8/31/2011

No fundo do convento, um jardim – depois do jardim, vemos um vale coberto de mato virgem e mais adiante encostas de morros com casas: varandas, roupas secando, carros velhos nas garagens. O jardim é dividido em três patamares de forma retangular, separados por muretas de concreto carcomido. No mais alto, alguns bancos que devem, um dia, ter sido azuis. Nos três níveis do jardim, a grama seca tem tons amarelados, de palha, em meio ao verde-pálido. No mais baixo, um fino cano metálico azul, vertical, parecendo um caule decepado, irriga a grama, sob o sol da manhã. Girando rapidamente, o irrigador esparge água, jogando grandes gotas para o alto e para todos os lados. Forma-se sobre o irrigador uma cúpula, uma esfera pontilhada de gotas que brilham e se apagam. Cada gota faz uma viagem veloz do caule de azul metálico ao alto, do alto gira num arco lateral e enfim cai sobre a grama. É esse movimento que, quando visto como um todo, dá a impressão de que observamos um lustre formado por vagalumes líquidos. A luz da manhã, oblíqua, entra em cada gota, fazendo dela um tipo de cristal efêmero. Não vemos o caminho que a luz faz antes de chegar às gotas: é como se ela viesse de dentro da água. Por trás da cúpula assim formada – uma flor abstrata – vemos uma árvore frondosa, para além da árvore, o vale com seu matagal e seus bambuzais, mais além – a cidade. Um tecido diáfano criado pela dança da irrigação funciona como um véu quase transparente sobre a paisagem, quando a miramos usando as gotas de água que giram no ar como foco. O mundo, assim, é revisto novamente: tudo muda de figura quando olhamos com atenção para um irrigador azul e suas pétalas de água sob o sol oblíquo.

8/28/2011

passagem


I
o barulho das máscaras caindo
me deixou surdo, não há nada
debaixo do chão e apenas
alguns mícrons nos separam
do abismo, mas ninguém esperava
o baque surdo de tantas
máscaras

as orações que eu escrevia, ela nunca
suspeitou que eram para o deus
ninguém, porque no fim, como já
desconfiava, ninguém viria me salvar
a pele como divindade que não perdesse
a lucidez enquanto o verdadeiro rosto
aparecia

II
vou deixar a cidade’, ela disse, ‘de vez
em quando as coisas se perdem
de vez
’, as cores deviam ser doces
e nunca soube porque elas ferem,
eu disse contraindo os olhos como sempre
faço quando minto,

mesmo tentando
pôr os cinco dedos por entre as barras
do código de barras, daí saber que não
é uma janela nem uma saída
da embalagem dos dias repetidos, avenidas
tristes, raptos de sentido, céus sombrios
de um verão iluminado

III
em que ninguém sabia o quanto de real
traziam os versos que escrevi nas margens
daquela embalagem

8/27/2011

algumas ironias













algumas ironias

____________________________



          (a felicidade plena)

quando eu tiver um loft novaiorquino

.*.


          (o amor pleno)

doze ninfas dançando ao redor de minha preferida

.*.


          (o sexo pleno)

quando eu tiver todas as beldades da cidade,
sem ter que pagar por isso
(nem tempo programado)

.*.


          (o escritor maldito)

tem tanta gente querendo ser diferente, que o diferente se tornou
igual, é uma peste de gafanhotos, dessa forma teremos que voltar
a rimar amar com luar.

8/25/2011

O Psico-Sacerdote Oito-Olhos Fala: (poema tirado de um email crente)

Independente "lixo humano" desconhecido por quem só teve a oportunidade de ver fotos, curtir os talentos inerentes como se a vida pudesse ser vivida através do "faz de conta" e drogas na falta de família artísta-SENSÍVEL, amor não, Isso é fato.
Porém quem tem de visitar o próprio inferno que ama deveria ser mesmo sinônimo de LIXEIRA Em decomposição! E dói muito passar!!!
Ninguém opta por lixo, ser humano quer ir para a lixeira...entretanto, a minha maior intenção é a de pararmos de olhar o cachorro faminto que vê o frango girando na assadeira do açougue ao alcance de sua boca. Lutar contra o ser humano, lixo descartável(sem chances de reciclagem).
Eu sou prova real com tantas lutas e hipocrisias que reconheceram JESUS CRISTO COMO SEU SENHOR E SALVADOR.

Sou SIM,não por opção,mas,por reconhecer JESUS, contudo,o apelo é maior, foi por opção,fraqueza ou demônios.
E ainda se sentir bem achando explicações científicas razoáveis: como alguém pode se dizer feliz cristão, é sinal de que todo sofrimento serve.
Da lixeira em que se colocaram nessa vida através de Cristo Jesus-CAMINHO,VERDADE,E FALA SÉRIO!!!
FILOSOFIAS BARATAS...!!!
VIDA REAL,
Ser Cristão é ter certeza sozinhos com as escolhas que fazem.
NÃO INTERESSA O QUE LEVOU AS PESSOAS QUE EU AMO(MESMO AS QUE EU CONHEÇO) A SE TRANSFORMAREM NUM LIXO HUMANO.

8/18/2011

A minha Carta ao Pai

O mundo hostil: a beleza do céu que se tinge de dourado a vermelho, passando por um azul que mais parece o leito do mar: como a luz é frágil frente ao vento que luta por apagá-la com sua boca de múltiplas mandíbulas frias: você apenas queria ter feito um mundo menor, mais hospitaleiro para suas crianças. Dói vê-las partindo no escuro rumo ao horizonte, num rio sem foz, numa noite sem estrelas, cada uma segurando apenas uma fraca lamparina. Não há tempo pra secar os olhos. Você plantou sementes de fragilidade e elas brotaram como feridas, minúsculas, na torrente que alguns ainda teimam em chamar de cosmos.
Nesta noite sob uma luz estranha, pálida, uma espécie de demônio circulava pelo meu apartamento. Deu pra ver, de relance, o minotauro passando além do espelho. Barulhos de coisas se mexendo na cozinha vazia. Quem teria motivo para me rogar uma praga e fazer de minha vida um ritual de magia negra. Alguém mastigava os restos de comida e ria com a boca cheia de lixo. Não somos nada perto do mundo e suas razões, fomos expulsos (ou nos expulsamos) de todas as hordas. Remamos sozinhos e já não sabemos se o flutuamos sobre o rio, o vento, ou um céu de pontacabeça.
Com o pouco de calor que herdei de você, e que você por sua vez herdou de outros, preparo um leve equipamento de mergulho. Crio ao meu redor uma fina capa de silêncio que reflete o ódio e abraça o amor. Não sou tão frágil como você pensa.




8/11/2011

Pro meu livro de orações

Mar de águas estagnadas misturadas com betume sacos plásticos merda de crianças mijo de velhos bêbados e carcaças de caranguejos –

Alma, onde tudo vai parar:

Sonhos frustrados, livros que descrevem sonhos frustrados e livros que são sonhos frustrados quantas palavras
intrigas palacianas, o senador dá uma entrevista antes de entrar no avião, mensagens apocalípticas nos túneis da cidade.

Rezar é vomitar entulhos.
Rezar é falar devagar com a língua cheia de lama, cuspir alma pelos poros do corpo revoltado.
Eu gosta de brigar no trânsito. Eu tem razão. Eu é uma mala pesada que alguém tem que carregar e rezar não é pedir proteção ao Altíssimo
administrador de cartões de crédito, é abrir uma fenda no concreto-carapaça de Leviatã.

Só sabe rezar quem é soberano.





