4/26/2009

Sentenças e Máximas de Oito-Olhos)

Em parceria com Álogos. Além de outros parceiros, muitos, estes involuntários. O bigode é a sinédoque do pessoal, pra manter o lance professoral... Fora isso, nada aqui é inventado. E aí, e isso falo só por mim, isso tudo me lembra a segunda melhor música do Raulzito. Falem mal, mas (ah sei lá, foda-se quem fala mal!). Meu amigo, Pedro. A tragédia está entre ser Raulzito e o Amigo Pedro. Não sei também se dá pra chamar isso de tragédia.


Como um raio que cai em sua cabeça ou como um bacharel doutor proletário cult praticando a massagem linguopedal nos camelos do deserto você de uma hora pra outra se vê num auditório repleto de outros tantos como você. Você se acha especial mas um dia as máscaras caem e o que se revela sob seu rosto é a mesma massa mole de modelar. Ainda mais depois do aviso de Oito-Olhos: “sorte não existe, sorte é destino, azar o seu o que existe é derrota ou vitória”.
E como Oito-Olhos vai subindo a escada lateral do auditório como se o piso fosse feito de línguas úmidas massageando seus imensos e deformados e chulepentos e magníficos pés! E como ele se agarra ao microfone como se fosse uma tábua de salvação, prêmios aos homens que se vestem de mulher na hora do naufrágio pra furar a fila do estágio probatório da morte que os espera logo ali, entre os fios do microfone.
Mas, ei, os fios do microfone não são línguas umidificando seus ouvidos, a hora da foda é pra ser desagradável, outro aviso de Oito-Olhos, não deve ser contabilizada no item férias, passeios e cagadas agradáveis. Enfim, eis as sentenças de Oito-Olhos:

1. O plural de anfitrião é anfitriões. Mesmo assim fico feliz ao ver que esse auditório está lotado (de panacas).
2. Eu confecciono diplomas de Seres Humanos Completos aos subalternos que concluem a jornada.
3. Toda comissão permanente tem atribuições específicas.
4. Todo A será inevitavelmente igual a outro A, mas as siglas, como os vizinhos, não merecem confiança. UFO, por exemplo. Exemplo hipotético.
5. O Ricardo é um santo e se você tiver sorte um raio não cairá sobre sua cabeça.
6. O pagamento: ôba!
7. A Diretoria dos Portadores de Dependência Química.
8. Queria usar uma camisa de forças.
9. 20 minutos é pouco tempo quando o tema é a falta de assunto. (Enquanto fala isso, Oito-Olhos dá uma coçada no cu).
10. Esta cidade está crescendo desesperadamente.
11. Sempre sorrir e abolir a palavra “não”.
12. No que concerne ao meu coração, estou recebendo vocês na minha cozinha.
13. Recuperar a auto-estima sem dinheiro, só com o calor humano.
14. Pluralidade de idéias – mas com a obrigação da Idéia Única. O Todo. O consenso que leva ao maior consenso.
15. A Instituição foi pensada para a Eternidade. Foi pensada nisto. Mas cada um precisa de uma mesa. Cada um de nós é todos nós. E mesa é muito complicado: é uma construção civil.
16. Muito pouca gente entende isso.
17. Órgão de apoio é tudo apoio.
18. O poder é construído pelo Trono do Poder: a Caneta! A tarefa do Vice Poder é impedir o impedimento do Poder.
19. Nada de briga. Tudo tem que ser no intelectual.
20. Arroto, a nível de interação.
21. O orgulho é o objetivo da Empulhação Definitiva. Com 40% de Ética você será vitorioso na carreira.
22. O pagamento: oba!
23. Eu não conheço direito os meus amigos. Nós formamos um time.
24. As redes astronômica é a responsável pelo acontecer do ensino.
25. Eu tirei o bigode pra criar novos ares, mas isso dificulta o meu discurso.
26. Planejamento é o ato de planejar & uma coisa é comprar outra é guardar.
27. Acabou a moleza.
28. O pagamento: oba!
29. Já fui um incendiário de calça de boca de sino. Meus amigos enriqueciam costurando dentes de madames enquanto eu me matava de estudar. Agora estou aqui, sou o Poder. Tenho o previlégio de discursar.
30. De onde saíram os ETs desta mesa?
31. Terra cheia de confritos (mistura dialética de conflitos e ovos fritos).
32. A capacidade de catalisar pessoas para trabalhar nessa bandeira.
33. O amor própio é o ópio do povo.
34. O problema do atestado fajuto.
35. O pagamento: oba!
36. Vocês continuarão aqui pelo menos até 2400.
37. O era é experiência para fazer melhor. O sonho que esperamos torná-lo realidade.
38. Rejuvelhecer.
39. O Poder é estúpido, mas faz cara de paisagem.
40. A competição é te valorizar.
41. O Brasil é uma República, mas o Acre não conta.
42. Você não pode se casar com a sua irmã.
43. Um dia a máscara cai. Direita Administrativa: Direito Administrativo.
44. A polícia federal está aqui, graças a Deus.
45. LIMPE.
46. O caminho errado não vai dar em nada.
47. O pagamento: oba!
48. Na dúvida sempre pergunte: é simples assim?
49. Eu estou com vontade de chorar.
50. Vamos parar de inventar, por favor.
51. 40% de Ética é suficiente: escolha os itens que não desagradem a Chefia.
52. Capacitar para fortalecer a hierarquia.
53. Ninguém pode mudar o Sistema. Somos meros informantes.
51. Quanto tempo falta?
52. O negrito é uma filosofia de gestão.
53. O próprio formulário vai exigir isto de vocês.
54. É preciso olhar para frente, e não pelo retrovisor (para que não possamos olhar para o próprio rabo).
55. Nós temos que pagar por esta tranqüilidade.
56. Quanto tempo falta?
57. Minhas ações não condizem com o que eu faço.
58. Mulher normal não reclama do marido, mas interpretar não faz mal a ninguém.
59. O que não está na lei, não está no mundo; mas precisamos organizar o que está por trás.
60. Quanto tempo falta?
61. Não é permitido ter simpatias, antipatias, caprichos...
62. O pagamento: oba!
63. A pessoa jurídica não é palpável internamente.
64. Quanto tempo falta?
65. O pagamento: oba!
66. Quanto tempo falta?
67. Acabou!
68. LIMPE!

