Adianta dizer a minha lucidez
E avançar meu argumento contra
O caráter precário da minha existência
Uma existência canina
De cão sem dono nunca resignado porém
Aqueles campeões em tudo produtivos e nem por isso saudáveis
E aqui reclamo minha agonia a ausência de obra nada saudável
A obra precária inexistente
Uma não obra
Uma mão na roda
Aquela alegria dos que obram e impõem-se
Os que respaldam a obra aqueles elogios nunca conheci
O reconhecimento e reclamo
Reclame
Publicitário
Quando você é vulgar: apenas negocia convenções, não domina os segredos, qualquer um pode dizer que árvore é o nome de uma cidade, que cidade é o nome de uma arma, que arma é um sentimento, que sentimento é o nome de um faraó. A língua epistolar é a conversa vulgar no desentendimento, mesmo que este ocasione encontros repentinos e imprevistos. É quando uma criança autista diz pra você: se o mundo gira, porque você não fica tonto?
9/30/2011
9/27/2011
Aqui estou de novo
O tendão do dedo indicador pedindo descanso, como se eu tivesse passado horas assinando meu nome meu nome meu nome e de novo meu nome. Os mesmos traços no papel, sempre recomeçar: como um leão neurótico andando em círculos numa pequena jaula. Como se a caneta fosse capaz de tatuar a pele de celulose. Mas, nada é mais exterior ao sujeito que seu nome. Todo nome é uma fatalidade, quando não é uma citação, ou pior, um prenúncio de lápide. Então por que estou aqui de novo? Porque os anjos, com asas que um dia ainda brotarão desses traços negros na tela luminosa voando para a imaginação de quem fala a minha língua, ainda não estão prontos. Se é que um dia ficarão: suspeito que a matéria-prima dos anjos é o instante. Então, por que estou aqui de novo? Porque as flores, quando morrem, perdem o dom de agir criando elos. E o tempo das flores é curto: a morte das flores é visível a cada segundo. E assim preciso prosseguir desenhando novas e novas flores na sua mente, se você fala a minha língua. Você não vê, agora, uma flor surgindo tão real na sua imaginação? Ainda está muito abstrato? Pense num girassol vermelho, num lírio azul, se debruce sobre flores negras e sem nome. Sinta o gosto do girassol em pó, que te servem no Inferno para matar, piorando, a sua sede. Você não vê, agora, flor alguma? Você não se tocou que essa flor seria um anjo? Você não vê? Não viu?
O tendão do dedo indicador pedindo descanso, como se eu tivesse passado horas assinando meu nome meu nome meu nome e de novo meu nome. Os mesmos traços no papel, sempre recomeçar: como um leão neurótico andando em círculos numa pequena jaula. Como se a caneta fosse capaz de tatuar a pele de celulose. Mas, nada é mais exterior ao sujeito que seu nome. Todo nome é uma fatalidade, quando não é uma citação, ou pior, um prenúncio de lápide. Então por que estou aqui de novo? Porque os anjos, com asas que um dia ainda brotarão desses traços negros na tela luminosa voando para a imaginação de quem fala a minha língua, ainda não estão prontos. Se é que um dia ficarão: suspeito que a matéria-prima dos anjos é o instante. Então, por que estou aqui de novo? Porque as flores, quando morrem, perdem o dom de agir criando elos. E o tempo das flores é curto: a morte das flores é visível a cada segundo. E assim preciso prosseguir desenhando novas e novas flores na sua mente, se você fala a minha língua. Você não vê, agora, uma flor surgindo tão real na sua imaginação? Ainda está muito abstrato? Pense num girassol vermelho, num lírio azul, se debruce sobre flores negras e sem nome. Sinta o gosto do girassol em pó, que te servem no Inferno para matar, piorando, a sua sede. Você não vê, agora, flor alguma? Você não se tocou que essa flor seria um anjo? Você não vê? Não viu?
9/24/2011
Remixagem dos meus poemas sobre o ipê amarelo
O ipê amarelo dos meus sonhos teria flores sem elos com cores quaisquer a não ser
o amarelo em sua pureza de flores se abrindo
ao sol:
amarelo de face metálica, sem outro nome ou mistura
(mesmo o avesso das pétalas ainda teria o mesmo
amarelo, onde eu poderia deitar minha sombra. Ele seria plantado no coração vertiginoso do continente, onde eu repousaria, longe do mar e seu rumor.
O ipê amarelo que tenho diante de mim, porém, é um tronco seco, fino,
um poste
um fio
um dedo
uma forca
Flores amarelas, sem alegria, sem esperança, desmemoriadas, absortas,
absurdas.
Sonhar é fogo. O amarelo mais puro é filho do instante. O ipê se acende e se consome na imaginação, como asas (de anjos): labaredas pétalas.
o amarelo em sua pureza de flores se abrindo
ao sol:
amarelo de face metálica, sem outro nome ou mistura
(mesmo o avesso das pétalas ainda teria o mesmo
amarelo, onde eu poderia deitar minha sombra. Ele seria plantado no coração vertiginoso do continente, onde eu repousaria, longe do mar e seu rumor.
O ipê amarelo que tenho diante de mim, porém, é um tronco seco, fino,
um poste
um fio
um dedo
uma forca
Flores amarelas, sem alegria, sem esperança, desmemoriadas, absortas,
absurdas.
Sonhar é fogo. O amarelo mais puro é filho do instante. O ipê se acende e se consome na imaginação, como asas (de anjos): labaredas pétalas.
9/20/2011
A ciclovia
A CICLOVIA
"— Meu caro, você conhece o terror que tenho de motos e carros.
(e dos pedestres)"
Um passante de
bicicleta
se destaca no horizonte.
Sua intenção é atingir a ciclovia perfeita.
Ele reclama:
— “A pista da ciclovia é inútil, ela termina, ela desemboca na rua”.
O ciclista sabe que precisa
passar pelos carros para atingir a
ciclovia.
O ciclista sabe que precisa
passar pelas motos para sair da
ciclovia.
Ele pedala altaneiro
por alguns minutos respira a sensação
enfim esse espaço.
O espaço da ciclovia se confunde com a calçada.
O pedestre flana.
O pedestre invade a
ciclovia.
Na superioridade de sua preferência
sua prioridade absoluta facilita o acidente [alguém adverte].
Manoel me disse que o carro deve manter a distancia de dois metros da
bicicleta.
Qual a distância que o pedestre deve manter da
bicicleta?
O pedestre vive seu estado de exceção.
O pedestre turista vive seu estado de imposição.
— Ele tem Razão! Isso não é uma razão, diz Michel.
—
[Outro dia Marília esbarrou com Deguy de bicicleta]
João quer pedalar continuamente mesmo não sendo um atleta.
Sem interrupções, de ponto a ponto, da esquina até Ipanema, até a Lagoa.
As pernas retraídas
esticam-se continuadamente.
Se esforçam formando
ondulações.
Elásticas
as pernas
na bicicleta
ondulam.
[Marília depois me contou]
Deguy saiu da
ciclovia
chegou na avenida de
bicicleta.
Naquele momento interrompido em que
caía.
Ridículo na lama.
Quando o poeta se estatelava no
chão.
"— Meu caro, você conhece o terror que tenho de motos e carros.
(e dos pedestres)"
Um passante de
bicicleta
se destaca no horizonte.
Sua intenção é atingir a ciclovia perfeita.
Ele reclama:
— “A pista da ciclovia é inútil, ela termina, ela desemboca na rua”.
O ciclista sabe que precisa
passar pelos carros para atingir a
ciclovia.
O ciclista sabe que precisa
passar pelas motos para sair da
ciclovia.
Ele pedala altaneiro
por alguns minutos respira a sensação
enfim esse espaço.
O espaço da ciclovia se confunde com a calçada.
O pedestre flana.
O pedestre invade a
ciclovia.
Na superioridade de sua preferência
sua prioridade absoluta facilita o acidente [alguém adverte].
Manoel me disse que o carro deve manter a distancia de dois metros da
bicicleta.
Qual a distância que o pedestre deve manter da
bicicleta?
O pedestre vive seu estado de exceção.
O pedestre turista vive seu estado de imposição.
— Ele tem Razão! Isso não é uma razão, diz Michel.
—
[Outro dia Marília esbarrou com Deguy de bicicleta]
João quer pedalar continuamente mesmo não sendo um atleta.
Sem interrupções, de ponto a ponto, da esquina até Ipanema, até a Lagoa.
As pernas retraídas
esticam-se continuadamente.
Se esforçam formando
ondulações.
Elásticas
as pernas
na bicicleta
ondulam.
[Marília depois me contou]
Deguy saiu da
ciclovia
chegou na avenida de
bicicleta.
Naquele momento interrompido em que
caía.
Ridículo na lama.
Quando o poeta se estatelava no
chão.
