5/30/2012




É
se você canta ao som
do samba
- enredo -
imagina e explora
introduz e seduz
vocábulos
sintaxes
e temas
densos
É
fortes
É
você dança
direitinho
guiado
pelo anão que rebola
Ú
no ritmo
É
no ritmo

e esquece da cuíca que grita

e goza a Vida


Nãoãoãoãoão com eco

Não quero rir das suas piadas por educação. Tem uma coisa na mente que preciso destravar, um vínculo estranho com a sociedade de massas e a suspensão do calendário e as calêndulas nas máscaras do consumismo e não me interessa que na hora H você apele à polícia ou ao Magnífico Reitor, não há caminho reto quando o que resta de fogo está nas lâminas da palavra não e como me aferro

ao meu direito de dizer não, é o direito de um sujeito acuado, é o direito de um sujeito que dá de cara no muro, não é o sim do símbolo dos teus sonhos, mas é meu pequeno território de nada no eixo do vazio êmbolo em que proclamo a absoluta nulidade de todas as tuas afirmações

oito-olhos. E sigo no meu não, que seus cães tutelados venham ao meu encalço mande um carteiro com uma correspondência registrada e um revolver a tiracolo, ainda sim vai sair da garganta meio apodrecida de um sujeito que queima à luz do anonimato um renego como madeira velha em que o vinho adormeceu por muitos anos, o não como um grito

existe algo de afirmativo nesse não, como existe algo de fogo no vinho e como tudo de humano emerge apenas como ferrugem em tuas facas afiadas, não é?

é um não estranho não é mesmo, não é qualquer não, é um não que parece se chocar, entrar em choque, criar um desalinho, fazer do mundo um colorido todo especial, quantas nuances na última corrida da cadela Baleia enchendo a pança de preás

inexistentes, quanto vigor naquela corrida – o não coloca o mundo em suspenso vem de onde pode brotar qualquer sonho e todo delírio é permitido e no mínimo estamos dizendo que o mundo não é o que está aí, flutuando a favor das correntes,

você pode até me puxar pelo braço, mas como vai segurar o meu não inexistente? É melhor o Sr se acostumar, oito-olhos, outros já tentaram

de tudo, de hipnose a coerção, de valores morais à verdade da maioria, de chicotes à sangria desatada a lágrimas nos olhos a ofertas irrecusáveis, multidões marchando em palácios esportivos, todo tipo de ginástica

conceitual, todo tipo de bandeira, brandura e ameaça, mas parece que não

existe algo de incorrigível em nossa condição ou o incorrigível é nosso último refúgio, com uma

labareda, ao centro: queimando-se ao contrário, produzindo ar.

5/25/2012

Tudo é tão simples


1.
Tudo é tão simples quanto ter nascido como quem é lançado sem proteção contra a violência solar e tem a pele irremediavelmente queimada e sensível ao mínimo toque quanto ter nas mãos uma sentença de morte contra todo aquele a quem se toca quanto realizar hipnoses alheias quando o único toque entre você é o mundo é a sua respiração que emana do inconsciente da vida, a crueza primordial da luz e seus cortes da respiração e seus influxos mágicos, um amuleto de carne e sangue nas mãos de um deus que sente e pensa como quem dorme, um deus cujo templo único é o invisível impulso de tudo: tudo é tão simples quanto a vida ser a alegoria escrita sob os mandamentos de um transtorno obsessivo compulsivo – quando um anjo cai e se levanta cai e se levanta

e


2.

Quando eu estava no presídio, meu vizinho de cela colecionava livros sobre budismo e estatuetas de Siddhartha. Ele só tinha dois dentes, mas tinha vários objetos raros e longínquos. Sua conversa não era permeada de sagrado, pelo contrário, ele só dizia o óbvio. Isso tudo era inverossímil e deve assim parecer ao leitor.
Criamos um território imaginário denominado de possível: contudo, o impossível atravessa os poros do muro como um fluxo invisível e insidioso.