P.S.(69): Sempre dá para organizar tudo!

4/24/2009

O Professor Crédulo – Parte 4 (final)

Pois bem, cheguei à sala de professores. Assim como uma aula é sempre a repetição da mesma, uma sala de professores é sempre a mesma sala, com poucas variações.
É um ambiente vil, mesquinho, pequeno em tamanho e em pessoas. O cheiro de giz e de café, quando existe, é o perfume de uma sala de professores, mesclado com o perfume das paredes, cujo bolor é milenar. É um ambiente onde não se percebe e não se é percebido. Pode-se ficar ali um dia inteiro sem ser percebido. Além disso, há jornais: da semana passada, do mês, ano, década passada. O jornal do dia está sempre em outra sala, que não é a de professores, que irá após uma semana, pelo menos, para a sala de professores. Pode-se ler um jornal de vinte anos atrás para ficar sem ser percebido na sala de professores, nos intermináveis minutos entre uma atividade e outra do sacerdócio de professor. Verdadeiras pesquisas históricas podem ser feitas ali – não vou falar das experiências médicas, psicológicas e jurídicas que podem ser feitas neste belo lugar. De qualquer maneira, a sala de professores é um lugar cinza e desinteressante, comparado às reuniões.
Assim como uma aula é sempre a repetição da mesma aula e uma sala de professores é sempre a repetição da mesma sala de professores, uma reunião é sempre a repetição da mesma reunião, com poucas variações. Vou dar um exemplo didático, para não perder o costume: quem entra em um shopping, entrou em todos. Do mesmo modo, quem já foi professor deu sempre a mesma aula, entrou sempre na mesma sala de professores e participou sempre da mesma reunião. Só o endereço muda. Tanto das salas de aula quanto das salas de professores quanto das reuniões. Vou falar do que entendo ser uma reunião, dar apenas a partitura-base do canto de terror.
A primeira coisa que é inerente a uma reunião é decidir o que será discutido na próxima. Até aí, nada de novo. Mas, não contente em dizer isto, digo que nada se decide numa reunião; uma reunião, por vezes, sequer decide o que será decidido na próxima reunião, pois uma reunião não é o lugar onde se decide. Não se decide, porque não se faz nada numa reunião. Não se faz nada e não se deixa fazer nada numa reunião. Não fazer, não deixar fazer. Eis o lema de qualquer reunião. Poderia parar por aqui, mas vou continuar meu canto de terror. Ao mesmo tempo, não se diz nada numa reunião, porque nada do que se diz pode se tornar algo a ser feito, pois não se faz e não se deixa fazer nada a partir de uma reunião. Quando existe algo importante a ser dito, nada se diz, pois tudo o que é dito, por mais importante que seja, é esquecido ou deixado para a próxima reunião. Só as ofensas são lembradas e estas são o real assunto de uma reunião.
Falando em ofensas, elas começam com os encontros e com os cumprimentos anteriores à reunião. Os cumprimentos delimitam as fronteiras dos amigos, dos conhecidos, dos quase-desafetos e dos desafetos. Há três modalidades de cumprimento numa reunião: os feitos entre amigos, com doçura, cordialidade e um rosto alegre, trocando livros, dicas e combinando festas após a reunião; os feitos entre conhecidos, que são mais tímidos, com uma dose contida de cordialidade, com comentários sobre o tempo ou algum fato curioso, reservando neste curto cumprimento uma pequena dose de falsidade, pois não pretendem se encontrar depois da reunião; os feitos entre quase-desafetos são muito tímidos, quase fugidios, como um beija-flor. Se você não olhar naquele segundo, o cumprimento passa e você fica durante e após a reunião sem falar com aquela pessoa (talvez nunca mais volte a falar com ela, dependendo do que for falado na reunião). Claro, só há três modalidades de cumprimento, porque os desafetos não se cumprimentam. Há os desafetos declarados e os não-declarados. Os não-declarados procuram subterfúgios dos mais infantis para não se cumprimentarem: atender o celular desligado, falar de repente com outra pessoa, abrir a pasta e olhar papéis, ler um livro de cabeça para baixo, esconder-se embaixo da mesa para procurar a caneta imaginária que caiu, etc. Tudo para dizer que não tinha visto o desafeto não-declarado. Este é um cômico jogo de empurra-empurra: “eu não vi, você não pode dizer que eu tenho algo contra você”, etc. Mas aprendemos, pela boa pedagogia, pelos séculos de moral e bons costumes da nossa boa e velha civilização, que tudo é pessoal. Por isso, há o estatuto dos desafetos não-declarados, que são a maioria numa reunião qualquer. Quanto aos declarados, não tem graça descrever. Odeiam-se mutuamente e todos sabem disso. Apenas viram motivo de gracejos entre os amigos e conhecidos e, na falta destes, entre os quase-desafetos, porque só as ofensas são lembradas e estas são o real assunto de uma reunião.