9/17/2011
liserg
(tela de Lucien Freud, falecido em julho deste ano)
ouvir so lonely em 1978 num pub londrino
olhando o calendário marcar 2011
sem nunca ter pisado em londres
falar com as paredes falar com as paredes
falar com as paredes
escrever um poema com palavras que sejam
só suas
riscar a pele dos dias com uma fratura
exposta querendo que disso façam
teoria nas tardes do conservatório
discar para os desconhecidos que lhe conhecem
bem e inserir mentiras no roteiro
que eles estão representando
dançar de novo dançar de novo
dançar de novo
escondendo no bolso um bilhete sem volta
pra pasargada
sabendo que ela foi bombardeada
olhar bem dentro dos olhos da fera
e amar a fera entre os escombros do seu dia
resetar o passado em doses insuportáveis
mas sem desferir o último golpe
antes que a chuva umedeça os corpos
antes que o mundo role como uma cabeça
antes que os dados do destino escapem pra sempre
dos seus dedos
ouvir so lonely em 1978 num pub londrino
olhando o calendário marcar 2011
sem nunca ter pisado em londres
falar com as paredes falar com as paredes
falar com as paredes
escrever um poema com palavras que sejam
só suas
riscar a pele dos dias com uma fratura
exposta querendo que disso façam
teoria nas tardes do conservatório
discar para os desconhecidos que lhe conhecem
bem e inserir mentiras no roteiro
que eles estão representando
dançar de novo dançar de novo
dançar de novo
escondendo no bolso um bilhete sem volta
pra pasargada
sabendo que ela foi bombardeada
olhar bem dentro dos olhos da fera
e amar a fera entre os escombros do seu dia
resetar o passado em doses insuportáveis
mas sem desferir o último golpe
antes que a chuva umedeça os corpos
antes que o mundo role como uma cabeça
antes que os dados do destino escapem pra sempre
dos seus dedos
Uma aproximação ao poema de Creeley (Numbers)
Números, de Creeley
Um
Que condição singular
de florescimento
vertical…
vai por aqui,
vem por aqui.
*
quem eu era que
pensava ser
outro um por
si mesmo dividido ou somado
produz um
*
esta hora, este
lugar, este
um.
*
você não é
eu, eu não você.
*
me todos
*
como pau,
pedra, dada
coisa tão
fixada que tem
uma cabeça, caminha,
conversa, leva
uma vida.
Dois
Na primeira vez
em que foram feitos
toda terra deve
ter sido seus corpos
refletidos, num instante –
um fluxo de impressão
de que uma curva no tempo
voltava ao brilho da água –
a ternura em que vieram.
*
O que você quis
eu senti, ou senti que senti.
o que já é mais que um.
*
o estado da assim chamada
consciência é sempre
uma palavra perfazendo
este mundo de mais
ou menos do que é.
*
não me abandone.
me a me. um a um.
*
como se próximo
a mim outro alguém
se aproxima. Só
para fazer você
minha, na mente,
decifrar você.
Três
Eles, agora, mais
um entre dois –
seja de um lado seja
de outro. Será
que eles sabem quem é
quem, ou simplesmente vão
com este pivô de entremeio.
Aqui as formas têm potencial.
*
Quando isto ou
aquilo se torna
escolha, este estado
das coisas trespassa.
Aquilo que foi
agora acordado
alterna entre
dois e um,
me todos.
*
O primeiro
triângulo, de geometria,
de pessoas,
soou como
ocasião única, eu
acho – começa
aqui, intangível,
o círculo –
um nascimento.
Quatro
Este número vale
como conforto, fato
seguro. Qual
mesa firme
sobre quatro. O cão
confortavelmente caminha,
e dois a dois
não perfaz militares
mas amigos amáveis
mãos dadas. Quatro
é uma praça,
ou círculo pacífico,
celebrando o retorno,
o encontro,
o triunfo do amor.
*
A carta que traz
o quatro de copas
é signo de experiência
de vida. Que outro
sentido haveria.
*
Uma porta
quatro – todavia
quem entra.
*
Abstrato – sim, qual
dois e dois
dados, quatro dados –
um e três.
Cinco
Dois a
dois mais
outro agora
no meio
ou então do
lado.
*
De cada
um dos quatro
cantos trace
uma linha
indo ao ponto
oposto. Ali
na intersecção
faz-se o
cinco.
*
Quando mais novo este era
o número requerido
para contas, e para
imaginar um conjunto
útil. De algum jeito o extra-
-um – que é mais que quatro –
me assegurava que havia
o que bastava. Dois e três
um e quatro está completo.
*
Como desenhar estrelas.
Seis
Misturando-se
tais formas
entre
dois e três –
no sexto
dia findara
a criação –
íntegra –
ou que o sol
é pleno
no equador & parece
parar, depois
retornando...
ou que isto contém
o primeiro número
(2), e o primeiro excesso
do número (3), o primeiro sendo
o membro do macho, o último
muliebris pudenda...
Ou dois triângulos entrecruzados.
Sete
Somos sete, ressoa dentro
da cabeça como pesadelo de
responsabilidade – sete
dias na semana, sete
anos para a sarna
do envolvimento irreversível.
*
Olha
a
luz
desta
hora.
*
Eu nasci às sete
da matina e meu
pai tinha um monumento
de pedra, pedestal na
porta de entrada
do hospital de que ele era
o cabeça.
*
Às seis
às sete – a caneta
perdida, o papel:
embriaguez
de noite morta. Por que
a morte de algo tão
próximo a este
número é total.
Tudo não
passa de um
único número?
contar,
sempre e novamente.
*
Aqui jaz o número sete.
Oito
Dizer “oito” –
paciência.
Dois quatros
indicam o método.
*
Este número, nenhum outro,
demarca o ciclo –
intervalo de oito anos –
pois tal confluência
faz a lua cheia brilhar
no mais longo
ou mais curto
dia do ano.
*
A seca está quase no fim.
O mês é agosto –
este intervalo.
*
Ela tem
oito anos
segura o gatinho
e olha pra mim.
*
Onde você está.
A mesa.
A cadeira.
*
Traços luminosos demarcam o intervalo.
Oito faz o tempo passar em silêncio.
*
Não tem volta –
apesar da metade
ser quatro
e a metade,
dois.
*
Oct-
ago-
na-
l.
Nove
Aqui não
se repousa.
Agita-se,
reflete-se múltiplo
o três
vezes três.
Como espelho:
volta aqui,
ali estando.
*
Talvez na
ênfase implícita –
a mais que a mais que –
“tríade das tríades,”
“triplamente sagrado
e perfeito” – o que se
resolve –
na mutante
cadente destinação?
*
De certa forma, o jogo
em que algo se esconde
na casca da noz, uma
pedra ou moeda, e
a mão mais veloz
que os olhos –
como podem ser nove,
e não três
alternativas, a não ser
que sejam
três imaginações,
e são dois jogando –
o que dá seis, mas
o mundo é real,
mesmo em si.
*
Mais. Nove meses
da espera à descoberta
de vida ou morte –
outra vida - outra morte –
não a sua, não
a minha, como se vê.
*
A diminuição gra-
dativa da progressão
dos produtos que
me fez lembrar:
nove vezes dois é um-oito
nove vezes nove é oito-um –
de cada termo,
atrás, adiante,
então, o mesmo
número.
*
Que lei
ou
mistério
que ama
se
ocultar.
Zero
Onde está você – que
por não estar aqui
aqui está, mas aqui
por não estar aqui?
Não tem atalho pro real –
a mente,
qualquermente,
o perfaz. Você
passa os anos
nonada, nenhum
lugar que eu saiba tanto
quanto o ar
que aspiro, soprando a fumaça
pra fora da boca
também dá no nada,
e este é o destino.
*
Estudando sistemas primitivos
parece natural, desde o dez,
o retorno do um –
mas isto não é dez – saído
do nada, o um, retorna –
brasileiros têm um jeito meigo –
alguém já disse isso –
de “não fazer nada” – Que mais
devem, conseguem, fazer?
*
O que
por não ser
é – e não
por ser.
*
Apreciamos no queijo
Os vazios saborosos.
Um
Que condição singular
de florescimento
vertical…
vai por aqui,
vem por aqui.
*
quem eu era que
pensava ser
outro um por
si mesmo dividido ou somado
produz um
*
esta hora, este
lugar, este
um.
*
você não é
eu, eu não você.
*
me todos
*
como pau,
pedra, dada
coisa tão
fixada que tem
uma cabeça, caminha,
conversa, leva
uma vida.
Dois
Na primeira vez
em que foram feitos
toda terra deve
ter sido seus corpos
refletidos, num instante –
um fluxo de impressão
de que uma curva no tempo
voltava ao brilho da água –
a ternura em que vieram.
*
O que você quis
eu senti, ou senti que senti.
o que já é mais que um.
*
o estado da assim chamada
consciência é sempre
uma palavra perfazendo
este mundo de mais
ou menos do que é.
*
não me abandone.
me a me. um a um.
*
como se próximo
a mim outro alguém
se aproxima. Só
para fazer você
minha, na mente,
decifrar você.
