1/28/2010

Espera

Em uma ilha deserta, nada posso fazer senão esperar. Nada mais reconfortante do que saber que nada poderá ser feito até a hora certa. Um mês, duas semanas, uma semana, dois dias, um dia, uma noite – ainda que mal-dormida – duas horas, uma hora, um minuto. Nada posso fazer para acelerar o mundo. Se eu conseguisse criar uma ilha deserta a cada vez que precisasse esperar por algo inelutável...
Acordo de meu sonho acordado, na sala de espera do médico, aguardando há mais de meia hora pela consulta, com a certeza absoluta que ele nada tem para fazer.

My dear félas

Com medo pelas beiradas
O anônimo das tuas
Obras literárias, uma vida a mais, uma vida a menos
Uma obra a mais uma vida a menos duas vidas
A menos uma obra
Uma ova.

Precisar de um bode expiatório
É uma fuga, a arte da perda ao menos
Pode ser escrita, as coisas trazem
Um vácuo por dentro que nos destina
Às perdas. O poeta não
Perdoa mais.

E daí se o livro é uma merda?
Adia-se a aposentadoria, é-se a mentira
De si mesmo, um dia a mais um dia a menos
Pelo menos.

1/24/2010

Em continuação à doença do eu, com requintes filosóficos de crueldade para um domingo

“Meu filho, o mundo não para de girar.” (Stallone, em “Falcão”)

“O que você chama de inferno, ele chama de lar.” (Sobre as qualidades de Rambo, em Rambo II)

O importante na vida é passar na frente nas filas, sabotar o trânsito, ter o seu prato servido primeiro, comprar o carro e pagar apenas as três primeiras prestações, colar nas provas e plagiar os trabalhos (estudar é coisa para otários), enganar na conta (nem que seja em cinco centavos), fazer piadas com todo mundo o tempo todo (preciso ser engraçado para que vejam minha felicidade em viver), usar o próprio pau como instrumento de seleção no lugar de trabalho (preciso escolher minhas putas de ocasião e mijar em meus subalternos).
Enquanto chamo o resto do mundo de terrorista, com muito Jesus no meu coração, coloco o adesivo de Nossa Senhora e o engate do reboque inexistente na traseira do carro (preciso reafirmar o conceito individualista e capitalista de cu). Abençoe as famílias, Amém! Mas abençoa só a minha, a dos outros que se foda! Terapia, só se for para o descarrego da safadeza dos políticos e dos estupradores. Quem é perfeito e temente a Deus, não precisa dessas bichices...

Terapeuta Abjeção

"Você é a doença, eu sou a cura." (Stallone Cobra).




ESTAMOS AQUI PRA MELHORAR SEU AUTO-ESTIGMA, VOU TE CURAR DA MINHA DOENÇA ESPALHANDO UMA EPIDEMIA, DA MESMA FORMA QUE SUA MÃE COLOCAVA LODO NA MAMADEIRA, O MUNDO VAI SE CURAR DE VOCÊ, O MUNDO É UM FOSSO ONDE FORAM JOGADOS OS DEUSES MORTOS DA MITOLOGIA ANTIGA, ASSASSINADOS PELA OBSESSÃO FAMILIAR DO TERAPEUTA ABJEÇÃO, O PRÓPRIO DEUS É NEVROPATA E O MESMO PSICÓLOGO QUE VAI AOS PROGRAMAS DE TV COMENTAR A ABERRAÇÃO DO ALCOOLISMO DO SUICÍDIO E DAS MÁQUINAS VICIANTES DE BINGO ESFREGA OS OLHOS E JOGA SUA BABA VERDE SOBRE A SOBRINHA DE 15 ANOS NOS CHURRASCOS ONDE O QUE SE COME É PICANHA COM SABOTAGENS TRIANGULARES EDIPIANAS, A PRÓPRIA NATUREZA É PERDULÁRIA, CLEPTOMANÍACA E SOFRE COM DELÍRIOS DE PERSEGUIÇÃO, O IMPÉRIO DOS PSIQUIATRAS É UM BURACO NEGRO QUE SUGA A LUZ À SUA VOLTA E SOLTA DIAGNÓSTICOS, A LUZ ESTÁ DOENTE, O CÉU É UM INSULTO, TODO DIAGNÓSTICO É UM INSULTO, SE VOCÊ NÃO ENTENDE A ALEGRIA DA BOSSA NOVA, EU PODERIA DIZER EU SOU NAPOLEÃO BONAPARTE, TENHO UM COMPLEXO DE MAX WEBER, EU É UM MONOSSÍLABO, EU SOMOS UM ANIMAL GREGÁRIO COMO AS RATAZANAS QUE DEVORAM OS INIMIGOS RECONHECIDOS PELO CHEIRO ALHEIO, EU SOU UM ANFÍBIO DE MONDRAGON, EU FINALMENTE É UMA DOENÇA INCURÁVEL.