Após os encontros e cumprimentos, todos decidem sentar-se. A criação de ilhas na sala de reuniões delimita a hierarquia das amizades e dos poderes numa reunião. Sentar ao lado do chefe nunca é a mesma coisa que sentar perto da porta. Quase sempre, sentar-se ao lado do chefe é ser quase um chefe. Sentar ao lado da porta é visto como um mau sinal. Não sei por que, mas é isto que ouvi sobre os lugares das reuniões. A partir das ilhas criadas, a sala fica com alguns lugares ocupados entre as ilhas, pois o amigo de um pode ser o desafeto de outro. Sempre há ligações entre as ilhas criadas numa sala de reuniões, pois todas elas, no fundo, são uma única ilha. Neste caso, só existe um arquipélago para os moradores. Todos os outros veem apenas uma única ilha numa sala de reuniões. Só há uma única ilha na sala de reuniões porque não há lados, todos os lados são interligados e todos falam mal uns dos outros, não importa o lado. No final, uma sala de reuniões é a prova cabal de que todos, sem distinção, pertencemos a um mesmo mundo e somos iguais, independentemente das ilhas e dos lados em que julgamos estar.
Dá-se início, portanto, à reunião. A pauta é sempre uma pauta extensa, pois há muito o que dizer aos outros sobre as reuniões: que são difíceis, que há muito trabalho, que há sobrecarga de coisas para fazer, etc. Mas só para quem nunca foi a uma reunião. Porque os que foram a pelo menos uma reunião na vida sabem, que não se faz e não se deixa fazer nada numa reunião, por mais extensa que seja a pauta.
Às vezes, em meus pensamentos calhordas, canalhas e sem graça, imagino que a reunião deva ser uma experiência científica controlada por autoridades no assunto, que medem regularmente o ponto mais baixo da existência humana. E o recorde está aumentando dia após dia! Jamais o Guiness teria coragem de registrar isto! Ah, aviso que não adianta medir este ponto de baixeza em supermercados, filas de banco, puteiros ou similares, até mesmo numa guerra. Só numa reunião é possível aferir este nível de baixeza humana, pois é necessária uma reunião prévia para se começar ou acabar uma guerra. As reuniões são mais indecentes que as guerras, sem sombra de dúvida.
O conteúdo das ofensas em uma reunião pode ser imaginário, real, virtual, não importa. Mas, sempre o que for falado por uma pessoa numa reunião será aplaudido pelos amigos, receberá um gesto aprovador dos conhecidos, ouvirá um “fazer o quê” dos quase-desafetos, será ignorado pelos desafetos não-declarados e será contrariado pelos desafetos declarados. Portanto, a troca de ofensas numa reunião existe apenas entre desafetos declarados. O restante é comentado de modo sub-reptício pelos demais (a metáfora, neste caso, coube como uma luva; só numa reunião uma pessoa pode, nitidamente, rastejar). Se, por exemplo, houver discordância, por menor que seja, entre amigos ou conhecidos, cria-se um mal-estar geral. “Como é possível? Você devia obediência aos amigos, isto é uma ofensa! Não sou mais seu amigo!” Por isso, só o número de desafetos não-declarados aumenta após uma reunião. Já falei que acredito nos ensinamentos daquele homem religioso que fala sobre o “Esclarecimento”. Pois é. Um dia, achei que poderia falar alguma coisa importante numa reunião. Ser crédulo é um pecado inominável. Fui ignorado e só conquistei desafetos não-declarados após aquela reunião. Agora, tudo bem. Aprendi que, não importa o que for falado numa reunião – sempre em virtude da boa pedagogia, dos séculos de moral e bons costumes da nossa boa e velha civilização – tudo é e será levado para o lado pessoal. Afinal, só as ofensas são lembradas e estas são o real assunto de uma reunião.
Só uma reunião para recarregar as baterias e sair chutando o mundo com uma raiva enorme de ter nascido e se tornado professor. Neste momento, lembro-me que minha vingança, pelo fato de ser obediente, caiu apenas sobre mim. Só nós somos culpados pelo rumo que damos a nossas vidas.
Depois de uma reunião, faço a promessa dos bêbados durante a ressaca. Desisto! Não aguento mais! Nunca mais faço isto! Volto correndo para casa, destruído, ressentido, ofendido e simplesmente puto da cara. Cabe aqui uma observação (em tom científico e jocoso): isto tudo é perfeitamente normal para um professor, seja ele crédulo ou não. Afinal de contas, em uma reunião ele apenas está entre iguais, com poucas variações. Pois um professor é sempre a repetição do mesmo professor, com poucas variações. Sendo ele covarde ou corajoso. Tendo ideias próprias ou não. Tendo complexo de Aquiles ou não. Preparando ou não suas aulas. Sendo um canalha ou uma pessoa previsível e confiável. Recebendo ou não cumprimentos de colegas e de alunos. Todo professor é sempre a repetição do que julgamos ser um professor e suas atribuições, porque sou apenas a repetição dos professores que tive, com poucas variações.
Chega! De hoje em diante, não quero mais falar somente como professor. Não quero mais ser crédulo, canalha, esclarecido, idiota ou qualquer coisa que seja. Quero existir como alguém além da minha profissão. Por ora, sem sono, nada posso fazer, senão usar as únicas drogas lícitas a que tenho acesso: álcool e livros. Encho a cara, leio algo reconfortante e caio na cama, com a certeza que tudo foi um pesadelo e que amanhã será um novo dia.