Três
Eles, agora, mais
um entre dois –
seja de um lado seja
de outro. Será
que eles sabem quem é
quem, ou simplesmente vão
com este pivô de entremeio.
Aqui as formas têm potencial.
*
Quando isto ou
aquilo se torna
escolha, este estado
das coisas trespassa.
Aquilo que foi
agora acordado
alterna entre
dois e um,
me todos.
*
O primeiro
triângulo, de geometria,
de pessoas,
soou como
ocasião única, eu
acho – começa
aqui, intangível,
o círculo –
um nascimento.
Quatro
Este número vale
como conforto, fato
seguro. Qual
mesa firme
sobre quatro. O cão
confortavelmente caminha,
e dois a dois
não perfaz militares
mas amigos amáveis
mãos dadas. Quatro
é uma praça,
ou círculo pacífico,
celebrando o retorno,
o encontro,
o triunfo do amor.
*
A carta que traz
o quatro de copas
é signo de experiência
de vida. Que outro
sentido haveria.
*
Uma porta
quatro – todavia
quem entra.
*
Abstrato – sim, qual
dois e dois
dados, quatro dados –
um e três.
Cinco
Dois a
dois mais
outro agora
no meio
ou então do
lado.
*
De cada
um dos quatro
cantos trace
uma linha
indo ao ponto
oposto. Ali
na intersecção
faz-se o
cinco.
*
Quando mais novo este era
o número requerido
para contas, e para
imaginar um conjunto
útil. De algum jeito o extra-
-um – que é mais que quatro –
me assegurava que havia
o que bastava. Dois e três
um e quatro está completo.
*
Como desenhar estrelas.
Seis
Misturando-se
tais formas
entre
dois e três –
no sexto
dia findara
a criação –
íntegra –
ou que o sol
é pleno
no equador & parece
parar, depois
retornando...
ou que isto contém
o primeiro número
(2), e o primeiro excesso
do número (3), o primeiro sendo
o membro do macho, o último
muliebris pudenda...
Ou dois triângulos entrecruzados.
Sete
Somos sete, ressoa dentro
da cabeça como pesadelo de
responsabilidade – sete
dias na semana, sete
anos para a sarna
do envolvimento irreversível.
*
Olha
a
luz
desta
hora.
*
Eu nasci às sete
da matina e meu
pai tinha um monumento
de pedra, pedestal na
porta de entrada
do hospital de que ele era
o cabeça.
*
Às seis
às sete – a caneta
perdida, o papel:
embriaguez
de noite morta. Por que
a morte de algo tão
próximo a este
número é total.
Tudo não
passa de um
único número?
contar,
sempre e novamente.
*
Aqui jaz o número sete.
Oito
Dizer “oito” –
paciência.
Dois quatros
indicam o método.
*
Este número, nenhum outro,
demarca o ciclo –
intervalo de oito anos –
pois tal confluência
faz a lua cheia brilhar
no mais longo
ou mais curto
dia do ano.
*
A seca está quase no fim.
O mês é agosto –
este intervalo.
*
Ela tem
oito anos
segura o gatinho
e olha pra mim.
*
Onde você está.
A mesa.
A cadeira.
*
Traços luminosos demarcam o intervalo.
Oito faz o tempo passar em silêncio.
*
Não tem volta –
apesar da metade
ser quatro
e a metade,
dois.
*
Oct-
ago-
na-
l.
Nove
Aqui não
se repousa.
Agita-se,
reflete-se múltiplo
o três
vezes três.
Como espelho:
volta aqui,
ali estando.
*
Talvez na
ênfase implícita –
a mais que a mais que –
“tríade das tríades,”
“triplamente sagrado
e perfeito” – o que se
resolve –
na mutante
cadente destinação?
*
De certa forma, o jogo
em que algo se esconde
na casca da noz, uma
pedra ou moeda, e
a mão mais veloz
que os olhos –
como podem ser nove,
e não três
alternativas, a não ser
que sejam
três imaginações,
e são dois jogando –
o que dá seis, mas
o mundo é real,
mesmo em si.
*
Mais. Nove meses
da espera à descoberta
de vida ou morte –
outra vida - outra morte –
não a sua, não
a minha, como se vê.
*
A diminuição gra-
dativa da progressão
dos produtos que
me fez lembrar:
nove vezes dois é um-oito
nove vezes nove é oito-um –
de cada termo,
atrás, adiante,
então, o mesmo
número.
*
Que lei
ou
mistério
que ama
se
ocultar.
Zero
Onde está você – que
por não estar aqui
aqui está, mas aqui
por não estar aqui?
Não tem atalho pro real –
a mente,
qualquermente,
o perfaz. Você
passa os anos
nonada, nenhum
lugar que eu saiba tanto
quanto o ar
que aspiro, soprando a fumaça
pra fora da boca
também dá no nada,
e este é o destino.
*
Estudando sistemas primitivos
parece natural, desde o dez,
o retorno do um –
mas isto não é dez – saído
do nada, o um, retorna –
brasileiros têm um jeito meigo –
alguém já disse isso –
de “não fazer nada” – Que mais
devem, conseguem, fazer?
*
O que
por não ser
é – e não
por ser.
*
Apreciamos no queijo
Os vazios saborosos.
A arte de ver, em 3 passos
1
Deixar o sol entrar nos olhos:
Um pequena bolha azul nas pálpebras,
A manhã tecida nas veias
2
Olhos de prata:
Ao dormir aninhar-se
Nas asas da águia.
3
E pensar que se é uma flor
Que nos olhos-pétala
Traz a fria substância lunar
Deixar o sol entrar nos olhos:
Um pequena bolha azul nas pálpebras,
A manhã tecida nas veias
2
Olhos de prata:
Ao dormir aninhar-se
Nas asas da águia.
3
E pensar que se é uma flor
Que nos olhos-pétala
Traz a fria substância lunar
Ficando racional
1
Eu, de preto,
Escalpelo cachoeiras,
Rumino pétalas,
Aqui com meus botões.
2
Reparo no jardim:
Sua verde geometria
São cabelos de alguém.
A flor azul do delírio
Não cede à tentação
Amarga de provar seus sabores.
Tudo o que sei é de uma estrela negra e fria
Cravada em meu peito
E que quando a estrela se acende
Rebrilha de violeta a azul
E flore em minhas mãos, cheias de pétalas.
E embora nada neste momento o diga
Uma estrela negra virou uma flor azul
Que virou um pássaro:
O pássaro é branco e amarelo
E vive no fundo do mar
O pássaro absolutamente não canta
Mas salta com seu bico pontiagudo
E fere meus olhos.
E isto no exato momento em que eu ia perigosamente
Me aproximando de alguma palavra perdida.
Antes de eu reparar no jardim
Me lembro de outra flor preta que havia
Apenas notada quando alguma caminhada banal
Trazia um incômodo a meus pés.
A florzinha logo se mulitplicou
Rápida e discretamente
E eu só percebi a proliferação
Quando as feras já alcançavam minha garganta
E em tudo o que digo
Sinto
Um odor de flores azuis.
Eu, de preto,
Escalpelo cachoeiras,
Rumino pétalas,
Aqui com meus botões.
2
Reparo no jardim:
Sua verde geometria
São cabelos de alguém.
A flor azul do delírio
Não cede à tentação
Amarga de provar seus sabores.
Tudo o que sei é de uma estrela negra e fria
Cravada em meu peito
E que quando a estrela se acende
Rebrilha de violeta a azul
E flore em minhas mãos, cheias de pétalas.
E embora nada neste momento o diga
Uma estrela negra virou uma flor azul
Que virou um pássaro:
O pássaro é branco e amarelo
E vive no fundo do mar
O pássaro absolutamente não canta
Mas salta com seu bico pontiagudo
E fere meus olhos.
E isto no exato momento em que eu ia perigosamente
Me aproximando de alguma palavra perdida.
Antes de eu reparar no jardim
Me lembro de outra flor preta que havia
Apenas notada quando alguma caminhada banal
Trazia um incômodo a meus pés.
A florzinha logo se mulitplicou
Rápida e discretamente
E eu só percebi a proliferação
Quando as feras já alcançavam minha garganta
E em tudo o que digo
Sinto
Um odor de flores azuis.
9/15/2011
Do meu caderno de experimentações - XLVI
Sento-me no parapeito do silêncio. Se estender o braço para fora, cederei ao peso das mãos.
Porque mãos pesam quilos e quilos. Toneladas.
O amor rumina dentro dos dedos.
É muito difícil baixar o volume ou gritar alto, mais alto, em noites assim.
Eu?
Nem ouso empinar a cabeça. Estou ensopada pela bruta sanguinolência dos ursos, que se espreguiçam e bocejam devagar.
(Pouso a mão sobre este sono. Peso.)
O amor rumina dentro dos dedos.
Nem ouso...
Em breve o meu rosto há de ser uma flor a se abrir ao meio-dia, implacável.
Sei que a música, o hino sulfúrico da morte, há de esbofetear — os dedos longos, longos, tanto amor — a minha face direita.
