8/31/2008

prosa rala



Fui diluindo a idéia de seu corpo
no céu do meu tesão: assim fiz, tanto
que congelei, no lastro dos enganos,
o fogo que me ardia em dias mornos.
Não sei em que se funda o gesto humano
de amar alguém, porque estando absorto
neste exercício vago armei um curso
e arremessei a quilha já sem planos
até errar de labirinto - o amor
perdeu-se nos desvios da cidade,
vários desvarios, e a noite está de
acordo, ou parece estar, que a tor-
turante cilada que ronda a carne
insana de quem ama nunca é arte.

8/21/2008

nº 81




Mundo estranho, miragens
em movimento sob o sol
natural, vasto mundo plano
e você deu tantas voltas ao redor
sem perceber qualquer falha, seguindo
sem cosmologias no universo
circunstancial, acidental (“se calhar,
se calhar
”, alguém disse), restando
amorfo como este século de luzes
intermitentes, ou como quem errou
de endereço indo ao lugar
certo, ou devorando miragens
à margem de todo sentimento,
em larga escala, em alta
rotatividade, ou bancando
um vinho forte para cada alma
que sobrou dentro de sua cabeça
depois do desastre.
(das "Notas Marginais")
Um cafezinho
Com ódio de manhã.

Porretes quânticos
E místicos oferecendo
Muita, muita dettera
Pra adoçar com vidro
O café velho e requentado
Após o almoço.

(Notícias dão conta
De que o segredo do vidro
Mais transparente
Que toda a lucidez
Das furadeiras elétricas

É que o vidro inexiste se
Dilata e se vomita
Em nossas mentes
E nossos corpos)

8/17/2008

mais um lance




Descendo mais um lance em espiral
da escada, traço rápido um grafite
com um sorriso do gato de Alice
- enigmático e superficial -
simulando um motivo metafísico
no que risquei, afastado da arte,
nessas paredes. Não: é só da carne
que falo, mesmo escondido num mínimo
enigma e agarrado ao corrimão
no mergulho áspero rumo ao centro
inatingível, sem provar qualquer
profundidade, luminosa ou não,
nas coisas - e a escada vai descendo
abrupta e sem volta como viver.

Melancolia é a musa que come uma esfirra de carne (e tem o cerrado como paisagem)

A mensagem está gravada
No balcão de fórmica vermelha:



"Cale a boca como quem respira
O mistério

Mergulhado em seu silêncio
Se deixe levar
No maravilhoso território
Dos martelos e das rodas dentadas,
Das tosses e do rumor
Confuso dos pássaros etiquetados,
Do bater dos carimbos nos papéis que descansam
Como folhas mortas.

Não corra, não se atropele
Não faça como aqueles que despertam
As folhas em redemoinhos insanos
Espirais de ruídos, feridos desejos vivos
Tagarelice viscosa de
Pessoas mortas que falam,

Ausentes ou distantes como você –
Blasé de ponto de ônibus
Remoendo seu silêncio."

8/13/2008

circunstância, 2




Você não vem novamente. Alegou,
por último, qualquer outra razão
que tenta demonstrar que as coisas são
como devem, e elas, no fundo, estou-
ram à frente de nossos olhos sem
motivo que explique o repetido
espetáculo banal, sem estilo,
desta fantasmagórica miragem.
Sua cidade e a minha ainda seguem
no seu ritmo - eu não: me afundo mais
na anestesia ácida que o corpo
arranca dos hormônios em vertigens
provisórias e circunstanciais,
bem como dos poemas e do amor.

8/12/2008

em torno de




Tempo demais perdido nestes versos,
sua passagem traçando novas linhas
em folhas que foram brancas e em certos
lugares por onde nunca andei - minhas
certezas de então, ilusões, desejos,
sonhos sem chão que um dia os apoiasse,
ainda vibram, turvos mais que plenos,
entre as letras sem rumo, quer me atrase
ou não para jogar todas as fichas
na banca do destino, crupiê
ou gigolô, não sei, enquanto ouço
ela dizer “meu bem, coma as salsichas
antes que esfriem!
”, sem me entender
ou à vida, este calabouço doce.