3.

Estávamos sentados num canto da sala. Usávamos um cobertor laranja. As pessoas pensavam que era por causa do frio.
Minhas mãos são cheias de linhas do destino, como se tudo fosse embaralhado. Uma leve sucção puxava a ponta dos meus dedos. Não existe nada mais macio e nenhum lugar mais apropriado. Queria usar esse molhado para deixar minhas impressões digitais, quando o Estado me reclamasse.
“Se você quiser mais, estou te esperando lá fora”.

5/22/2012

desvio para o vermelho, 5






Alice olha sua alma indo pelo ralo como água suja  Atravessa
a sala na diagonal sonhando com os cacos de uma consciência
estilhaçada iluminando a aproximação do nada O acontecimento
perde-se pra sempre enquanto Alice ingere 1% de veneno
em cada palavra do poema infinito que recita enquanto olha
sua alma indo pelo ralo como água suja  e atravessa a sala
na diagonal fazendo da repetição o seu discurso particular
do método infinitesimal pra se reconhecer na vida olhando
a alma indo pelo ralo como água suja ao som do sangue
em câmara lenta pelas veias na vertigem de uma dança
benzodiazepínica regada a álcool e silêncio no caleidoscópio
estilo pole dancing do seu inferninho tosco recitando um credo
incompreensível e em tempo real atravessando o quarto
na diagonal pensando na repetição como talvez o último
recurso que se pode às vezes lançar mão pra segurar a alma indo
pelo ralo como água suja enquanto atravessa a sala na diagonal
fazendo da repetição a arma cuja munição são cacos de uma
consciência vilipendiada A violência sempre há de chegar com toques
de delicadeza e Alice se equilibra sobre o arame que atravessa
a sala na diagonal olhando sua alma indo pelo ralo como água
indo  ao cume do arame sobre o picadeiro e uma plateia de tacos
gritando ‘pula’ mesmo enxergando a inimaginável altura
de seus sonhos e a rede inconsistente Alice olha sua alma indo
pelo ralo como água brusca e quer saltar quer se soltar mas
prende-se ao arame que é uma diagonal marcada no vazio
cuidadosamente entre os abismos de todas as frestas
que são leitos onde o corpo já não sente mais as sombras
que dissolvem a luz nesse presente assim sem espessura
enquanto Alice adiciona 1 grama do princípio ativo em cada palavra
do poema indo pelo ralo pelo sangue adentro pelas veias
pra inscrever no corpo uma camada ácida uma charada falsa
uma verdade brusca antes do salto mas Alice espreme
em suas mãos a massa informe de um presente espesso
e sente entre seus dedos uma gosma fina que lhe escorre
e escapa carregando o último sentido como escapa a alma indo
pelo ralo como água suja saturada de veneno e espanto

5/19/2012

Língua Epistolar

Procurando um texto meu por outros motivos, me lembrei do texto completo que sugeriu
o nome do blog:

Quando você era um deus: gestos, atitudes, o modo de andar e de olhar, indicavam as coisas em sua presença. Você não falava, não era necessário, pois tinha o dom da imortalidade das bestas-feras. Vivia sob o espanto constante das tempestades em cavernas e achava que todas as coisas estavam cheias de deuses.

Quando você era um herói: gigante brotado como semente da terra, guardava para si (excluindo disso as bestas-feras animalizadas no arado com os olhos voltados para o chão) o segredo das similitudes. Falava de um escudo com desenhos de cidades, pessoas e animais, navios e guerreiros, rios, desertos e oceanos, quando queria descrever sua cidade repleta de pessoas, animais, navios e guerreiros.

Quando você é vulgar: apenas negocia convenções, não domina os segredos, qualquer um pode dizer que árvore é o nome de uma cidade, que cidade é o nome de uma arma, que arma é um sentimento, que sentimento é o nome de um faraó. A língua epistolar é a conversa vulgar no desentendimento, mesmo que este ocasione encontros repentinos e imprevistos. É quando uma criança autista diz pra você: se o mundo gira, porque você não fica tonto?