Oferecerei também a outra.
***
(Também publicado em De Ter de Onde se Ir)
9/11/2011
Combustão Humana Espontânea
Mesmo que eu me cale, as palavras continuarão me invadindo. Palavras sopradas, inoculadas, jogadas de todos os lados prosseguirão seu trabalho persistente de inflar a alma. O mero silenciamento não é capaz de deter o processo, tão natural quanto qualquer outro, em que as palavras se misturam à vida dando origem a um sujeito inchado e combustível. Se eu fechar a boca, paralisar os dedos, conter-me, apenas adiarei a explosão inevitável. Sem contar que as palavras não decantam como matéria inerte num canto escuro de você. Brisa cheia de dentes remoendo as sensações, água-viva queimando a mente, matéria inflamável na alma –
deus azul inexistente, me ensine a arte sutil das metamorfoses.
deus azul inexistente, me ensine a arte sutil das metamorfoses.
9/08/2011
cansei de escrever poemas, qualquer embriaguez
traz melhores resultados, pois é, cansei
de escrever poemas, os dias não passaram
mais lentamente ou mais rapidamente,
a cidade não se ergueu da anestesia, os diários
ainda não registram aquilo que na vida
acontece, uma sinfonia de vozes continua
vibrando sem dizer nada
cansei de escrever poemas, cansei das rimas,
da falta de rimas, da prosa, da invenção,
de ser barroco, de não ser barroco, de buscar
entre os poemas os que não mostram lugares
comuns, de tentar entender o que se move
entre o som e o sentido, de tentar ver o corte
que existe entre as palavras, de tentar mover
as palavras, moer as palavras
cansei de escrever poemas, cansei também
da embriaguez da poesia, mas não posso
dizer que já aceito o assalto do real e não
consigo ainda diferenciar uma coisa da outra
mesmo cansado da poesia e não aceitando por enquanto
os tributos que o real nos impõe às claras, cansei
de falar com as paredes, cansei de mover
outras vozes sobre o silêncio
cansei de escrever poemas, cansei da métrica,
do compasso, da palavra exata, do verso
livre, do cinismo da linguagem, da entrelinha
e, no entanto, não sei o que fazer no lugar
de poemas, não aprendi qualquer outro meio
de abrir fendas nos muros do mundo,
de pintar grafites nos desertos do mundo,
de não dizer sim com o silêncio
traz melhores resultados, pois é, cansei
de escrever poemas, os dias não passaram
mais lentamente ou mais rapidamente,
a cidade não se ergueu da anestesia, os diários
ainda não registram aquilo que na vida
acontece, uma sinfonia de vozes continua
vibrando sem dizer nada
cansei de escrever poemas, cansei das rimas,
da falta de rimas, da prosa, da invenção,
de ser barroco, de não ser barroco, de buscar
entre os poemas os que não mostram lugares
comuns, de tentar entender o que se move
entre o som e o sentido, de tentar ver o corte
que existe entre as palavras, de tentar mover
as palavras, moer as palavras
cansei de escrever poemas, cansei também
da embriaguez da poesia, mas não posso
dizer que já aceito o assalto do real e não
consigo ainda diferenciar uma coisa da outra
mesmo cansado da poesia e não aceitando por enquanto
os tributos que o real nos impõe às claras, cansei
de falar com as paredes, cansei de mover
outras vozes sobre o silêncio
cansei de escrever poemas, cansei da métrica,
do compasso, da palavra exata, do verso
livre, do cinismo da linguagem, da entrelinha
e, no entanto, não sei o que fazer no lugar
de poemas, não aprendi qualquer outro meio
de abrir fendas nos muros do mundo,
de pintar grafites nos desertos do mundo,
de não dizer sim com o silêncio
Depois de ler A Arte da Memória de Frances Yates

Você grava na mente o planeta que se expande como um vôo e
De leite a branco, de branco a ar, de ar a outono. Declinar-se frio e úmido. Alma evapora do mel, alimento de deuses. Semear o girassol vermelho. Fazer amor com a puta de olhos furados e orelhas cortadas. O leão é manso aos pés do mago. Um carneiro, de chifres fortes, vem em sua direção no escuro: melancólicos têm memória de elefante.
Você grava na mente a lua que se dissolve e cria musgo em seu sangue e
De lírio a azul, de azul a água, de água a inverno. Declinar-se frio e seco. Alma evapora do leite, alimento de deuses. Semear o trigo branco. Fazer amor com as chamas de um incêndio. O lobo é manso aos pés do mago. Um touro, de chifres fortes, vem em sua direção no escuro: melancólicos têm memória de leão.
Você grava na mente o planeta que se enrola em suas veias como arame farpado e
De sangue a ocre, de ocre a terra, de terra a primavera. Declinar-se quente e úmido. Alma evapora do trigo, alimento de deuses. Semear o lírio verde. Fazer amor com a princesa na cama de espinhos. O elefante é manso aos pés do mago. Um carneiro, de chifres fortes, vem em sua direção no escuro: melancólicos têm memória de lobo.
Você grava na mente o sol até que ela cada vez mais quente brilha e
De trigo a amarelo, de amarelo a fogo, de fogo a verão. Declinar-se quente e seco. Alma evapora do lírio, alimento de deuses. Semear o mel azul. Fazer amor com a virgem de dentes pretos e língua de serpente. O leão é manso aos pés do carneiro. Um touro, de chifres fortes, vem em sua direção no escuro: melancólicos têm memória de mago.
Tudo isso supondo que os caminhos são bifurcações em série a partir de um mesmo centro brilhante esquecido mas real e que o mergulho ou o vôo levam à mesma divindade, que a sua matéria-prima mais íntima pode ser vista se você olha para o alto e a dor ou a alegria na sua alma repercutem nos cristais celestes, quando por seu lado, melancólico leitor de livros de história, você olha pela janela e se depara com o nãocriado e persistente silêncio e o escuro, ou, mais que escuro, transparente silêncio que persistirá e não precisa de você e a memória é uma sangria desatada correndo para todos os lados enquanto se indaga sobre como harmonizar estilhaços do sol.
Sem começo, sem fim: quer dizer, pelo menos sem começo pelo que eu me lembre e sem fim porque não adivinho o sentido. Quando eu era criança, tínhamos no apartamento um armário que me dava uma estranha sensação de mistério. Ele ficava na área de serviço, era embutido, pequeno, quadrado, baixo, muito escuro por dentro. Para piorar, em seu fundo a parede estava meio arrebentada: como se ele tivesse um buraco, uma outra porta, um portal. Mas ele era usado para guardar garrafas vazias, de cerveja, vinho, cachaça (um pouco mais ou menos do que 30, mas não exatamente 30). Ainda assim, tínhamos que ficar longe dele. Teia de aranha e cheiro de barata morta. Eu não o imaginava como um esconderijo, mas uma passagem. A fantasia mais apaixonante era que ali eu encontraria um túnel que me levaria ao terraço do prédio. Um túnel: as garrafas estavam ali fazendo o papel das coisas usadas pela banalidade da vida, tédio e rancor lento entre as paredes frias. Mas, eu poderia passar por elas, mesmo que me ferindo um pouco, eu não tinha medo da asfixia: minha própria respiração produziria, magicamente, o ar puro necessário. O escuro absoluto seria vencido por minhas pupilas que iluminariam por si mesmas minha própria visão.
Pos-escrito: Existe um novo modo de as palavras operarem mágicas: é o mundo que se desperta quando elas são pronunciadas, a vida que apreende seus próprios caminhos, cada nova enunciação é uma carta de intenções cósmicas enviada à sua memória pelos recantos em que a imaginação faz a passagem entre o seu destino e o coração perdido das coisas.
Esse é o meu Teatro da Memória.
9/04/2011
Quem disse que a liberdade é leve
Erros de datação interessam ao espírito
crítico. Quem respira Mistério sabe que dia inexiste ou hora: a mesma boca que profere é a boca que mastiga. Kronos é uma pantera que canibaliza a lógica do tempo.
Quem disse que a liberdade é leve
não tem volta ou abrigo: o calor estende a mim suas mãos, me agarra pela garganta, vem das paredes da minha caverna: fratura exposta rasgando a carne da cidade, fios elétricos ligando almas e letreiros luminosos.
O excesso de luz apagou as estrelas, o excesso de música banaliza todas as vozes, o esconderijo foi soterrado, o velho apartamento é habitado por outra
família.
Quem disse que é leve a liberdade?
crítico. Quem respira Mistério sabe que dia inexiste ou hora: a mesma boca que profere é a boca que mastiga. Kronos é uma pantera que canibaliza a lógica do tempo.
Quem disse que a liberdade é leve
não tem volta ou abrigo: o calor estende a mim suas mãos, me agarra pela garganta, vem das paredes da minha caverna: fratura exposta rasgando a carne da cidade, fios elétricos ligando almas e letreiros luminosos.
O excesso de luz apagou as estrelas, o excesso de música banaliza todas as vozes, o esconderijo foi soterrado, o velho apartamento é habitado por outra
família.
