Nunca se é
Suficientemente nulo
Para se não ser
Intruso
Ou insuficientemente nulo
Para se deixar
De ser Intruso
Nunca se sobra bastante
Pouco
Para não se fracassar
Por excesso de resto
Nunca se falta
Na medida certa
Para se não ser
As migalhas do Intruso.
Sempre que se nasce
Num mundo alheio
Sempre que se entra
Não há modo discreto
De se sair
Intruso.
Nunca se é claramente
Coadjuvante
Para não se ferir
O agon
Do protagonista.
Nunca se tem tanta
Certeza
Se o intruso é ou não é
Você.
O convite estava em seu nome
Mas foi você
O convidado?
Mas foi para dizer
O que diz
Que você foi convidado?
Foi para sair
A tantas horas depois de chegar
Que você foi convidado?
A sua roupa não bate
Com a fantasia
Do convidado esperado
Você nunca é
O que eles pensavam.
Já vai tarde
Assim pensam todos
Os que recebem
O intruso.
Já chegou?
Pensam assim todos
Os que se despedem
Do intruso.
Você vai pra rua
Como quem sai
Pra dar uma mijada
No boteco
E quando volta
As pessoas se calam
Você se esmera
Sair à francesa
Mas quando sai
É como Intruso
Que circula nas calçadas.
O seu tempo passou
Onde você estava
Quando era o seu tempo
Intruso?
O que o sujeito K
Está fazendo na Ilíada?
Assim pensam
Os que vêem a sua história
(Sua quer dizer: deles)
Manchada
Por um Intruso.
Quando você é vulgar: apenas negocia convenções, não domina os segredos, qualquer um pode dizer que árvore é o nome de uma cidade, que cidade é o nome de uma arma, que arma é um sentimento, que sentimento é o nome de um faraó. A língua epistolar é a conversa vulgar no desentendimento, mesmo que este ocasione encontros repentinos e imprevistos. É quando uma criança autista diz pra você: se o mundo gira, porque você não fica tonto?
8/30/2010
8/28/2010
tutorial
não é um espelho o mundo, nem
moído, serol
colado na meada
dos dias que se desenrolam com a goma
do espanto, isso
que arranha sua pele, arranca a pátina
dos gestos, fatia
o real em lâminas, películas
projetadas sobre um fundo áspero, árido,
turvo, e você
descreve lentamente ao longo de uma órbita
marginal palavras que não limpam
a barra do mundo, ele não é
um espelho, nem
moído, sua farofa
seca servida na ração
diária, não é mesmo qualquer coisa em que você
se reconheça, meu chapa, por isso
escreva num livro
o inventário de técnicas
para quebrar os espelhos, agredir
os espelhos violentamente, mesmo cortando
os punhos, os pulsos, erradicar
os artefatos
da ilusão.
8/26/2010
8/25/2010
Está aí, Tchau
O silêncio
É um evento,
Como outros
Repletos de palavras –
Acontece, tão denso
Como uma ofensa
Solta no ar.
A língua esburacada
Na tagarelice do dizer desdizer
Redizer, não é por aí, e
Cada gota de silêncio
Por sua vez
Uma rigidez na alma
Uma cicatriz
(Alma no lugar de língua: pra falar no silêncio
Recorremos às partes abstratas do corpo)
Tudo o que se fez por merecer, ou seja
O silêncio remorde
Uma cárie no coração:
Nada dizer não
É o mesmo que dizer não, ou sequer
Dizer que não há nada
A se declarar. O silêncio, jamais
É idêntico a si:
O silenciamento pânico,
A afonia, a vertigem catatônica
O cala-te boca
O não vale a pena
O desconhecimento do invisível
A assimetria (não conversar
Com serviçais)
A constatação de que já existem bastantes
Palavras:
A palavra esquecida na ponta da língua
O amor que se perdeu
Quando palavras não bastam, o etc e o depois do etc.
De todos, o que vem de você é o mais corrosivo:
O aceno de até nunca mais
Interdito em você
- Faltou-lhe coragem, ou vontade,
Faço-o mais suave,
Encubro seu silêncio com este poema de mierda
E digo tchau.
É um evento,
Como outros
Repletos de palavras –
Acontece, tão denso
Como uma ofensa
Solta no ar.
A língua esburacada
Na tagarelice do dizer desdizer
Redizer, não é por aí, e
Cada gota de silêncio
Por sua vez
Uma rigidez na alma
Uma cicatriz
(Alma no lugar de língua: pra falar no silêncio
Recorremos às partes abstratas do corpo)
Tudo o que se fez por merecer, ou seja
O silêncio remorde
Uma cárie no coração:
Nada dizer não
É o mesmo que dizer não, ou sequer
Dizer que não há nada
A se declarar. O silêncio, jamais
É idêntico a si:
O silenciamento pânico,
A afonia, a vertigem catatônica
O cala-te boca
O não vale a pena
O desconhecimento do invisível
A assimetria (não conversar
Com serviçais)
A constatação de que já existem bastantes
Palavras:
A palavra esquecida na ponta da língua
O amor que se perdeu
Quando palavras não bastam, o etc e o depois do etc.
De todos, o que vem de você é o mais corrosivo:
O aceno de até nunca mais
Interdito em você
- Faltou-lhe coragem, ou vontade,
Faço-o mais suave,
Encubro seu silêncio com este poema de mierda
E digo tchau.
8/22/2010
firewall
você não passa
de um sintoma, é isso
o que as paredes mostram
nos rabiscos toscos escritos em volta
do seu desenho do mundo, parecido
com qualquer outra coisa, bares,
telescópio, fúrias, epitáfio,
vínculos, escada, girassóis, ângulo
reto, chispas de metal, farol, tudo
menos com o mundo: o desejo é um objeto
quebrado e você amassa
os papéis contra este muro em chamas
do real, mas não,
só os fantasmas atravessam o fogo
(por que este incêndio não incinera os selos
que encerram o lixo em cartas, arquivos,
tardes antigas, espelhos, fotografias,
lugares?)
8/21/2010
Enquanto fala sobre o perdão, a presença do ausente, como o esquecimento uma luz absoluta sem sombra, diante de uma platéia de presentes ausentes, com a ausência mais profunda presa na garganta, no silêncio sombrio que tonifica sua voz, o rosto do meu amigo se move entre a luz e a sombra. É uma tênue luz de inverno, que atravessa o vidro embaçado da janela, um calor impreciso – a sombra oscila entre seu olho direito e a metade de seu rosto, mas em nenhum momento o encobre completamente.
8/14/2010
A VIVO E A PASSO MORTO
A Carlos Vallejo
Eis que hoje te saúdo ó mar e punho imensos!
Que pus-me inteiro o corpo à troça e à violência! Virão neste
verde e douradas campinas de fogo mostrar-me as ancas e
as coxas da América morta!
3 3 3 séculos de minha raça
que não sei de onde veio
se mestiço, escravo, mentor ou feitor
se a cara à tapa bati, fui batido, cuspido e violentado!
Estou rindo, e com sede de pátrias juntas
no mesmo esforço de patas
e bosta, e minas, sujeiras de carvão nas mãos
e na alma, ouros comprados a metralhas e punhais
Se estamos descalços
frente a frente com a morte
Donzela primeira de espalmado orvalho
3 séculos de minhas dores
3 3 3 que traz estampado
pelos cobres um peito materno
que nunca soube ser fêmea ardente
Sim, amigo e irmão,
nossos verbos e ossos estão encharcados
de horror pela nossa América, sem
Esperança,
empobrecido, petiço baio, sombra algures
numa árvore remota.
Todos nós falhamos contigo, irmão e amigo.
3
3
3 séculos de minha raça.
(Anderson Dantas – Ilha de SC, inverno com sol)
8/10/2010
APONTAMENTOS PARA UMA POÉTICA NEOROCOCÓ
de Lalo Smazenka Svoboda
(tradução de Aldemar Norek)
Artigo 1º
O discurso indireto livre e o voto nulo são os pressupostos máximos onde se funda o Neorococó e todas as suas subcorrentes (em oposição ao voto indireto e ao discurso nulo).
Artigo 2º
Nunca mencionar animais estranhos à fauna local, como rinocerontes, leopardos e especialmente hipopótamos – eles consomem cerca de 40 kg./dia de alimentos, o que afetaria sobremaneira a economia do poema.
Parágrafo único
Esta regra deixa de ser válida para os poetas do continente africano, para os que por misteriosas contingências residam em zoológicos ou para os mais abastados e que tenham como diversão viagens ao habitat destes animais (contudo, safáris e outras práticas violentas são ecologicamente condenáveis), tendo vivido a experiência direta e sobrevivido.
