8/25/2013

Onça anda em círculos
            na jaula abafada do zoo
e parece neurose:

            (movimento interrompido
            torna patético
            mesmo o animal mais lindo)


            *

            Quando o tempo se enovela
            Dando voltas e voltas em si mesmo
            Isso deve ser visto com a atenção de um eclipse –
            Mundos são criados
            Espirais giram palavras até sedimentar
            Uma dor, um satélite, uma forma de vida:

            A onça anda em círculos
            Por dentro da jaula –
            Seus rastros desenham
            Uma rosa
            Uma galáxia
            Uma pulsação silenciada.
           

           


            

8/20/2013

Espero tornar-me um louco muito mau

Os influxos de um planeta todo verde
            por dentro, no sangue.

            O sangue circula do coração
            aos olhos e alimenta os movimentos
            das mãos que escrevem
            circulando em torno das palavras
            à espera de que, enfim,
            não sejam mais necessárias como placebo
            para filhos de um planeta muito leve,
            muito lento, todo verde e vazio
            por dentro.
           
            Tento contornar a solidão
            com uma rede de palavras
            mas caio atravessando-as e quando me dou conta
            dou de cara com o sempre mesmo chão
            paradoxalmente duro e inexistente
            um chão cortante de esmeraldas pontiagudas
sem solidez.
           
(De vez em quando a vida manda notícias
com uma lâmina verde na jugular

            escrevo para não ver
            o que existe e é real:

            Nada.

            *
            
            Caem gota a gota
            no meu sangue
            quase estrelas muito silenciosas
            e muito mórbidas
            elas corroem a língua, vampiras
            brincam de carrapatos na garganta
            ou sanguessugas crescendo por dentro
            do cérebro:

            e meu corpo explode como um grotesco
            pacote de fogos de artifício –
            e meu corpo não interessa nessa comédia
            a não ser enquanto máquina de expelir letras.

            Depois elas tomam o primeiro arame farpado
            como andaime
            e sobem aos céus, aos planetas
            e todos os outros rudes maquinismos
            obras de um deus de mau humor
            que elas vão alimentar de amor
            com o sangue anêmico que me foi roubado
            e elas flutuam, como pedaços de carne
            penduradas em ganchos
num açougue celestial:

            - é a primavera que está chegando?

            e elas me deixam falando sozinho.
           

           

            

8/19/2013

O que é ser um outsider?