Quem disse que é leve a liberdade?
8/31/2011
No fundo do convento, um jardim – depois do jardim, vemos um vale coberto de mato virgem e mais adiante encostas de morros com casas: varandas, roupas secando, carros velhos nas garagens. O jardim é dividido em três patamares de forma retangular, separados por muretas de concreto carcomido. No mais alto, alguns bancos que devem, um dia, ter sido azuis. Nos três níveis do jardim, a grama seca tem tons amarelados, de palha, em meio ao verde-pálido. No mais baixo, um fino cano metálico azul, vertical, parecendo um caule decepado, irriga a grama, sob o sol da manhã. Girando rapidamente, o irrigador esparge água, jogando grandes gotas para o alto e para todos os lados. Forma-se sobre o irrigador uma cúpula, uma esfera pontilhada de gotas que brilham e se apagam. Cada gota faz uma viagem veloz do caule de azul metálico ao alto, do alto gira num arco lateral e enfim cai sobre a grama. É esse movimento que, quando visto como um todo, dá a impressão de que observamos um lustre formado por vagalumes líquidos. A luz da manhã, oblíqua, entra em cada gota, fazendo dela um tipo de cristal efêmero. Não vemos o caminho que a luz faz antes de chegar às gotas: é como se ela viesse de dentro da água. Por trás da cúpula assim formada – uma flor abstrata – vemos uma árvore frondosa, para além da árvore, o vale com seu matagal e seus bambuzais, mais além – a cidade. Um tecido diáfano criado pela dança da irrigação funciona como um véu quase transparente sobre a paisagem, quando a miramos usando as gotas de água que giram no ar como foco. O mundo, assim, é revisto novamente: tudo muda de figura quando olhamos com atenção para um irrigador azul e suas pétalas de água sob o sol oblíquo.
8/28/2011
passagem
I
o barulho das máscaras caindo
me deixou surdo, não há nada
debaixo do chão e apenas
alguns mícrons nos separam
do abismo, mas ninguém esperava
o baque surdo de tantas
máscaras
as orações que eu escrevia, ela nunca
suspeitou que eram para o deus
ninguém, porque no fim, como já
desconfiava, ninguém viria me salvar
a pele como divindade que não perdesse
a lucidez enquanto o verdadeiro rosto
aparecia
II
‘vou deixar a cidade’, ela disse, ‘de vez
em quando as coisas se perdem
de vez’, as cores deviam ser doces
e nunca soube porque elas ferem,
eu disse contraindo os olhos como sempre
faço quando minto,
mesmo tentando
pôr os cinco dedos por entre as barras
do código de barras, daí saber que não
é uma janela nem uma saída
da embalagem dos dias repetidos, avenidas
tristes, raptos de sentido, céus sombrios
de um verão iluminado
III
em que ninguém sabia o quanto de real
traziam os versos que escrevi nas margens
daquela embalagem
8/27/2011
algumas ironias
algumas ironias
____________________________
(a felicidade plena)
quando eu tiver um loft novaiorquino
.*.
(o amor pleno)
doze ninfas dançando ao redor de minha preferida
.*.
(o sexo pleno)
quando eu tiver todas as beldades da cidade,
sem ter que pagar por isso
(nem tempo programado)
.*.
(o escritor maldito)
tem tanta gente querendo ser diferente, que o diferente se tornou
igual, é uma peste de gafanhotos, dessa forma teremos que voltar
a rimar amar com luar.
8/25/2011
O Psico-Sacerdote Oito-Olhos Fala: (poema tirado de um email crente)
Independente "lixo humano" desconhecido por quem só teve a oportunidade de ver fotos, curtir os talentos inerentes como se a vida pudesse ser vivida através do "faz de conta" e drogas na falta de família artísta-SENSÍVEL, amor não, Isso é fato.
Porém quem tem de visitar o próprio inferno que ama deveria ser mesmo sinônimo de LIXEIRA Em decomposição! E dói muito passar!!!
Ninguém opta por lixo, ser humano quer ir para a lixeira...entretanto, a minha maior intenção é a de pararmos de olhar o cachorro faminto que vê o frango girando na assadeira do açougue ao alcance de sua boca. Lutar contra o ser humano, lixo descartável(sem chances de reciclagem).
Eu sou prova real com tantas lutas e hipocrisias que reconheceram JESUS CRISTO COMO SEU SENHOR E SALVADOR.
Sou SIM,não por opção,mas,por reconhecer JESUS, contudo,o apelo é maior, foi por opção,fraqueza ou demônios.
E ainda se sentir bem achando explicações científicas razoáveis: como alguém pode se dizer feliz cristão, é sinal de que todo sofrimento serve.
Da lixeira em que se colocaram nessa vida através de Cristo Jesus-CAMINHO,VERDADE,E FALA SÉRIO!!!
FILOSOFIAS BARATAS...!!!
VIDA REAL,
Ser Cristão é ter certeza sozinhos com as escolhas que fazem.
NÃO INTERESSA O QUE LEVOU AS PESSOAS QUE EU AMO(MESMO AS QUE EU CONHEÇO) A SE TRANSFORMAREM NUM LIXO HUMANO.
Porém quem tem de visitar o próprio inferno que ama deveria ser mesmo sinônimo de LIXEIRA Em decomposição! E dói muito passar!!!
Ninguém opta por lixo, ser humano quer ir para a lixeira...entretanto, a minha maior intenção é a de pararmos de olhar o cachorro faminto que vê o frango girando na assadeira do açougue ao alcance de sua boca. Lutar contra o ser humano, lixo descartável(sem chances de reciclagem).
Eu sou prova real com tantas lutas e hipocrisias que reconheceram JESUS CRISTO COMO SEU SENHOR E SALVADOR.
Sou SIM,não por opção,mas,por reconhecer JESUS, contudo,o apelo é maior, foi por opção,fraqueza ou demônios.
E ainda se sentir bem achando explicações científicas razoáveis: como alguém pode se dizer feliz cristão, é sinal de que todo sofrimento serve.
Da lixeira em que se colocaram nessa vida através de Cristo Jesus-CAMINHO,VERDADE,E FALA SÉRIO!!!
FILOSOFIAS BARATAS...!!!
VIDA REAL,
Ser Cristão é ter certeza sozinhos com as escolhas que fazem.
NÃO INTERESSA O QUE LEVOU AS PESSOAS QUE EU AMO(MESMO AS QUE EU CONHEÇO) A SE TRANSFORMAREM NUM LIXO HUMANO.
8/18/2011
A minha Carta ao Pai
O mundo hostil: a beleza do céu que se tinge de dourado a vermelho, passando por um azul que mais parece o leito do mar: como a luz é frágil frente ao vento que luta por apagá-la com sua boca de múltiplas mandíbulas frias: você apenas queria ter feito um mundo menor, mais hospitaleiro para suas crianças. Dói vê-las partindo no escuro rumo ao horizonte, num rio sem foz, numa noite sem estrelas, cada uma segurando apenas uma fraca lamparina. Não há tempo pra secar os olhos. Você plantou sementes de fragilidade e elas brotaram como feridas, minúsculas, na torrente que alguns ainda teimam em chamar de cosmos.
Nesta noite sob uma luz estranha, pálida, uma espécie de demônio circulava pelo meu apartamento. Deu pra ver, de relance, o minotauro passando além do espelho. Barulhos de coisas se mexendo na cozinha vazia. Quem teria motivo para me rogar uma praga e fazer de minha vida um ritual de magia negra. Alguém mastigava os restos de comida e ria com a boca cheia de lixo. Não somos nada perto do mundo e suas razões, fomos expulsos (ou nos expulsamos) de todas as hordas. Remamos sozinhos e já não sabemos se o flutuamos sobre o rio, o vento, ou um céu de pontacabeça.
Com o pouco de calor que herdei de você, e que você por sua vez herdou de outros, preparo um leve equipamento de mergulho. Crio ao meu redor uma fina capa de silêncio que reflete o ódio e abraça o amor. Não sou tão frágil como você pensa.
Nesta noite sob uma luz estranha, pálida, uma espécie de demônio circulava pelo meu apartamento. Deu pra ver, de relance, o minotauro passando além do espelho. Barulhos de coisas se mexendo na cozinha vazia. Quem teria motivo para me rogar uma praga e fazer de minha vida um ritual de magia negra. Alguém mastigava os restos de comida e ria com a boca cheia de lixo. Não somos nada perto do mundo e suas razões, fomos expulsos (ou nos expulsamos) de todas as hordas. Remamos sozinhos e já não sabemos se o flutuamos sobre o rio, o vento, ou um céu de pontacabeça.
Com o pouco de calor que herdei de você, e que você por sua vez herdou de outros, preparo um leve equipamento de mergulho. Crio ao meu redor uma fina capa de silêncio que reflete o ódio e abraça o amor. Não sou tão frágil como você pensa.