Artigo 3º
O mesmo se aplica à microflora (algas, liquens, etc.) e elementos subterrâneos da flora (rizomas, etc.). Nestes casos serão feitas breves concessões, e biólogos ou botânicos ficariam isentos de observar com rigidez este preceito, que no fundo não passa de um exagero programático. Ávidos leitores de Deleuze (os que possuírem como comprovante nota fiscal discriminada, ou declaração de biblioteca pública, com autenticação oficial) ficam dispensados deste artigo, ainda que nos encham, em sua grande maioria, o saco.
Parágrafo único
Na verdade qualquer pessoa que mantenha prática ligada à terra ou flora aquática fica também isenta, porque exigir diploma iria contra nossas crenças anarquistas.
Artigo 4º
Cientificismos e alguns discursos (ou não-discursos, para deixar suficientemente clara nossa postura inclusiva) onde não se encontre a fala, a música e a incoerência da fala, mesmo que fragmentada, devem ser banidos do poema.
Parágrafo único
Em decorrência desta premissa, silogismos passam a ser aceitos.
Artigo 5º
A fala (sempre tensa) é o arabesco - ou espiral - onde o Neorococó borda sua trama infinitesimal e pluridimensional. Pontuada pelo Silêncio. Por vezes o Silêncio deve ser maior que o poema.
Parágrafo único
Quanto menor o poeta maior deve ser o Silêncio.
Artigo 6º
Todo poder emana do corpo e em nome dele deve ser exercido. Que o álcool seja livre e todas as bocas úmidas e macias. Não há salvação fora dos cabarés. Talvez não haja salvação, porque os cabarés estão se acabando e tudo está virando um enorme puteiro ( mas lembre-se: se beber não dirija; se dirigir, foda-se).
Artigo 7º
Eventos simultâneos, paralelismos e sincronicidades podem ou não ser evidência do mundo espiritual. O mesmo se aplica a OVNI’s e à Teoria das Cordas, universos paralelos, etc. Os poetas que desejarem muito fundar uma igrejinha ficam livres para tal empresa, principalmente aqueles que perderam a certeza de que só a poesia salva – e de que não existe poesia sem liberdade e independência.
Parágrafo 1º
As igrejinhas, apesar de livre criação (ainda pelo caráter anárquico que proíbe proibir), não são lá muito desejáveis. Seus membros em geral são uns chatos de carteirinha.
Parágrafo 2º
Os orixás da poesia não têm corpo. Mas não se sabe ao certo a que ponto alma e corpo são de fato separados.
Artigo 8º
Não levar em consideração eventuais boatos demeritórios sobre o que eu possa ter pronunciado acerca de Eros e do efeito do álcool, ou da combinação dos dois – a vida não passa de uma alternância entre o porre e a ressaca e o Silêncio será o meu legado maior (conforme o Artigo 5º parágrafo único)
Artigo 9º
Se eu fosse cristão, poderia afirmar que o Eclesiastes é o livro mais interessante, intrigante e belo da Bíblia, mas como pagão me interessa mais o Cântico dos Cânticos, recitável em qualquer cabaré ou qualquer cama, antes ou depois. Depois é mais propício.
Parágrafo 1º
Danças dervixes e sufis, bem como seus correlatos (zen, etc.) serão práticas desejáveis, inclusive por remeterem ao arabesco e à espiral. Poetas que sofrem crises de labirinto devem consumir com moderação.
Parágrafo 2º
Os preceitos aludidos, por suas características místicas, não excluem práticas milenarmente estabelecidas nos Kama Sutra, sempre e mais desejáveis.
Artigo 10º
(o décimo não terá conteúdo para que isto aqui não se converta em decálogo, ícone de práticas pouco libertárias ao longo da História, e em todos os povos)
Artigo 11º
Como a regra acima, involuntariamente, perfaz um decálogo, e como somos contra toda e qualquer regra (que sempre acabam por ser instrumentos em mãos erradas) resolvemos escrever esta última, de número 11 (onze). Este número, por ser primo, só é divisível por si mesmo e pela Unidade e, como a serpente mitológica a morder a própria cauda, dá conseqüência ao Eterno Retorno e ainda outras percepções – o seu duplo é o número das letras do alfabeto hebraico e das cartas do Tarô; o seu triplo, a idade de Cristo; todos os seus múltiplos por números naturais de um algarismo (exceto o zero, que remeteria à não-existência) resultam bifrontes e espelhados; quando divididos por 99 (noventa e nove) dão origem às dizimas periódicas 0,1111..., 0,2222..., 0,3333..., e sucessivamente, ou seja, números racionais de extração infinita (cf. espirais e arabescos). Para que finalidade isso pode servir no contexto da poesia neorococó (como de qualquer outra, contemporânea ou extemporânea) é muito difícil precisar, pela própria complexidade dos temas em tela, mas parece muito adequado a estes tempos pop-místicos. De qualquer forma somos contra as finalidades (ver Chuang-tzu e os 33 centímetros sob os pés).
Artigo 11 e 1/5º.
Escrever como um advogado da província passa a ser provisoriamente aceito no âmbito das atribuições do poeta, posto que os fins nem sempre justificam os meios, mas os explicam. Neste caso, ficam revogadas todas as disposições em contrário.
Parágrafo único
Ressalvadas as disposições do Parágrafo único do Artigo 5º.
Artigo 11 e 5/8º.
Relações muito óbvias e banalizantes como citar as vinte e duas cartas do Tarô (cf. Artigo 11º) ou relacioná-las com quaisquer aspectos do texto devem ser evitadas. O mesmo se aplica aos Oito Trigramas de Fu Xi (ou Fu Hsi) e outros ícones da sabedoria arcana.
Artigo 11 e 7/9º.
“A filosofia hoje me auxilia a viver indiferente assim”. (“Quando eu morrer, não quero choro nem vela, quero uma fita amarela gravada com o nome dela.”)
Artigo 11 e 10/11º.
Como a espiral que se dobra sobre si mesma, como o número impelido ao infinito imediatamente próximo (e ao mesmo tempo extremamente distante) segue se inclinando em direção ao próprio limite num precipício sem termo, assim a Poesia vai, ao arabesco do arabesco do arabesco do arabesco....
Artigo 11 e 10/23º.
Abaixo qualquer tipo de decálogo ou manifesto.
(tradução de Aldemar Norek)
Artigo 1º
O discurso indireto livre e o voto nulo são os pressupostos máximos onde se funda o Neorococó e todas as suas subcorrentes (em oposição ao voto indireto e ao discurso nulo).
Artigo 2º
Nunca mencionar animais estranhos à fauna local, como rinocerontes, leopardos e especialmente hipopótamos – eles consomem cerca de 40 kg./dia de alimentos, o que afetaria sobremaneira a economia do poema.
Parágrafo único
Esta regra deixa de ser válida para os poetas do continente africano, para os que por misteriosas contingências residam em zoológicos ou para os mais abastados e que tenham como diversão viagens ao habitat destes animais (contudo, safáris e outras práticas violentas são ecologicamente condenáveis), tendo vivido a experiência direta e sobrevivido.
Artigo 3º
O mesmo se aplica à microflora (algas, liquens, etc.) e elementos subterrâneos da flora (rizomas, etc.). Nestes casos serão feitas breves concessões, e biólogos ou botânicos ficariam isentos de observar com rigidez este preceito, que no fundo não passa de um exagero programático. Ávidos leitores de Deleuze (os que possuírem como comprovante nota fiscal discriminada, ou declaração de biblioteca pública, com autenticação oficial) ficam dispensados deste artigo, ainda que nos encham, em sua grande maioria, o saco.
Parágrafo único
Na verdade qualquer pessoa que mantenha prática ligada à terra ou flora aquática fica também isenta, porque exigir diploma iria contra nossas crenças anarquistas.
Artigo 4º
Cientificismos e alguns discursos (ou não-discursos, para deixar suficientemente clara nossa postura inclusiva) onde não se encontre a fala, a música e a incoerência da fala, mesmo que fragmentada, devem ser banidos do poema.
Parágrafo único
Em decorrência desta premissa, silogismos passam a ser aceitos.
Artigo 5º
A fala (sempre tensa) é o arabesco - ou espiral - onde o Neorococó borda sua trama infinitesimal e pluridimensional. Pontuada pelo Silêncio. Por vezes o Silêncio deve ser maior que o poema.
Parágrafo único
Quanto menor o poeta maior deve ser o Silêncio.
Artigo 6º
Todo poder emana do corpo e em nome dele deve ser exercido. Que o álcool seja livre e todas as bocas úmidas e macias. Não há salvação fora dos cabarés. Talvez não haja salvação, porque os cabarés estão se acabando e tudo está virando um enorme puteiro ( mas lembre-se: se beber não dirija; se dirigir, foda-se).
