meu recorte temporal:
Um caso crônico.
Minha especialidade:
Especiarias
Etéreas.
Minha escola:
Escória na tua mente
Profissional.
10/22/2011
É um cristal ou melhor: cristalização. Quase. Uma estrela
Do mar, na ponta de cada tentáculo
Dentes, de lobo: animal faminto
Devorando as bordas
Do mundo.
Oito-Olhos no centro: aranha cravada no eixo
Do nada
Patas caçando
Um porto seguro
No vazio, raízes em expansão:
Pensar num besouro caído com o dorso
No chão quente: movimentos descoordenados no ar:
Membros de uma pessoa jogada do terraço de um arranha
Céu.
Tudo isso.
Um corpo que sente a vida ser criada
Apaixonadamente, como dor, feridas
Que se cristalizam, mineralizando-se:
Assim o desejo se cristaliza em poema.
Assim o lodo se cristaliza em história.
Assim o caos se cristaliza em cosmo.
Do mar, na ponta de cada tentáculo
Dentes, de lobo: animal faminto
Devorando as bordas
Do mundo.
Oito-Olhos no centro: aranha cravada no eixo
Do nada
Patas caçando
Um porto seguro
No vazio, raízes em expansão:
Pensar num besouro caído com o dorso
No chão quente: movimentos descoordenados no ar:
Membros de uma pessoa jogada do terraço de um arranha
Céu.
Tudo isso.
Um corpo que sente a vida ser criada
Apaixonadamente, como dor, feridas
Que se cristalizam, mineralizando-se:
Assim o desejo se cristaliza em poema.
Assim o lodo se cristaliza em história.
Assim o caos se cristaliza em cosmo.
10/17/2011
inútil paisagem imóvel
diante de seu corpo, da alma
nem pensar: ela pegou
um táxi em direção
ao centro da cidade
abandonada ou se perdeu
nas revoluções
por minuto [você vai
falar de novo no eixo
inexistente, cara?] ou
se desintegrou quando viu
no espelho a própria imagem e ela parecia
antimatéria ou ainda
seu corpo, isso que produz
pensamentos, irrigado por sangue
quente, hormônios e linfa, isso
que pulsa e expele
secreções, não se reconhece
na idéia de alma As fachadas
mudaram de cor, pântanos
aterrados, flores de concreto
e vidro brotaram da terra, mas
a paisagem permanece
imóvel, áspera [não tem
negócio, meu chapa],
cenário Enquanto isso, mercadorias
incandescentes inauguram
cultos efêmeros, catedrais
instantâneas em que séquitos
depositam almas planas em suaves
prestações num jogo
de corpos imolados em epopéias
controladas por relógios
de ponto e catracas biométricas,
à espera, sempre à espera
de uma rave
tão ácida que dissolva a cápsula
impermeável da alegria
pra que ela penetre em todas
as rachaduras
dos muros
e suma
nem pensar: ela pegou
um táxi em direção
ao centro da cidade
abandonada ou se perdeu
nas revoluções
por minuto [você vai
falar de novo no eixo
inexistente, cara?] ou
se desintegrou quando viu
no espelho a própria imagem e ela parecia
antimatéria ou ainda
seu corpo, isso que produz
pensamentos, irrigado por sangue
quente, hormônios e linfa, isso
que pulsa e expele
secreções, não se reconhece
na idéia de alma As fachadas
mudaram de cor, pântanos
aterrados, flores de concreto
e vidro brotaram da terra, mas
a paisagem permanece
imóvel, áspera [não tem
negócio, meu chapa],
cenário Enquanto isso, mercadorias
incandescentes inauguram
cultos efêmeros, catedrais
instantâneas em que séquitos
depositam almas planas em suaves
prestações num jogo
de corpos imolados em epopéias
controladas por relógios
de ponto e catracas biométricas,
à espera, sempre à espera
de uma rave
tão ácida que dissolva a cápsula
impermeável da alegria
pra que ela penetre em todas
as rachaduras
dos muros
e suma
Toda manhã o sol emerge
Vomitando sinais
Cuspindo matilhas
De rancor, tantas palavras
Engrenagens
Rodas dentadas
Portando armas,
Marcas. Multidões.
Desenhar, com finos traços
Como a safira sobre os sulcos
De um disco
O azul inútil de asas
Transparentes, contra o céu.