8/11/2011
Pro meu livro de orações
Mar de águas estagnadas misturadas com betume sacos plásticos merda de crianças mijo de velhos bêbados e carcaças de caranguejos –
Alma, onde tudo vai parar:
Sonhos frustrados, livros que descrevem sonhos frustrados e livros que são sonhos frustrados quantas palavras
intrigas palacianas, o senador dá uma entrevista antes de entrar no avião, mensagens apocalípticas nos túneis da cidade.
Rezar é vomitar entulhos.
Rezar é falar devagar com a língua cheia de lama, cuspir alma pelos poros do corpo revoltado.
Eu gosta de brigar no trânsito. Eu tem razão. Eu é uma mala pesada que alguém tem que carregar e rezar não é pedir proteção ao Altíssimo
administrador de cartões de crédito, é abrir uma fenda no concreto-carapaça de Leviatã.
Só sabe rezar quem é soberano.
Alma, onde tudo vai parar:
Sonhos frustrados, livros que descrevem sonhos frustrados e livros que são sonhos frustrados quantas palavras
intrigas palacianas, o senador dá uma entrevista antes de entrar no avião, mensagens apocalípticas nos túneis da cidade.
Rezar é vomitar entulhos.
Rezar é falar devagar com a língua cheia de lama, cuspir alma pelos poros do corpo revoltado.
Eu gosta de brigar no trânsito. Eu tem razão. Eu é uma mala pesada que alguém tem que carregar e rezar não é pedir proteção ao Altíssimo
administrador de cartões de crédito, é abrir uma fenda no concreto-carapaça de Leviatã.
Só sabe rezar quem é soberano.
8/07/2011
Ele me disse, vem aqui, vou te mostrar uma coisa interessante.
Um pássaro voa devagar, um pouco acima de nossas cabeças. O pássaro tem uma cara estranha, meio que de peixe, olhos opacos, boca em círculo, três fileiras de dentes muito finos, afiados, longos: de madeira envelhecida. Uma mariposa começa a seguir o pássaro. Asas negras de rímel, grandes, movendo-se levemente como se estivéssemos num oceano, ou pétalas. O corpo, meio inchado, parece que vai explodir. Dá pra ver as articulações que trabalham de modo desorganizado. As pernas não ficam paradas, movem-se desencontradamente à procura do chão, como se o bicho estivesse caindo.
Ela não sabe que voa?
Peraí! Não é isso: olha, é ela que vai atrás dele.
Num impulso, o pássaro expande a boca e engole a mariposa. Ele não demonstra voracidade, fome, qualquer sinal de violência. É calmo, impassível como uma fera marinha. Dá pra ver a mariposa se debatendo, por trás dos dentes trincados do predador. De repente, o pássaro abre a boca e a mariposa voa novamente. Intacta.
Ainda não acabou, ela vai atrás dele de novo.
E acontece. Ela não foge, não quer sobreviver? E ele, não está à procura de alimento? Por que esse estranho balé que não causa prazer aos bailarinos – e muito menos ao público? O pássaro, como se estivesse programado para isso, abre a boca novamente e engole a mariposa. Pode ser algum tipo de hipnose. Dá pra ver as asas negras entre os vãos dos dentes de madeira. Só que, mais uma vez, ele solta a mariposa. Mas agora ela está com as asas quebradas. Viva, porém mal consegue voar.
O segredo da sobrevivência está no gosto. Ela não foi feita para se camuflar. Mas, se defende com o sabor intragável dos seus humores, expelidos no primeiro contato com os dentes do predador.
Um pássaro voa devagar, um pouco acima de nossas cabeças. O pássaro tem uma cara estranha, meio que de peixe, olhos opacos, boca em círculo, três fileiras de dentes muito finos, afiados, longos: de madeira envelhecida. Uma mariposa começa a seguir o pássaro. Asas negras de rímel, grandes, movendo-se levemente como se estivéssemos num oceano, ou pétalas. O corpo, meio inchado, parece que vai explodir. Dá pra ver as articulações que trabalham de modo desorganizado. As pernas não ficam paradas, movem-se desencontradamente à procura do chão, como se o bicho estivesse caindo.
Ela não sabe que voa?
Peraí! Não é isso: olha, é ela que vai atrás dele.
Num impulso, o pássaro expande a boca e engole a mariposa. Ele não demonstra voracidade, fome, qualquer sinal de violência. É calmo, impassível como uma fera marinha. Dá pra ver a mariposa se debatendo, por trás dos dentes trincados do predador. De repente, o pássaro abre a boca e a mariposa voa novamente. Intacta.
Ainda não acabou, ela vai atrás dele de novo.
E acontece. Ela não foge, não quer sobreviver? E ele, não está à procura de alimento? Por que esse estranho balé que não causa prazer aos bailarinos – e muito menos ao público? O pássaro, como se estivesse programado para isso, abre a boca novamente e engole a mariposa. Pode ser algum tipo de hipnose. Dá pra ver as asas negras entre os vãos dos dentes de madeira. Só que, mais uma vez, ele solta a mariposa. Mas agora ela está com as asas quebradas. Viva, porém mal consegue voar.
O segredo da sobrevivência está no gosto. Ela não foi feita para se camuflar. Mas, se defende com o sabor intragável dos seus humores, expelidos no primeiro contato com os dentes do predador.
8/02/2011
Esquizofonia: Sinfronia da Alvomerda
Pus no meu quase nãousado outro blog (vertigemdevestigios) a Esquizofonia: Sinfronia da Alvomerda completa. só vou por aqui nos comentários os procedimentos que usei em cada uma das 5 partes. Já baixei a Sinfonia da Alvorada, agora é distorcer a música e trocar a ladainha do Vinicius de Moraes pela minha:
Composição de uma esquizofonia baseada na Sinfonia da Alvorada. O que está em questão: o oba-oba, o monumentalismo, a sacralização do Estado, a verborragia e a ladainha do Progresso. Os procedimentos: Parte 1: alterar aqui e ali pra trazer à tona o insólito, grotesco, encoberto. Parte 2: mudar alguma coisa pra pensar o verdadeiro herói do Cerrado, não O Homem e sim O Playboy. Nas citações de Lúcio Costa e Niemeyer (Horemheb e Aracnodactilia): distorcer as palavras para esquizofrenizar a paranóia do signo despótico. Parte 3: Hiperbolizar a hipérbole: megalomanizar a megalomania: o resulto é expor o seu irrisório. Trocar os locutores por locupletores, fazer o texto falar. Parte 4: Despojar, que no caso torna até mais insano, se é que isso é possível. No CantoCão Picotar as frases, fazer a sinfonia gaguejar. Parte 5: enfim, o couro procurando o nome da cidade de suas taras.
Composição de uma esquizofonia baseada na Sinfonia da Alvorada. O que está em questão: o oba-oba, o monumentalismo, a sacralização do Estado, a verborragia e a ladainha do Progresso. Os procedimentos: Parte 1: alterar aqui e ali pra trazer à tona o insólito, grotesco, encoberto. Parte 2: mudar alguma coisa pra pensar o verdadeiro herói do Cerrado, não O Homem e sim O Playboy. Nas citações de Lúcio Costa e Niemeyer (Horemheb e Aracnodactilia): distorcer as palavras para esquizofrenizar a paranóia do signo despótico. Parte 3: Hiperbolizar a hipérbole: megalomanizar a megalomania: o resulto é expor o seu irrisório. Trocar os locutores por locupletores, fazer o texto falar. Parte 4: Despojar, que no caso torna até mais insano, se é que isso é possível. No CantoCão Picotar as frases, fazer a sinfonia gaguejar. Parte 5: enfim, o couro procurando o nome da cidade de suas taras.
7/31/2011
Poema tirado de comentários no youtube
Aí esse que morreu já dá pra ver o sangue escorrendo lá ela matou bem o bem mata bem os dois favelados pena que um correu um inútil a menos pra sociedade parabéns à polícia brasileira ela queimou pelas costas podia ter estourado a cabeça a bala entrou nas costas você quase ouve o pipoco até fico de pau duro pensando no barulho de osso de favelado preto se arrebentando mas a cabeça é muito pequena o certo é meter fogo na nuca que mulher mais corajosa quero me casar com essa dona primeiro ela chupa o cano do revolver depois nem precisa comentar né se todo policial fosse assim seria mais gostoso é cada vagabundo que merece se regenerar é no inferno ainda bem quase esburacou a costela de porco que tava ali ali ó no balcão podia ter pipocado a melancia que prejuízo a sociedade mas foi só o lado esquerdo da costa do vagabundo bandido tem mais é que morrer não interessa por onde a bala entra eu trabalho pra dar balas pros meus filhos porra só quem critica a Heroína é Zé ruela os dois favelados nem sabem onde carregar a arma são dois incompetentes que andam de chinelo foi uma ação de legítimo ataque ela só errou na tática devia ter metido a bala no cérebro do primeiro comido a massa cinzenta espalhada no chão metido bala no segundo e pegar o sangue ainda quente pra fazer uma panelada ao molho pardo pra servir no jornal nacional de qualquer jeito é um vagabundo a menos não tem que dar voz de prisão a voz do povo é a voz de deus e está provado que deus é canibal
7/29/2011
A vida num dia
Entro no elevador. Um garoto, por volta de 12 anos, cego de um olho, entra com seu pai: um vaqueiro. Fico olhando o mostrador, como fazem todos os que se incomodam com esse tempo curto mas lento de nada fazer e intimidade forçada em elevadores. De repente, o vaqueiro me segura pelo braço. Nada posso fazer, sou um fraco urbanóide. Ele fica me dizendo, por que você mexeu com meu filho? Foi ele, não foi filho? Foi sim. Eu? Eu mesmo? Tem certeza? Vocês não estão me confundindo com alguém? Escuta aqui, você está sentindo o que está na tua barriga, olha pra baixo. Olho e vejo e assim que vejo começo a sentir a pontada de uma faca. Vai você meu filho, vai você. Fico olhando perplexo, sem ter o que dizer.