Artigo 7º
Eventos simultâneos, paralelismos e sincronicidades podem ou não ser evidência do mundo espiritual. O mesmo se aplica a OVNI’s e à Teoria das Cordas, universos paralelos, etc. Os poetas que desejarem muito fundar uma igrejinha ficam livres para tal empresa, principalmente aqueles que perderam a certeza de que só a poesia salva – e de que não existe poesia sem liberdade e independência.
Parágrafo 1º
As igrejinhas, apesar de livre criação (ainda pelo caráter anárquico que proíbe proibir), não são lá muito desejáveis. Seus membros em geral são uns chatos de carteirinha.
Parágrafo 2º
Os orixás da poesia não têm corpo. Mas não se sabe ao certo a que ponto alma e corpo são de fato separados.
Artigo 8º
Não levar em consideração eventuais boatos demeritórios sobre o que eu possa ter pronunciado acerca de Eros e do efeito do álcool, ou da combinação dos dois – a vida não passa de uma alternância entre o porre e a ressaca e o Silêncio será o meu legado maior (conforme o Artigo 5º parágrafo único)
Artigo 9º
Se eu fosse cristão, poderia afirmar que o Eclesiastes é o livro mais interessante, intrigante e belo da Bíblia, mas como pagão me interessa mais o Cântico dos Cânticos, recitável em qualquer cabaré ou qualquer cama, antes ou depois. Depois é mais propício.
Parágrafo 1º
Danças dervixes e sufis, bem como seus correlatos (zen, etc.) serão práticas desejáveis, inclusive por remeterem ao arabesco e à espiral. Poetas que sofrem crises de labirinto devem consumir com moderação.
Parágrafo 2º
Os preceitos aludidos, por suas características místicas, não excluem práticas milenarmente estabelecidas nos Kama Sutra, sempre e mais desejáveis.
Artigo 10º
(o décimo não terá conteúdo para que isto aqui não se converta em decálogo, ícone de práticas pouco libertárias ao longo da História, e em todos os povos)
Artigo 11º
Como a regra acima, involuntariamente, perfaz um decálogo, e como somos contra toda e qualquer regra (que sempre acabam por ser instrumentos em mãos erradas) resolvemos escrever esta última, de número 11 (onze). Este número, por ser primo, só é divisível por si mesmo e pela Unidade e, como a serpente mitológica a morder a própria cauda, dá conseqüência ao Eterno Retorno e ainda outras percepções – o seu duplo é o número das letras do alfabeto hebraico e das cartas do Tarô; o seu triplo, a idade de Cristo; todos os seus múltiplos por números naturais de um algarismo (exceto o zero, que remeteria à não-existência) resultam bifrontes e espelhados; quando divididos por 99 (noventa e nove) dão origem às dizimas periódicas 0,1111..., 0,2222..., 0,3333..., e sucessivamente, ou seja, números racionais de extração infinita (cf. espirais e arabescos). Para que finalidade isso pode servir no contexto da poesia neorococó (como de qualquer outra, contemporânea ou extemporânea) é muito difícil precisar, pela própria complexidade dos temas em tela, mas parece muito adequado a estes tempos pop-místicos. De qualquer forma somos contra as finalidades (ver Chuang-tzu e os 33 centímetros sob os pés).
Artigo 11 e 1/5º.
Escrever como um advogado da província passa a ser provisoriamente aceito no âmbito das atribuições do poeta, posto que os fins nem sempre justificam os meios, mas os explicam. Neste caso, ficam revogadas todas as disposições em contrário.
Parágrafo único
Ressalvadas as disposições do Parágrafo único do Artigo 5º.
Artigo 11 e 5/8º.
Relações muito óbvias e banalizantes como citar as vinte e duas cartas do Tarô (cf. Artigo 11º) ou relacioná-las com quaisquer aspectos do texto devem ser evitadas. O mesmo se aplica aos Oito Trigramas de Fu Xi (ou Fu Hsi) e outros ícones da sabedoria arcana.
Artigo 11 e 7/9º.
“A filosofia hoje me auxilia a viver indiferente assim”. (“Quando eu morrer, não quero choro nem vela, quero uma fita amarela gravada com o nome dela.”)
Artigo 11 e 10/11º.
Como a espiral que se dobra sobre si mesma, como o número impelido ao infinito imediatamente próximo (e ao mesmo tempo extremamente distante) segue se inclinando em direção ao próprio limite num precipício sem termo, assim a Poesia vai, ao arabesco do arabesco do arabesco do arabesco....
Artigo 11 e 10/23º.
Abaixo qualquer tipo de decálogo ou manifesto.
Dormir, acordar
E pensar que ontem mesmo você gostaria de dormir por 5 meses, acordar em outro ano, qualquer ano, menos este. Ajustar o despertador para depois dos fogos de artifício e das promessas, as mesmas furadas de sempre. Mas, acordar num momento diferente, mesmo que por um mero ajuste no calendário, escrevendo bobagens como:
Cínicos, desossados
Trincados, traídos
Pelo destino
Rivotril e ritalina,
Todo efeito
Colateral é benefício.
Ela veio e sugou
O que restava de energia
Para o ano que passa
O presente mês, que assassina.
Enquanto hoje, o sol vai baixando, as nuvens de dourado a vermelho, a música sopra o espaço que se infla como um balão. Há reflexos na água, bronze de fim de tarde. Duas garotinhas dançam no campo de futebol, o gramado verde, os vestidos branco e vermelho contra a encosta matizada de verde a cinzanegro. Depois de embaralhar a consciência, as coisas se misturam, as cores, a música não vem do palco em que meu irmão toca, salta do lago depois de um mergulho, música viscosa que preenche o espaço como um aquário. Não sei bem quando, meu irmão vem e me pergunta se estou acordado. Desperto, ele quis dizer, talvez. Iluminado. Não neste momento, agora estou apenas sentindo os impactos do mundo como se eu fosse uma engrenagem a mais. A alegria entrando pelo ouvido, passando do coração aos olhos, às cores, ao som, ao espaço. Você é mesmo um otário, querer dormir por 5 meses. Uma mulher linda, Namara, nome sonoro (“aura amara branqueia os bosques carcome a cor da espessa folhagem” etc), um sorriso. E isso basta, um nome e um sorriso contra a música, o lago, a encosta e as cores mutantes de um céu imprevisível. Ela deve ter achado esquisito, você só querer saber o nome dela. Mas, sabe o que é Namara? Ontem eu estava numa onda assim:
O que resta
Do desejo e da ingenuidade
É um velho carro branco.
O que resta
Do desejo e da ingenuidade
É a esperança
De morrer cedo.
O que resta
Do desejo e da ingenuidade
É um aceno do silêncio.
O que resta
Do desejo e da ingenuidade
É se despedir do calendário.
Dormir por 5 meses
E acordar no reveillon –
Sempre.
O que resta
Do desejo e do calendário
É a ingenuidade de uma conversa
Imaginária, jamais iniciada.
“A barra é pesada
A solidão reconhece sua sombra
No espelho
Mereceríamos mais
Do que a morte?
Quem sabe, daqui
A 5 meses”
E aqui, neste momento, quero ficar desconectado do mundo, meio assim, à parte. É impressionante como, desligado, você sente outra solidariedade com a vida, com os desconhecidos, com a música, com tudo o que não foi feito pra você. Um esquisito num mundo esquisito e alegre. O egoísmo vai sumindo, não sem antes te assustar, como se sua sombra fosse mais densa que você e te ameaçasse, um soco na boca do estômago. Mas o egoísmo some, enquanto a música vai chegando ao fim, tudo vai escurecendo e, num último acorde, o céu se cristaliza, como um sorriso. Amanhã estarei disposto, pronto pra acordar, meu irmão.
Cínicos, desossados
Trincados, traídos
Pelo destino
Rivotril e ritalina,
Todo efeito
Colateral é benefício.
Ela veio e sugou
O que restava de energia
Para o ano que passa
O presente mês, que assassina.