4/23/2009

O Professor Crédulo – Parte 3

O mundo externo de um professor é precedido pela preparação dos planos de aula, pela preparação da preparação dos planos semestrais, anuais, plurianuais. Planos e preparações. Preparações prévias de planos. Aí está um mundo agradável. Os conceitos, as explicações, as explicações dos conceitos, compreender e explicar os conceitos de explicação e compreensão... Ah, se o mundo fosse apenas a preparação das aulas! É aí que os tóxicos em forma de livros fazem seu efeito mais profundo. Ficamos extasiados com a inteligência humana e esquecemos até os motivos que nos levaram a esta tragicômica profissão. Em um mundo no qual palavras não significam coisas e que coisas não têm nada a ver com palavras, teorizar é um luxo, um preciosismo. Só aqueles que desejaram muito este cotidiano podem dar-se ao luxo de, simplesmente, teorizar. Ora, nada pode dar errado na sala de aula! Toda a preparação de anos – às vezes décadas – não pode ser descartada! Entretanto, a preparação de uma aula é a criação de uma ilha, seja ela deserta ou não. Todas as ilhas são pouco acessíveis. Por mais que me esforce para preparar uma aula didática, regrada e acessível, sinto que alguma coisa vai dar errado. Perco sono. Coloco sinônimos, encho de exemplos, intercalo citações grotescas, faço pausas programadas no tema principal para entreter o público. Sim, o professor é teatrólogo de si mesmo. Está tão preocupado com o que diz e, principalmente, como diz, que se esquece que há um programa mínimo de curso a vencer. Merda de currículos, ementas, disciplinas! Gostaria de apenas representar! Mas termino com um belo programa de preparação prévia do que pode vir a ser um plano de aula, pensado nos mínimos detalhes.
Enfim, arrumo-me e vou, finalmente, ao meu mundo exterior, de cabeça erguida, certo de que farei uma boa aula. O mundo exterior assusta logo de início. O mundo é mal, as pessoas são más... Onde fui me meter? Quero voltar para casa, lá é que sou feliz! Não posso! Tenho que dar aula, pois sou o professor. Esta é a pior parte: enfrentar o olhar dos alunos, as ironias, os gracejos, o reparar em cada detalhe de meu corpo, de minhas roupas, de meu gesticular, de meus gaguejos, para fazer disso o pão-de-ló da festa. Não suporto isto! Quero voltar! Não, mais uma vez, não! E apresso o passo para chegar logo. Gostaria de ser professor sem precisar dar aulas. Por outro lado, não teria ninguém para me ouvir... Bem, vamos rápido. Mas antes, fico em um lugar próximo fazendo qualquer coisa para chegar com um atraso controlado de 5 a 10 minutos à sala de aula. Claro, preciso dizer quem manda. Quem manda sempre faz os outros esperarem, não espera por ninguém. Bem, é chegada a hora. Não parece ser tão ruim. Alguns alunos cumprimentam esporadicamente. Chego à mesa, faço o ritual de colocar o material na mesa e começo a falar. Falo loucamente por minutos, horas seguidas. Tenho medo que descubram minhas fraquezas, por isso falo. Desenfreadamente. A extroversão é a melhor forma de se esconder. A timidez revela, de cara, quem você é, assim como o que você pensa sobre si e os outros. Os extrovertidos não suportam a timidez alheia, pois sentem isso como uma ameaça a sua vaidade. Portanto, usam da sua verborragia para rebaixar os tímidos, não os deixando falar e fazendo piadinhas do pouco que falam. Por isso o mundo é dos extrovertidos. Eles são profissionais da aparência. E tudo neste mundo é aparência. Onde está a essência? Sabe-se lá! Como não sou extrovertido de nascimento nem de criação, preciso tornar-me extrovertido para me esconder do julgamento alheio e botar a culpa do mundo nos tímidos, como se não fosse um deles.
Ah, pois, as aulas. Não falarei dos conteúdos, pois uma aula é sempre a mesma aula, com pequenas variações, não importa o tema. Lembro-me de poucas coisas sobre as aulas.
A primeira, é que ninguém presta atenção no que falo, porque, quando há dúvidas, são sobre a data da prova, sobre a hora da chamada, sobre o conteúdo da prova, etc. Meu disfarce de extrovertido é simplesmente uma tragédia! Não engano ninguém! Sou mais um inútil tentando falar alguma coisa. E todos pensando nas questões burocráticas da disciplina, fazendo a contagem regressiva até o momento em que podem se livrar de mim.
A segunda, é que sempre existe, entre o meio da sala e o fundo, alguém com um olhar de desdém, desafiando toda minha formação e intelectualidade – oh! – tentando me testar, saber qual o limite do meu incômodo e da minha insegurança. Quase sempre este observador desdenhoso tem êxito. A não ser que eu tenha um ataque de sinceridade, faça uma observação tangencial ao conteúdo da aula que o surpreenda. Sua cara muda. Fica, de repente, sério. Das duas uma: ou achou-me inteligente ou tornei-me igual a ele. Nas duas opções, assim como em todas as anteriores, ele ganha. Sou também um profissional da insegurança.
A terceira, talvez a pior delas, é avaliar. Avaliar é uma tarefa que exige uma hipocrisia refinada, pois ninguém avalia ninguém: apenas inspiramos todos a continuarem seus estudos e a confirmar aquilo que já sabem. São muito raros os ataques de sinceridade de um professor ao avaliar. Não vou citar os casos de plágio de trabalhos e os casos de cola de provas porque são sempre os mesmos. Não é necessário ser professor para narrar isto. No entanto, quando o professor reprova alguém, seja por faltas, seja por notas, tem que se explicar mil vezes, dizer que não é pessoal, etc. Mas sempre será encarado como algo pessoal, porque aprendemos, pela boa pedagogia, pelos séculos de moral e bons costumes da nossa boa e velha civilização, que tudo é pessoal. Quando faz alguma atividade interativa, que envolve a participação dos alunos, o cenário é digno de uma comédia. As piores avaliações consistem em fazer o aluno falar. Pelo amor de deus, não! As pessoas preferem a morte a ter que falar em público. Ora, em um mundo que privilegia a covardia, falar em público é tarefa de alguns poucos escolhidos que devem nos representar. Para que falar? Se o professor insiste em fazer esta besteira, a comédia vira tragédia: ver a dificuldade dos alunos em falar, seus tiques, repetições de palavras e gestos, é um espetáculo para estômagos fortes. Cheguei à conclusão que, quando faço os alunos falarem, é só para satisfazer minha canalhice, minha fama de mau. Não há como avaliar o que os alunos falam, assim como avaliar qualquer coisa é uma tarefa impossível. Quem sabe o critério seja pessoal, mesmo...
A quarta coisa é simplesmente a seguinte: quando saio do espaço da sala de aula, os mesmos alunos que me cumprimentaram quando entrei não me reconhecem mais. Será que não se lembram de mim, estão cansados ou simplesmente me odeiam? Talvez nenhuma das respostas acima: ser aluno é tratar o professor como um empregado, que está vendendo um serviço e, quando muito, oferecendo vantagens. Nada além. Não sou amigo dos alunos porque dou aulas a eles. Pelo contrário. É apenas uma questão de conveniência cumprimentar um professor. De qualquer modo, para que cumprimentar um professor? É só mais um idiota que teoriza. A escola da vida é muito melhor que os livros. Para que teorizar? Só a prática interessa! Esclarecimento? Que merda é esta? E saio com meu orgulho ofendido, mas pensando que, ao menos, atingi-os com minhas palavras. Oh, quanto poder! Fora da sala de aula e das preparações, quando vou ao supermercado ou à biblioteca, meus alunos fazem de conta que não me veem, pelo simples prazer em fazer o jogo de quem manda. Se os faço esperar – porque sou um profissional em fazer esperar – eles me ignoram. E, me ignorando, também mandam em mim, assim como durante a aula, quando me perguntam se a chamada foi feita ou qual a data da próxima prova... No fundo, sou um professor obediente porque fui um aluno mais obediente que meus próprios alunos. Bem, agora vou em direção à sala de professores, tenho uma reunião a seguir. Logo contarei como é este ambiente, pois meu único prazer é fazer esperar.