5/18/2012

Bergsoniana

*para ler ouvindo Lips Drawing, disponível na página: http://jennyhval.com/music/other-projects/old-stuff












Dizem das possibilidades
o previsível risco na areia
antes do mar.

Meus possíveis abraçam o ar
dançam indóceis, plasmados em cores
e luzes e ventos - perfumes
e mãos
que tocam meus dentros
e rompem
estômago/útero

entranhas.

Um jorro - é você entre as vozes -
encantamento que dura e transforma o tempo
espiral de fumaça, sinal
que só nós entendemos.

Um dia, talvez,
ou nunca (é possível)
descobriremos o som
que fazemos no amor.

Um dia, talvez, ouvirei sua voz declamar
o mais longo (e louco) poema.

Um dia (talvez).

5/14/2012

Её лобовое стекло видно из моих очков

Ela festeja tanto quanto tem lazer,
Ou seja, nunca!

Quem escapa vira meu prisioneiro,
Fala de como estamos começados.

Ela me segue sob custódia,
Ou seja, à noite

quando a chuva cai com suas luvas de cera
lentes borrifadas palestram sobre
a luz de mil planetas

Ela brilha no fundo desta pupila
Que a terra prometida
(onde todos têm a voz do Chico Anysio
quando os imita)
Há de comer e sentir gosto de comida.

dirige na chuva, o sangue do clima
um de nós celebra o Gomes
que, fora do carro, não estava nem aí

Aquela mensagem no seu cheiro
De quem não te conhece:

Os que estavam aqui
Antes dos outros e seus olhos.

5/13/2012

fazer a poesia
ficar sem açucar
azedar
até ela derrapar.

colocar de lado
a menina poeta
tão poeta e linda
até ela realmente dançar.

e circular e circular e circular
por aí.

5/09/2012

É possível sair do mundo por meio das palavras, me abandonar no seu fluxo ininterrupto até que elas me levem além, tatuar-me de palavras até que a pele se torne tão leve; será que o espírito responde como um sopro das palavras, elas teriam esse poder, seriam organismos, forças
adormecidas, será que as palavras incitam sonhos e sonhos são movimentos reais para fora, uma saída, em infinito desenrolar-se da alma, respirar palavras, mover a mente em sutil moto-contínuo, serão as palavras um suficiente contra veneno, alguma coisa em que posso me recriar, me curar, ascender, descobrir,
inventar uma momentânea e ínfima redenção; será que as palavras impedirão que eu fique louco quando sopradas, jogadas contra o vento, contra os muros do mundo, contra outras palavras que aprisionam, palavras de corredor, palavras de arame farpado forjado por séculos e séculos; será que algo nas palavras algum dia vai dar em qualquer tipo de milagre, qualquer um não importando
que vocês entendam, testemunhem, acreditem, aceitem, teçam considerações, mensurem, avaliem a pertinência ou a atualidade, se há ou não experimentalismo ou estética, porque esse seria meu segredo, meu e delas e só quem respirasse com palavras pode saber o que se passa em idiotas que apenas gostariam de renascer como outra coisa qualquer,
asas;

será?

5/05/2012


Emergir do lodo mergulhando ao alto rumo a toda possível transparência, como a mente transpira, cabeça pendida apoiada nos reflexos das luzes que acompanham os olhos depois de fechados, depois de longamente observar as sombras da tarde, a vida se acumula sobre a pele que assim fica grudenta, pegajosa, como é pesado se levantar (ela sentada sozinha olhando pra varanda por horas a fio) queria levitar na direção das minhas pálpebras e assim reconquistar a leveza da mente que sabe evaporar, questão de treino, a imaginação pode ser ar soprado de dentro pra fora da cabeça, noite passada um demônio me segurava tentando me impedir de pegar a cruz de madeira pendurada na parede, então ateus também não têm direito de benzer os demônios que tentam nos manter grudados nos móveis do apartamento, o sangue dos demônios é feito de lágrima.
Mãe quero colher suas lágrimas e fazê-las evaporar como os demônios inexistentes que atormentam nossos pesadelos reais evaporam com a leveza de olhos abertos para a luz oblíqua de um dia que nasce. Como é pesada a realidade, quero cobrir o mundo com um véu transparente que não produza ilusões mas faça tudo voar, voar com a mente acesa, um incenso de perfume e perdão.
Nada de recomeçar, apenas esquecer.