O que é ser um outsider? Não, não pretendo escrever um tratado de sociologia. Seria muito simples supor a existência natural e inquestionável de pessoas que praticamente nascem do lado de fora do mundo e da sociedade, as quais serviriam como o perfeito antípoda de toda a sociologia tosca que funda nossa ficção social mais valorizada: a realidade. Não acreditaria nesta ingenuidade. Por isso, não pretendo fazer aqui uma palestra, em tom professoral, sobre um assunto tão sério. Tão sério que merece algo a mais do que as nossas nobres instituições acadêmicas e correcionais têm a nos dizer. Ser um outsider é algo muito, muito sério. Seriíssimo! Ver as coisas do lado de fora chega a ser uma condição sine qua non para minha existência. Não consigo sentir o prazer reconfortante dos ninhos formados por grupos, em que o calor dos corpos alheios me esquenta e não procuro mais nada. É incrível como, nos dias de frio, entendemos melhor o que é a preguiça que nos impele a participar de grupos. Fazer parte de grupos é, talvez, depender de alguém para ter os seus pés aquecidos – e, no máximo, deleitar-se com aqueles que não possuem a mesma sorte... Entretanto, ter os pés aquecidos é um incidente que, na maior parte das vezes, não se perpetua senão por alguns curtos momentos de ingenuidade, seguidos de contendas homéricas pelo comando do cobertor que deve manter o grupo bem aquecido. Sim, estar do lado de dentro é um prazer leviano que dura menos que a maioria das drogas existentes do mundo! Ah, fazer parte de um grupo: que crença fabulosa! Fora estes momentos de ilusão, nunca consegui ser alguém que estava dentro de nada. Nunca entendi nada a respeito daquelas doutrinas mesquinhas que impõe a todos a estapafúrdia ideia que, para sermos normais, devemos estar incluídos. Incluídos! Ora, vejam só! Que visão nauseabunda do paraíso da normalidade social! Algo muda em meu estômago quando penso nisso. É muito indigesto pensar que alguém realmente acredite que sua normalidade dependa do aval de um grupo que tenha a autoridade de dizer quem é você e se você é confiável, etc. Ora, voltemos logo ao início! O que é ser um outsider? É partir do pressuposto que você é um igual. Sim! Nossa bela e tosca sociologia é que, de modo quase sofístico, inverteu os pólos da maquinaria. Explico: muitos dizem, com sua longa experiência em grupos, que estar do lado de dentro é ser igual. Igualdade entre os iguais, desigualdade entre os desiguais. Que tolice! É justamente dentro de grupos que você é e sempre será desigual. Dentro do cobertor aquecido de um grupo, você será ou o dono da coberta, ou o que aquece os pés dos que entram, ou aquele que chega com os pés gelados, implorando para ser aquecido. Isto implica toda uma complexa hierarquia! Você nunca entrará no cobertor e poderá ter a liberdade sobre o cobertor! Quanta ingenuidade... O mais cômico desta explicação é que os mesmos doutos, com vastíssima experiência em grupos, dizem, em tom resoluto, que todos aqueles que não se encontram em grupos – os outsiders, portanto – pensam que são melhores que os outros, mas vivem como seres pré-históricos, prontos para serem engolidos por mamutes. Que pitoresco! Mais gargalhadas, pois isto merece chegar às lágrimas de tanto rir! Termino minha já confusa explicação: é exatamente o outsider, por não se achar melhor que ninguém, não vê nos grupos a salvação para nada! Ser um outsider é, quando muito, ser um igual, porque o outsider entende não haver grupos, hierarquias ou outras drogas pesadas de nossa bela e tosca sociologia realista que nos façam acordar! Acordar é um ato solitário, que acontece quando você vê o mundo do lado de fora! É perceber que você não irá para nenhuma cela especial, mesmo tendo doutorado – enquanto os verdadeiros “doutores” nunca entraram numa escola; é ver que a maior parte das pessoas de seu convívio virarão a cara para você quando for conveniente; é saber que, de algum modo, as belas parábolas sobre o prazer da desigualdade são, no máximo, fruto do sado-masoquismo de uma meia dúzia de escrotos viciados em dominar – tal como aqueles que têm como profissão torturar uma pessoa até o limite de sua existência, que conseguem realizar o sonho de, enfim, se apropriar de alguém... Ser um outsider é, enfim, entender que todos nós, por mais que tenhamos a ilusão de fazer parte de grupos, estamos soltos em campos glaciais, vivendo em risco a todo o tempo. Por isso, ser um outsider é apenas ser ignorante. É querer ser poeta, mesmo sem saber falar ou escrever. Ser outsider é ser humano.

8/17/2013

Todos um dia vão cair


Ismália vai à lua –
                cai no muro.

                Puta vestida de onça
                sentada em desolação
                de gasolina me pede um cigarro
                - não fumo.

                Um caminhão atravessa
                o céu de cachaça envelhecida
                no carvalho:
                hagiografia de coveiros
                e cracudas fazem amor no cemitério:

                - Entre o pernil e a vida
                o morto ficou com o pernil.
               
Temos ainda a procissão
                o andor é estudante e nossa senhora
 jovem envolta em lençol com sêmen.

                Protege-se no sarcasmo o pensamento dividido
                a oração de um cético
                na igreja só para abrir trilhas no facão.

                É tudo assim
                tão irrisório iridescente
como a ilusão de um desejo alheio:
               
                A língua furiosa do amor e do desamor
                embriaga os mitos.
               
Eu, vampiro, alimenta-se
                do pó dos muros.
               
Ismália vai à lua –
cai no rio
                fermentando de vida.


8/10/2013

Da série: Planetário de bolso

            Netuno

Uma fome nasce no mundo. Uma fome a mais. Procuram domá-la impondo-lhe um nome. João (amava) Teresa (que amava) Raimundo. Netuno. Ali onde havia uma equação. Onde cairia a maçã, se não houvesse um campo de forças à procura da maquinaria do universo, abstraindo-a. Sangue verde, formando uma pedra de gelo onde haveria a matriz de um coração. Despertar para o sonho é como inspirar antes de um mergulho: com os olhos ainda molhados, a luz azulada do dia. Para sempre ser intempestivo. Soprar verbos no horizonte demiurgo. Aqui começa a revolta: ventania contra as grades de um nome. Inútil procurar uma ordem entre essas frases. Um tridente, como toda invenção, antes foi objeto de sonho.


