4/26/2009

Sentenças e Máximas de Oito-Olhos)

Em parceria com Álogos. Além de outros parceiros, muitos, estes involuntários. O bigode é a sinédoque do pessoal, pra manter o lance professoral... Fora isso, nada aqui é inventado. E aí, e isso falo só por mim, isso tudo me lembra a segunda melhor música do Raulzito. Falem mal, mas (ah sei lá, foda-se quem fala mal!). Meu amigo, Pedro. A tragédia está entre ser Raulzito e o Amigo Pedro. Não sei também se dá pra chamar isso de tragédia.


Como um raio que cai em sua cabeça ou como um bacharel doutor proletário cult praticando a massagem linguopedal nos camelos do deserto você de uma hora pra outra se vê num auditório repleto de outros tantos como você. Você se acha especial mas um dia as máscaras caem e o que se revela sob seu rosto é a mesma massa mole de modelar. Ainda mais depois do aviso de Oito-Olhos: “sorte não existe, sorte é destino, azar o seu o que existe é derrota ou vitória”.
E como Oito-Olhos vai subindo a escada lateral do auditório como se o piso fosse feito de línguas úmidas massageando seus imensos e deformados e chulepentos e magníficos pés! E como ele se agarra ao microfone como se fosse uma tábua de salvação, prêmios aos homens que se vestem de mulher na hora do naufrágio pra furar a fila do estágio probatório da morte que os espera logo ali, entre os fios do microfone.
Mas, ei, os fios do microfone não são línguas umidificando seus ouvidos, a hora da foda é pra ser desagradável, outro aviso de Oito-Olhos, não deve ser contabilizada no item férias, passeios e cagadas agradáveis. Enfim, eis as sentenças de Oito-Olhos:

1. O plural de anfitrião é anfitriões. Mesmo assim fico feliz ao ver que esse auditório está lotado (de panacas).
2. Eu confecciono diplomas de Seres Humanos Completos aos subalternos que concluem a jornada.
3. Toda comissão permanente tem atribuições específicas.
4. Todo A será inevitavelmente igual a outro A, mas as siglas, como os vizinhos, não merecem confiança. UFO, por exemplo. Exemplo hipotético.
5. O Ricardo é um santo e se você tiver sorte um raio não cairá sobre sua cabeça.
6. O pagamento: ôba!
7. A Diretoria dos Portadores de Dependência Química.
8. Queria usar uma camisa de forças.
9. 20 minutos é pouco tempo quando o tema é a falta de assunto. (Enquanto fala isso, Oito-Olhos dá uma coçada no cu).
10. Esta cidade está crescendo desesperadamente.
11. Sempre sorrir e abolir a palavra “não”.
12. No que concerne ao meu coração, estou recebendo vocês na minha cozinha.
13. Recuperar a auto-estima sem dinheiro, só com o calor humano.
14. Pluralidade de idéias – mas com a obrigação da Idéia Única. O Todo. O consenso que leva ao maior consenso.
15. A Instituição foi pensada para a Eternidade. Foi pensada nisto. Mas cada um precisa de uma mesa. Cada um de nós é todos nós. E mesa é muito complicado: é uma construção civil.
16. Muito pouca gente entende isso.
17. Órgão de apoio é tudo apoio.
18. O poder é construído pelo Trono do Poder: a Caneta! A tarefa do Vice Poder é impedir o impedimento do Poder.
19. Nada de briga. Tudo tem que ser no intelectual.
20. Arroto, a nível de interação.
21. O orgulho é o objetivo da Empulhação Definitiva. Com 40% de Ética você será vitorioso na carreira.
22. O pagamento: oba!
23. Eu não conheço direito os meus amigos. Nós formamos um time.
24. As redes astronômica é a responsável pelo acontecer do ensino.
25. Eu tirei o bigode pra criar novos ares, mas isso dificulta o meu discurso.
26. Planejamento é o ato de planejar & uma coisa é comprar outra é guardar.
27. Acabou a moleza.
28. O pagamento: oba!
29. Já fui um incendiário de calça de boca de sino. Meus amigos enriqueciam costurando dentes de madames enquanto eu me matava de estudar. Agora estou aqui, sou o Poder. Tenho o previlégio de discursar.
30. De onde saíram os ETs desta mesa?
31. Terra cheia de confritos (mistura dialética de conflitos e ovos fritos).
32. A capacidade de catalisar pessoas para trabalhar nessa bandeira.
33. O amor própio é o ópio do povo.
34. O problema do atestado fajuto.
35. O pagamento: oba!
36. Vocês continuarão aqui pelo menos até 2400.
37. O era é experiência para fazer melhor. O sonho que esperamos torná-lo realidade.
38. Rejuvelhecer.
39. O Poder é estúpido, mas faz cara de paisagem.
40. A competição é te valorizar.
41. O Brasil é uma República, mas o Acre não conta.
42. Você não pode se casar com a sua irmã.
43. Um dia a máscara cai. Direita Administrativa: Direito Administrativo.
44. A polícia federal está aqui, graças a Deus.
45. LIMPE.
46. O caminho errado não vai dar em nada.
47. O pagamento: oba!
48. Na dúvida sempre pergunte: é simples assim?
49. Eu estou com vontade de chorar.
50. Vamos parar de inventar, por favor.
51. 40% de Ética é suficiente: escolha os itens que não desagradem a Chefia.
52. Capacitar para fortalecer a hierarquia.
53. Ninguém pode mudar o Sistema. Somos meros informantes.
51. Quanto tempo falta?
52. O negrito é uma filosofia de gestão.
53. O próprio formulário vai exigir isto de vocês.
54. É preciso olhar para frente, e não pelo retrovisor (para que não possamos olhar para o próprio rabo).
55. Nós temos que pagar por esta tranqüilidade.
56. Quanto tempo falta?
57. Minhas ações não condizem com o que eu faço.
58. Mulher normal não reclama do marido, mas interpretar não faz mal a ninguém.
59. O que não está na lei, não está no mundo; mas precisamos organizar o que está por trás.
60. Quanto tempo falta?
61. Não é permitido ter simpatias, antipatias, caprichos...
62. O pagamento: oba!
63. A pessoa jurídica não é palpável internamente.
64. Quanto tempo falta?
65. O pagamento: oba!
66. Quanto tempo falta?
67. Acabou!
68. LIMPE!