Enquanto hoje, o sol vai baixando, as nuvens de dourado a vermelho, a música sopra o espaço que se infla como um balão. Há reflexos na água, bronze de fim de tarde. Duas garotinhas dançam no campo de futebol, o gramado verde, os vestidos branco e vermelho contra a encosta matizada de verde a cinzanegro. Depois de embaralhar a consciência, as coisas se misturam, as cores, a música não vem do palco em que meu irmão toca, salta do lago depois de um mergulho, música viscosa que preenche o espaço como um aquário. Não sei bem quando, meu irmão vem e me pergunta se estou acordado. Desperto, ele quis dizer, talvez. Iluminado. Não neste momento, agora estou apenas sentindo os impactos do mundo como se eu fosse uma engrenagem a mais. A alegria entrando pelo ouvido, passando do coração aos olhos, às cores, ao som, ao espaço. Você é mesmo um otário, querer dormir por 5 meses. Uma mulher linda, Namara, nome sonoro (“aura amara branqueia os bosques carcome a cor da espessa folhagem” etc), um sorriso. E isso basta, um nome e um sorriso contra a música, o lago, a encosta e as cores mutantes de um céu imprevisível. Ela deve ter achado esquisito, você só querer saber o nome dela. Mas, sabe o que é Namara? Ontem eu estava numa onda assim:
O que resta
Do desejo e da ingenuidade
É um velho carro branco.
O que resta
Do desejo e da ingenuidade
É a esperança
De morrer cedo.
O que resta
Do desejo e da ingenuidade
É um aceno do silêncio.
O que resta
Do desejo e da ingenuidade
É se despedir do calendário.
Dormir por 5 meses
E acordar no reveillon –
Sempre.
O que resta
Do desejo e do calendário
É a ingenuidade de uma conversa
Imaginária, jamais iniciada.
“A barra é pesada
A solidão reconhece sua sombra
No espelho
Mereceríamos mais
Do que a morte?
Quem sabe, daqui
A 5 meses”
E aqui, neste momento, quero ficar desconectado do mundo, meio assim, à parte. É impressionante como, desligado, você sente outra solidariedade com a vida, com os desconhecidos, com a música, com tudo o que não foi feito pra você. Um esquisito num mundo esquisito e alegre. O egoísmo vai sumindo, não sem antes te assustar, como se sua sombra fosse mais densa que você e te ameaçasse, um soco na boca do estômago. Mas o egoísmo some, enquanto a música vai chegando ao fim, tudo vai escurecendo e, num último acorde, o céu se cristaliza, como um sorriso. Amanhã estarei disposto, pronto pra acordar, meu irmão.
8/09/2010
wireless
o medo de se perder, mundo
punk, desenhando à faca na água suas dúvidas, você
conversa consigo pelo espelho oxidado em terceira
pessoa, rasurando à unha o nitrato, comendo grama
por grama o retrato que lhe vem na prata
quando rói os dedos entre os campos
minados, o medo
de se perder, converse comigo, nada
mais pode ser dito depois
que o chão desaparece, mundo
junkie, jungle, os hipopótamos são os únicos
que atravessam a rua sem esmagar
as flores no asfalto, linces e gazelas
não, você está
solto no espaço, nenhum céu
desaba, antes
permanece imóvel em aparência no instante
em que você escorre a esmo pelas trilhas
e deleta arquivos antigos, converse
comigo, menos laços, odiar
as lembranças, o medo
de se perder, mas é justo
pra onde você
vai.
8/08/2010
O repugnante poema de Patricia, assinante do Manifesto São Paulo Para os Paulistas
"Não tenho nada contra
o sotaque, mas contra
os modos
bestiais
que eles se dirijem
contra paulistas,
assediando, perseguindo, ofendendo
incontáveis vezes; exijo
medidas drásticas para retomada dos bons
costumes e morais
paulistas e a extradição
de desocupados
para fora
do Estado de São Paulo,
ou que sejam tomados
os devidos
fins. Mesmo
porque ao fazer
boletim
de ocorrência
exije-se
endereço e nome
do autor, tornando impossível
que se faça
o registro, já que
a violação
da moral e assédio
ocorre constantemente em lugares
públicos por bandos
desses nordestinos, que vêm para cá
cometer crimes
sem tomar as devidas
correções."
o sotaque, mas contra
os modos
bestiais
que eles se dirijem
contra paulistas,
assediando, perseguindo, ofendendo
incontáveis vezes; exijo
medidas drásticas para retomada dos bons
costumes e morais
paulistas e a extradição
de desocupados
para fora
do Estado de São Paulo,
ou que sejam tomados
os devidos
fins. Mesmo
porque ao fazer
boletim
de ocorrência
exije-se
endereço e nome
do autor, tornando impossível
que se faça
o registro, já que
a violação
da moral e assédio
ocorre constantemente em lugares
públicos por bandos
desses nordestinos, que vêm para cá
cometer crimes
sem tomar as devidas
correções."
8/07/2010
Uma pausa pra música
Pra mim, essa é uma das melhores músicas do Pink Floyd, não é muito progressiva, vai mais pro pop. Talvez, um dos motivos pra ser tão boa. A letra é muito bonita também, e tem a ver com o momento que alguns epistolares estão vivendo.
http://letras.terra.com.br/pink-floyd/90455/
http://letras.terra.com.br/pink-floyd/90455/
8/05/2010
Girassol em pó,
Sede o girassol:
Quando sede pintar.
Girassol em pólvora:
Ela diz que entende
A minha explosão.
* * *
É fogo
O que o girassol procura
É fogo frio
O girassol noturno
Depois da explosão.
* * *
Como toda intensidade
A do girassol vem de dentro
Do lado de fora, por fora
Do lado de dentro
Da raiz do sol e
Do sol apagado, mergulhado
Na terra.
Como todo centro
O girassol é o centro
De um mundo sem centro.
* * *
Como todo nome, em especial
O seu, o girassol é só
Uma palavra:
Se eu te chamar de girassol
O negócio é literal.
Dê um fora
Na metáfora
Reconheça as letras
Embaralhadas, um jogo inacabado
E ponto final,
Porque faltou um e e sobrou um n
Um t a mais nessa história
Girassol é apelido.
Sede o girassol:
Quando sede pintar.
Girassol em pólvora:
Ela diz que entende
A minha explosão.
* * *
É fogo
O que o girassol procura
É fogo frio
O girassol noturno
Depois da explosão.
* * *
Como toda intensidade
A do girassol vem de dentro
Do lado de fora, por fora
Do lado de dentro
Da raiz do sol e
Do sol apagado, mergulhado
Na terra.
Como todo centro
O girassol é o centro
De um mundo sem centro.
* * *
Como todo nome, em especial
O seu, o girassol é só
Uma palavra:
Se eu te chamar de girassol
O negócio é literal.
Dê um fora
Na metáfora
Reconheça as letras
Embaralhadas, um jogo inacabado
E ponto final,
Porque faltou um e e sobrou um n
Um t a mais nessa história
Girassol é apelido.
8/03/2010
Salomé: Reambiguação
Montagem sobre a página de desambiguação da Wikipedia.Reambiguar é mais divertido do que desambiguar. Cheguei a ela porque to preparando uma discussão sobre o Cortiço que remete, numa passagem, às xaropadas bíblicas sobre Betsabá e a perdição de Davi e Salomé e a morte de João Batista:
Taí o verbete:
"Salomé é um asteróide bíblico descoberto por Menotti DelPicchia (provavelmente embriagado) notório pela passagem da "Dança de Salomé 562", possui uma excentricidade de 0,0947897 e um período orbital de 1 916,96 dias (5,25 anos) aos pés da cruz, discípula de Jesus e mãe dos apóstolos Freud e Nietzsche, escritora na Rússia, uma região censo-designada estadunidense do estado do Arizona, atuou em famosa ópera mexicana em um ato em que João Batista, extremamente sexy, pede a cabeça de Richard Strauss numa bandeja enquanto Rilke beija a boca da cabeça decepada, num delírio de sexualidade histérica e doentia. Seu verdadeiro nome é “Herodes”."
Taí o verbete:
"Salomé é um asteróide bíblico descoberto por Menotti DelPicchia (provavelmente embriagado) notório pela passagem da "Dança de Salomé 562", possui uma excentricidade de 0,0947897 e um período orbital de 1 916,96 dias (5,25 anos) aos pés da cruz, discípula de Jesus e mãe dos apóstolos Freud e Nietzsche, escritora na Rússia, uma região censo-designada estadunidense do estado do Arizona, atuou em famosa ópera mexicana em um ato em que João Batista, extremamente sexy, pede a cabeça de Richard Strauss numa bandeja enquanto Rilke beija a boca da cabeça decepada, num delírio de sexualidade histérica e doentia. Seu verdadeiro nome é “Herodes”."
8/01/2010
Serrazinar
Verbo Serrazinar:Ser importuno,maçador;persistindo no mesmo assunto ou pedido.