5/03/2012

Trevosa (no fim do mundo)

(1) A (doravante assim chamada por codinome) Trevosa é ateia. Isso a aproxima de mim, que não respeito o sentimento alheio e vejo em todo relacionamento, como nas pessoas, a marca de sua morte. (2) Traz a lembrança dela sentimento misturado, uma imprecisão. Um aroma acre. De um lado, sei que ela não me entende. E nem faz força pra fingir querer. De outro, é mortalmente carente, quer ser amada em cada poro - não necessariamente por mim, claro. Mas essa indiferença me estimula, faz pensar que meus jogos de sempre com quem me valoriza dessa vez não são aplicáveis, meu leito de Procusto. Posso vê-la mais como ela é na medida em que ela se furta a mim. (3) Por outro lado, com ela estou em pleno adultério, e a Clara que me ama também é diferente de outra forma. Arrumei meios de não cansar dela, eu a mantive. Dessa sou eu a divergir, a me furtar de sua crença em nós dois. Daí eu estar usando esse texto, perdido em algum lugar, pra dizer o que não posso ser lido por ninguém que eu conheça sabendo que sou quem escreve. E a Trevosa não teria o menor interesse em lê-lo. Ela é inculta, não compreende termos ligados à sua própria cultura (como diabos pode uma trevosa não saber o que é "esquife"?) e não tem paciência para ouvir uma música por mais de três minutos. Claro, ainda por cima é mais nova do que eu. Preciso lembrar de seu aniversário. (4) Engraçado como o "io" no final de "aniversário" assemelha-se gráfica e foneticamente à letra "ю" do alfabeto cirílico. Um comentárю como esse renderia o mais solene bocejo da boca perfurada da Trevosa. Mas eu escrevo: relicárю, aniversárю, otárю. Seu aniversárю, portanto, é no quadrado de meu número de sorte, o 5. Bobagens que eu mantenho na cabeça pra tentar lembrar dela como um todo, algum todo - pelo menos o plano matemático inteiro, como pode ser subentendido num simples algarismo. Ó grande número escrito no muro... (5) Sobre a Clara, eu lembrei agora de uma estória. Assim que terminamos, ela virou evangélica. Não uma evangélica qualquer, mas daquelas que têm blog, divulgam a palavra de Deus e são militantes no conservadorismo. Pois bem, depois de tudo consumado, eu e Trevosa nos juntamos. Tivemos um filho, que ambos concordamos chamar de Nereu. Dada minha avançada idade e a marca do fim em todas as coisas, morri. No céu, encontrei a Clara. Ela estava na beira de uma praia linda, numa alvorada, toda vestida de branco. Sentei a seu lado. Ela, toda feliz, disse com intimidade: "viu, seu teimoso atrabiliárю, como Deus existe?" e respondi "existe nada, olhe pra esse lado: somos apenas personagens de um conto escrito num pedaço de papel por alguém com saudades da Trevosa".

