5/26/2010

Chuva fora do tempo
Desperta o gato
Que dormia no bueiro.



4 dias no bueiro
Meia hora de chuva:
E o gato acorda pra vida.


Som de chuva fora
Silêncio felino em casa:
Maio também tem suas alegrias.


A chuva, metamorfose
Do verde em festa
Ensina o gato a miar.


Da luz avermelhada de brasília
Ao escuro do bueiro,
A chuva ensina o caminho de casa.

5/23/2010

A valsa do amigo do Impera(dor)

“ é a história de um imperador chinês que guardava muitos tesouros, um dia um amigo o visitou e pediu pra ver o tesouro guardado. O imperador o levou e na hora de sair ele agradeceu por ter ganho o tesouro de presente. O imperador disse que não tinha dado nada pra ele. Então, o cara respondeu que tinha desfrutado o mesmo prazer que o imperador ao contemplar a beleza das jóias, por isso a diferença entre eles não era grande. E ainda o imperador tinha o trabalho e o ciúme de guardar, tomar conta. Acho que entendi isso como uma história sobre como amar sem querer a posse, um amor puro que aceita a gratuidade da vida. Amar sem padecer com o medo da perda.” (A.)

Meu amigo A. me deu um presente
Chego ao hospital para ver a enferma mãe
E recebo outro: ela levanta e me convida para bailar
Dançar uma valsa que flui da vida

Frente a minha dor da perda
A minha tristeza tristeza de um aparente fim: horizonte fugidio
Me reconforta por um instante de alegria e esperança

Uma guerrilha do amor é travada
Minhas lágrimas caem: o real da presença me conforta
Nossa fragilidade nos abraça: o instante respirado e transpirado pela corporeidade da valsa

Um instante fora do tempo e já agora dentro de minhas lembranças
Lembranças de um instante de amor
Puro (purgatório da purificação de um luto inexistente)
Um fragmento da essência do perfume da vida.

Aqui e agora choramos juntos: compartilhamos
a dor da alegria e a alegria da tristeza
pureza impura que brota em minas perdidas: penumbras de mim

Deixar a tristeza sair!
Sem de perguntar por quê?
Cada dia pode ser uma surpreza
Em busca do milagre da presença
A espera de novas valsas!

Talvez a experiência dessa guerra
Seja simples como a história de A.
Apenas ser e estar diante da vida e da morte
Ver, aceitar e viver o Real e as Verdades desconhecidas

Invejo os samurais e o amigo do Impera(dor)

Compartilhar a dor

Da morte em vida: lapsos de lucidez


Para aqueles que não estão me deixando afogar


Depois de 6 meses sem escrever,
De 6 meses preso no buraco de Sumidouro (sem mesmo ir até lá)
Sumi, Desapareci: morri defendendo a vida!

Perdido nas névoas de um estilo etílico e,
Eventualmente, salvo por amigos e também por mendigos
Mais perdidos do que eu.

A morte deflagrou uma estranha inquietude: um pesar, uma melancolia-louca
Vontade de morrer junto
Desacompanhado e só, mesmo acompanhado, viver a tristeza do fim é ou foi
Se mutilar: tuer môi-mêmme!
Perder a perda?

Passar no portal: simplesmente atravessar cada fragmento da vida
Em busca da beleza da penumbra.
Obcecado pelo nada, esqueci do vazio
Frente ao nada-vazio
Preenchi a mim mesmo de embriaguez
Do vinho
Esqueci a poesia e a virtude

Só o barulho confortante do desassossegado córrego que some
Conseguiu me deixar passar
Passar pela vida sem sofrer: eis minha utopia!

Um alento vem do céu: o prazer e a alegria da gente humilde,
O retorno a mim e as árvores: a selva de pedra, me prende
Nada como uma expedição a mina d’água de Sumidouro:
Possibilidade de desassossegar em aconchego: já não acredito mais na salvação!
Ao menos habitar alguma morada...
Fonte de vida?

Deixarei a morte em paz, a fim de viver em paz?
Equilíbrio desequilibrado: me presenteei com a deusa Serenidade que
serei um pássaro.
Um pequeno e soberbo vôo: apenas isso. Não quero mais o mergulho, mas
a tranqüilidade das alturas!
Quanta arrogância! Reparar e mudar a rota: onde está o privilégio?