8/08/2008

Mais um da série Livros Insanos e Proféticos. Hoje, com vocês: A Terceira Guerra Mundial; por: General Sir John Hackett e outros generais

"Na sociedade mais viciada em televisão da Europa, o Reino Unido, o vídeo desempenhou um papel curiosamente discreto. Em 1985 ele havia se tornado, sob todos os aspectos, a principal fonte de informação e de entretenimento para o povo. Os vários sistemas de dados tele-impressos que à aquela altura se haviam tornado lugar-comum haviam-lhe emprestado a dimensão de um jornal diário, desenvolvimento esse que enfraqueceu ainda mais o impacto da imprensa escrita. Quando a guerra chegou, o público voltou-se para a televisão para obter notícias, orientação e informação, bem como a obtenção daquele MÌNIMO DE ENTRETENIMENTO do qual o espírito humano, por mais perto que esteja da CATÀSTROFE, tem necessidade. As primeiras, as organizações de televisão podiam fornecer copiosamente. Durante os primeiros dias de luta os vídeos foram entregues quase que inteiramente a programas noticiosos, entremeados com mensagens a respeito de assuntos como racionamento e evacuação. Havia também freqüentes discursos de líderes governamentais.

Nessa área, as televisões pisavam em terra firme, porém seu toque era muito menos seguro quando se tratava de entretenimento. Recaíram, a princípio, na música, tocada por trás de cartões com os títulos. Porém, a moderna música do ROCK parecia estranhamente deslocada. O entretenimento leve e a comédia escrachada soavam como notas falsas que, depois de um canal após outro ter usado como forma de alívio para a tristeza reinante, foram abruptamente abandonados. Uma estação regional britânica recebeu reação imediata e calorosamente entusiasta quando passou sem relutância para grandes quantidades de música francamente patriótica. Porém, há um limite para o número de vezes que até mesmo a BOSSA NOVA pode ser tocada num espaço de 24 horas. Uma solução logo encontrada foi a exploração de novelas sentimentais. Reapresentações de Rua do Coração e Encruzilhada foram excepcionalmente bem aceitas, talvez por relembrarem a normalidade que outrora existia e que, com sorte, voltaria a existir novamente. E os filmes de faroeste, aquele indestrutível bastião da televisão desde os seus primeiros dias, também foram bem aceitos na guerra, com sua receita de fantasia baseada na realidade e suas confortadoras mensagens de que, no fim, os bons e os justos sempre triunfam."

8/03/2008

Opereta (pra ser encenada em qualquer hotel)

Ubu-Estilista entra no saguão do Uberplace. Oito olhos na cabeça grande, muitas bocas, línguas grandes, cabelo arrepiado. Sobe lentamente pela escada. Em cada andar deixa um dos seus quatro pares de óculos escuros, como se fossem oferendas e ele um tipo de sacerdote. No quinto andar entra na Suíte Penitencial e da varanda proclama, naquele ritmo tipicamente papal, de canto falado:
- Vocês sabiam que:
- Pobre prefere pepsi-cola porque é mais doce?
- A classe média prefere o amargo
Da coca-cola?
- Os 2 princípios são a sanca e a cerca elétrica? Os pequenos e escuros labirintos?
- Certas perguntas não devem ser feitas num açougue?




Nas outras varandas surgem as Capivaras, usando bigodinhos à Castro Alves, vestidas como aquelas crianças da serenata de natal:
- Ó preclaro mecenas, prometemos:
- Estourar miolos de estudantes. Celebrar nossos aniversários bêbados, caídos em frente às padarias. Mostrar nossas certidões de nascimento à polícia.




Ubu-Estilista responde:
- Que figuras exemplares!
- Vocês levarão dois brindes: um círculo dourado (no formato de um dos andares do inferno) com o desenho de um mapa em traços negros. O mapa da mina pra vocês, soldados rasos, pendurarem no pescoço. E ainda mais, um grosso e reluzente supositório da Unimed, no modelo Maiêutica a Fórceps.




Uma das capivaras responde, depois de limpar os restos de strogonoff de frango do bigode:
- Magnífico, sempre sonhei com esse dia top de linha, com secretárias obesas que guardam poemas nas gavetas, desde minha infância imito o típico rastejar do calango do Planalto Central, nada me impede de, um pouco mais colado ao chão, chegar ao nível da lagartixa, tenho minh’alma carimbada pelas flores espinhosas do cerrado.



Ubu-Estilista encerra a cerimônia:
- Vocês têm um grande futuro pela frente, eu barganho com o presente. Quando aqui cheguei, esta merda era só estrada de terra. Nenhum clubezinho sequer. Com minhas mãos comecei a cavar esta vala, quer dizer lavar este vale, quer dizer gravar esta mala que vocês de hoje em diante carregarão, sempre mais fundo, cavando uma boquinha se me permitem a expressão. Só não vos chamo de cordeiros porque cordeiros são apetitosos e não causam ânsia de vômito.

