Eu nunca pude lembrar de você.
Nem no instante em que te via
As imagens encaixavam.
Não sabia o que dizer
Quando perguntavam se você era bonita.
Porque você mesma, completa, inteira,
Não havia.
Seu nariz violenta a dimensão
Dos olhos, pincelados a esmo no oliva do rosto.
Os quadris puxam duas pernas
Pelas tribais entre serpentes,
Aparentando grande esforço.
Teu torso tem tal textura ao toque,
As coxas têm outra -
Seu aço cirúrgico fura a carne
Sugerindo ligações galvânicas
Com traçados que os relâmpagos não repetem direito
E o coração
É alado, tatuado no peito.
O resultado, que se pode ver nas fotos
Cada vez é diferente, de repente
Toma a frente um elemento
E rearranja de imediato todo o resto.
E assim ia a coisa
Até que um dia
Depois de abraços e sorrisos
Seus multilábios disseram, molhados:
"Olha,
Esse é meu cu."
Impedindo, deixando,
Contraindo, relaxando,
Fez sentir aquele pequeno trecho
Cada reflexo a manter unidos os gemidos de seus mil pedaços.
Do veludo eriçado da nuca em crepúsculo atrás das costas aos espasmos da mão na buceta, dos saltos de fôlego aos movimentos difíceis das pernas em decúbito, seu cu dava notícia, transmitia em ondas as mais sutis variações. Os fluxos nervosos de todo o seu corpo começam e terminam nessas bordas, e com o desabrochar das dobras pude sentir lá no fundo, pulsando como um centro de estrela, todo o amor que lhe faltava.
E ainda falta.
Mas hoje eu sei do que lembrar
Quando penso em você
Comprando pão na padaria
Rindo do espanto de quem fica te olhando
Pulando na pista que nem louca
Aos berros no meu ouvido
Dizendo ser minha amiga
Seus olhos rascunham um soslaio
Sua boca é um talho de cutelo
Onde os raios metálicos constelam sem jeito
O coração exangue desbotando sobre o peito
Mal-entendidos, polêmicas, revertérios
Serpentes nas pernas à deriva
É tudo uma grande zona.
Mas seu lindo cu
Sua malva sensitiva
É meu ponto de fuga
Que põe sua alma em perspectiva.