4/22/2009

O Professor Crédulo – Parte 2

Tornei-me professor porque fui um aluno obediente.
Ora, também fui seduzido pelo canto das sereias da obediência! Já disse que não sou melhor ou pior que ninguém pelo fato de existir. Sim, eu fui um aluno obediente, daqueles que têm vocação para pesadas tarefas, assim como para conquistar a inimizade e a indiferença de seus colegas. Não queria ser apenas mais um no grupo (ah, que chatice!), queria ser melhor. “O estudo dignifica o homem”. Há, há, há. O estudo torna o homem cada vez menos digno, pois ele, ao estudar, torna-se consciente de que é um covarde, que deve agir como um covarde, e que é vantajoso agir conscientemente como um covarde! Nos lugares onde há maior concentração de pessoas instruídas, há maior número de salafrários que são menos que camundongos. Tanto quanto nos meios pouco instruídos. A maior parte da humanidade, independentemente da delimitação a ser feita (idade, instrução, sexo, orientação sexual, cor, credo, etc.), é de pessoas que não valeria a pena tê-las conhecido. Fui um aluno obediente porque talvez, tivesse a ilusão de perfeição. Fui obediente para, de algum modo, me vingar de meus colegas, que caçoavam de mim. Para me vingar dos meus professores, os quais achavam que eu seria feito à sua imagem e semelhança. Para me vingar de meus pais, que acreditaram na educação que me deram. Para me vingar daqueles que me chamaram de burro. Para me vingar de todos aqueles que não me deixavam falar ou que não prestavam atenção no que falava. Enfim, para me vingar de mim mesmo, por ser tão desprezível.
Tornei-me professor porque agora teria pessoas que me ouviriam, nem que fosse à força. Nem que fosse por mera obrigação curricular. É nojento submeter uma pessoa a ouvir qualquer coisa, quanto mais a ouvir o conteúdo de uma aula! É perverso acreditar que as pessoas nos ouvem ou nos ouvirão sequer por um dia, uma hora, minuto ou segundo! Ninguém ouve ninguém: só inspiramos as pessoas a pensar e articular melhor aquilo que já sabem. Mas com a ajuda de boas citações e fórmulas. Eu mesmo tenho coleções de citações: de memória, das lidas em livros, etc. Todo bom professor é apenas um colecionador de citações e fórmulas, usadas a favor daquilo que já se sabe de antemão. De qualquer maneira, ser professor é a única maneira de se iludir com a ideia de que os outros realmente nos ouvem. Ouvir é obedecer? Talvez, se usarmos uma boa dose de vaidade. Contudo, só nas belas instituições comprometidas com a educação das gerações vindouras há um abismo entre ouvir e obedecer. Os alunos nos obedecem, sem jamais terem ouvido o que falamos. Fora destes idílios terrestres, devemos obedecer e ouvir os conselhos de nossos chefes, por uma questão de juízo.
Como podem ver, tornei-me professor por vingança, pois faço parte daqueles 100% de pessoas que se tornam professores para exercer algum tipo de vingança. Qualquer tipo de vingança – pois não há grande ou pequena vingança, todas são pequenas e frias. O próprio processo de formação de um professor incentiva-o ao uso da vingança contra a humanidade. Ele é organizado de modo que você deve ouvir um número x de desaforos, ficar um número y de horas sentado e fazer um número z de trabalhos que serão jogados fora. Nietzsche me disse, e eu dei gargalhadas com isso, que “um meio seguro de irritar as pessoas e lhes pôr maus pensamentos na cabeça é fazê-las esperar por muito tempo.” Fazer esperar é incentivar a vingança. Há profissionais em esperar e fazer esperar. O professor começa como um profissional em esperar e se torna um profissional em fazer esperar. Toda profissão canalha ensina a fazer esperar, por puro prazer em fazer esperar, mesmo que isto custe uma vingança futura contra quem faz esperar. Como as pessoas não se vingam senão sobre si mesmas, parece vantajoso aos olhos de um canalha fazer os outros esperarem.
Ah, preciso dizer, além disso, o meu grande motivo em ter me tornado professor: acredito naquela coisa sobre “Esclarecimento” que aprendi daquele homem tão religiosamente bondoso. Esclarecer alguém? Qual a próxima piada? Não esclarecemos ninguém, senão aqueles que já são esclarecidos por conta própria. Com isto, também não quero dizer que estas pessoas já esclarecidas não escolham o caminho da contravenção, do crime ou pelo menos, da covardia. Saber uma coisa, ter uma informação sobre ela, não significa “ser ético” ou “tomar boas decisões” (claro que estou usando estas expressões em sua conotação moralista). Se fosse tudo assim, bastaria cercar as pessoas “esclarecidas” em um estádio, matar todas as outras e teríamos a solução do mundo! Mas, meus caros, a educação não suprime o desejo! Nem a vingança! Nem a obediência! Nem a covardia! Nem o crime!
De qualquer modo, posso dizer por aí que tenho pelo menos um motivo nobre para o exercício do sacerdócio do professor: “esclarecer”. É a nossa hipocrisia que torna nossas profissões necessárias. Todas elas. Nenhuma profissão é imprescindível. A humanidade continuaria muito bem (ou mal, tanto faz) sem profissões definidas.
Enfim, tornei-me professor. Já esgotei a sua paciência com isto. Falta, agora, descrever um pouco do meu mundo: as salas de aula, a relação com os alunos, as salas de professores e, acima de tudo, as reuniões. Escreverei isso em outro momento. São três horas da tarde e vou dormir.