Elucidar, na mente de tudo
O giroscópio (vazio) de anjos
Os abismos ínfimos
Onde sobrenadamos:
Que o ódio atravesse tua alma
Como as partículas sem peso
Que o universo vomita ao explodir
O sol.
Vomitando sinais
Cuspindo matilhas
De rancor, tantas palavras
Engrenagens
Rodas dentadas
Portando armas,
Marcas. Multidões.
Desenhar, com finos traços
Como a safira sobre os sulcos
De um disco
O azul inútil de asas
Transparentes, contra o céu.
Elucidar, na mente de tudo
O giroscópio (vazio) de anjos
Os abismos ínfimos
Onde sobrenadamos:
Que o ódio atravesse tua alma
Como as partículas sem peso
Que o universo vomita ao explodir
O sol.
10/10/2011
Como responder à objeções de um rato 2
Ratos de laboratório submetidos a eletro-choque ficam paralisados – de medo. Nem sequer procuram a saída do labirinto ou farejam a isca visível e apetitosa no centro da caixa.
Ratos também passam pela experiência
narcísica de olharem pra água à procura de si mesmos. Além de se reproduzirem em grande velocidade, os ratos se multiplicam porque tendem a ver o mundo como um amplo viveiro de fantasmas-ratos: ratos voadores com asas de anjos, ratos mutantes com flores plantadas no dorso. Todo rato real prolifera no mundo imaginário, ocupando-o com seus duplos, seus gêmeos, seus irmãos siameses, formando redes entrelaçadas por dentes finos e excrementos.
(Ai de você se um rato te tomar por espelho!)
É por isso que, mesmo que tomado de pavor, um rato sempre acredita que vence.
Entre os animais, somente dois matam outros de sua mesma espécie: o ser humano e o rato. Isso está começando a parecer uma aula de biologia. Mas não é isso. Existe um heroísmo de ratos. Uma coisa estilo pancadaria de desenho animado. Os ratos curtem andar coroados por seus próprios excrementos. Os ratos emitem sinais, guinchos: eles falam por dentro de você, da sua língua viscosa de betume, seus olhos de fio elétrico desencapado.
Você, o vencedor. Você, o coroado. Você, o que se agachou – para fora da possibilidade do soco. Você, o espancador de mendigos que viu seus finos dentes caídos no chão quando um deles revidou. Você, o que superou os traumas de infância se agarrando à tesoura como objeto-fetiche e parâmetro de astúcia e agora vomita estratégias imaginárias no mundo virtual, imobilizado no seu canto da caixa do laboratório.
Ratos também passam pela experiência
narcísica de olharem pra água à procura de si mesmos. Além de se reproduzirem em grande velocidade, os ratos se multiplicam porque tendem a ver o mundo como um amplo viveiro de fantasmas-ratos: ratos voadores com asas de anjos, ratos mutantes com flores plantadas no dorso. Todo rato real prolifera no mundo imaginário, ocupando-o com seus duplos, seus gêmeos, seus irmãos siameses, formando redes entrelaçadas por dentes finos e excrementos.
(Ai de você se um rato te tomar por espelho!)
É por isso que, mesmo que tomado de pavor, um rato sempre acredita que vence.
Entre os animais, somente dois matam outros de sua mesma espécie: o ser humano e o rato. Isso está começando a parecer uma aula de biologia. Mas não é isso. Existe um heroísmo de ratos. Uma coisa estilo pancadaria de desenho animado. Os ratos curtem andar coroados por seus próprios excrementos. Os ratos emitem sinais, guinchos: eles falam por dentro de você, da sua língua viscosa de betume, seus olhos de fio elétrico desencapado.
Você, o vencedor. Você, o coroado. Você, o que se agachou – para fora da possibilidade do soco. Você, o espancador de mendigos que viu seus finos dentes caídos no chão quando um deles revidou. Você, o que superou os traumas de infância se agarrando à tesoura como objeto-fetiche e parâmetro de astúcia e agora vomita estratégias imaginárias no mundo virtual, imobilizado no seu canto da caixa do laboratório.