Júpiter
        Corpo lento em pesadelo, imenso e leve se move no espaço girando velozmente ao redor de si mesmo. A mania persecutória do escritor sabe que seus amigos não acreditam na sua escrita, que os outros poetas não acreditam na amizade ou se acreditam na escrita é por piedade amiga e que portanto como bons amigos não acreditam na sua escrita e que ele, apesar de todo ceticismo e auto-sabotagem, vai prosseguir escrevendo sem acreditar em nada, nem nos amigos e nem nos poetas e muito menos na própria escrita. O estranho paradoxo de um demônio inseguro. Giro ao redor de mim mesmo e me movo frontalmente, não saio do encalço de alguma coisa parecida com uma tempestade vermelha que dá o tom dos meus sonhos em que fujo de outra coisa ou tento capturar a vida, que sempre está à frente, afrontando-me adiantada em estado de miragem perpétua. O que se vê de mim são as garras tentando capturar o vazio, a fraqueza do soberano que se retira e parte para o exílio no oceano noturno.   

8/08/2013

                                  
            O excesso de luz, imensurável – se luz é a medida das coisas;

            Imagine uma régua que se encolhesse – dilatasse – vertiginosamente;
           
            Terra, por dentro, incandescente – por fora, desolação lunar;

            Como se o sol expelisse uma semente – uma espiral de seiva;

            Todo um clima a ser observado – sem atmosfera, por olhos inorgânicos.

8/05/2013

Noites Brancas

1.       
O fim continua após o corte
no se consumir paradoxal da energia que se alimenta
depois da última cena

(Um girassol plantado na lua
na lapela do homem que se retira sozinho
dentro da cena ou fora, na sala de cinema):


                        2.
A neve segue seu serviço
de compor um cenário para a sensação
interminável quando a luz se acende
e o filme enquadra o sonho
ou a vida, trancada em aquário de luz
para consumo e alívio do tédio –
                       

                        3.
Dia e noite se misturam
                        no homem e no personagem
modulando-se por tempos a fio
quando sai do cinema para entrar na cidade
real, no choque da realidade:

Variações do mesmo, apenas
e as pétalas estão mortas
vivas, pulsando, roubando-lhe ar,
são dentes muito finos sugando o coração,
estão mortas, vivas, cantam,
ondulam-se espumas de um mar amável,
são asas, bilhetes, alimentam, consomem,
dão coragem e medo da vida: tudo isso

Um girassol plantado na lua
na lapela de um homem que se vê
no cinema
                        na brancura da noite, em meio à vida social 
                        e sente um calor impreciso
                        fugindo da lapela inexistente.
.

                        4.
                        Quando o filme acaba
                        e você tem que voltar para casa
                        e depois do desfecho
                        o fim prossegue por horas, dias
                        toda uma vida cultivando o interminável
girassol lunar – e a flor está enraizada
no coração

e seu coração, portanto, é de pedra
da lua, com sua parte iluminada, diurna
e uma noite que não termina.

E você segue seu caminho
                        sem destino
                        com um girassol colido numa ponte
                        toda branca
cravada na lembrança.


5.
E o desejo podado de dormir por 6 meses
acordar sem esse girassol na lapela

- mas ele é tão esdrúxulo
quantos não gostariam de ter
um girassol lunar na lapela?

- este girassol lunar
me faz leproso, inimigo da ordem pública
quero ser sensato, saber medir a ficção
entrar e sair do cinema
como um cidadão qualquer.

- mas o girassol está enraizado
em seu coração, como arrancá-lo?

- este girassol lunar
me impede de dizer bom dia, boa noite
como vai, como está, tudo bem,
quais são as novidades, que tempo seco,
frio, que dia quente, você viu que choveu,
o que você vai fazer hoje,
dá uma olhada na fotografia,
mande notícias, depois a gente se fala
tudo o que todos podem dizer
mas não eu
quanto tempo, por onde andou,
vamos ao cinema,
você já viu o filme chamado noites brancas?

- este girassol lunar
que brota da lapela inexistente
enraizado em seu coração
sugando seu sangue até a expressão da brancura
é uma antena voltada para as mais imperceptíveis
forças cósmicas
sem ele como você falaria com flores e planetas?


8/04/2013

So it goes

E se ao invés de comer pedras
            lunares
            poeira fria e cinza
            você se alimentasse
            de cometas?

            Cometeriam corações – rastros incendiários
            na espinha dorsal da vida