Conjugação:não serrazines tu
serrazine você
não serrazine você
para serrazinar ele/ela
serrazinemos nós
não serrazinemos para serrazinarmos nós
serrazinai vós
não serrazineis vós
para serrazinardes vós
serrazinem vocês
não serrazinem vocês
Conjugação:não serrazines tu
serrazine você
não serrazine você
para serrazinar ele/ela
serrazinemos nós
não serrazinemos para serrazinarmos nós
serrazinai vós
não serrazineis vós
para serrazinardes vós
serrazinem vocês
não serrazinem vocês
7/29/2010
A agonia da espera
A agonia da espera
Saga, vida, morte
Letra, palavras, rastro
Amor
Afeto, dor.
Espera...
Esperar o fim
Outros começos?
No leito de morte dela
Por quanto tempo?
À espera da hora da morte...
Passagem, travessia
Dor
Silêncio, aceitação
Afetação.
Associações momentâneas
À espera do último instante
Noite à dentro.
Madrugada a esmo.
O coração desespera, acelera
Máquinas, tecnologias
À espera...
A esperar à morte da minha mãe.
Passado a noite
Ela esperava o dia e minha saída para deixar de suspirar
E deixar em lembrança sua marca na vida:
Alegria, amor, esperança.
24 e 25/07/2010
Saga, vida, morte
Letra, palavras, rastro
Amor
Afeto, dor.
Espera...
Esperar o fim
Outros começos?
No leito de morte dela
Por quanto tempo?
À espera da hora da morte...
Passagem, travessia
Dor
Silêncio, aceitação
Afetação.
Associações momentâneas
À espera do último instante
Noite à dentro.
Madrugada a esmo.
O coração desespera, acelera
Máquinas, tecnologias
À espera...
A esperar à morte da minha mãe.
Passado a noite
Ela esperava o dia e minha saída para deixar de suspirar
E deixar em lembrança sua marca na vida:
Alegria, amor, esperança.
24 e 25/07/2010
7/28/2010
E tudo mais jogo num verso, intitulado mal secreto. (Jards Macalé e Waly Salomão)
Minha ex-mulher e minha futura namorada estão conversando. O sonho é meu e dele não participo. Please see if she's wearing a coat so warm to keep her from the howlin' winds, este seria um primeiro fundo musical. Não pelo frio, desconhecido neste norte, mas pelo espírito. Só não sei quem leva e quem recebe a mensagem – tem um caminho mais fácil, mas quero evitar a ingratidão. I gave her my heart, but she wanted my soul. Já isto, sei bem o que significa. Minha ex-mulher e minha futura namorada estão conversando, felizmente elas não falam de mim. Existem tantas coisas urgentes no mundo. A cada minuto que passa há um rumor a menos, uma língua a menos, menos palavras para multiplicar as inúmeras formas da dor e da alegria. Ronald Macdonald, o maior Iconoclasta de todos os tempos, o Transgressor intransitivo, dinamita a torre de Babel e o Progresso é um Moloch Estatístico para quem toda vida é perda (de tempo). É um alívio estar ausente entre mulheres de amplos horizontes: um norte além dos marcos patrióticos da bandeira habitada por uma sombra devoradora de culturas, pela morte escondida no estardalhaço megalomaníaco dos acadêmicos paulistanos sobre os matos virgens dinamitados em nome da segurança nacional. Intérpretes do Brasil, colecionadores de vocábulos exóticos que zombam do índio condenado a usar ornamentos de pena de galinha e a pintar o corpo com pincel atômico. Onde elas estarão no coração do Brasil, onde o Brasil estará em seus corações, no sonho sem coração de um sujeito sem norte? Elas conversam, o sonho é delas, do meu sonho não participo.Lentamente, vou sumindo do meu sonho, como todo dramaturgo sou desnecessário quando o cenário está montado. Elas estão se entendendo, apesar da diferença de densidade entre o que passou, o real irremediável, e o que virá. O futuro é uma promessa, um sonho de que não participo. Peço à minha ex-mulher e minha futura namorada que não deixem o sonho ser assassinado pelo vento gelado, pela tempestade do real. Tudo o que ouço é um rumor, uma língua que não entendo. Elas parecem se entender, mas vão sumindo no horizonte enquanto eu desperto lentamente.
7/25/2010
bug
lá fora amores à última vista atravessam
a cidade e fica difícil se concentrar na conversa
porque 2 ou 3 os idiotas (você ainda está
na dúvida se incluir a si mesmo é mais
realista) na sua mesa exibem sorrisos
frenéticos, trapos
com etiquetas Richard's, olhares calculados e fé
nos seus salários do banco federal
de desenvolvimento e na migração
de capitais até mercados atraentes
eles insistem nos seus sorrisos de filme
B quando dizem que encontrar a mulher
ideal é difícil mas sua procura é uma delícia,
eles parecem acreditar que isto é
a felicidade, a sua cota de transcendência
nos mercados da vida, aqui é um bar
irlandês numa ladeira da Lapa e o mundo
todo exala toneladas de imagens
falsas sobre você neste exato momento
em que a trilha sonora liquidifica sangue,
glitter, as dez mais e um blues antigo
e rascante que se desloca para o fundo
mais escuro do corpoe quem, como
você, olha para a rua, quem como
você não acredita, quem
se pergunta porque este chão pisado
por Madame Satã, este chão entranhado
de sereno e mágoa, este alguém
desconfia que os amparos do sentido
andam rodando como um carrossel
em marcha à ré com engrenagens gastas
os inocentes de Manhatan não sabem
de Madame Satã, vão precisar consultar
o índex da academia em que uma sombra
dele pode morar, onde outras sombras se movem
no estilo touch screen, mas a caverna
ninguém sabe se existe – os dois
que sorriem existem e estão
a fim de levar pra cama o seu amor
à última vista, ela pode ser a mulher
da suas vidas, ela pode ser uma noite
extensa, uma noite longa e profunda
que atormentará seus dias, ela poderá
ser um slide fantasmático na ruína
de seus futuros ocos e amparados pelo banco
de desenvolvimento, poderá ser o delírio
da carne, ter pernas mágicas, boca
de prodígios, pele ardente, poderá ser
o esquecimento, ser a chave, o labirinto,
ela está ao seu lado e aparenta não
saber, aparenta não sentir como pulsa
o coração do sentido, como pulsa
o desejo por cima das pedras
do pavimento, como seu corpo quer
atirar-se sobre ela buscando o que está
além, amparado só pelos sentidos,
amparado e só
nem eles, nem ela, nem você
sabem onde vão levar todos os desvios
desta noite.
a cidade e fica difícil se concentrar na conversa
porque 2 ou 3 os idiotas (você ainda está
na dúvida se incluir a si mesmo é mais
realista) na sua mesa exibem sorrisos
frenéticos, trapos
com etiquetas Richard's, olhares calculados e fé
nos seus salários do banco federal
de desenvolvimento e na migração
de capitais até mercados atraentes
eles insistem nos seus sorrisos de filme
B quando dizem que encontrar a mulher
ideal é difícil mas sua procura é uma delícia,
eles parecem acreditar que isto é
a felicidade, a sua cota de transcendência
nos mercados da vida, aqui é um bar
irlandês numa ladeira da Lapa e o mundo
todo exala toneladas de imagens
falsas sobre você neste exato momento
em que a trilha sonora liquidifica sangue,
glitter, as dez mais e um blues antigo
e rascante que se desloca para o fundo
mais escuro do corpoe quem, como
você, olha para a rua, quem como
você não acredita, quem
se pergunta porque este chão pisado
por Madame Satã, este chão entranhado
de sereno e mágoa, este alguém
desconfia que os amparos do sentido
andam rodando como um carrossel
em marcha à ré com engrenagens gastas
os inocentes de Manhatan não sabem
de Madame Satã, vão precisar consultar
o índex da academia em que uma sombra
dele pode morar, onde outras sombras se movem
no estilo touch screen, mas a caverna
ninguém sabe se existe – os dois
que sorriem existem e estão
a fim de levar pra cama o seu amor
à última vista, ela pode ser a mulher
da suas vidas, ela pode ser uma noite
extensa, uma noite longa e profunda
que atormentará seus dias, ela poderá
ser um slide fantasmático na ruína
de seus futuros ocos e amparados pelo banco
de desenvolvimento, poderá ser o delírio
da carne, ter pernas mágicas, boca
de prodígios, pele ardente, poderá ser
o esquecimento, ser a chave, o labirinto,
ela está ao seu lado e aparenta não
saber, aparenta não sentir como pulsa
o coração do sentido, como pulsa
o desejo por cima das pedras
do pavimento, como seu corpo quer
atirar-se sobre ela buscando o que está
além, amparado só pelos sentidos,
amparado e só
nem eles, nem ela, nem você
sabem onde vão levar todos os desvios
desta noite.