8/07/2011

Ele me disse, vem aqui, vou te mostrar uma coisa interessante.

Um pássaro voa devagar, um pouco acima de nossas cabeças. O pássaro tem uma cara estranha, meio que de peixe, olhos opacos, boca em círculo, três fileiras de dentes muito finos, afiados, longos: de madeira envelhecida. Uma mariposa começa a seguir o pássaro. Asas negras de rímel, grandes, movendo-se levemente como se estivéssemos num oceano, ou pétalas. O corpo, meio inchado, parece que vai explodir. Dá pra ver as articulações que trabalham de modo desorganizado. As pernas não ficam paradas, movem-se desencontradamente à procura do chão, como se o bicho estivesse caindo.

Ela não sabe que voa?
Peraí! Não é isso: olha, é ela que vai atrás dele.

Num impulso, o pássaro expande a boca e engole a mariposa. Ele não demonstra voracidade, fome, qualquer sinal de violência. É calmo, impassível como uma fera marinha. Dá pra ver a mariposa se debatendo, por trás dos dentes trincados do predador. De repente, o pássaro abre a boca e a mariposa voa novamente. Intacta.

Ainda não acabou, ela vai atrás dele de novo.

E acontece. Ela não foge, não quer sobreviver? E ele, não está à procura de alimento? Por que esse estranho balé que não causa prazer aos bailarinos – e muito menos ao público? O pássaro, como se estivesse programado para isso, abre a boca novamente e engole a mariposa. Pode ser algum tipo de hipnose. Dá pra ver as asas negras entre os vãos dos dentes de madeira. Só que, mais uma vez, ele solta a mariposa. Mas agora ela está com as asas quebradas. Viva, porém mal consegue voar.

O segredo da sobrevivência está no gosto. Ela não foi feita para se camuflar. Mas, se defende com o sabor intragável dos seus humores, expelidos no primeiro contato com os dentes do predador.

8/02/2011

Esquizofonia: Sinfronia da Alvomerda

Pus no meu quase nãousado outro blog (vertigemdevestigios) a Esquizofonia: Sinfronia da Alvomerda completa. só vou por aqui nos comentários os procedimentos que usei em cada uma das 5 partes. Já baixei a Sinfonia da Alvorada, agora é distorcer a música e trocar a ladainha do Vinicius de Moraes pela minha:

Composição de uma esquizofonia baseada na Sinfonia da Alvorada. O que está em questão: o oba-oba, o monumentalismo, a sacralização do Estado, a verborragia e a ladainha do Progresso. Os procedimentos: Parte 1: alterar aqui e ali pra trazer à tona o insólito, grotesco, encoberto. Parte 2: mudar alguma coisa pra pensar o verdadeiro herói do Cerrado, não O Homem e sim O Playboy. Nas citações de Lúcio Costa e Niemeyer (Horemheb e Aracnodactilia): distorcer as palavras para esquizofrenizar a paranóia do signo despótico. Parte 3: Hiperbolizar a hipérbole: megalomanizar a megalomania: o resulto é expor o seu irrisório. Trocar os locutores por locupletores, fazer o texto falar. Parte 4: Despojar, que no caso torna até mais insano, se é que isso é possível. No CantoCão Picotar as frases, fazer a sinfonia gaguejar. Parte 5: enfim, o couro procurando o nome da cidade de suas taras.

7/31/2011

Poema tirado de comentários no youtube



Aí esse que morreu já dá pra ver o sangue escorrendo lá ela matou bem o bem mata bem os dois favelados pena que um correu um inútil a menos pra sociedade parabéns à polícia brasileira ela queimou pelas costas podia ter estourado a cabeça a bala entrou nas costas você quase ouve o pipoco até fico de pau duro pensando no barulho de osso de favelado preto se arrebentando mas a cabeça é muito pequena o certo é meter fogo na nuca que mulher mais corajosa quero me casar com essa dona primeiro ela chupa o cano do revolver depois nem precisa comentar né se todo policial fosse assim seria mais gostoso é cada vagabundo que merece se regenerar é no inferno ainda bem quase esburacou a costela de porco que tava ali ali ó no balcão podia ter pipocado a melancia que prejuízo a sociedade mas foi só o lado esquerdo da costa do vagabundo bandido tem mais é que morrer não interessa por onde a bala entra eu trabalho pra dar balas pros meus filhos porra só quem critica a Heroína é Zé ruela os dois favelados nem sabem onde carregar a arma são dois incompetentes que andam de chinelo foi uma ação de legítimo ataque ela só errou na tática devia ter metido a bala no cérebro do primeiro comido a massa cinzenta espalhada no chão metido bala no segundo e pegar o sangue ainda quente pra fazer uma panelada ao molho pardo pra servir no jornal nacional de qualquer jeito é um vagabundo a menos não tem que dar voz de prisão a voz do povo é a voz de deus e está provado que deus é canibal

7/29/2011

A vida num dia

Entro no elevador. Um garoto, por volta de 12 anos, cego de um olho, entra com seu pai: um vaqueiro. Fico olhando o mostrador, como fazem todos os que se incomodam com esse tempo curto mas lento de nada fazer e intimidade forçada em elevadores. De repente, o vaqueiro me segura pelo braço. Nada posso fazer, sou um fraco urbanóide. Ele fica me dizendo, por que você mexeu com meu filho? Foi ele, não foi filho? Foi sim. Eu? Eu mesmo? Tem certeza? Vocês não estão me confundindo com alguém? Escuta aqui, você está sentindo o que está na tua barriga, olha pra baixo. Olho e vejo e assim que vejo começo a sentir a pontada de uma faca. Vai você meu filho, vai você. Fico olhando perplexo, sem ter o que dizer.
Na luz do dia, ela me diz que eu devo ter sido um fazendeiro filho da puta numa vida passada e no sonho fui cobrado por isso. Eu não, não acredito em vida passada, não desse jeito: um eu que vai se desdobrando, rebatendo, entre situações, como uma bola quicando pelo mundo. Mas, por outro lado, tudo o que acontece tem causas infindáveis e intricadas de um modo quase ininteligível, para além da imaginação e do controle do euzinho aqui. Poderia ser o seguinte: meus antepassados do nordeste, suas fazendas, suas histórias. Sempre ouvi que eles cometeram as piores violências. A donzela enterrada viva com o escravo com quem tinha trepado. De tudo isso há memória em meus pequenos atos de arrogância. No sonho fui cobrado por isso. O menino deve ter cismado com uma de minhas primas, hoje misturadas à poeira, e teve o olho direito vazado, só como lição.
Começo de noite. Desço o túnel: íngreme espiral. Monotonia de espaço curvo, fracamente iluminando, com chão, teto e paredes cobertas pelo mesmo carpete marrom. Ando colado à parede: a curva é fechada, como se andássemos em círculo ao redor de uma simples coluna cervical, vertigem leve num estranho labirinto. Ao fundo, a cratera iluminada, onde ela me fala de amor trocando olhares com outro. E fala sem dizer nada, apenas girando o corpo, os braços quase transparentes sob a luz intensa brancoverde. Ela e o outro se olham fixamente, eu me vejo sendo amado por meio de um artifício que me faz ser ninguém. Entre os deuses ctônicos, a vida pega fogo: ela se desdobra como se de seu corpo brotassem pétalas-labaredas que só se acendem quando se chocam com minha mentecoração. Eu estou ausente, no escuro: novelo de nervos expostos. No fim de tudo, ela me procura.
Dormimos abraçados. No vazio.

7/26/2011

Sonhos - II

aguardava que medissem minha pressão.