1/13/2010

Ensaio sobre a cegueira? (reedição aumentada)

1. A hipocrisia é o sustentáculo das famílias felizes e das democracias/ditaduras bem-sucedidas. Falar aquilo que todos vêem é crime.

2. A visão é o sentido mais seletivo que possuímos. Quando não queremos ver algo ou alguém que não nos agrada, conseguimos nos tornar, instantaneamente, cegos.

3. Ver não é saber. Se o olhar fosse o único acesso ao conhecimento, não precisaríamos criar nada com as mãos.

4. Os cegos conhecem coisas que são inacessíveis aos que vêem.

1/12/2010

Os sapos do Manicomio de Mondragon (poema de Leopoldo M Panero)

1.
Ausentes de um plano, os sapos
existem sem objeto.
O sol quente da manhã os envolve,
o vento os acaricia suavemente.
Como a vida da árvore
ou do vento,
assim é a vida do sapo
sem objeto.

2.
Não procure olhos no sapo,
não os tem.
Não procure orelhas
que não tem.
Pra que serve a boca
não sabe.

3.
Um sapo é um círculo, um sol virado pra dentro.
Caminha como os bois – lento como o tempo.
Não há céu que não se vire
de costas quando ele volta
para cima o seu olhar.

4.
Os sapos do Norte
vêm buscar os do Sul.
Encontram o mesmo rosto
e a mesma baba azul.


5.
Não falam dos sapos os homens
que vivem na cidade.
Refugiam-se em suas casas
quando os ouvem passar.

6.
Como um gerânio apodrece
os sapos vivem suas vidas.
Escutam passar as moscas
espantam-nas quando podem.
Como aos corvos a noite
Lhes é sempre favorável.

7.
Têm medo de crianças
e aves, os sapos.
Uma cor pode matá-los
acostumados ao negro.

8.
Surge a aurora no céu,
o sol se esconde atrás dos montes.
Como o passo do sapo
pelos bosques.

9.
Os sapos e as cobras
levantam a pedra e saem
quando o dia escurece
e chove fogo do céu.

10.
São irmãos dos abutres,
assemelham-se a corvos,
conversam com serpentes,
e emudecem
diante de um pássaro preto.

11.
Não têm fé no futuro
os sapos como as aves.
Caminham sobre túmulos
deixando neles suas babas.

12.
Em dias de lua cheia
o sapo se esconde nos bosques.
Quando amanhece, a aurora
o persegue pelos montes.

13.
O jasmim invade os campos
enquanto o sapo se arrasta
com uma espinha no flanco.

14.
Os sapos não têm nome
Quando morrem no monte.

1/04/2010

Em Salvador com Leopoldo Maria Panero



A luz filtrada pelas nuvens é ainda mais avessa aos olhos – a criança grita como se a certidão de nascimento estivesse em jogo e as nuvens fossem a porra de seu pai – édipo destronado – jesus vai se enforcar com a corda de um violão – os pescadores esculpiram a sereia com dendê, fezes e esperma – o segredo da espuma – o mar verde cor de detergente – crianças brincam na espuma, bolhas de sabão, porra e limpol, para os pais apenas o choque natural entre sal e água – o mar da história é felicidade de espuma – o medo é ar parado, pesado de salitre, verde onde os escravos nunca estiveram – são francisco come os pássaros e mergulha no ouro – onde os escravos nunca estiveram, como a espuma da história, a lenda germina e cria um vazio de lodo, um colchão de ar que sustenta o comércio – os paralelepípedos são de sangue coagulado – o coração vivo do oligarca dorme na estátua erigida com esperma de seus descendentes, eles se espalharam pelo estado e são donos de pousadas, contrabandistas, escroques e estupram Mnemosine – Mnemosine é uma cachorra, uma puta que proclama lições de moral em frente ao mar.