5/01/2012

desvio para o vermelho, 3


 (obra de Martin Creed, na Tate)


e sem despertar do sonho Alice está num campo
minado Sábios desenrolam palavras como  papiros
em mesas de madrepérola e laca mas suas vozes
não cantam nada além de um falso estupor falso
boulevard crivado de neons onde os paralelos
estão cobertos de strass [engalanados] enquanto
eles sentem que o verso é desdobrar fibra por fibra
o coração do poema sonhando com os fios tensos
que atravessam os vãos em alta freqüência  até
o limite da dor ou seja do pensamento ou seja
do poema ou seja daquilo que se possa chamar
de sentido no mergulho do sublime Alice rabisca
à margem palavras que foram tatuadas no corpo
bem dentro [na pele dos dias] palavras que não re-
presentam nada, apenas são e emergem do fundo
trazendo bile sangue carne secreções sob o olhar
disléxico da musa anoréxica do fracasso inesperado
da palavra Os sábios fazem posições nos bailes
da corte entre perucas maquiagens e violas
de gamba de onde saem guitarras elétricas de onde
saem telas iluminadas de onde saem luvas de pelica
de onde saem céus galvanizados de onde saem sons
de apocalipse  de onde sai a trombeta do anjo
vingador de onde sai criptonita de onde saem
labaredas de onde saem sintetizadores de onde saem
carreiras de pó na madrugada branca de onde saem
poetas raspando à unha o ouro das molduras
para enfeitar suas lombadas suas noites suas
metáforas suas vozes sua estese seu lugar nenhum

4/29/2012


Uma presença incerta, algo como um calafrio, uma visita inesperada. Olho pro teto: um pequeno cubo luminoso, semelhante a uma cigarreira com figuras humanas de perfil: azul claro em meio à escuridão. Digo: “não tenho medo e nem odeio”. Do cubo começam a cair pequenos losangos coloridos. Quantas cores: azul, verde, vermelho, amarelo: cada losango se abre e dele saem novos e menores losangos de cores diferentes: lilás, cinza, laranja, branco. É tudo tão lento: os losangos parecem se mover como se fossem animais marinhos, polvos abrindo seus tentáculos e procriando vidas de seda. Antes de os losangos desaparecerem ao tocar meu rosto, novos e novos se abrem, sempre menores – e cada vez mais coloridos. Uma sensação de tranqüilidade: ou a presença se foi ou ela se dissolveu em meu rosto, que brilha suavemente na escuridão enquanto desapareço.

4/28/2012




o ritual preparatório da ginasta abramovic é muito intenso poucos suportam alguns voltaram esquálidos ganhadora da medalha de ouro do silêncio na última exposição pública internacional do MOMA ela ficou sentada calada sentada ereta eu olhava ela sentada sentada ela se prepara para a vida com dor.

e finalmente o doente terminal do hospital da esquina foi desligado dos aparelhos e com alta dose de morfina terminou sozinho sua morte.
O que passa por estas tubulações, de apartamento a apartamento, de edifício a edifício

canalizado por dentro de onde vem

o ódio, vem o medo. De minhas pernas vão brotando raízes e um sujeito se enredando em sua própria e alheia seiva envenenada caminhar é cada vez mais difícil.

Um justiceiro a cada esquina e você de refém

do espírito da época.

Há um estranho arco-íris brotando de sua boca, alguma coisa mais com a cara

de uma falha no sinal da televisão. Alguma coisa assim parecida com a sopa primordial de onde algum dia quem sabe brotará

a vida – se rolar um seqüestro um

relâmpago.




4/27/2012

Seu Cu



Eu nunca pude lembrar de você.
Nem no instante em que te via
As imagens encaixavam.
Não sabia o que dizer
Quando perguntavam se você era bonita.
Porque você mesma, completa, inteira,
Não havia.

Seu nariz violenta a dimensão
Dos olhos, pincelados a esmo no oliva do rosto.
Os quadris puxam duas pernas
Pelas tribais entre serpentes,
Aparentando grande esforço.
Teu torso tem tal textura ao toque,
As coxas têm outra -
Seu aço cirúrgico fura a carne
Sugerindo ligações galvânicas
Com traçados que os relâmpagos não repetem direito

E o coração
É alado, tatuado no peito.

O resultado, que se pode ver nas fotos
Cada vez é diferente, de repente
Toma a frente um elemento
E rearranja de imediato todo o resto.