*

as caixas do sistema de som da clínica transmitiam a seguinte mensagem: doutor marcelo, emergência, doutor marcelo, sua esposa aprenderá contorcionismo para poder chupar o grelo.

*

quis avisá-lo que os pássaros também pinçam as penas quando se viram para o lado em que a rainha morte dorme.

*

(box casal, queen size, de mármore.)

*

uma enfermeira fazia vitrine-viva à porta do consultório. meu nome inteiro, lembrei depois, reverberava naquela boca acrílica. havia chegado a hora: sentei-me no banco ao fundo da sala.

*

a braçadeira transformou-se em questão de segundos num corpete para moças anoréxicas. era o meu sangue, o meu pulsar intermitente, que a mulher fechara a vácuo. a velcro.

*

seus dedos longos masturbavam freneticamente a bomba de ar. tive medo de falir, sim, de morrer

*

por excesso de hemopornografia.


(Também publicado no blogue da autora.)

7/23/2011

São tantos os motivos pro amor não dar certo. A começar pela absoluta imprecisão sobre o que significa dar certo (a medida do sucesso é tão burocrática (e a burocracia interdita

o amor)). Vejo as ruas desta cidade perigosa, a noite caindo como um estranho dourado sobre o céu azul, um pastor evangélico e uma ex-atriz vociferando contra

o amor e como eles merecem o aplauso do cara solitário que leva sua caixa de cerveja pro apartamento onde vai passar o feriado de corpus christi tocando

punheta sobre o amor, indefeso amor. O cheiro de tiner que sentimos ao ler o jornal e como se dizia antigamente os caras só querem meter

a faca e como o amor é celebrado, as frias flores tristes na vitrine e o que significa ser feliz, usar a buceta da mulher amada pra estourar

pipocas enquanto a cerca elétrica mata pássaros e meninos e um anjo

caído queima um bilhete premiado no canal de esportes. E nem tudo é questão do lado de fora, ainda trazemos o veneno, veja como quando você respira se engasga todo com os sapos que vomitam em sua garganta e mesmo que não queira ou acredite deve prestar contas porque se a felicidade é exigida junto com o amor a Alegria e o amor são interditos e não há nada de mais ridículo do que um professor apaixonado se perguntando onde ela está onde ela está com esse monte de citações encobrindo o seu corpo sagrado

amor.

7/17/2011

Do meu caderno de experimentações - 1

SEM TÍTULO

1

rótulas, gaiolas.
ejaculação de voos pelo cálcio, ave-osteoporose.

2

corpo é cerca cio adentro.

em cada felpa, em cada farpa,
um anjo errado irriga a sua cidade vascular.

3

como é alto o som na ponta escura
desta corda, incubadora-kamikaze,

4

como é fino
este cordão umbilical para virar cabo-de-guerra.

5

(todo amante
atira o filho da sacada que há nos fundos, no final,

do coração.

todo sol atrás é um ninho de fuligem e de fumo.)

6

corpo é um terço
muito curto, uma oração que aperta cristo,

7

(rótulas, gaiolas),

parapeito em que chacais
se inclinam para entrar na vida de cabeça.

8

caem os órgãos aos pedaços.
comunhão de porra, muco e baba.

9

morte vem lubrificada: fácil passar.


(Também publicado na Revista Germina.)

7/15/2011

Já que estamos falando de sonho...

1.
Quando sonhamos choramos por dentro
Espasmos de alma
Ou de corpo, é incerto.
As lágrimas não são mais
Leves – apesar de acordarmos
Com o rosto enxuto e os olhos
Em poucos segundos livres
Das larvas que comiam as pálpebras
Por dentro e claros para um dia
Turvo.
2.
Quem leva essas larvas
Pra dentro de si
É outro – elas te perseguem
Sementes plantadas em tua carne
Por algum lavrador: incógnito,
Elas roem a alma com palavras
Inventadas pelo absoluto
Alheio: quem seria o autor
Se todas elas são você
Em seus sonhos, nem delas
Nem teus – não são de sua lavra
Essas larvas que carcomem
Os olhos
Por dentro.

7/13/2011

Sonhos - I

(Marceli Andresa Becker)

afundava a colher no musse de maracujá — numa das rachaduras finíssimas que o creme inventa depois que gela — quando me lembrei do sonho da noite passada.

*

teria de inserir um pen-drive no pé. havia um corte específico à espera na região mais delicada da sola. era uma fresta, uma janela vasculante, enferrujada, de onde se conseguia enxergar o açude rubro em que me ensopo diariamente.

*

(a poucos metros de profundidade o tétano tomava conta de um peixe. quanto mais próxima a morte lhe parecia, caveira cáustica, mais a sua boca se abria, se abria, para cantar.)

*

fixei contra o peso do corpo aquela imensa verruga plástica. pendurada, assim, virava brinco em formato de tala (pense nas que são usadas para imobilizar braços).

a tarraxa era o meu osso.


(Também publicado no blogue da autora.)

7/10/2011

Conversa Fiada com o Capeta (vulgo Dr Penico Branco)

Com minha gravata preta de papelão, toda estampada com desenhos de copos mais a palavra cocktails em cores amareloverdes vivas e brilhantes, amarrada no pescoço por uma corda de nylon, abro as portas do Porão Inolvidável e... quem me espera de braços abertos? O Dr. Penico Branco e seu tridente.
- Welcome Mr Ego. Você por aqui?


6 6 6


Tem uma roda dentada soltando faísca no corredor de entrada do meu ap já to vendo a hora que a parede vai ser arrbentada e no meio da poeira uma mistura de Demônio e Doutor Penico Branco vai aparecer e me dizer: Eu estou aqui! E isso não é metáfora e nem alegoria é literal, tá rolando mesmo. A alma desse demonio e doutor penico branco é assim mesmo: uma roda dentada que fica girando em soltando faísca dentro da sua pança e por isso ele tem tanta raiva não importa de quem é de quem estiver na sua frente e isso também é verdade eu vi ontem de madrugada naquele documentário chamado O Exorcista.


6 6 6


Você está possuído pelo demônio quando se coloca na obrigação de replicar a ele, escolher um dos lados do dilema que o cramunhão te impõe. Não pro acaso: o demônio é dualista, diabolos: dois. Não por acaso, um de seus codinomes é MuitasVozes. Se você responde a uma simples pergunta demoníaca, você está no sal. Se você se justifica para o capeta, pior ainda. Um rolo compressor vai transformar sua alma em fita cassete onde estão gravados os Sete Nomes do Inferno. É como se diz por aí, com o demo não se argumenta, não se retruca, ele não vai mudar de idéia e se desdiabolizar, deixa ele pensar que está certo, meu caro!


6 6 6


Um fio de esperança: estilo mensagem demoníaca de Star Wars: no fundo há bondade nele. Esse é fio que o demo vai usar pra enrolar em teu pescoço e te esganar e como suas palavras vão sair sufocadas da sua boca! elE vai deixar entender que elE pode ser salvo, que elE tem suas virtudes, no fundo, lá bem fundo. É: no fundo. No fundo dos Infernos meu amigo!