7/30/2008

mandala




como um cachorro amarrado a um poste
por seu dono, como um cachorro preso
à trilha circular onde há um mesmo
rolar das horas até que o estoque
do tempo esgote, enfim, pulando casas
como um dado fadado a uma roleta
já viciada, assim como a cabeça
na vertigem de orbitar desusadas
trilhas, pela emoção mortal do salto
no abismo, e como se ainda voltando
a de novo saltar e querer nos
círculos infinitos, quando calmo,
apagar o sentido dispersando
quintessências no quinto dos infernos

7/28/2008

Miragem

Quê de arte existe
no ponto misterioso
onde me encontro?

A vida observa,
- estática -
o tempo que corre
circundando-me
cada vez mais rápido
cada vez mais rápido
cada vez mais rápido.

Os deuses riem,
e apontam seus dedos longos
bem para o meio de minha testa molhada.

Sopros de vida acordam-me.

Sou mãemulheresposa,
again.

O espelho nega.

Nega o espelho.

Again,
esposamulhermãe sou.

Me acordam vida de sopro.

Molhada testa minha de meio o para bem
Longos dedos seus apontam e
Riem deuses os.

Rápidos mais vez cada
rápidos mais vez cada
rápidos mais vez cada
me circundando
corre que tempo o
- estática -
observa vida a.

Encontro-me onde?
Misterioso ponto no
existe arte de quê.

7/24/2008

Digressões sobre a Lei Seca (ou O sujeito não tem carro)

1.
viva a bebida
chuva
amiga
de todos
os bêbados

viva a bebida
amarga
fadiga
viúva
de todos
os bêbados

viva a bebida
mãe
irmã
namorada
sogra e tia
de toda
a humanidade


2.
Nunca fiz um poema
Bêbado
Nunca fiz um poema
Sóbrio

Se estou sóbrio
O poema é bêbado
Se estou bêbado
O poema é sóbrio

Baudelaire já dizia
Hay muchos años atrás
Embriagai-vos
De vinho vício ou virtude

Eu corrijo:
Virtude é engano
Vício é pretensão
Só o vinho é real
Concreto e verdadeiro!


3. Aproximação a Homero:

Mar, cor de
Verde
Caipirinha


4.
Difícil é andar
se se está mareado
sobre a, da praia,
areia.

Como bolhas
saem as palavras,
quando, com o mar
na garganta, fala-se.

Entre coqueiros
o ar, circulando,
é aquário,
se se está mareado.

Meu nome,
o mar sabe,
quando estou mareado.


5. Aproximação a Pessoa:

Não sei se o mel
Do seu coração
É ilusão do azedo:

Com a cachaça
E o limão
Retempero meu medo.


6.
Puseram limão
No estruturalismo
Cachaça
No pós-modernismo,
Gelo e açúcar
Na lista de citações

A verdade talvez mergulhe
Em sua meiga embriaguez.

7.
A cidade se banha
no azul líquido
das televisões.

- noite de domingo –
nos bares
bêbados recordam
suas antigas noivas.

7/20/2008

Liquidação



O tempo,como uma etiqueta, cai
indiferente, preso ao pé da alma
perdida em seu departamento. Sai
do fundo desta loja a sempre falsa
balbúrdia insana que irradiam tantas
bugigangas, imóveis ou não, só
a esperar das etiquetas brancas
novos sentidos, não apenas pó,
o que acumula sobre as superfícies
quando o tempo desaba, ainda que
pareça imóvel etiqueta e ria
ao pé das coisas tontas, insensíveis,
mudas: nunca se perguntam porque
essa luz fria instala o eterno dia.

7/19/2008

Aproximação a um poema de Creeley

Eu cresço entre tensões
como flores
num bosque onde
ninguém põe os pés.

Cada ferida é perfeita,
fecha-se num minúsculo
botão imperceptível
doendo fundo.

A dor é uma flor como esta
como aquela
como esta
como aquela.

7/13/2008

nº 4




Olhos que perseguem a urdidura do caos e, desembainhado o punhal,
a cega mão o agita excessivamente - mas é tarde.
Foi-se o presente em delicado papel depositado, posto que
nada de novo funda os horizontes vastos.
Entre esperança e memória
só uma imprecisão é o que nos define. Você não sabe qual perversão desenvolveu
o tempo
e se esta autoriza tão grande inconseqüência e a banalidade
das horas.


(das "Notas Marginais").