7/23/2010
Dar o fora 2
Sem porta de saída
O si mesmo
Se armadilha, a não ser
A luz que explode nos olhos
Contra os túneis.
Nas paredes há mensagens
Solicitações de alistamento em lutas
Derrotadas
Declarações anônimas de amor
Todas iguais, de alguém pra ninguém
Converso comigo
Em frente a cartazes rasgados
Também existem assinaturas
Ilegíveis, vestígios, só
O que resta dos gestos.
O negócio é jogar tudo
No chão
Quando, ao subir a escada,
A escuridão do túnel for rompida
Por fora. Por aí.
Dar o fora, antes que as sombras
Pesem demais
E você desista.
O si mesmo
Se armadilha, a não ser
A luz que explode nos olhos
Contra os túneis.
Nas paredes há mensagens
Solicitações de alistamento em lutas
Derrotadas
Declarações anônimas de amor
Todas iguais, de alguém pra ninguém
Converso comigo
Em frente a cartazes rasgados
Também existem assinaturas
Ilegíveis, vestígios, só
O que resta dos gestos.
O negócio é jogar tudo
No chão
Quando, ao subir a escada,
A escuridão do túnel for rompida
Por fora. Por aí.
Dar o fora, antes que as sombras
Pesem demais
E você desista.
7/21/2010
retorno ao inferno interminável
você desce ao inferno
de escada rolante e ele está cheio
de meninas louras falando línguas
estranhas, elas
têm bocas que você gostaria
de desejar com qualquer tipo
de sinceridade,
com aquela pureza que o desejo
esqueceu ao lado do cinzeiro
no motel de quinta da rodovia
quando saiu batido, você erra
pelos corredores do inferno e descobre
mais escadas, mais corredores e não sabe
se são vitrines ou quartos escuros
estas cavernas em que as meninas
exibem sua penugem de água
oxigenada e seus sorrisos
de propaganda enquanto você
se sente a sombra deambulando
na galeria de luzes
feéricas, artificiais e o real segue cifrado
em bits no sistema servidor
central, ligado
por cabos ao caixa, você
não tem nenhum trabalho pra descer
ao inferno, ele se abriu
como um útero quente, como um buraco
molhado e pulsando por onde
seu corpo escorrega, você
está fodido, mas ela não tinha
um girassol nas mãos, o girassol
estava escrito no ventre com pétalas
excessivamente amarelas enquanto no ombro
uma petúnia ameaçava
com um perfume doentio o resto
da sua vida e o mundo
girava perdido como um grafitti no meio
daquelas omoplatas.
de escada rolante e ele está cheio
de meninas louras falando línguas
estranhas, elas
têm bocas que você gostaria
de desejar com qualquer tipo
de sinceridade,
com aquela pureza que o desejo
esqueceu ao lado do cinzeiro
no motel de quinta da rodovia
quando saiu batido, você erra
pelos corredores do inferno e descobre
mais escadas, mais corredores e não sabe
se são vitrines ou quartos escuros
estas cavernas em que as meninas
exibem sua penugem de água
oxigenada e seus sorrisos
de propaganda enquanto você
se sente a sombra deambulando
na galeria de luzes
feéricas, artificiais e o real segue cifrado
em bits no sistema servidor
central, ligado
por cabos ao caixa, você
não tem nenhum trabalho pra descer
ao inferno, ele se abriu
como um útero quente, como um buraco
molhado e pulsando por onde
seu corpo escorrega, você
está fodido, mas ela não tinha
um girassol nas mãos, o girassol
estava escrito no ventre com pétalas
excessivamente amarelas enquanto no ombro
uma petúnia ameaçava
com um perfume doentio o resto
da sua vida e o mundo
girava perdido como um grafitti no meio
daquelas omoplatas.
7/20/2010
Dar o fora
Neste mito da caverna
Você é a caverna,
A máquina travada
Projetando na pedra fria
Luzes em movimento
Máquina fascinada
Por seus fantasmas
Pura eletricidade.
- Curto-circuitar-se
Na cegante luz
Da alegria que vem de fora.
Dar o fora.
Por aí.
Você é a caverna,
A máquina travada
Projetando na pedra fria
Luzes em movimento
Máquina fascinada
Por seus fantasmas
Pura eletricidade.
- Curto-circuitar-se
Na cegante luz
Da alegria que vem de fora.
Dar o fora.
Por aí.
7/18/2010
domingo, mesmo
ela anda assistindo o mesmo programa de domingo
que se repete vinte anos:
tomei uma coristina, mas não consegui sintetizar aquilo
que o tempo tem de ácido, nem descobrir
com o que sonham as meninas que só são inocentes
quando sonham, seria melhor
ser um bárbaro de botequim, um rebelde
no restaurante arrotando na frente
de senhoras escandalizadas, seria
bem mais confortável acreditar que a margem
é mais confortável , e mijar
na frente da platéia o ácido que o sangue arranca
do tempo, seria melhor
acreditar na minha falta de fé,
nos desertos pós-estruralistas
que a menina da academia tentou
me descrever numa carta antiga, a menina
da academia está ao mesmo tempo conformada
e desesperada e pagaria
seis das suas sete vidas por onze
minutos de sentido, esta menina
dormiria com Godzilla, venderia
o que lhe sobrou da alma depois
que se rendeu ao método e desaprendeu
a escrita com o corpo, depois que perdeu
o último bonde para o campo
minado e bate palmas
frenéticas para a acrobacia de um cara que ainda acredita
nas palavras, que ouviu a resposta
sem saber a pergunta, ela mente
pra mim e é por isso que somos
iguais, ela pagaria qualquer coisa, faria em público
aquilo que lhe incendeia o centro
sem centro do seu corpo, mas o mundo
não vai se abrir de novo
nunca mais.
que se repete vinte anos:
tomei uma coristina, mas não consegui sintetizar aquilo
que o tempo tem de ácido, nem descobrir
com o que sonham as meninas que só são inocentes
quando sonham, seria melhor
ser um bárbaro de botequim, um rebelde
no restaurante arrotando na frente
de senhoras escandalizadas, seria
bem mais confortável acreditar que a margem
é mais confortável , e mijar
na frente da platéia o ácido que o sangue arranca
do tempo, seria melhor
acreditar na minha falta de fé,
nos desertos pós-estruralistas
que a menina da academia tentou
me descrever numa carta antiga, a menina
da academia está ao mesmo tempo conformada
e desesperada e pagaria
seis das suas sete vidas por onze
minutos de sentido, esta menina
dormiria com Godzilla, venderia
o que lhe sobrou da alma depois
que se rendeu ao método e desaprendeu
a escrita com o corpo, depois que perdeu
o último bonde para o campo
minado e bate palmas
frenéticas para a acrobacia de um cara que ainda acredita
nas palavras, que ouviu a resposta
sem saber a pergunta, ela mente
pra mim e é por isso que somos
iguais, ela pagaria qualquer coisa, faria em público
aquilo que lhe incendeia o centro
sem centro do seu corpo, mas o mundo
não vai se abrir de novo
nunca mais.
7/16/2010
Alegria existe - está de passagem num albergue por aí. Aos poucos seu sangue denso e escuro vira verde água-marinha. Os dias leves, como bolhas, saem palavras das bocas de duas lindas garotas de óculos laranjas e antenas, dois anjos ou dois aliens. E mesmo quando você encontra a moça russa e espera um daqueles extremos literários dostoievskianos e se depara apenas com uma neurótica muito assustada com o Rio, você sorri para os seus olhos azuis que sorriem de volta.
Dias de alegria num aquário, pela leveza, pela água que está a caminho de se rarefazer, tornar-se ar. A gravidade das coisas inexiste enquanto você sobe os degraus íngremes do casarão, ou enquanto você se deita em frente ao mar cor de verde caipirosca. Seu destino, impreciso, está conectado com o dos animais estranhos que vivem no fundo do mar. De fato, você se tornou um deles. Esta é a alegria do mergulho ao ar livre.
Dias de alegria num aquário, pela leveza, pela água que está a caminho de se rarefazer, tornar-se ar. A gravidade das coisas inexiste enquanto você sobe os degraus íngremes do casarão, ou enquanto você se deita em frente ao mar cor de verde caipirosca. Seu destino, impreciso, está conectado com o dos animais estranhos que vivem no fundo do mar. De fato, você se tornou um deles. Esta é a alegria do mergulho ao ar livre.
7/14/2010
Do caminhar à encruzilhada
Do caminhar à encruzilhada
Adoecer, ser, sendo...
Frente à frente ao inferno, ao paraíso e ao purgatório ao mesmo tempo.
Frente à frente ao nosso inferno:
Nossos demônios se sentem mais livres nessas horas.