7/04/2011

Ler é hipnotizar-se

Gosto de ler dizendo em voz baixa as palavras dos livros que amo. É como se alguém conversasse comigo ao mesmo tempo dizendo: não é com você. A suave presença silenciosa dela dormindo enquanto ando pela casa. Tudo o que resta da sabedoria, ou porque toda sabedoria é resto. Hoje antes de abrir o livro vi um pedaço do céu vermelho pela janela. Quando nos falamos, sua voz estava triste ou cansada, não sei bem. Mais cedo eu li um bilhete de alguém me cobrando sobre qual é minha mensagem. Isso eu li em silêncio. Não sou um ventríloquo de doutrinador. Agora leio essas palavras de um livro amado, cicatrizes em fundo brancoluminoso, enquanto penso em outras coisas. Sei que continuo lendo porque meus lábios se movem no ritmo das palavras enquanto divago, alguém deve estar recebendo-as por mim.


*

Escrevo loucamente para calar as conversinhas de mim comigo mesmo, alguém não sei quem fala comigo quando me desdobro interlocutores. As palavras, jogadas na tela ou no papel, são cicatrizes de um silêncio almejado.

6/28/2011

Não se entra duas vezes no mesmo rios

Mais um da série Fazer o Texto Falar (as montagens,
seguindo a técnica dadaísta de recortar as palavras de um texto, sortear
e montar um novo texto). Procuro respeitar ao máximo o sorteio, porque
ele é mais criativo do que eu, só mudo uma ou outra
coisa na pontuação, na concordância. As palavras, portanto, não são
de minha autoria. É da missionária em questão.

"Sim meus queridos mulher-com-homem, deixo de amá-los:
eu quero a lei para demitir a liberdade.

Como a mãe, como o meu empregado, se um rapaz,
como a cidadã, se um rapaz vai pro diário
quero a lei pra mim namorar.

Orientação sexual: missionária católica.

Eu prego nosso direito ao pedófilo
contra mulher com mulher ops
pensando em bolinar a orientação sexual de deputada estadual.

Não sou o próximo,
posso vir trabalhar pensando em demiti-lo,
quero defender a orientação da constituição que acabe com elas
e a igualdade e o respeito à mulher preconceituosa
não vou permitir ninguém querer meus primos lésbicas
se eu contrato, discrimino.

Quero ser oficial, se pronunciar para demitir minhas colegas.

Os direitos são meus filhos, e como.

Vou poder dar testemunho e ser respeitada por minha família sexual,
eu agradeço a escolha de ser uma pessoa muito sexual em casa:
homem com mulher, e um motorista para finalizar:
Malafaia não vai cometer uma disputa em casa, meus queridos,
e ele começa... sexual!

Por exemplo, a república é lésbica e eu não,
e eu convido vocês a demiti-la,
eu represento a pedofilia vestida de mulher:
mostrar que a constitução da maneira hetero me acompanha
e só vou permitir a violência de babá.

Ninguém é o próximo, digamos, pras pessoas lésbicas.

Deus é minha babá para perpetuar o Gênesis.

Deixando claro: eu eventualmente respeito a pedofilia dos deputados
contra a população travesti,
todos são meus filhos, na minha casa
e Deus criou os deputados, com certeza:
uma porta pra fazer nada;
respeito a sociedade federativa dos meus inocentes
e tenho filhos com homem e tenho meu voto.

Eu queria ser a menina de um Brasil sexual.

Amor é outra idade, agora não:
eu sou a babá da lei da espécie.

Clamo e vou clamar, vou orar e não vou deixar: não posso ter sangue
de raça homossexual."

6/24/2011

Só tem um jeito de responder às objeções de um rato:

Só tem um jeito de responder às objeções de um rato:

Falar a língua dos ratos.

Quando você se torna objeto

da curiosidade de um rato ele logo pensa que tem alguma coisa a ver
com sua vida – e tem – vampirismo é assunto de roedores. Você pensa meu idioma é outro mas veja como sua língua endurece seus dentes frontais se alongam e afiam seus olhos se tornam sonares sensíveis a

como não pode roer as próprias vísceras, todo rato se apaixona
por seus próprios excrementos. E como são lisas, quase esféricas as fezes de um rato – um rato odeia metáforas – cada coisa em seu lugar e tudo tem sua hora ¬– por isso um rato nunca vomita e como gosta de cagar regras consideradas autoevidentes por si mesmas
um rato é toda gente em geral e ninguém em particular (andam dizendo por aí, se diz à boca pequena – ah a boquinha pequena dos ratos por onde saem palavras pequenas e senti-
excrementos minúsculos – e quando um rato te olha com raiva pensando que assim vai causar medo em você – pelo menos incômodo – e causa – não há sentimento que um rato não manche com seus olhinhos-sonares e língua viscosa de tanto lamber merda – nunca deixe um rato lamber suas feridas mesmo que o rato seja você.
É com você mesmo que eu estou falando! Ah a língua cheia de parasitas dos ratos, a língua comum, a vigilância universal, os oito-olhos dos ratos, as regras e os códigos de conduta, os pressupostos e como tudo é preconcebido na vida do rato e como os ratos se apegam aos próprios excrementos e nada é por acaso na vida de um rato é assim que todo rato
faz cara de cu
& pensar que o rato é toda gente em geral e ninguém em particular, você com quem converso agora e eu quando respondo a você.

6/20/2011

De volta pra casa quando na verdade ninguém volta pra porra de lugar nenhum. A frase de cartão postal sobre o céu que é nosso mar é ilusão de maré vazante como se o fundo azul matasse a sede de alguém pelo simples fato de ser inverno. O Caminho produz nós de pescador, meus amigos estão enredados nos novelos das cinco dimensões tecedoras do mundo ilusório entrelaçadas pelas mãos dos três Venenos, eu também estou, nós estamos e quanto mais se luta pra se livrar mais fortes são os nós. O amor é um anzol enferrujado que vagueia como uma criança abandonada pelo céu. Não é por falta de amor que o Caminho é solitário, é que, sendo estilhaços de desejo cego, nos projetamos com nossos amores aonde eles nunca se encontram.

6/16/2011

Tanka para Lina

A vida mais frágil
Também deixa seus vestígios:
Vômito do gato
Seco no zabuton, mancha
De respiração ausente.

Comentário ao tanka
A casa vazia não
É o espaço indiferente
Na mente, no fogo
O gato caminha, por dentro
De si: um novelo de ar
Onde antes um coração
Batia.

Comentário ao tanka
A casa e seus objetos inertes, mesmo que o sofá velho vá se amoldando, como se um corpo o habitasse pelo avesso. O livro dos mortos no meio da pilha de papéis ao lado da televisão. Intimidade vazia e kitsch: o livro dos mortos sobre o dao de jing sobre os vagabundos iluminados sobre o rack comprado nas casas Bahia sobre o chão pintado de azul com manchas brancas como se fosse uma representação do céu com cheiro de desinfetante. A casa, porém, não é inerte. Se eu abrir um livro de Kerouac exatamente quando ele fala da morte do seu gato, momentos antes da paranóia: o gato que era para ele como seu irmão morto quando criança? E assim, uma camisa jogada sobre a cama parece um gato que dorme. Alguma coisa cai no chão e é como se um gato pulasse entre os móveis. Quando me deito no sofá é como se um gato viesse deitar ali comigo, na arte livre de nada fazer e pensar em nada, quase inertes. A casa é cheia de ecos. Os ecos são cheios de fantasmas. Os fantasmas são ausência presente, eco que desperta a mente do seu sonho de inércia. Por outro lado, as casas em que vivi, vazias de mim, onde entro às vezes quando sonho. Minha ausência do mundo: também estou predestinado à morte, a desabitar o mundo e deixar por aí traços, ecos anônimos que podem produzir um fio na espinha dos vivos.

6/12/2011

Mote (inapropriado) Glosa (impertinente)

Inapetente
de vida, o poder se come
a si mesmo. Fundo
vermelho nos olhos brancos
de ódio. Vazio
existencial no estômago
o poder embolora
a própria língua
impertinente.