4/19/2009

O Professor Crédulo - Parte 1

Não sou uma pessoa confiável.
Talvez eu seja um canalha.
Tiro esta conclusão sobre mim porque tenho opiniões próprias. As pessoas, educadas pela boa pedagogia, pelos séculos de moral e bons costumes da nossa boa e velha civilização (mais velha do que boa, em todos os sentidos), adoram formar seus pequenos grupos. Ora, não há senão pequenos grupos. A nossa ciência, por mais que dê importância ao universal, ao coletivo, à mentalidade de cada época, às grandes nações e aos grandes fatos, não consegue fazer com que os seres humanos se entendam. Portanto, só conseguimos ter razão e gozar do nosso poderzinho que nós mesmos nos demos (Deus não nos deu nada) em pequenos grupos. Um pequeno grupo se faz com uma simples regra: há os que mandam e os que obedecem. Sartre disse, com êxito, que só interessa obedecer quando se sonha comandar. Esta máxima é o primum mobile de toda forma de convívio humano. Sinceramente, acho esta máxima abjeta, vil, mesquinha. Não estou citando Sartre porque incorporo esta ideia. Longe de mim. Nem sou leitor de Sartre. Mas acho que esta frase resume cem por cento das formas de convívio até hoje exercidas pela humanidade. Não há exceção a esta regra. Se você quer entrar em um grupo, você deve pressupor ou a vontade de mandar ou a humildade em obedecer. Obedecer, obedecer, obedecer. Este é um dos objetivos mais procurados pela humanidade. Fico pensando, em minha canalhice, que há pessoas que perdem noites de sono pensando em como fazer com que mais pessoas obedeçam a suas ordens e interesses. Devo ser muito canalha ao pensar estas coisas. Como posso eu, reles mortal, animal político e social, pensar que obedecer não seja uma virtude? Afinal, é necessário ter uma longa trajetória de obediência para poder comandar. Ora, digo eu, é necessária uma longa trajetória de obedecer para continuar a obedecer, pois os que mandam em uma máfia qualquer não começaram limpando o chão do estabelecimento. Quem começa assim, alcança no máximo a gerência da máfia: nunca manda. Eu não sou confiável porque não me iludo com as promessas do mando a partir da obediência. Há, há, há. Logo para cima de mim com esta? Mas as pessoas cultivadas pela boa pedagogia, pelos séculos de moral e bons costumes da nossa boa e velha civilização, acreditam tanto nisto, que acham que um dia vão comandar. Há, há, há, mais uma vez. É muito divertida a tragédia humana. Criamos sistemas absurdos de mando e obediência porque somos submissos, sentimos prazer em obedecer, sonhando em comandar. Sonhamos em comandar pensando que realmente comandamos. Mas Pessoa me disse, bem baixinho, que “precisar de dominar os outros é precisar dos outros. O chefe é um dependente.” Comandar é a grande armadilha da submissão. Quem comanda, também se submete. Até mais do que aqueles que obedecem abertamente. No fim das contas, somos todos obedientes. Mais do que cachorros, que não têm um pingo de amor-próprio. Temos cachorros achando que nós os dominamos. Eles é que nos dominam. Até o último suspiro.
Sou tão intoxicado pelos livros que li e leio – não consigo parar de ler porque não consigo parar de pensar – que acredito numa coisa chamada “Esclarecimento”, lida das palavras de um homem muito religioso, que chamam de filósofo. Talvez ele mesmo não acreditava no que escrevia. Bem, isso eu não sei, mas o que sei é que este homem muito religioso disse que podemos fazer uso do nosso próprio entendimento sem a ajuda de ninguém. Que não estamos condenados à alternância eterna entre o mando e a obediência (ou à eterna obediência). Este homem muito religioso, calmo, tranqüilo, me intoxicou. Não consigo mais ter o cinismo, a abjeção, a mesquinhez, em simplesmente obedecer, quando não concordo com alguma coisa. Isto me torna uma pessoa nada confiável. Canalha. Perigosa.
Não vou fazer chantagem emocional aqui, dizendo que estou certo. O ser humano é um animal obediente, e não um animal político. Não nutro confiança que o ser humano, em seu humanismo construído por séculos, saia desta condição por decreto. “A partir desta data, é permitido a todos o uso de seu próprio entendimento. Todas as disposições em contrário estão revogadas”. Não creio nisto.
Tenho complexo de Aquiles: acho que é preciso ser corajoso e ter sua própria opinião das coisas, mesmo que seja necessário, para isso, enfrentar as enormes muralhas dos pequenos grupos. Grande tragédia. Esqueci de ler a Ilíada a tempo de saber que Aquiles tem uma vida muito curta. Pela sua impertinência. Não adianta ser herói. As graças não serão recebidas, nem em vida, nem após a morte, nem nunca. Os que serão lembrados são aqueles que, pacientemente e com um grande sacrifício, obedeceram até chegar o momento de depender dos outros. Só os chefes são lembrados. Minha vaidade de herói perdido é simplesmente hilária. Não consigo sequer fazer com que as pessoas não me olhem de soslaio. Mas elas olham de soslaio, viram as costas, em sinal de luto. “Para mim, você morreu.” Isto é um grande peso para mim, pois não consigo ser covarde e escravo. Acho que devo ter ouvido e visto muitos contos de fada na minha infância. Não consigo ter a velha e boa hipocrisia, própria da nossa boa e velha civilização, para simplesmente ser mais um no grupo. Portas fechadas, meu caro. Mas esta é a minha tragédia. Não a desejo para ninguém. Ter este tipo de postura não me torna ninguém melhor do que os outros; não tenho ego para isto.
Sou apenas uma pessoa nada confiável.
Um verdadeiro canalha, que os outros olham de soslaio.