10/09/2011
aquelas flores que sangram se abrindo por dentro em sua carne
para helena n.
foi numa primavera hostil que deixei de te entender
e semeando ausências nos teus calendários
não via as flores mortas nos jardins
onde depositei o simulacro de outro drama
em que anjos distraídos se dissimulavam em pedra
ou em cedro dourado nos crepúsculos dos adros
e das naves escuras e vazias
já não me importa mais que as células sãs enlouqueçam
ou teçam abismos pelo corpo
abismos sangrando névoa e nuvem
e descompassem a música das esferas
nem que o silêncio venha carregado
das palavras
esquecidas num tempo em que ainda amanhecia
neste mesmo lugar deixei o mapa
que nos traria de volta a um presente que não termina
e agora
depois de todas as pontes arruinadas
vi pelo espelho dos metais que andei forjando
um rosto
que representa a ilha
num mar que transborda cinza bruma e gelo
nos acalenta agora nesta outra primavera
o fio que abre a ferida sem resposta
aquela em que
[lançando imprecisões nas cartas do destino]
finalmente
eu
não sei
foi numa primavera hostil que deixei de te entender
e semeando ausências nos teus calendários
não via as flores mortas nos jardins
onde depositei o simulacro de outro drama
em que anjos distraídos se dissimulavam em pedra
ou em cedro dourado nos crepúsculos dos adros
e das naves escuras e vazias
já não me importa mais que as células sãs enlouqueçam
ou teçam abismos pelo corpo
abismos sangrando névoa e nuvem
e descompassem a música das esferas
nem que o silêncio venha carregado
das palavras
esquecidas num tempo em que ainda amanhecia
neste mesmo lugar deixei o mapa
que nos traria de volta a um presente que não termina
e agora
depois de todas as pontes arruinadas
vi pelo espelho dos metais que andei forjando
um rosto
que representa a ilha
num mar que transborda cinza bruma e gelo
nos acalenta agora nesta outra primavera
o fio que abre a ferida sem resposta
aquela em que
[lançando imprecisões nas cartas do destino]
finalmente
eu
não sei
10/05/2011
"Só o (palavra proibida) nos une"
Como é bom ter de novo
O silêncio
Não o mero cala-te
Boca, ou o estado definido
Do silêncio como um peso, um aperto
De mãos na garganta
Da alma.
Como é bom ter de novo
O silêncio em que palavras
Se dissolvem depois de partir
O silêncio, ínfimas
Somem, consomem-se
Quase inaudíveis como a areia
De uma ampulheta ou
O silêncio dos pássaros
Que voam alto depois de um grito
De fome:
O silêncio que segue
Pensando alto – algo como:
Não é com você
Nem comigo
Que eu estava falando.
O silêncio
Não o mero cala-te
Boca, ou o estado definido
Do silêncio como um peso, um aperto
De mãos na garganta
Da alma.
Como é bom ter de novo
O silêncio em que palavras
Se dissolvem depois de partir
O silêncio, ínfimas
Somem, consomem-se
Quase inaudíveis como a areia
De uma ampulheta ou
O silêncio dos pássaros
Que voam alto depois de um grito
De fome:
O silêncio que segue
Pensando alto – algo como:
Não é com você
Nem comigo
Que eu estava falando.
10/02/2011
cinco ou seis maneiras de se perder na cidade
você tem cinco ou seis maneiras de se perder
na cidade Numa delas
o Livro dos Espíritos é um oráculo
tatuado em braile na pele
de meninas mestiças que dançam
nuas sobre lençóis grená
um cântico sufi enquanto
o sentido arde em suas vísceras e seus pés
escrevem um livro chamado
motel nosso lar Em outra
o labirinto de memórias detona
a dessublimação feroz
que você rasura no Breviário
das Horas, estação
por estação, como se isso
criasse qualquer âncora
entre você e o mundo E ainda uma
que repete ao infinito a metamorfose
em que diante do abismo você
é um poema escrito numa língua
estranha cujo último verso
esconde uma
chave As outras não
interessam
na cidade Numa delas
o Livro dos Espíritos é um oráculo
tatuado em braile na pele
de meninas mestiças que dançam
nuas sobre lençóis grená
um cântico sufi enquanto
o sentido arde em suas vísceras e seus pés
escrevem um livro chamado
motel nosso lar Em outra
o labirinto de memórias detona
a dessublimação feroz
que você rasura no Breviário
das Horas, estação
por estação, como se isso
criasse qualquer âncora
entre você e o mundo E ainda uma
que repete ao infinito a metamorfose
em que diante do abismo você
é um poema escrito numa língua
estranha cujo último verso
esconde uma
chave As outras não
interessam
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