* * *
Isolamento,
alma de arame
farpado, sangue
na ferrugem da alma
o poder persevera
na insônia, oito-olhos
abertos na consciência
em nome de quem
inapropriado.

6/07/2011

Minha namorada inventou uma tesoura de abrir veias, palavras escorrendo como sangria desatada, o fluxo, porque sangue parado é veneno, veneno de palavras que vão cavando fundo seus lugares, suas cicatrizes-sentimentos, porque alma é corpo, corpo de sangue e palavras, na alma calada por espinhospalavras o corpo se fecha, um labirinto de arame farpado fechado sobre si mesmo, cuja saída, ilusória, é o centro, o centro onde estão adormecidasdespertas as palavras sujas de sanguebílis amarela, sanguebílis negra, a terra infértil que é um lodaçal, um paradoxo de morte e vida, vida cega tal a morte, persistente vida, palavras são organismos que se arrastam, mastigam a alma por dentro, palavras têm fome, minha namorada telepata inventou instrumentos cirúrgicos estranhos, ela anda com flores agarradas no coração, minha namorada conhece o sofrimento com a precisão de quem também já viu o lodo de perto, o lodo da vidamorte, as palavras sangram, caem no chão, o destino delas não me interessa, minha namorada anda com preciosos instrumentos de observação, lupas pra vermos em escala reduzida e intensa as florações das luzes de Brasília, quando a luz bate no olho e das pálpebras brotam pétalas translúcidas-vermelhas e o silêncio multiplica encantos.

6/03/2011

Impressões

1. A cidade desabitada
espectral – mas a cidade sem
fantasmas.

2. O asfalto molhado leve como um espelho. Faróis refletidos, estrelas: poucas.

3. Fogos de artifício e felicidade ensaiada. Mas não é disso que se trata.

4. Nas minhas veias não há sangue: suas lágrimas. Estamos envolvidos numa teia de silêncio: fora da cidade, por dentro: a cidade lá fora nos cobre como o véu de Maya. Você veste sua nudez com minha camisa: refúgio; quatro flautas encantando os cinco sentidos; luz suave nas 10 direções; canto-caminho entre as linhas baixas do desespero e a sacralização instantânea do corpo. Orgulho singelo de anjos perdidos no caos encoberto pelas tramas do calendário. Os movimentos do mundo e seus barulhos se tornam uma forma musical de silêncio.

5. Os anos se dividiram, o calendário grita que uma coisa nova se inicia. Nós não nos damos conta. Divisão de almas não se mensura.

5/30/2011

Basilisco

hoje me olhaste fundamente como se tuas pupilas fossem dentadas como se de teus olhos saísse uma língua fina afiada e peçonhenta que se enrolasse no pescoço de teus inimigos,asfixiando-os.as pessoas te temem por causa das maldades que podes fazer.o fundo de teus olhos era de um brancovermelho sanguíneo
teu globo ocular é branco por fora mas o cristalino é uma lente vermelha que compraste numa de tuas passagens pelo Inferno, daí a terrível impressão de um vermelho profundo nascendo do ódio e mordendo meu calcanhar como se um cachorro sarnento saísse em meu encalço quando saí daquela sala. mas, presta atenção, ser nefasto de nervos virados pro avesso da pele, ser sensitivo como um demônio ensinado a comer carne crua com fio elétrico desencapado por dentro, ser amigo dos mortos-vivos com cara de jacaré comedores de excremento, ser forjado nas fábulas sobre as sereias como gralhas carcomidas cantoras do repertório de Seu Jorge e Ana Carolina, presta atenção. Quando alguém diz que anjos não existem, os anjos são afirmados na linguagem que os nega. Pensas que eu te encararia assim, desprotegido? Se ontem mesmo li comentários sobre o mito do Basilisco? Faço aos anjos renegados minha oração e te devolvo estas palavras como um espelho aos teus olhos de ódio vítreo.
sou o príncipe das trevas, ele dizia, o cabelo lambido a la Vincent Price, o bigode como um fino trapézio, as sobrancelhas arqueadas, o olhar oblíquo.ele falava num contrato que teríamos assinado, anos antes, anos arcaicos, quando o lobo era o homem do lobo, você precisa justificar sua existência nesse mundo, tem muita coisa a ser explicada nessa história, o eterno retorno é um círculo vicioso, a nossa missão é expedir mandatos de prisão contra fumantes passivos, redigir moções de repúdio contra os palavrões pronunciados por meninos de rua, defender que o melhor local para a polícia espancar seus marginais é na porta de entrada da Emergência Hospitalar. Ele era um tipo esquisito de Doutor Fritz porque ele encarnava em mestres pra fazer lobotomia em crianças, partindo do b-a-bá até o quinto dos infernos: os conceitos são um tipo esquisito de macarrão instantâneo que enfio goela abaixo dos incautos na hora do almoço. Todo bode é expiatório e não sei nem mais o que estou escrevendo aqui.

5/24/2011

OitO-OlhOs rides again

1.
Como é bom cagar em alheias
Cabeças e depois ainda por cima usar tua alma
Como papel higiênico pra limpar minha bunda
As lombrigas que saem do meu cu
Em borbotão como uma estranha macarronada
Feita por um nona psicodélica que habita minhas entranhas
Fertilizam em teu sangue e brotam flores
Dentadas cujo pólen é de escarro, como é bom
Nada acontecer sem passar por meu crivo
E tudo
Não acontecerá porque sob meu crivo nada se passa de qualquer maneira
Não vai dar em nada mesmo e quase toda a história
Não aconteceu, deseventos que desentranho do meu ventre
& ainda por cima sou citação do Eclesiaste
& por cima da carne seca Humildemente retiro
O que eu disse.

2.
em como aquela criança muda e telepata é complacente com Michael Myers. é claro: Michael Myers e Jason Vorhees dão bolsadas na cabeça da funcionária do check-in. Querem linhas de metrô somente de ida e nunca de volta. Orca, a Baleia Assassina e o Tubarão ficam no saguão do hotel se lamentando pelos infectos que invadiram o bairro.
vejam, prestem atenção como Jason Vorhees enche a boca quando usa a palavra Democracia!
há 22 minutos • CurtirCurtir (desfazer)

o método de Michael Myers é mais indireto: ele sempre diz, não sou que tenho nada contra você, veja bem, é que alguém pode induzir a muda telepata a ficar com medo de você, e se ela ficar com medo de você, bem, aí você vai ter que passar no fio da minha espada (mas todo mundo sabe que é ele mesmo quem induz a muda telepata, ele o Lavoisier Filhodaputa)
há 14 minutos • CurtirCurtir (desfazer)

é como diz o grande William Blake: "aquele que sofreu tuas imposições te conhece"
há 12 minutos • CurtirCurtir (desfazer)

e, pra encerrar, em como tava vendo ontem uma brincadeira sobre essa mania americana de terminar a frase com you know? sempre uma interrogação, ninguem tem coragem de afirmar nada, mas, cá entre nós, Jason Vorhees também sempre termina suas frases com um: tá entendendo?
há 4 minutos • CurtirCurtir (desfazer)

é, enfim, a substituição do Verossímil pelo Veromíssil, uma nova forma de "suspender a descrença" e por aí vai
há ± um minuto • Curtir