Na luz do dia, ela me diz que eu devo ter sido um fazendeiro filho da puta numa vida passada e no sonho fui cobrado por isso. Eu não, não acredito em vida passada, não desse jeito: um eu que vai se desdobrando, rebatendo, entre situações, como uma bola quicando pelo mundo. Mas, por outro lado, tudo o que acontece tem causas infindáveis e intricadas de um modo quase ininteligível, para além da imaginação e do controle do euzinho aqui. Poderia ser o seguinte: meus antepassados do nordeste, suas fazendas, suas histórias. Sempre ouvi que eles cometeram as piores violências. A donzela enterrada viva com o escravo com quem tinha trepado. De tudo isso há memória em meus pequenos atos de arrogância. No sonho fui cobrado por isso. O menino deve ter cismado com uma de minhas primas, hoje misturadas à poeira, e teve o olho direito vazado, só como lição.
Começo de noite. Desço o túnel: íngreme espiral. Monotonia de espaço curvo, fracamente iluminando, com chão, teto e paredes cobertas pelo mesmo carpete marrom. Ando colado à parede: a curva é fechada, como se andássemos em círculo ao redor de uma simples coluna cervical, vertigem leve num estranho labirinto. Ao fundo, a cratera iluminada, onde ela me fala de amor trocando olhares com outro. E fala sem dizer nada, apenas girando o corpo, os braços quase transparentes sob a luz intensa brancoverde. Ela e o outro se olham fixamente, eu me vejo sendo amado por meio de um artifício que me faz ser ninguém. Entre os deuses ctônicos, a vida pega fogo: ela se desdobra como se de seu corpo brotassem pétalas-labaredas que só se acendem quando se chocam com minha mentecoração. Eu estou ausente, no escuro: novelo de nervos expostos. No fim de tudo, ela me procura.
Dormimos abraçados. No vazio.
Na luz do dia, ela me diz que eu devo ter sido um fazendeiro filho da puta numa vida passada e no sonho fui cobrado por isso. Eu não, não acredito em vida passada, não desse jeito: um eu que vai se desdobrando, rebatendo, entre situações, como uma bola quicando pelo mundo. Mas, por outro lado, tudo o que acontece tem causas infindáveis e intricadas de um modo quase ininteligível, para além da imaginação e do controle do euzinho aqui. Poderia ser o seguinte: meus antepassados do nordeste, suas fazendas, suas histórias. Sempre ouvi que eles cometeram as piores violências. A donzela enterrada viva com o escravo com quem tinha trepado. De tudo isso há memória em meus pequenos atos de arrogância. No sonho fui cobrado por isso. O menino deve ter cismado com uma de minhas primas, hoje misturadas à poeira, e teve o olho direito vazado, só como lição.
Começo de noite. Desço o túnel: íngreme espiral. Monotonia de espaço curvo, fracamente iluminando, com chão, teto e paredes cobertas pelo mesmo carpete marrom. Ando colado à parede: a curva é fechada, como se andássemos em círculo ao redor de uma simples coluna cervical, vertigem leve num estranho labirinto. Ao fundo, a cratera iluminada, onde ela me fala de amor trocando olhares com outro. E fala sem dizer nada, apenas girando o corpo, os braços quase transparentes sob a luz intensa brancoverde. Ela e o outro se olham fixamente, eu me vejo sendo amado por meio de um artifício que me faz ser ninguém. Entre os deuses ctônicos, a vida pega fogo: ela se desdobra como se de seu corpo brotassem pétalas-labaredas que só se acendem quando se chocam com minha mentecoração. Eu estou ausente, no escuro: novelo de nervos expostos. No fim de tudo, ela me procura.
Dormimos abraçados. No vazio.
7/26/2011
Sonhos - II
aguardava que medissem minha pressão.
*
as caixas do sistema de som da clínica transmitiam a seguinte mensagem: doutor marcelo, emergência, doutor marcelo, sua esposa aprenderá contorcionismo para poder chupar o grelo.
*
quis avisá-lo que os pássaros também pinçam as penas quando se viram para o lado em que a rainha morte dorme.
*
(box casal, queen size, de mármore.)
*
uma enfermeira fazia vitrine-viva à porta do consultório. meu nome inteiro, lembrei depois, reverberava naquela boca acrílica. havia chegado a hora: sentei-me no banco ao fundo da sala.
*
a braçadeira transformou-se em questão de segundos num corpete para moças anoréxicas. era o meu sangue, o meu pulsar intermitente, que a mulher fechara a vácuo. a velcro.
*
seus dedos longos masturbavam freneticamente a bomba de ar. tive medo de falir, sim, de morrer
*
por excesso de hemopornografia.
(Também publicado no blogue da autora.)
*
as caixas do sistema de som da clínica transmitiam a seguinte mensagem: doutor marcelo, emergência, doutor marcelo, sua esposa aprenderá contorcionismo para poder chupar o grelo.
*
quis avisá-lo que os pássaros também pinçam as penas quando se viram para o lado em que a rainha morte dorme.
*
(box casal, queen size, de mármore.)
*
uma enfermeira fazia vitrine-viva à porta do consultório. meu nome inteiro, lembrei depois, reverberava naquela boca acrílica. havia chegado a hora: sentei-me no banco ao fundo da sala.
*
a braçadeira transformou-se em questão de segundos num corpete para moças anoréxicas. era o meu sangue, o meu pulsar intermitente, que a mulher fechara a vácuo. a velcro.
*
seus dedos longos masturbavam freneticamente a bomba de ar. tive medo de falir, sim, de morrer
*
por excesso de hemopornografia.
(Também publicado no blogue da autora.)
7/23/2011
São tantos os motivos pro amor não dar certo. A começar pela absoluta imprecisão sobre o que significa dar certo (a medida do sucesso é tão burocrática (e a burocracia interdita
o amor)). Vejo as ruas desta cidade perigosa, a noite caindo como um estranho dourado sobre o céu azul, um pastor evangélico e uma ex-atriz vociferando contra
o amor e como eles merecem o aplauso do cara solitário que leva sua caixa de cerveja pro apartamento onde vai passar o feriado de corpus christi tocando
punheta sobre o amor, indefeso amor. O cheiro de tiner que sentimos ao ler o jornal e como se dizia antigamente os caras só querem meter
a faca e como o amor é celebrado, as frias flores tristes na vitrine e o que significa ser feliz, usar a buceta da mulher amada pra estourar
pipocas enquanto a cerca elétrica mata pássaros e meninos e um anjo
caído queima um bilhete premiado no canal de esportes. E nem tudo é questão do lado de fora, ainda trazemos o veneno, veja como quando você respira se engasga todo com os sapos que vomitam em sua garganta e mesmo que não queira ou acredite deve prestar contas porque se a felicidade é exigida junto com o amor a Alegria e o amor são interditos e não há nada de mais ridículo do que um professor apaixonado se perguntando onde ela está onde ela está com esse monte de citações encobrindo o seu corpo sagrado
amor.
o amor)). Vejo as ruas desta cidade perigosa, a noite caindo como um estranho dourado sobre o céu azul, um pastor evangélico e uma ex-atriz vociferando contra
o amor e como eles merecem o aplauso do cara solitário que leva sua caixa de cerveja pro apartamento onde vai passar o feriado de corpus christi tocando
punheta sobre o amor, indefeso amor. O cheiro de tiner que sentimos ao ler o jornal e como se dizia antigamente os caras só querem meter
a faca e como o amor é celebrado, as frias flores tristes na vitrine e o que significa ser feliz, usar a buceta da mulher amada pra estourar
pipocas enquanto a cerca elétrica mata pássaros e meninos e um anjo
caído queima um bilhete premiado no canal de esportes. E nem tudo é questão do lado de fora, ainda trazemos o veneno, veja como quando você respira se engasga todo com os sapos que vomitam em sua garganta e mesmo que não queira ou acredite deve prestar contas porque se a felicidade é exigida junto com o amor a Alegria e o amor são interditos e não há nada de mais ridículo do que um professor apaixonado se perguntando onde ela está onde ela está com esse monte de citações encobrindo o seu corpo sagrado
amor.