Talvez não quereira mais dormir, nem esquecer:
peço, então, uma escada pois já me cansei desse buraco.
Casei da dor, da tristeza e da ressaca.
Gostaria de retornar dessa viagem a minha casa, ao menos voltar a caminhar...

Uma coisa fica agora e aqui no peito que sofre:
Mesmo sendo um mal-mau poeta
Esse brincar com as palavras chamado escrita, ajuda
É melhor escrever
Escrever para suportar
Escrever atrás da leveza prometida!

Três quase haikais e Os Dois Estranhos

Sob a velocidade das noites
A praça vazia, o ponto de ônibus
A sensação estranha da despedida.

*

Último olhar de adeus,
A praça vazia, o ponto de ônibus
Entre dois estranhos.

*

Sob a velocidade das noites
Persiste um sabor de amora:

Ela diz que o tempo não perdoa.


*

Dois estranhos,
Entre si, mal
Se conhecem.

Dois estranhos
Cada um por si
Com sua estranheza
Muito própria.

Vida estranha:
Eu estranho
Ela me estranha

Sujeito estranho
Com idéias estranhas
Ela e seus medos
Estranhos: medos de
Estranhos.

Tudo é muito estranho
E impossível

O inacreditável simplesmente
Acontece
Entre dois estranhos.

5/20/2010

Ibn Arabi e Nizam

Amar sem padecer
Desejar o que deseja
O coração de quem se ama
Mesmo que lhe diga

Adeus

Amar o que ama
Outras paisagens
Outras vidas
Sem você

Amar a ressonância
Branca, o vazio
E a sutil resposta
Que dança nessa música
Inaudível.

Amar, azar,

No coração do azar
A flor da laranjeira.

5/15/2010

Interlúdio doloroso (Homenagem a Bernardo Soares)

Não espero nada. Vivo meus dias com um cansaço intermitente, não sei se da vida, se das coisas ou se das pessoas. Na realidade, canso de meu próprio cansaço. De minha inatividade. Inatividade de quem não espera mais por nada. Olho da janela de minha casa e até vejo belos dias, mas estes dias – por mais que sejam belos – parecem-me sempre cinzentos, sombrios, cansativos. Meus olhos não coincidem com meu desassossego, cansado, absorto no silêncio, na solidão ansiosa de meus intermináveis dias. Tenho insônia da minha existência. Mas, por outro lado, gosto de ser ignorado pelo mundo. Meus sonhos não são uma saída em belos campos, mas na escuridão dos corredores da cidade antiga. A escuridão combina com minha letargia observadora, indolente e ansiosa. Desasossegada. Cansada. De quem nada espera. Não ajo. Melhor não agir, se sonhar preenche os espaços em branco dos momentos insones que não escrevi. Não leio, pois me apropriei de meu cansaço, de tal forma, que ele devorou tudo aquilo que poderia ler. Apenas existo, passando os dias e noites como se fossem o foco de luz da esquina de minha casa, às três da madrugada. No silêncio frio e chuvoso de meu devanear, sem realidade além. Melhor nada esperar.

5/12/2010

(o andarilho tapa o ouvido com mel
presta atenção no caminho
pra não tropeçar e despertar

o falatório, tantos olhos.

de noite pensa na morte como uma coisa azul
e dorme como um girassol doente;

sonha que voa invisível sobre a sonora cidade)

5/10/2010

Canção de re-despedida

Madrugada: ela faz as malas. Mas tem meses que suas coisas não estão aqui. O fantasma pega objetos fantasmagóricos, sonho. Despedida ao quadrado. Você esqueceu a máscara, não é minha, é meu rosto, um rosto é um texto a quatro-mãos e vice-versa. Leve esta persona também na sua mala.
Sei lá, queime, jogue no lixo, como quiser. Também farei minhas malas e
vou sair daqui de dentro, dar adeus em cima de adeus, à enésima potência.

&

Uma história Sufi: "Você veio pegar de volta o cavalo puro-sangue que criávamos e só agora me avisa! Da primeira vez não o levou porque não cabia na sua bagagem? Mas, darling, você sabe que estou sem grana. Infelizmente, o cavalo já era. Como eu te ofereceria estas almôndegas com que, com o perdão da palavra, te refestelas, se não tenho dinheiro pra comprar carne? A hospitalidade vem em primeiro lugar."

5/07/2010

Preciso aprender a rezar

Mais além das ilusões
A redenção.