4/16/2009

Sobre um grafite metafísico (pra desdizer o que eu disse abaixo, Daniel)

Lendo o relato sobre um
que escrevia fora
de seu tempo,
a alma é o cu de existir
nesta porra que chamamos vida.
Por ela passam fezes - as emoções.
Uma ou outra
suja suas bordas quando lhe atravessa.
Às vezes o Amor quer lhe invadir,
a todo custo,
e é sempre um estupro –
a dor é certa,
mesmo se houver prazer
na perversão
”,
percebeu que ele gastara quase meio século
mais seis anos do seguinte
pra escrever esta metáfora
gasta, idiota e portuguesa.

Melhor seria tomar o todo pela parte?
Ou é impossível encontrar de novo
o endereço da arte?

4/15/2009

4/12/2009

Domingo

Todo domingo tem no céu do entardecer um envoltório fúnebre, próprio do dia do descanso. O silêncio religioso do domingo é um convite ao solitário pensar sobre a vida. Saudades do tempo em que vivemos, do tempo em que não vivemos, o cálculo das idas, das vindas, das reviravoltas, do tempo em que ficamos simplesmente estagnados. Os entendimentos, os desentendimentos, as pessoas que conheci, as que não me cumprimentam mais, as que se foram e jamais voltarão.
As outras pessoas, fora do meu domingo solitário e fúnebre de lembranças, sobrevivem ao domingo pensando no dia de amanhã.

4/11/2009

Aventura no Procon de Cuberlândia



1.
Um Daniel sem fé
Pra enfrentar os leões
Do telemarketing, amestrados
Por administradores leões
Sem rosto, sem resposta. Aqui
Ninguém manda, mas todos
Se fodem.


2.
São garras invisíveis, mas
Finas e pentrantes como agulhas
Navegando por fios - Leviatã elétrico:
Quem vai responder por isso? Qual
Das três potências,
Os mafiosos do grupo lcr,
Especializados em extorsão extra-
Judicial? A “nossa” caixa de Pandora
E sua ouvidoria esperta
Como Ninguém, de ouvidos tapados
Com cera digital? A mastercard
Mestre dos Cartões, para os íntimos, masturbocard
O leão que bate uma punheta
Quando te vê se cagando
Na câmera oculta, sorria?



3.
Enfim o fato é que entre idas
E vindas viemos parar em mais
Outro porão habitado por sibilas
Sinuosas, comedoras de macarrão instantâneo,
Eu e você, minha senhora,
Me esqueci de perguntar o seu nome.
A senhora, ao contrário dos outros
Fodidos como nós, não acha graça
No programa escolhido a dedo
Por mais algum destes leões ocultos:

Na TV dois encanadores
Carregam tubos enormes de pvc
E propositalmente dão pancadas
Nas pessoas da rua. Depois
Uma secretária recém-contratada
Descobre que o chefe é um estuprador
Fugido do hospício (o estuprador
Foge do hospício e se traveste
De chefe, é sempre a mesma
História).
Mas no final todos se divertem.


4.
Pois é, a senhora não leu
Montaigne sobre a diversão
Um ensaio sobre a tática
Militar do desvio
De atenção, mas, como me diz,
Aprendeu tudo na vida
Que vale mais que todos
Os livros. E ainda por cima
Me explica que história
É polêmica pela natureza
Da própria palavra que diz
Eu conto, você conta
Uma história (de passagem
Fez um comentário sobre
O lado bíblico do meu nome,
Só acho que tenho mais
A ver com o sonho
Do gigante de pés de barro
Do que com a coragem da fé).

Mas o que dizer, minha
Senhora, isso eu não te perguntei
Devia ter feito, se o Proconsule
A masturbocard, a nossa caixa de Pandora
E a máfia lcr são o que sobrou da vida?
Que história pode
Ser contada por um homem
Sem fé?