P.S.(69): Sempre dá para organizar tudo!

4/16/2009

Sobre um grafite metafísico (pra desdizer o que eu disse abaixo, Daniel)

Lendo o relato sobre um
que escrevia fora
de seu tempo,
a alma é o cu de existir
nesta porra que chamamos vida.
Por ela passam fezes - as emoções.
Uma ou outra
suja suas bordas quando lhe atravessa.
Às vezes o Amor quer lhe invadir,
a todo custo,
e é sempre um estupro –
a dor é certa,
mesmo se houver prazer
na perversão
”,
percebeu que ele gastara quase meio século
mais seis anos do seguinte
pra escrever esta metáfora
gasta, idiota e portuguesa.

Melhor seria tomar o todo pela parte?
Ou é impossível encontrar de novo
o endereço da arte?

4/15/2009

Sem título

Coriza de buceta
Cu lacrimejante

Caga pelos olhos
Peida pelo nariz
Tem corrimento na língua

4/11/2009

Aventura no Procon de Cuberlândia



1.
Um Daniel sem fé
Pra enfrentar os leões
Do telemarketing, amestrados
Por administradores leões
Sem rosto, sem resposta. Aqui
Ninguém manda, mas todos
Se fodem.


2.
São garras invisíveis, mas
Finas e pentrantes como agulhas
Navegando por fios - Leviatã elétrico:
Quem vai responder por isso? Qual
Das três potências,
Os mafiosos do grupo lcr,
Especializados em extorsão extra-
Judicial? A “nossa” caixa de Pandora
E sua ouvidoria esperta
Como Ninguém, de ouvidos tapados
Com cera digital? A mastercard
Mestre dos Cartões, para os íntimos, masturbocard
O leão que bate uma punheta
Quando te vê se cagando
Na câmera oculta, sorria?



3.
Enfim o fato é que entre idas
E vindas viemos parar em mais
Outro porão habitado por sibilas
Sinuosas, comedoras de macarrão instantâneo,
Eu e você, minha senhora,
Me esqueci de perguntar o seu nome.
A senhora, ao contrário dos outros
Fodidos como nós, não acha graça
No programa escolhido a dedo
Por mais algum destes leões ocultos:

Na TV dois encanadores
Carregam tubos enormes de pvc
E propositalmente dão pancadas
Nas pessoas da rua. Depois
Uma secretária recém-contratada
Descobre que o chefe é um estuprador
Fugido do hospício (o estuprador
Foge do hospício e se traveste
De chefe, é sempre a mesma
História).
Mas no final todos se divertem.


4.
Pois é, a senhora não leu
Montaigne sobre a diversão
Um ensaio sobre a tática
Militar do desvio
De atenção, mas, como me diz,
Aprendeu tudo na vida
Que vale mais que todos
Os livros. E ainda por cima
Me explica que história
É polêmica pela natureza
Da própria palavra que diz
Eu conto, você conta
Uma história (de passagem
Fez um comentário sobre
O lado bíblico do meu nome,
Só acho que tenho mais
A ver com o sonho
Do gigante de pés de barro
Do que com a coragem da fé).

Mas o que dizer, minha
Senhora, isso eu não te perguntei
Devia ter feito, se o Proconsule
A masturbocard, a nossa caixa de Pandora
E a máfia lcr são o que sobrou da vida?
Que história pode
Ser contada por um homem
Sem fé?

4/10/2009

nestas mal traçadas




Nas longas cartas, tantas, sem motivo
(se é que cartas precisam de razão),
tentei em vão mapear o coração
pra que você viesse sem aviso
e sem se desculpar: a casa é sua,
mesmo que eu esteja ausente ou até perdido
por tantos descaminhos do sentido.
É sempre assim, a vida continua
a não nos prover mais dos seus motivos,
e a gente anda às tontas, de improviso,
pagando mais pecados que devia
– tarifas de que você anda farta.
Bem, isto é na verdade uma outra carta
que devo lhe escrever em qualquer dia.
(do livro "Circunstância".)