E assim ia a coisa
Até que um dia
Depois de abraços e sorrisos
Seus multilábios disseram, molhados:

"Olha,
Esse é meu cu."

Impedindo, deixando,
Contraindo, relaxando,
Fez sentir aquele pequeno trecho
Cada reflexo a manter unidos os gemidos de seus mil pedaços.
Do veludo eriçado da nuca em crepúsculo atrás das costas aos espasmos da mão na buceta, dos saltos de fôlego aos movimentos difíceis das pernas em decúbito, seu cu dava notícia, transmitia em ondas as mais sutis variações. Os fluxos nervosos de todo o seu corpo começam e terminam nessas bordas, e com o desabrochar das dobras pude sentir lá no fundo, pulsando como um centro de estrela, todo o amor que lhe faltava.

E ainda falta.

Mas hoje eu sei do que lembrar
Quando penso em você
Comprando pão na padaria
Rindo do espanto de quem fica te olhando
Pulando na pista que nem louca
Aos berros no meu ouvido
Dizendo ser minha amiga

Seus olhos rascunham um soslaio
Sua boca é um talho de cutelo
Onde os raios metálicos constelam sem jeito
O coração exangue desbotando sobre o peito
Mal-entendidos, polêmicas, revertérios
Serpentes nas pernas à deriva

É tudo uma grande zona.

Mas seu lindo cu
Sua malva sensitiva
É meu ponto de fuga
Que põe sua alma em perspectiva.

4/26/2012

TFC

Eu acho que foi de propósito
Eu sei que ela sabe de fato

Passei meses debruçado
Sobre sua indiferença. Ela (1),

Que com seus vários problemas
Vive o paraíso da minha ignorância,

Olha pro lado
Como os garçons que chamo

(Se eu te chamar, venha)

Você não está preso no rodapé
De uma






















_______________________________
1 - Tradutora feminista canadense.

4/25/2012

DEDICADO A VOCÊ

Quando leio no meu mural
você dizendo
sau
da
des
aqui em casa Johnny Hartman
canta na maior precisão
algo que adocica a
dor todo talento assim dedicado às
coisas do coração e
nada fica igual naquela voz porque os
volteios cada nota se funde e
ecoa o sax de Coltrane
tudo parece agora dedicado a você.

Quando leio no meu mural
você dizendo saudades o
 tom macio daquelas vogais parece
uma menina de patins
deslizando macias as
rodas virando suave para parar e
voltar mais uma vez o
amor crescendo pelos ares e
portas faz tudo movimentar a
canção parece que sente
aqui em casa sinto o
vento agora no Rio
alto verão e muito calor.

4/23/2012

desvio para o vermelho, 2

(Desvio para o vermelho, de Cildo Meirelles)



Alice voltou do sonho mais completamente
só do que antes Ela veio atravessando o vazio
entre dois desertos e sem achar ninguém que lhe dissesse
bem-vinda O mundo estava resumido a poucas palavras
e o sonho não era mais um lugar pra onde
se voltasse Ninguém para comunicar as decifrações
elaboradas a punho, perdendo sangue, nem o amor
de sua vida, deitado ao seu lado, num universo
paralelo Ainda lhe dói o estrago da grande explosão
mesmo que o seu ruído agora se confunda ao mínimo
arrulhar dos pombos e seu brilho não passe de um desvio
no espectro, imperceptível sem equipamentos pesados,
como cabe a qualquer passado Neste dia Alice cruzou as pontes
incineradas do sonho e passou a contar os anos aos pares até
montar peça por peça o espólio do incêndio, o seu museu
portátil, sua história natural
Vestir este leve dourado
Cintilante
Como um véu

Sobre os olhos.

A luz que atravessa
As nuvens
Prestes a irromper em chuva.

Desejo cegar
Os meus olhos
Nessas asas translúcidas
Do poente

Não quero mais ver
Ouvir
Essas mandíbulas de formiga
Mastigando rancor
À sombra da estátua de uma andorinha
Obesa.