3
Né não fazer o quê não é disso que eu to falando que você ta ouvindo peraí né nada disso pra que a pressa vamos voltar de novo votar vomitar revoltar volutear votar de novo revotar em baixa voltagem quem foi que disse peraí não é nada disso Né não fazer o quê não é disso que eu to falando que você ta ouvindo peraí né nada disso pra que a pressa vamos voltar de novo votar vomitar revoltar volutear votar de novo revotar em baixa voltagem quem foi que disse peraí não é nada disso Né não fazer o quê não é disso que eu to falando que você ta ouvindo peraí né nada disso pra que a pressa vamos voltar de novo votar vomitar revoltar volutear votar de novo revotar em baixa voltagem quem foi que disse peraí não é nada disso
O assunto é que você é um otário finório principiante e não entende os meus desígnios vou encher a sua boca de estômago com meu vômito tá pensando que meu vômito é pouca merda peraí retiro o que disse retiro o que você ouviu com minha língua pontuda e áspera vou tirar palavra por palavra nem que tenha que usar os dentes calma não é perda de tempo até parece que você vai o quê vai morrer oxalá o tempo fosse outro mas vamos começar de novo qual foi mesmo o início da conversa você sabe uma palavra puxa outra palavra outra palavra outra palavra outra palavra a vida é assim outra mais outra mais outra peraí né não é por aí quer dizer não é por aí o papo é o seguinte:
Oassunévoumotiofinópripiantenãotenosmesígniosenchasubotômagomeômitopendomevopamaeraítidisretirquevoouviumilínpontudaesperatipalaporavratesardentescalnãopertempotécecêvoêvorrerxalátemssetromosmeçarovolfesmíciodersacêsabemalavraxatralavratra vratravratravravidésimtraoutratraraíãoaíerierãoéraíoppsgnt:

5/15/2011



Pés, flores, mãos
Sombras condensadas
Toda a agressividade da luz
Cortante
Aplacada por um ninho negro
Traçado por mãos que desenham
Como quem adormece

As coisas brotam da terra
Luzterra
Sonho de ser aveflor
Voar como quem enraíza
No papel, sangue é seiva, relva
Tapete suave calor
Onde a mente e o coração
Repousam.


Imagem: http://www.flickr.com/photos/barbara_mangueira/

5/10/2011

Sonho é vida

Yo sueño que estoy aqui destas prisiones cargado, y soñé que en otro estado más lisonjero me vi.
¿Qué es la vida? Un frenesí. ¿Qué es la vida? Una ilusión, una sombra, una ficción,
y el mayor bien es pequeño: que toda la vida es sueño, y los sueños, sueños son. Calderón de La Barca.
1. Mecânica celestial
Um amigo me dá um presente. Abro a caixa: é um relógio. Num estouro, os ponteiros saem voando pela casa enquanto se multiplicam como agulhas girando em alta velocidade no ar, tomando o espaço de assalto.

2. Meu encontro com os Cabeça-de-Abelha
Estou numa festa. A polícia entra e me leva preso, junto com dois meninos de rua. Vamos à delegacia, o policial não sabe dizer o motivo de minha prisão. Sou liberado e caminho por uma cidade parecida com São Paulo. A luz acaba, as ruas ficam muito escuras. Subo uma ladeira no breu. Vejo um vulto, um sujeito de capa preta e chapéu preto de caubói, empunhando uma espingarda. Ele me diz que é o líder dos Cabeça-de-Abelha. Noto que estou num cemitério, muito simples, cruzes de madeira sobre a terra, nada de lápides. Outro Cabeça-de-Abelha aparece e aponta a arma pra mim. Mas o líder resolve não me matar. Continuo com eles em minha caminhada, à procura de um jeito de voltar pra casa. O problema é que eles estão em guerra com outra facção. Chegamos numa casa, relativamente grande, com mulheres e crianças, não somente os soldados Cabeça-de-Abelha. Algumas garotas andam armadas e brincam de apontá-las pra mim. É uma brincadeira tensa, sinto que em algum momento alguém pode decidir me matar. De todo modo, sou um estranho aqui. Os inimigos chegam, estamos cercados. A casa fica numa encosta, a porta da frente no alto e a dos fundos na parte mais baixa, mas os dois lados estão em plena batalha. Não temos como sair. Mesmo assim, resolvo arriscar e fugir pela lateral da casa. Três meninos decidem vir comigo. Pulamos o muro e corremos. Por milagre, chegamos a uma praça desolada, mas ao menos com um ponto de táxi. O taxista me avisa que estamos muito longe da cidade. Não sei como posso ter andado tanto. Entro no táxi sozinho, mas, a certa altura, três meninos de rua aparecem no táxi. Eles carregam revólveres, facões e dinamites. De novo, a velha brincadeira de fazer de conta que vão me matar. Talvez, por eles gostarem do líder dos Cabeça-de-Abelha que foi com a minha cara eles decidem me poupar. Mas não o taxista: repentinamente, noto que ele tem um facão enfiado no pescoço. O carro está parado quando os três meninos também estão mortos. Eles tinham tomado algum tipo de veneno antes de chegar. Não sei explicar o motivo desse suicídio realizado de maneira tão insólita. Saio do carro, estou vivo, não tenho nada a dizer nem como avaliar o sentido disso tudo. Chego a um posto de gasolina, desses de beira-estrada, grandes e decadentes. O farol de um caminhão bate direto em meus olhos, é a luz de uma manhã fria, azul claro como um manto, uma elegia à morte que sanguessuga nossas almas inclusive quando sonhamos.

5/06/2011

Quero que TU meu Deus















Quero que TU meu Deus
me dizimes.
Que me arranques
como um ramo desta vida
e não me jogues
em nenhuma outra

Quero que TU meu Deus
não me circules
em nenhuma água
e que de mim não haja
nenhum rasto.

Que não me apóie
em nenhuma lágrima
caída pela minha fraqueza

Não há nenhum óbice
para permanecer neste lodaçal
de almas pequenas
(confirmado no teu olho
que vitima tua ira santa
e desencanto)

Não quero nenhuma memória
nenhum rito
Quero que TU, meu Deus
me liquides.

Pois nenhuma guerra me reclamou
nenhum poema à margem da DOR
e do tumulto impossível do existir

(Só TU que nunca foi meu Deus.
Rajado no fogo
feito um tigre despedaçando)


Ilha, 06 Maio 2011

5/02/2011

Americanos elegíacos sentimentos (aproximação a um poema de Gregory Corso* em memória de Kerouac) partes 3 e 4

Gregory Corso
Elegiac feelings american

Americanos elegíacos sentimentos
Tomando muita liberdade face ao literal pra dar conta dos jogos de palavras e sintaxe
Notas: beat: apanhar da vida. Bitter: amargo.
Foundling fathers.
How: howl.
À querida memória de Jack Kerouac