7/11/2008

a folga, a estante, o pó e o calcanhar



(ainda estou de folga
8h30 e ergo da cama
em sobressalto.
quero dizer algo como se o amor
não valha a pena
ou mesmo, talvez, não exista.
após tomar café,
vou tirar o pó
da estante e abro aleatoriamente
o livro do nauro na página 223:
e eis que:)

BRASÃO

Sem ninguém para amar é feliz a alma.
Sobre ela a funda e igual noite descer
ainda mais fundo que um túmulo pode:
pode feliz descer a noite nela.

Não amar ninguém: um bicho amar e, ao menos,
nesta infelicidade de uma só alma
ter a certeza - ao menos - de amar poder!
Mas nada amar. Ser como um rio só.

Ser do rio as águas do mar. Ser do peixe
o instante dele. Da água, o esquecimento.
Nada amar pode a alma que feliz é.
Sem nada amar, pode a alma se esquecer.


(Nauro Machado, O Calcanhar do Humano)

nº5




(Qualquer espaço é contra o espírito, extensão e ausência de sentido
- mas sem ele como há de ser a dança?
O espírito se agita no não-espírito, de onde vaza
toda tensão do movimento, a dança, caminho perene. Almas de dervixe,
carne acesa e pedra, pulsares de granito,
labaredas, por onde você vai.
)
(das "Notas Marginais")

7/10/2008

Da primeira metodologia: colagem de vestígios

A história do Brasil em 4 monólogos:



No primeiro, Graciliano Ramos fantasiado de prefeito lê um trecho de seu relatório. No último, Dyonélio Machado travestido de Dr Oito-Olhos avalia a situação, lendo o seu Uma Definição Biológica do Crime. No meio, Vidas Secas e O Louco do Cati.


1. Cuidei bastante da limpeza pública. As ruas estão varridas, retirei da cidade o lixo acumulado pelas gerações que por aqui passaram; incinerei monturos imensos, que a Prefeitura não tinha recursos suficientes para remover. Houve lamúrias e reclamações por se haver mexido no cisco preciosamente guardado no fundo dos quintais, lamúrias, reclamações e ameaças porque mandei matar algumas centenas de cães vagabundos; lamúrias, reclamações, ameaças, guinchos, berros e coices dos fazendeiros que viram bichos nas praças.


2. A cachorra espiou o dono desconfiada, enroscou-se no tronco e foi-se desviando até ficar no outro lado da árvore, agachada e arisca, mostrando apenas as pupilas negras. Aborrecido com esta manobra, o prefeito de Palmeira dos Índios saltou a janela, esgueirou-se ao longo da cerca do curral, deteve-se no mourão do canto e levou de novo a arma ao rosto. Como o animal estivesse de frente e não apresentasse bom alvo, adiantou-se mais alguns passos. Ao chegar às catingueiras, modificou a pontaria e puxou o gatilho. Baleia saiu depois sem destino, aos pulos. Defronte do carro de bois faltou-lhe a perna traseira. E, perdendo muito sangue, andou como gente, em dois pés, arrastando com dificuldade a parte posterior do corpo.



3. Agora: só poderia ser um cachorro fantástico. Bem que sentira sempre a sua sofreguidão canina, quando engolia o seu tassalho de carne... os seus silêncios invencíveis de cão... uma vez que fora encerrado num quarto – como um cachorro! Entrava como um cão na crise da sua vida. Avançando, num trote e ladeado, ia pondo os olhos nas flores – mas uns olhos muito deslavados, de cão. Nem valia a pena lutar – ou fugir, como sempre vinha fazendo, como o fizera ali ainda no meio do campo, na véspera, diante do vulto negro que tinha uma capa negra – e que lhe lembrara aqueles outros homens vestidos de preto, de dólmãs pretos onde luziam reflexos metálicos de botões, ou de dólmãs pretos ensopados de sangue.




4. Em todos esses casos, fica comprovado que o delito entre os animais, como no homem, é o efeito de ‘tendências individuais’, não representa o resultado de um ‘instinto específico e geral’, manifesta-se num ou dois indivíduos dentre cem da mesma espécie, sofre o impulso de vários móveis psicológicos ou patológicos. Mesmo o modo de execução do crime oferece a variedade que se encontra entre os delinqüentes humanos: animais existem que empregam a violência, outros a insídia, alguns se contentam com a simples eliminação da vítima, muitos levam a sua ferocidade até a sevícia do cadáver e ao canibalismo. A própria cumplicidade consciente e criminosa entre vários indívíduos de uma mesma espécie animal já foi observada. Encontram-se, com efeito, verdadeiras associações de malfeitores entre os animais. Figuier narra o caso de três castores que se associaram para matar um quarto companheiro; e exemplo semelhante é fornecido por outras espécies, segundo Darwin. Para completar o quadro, nem falta mesmo a punição, praticada já em germen entre animais de um desenvolvimento social mais acentuado, como se verifica entre os símios, segundo o testemunho de Brehm, ou entre as cegonhas, de acordo com o que nos conta Figuier.