Quero me enxugar
Do lodo cuspido por tais
Almas. Que fiquem
Em seus corredores
Remoendo, dizendo
Sins e nãos
Com as mãos.

Que sequem as lágrimas
Com a terra impura
De seu terreno
Baldio.

Meus olhos serão minhas lentes –
Não vou me salvar

Mas não ouvirei seus lamentos
E aplausos
Ranhetas
À sombra da tarde, do ocaso
Da vida.

4/19/2012

Movi-Nove

Ó grande número
Escrito no muro
Tonto te embrenhas na área útil
Tantos convergem num tijolo único
E o carinho das margens intrépidas
Puxa ao centro sua paisagem
Escora o esquife pra grande viagem
E espalha a lembrança
Pra além do seu destino

Número que eu conto que encontro com amor
Tenho fome mais velha de te contar
E nesse sonho sou herói
Encarei até a lua
Na espera de uma soma
Tumba onde pareceu
Que pereceu o seu contrato
Morto de fome como um rato
Ainda adoro vesti-lo sem conta:
O embonecado.

4/18/2012

desvio para o vermelho



(my red homeland - anish kapoor)





Alice não tem mais tempo Senta no chão
e chora Suas lentes estão gastas desde que o Outono
desfez-se como um pesar sobre a natureza Ela
não tem mais tempo e mesmo assim gostaria
de ouvir o rugido que vem das estrelas ou
do espaço entre elas ou não se sabe de que
nenhures vem este rumor que se confunde com a cidade
trincando suas engrenagens enquanto
as galáxias se afastam com ela no centro
sem endereço fixo vendo as estrelas indo embora
como efeitos locais de tanta espera e inventando
teorias pinçadas do se que observa nos escombros
de ser quem é Alice não tem mais tempo Ela
permanece olhando o passado em estilhaços
que são espelhos que fogem com as galáxias
pra dentro de si mesmos apagando pistas Ela
senta no chão e chora cada descoberta como
o acidente de estar no centro e só enquanto
as luzes se afastam antes que se pudesse definir
de onde vem a sua urgência Ela não tem mais tempo
e os pombos não podem mais voar Não podem mais
levar nenhuma carta

4/15/2012



Quem disse
que é preciso atenção?

A Elza soa para
ninguém,
e eu, balbucio para poucos:
vivo nos cantos,
nas paredes,
Gregor Samsa afeminado
clamando pelo pai.

E ele:
nada.
(Ele nadava cinco piscinas
e me mandava ficar calada)

Sou voz

- escondida -

na porta do armário,
presa pelo meio,
mordida pela metade,
gosma branca,
cicatriz.

E você?

ideia fixa




Não sei porque este vício de arrumar, não
as coisas, que estas nunca se prestam ao
desejo de ordem, previsão total,
sentido, mas às palavras que nos dão

notícias delas, sempre vagas , no espaço
de catorze versos, dois quartetos, dois
tercetos, feito uma engrenagem que mói
tudo o que processa em métrica e em compasso

antes determinados, numa ficção
que a gente chama ‘escolha’, ‘vontade’, ‘arbítrio’,
e logo se desdobra em outra, esta aqui,

da forma fixa sobre o mundo, ilusão
que inflama em quem escreve um sonho, o delírio
de ter nas mãos o destino, o seu devir.

4/14/2012

O medo de ficar só é que so

mente ninguém nunca fica só, tantas estrelas – má sina – ocultas detrás

do sol.

quando vocês falam, me calo – me calo as vozes que falam comigo, calando
fundo – quem são vocês, que demônios cultivei

em mim, ou cultivaram mãos alheias, vozes estranhas, quando estou
na balbúrdia do dia elas se calam, quando vocês falam

papo água, tagarelice, tudo é melhor que este silêncio povoado

de vozes – estrelas de má sina, absinto, quando me fecho em meu silêncio – quando acordo

como são acordados os insones – quero dormir ao lado de vocês, sonhar como se eu fosse um estranho a mim mesmo, ausente

mandem notícias

estas vozes me corroem por dentro, estrelas de lodo sobre meu isolamento, vozes grudadas na parede, vozes de mortos

amados pelas ruas, presença sinistra à minha sombra, estrela de má sina, desgraça de não ser um

só.