1.
Como são inseparáveis você e a América que você viu apesar de nunca estar ali pra ser vista; você e América, como a árvore e o chão, são um e o mesmo; mesmo que como uma palmeira no Oregon... morta assim que floresce, como um urso polar em acrobacias no Miami –
Como assim aquilo que você foi ou esperava ser, e a América não, a América que você viu e ainda assim não podia ver
Tal como e ainda assim incomum no chão de onde você brotou; você de pé sobre a América como uma árvore sem raiz e sem rumo; pra o esquilo não havia divórcio entre o pulo do chão e a escalada na árvore... até que ele viu nenhuma semente cair e soube que não havia casamento entre os dois; como é infrutífera, como é inútil, a triste desnaturada natureza; não espanta que o pôr-do-sol tenha deixado de ser deleite... já que de que valem terra e sol quando a árvore entre eles é inválida... a inseparável trindade, uma vez sem serventia, torna-se uma fria infrutífera insignificante mortementira triplamente marcada em sua horrível amputação... Oh açougueiro a costeleta não é o porco – O Americano alienígena na América é amargo desmembramento; e mesmo sua elegia, querido Jack, devia ter uma árvore retalhada, prensada até a celulose, que a conterá – não espanta que boas novas não possam ser escritas sobre essas más novas –
Como é alienígena a terra natal, como a árvore morre quando o chão é estrangeiro, frio, não livre – O vento não sabe soprar a semente da Sequóia em que ninguém nunca esteve ; nenhuma palmeira é soprada ao Oregon, que sábio o vento – Sábio tanto quanto os mensageiros do profeta... sabendo da fertilidade do tal lugar em que a dita profecia foi anunciada e poderia ser respondida – o semeador de trigo não semeia nos campos de cana; já que o semeador de voz também semeia o ouvido. E fosse o pequeno Liechtenstein ao invés de América, a designação... certamente então seríamos a língua de Liechtenstein –
Não foi tanto a gente descobrindo a América quanto a América descobrindo sua voz em nós; muitos discursavam pra América como se a América lhes pertencesse por usucapião, crédito, direito e lei juridicamente adquirida por meio de golpes materialísticos de prosperidade e herança; como o cidadão de uma sociedade acredita ser o dono da sociedade, e o que ele faz de si mesmo ele faz da América e assim quando ele fala de si ele fala da América e dessa forma outro ele é eleito pra representar o que ele representa... um ego infernal de uma América
Assim quantos patriotas discursam amorosamente sobre si mesmos quando discursam sobre a América, e não apreciá-los é não apreciar a América e vice-versa
A língua da verdade é a verdadeira língua da América, e não poderia ser encontrada no Daily Heralds já que a voz dali é uma voz controlada, amaldiçoadamente opinativa, e dirigida ao crédulo
Não espanta que nós nos tenhamos descoberto desenraizados, porque nós nos tornamos as próprias raízes, - a mentira jamais enraíza e dali cresce sob a verdade do sol e alcança o fruto da verdade
Taí Jack, eu não posso fazer o seu réquiem sem fazer o réquiem da América, e este é um réquiem que não me cabe antecipar, porque enquanto eu for vivo não existirão réquiens pra mim
Porque se a árvore morre a árvore nasce novamente, só depois que a árvore morrer pra sempre e nunca outra árvore nova nascer... então o solo morrerá também
Seus os olhos que viram, o coração que sentiu, a voz que cantou e lamentou; e enquanto a América viver, mesmo que seu corpo tenha morrido meu velho Kerouac, você viverá... porque de fato o nosso é o tempo da profecia sem a morte como conseqüência... porque de fato depois do nosso veio o tempo dos assassinos, e quem duvidará de suas últimas palavras “depois de mim... o Dilúvio”
Ah, mas se fosse questão de estações eu não duvidaria do retorno da árvore, se não pra que o solo que nos sustenta sendo ele incapaz de sustentar – é, a árvore vai cair quando for esta a estação, pois assim é o hábito da natureza, é assim que o solo, a queda, a lenta mas certa decomposição, até que a própria árvore se torna o próprio solo que a sustentou; depois que caia o solo... ah, e depois o quê? Isso não pode ser respondido na natureza, pois não haverá outro solo onde cair e repousar, nem queda, nem ascensão, nada crescerá, sem direção, e no que, por que, se a composição chegar à sua própria decomposição?
Nós viemos pra anunciar o espírito humano em nome da verdade e da beleza; agora esse mesmo espírito clama no lugar da natureza pelo horrível desequilíbrio de todas as coisas natural... esquiva natureza capturada! Como um pássaro na mão, aproveitado e remanufaturado nos moldes involutivos da técnica e do experimento
Pois é apesar de a árvore ter enraizado no solo o solo é revirado e nesse vômito forçado o terrível miasma das árvores fossilizadas da morte os restos milenares e a graxa de dinossauros mortos a eras são expelidos e espalhados trazidos novamente à superfície e avançam no céu e nós o respiramos em acúmulos de poluição
Que esperança pra América incorporada em ti, Amigo, quando o mesmo álcool que desencarnou o seu irmão pele-vermelha da sua América, desencarnou você – uma armação pra agarrar a terra deles, nós sabemos – ainda assim que armação pra agarrar a inagarrável terra do espírito de alguém? A Tua América visionária era impossível de ser visualizada – porque quando as sombras das janelas do espírito caem, aquilo que foi visto ainda permanece... os olhos do espírito ainda vêem
É, a América incorporada em ti, tão definitivamente enraizada assim, é a incorporação viva de toda a humanidade, jovem e livre
E sempre que a árvore redentora floresça, mesmo que não plenamente, mesmo que não com certeza, lá estarão os entrevados, velhos e tristes, que gostarão de fazê-la cair: eles cortam, retalham, atiram pra longe... que nada jovem e livre se sustente de qualquer maneira
Na verdade essas árvores eram como a juventude é... fossem tais árvores feitas pra cair, e não mais nascer pra crescer novamente, então o chão deveria cair, e o dilúvio chegar e inundar tudo, purificar tudo e todos pra sempre, como um vento vindo de lugar nenhum pra lugar algum

2.
“Como Clark Gable segura firme tuas mãos...” (conversa no México em 1956) – Mãos tão fortes e ensolaradas de México, ocupadas com a América, mãos que eu sabia iriam fazê-lo, iriam tomar conta e acariciar
Você estava sempre falando da América, e América sempre foi história pra mim, General Wolfe deitado no chão morrendo em sua farda vermelha brilhante amparado por alguém de farda azul pendurado na parede da sala de aula ao lado do pai da nação cujo peito estava sombreado na pintura... sim, a nossa foi uma História Americana, história com futuro, é claro;
Como um Whitman nós estávamos buscando, esperando por uma América, aquela América sempre uma América ainda em vir-a-ser, nunca uma América para ser cantada ou uma América para ouvir nosso canto, mas sempre uma América pela qual clamar cheio de esperança
Tudo o que nós tivemos foi a América passada, e nós mesmos, a América agora, e ah como nós guardávamos aquele passado! E Ah a grande mentira daquela sala de aula! A Guerra da Revolução... tudo o que nós tínhamos era Washington, Revere, Henry, Hamilton, Jefferson e Franklin... nunca Nat Bacon, Sam Adams, Paine... e a liberdade? Não foi pra conquistar a liberdade aquela guerra, liberdade eles tinham, eles eram os homens mais livres do seu tempo; foi para não perder aquela liberdade que eles pegaram em armas – ainda assim, e ainda assim, a estação em que nós florescemos para a cena era escassamente livre; há liberdade hoje? Não pra escutar o que o índio, o negro, o jovem têm a dizer
E no começo quando liberdade era tudo o que alguém podia escutar; não foi bem assim pras pobres bruxas de Salem; e aquele imenso entusiasta de liberdade, Franklin, pagou bondosamente100 dólares por cada escalpo de criança selvagem nascida livre; Pitt Jr conseguiu boa parte da cidade do amor fraterno por meio do ultraje ofensivo ao abandonar o coração confiante de seu irmão pele-vermelha com tortuosa trairagem; e como ignorava a liberdade o sábio Jefferson proprietário de negros que perderam a liberdade; pra os declaradores da Independência declará-la apenas para uma parte do todo era declarar a guerra civil
Justiça é tudo o que um homem da liberdade precisa esperar por; e justiça foi uma coisa extremamente importante pelos pais afundada; um diadema pra vida Americana sobre o qual podiam se estabelecer os gêmeos Deus e propriedade privada;
Como o pobre Americano nativo sofreu pela estabelecimento forçado daqueles dois pilares da liberdade!
Da Justiça brota um Deus inconstante; de Deus brota uma justiça ditada
“Os caminhos de Deus levam à liberdade” disse São Paulo... ainda assim é o homem que precisa da liberdade, e não Deus, pra ser capaz de seguir os caminhos de Deus
O justo direito do indivíduo à propriedade de seu pedaço de chão não se justifica para aqueles a quem a terra pertencia coletivamente em primeiro lugar;
Aquele que vende a terra da humanidade a um único homem vende a Ponte do Brooklyn,
A segunda maior causa de mortalidade humana... é a aquisição de propriedade
Nenhuma vida Americana vale um hectare da América... se Proibido Entrar ou cães de guarda não te convencerem uma arma de fogo o fará
E daí, doce buscador, que América buscou você então? Saiba que hoje existem milhões de americanos buscando a América... saiba que mesmo com toda essa química que expande os olhos – só mais do que não está lá eles vêem
Alguns encontram a América nas canções das pedras aglomeradas, outros na névoa da revolução
Todos a encontram em seus corações... e Ah como ela aperta o coração
Não é tanto suas existências aprisionadas numa velha e insuportável América... mais a América aprisionada neles – que dilacera e obscurece o espírito
Uma nunca vista América, sonhada, incerta em tremores, vagabunda o coração, envia más vibrações adiante cósmica e ao contrário
Você poderia ver o desprezo em seus tristes olhos jovens, e enquanto isso as prisões estão virando barbearias, e o exército sempre foi
Contudo inábeis eles são pra aparar o furacão de seus olhos
Mira até Moisés, nenhum profeta jamais alcançou o prometido das terras... ah mas teus olhos estão mortos... e nem a América para além de sua derradeira sonhada colina na real paira