4/10/2009

nestas mal traçadas




Nas longas cartas, tantas, sem motivo
(se é que cartas precisam de razão),
tentei em vão mapear o coração
pra que você viesse sem aviso
e sem se desculpar: a casa é sua,
mesmo que eu esteja ausente ou até perdido
por tantos descaminhos do sentido.
É sempre assim, a vida continua
a não nos prover mais dos seus motivos,
e a gente anda às tontas, de improviso,
pagando mais pecados que devia
– tarifas de que você anda farta.
Bem, isto é na verdade uma outra carta
que devo lhe escrever em qualquer dia.
(do livro "Circunstância".)

4/07/2009

Da série Amérika. Resenha de Significado da Fronteira na Vida Americana (uma ode de F. Turner)

Contra o deserto, o intocado, o incivil, o indomesticado, o índio


Amérika, vai nascendo de dentro de si mesma e cada traficante de peles e bonecos plásticos


é um guerreiro de sua causa quando faz um mergulho impetuoso na fonte esquecida, na mistura de sangue, seiva e terra que jaz encoberta pelas máscaras e pisos de mármore da Europa decadente e cada avanço é um retrocesso, uma descida ao inferno, um retorno ao tempo pulsante da animalidade, um reencontro com tudo o que a humanidade abandonou a duras penas, palmatórias e livros de etiqueta e como se injetasse um feto macerado na veia o nobre europeu se indianiza se indomestica se cavaliza se mistura ao ambiente se converte em verme se mineraliza e ganha a vida novamente e se refaz como seiva, sangue, esperma e o organismo renasce, mais complexo e viril, armado, os iroqueses experimentarão a fúria renovada e desse parto a fórceps no deserto, na hostilidade, emerge o heróico homem comum de veias interligadas aos seus rios, o coração na forma de seu mapa, sempre em expansão e nos olhos deste homem que aceitou encarar o Anjo Exterminador e em tudo o mais ele nada é além de você mesma


Amérika.

Sobre os chupchups, sacolés, lambelambes e laranginhas

Pensar sobre
Pensar simplesmente?

Pensar sobre o nada
Pesar sobre o nada e o silêncio

Viver o nada e o silêncio é outra coisa?
outra vida? ou outra história?

Vozes do silêncio
Linguagens do silêncio
do mal no bem
e do bem no mal
Para além do bem e do mal?

Em busca da moralidade
zoorastricamente perdida?

De quantas couves
e quantas flores
são feitas um homens: individuns endividados!

Estou em busca de uma nova religiosidade: entre um misticismo sem Deus e
um misticismo agnóstico: novas apostas, novas partidas
sem a casa partida?

Parto para viagens em busca de alçar vôo em meu navegar
vageado e, sobretudo, vagabundeando em meus eternos roubos

regiliogidade imaginária e imaginada: devaneios sobre o Real indizível
mas nem por isso invivido
na poesia do ser sendo, no cotidiano e no vôo dos tucanos
(o que busca um tucano em seu soberbo vôo no vale)

Vale tudo mesmo?

mística imaginada e desejada
fatástico lugar
onde o ateísmo seja uma crença
e as religiões uma descrença

em busca das verdades cindidas do real, fraturado e estriado
O Real tem celulite, deve ser que chove Coca-Cola

em busca do invísivel idisível da experiência do que aí pode não estar e estar
o viver e o morer tem prazes vivos e belos: recolocam mistérios e prazeres do Tempo
O tempo chora e ri?

Enfim, em busca do instante extraordinário.
Ou melhor, de cada instante extra-ordinário.
Extraordinário e oscilante, talvez até reconciliante?
Reconhecimento consciente e inconsciente da casa sem dono
Começarei minha navegação pelo porão: entre Aion e Chronos

São crónicas de um ser em busca da unidade dos indivíduos
Crônicas da morte vivida
Crônicas que anunciam a promessa do instante tateante
Há peixes que mergulham, há peixes das profundezas
e há peixes da superfície

Há ainda a baleia branca

Há homens que não se despertam
Há aqueles que saltam dos precipícios cotidianos, instantaneos
Outros buscam tesouros (ou esperam na esperança de encontrar)

De uma subjetividade de delírios profundos e superficiais
Para uma objetividade do semelhante em constante dívida e prece pecadora
Gostaria de matar a subjetividade capitalista e a cultura capitalistica: o que haverá depois disso?
Já existe? Já existiu? Ou está a nossa espera?

Mares, mortes e maremotos: a viagem prossegue agora em mares desconhecidos
Domesticando a mim mesmo em busca da pós-história, da pós-cultura
Gostaria de esperimentar por instantes o saber da liberdade interna e externa: contra as escravidões navego e sou navegado

A espera de uma nave espacial?
Enquanto espero surge a expectativa no horizonte de fulga de mergulhar
na liberdade do instante
mergulhar nas palavras ocas ainda a espera de sentidos
na beleza poética da existência da vida e das palavras

Na dúvida da dádiva do dom: me retiro

4/05/2009

Sobre ela

desenho de Franz Kafka, sem permissão do autor....



Uma voz me procura sonho adentro,
vida adentro, não sei se é este o lado
ou o outro, em que me venho só e ardendo
e não me chego cedo nem me tardo:
vivia de impresságios afogado,
no pendular das noites e dos dias
e da inconcreta espuma em que me vazo,
sonante espuma, flutuante e fria,
nasce mais um silêncio estarrecido,
crespo silêncio, todo ruga e gelo
- congela os olhos, sangue, boca, pelo.
Manchada a pele embaixo do tecido,
a voz me chega do buraco fundo:
a palavra é a véspera do mundo.