O véu do mundo rasgado
A semente, o fruto imediato
O conhecimento ácido adocicado,
A morte além da morte,
Observando-se
Como se vida fosse
Outro véu rasgado,

O fruto semente é outro véu,
Uma ilusão adormecida
Despertada quando rasgamos
A velha ilusão.

Dentro da semente a luz
Por dentro a semente é água
Água que brilha como num rio

O sol

Sol líquido, mas frio, bom de beber
Como vida além da vida
O círculo, além da morte
A infravida,

Outra ilusão

O rio é um tecido, a leveza
Outro véu. Águassol, pobre
Palavra como outra
Qualquer, a iluminação
Cega, não vemos o véu
Mas ouvimos seu rumor

Rumor de tecido que se move
Transparente,

Lentamente, rumor de palavras
Como se o mundo,
Aquém do véu, falasse.

As palavras não criam
O véu, as palavras
São outra ilusão.

Todo poema é uma prece
Á procura do coração das coisas.

5/04/2010

A farra dos novos canibais oportunistas

Mais um da série Fazer o Texto Falar (as montagens,
seguindo a técnica dadaísta de recortar as palavras de um texto, sortear
e montar um novo texto). Procuro respeitar ao máximo o sorteio, porque
ele é mais criativo do que eu, só mudo uma ou outra
coisa na pontuação, na concordância. Taí:



Sua “tribo” é composta por brancos de cabelos louros e se fantasia de imprensa.


Costumes e coreografias capitalistas convenceram seus fiéis.


“O Brasil é mesmo um país único”. “Escravos que supostamente viviam”, nos argumentos estapafúrdios de Demérito

“Odair José” Raposa Tabajara dos Cavalos.


Quem nasce, vive e cresce num ambiente de cultura 171, daqueles que seriam seus antepassados.


A origem dos seus integrantes: 90,6% tem carro, TV, computador, ótimo negócio. Eles consumirão.

Seu sofrimento é passageiro.


Inexplorados conflitos agrários, essas vantagens, agora que terão de oferecer-lhes o azul do empresário.


O paradoxo é que é preciso ser visto, artificialmente, na falta de controle de uma cultura de antropófago.


Também no caso da explosão dos remanescentes indígenas, no Conselho das Primeiras Gerações Capitalistas,

outro 171.


Abarcam hoje um luxo no interior da existência de uma comunidade que dança no teatro do absurdo.


Há mais de 300 anos, sua “tribo” exigia demarcação de assentamentos e portos, quais não há: e esse naco

de benevolência ambiental.


Desde então, preservar as benesses da civilização-galinheiro; insistem.


Principal prova: poderiam ter feito do Brasil uma situação subumana de despejo, que englobaria até as históricas

compras no supermercado. Ou seja: professam a “legítima” prosperidade.


Uma gigantesca reserva brasileira para montar processos e serviços de produção industrial de escândalos e

uma refinaria de critérios.


Seus trezentos pequenos moradores reconhecidos por faturar alicerçados nos escândalos de proporções antigas,

como os que se usam no Carnaval.


Costumam ser contra, ter um Complexo de Governo, o agronegócio é a autodeclaração do seu pedaço de terra.


Pretensos herdeiros em honra dos deuses pretensamente nobres e científicos e com claro teor ideológico.

Não basta dizer não aos supostos herdeiros de outra condição étnica nesta reportagem.


São arregimentados entre os maiores beneficiários dos que têm um pouco mais de Sede de Reservas ao Verdadeiro:

mais de 50000 delitos universais e crimes que desapareceram dos laudos.


Literalmente, quem nasce para jogar um tormento sobre as cidades. A escravatura havia sido o Alter do Brasil total,

como era de esperar, a terra das invasões Gerais.


A infraestrutura de uma declaração, além de fácil, explorada, ressuscitou 77,6% da fantasia da Suprema Delimitação Mundial.


A ganância das pessoas mais badaladas imobilizando as contradições. Querem 250%, ou mais, da produção, seu Parque Nacional

é o Território Nacional, todo o Chão. Seu registro histórico é uma farra. Viveiros de índios extintos.


Querem expiar na cidade. Terras para ocupar na dimensão do Sol. Ativistas do dinheiro sem nenhum rigor.


VEJA: a ampliação dos povos de motoristas! Reverbera na miséria da Consciência. Os motivos usados são tão arbitrários...


VEJA: as vastidões saqueadas! Nunca se leva o pecado nas intenções para a proteção do nosso lote, a Terra. No entanto, não é

e nunca será outra a terra.