7/07/2008

Justiça

Seus olhos quentes engolem cada brilho
De minha exposição.

Mas eles nada sabem.

Era uma tarde silenciosa
E o desassossego pousou em meu ombro
Esquerdo.

Era uma tarde, assim, azul,
E o frio veio e não sairá de meu ventre inútil
Nunca mais.

Deus...

Por que justo
- agora -
Des-espero?

7/06/2008

Motor




Esta pulsão de homem que me agita
e morde um pouco a alma enquanto, aceso,
penetro um outro corpo, ardendo, teso,
com o mesmo ímpeto que precipita

as águas rio afora – ou antes o
que empurra a lava encosta abaixo e anima
a fúria mineral que a âncora atrita –
esta pulsão me inflama e me tem preso.

Pulsão que busca um centro imaginado
por trás do limite úmido, oculto
ali onde deseja em vão achar

o centro da poesia, a alma, um vago
sentido que se esconderia em outro
corpo e não mais um vazio a arfar.

7/03/2008

Highway Star Nacional Expresso

Meu cérebro tritura essas palavras
Ele come o combustível
E respira gás garbônico
Na mesma velocidade desse ônibus
Faminto, lendo os anormais

Do livro de Foucault nas poltronas

Mais um velho bêbado
Enche o saco
De vômito, mais uma garota
Foge de casa, as janelas fechadas
Acumulam baratas e o cheiro
De mijo preso no banheiro.

São tantas coisas que
Ninguém vai me roubar:

O rosa e o azul
Do ovo cozido contrastando com a volátil
Cor das moscas, ou o
O homem que se arrasta no chão
E pede esmola, por exemplo.

Depois da próxima parada
Outro filme do Steven Seagal
Contra a paisagem das usinas de açúcar,

E a estrada esburacada
Me lembra sua língua
Cheia de carrapatos.

6/29/2008

circunstância

Você não vem novamente. Alegou
desta vez a chuva intermitente há
dias persistindo sobre os telha-
dos da sua cidade e da minha. Sou

refém de um animismo primitivo
e me queixo às coisas quando, em repouso,
penso dizerem verdades que ouço
e simulo crer, como no destino

ou na maior parcela das pessoas:
é uma solidão este tumulto
que me ladeia. Em vão,frente à arisca

face do amor, quero o abismo e todas
as vertigens desse filme inconcluso
onde estou só, sem luz, sem roteirista.

6/26/2008

70 personagens de um romance inacabado de Lima Barreto

O medíocre aponta o dedo pra lua,
pra melhor ver o próprio dedo.

Citação tirada da placa inaugural da rodoviária de Uberlândia.





Primeiro Movimento

É tudo sempre o mesmo
Marlon.

Eles vivem no mundo
Da lua e escrevem
Por encomenda, nos rigores do método
Taylorista enfiam a viola no saco e tomam
O café
Melado de açúcar.

Paus pra toda obra
Fazem de tudo
Pra “introjetar”
Que a corporation é uma corporação
De ofício: de fato
Se vê romantismo
Nesse lance de relatório
Artesanal.

(Mas num ônibus ninguém
Os distinguiria
De uma excursão de gerentes de bingo).

São fodidos
Pedindo emprego,
A missão da empresa é dizer que:

A cidade é boa, a terra
É fértil; ubérrima
Diria Policarpo Quaresma,
Um sonho tornado real.



Segundo Movimento

No coro dos infelizes
Você pensa que é
Especial porque usa um blog
Como escarradeira e não quer
Ser confundido
Com os gerentes de bingo:
“Minha camisa
Amarrotada
É minha bandeira” ou

A estátua tem
Uma cabeça grande
E brilhante
E um corpo de dar
Inveja
Aos cães amestrados
Com seus diplomas iluminados
Pelo luar do sertão
Mas as notas de rodapé
São de barro
(O sonho apocalíptico
De Daniel).