7/17/2011
Do meu caderno de experimentações - 1
SEM TÍTULO
1
rótulas, gaiolas.
ejaculação de voos pelo cálcio, ave-osteoporose.
2
corpo é cerca cio adentro.
em cada felpa, em cada farpa,
um anjo errado irriga a sua cidade vascular.
3
como é alto o som na ponta escura
desta corda, incubadora-kamikaze,
4
como é fino
este cordão umbilical para virar cabo-de-guerra.
5
(todo amante
atira o filho da sacada que há nos fundos, no final,
do coração.
todo sol atrás é um ninho de fuligem e de fumo.)
6
corpo é um terço
muito curto, uma oração que aperta cristo,
7
(rótulas, gaiolas),
parapeito em que chacais
se inclinam para entrar na vida de cabeça.
8
caem os órgãos aos pedaços.
comunhão de porra, muco e baba.
9
morte vem lubrificada: fácil passar.
(Também publicado na Revista Germina.)
1
rótulas, gaiolas.
ejaculação de voos pelo cálcio, ave-osteoporose.
2
corpo é cerca cio adentro.
em cada felpa, em cada farpa,
um anjo errado irriga a sua cidade vascular.
3
como é alto o som na ponta escura
desta corda, incubadora-kamikaze,
4
como é fino
este cordão umbilical para virar cabo-de-guerra.
5
(todo amante
atira o filho da sacada que há nos fundos, no final,
do coração.
todo sol atrás é um ninho de fuligem e de fumo.)
6
corpo é um terço
muito curto, uma oração que aperta cristo,
7
(rótulas, gaiolas),
parapeito em que chacais
se inclinam para entrar na vida de cabeça.
8
caem os órgãos aos pedaços.
comunhão de porra, muco e baba.
9
morte vem lubrificada: fácil passar.
(Também publicado na Revista Germina.)
7/15/2011
Já que estamos falando de sonho...
1.
Quando sonhamos choramos por dentro
Espasmos de alma
Ou de corpo, é incerto.
As lágrimas não são mais
Leves – apesar de acordarmos
Com o rosto enxuto e os olhos
Em poucos segundos livres
Das larvas que comiam as pálpebras
Por dentro e claros para um dia
Turvo.
2.
Quem leva essas larvas
Pra dentro de si
É outro – elas te perseguem
Sementes plantadas em tua carne
Por algum lavrador: incógnito,
Elas roem a alma com palavras
Inventadas pelo absoluto
Alheio: quem seria o autor
Se todas elas são você
Em seus sonhos, nem delas
Nem teus – não são de sua lavra
Essas larvas que carcomem
Os olhos
Por dentro.
Quando sonhamos choramos por dentro
Espasmos de alma
Ou de corpo, é incerto.
As lágrimas não são mais
Leves – apesar de acordarmos
Com o rosto enxuto e os olhos
Em poucos segundos livres
Das larvas que comiam as pálpebras
Por dentro e claros para um dia
Turvo.
2.
Quem leva essas larvas
Pra dentro de si
É outro – elas te perseguem
Sementes plantadas em tua carne
Por algum lavrador: incógnito,
Elas roem a alma com palavras
Inventadas pelo absoluto
Alheio: quem seria o autor
Se todas elas são você
Em seus sonhos, nem delas
Nem teus – não são de sua lavra
Essas larvas que carcomem
Os olhos
Por dentro.
7/13/2011
Sonhos - I
(Marceli Andresa Becker)
afundava a colher no musse de maracujá — numa das rachaduras finíssimas que o creme inventa depois que gela — quando me lembrei do sonho da noite passada.
*
teria de inserir um pen-drive no pé. havia um corte específico à espera na região mais delicada da sola. era uma fresta, uma janela vasculante, enferrujada, de onde se conseguia enxergar o açude rubro em que me ensopo diariamente.
*
(a poucos metros de profundidade o tétano tomava conta de um peixe. quanto mais próxima a morte lhe parecia, caveira cáustica, mais a sua boca se abria, se abria, para cantar.)
*
fixei contra o peso do corpo aquela imensa verruga plástica. pendurada, assim, virava brinco em formato de tala (pense nas que são usadas para imobilizar braços).
a tarraxa era o meu osso.
(Também publicado no blogue da autora.)
afundava a colher no musse de maracujá — numa das rachaduras finíssimas que o creme inventa depois que gela — quando me lembrei do sonho da noite passada.
*
teria de inserir um pen-drive no pé. havia um corte específico à espera na região mais delicada da sola. era uma fresta, uma janela vasculante, enferrujada, de onde se conseguia enxergar o açude rubro em que me ensopo diariamente.
*
(a poucos metros de profundidade o tétano tomava conta de um peixe. quanto mais próxima a morte lhe parecia, caveira cáustica, mais a sua boca se abria, se abria, para cantar.)
*
fixei contra o peso do corpo aquela imensa verruga plástica. pendurada, assim, virava brinco em formato de tala (pense nas que são usadas para imobilizar braços).
a tarraxa era o meu osso.
(Também publicado no blogue da autora.)
7/10/2011
Conversa Fiada com o Capeta (vulgo Dr Penico Branco)
Com minha gravata preta de papelão, toda estampada com desenhos de copos mais a palavra cocktails em cores amareloverdes vivas e brilhantes, amarrada no pescoço por uma corda de nylon, abro as portas do Porão Inolvidável e... quem me espera de braços abertos? O Dr. Penico Branco e seu tridente.
- Welcome Mr Ego. Você por aqui?
6 6 6
Tem uma roda dentada soltando faísca no corredor de entrada do meu ap já to vendo a hora que a parede vai ser arrbentada e no meio da poeira uma mistura de Demônio e Doutor Penico Branco vai aparecer e me dizer: Eu estou aqui! E isso não é metáfora e nem alegoria é literal, tá rolando mesmo. A alma desse demonio e doutor penico branco é assim mesmo: uma roda dentada que fica girando em soltando faísca dentro da sua pança e por isso ele tem tanta raiva não importa de quem é de quem estiver na sua frente e isso também é verdade eu vi ontem de madrugada naquele documentário chamado O Exorcista.
6 6 6
Você está possuído pelo demônio quando se coloca na obrigação de replicar a ele, escolher um dos lados do dilema que o cramunhão te impõe. Não pro acaso: o demônio é dualista, diabolos: dois. Não por acaso, um de seus codinomes é MuitasVozes. Se você responde a uma simples pergunta demoníaca, você está no sal. Se você se justifica para o capeta, pior ainda. Um rolo compressor vai transformar sua alma em fita cassete onde estão gravados os Sete Nomes do Inferno. É como se diz por aí, com o demo não se argumenta, não se retruca, ele não vai mudar de idéia e se desdiabolizar, deixa ele pensar que está certo, meu caro!
6 6 6
Um fio de esperança: estilo mensagem demoníaca de Star Wars: no fundo há bondade nele. Esse é fio que o demo vai usar pra enrolar em teu pescoço e te esganar e como suas palavras vão sair sufocadas da sua boca! elE vai deixar entender que elE pode ser salvo, que elE tem suas virtudes, no fundo, lá bem fundo. É: no fundo. No fundo dos Infernos meu amigo!
- Welcome Mr Ego. Você por aqui?
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Tem uma roda dentada soltando faísca no corredor de entrada do meu ap já to vendo a hora que a parede vai ser arrbentada e no meio da poeira uma mistura de Demônio e Doutor Penico Branco vai aparecer e me dizer: Eu estou aqui! E isso não é metáfora e nem alegoria é literal, tá rolando mesmo. A alma desse demonio e doutor penico branco é assim mesmo: uma roda dentada que fica girando em soltando faísca dentro da sua pança e por isso ele tem tanta raiva não importa de quem é de quem estiver na sua frente e isso também é verdade eu vi ontem de madrugada naquele documentário chamado O Exorcista.
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Você está possuído pelo demônio quando se coloca na obrigação de replicar a ele, escolher um dos lados do dilema que o cramunhão te impõe. Não pro acaso: o demônio é dualista, diabolos: dois. Não por acaso, um de seus codinomes é MuitasVozes. Se você responde a uma simples pergunta demoníaca, você está no sal. Se você se justifica para o capeta, pior ainda. Um rolo compressor vai transformar sua alma em fita cassete onde estão gravados os Sete Nomes do Inferno. É como se diz por aí, com o demo não se argumenta, não se retruca, ele não vai mudar de idéia e se desdiabolizar, deixa ele pensar que está certo, meu caro!
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Um fio de esperança: estilo mensagem demoníaca de Star Wars: no fundo há bondade nele. Esse é fio que o demo vai usar pra enrolar em teu pescoço e te esganar e como suas palavras vão sair sufocadas da sua boca! elE vai deixar entender que elE pode ser salvo, que elE tem suas virtudes, no fundo, lá bem fundo. É: no fundo. No fundo dos Infernos meu amigo!
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