4/07/2009

Da série Amérika. Resenha de Significado da Fronteira na Vida Americana (uma ode de F. Turner)

Contra o deserto, o intocado, o incivil, o indomesticado, o índio


Amérika, vai nascendo de dentro de si mesma e cada traficante de peles e bonecos plásticos


é um guerreiro de sua causa quando faz um mergulho impetuoso na fonte esquecida, na mistura de sangue, seiva e terra que jaz encoberta pelas máscaras e pisos de mármore da Europa decadente e cada avanço é um retrocesso, uma descida ao inferno, um retorno ao tempo pulsante da animalidade, um reencontro com tudo o que a humanidade abandonou a duras penas, palmatórias e livros de etiqueta e como se injetasse um feto macerado na veia o nobre europeu se indianiza se indomestica se cavaliza se mistura ao ambiente se converte em verme se mineraliza e ganha a vida novamente e se refaz como seiva, sangue, esperma e o organismo renasce, mais complexo e viril, armado, os iroqueses experimentarão a fúria renovada e desse parto a fórceps no deserto, na hostilidade, emerge o heróico homem comum de veias interligadas aos seus rios, o coração na forma de seu mapa, sempre em expansão e nos olhos deste homem que aceitou encarar o Anjo Exterminador e em tudo o mais ele nada é além de você mesma


Amérika.

Sobre os chupchups, sacolés, lambelambes e laranginhas

Pensar sobre
Pensar simplesmente?

Pensar sobre o nada
Pesar sobre o nada e o silêncio

Viver o nada e o silêncio é outra coisa?
outra vida? ou outra história?

Vozes do silêncio
Linguagens do silêncio
do mal no bem
e do bem no mal
Para além do bem e do mal?

Em busca da moralidade
zoorastricamente perdida?

De quantas couves
e quantas flores
são feitas um homens: individuns endividados!

Estou em busca de uma nova religiosidade: entre um misticismo sem Deus e
um misticismo agnóstico: novas apostas, novas partidas
sem a casa partida?

Parto para viagens em busca de alçar vôo em meu navegar
vageado e, sobretudo, vagabundeando em meus eternos roubos

regiliogidade imaginária e imaginada: devaneios sobre o Real indizível
mas nem por isso invivido
na poesia do ser sendo, no cotidiano e no vôo dos tucanos
(o que busca um tucano em seu soberbo vôo no vale)

Vale tudo mesmo?

mística imaginada e desejada
fatástico lugar
onde o ateísmo seja uma crença
e as religiões uma descrença

em busca das verdades cindidas do real, fraturado e estriado
O Real tem celulite, deve ser que chove Coca-Cola

em busca do invísivel idisível da experiência do que aí pode não estar e estar
o viver e o morer tem prazes vivos e belos: recolocam mistérios e prazeres do Tempo
O tempo chora e ri?

Enfim, em busca do instante extraordinário.
Ou melhor, de cada instante extra-ordinário.
Extraordinário e oscilante, talvez até reconciliante?
Reconhecimento consciente e inconsciente da casa sem dono
Começarei minha navegação pelo porão: entre Aion e Chronos

São crónicas de um ser em busca da unidade dos indivíduos
Crônicas da morte vivida
Crônicas que anunciam a promessa do instante tateante
Há peixes que mergulham, há peixes das profundezas
e há peixes da superfície

Há ainda a baleia branca

Há homens que não se despertam
Há aqueles que saltam dos precipícios cotidianos, instantaneos
Outros buscam tesouros (ou esperam na esperança de encontrar)

De uma subjetividade de delírios profundos e superficiais
Para uma objetividade do semelhante em constante dívida e prece pecadora
Gostaria de matar a subjetividade capitalista e a cultura capitalistica: o que haverá depois disso?
Já existe? Já existiu? Ou está a nossa espera?

Mares, mortes e maremotos: a viagem prossegue agora em mares desconhecidos
Domesticando a mim mesmo em busca da pós-história, da pós-cultura
Gostaria de esperimentar por instantes o saber da liberdade interna e externa: contra as escravidões navego e sou navegado

A espera de uma nave espacial?
Enquanto espero surge a expectativa no horizonte de fulga de mergulhar
na liberdade do instante
mergulhar nas palavras ocas ainda a espera de sentidos
na beleza poética da existência da vida e das palavras

Na dúvida da dádiva do dom: me retiro

4/05/2009

Sobre ela

desenho de Franz Kafka, sem permissão do autor....



Uma voz me procura sonho adentro,
vida adentro, não sei se é este o lado
ou o outro, em que me venho só e ardendo
e não me chego cedo nem me tardo:
vivia de impresságios afogado,
no pendular das noites e dos dias
e da inconcreta espuma em que me vazo,
sonante espuma, flutuante e fria,
nasce mais um silêncio estarrecido,
crespo silêncio, todo ruga e gelo
- congela os olhos, sangue, boca, pelo.
Manchada a pele embaixo do tecido,
a voz me chega do buraco fundo:
a palavra é a véspera do mundo.