3.
Como se parecem nossos corações e tempo e morte, como nossa América lá fora e dentro de nossos corações insaciável e ainda assim transbordando aleluias de poesia e esperança
Como a gente sabia sentir cada pôr-do-sol, e Oh e Ah uivo pra cada tristeza dourada e desamparo de costa a costa em nossa busca por qualquer alegria inabalável nunca lá e agorassempre cinza
Sim a América a América imaculada e jamais revolucionada para a liberdade e sempre em nós livre, a América em nós - desfronteirada e a-historicizada, nós a América, nós os pais daquela América, a América que você Johnnyappleseedou, a América que eu anunciei, uma América nunca lá, uma América prestes a ser
O profeta afeta o estado e o estado afeta o profeta – o que aconteceu com você, Oh amigo, aconteceu com a América – a mancha... as manchas
E ah quando se pergunta sobre você “o que aconteceu com ele?” Eu digo “Aconteceu com ele o que aconteceu na América – os dois eram inseparáveis” como o vento para o céu é a voz para a palavra...
E agora aquela voz se foi, e aquela palavra é foice, e a América desfaz-se, o planeta fossiliza
Um homem pode ter tudo o que quer dentro de casa e ainda assim não ter nenhuma onda pra curtir do lado de fora da porta – pra um homem sensível, um homem poeta, tal fora só serve pra fazer de sua casa um lugar onde alguém mergulha na ressaca fiz isso por causa do hang oneself
E quanto a nós, querido amigo, nós sempre trouxemos a América pra dentro de casa – e jamais como roupa suja, mesmo com todas as manchas
E pela porta da frente, carinhosamente aninhada em nossos corações; onde nós sentávamos e desenvolvíamos nossos sonhos de beleza na esperança de que ela tornaria belo o nosso ninho
E o que aconteceu com o nosso sonho (beauteous: beat) de América embelezada, Jack?
Pareceu bonito a você, soou assim tão bem, em seu frio elétrico blues, aquela América que vomitou e empesteou sua casa, seu cérebro bom, aquela irreal falsa América, aquela caricatura de América, que ligou a América num muro... um galão de uísque desesperado te levou um dia a olhar aquela América em seu olho incorpóreo
E ela não te viu, ela nunca viu você, porque o que você viu não estava lá, o que você viu foi besteirol na tv, e toda a América estava nessa de bobeira, aquela América que emburrou você, emburrou a América, tudo aquilo emburrado, (brought you in), tudo aquilo em lugar algum sem conteúdo, não surpreende que você tenha sido solitário, morreu vazio e triste e sozinho, você a voz e a face na real... capturado nas ondas da falsa voz e da face falsa – que se tornou real e você falsificado,
Oh a terrível fragilidade das coisas
“O que aconteceu com ele?” “O que aconteceu contigo?” A morte foi o acontecimento; uma vida desenganada aconteceu; um Deus adoecido aconteceu; um sonho em pesadelo; uma juventude militarizada; militares massacrados; o pai quer devorar o filho, o filho usado como lenha pra acender a pira, (the son feeds his Stone, but the father no get stoned), mas o pai nada de pirar
E você Jack, pobre Jack, viu seu pai morrer, sua América morrer, seu Deus morrer, seu corpo morrer, morrer morrer morrer; e hoje os pais assistem seus filhos a morrer, e seus filhos assistem bebês a morrer, por quê? Por quê? Como nós dois perguntamos POR QUÊ?
Ah a horrível triste tristeza disso tudo
Você nada além de uma década Kerouac, mas quanta vida naqueles dez Kerouac!
Nada aconteceu a você que não tenha acontecido; nada ficou incompleto; você circulou por todo o ciclo, e o que está acontecendo com a América não mais acontece com você, porque o que acontece com a consciência de uma terra também acontece com a voz daquela consciência e a voz está morta ainda que a terra perdure pra esquecer o que escutou e da palavra não resta um osso
E tanto a palavra quanto o solo de carne e terra sofrem a mesma doença e a mesma morte... e morre a voz antes da carne, e o vento sopra um silêncio mortal sobre a terra moribunda, e a terra vai olvidar sua ossada, e nada de vento pra soar o gemido, só silêncio, silêncio, e nem mesmo o ouvido de Deus pra escutar
É, o que aconteceu com você, querido amigo, compassivo amigo, é o que está mudando todos e tudo no planeta o clamorosamente triste desesperado planeta agora com uma voz a menos... expansiva como o vento... partida, e agora quem vai soprar pra longe o terrível miasma da doença, doentia e moribunda em carne e terra a alma da América
Quando você pôs o pé na estrada à procura da América você encontrou somente o que você mesmo viu nela e um homem à procura de ouro encontra a única América que há pra encontrar; e este investimento e o investimento de um poeta... dá no mesmo quando vem a quebradeira, e estamos quebrando, no entanto as janelas são apertadas, não dá pra pular; do inferno ninguém jamais caiu

4.
No inferno os réus anjos também cantam (in Hell angels sing)
E cantaram para manter renovados
Os que seguiram quem carregou Cristo menino nos ombros
Abandonaram o inferno e contemplaram um mundo novo
Contudo com armas e bíblias eles vieram
E cedo sua morada nova envelheceu
E mais uma vez o inferno aportou.

O Arcanjo Rafael eu era pra você
E eu pus a cruz do Senhor dos Anjos
Em você... ali
No limite de um mundo novo a explorar
E você foi lampejo sobre um velho e escuro dia
Um beat criança-Cristo... com a gentil circularidade das coisas sobre os ombros
Insistindo que a alma é circular e não quadrada
E então... depois de ti
Seguiram os teus passos
Os filhos das flores.