Belzebu ri, Deus ri, os arcanjos riem: os vizinhos fingem que choram.
Nenhuma imortalidade, nenhuma alma, nem chão.
Somos reduzidos ao que realmente somos. E o que somos?
Frente à morte as coisas talvez simples, pequenos gestos.
Por exemplo, uma massagem no cotovelo.
O som da voz se vai...
O toque reduz a dor dos dois lados.
O toque torna a coisa mais coisa.
O toque reduz o devaneio.
O toque alimenta dois moribundos.
Frente à morte o combate?
A coragem, o carinho, a paz do bem morrer: onde está a boa morte?
As artes de morrer ressuscitadas.
Não temê-la: estar diante, como um samurai.
Olhar a partir dos olhos já sem vida.
Vê-la, sentir, experimentar o som da música.
Sentir a falibilidade, perceber a frágil condição.
Escutar o harmônio, mas também a furadeira.
Diante da morte: a realidade se mostra mais nua.
Um peitinho talvez...
Deixar a tristeza sair e só!
Temor e medo de morrer no meio do caminho. Ou longe do fim pensado.
Impotência do agir, do fazer. Só o sentimento pode, apesar de.
Agora e na hora da nossa morte
Deixai a poesia e a música sair e entrar pelos poros:
Sopros de vida, quietude e amor.
Amor eis a palavra e gesto que finalmente sai...
Entrai também pelos poros.
Agora e na hora da nossa morte.
Minha alma neste instante se transmuta em um espírito cristão.
Senhor, tende piedade de nós.
Morte, tende piedade de nós.
Vida, tende piedade de nós.
Agora e na hora da nossa morte!
Na verdade, tudo parece ser mesmo impermanente!
Adoecer, ser, sendo...
Frente à frente ao inferno, ao paraíso e ao purgatório ao mesmo tempo.
Frente à frente ao nosso inferno:
Nossos demônios se sentem mais livres nessas horas.
Belzebu ri, Deus ri, os arcanjos riem: os vizinhos fingem que choram.
Nenhuma imortalidade, nenhuma alma, nem chão.
Somos reduzidos ao que realmente somos. E o que somos?
Frente à morte as coisas talvez simples, pequenos gestos.
Por exemplo, uma massagem no cotovelo.
O som da voz se vai...
O toque reduz a dor dos dois lados.
O toque torna a coisa mais coisa.
O toque reduz o devaneio.
O toque alimenta dois moribundos.
Frente à morte o combate?
A coragem, o carinho, a paz do bem morrer: onde está a boa morte?
As artes de morrer ressuscitadas.
Não temê-la: estar diante, como um samurai.
Olhar a partir dos olhos já sem vida.
Vê-la, sentir, experimentar o som da música.
Sentir a falibilidade, perceber a frágil condição.
Escutar o harmônio, mas também a furadeira.
Diante da morte: a realidade se mostra mais nua.
Um peitinho talvez...
Deixar a tristeza sair e só!
Temor e medo de morrer no meio do caminho. Ou longe do fim pensado.
Impotência do agir, do fazer. Só o sentimento pode, apesar de.
Agora e na hora da nossa morte
Deixai a poesia e a música sair e entrar pelos poros:
Sopros de vida, quietude e amor.
Amor eis a palavra e gesto que finalmente sai...
Entrai também pelos poros.
Agora e na hora da nossa morte.
Minha alma neste instante se transmuta em um espírito cristão.
Senhor, tende piedade de nós.
Morte, tende piedade de nós.
Vida, tende piedade de nós.
Agora e na hora da nossa morte!
Na verdade, tudo parece ser mesmo impermanente!
7/13/2010
Distinguir
1.
O que você não ouve, mas escuta (a música grudada na cabeça, a conversa com o Ausente, conversa com alguém consigo mesmo, como no sonho).
O que você ouve, mas não escuta (o blablabla, o alarme, a canção do vendedor de gás).
O que você ouve e escuta (quando se é “todo ouvidos”, raramente)
O que você nem ouve nem escuta (a respiração lenta, o ar rarefazendo as conversas, até que elas passam)
2.
O rarefeito e o raro: ainda que com os olhos marejados. As lágrimas podem ser mais sutis do que o ar. A leveza de viver num mundo-aquário. (Como a água é mais instável, as lágrimas também podem ser brutas).
O que você não ouve, mas escuta (a música grudada na cabeça, a conversa com o Ausente, conversa com alguém consigo mesmo, como no sonho).
O que você ouve, mas não escuta (o blablabla, o alarme, a canção do vendedor de gás).
O que você ouve e escuta (quando se é “todo ouvidos”, raramente)
O que você nem ouve nem escuta (a respiração lenta, o ar rarefazendo as conversas, até que elas passam)
2.
O rarefeito e o raro: ainda que com os olhos marejados. As lágrimas podem ser mais sutis do que o ar. A leveza de viver num mundo-aquário. (Como a água é mais instável, as lágrimas também podem ser brutas).
7/12/2010
O Ponto do Silêncio
O Ponto do Silêncio
Para meu amigo Estrada
Lembro-me da conversa sobre a pontuação... Ponto.
Tenho que trabalhar, mas a poesia clama: desce e sobe...
Minha mãe acamada pede uma massagem.
Uma massagem na dor da doença.
Quem está doente?
Phatos, atos, ação, pontuação.
Phatos, afeição, afetação: afeto.
Um dia fui feto desta que agora luta e pede um afeto.
Ato. Ponto. Pontuação: ação e finitude.
O que vem depois do ponto?
Ela precisa de contato para que eu sinta
Meu coração.
Pontuação, ritmo para sentir o misterioso
Silêncio.
Pergunto e exclamo, mas o silêncio (confortante e angustiante) passa rápido...
O que fica? Talvez a interrogação invertida.
O som do sono, a voz dos sonhos?
A música transborda
O som penetra a presença
O som penetra o olhar com dor
Sinto o ponto.
A linha, a curvatura das palavras, o ritmo de algo misterioso:
A calma, a pausa. Meditação.
O que continua? As reticências.
A luta pela vida e a aceitação da morte.
A triste contemplação da dor.
A força contra a acídia de onde vem?
Da amizade e do amor.
Rodopio dervixe: dança, desaceleração.
Por instante sinto a pontuação.
A vida e sua suspensão: estar entre parêntese
É aceitar estar entre
e para além do mar da subjetividade subjetiva.
Talvez o gostoso seja um dia penetrar, inscrever uma marca no
Misterioso ponto de todos os pontos:
Nada melhor que um mergulho no infinito das palavras que ainda não existem!
Tenho que parar: ela pede mais uma massagem.
Para meu amigo Estrada
Lembro-me da conversa sobre a pontuação... Ponto.
Tenho que trabalhar, mas a poesia clama: desce e sobe...
Minha mãe acamada pede uma massagem.
Uma massagem na dor da doença.
Quem está doente?
Phatos, atos, ação, pontuação.
Phatos, afeição, afetação: afeto.
Um dia fui feto desta que agora luta e pede um afeto.
Ato. Ponto. Pontuação: ação e finitude.
O que vem depois do ponto?
Ela precisa de contato para que eu sinta
Meu coração.
Pontuação, ritmo para sentir o misterioso
Silêncio.
Pergunto e exclamo, mas o silêncio (confortante e angustiante) passa rápido...
O que fica? Talvez a interrogação invertida.
O som do sono, a voz dos sonhos?
A música transborda
O som penetra a presença
O som penetra o olhar com dor
Sinto o ponto.
A linha, a curvatura das palavras, o ritmo de algo misterioso:
A calma, a pausa. Meditação.
O que continua? As reticências.
A luta pela vida e a aceitação da morte.
A triste contemplação da dor.
A força contra a acídia de onde vem?
Da amizade e do amor.
Rodopio dervixe: dança, desaceleração.
Por instante sinto a pontuação.
A vida e sua suspensão: estar entre parêntese
É aceitar estar entre
e para além do mar da subjetividade subjetiva.
Talvez o gostoso seja um dia penetrar, inscrever uma marca no
Misterioso ponto de todos os pontos:
Nada melhor que um mergulho no infinito das palavras que ainda não existem!
Tenho que parar: ela pede mais uma massagem.
7/06/2010
O quarto é um inteiro girassol
Movendo-se na penumbra, luz amarela
Na parede, pétalas.
No chão acima do meu teto
Uma criança faz soar o hokku
Jogando bolas de gude.
Por um momento, recordo o menino
Sozinho no quarto, concentrado
Como se nada
Estivesse em jogo, a não ser um lance
Preciso.
Isso também passa. A luz
Se acende e o girassol
Se apaga.