4/11/2012

désir







mover as mãos delicadas
japanese
Butterfly

olhar par des yeux
bleus
de Bovary

gingar o corpo
afrobrasileira
mente

brincar
tupi
guarani

devir
um brinquedo
colorido

e seu menino

vibrar
corda de violino esticada
véu desmanchado em cachoeira alta
que se espalha em minúsculas gotas
até misturar-se às folhas, flores, animais

não-ser

esquecer.



?




Se Deus é justo
- ou se a Justiça existe -
porque as crianças sofrem?

É isso o que nos perguntam
os gritos infantis da madrugada.
É isso o que nos chega aos olhos
quando o sangue
- pisado -
salta das pequenas faces
que dançam ao nosso lado.
É isso o que nos assombra os ossos
quando sentimos seus pequenos vultos
- esfomeados -
nas janelas e nas calçadas.

É essa a pergunta sem resposta. 

Ficando racional

Você fica racional, não
De uma hora pra outra, é preciso
Deixar o lodo se espalhar nas paredes
Do crânio

Escavar –

Cada semente alucinada é como se fosse
Uma idéia

Ele e ela são duas caixas de fósforo
Trocando olhares – você os interrompe
Chacoalha – confere – as caixas
Estão quase vazias:

Isso é o que chamamos de método.

4/07/2012

A sanfona fumegante. Um testemunho.

Não acredito, de novo parabéns pra você vindo dos vizinhos. São mulheres cantando: vozes de coro de igreja encefálica, de lavadoras de roupa asfáltico-esquelética, de gralhas roxas. Eu fecho os olhos e é como se a luz continuasse por dentro das pálpebras. Elas têm sangue, as pálpebras, e no entanto nunca vi um vampiro que as mordesse. Não faço questão de dizer que sou feliz, como as velhas do apartamento vizinho. Seriam bruxas? Suas vozes dançam na névoa que eu mesmo criei pra me esquecer que isso tudo é real. Elas gostam de canções românticas e uma delas, em especial, parece acreditar que canta bem. As outras aplaudem. Quero mergulhar no blues. Não sei o que o sol vem fazer em Brasília, num sábado à tarde. Eu também gosto de canções românticas, mas outras. Do tipo que ninguém ouve. Eu queria casar bem cedo, Manuela – o som picotado porque o cd é pirata e a gravação é vagabunda.

Minha coluna vertebral sopra alguma coisa no meu crânio, meu cérebro é um balão, um anjo acaba de se achegar e tragar a fumaça que sai de minha orelha. As vozes das velhas cantando parabéns para você é um revestimento melancólico para o meu balão que voa por Brasília – literalmente, já que moro no terceiro andar. Isso é o que me faz pensar na palavra enfurecido. A fúria é alguma coisa queimando na cabeça, produzindo fumaça. Começo a me irritar com o som que não funciona, sopro fumaça pela orelha, os anjos devem usar isso pra poder cantar em algum lugar que não aqui e então, se não posso dizer que estou exatamente calmo, estou leve como quem voasse pro ar rarefeito onde a calma repousa.

Me chamem de e.t, sem noção, lugar-comum, gasparzinho o fantasma camarada.

4/01/2012

entre os demais





todo o tempo esperando
esperando através dos dez mil dias que você passou
sozinho esperando
um deus atravessar o quarto iluminando o verso
perfeito esperando mesmo
sabendo que ele não vem completamente
só esperando com algo belo
nas mãos dentro das 4 linhas e sem saber
o que fazer quando o adversário estiver parado
esperando você no meio
do ringue