Terceiro Movimento

Uberland – Ubermensch,
É latim, é inglês
É alemão
É a finitude
Do homem ocidental
É a hermenêutica pós-moderna
É o festival de citações
A carta na manga e o bolso vazio
À sombra dos clones
De Roberto Justus.

É o lirismo
Do pesadelo acadêmico.

É a poesia
Sem charme
Dos concursos, escrita
Com os tipos dos carimbos[1]
Que não deveria ter sido
Escrita,
Não merece ser lida.






[1] Carimbo: etimologicamente, o ferro em brasa usado pra marcar os escravos que saíam de Luanda. Escravos como Aristóteles, mas sem o consolo da filosofia, fechada para o balanço. Falida.

6/18/2008

A medalha milagrosa

Na varanda do hotel
A moça vestida
De sibila
Desencantada fala em esquecimento
Como gotas sutis que
Caem de sua boca &
Apagam

Pouco a pouco

A paisagem, enquanto isso

Na suíte sacerdotal
Um peixe
Na garrafa de vinho
Cheia de sangue

Insiste

No direito de ser lembrado
Por laudos periciais
Para todo o sempre,

amém.

6/14/2008

outro relato, nem tão imparcial

Fala e sombra no deserto, onde tudo acontece. E o deserto ficou líquido de repente, afogando os peixes, que não sabiam morrer de improviso e cuspiam palavras que se colaram num céu de chumbo apenas superfície, impenetrável. Como não aprendi o que fazer com elas, acordei, e a mão negou-se a sair do sonho: ainda acariciava a areia e a água. O céu não, apenas pesava e era uma lembrança de que não se sai inteiro, não se sai inteiro do trânsito simultâneo de dois mundos.

6/13/2008

o tempo no tempo

disse uma
única
vez

ao amigo!

mas eu não tenho tempo!

e caminhou cansado
de volta pra casa

vendo aquele mesmo
mar que agora é
o outro

sem fim

sem mim

e depois disso

não mais disse

está mergulhado

em algo que não
ama

nem mesmo
sabe

o quê.

indefinível.

e volta pra.

e caminha.

6/10/2008

Relato imparcial de um sonho

Ele, não me lembro de seu rosto ou outros sinais característicos, mergulhava no alto mar. Tudo leva a crer que era o mar quente da Bahia. Mas isso vinha mais da impressão causada pelo verde quase marrom, não era possível sentir a temperatura da água. Em seu jeito de olhar, ou na maneira como nadava, ou melhor, boiava, nada transmitia a sensação de desespero que por ali flutuava, meio ausente. Ausente, apesar de ele estar preso numa daquelas gaiolas que mergulhadores usam pra se verem livres

dos tubarões.
Ele estava lá na terceira pessoa. Vi tranqüilo, mas perplexo depois de acordado ao me lembrar de minha ausência neste sonho que, junto com o mergulhador normopata, dentro da gaiola, boiava um cadáver carcomido pela água salgada. O rosto do cadáver era marcante, tipo filme de terror B: dois buracos no lugar dos olhos, mas buracos que enxergavam, afinal de contas você sente quando está sendo observado; os dentes amarelos se destacavam na boca azulada.

6/03/2008

nº 18

Na impossibilidade de serem místicos
('ah, luzes da cidade,
por que, distraídas, não acendem meu destino?'
)
seus olhos colecionaram sexos que brilham à noite como flores planas e úmidas
de duas hastes.
O amparo do cético é o abismo, como se Deus
ejaculasse indiferente, em sua túnica violeta. Você, arlequim, só queria
despir o que é e se perder na fuzarca do mundo. Aqui
cada um escolhe o próprio veneno, mas não se sabe
que inseticida mata, definitivamente, os vermes
da paixão.

(das "Notas Marginais".)

6/01/2008

Direto de Goiânia

Hospedado no inferninho
O sujeito reage bem
Ao cheiro de pequi
Impregnado nos lençóis
Lendo O Samurai Corporativo,
Vulgo
Pecuarista do ying yang.

"O mundo é rico

de inimigos".


No café da manhã
Sun Tzu apontou
O dedo indicador
Pra testa do discípulo
Usando o polegar
Como gatilho

Depois disse à recepcionista
"O seu chocolate
Está no frigobar"

& Sun Tzu disse:
"A buceta é a crise do liberalismo"

5/28/2008

Castelos



Como teu pássaro, sem ar, me perco.

Como vinho derramado em página envelhecida,
sou ardor de tempo,
madura e forte:

transbordante.

Sou castelo de areia estalando ao sol:

- intacto -

(por enquanto).