Movendo-se na penumbra, luz amarela
Na parede, pétalas.
No chão acima do meu teto
Uma criança faz soar o hokku
Jogando bolas de gude.
Por um momento, recordo o menino
Sozinho no quarto, concentrado
Como se nada
Estivesse em jogo, a não ser um lance
Preciso.
Isso também passa. A luz
Se acende e o girassol
Se apaga.
7/04/2010
Um amor em Ipês
Um amor em Ipês?
Para a minha figueira
Tenho que parar o carro (não estou embriagado)
Desacelerar em um segundo
Parar e ouvir o som
O som dos Ipês
Confundi o tempo dos Ipês
Os vi como paineiras
Não percebi em seu(s) silêncio(s) que evoca(m) a vida
A beleza pura-híbrida dos Ipês
A cidade em comunhão com o céu
Azulado e anulado pelo anil celeste-brigadeiro
O brilho do sol toca
Cada flor dos Ipês perdidos pelas ruas: Ipês talvez sejam as ruínas do flâneur
Condenados a uma duração quase-vazia
Preenchidas apenas por seu breve desabrochar
Momentos de cor, qualquer cor ultrapassa minhas possibilidade de contemplar
Me lembro dos tucanos do Ora-pro-nobis
Agora são os Ipês das Minas
Ao lado de um tesouro recém descoberto: encoberto estava...
Tesouro: guardado, partido, legado.
Presentes da natureza
Alegrias que iluminam os dias de inverno: quase-raios dos dias
Alegrias que justificam a permanência da via e do viver
Se não fosse o amor e os Ipês da natureza
Só veria tragédia e ruínas:
Esperança, espera, esperma das nascentes
Nos fazem sonhar em plenitude fraterna
Os Ipês aliados ao amor que desabrocha
Devolvem a vida a ingenuidade infantil:
Vontade de simplesmente acreditar, de ter esperança
Ao pelo menos, brincar com as palavras sem esperar
Algum efeito e forma
Apenas uma tentativa de comunhão com as flores que já caem
A doença materna ganha, assim, poesia e poiesis
Lembro-me
Ainda bem que o tempo não é ainda das paineiras
Os frutos e botões das paineiras ainda são como figos
Ainda desabrocharam
O tempo das paineiras ainda não é
Em breve o tempo das paineiras chegará
E até lá é tempo de amar, pois é também tempo dos Ipês
É tempo de pescar as pérolas dos Ipês
E as outras poucas que existem por aí
É tempo de (pre)enchimento das fissuras
Dos nossos vazios floridos
Pena que seja sempre incompleto e instável:
As belas fores caem e há que se ver a beleza do vazio e da rua florida:
desafios incertos e tortuosos como os galhos a esperar o próximo inverno
2010
O tempo dos Ipês (Reedição)
Para Igraine
Em pleno ritual sagrado
as palavras seguintes baixaram
como uma pomba-gira.
Hoje de supetão minha filha perguntou:
"o que é o tempo"?
ela disse que para ela o tempo era o relógio
mesmo antes do relógio mecânico já existia o de
sol ela me disse.
O tempo é o relógio? (acho que ela queria me perguntar também)
Tentei explicar que sim e não. Fiquei sem saber o que fazer
foi aí que disse: o tempo são as flores do Ipê amarelo.
O tempo é relativo: qual é o tempo das flores do Ipê amarelo?
Acho que ela pensou: as horas do relógio do Ipê amarelo duram um ano
para florir,
os minutos uns meses florindo e os segundos são as flores caindo.
Fiquei com a imagem e a pergunta:
qual é o tempo dos Ipês?
qual é o tempo das suas flores?
belas flores
que florem o céu e a terra
Não há palavras e explicações!
queria ensiná-la a sentir os tempos
queria sentir os tempos
Pelo menos aprendi a desconfiar
e desconfio que o tempo caleidoscópico
dos Ipês é:
amarelo, branco, roxo e madeira.
2009
Para a minha figueira
Tenho que parar o carro (não estou embriagado)
Desacelerar em um segundo
Parar e ouvir o som
O som dos Ipês
Confundi o tempo dos Ipês
Os vi como paineiras
Não percebi em seu(s) silêncio(s) que evoca(m) a vida
A beleza pura-híbrida dos Ipês
A cidade em comunhão com o céu
Azulado e anulado pelo anil celeste-brigadeiro
O brilho do sol toca
Cada flor dos Ipês perdidos pelas ruas: Ipês talvez sejam as ruínas do flâneur
Condenados a uma duração quase-vazia
Preenchidas apenas por seu breve desabrochar
Momentos de cor, qualquer cor ultrapassa minhas possibilidade de contemplar
Me lembro dos tucanos do Ora-pro-nobis
Agora são os Ipês das Minas
Ao lado de um tesouro recém descoberto: encoberto estava...
Tesouro: guardado, partido, legado.
Presentes da natureza
Alegrias que iluminam os dias de inverno: quase-raios dos dias
Alegrias que justificam a permanência da via e do viver
Se não fosse o amor e os Ipês da natureza
Só veria tragédia e ruínas:
Esperança, espera, esperma das nascentes
Nos fazem sonhar em plenitude fraterna
Os Ipês aliados ao amor que desabrocha
Devolvem a vida a ingenuidade infantil:
Vontade de simplesmente acreditar, de ter esperança
Ao pelo menos, brincar com as palavras sem esperar
Algum efeito e forma
Apenas uma tentativa de comunhão com as flores que já caem
A doença materna ganha, assim, poesia e poiesis
Lembro-me
Ainda bem que o tempo não é ainda das paineiras
Os frutos e botões das paineiras ainda são como figos
Ainda desabrocharam
O tempo das paineiras ainda não é
Em breve o tempo das paineiras chegará
E até lá é tempo de amar, pois é também tempo dos Ipês
É tempo de pescar as pérolas dos Ipês
E as outras poucas que existem por aí
É tempo de (pre)enchimento das fissuras
Dos nossos vazios floridos
Pena que seja sempre incompleto e instável:
As belas fores caem e há que se ver a beleza do vazio e da rua florida:
desafios incertos e tortuosos como os galhos a esperar o próximo inverno
2010
O tempo dos Ipês (Reedição)
Para Igraine
Em pleno ritual sagrado
as palavras seguintes baixaram
como uma pomba-gira.
Hoje de supetão minha filha perguntou:
"o que é o tempo"?
ela disse que para ela o tempo era o relógio
mesmo antes do relógio mecânico já existia o de
sol ela me disse.
O tempo é o relógio? (acho que ela queria me perguntar também)
Tentei explicar que sim e não. Fiquei sem saber o que fazer
foi aí que disse: o tempo são as flores do Ipê amarelo.
O tempo é relativo: qual é o tempo das flores do Ipê amarelo?
Acho que ela pensou: as horas do relógio do Ipê amarelo duram um ano
para florir,
os minutos uns meses florindo e os segundos são as flores caindo.
Fiquei com a imagem e a pergunta:
qual é o tempo dos Ipês?
qual é o tempo das suas flores?
belas flores
que florem o céu e a terra
Não há palavras e explicações!
queria ensiná-la a sentir os tempos
queria sentir os tempos
Pelo menos aprendi a desconfiar
e desconfio que o tempo caleidoscópico
dos Ipês é:
amarelo, branco, roxo e madeira.
2009
Você caminha entre girassóis.
Se tudo é novo sempre
Inversamente
Tudo é sempre despedida.
Você não caminha entre girassóis,
Você está parado
Sentado, olhando a parede:
A luz movente de uma vela
A impressão de girassóis, dançando
Aproximando-se, desaparecendo
Na parede.
Você não colherá os girassóis.
Eles não são nítidos
Nem você é nítido
É a sua própria sombra
Projetada na parede
Que cria a impressão de pétalas amarelas.
Você caminha entre girassóis
Eles foram regados com lágrimas:
A mais pura e nítida água.
Girassóis renascem,
Entre sombras e sempre novo
Adeus:
Ainda assim,
Girassóis.
Se tudo é novo sempre
Inversamente
Tudo é sempre despedida.
Você não caminha entre girassóis,
Você está parado
Sentado, olhando a parede:
A luz movente de uma vela
A impressão de girassóis, dançando
Aproximando-se, desaparecendo
Na parede.
Você não colherá os girassóis.
Eles não são nítidos
Nem você é nítido
É a sua própria sombra
Projetada na parede
Que cria a impressão de pétalas amarelas.
Você caminha entre girassóis
Eles foram regados com lágrimas:
A mais pura e nítida água.
Girassóis renascem,
Entre sombras e sempre novo
Adeus:
Ainda assim,
Girassóis.
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