12/29/2007

A madeira e a memória

1.

Engraçado como objetos de madeira
retêm a memória.
Coisas de plástico, por sua vez,
não têm calor nem profundidade,
vivem num presente opaco e vazio
coisas de plástico deviam se chamar esquecimento.

- Mas felizmente meu passado é de madeira.


Vejo o porta-recados feito por meu avô
por exemplo

(ele que só fazia objetos claros e úteis,
nada de gracioso pra espantar otários
ou de encantador pra seduzir espantalhos).

Ele se foi, meu avô,
mas na madeira rígida e funcional
percebo seu olhar severo
suas mãos duras, de artesão.

A madeira preserva a memória de uma lucidez
que não está mais entre nós.

E sei que mesmo depois que minhas mãos,
que tocaram aquelas mãos nem tão duras assim,
também se consumirem,
os objetos de madeira permanecerão,
como testemunho de alguém
que os pensou, projetou, prensou,
doando-se ao mundo em coisas úteis e duráveis, de madeira.

Somente em seu leito de morte
descobri que meu avô sonhava com barcos
que para além de seus traços rígidos de artesão
meu avô também dormia no mesmo leito de rio
no mesmo entreato de sonho e vigília
em que seu neto vivia.


2.

Meu avô
à beira da morte
estava à beira de um rio

- o Araguaia –

Quando morria, meu avô
via no quarto um aguaceiro só
e me avisava:

“na pescaria noturna
não esqueça o farol
que meu barco
só se tranca por fora
e só se abre por dentro ”

Depois disso
as margens se apagaram
na escuridão líquida e viva.


3.

Hoje, vejo na madeira um pensamento maduro.
quando a toco sinto um resto de calor
que ela reteve,

o que me leva a uma conversa com o porta-recados,
sobre memória:

Presta atenção, madeira,
meu tataravô era um saltimbanco
um cigano, um andarilho
no vasto Império Austro-Húngaro
num distante século XIX.
Dono de um teatro brincante
usava trapos coloridos
e um anel de guizos.

Meu trisavô não quis manter
a tradição da família
e por isso partiu
como um judeu errante
pra longínqua América do Sul.

Meu avô perfez a segunda negação
ao não deixar às suas filhas
o nome do velho saltimbanco Tomanick
ficando um pouco mais distante
do Império, já extinto,
adotando pra família o sul-americano Barbosa,
de caçadores de índios.

Mas o que ele sabia e não sabia
(sabia pelo que de si fazia
e não sabia pelo que esquecera)
era a sina de saltimbanco e andarilho.

- Você está me ouvindo, madeira?

Isto porque, primeiro, meu avô foi criança prodígio,
pianista em meio à prataria,
depois, guarda da fronteira
no longínquo Paraguai,
ainda trabalhou em ferrovias
teve uma ou duas sorveterias
(e as crianças de então,
adultos de hoje,
nunca tinham visto sorvetes coloridos).
Contador, administrador e pescador
nas águas turvas do Araguaia,
vivendo em mais de cem cidades
percorrendo o centro vertiginoso
da América do Sul
e teve tempo pra fazer papel de rude saltimbanco
numa curta passagem como ator de circo.

Agora, penso que eu talvez seja a terceira negação:
em frente a esta tela colorida
pensando numa Hungria que vi no cinema
numa América do Sul dos livros de história e poesia
sem saber desta história

onde a verdade começa, onde termina a mentira.


12/22/2007

natal, natal, natal.....(sem o velhinho fdp)


Este cartooon é de uma amiga, a Clara Gomes, e achei que tinha tudo a ver com o blog (espero que nossos 4,5 leitores curtam também).

o blog dela é bichinhosdejardim.blogspot.com

vale a visita!!!!!


Novo Pequeno Dicionário das Aproximações

Elite (s.f.)
Grupo de pessoas que gosta da sensação de exclusividade e cuja idéia principal é não compartilhar com outrem. O tamanho destes grupos é sempre variável e proporcionalmente pequeno em relação aos outros, cujas aglomerações são conhecidas como hordas, e em geral denominados excluídos ou periféricos. Sim, porque as elites (de qualquer tipo) sempre se julgam habitando um centro. Importante notar que o coração é meio na lateral esquerda, ao contrário de certos orifícios do corpo que ficam bem no centro mesmo, se tomarmos o eixo vertical como parâmetro. Costumam se masturbar uns aos outros, para o quê se utilizam de vários meios, das mãos à arte, passando pelas cintas-liga, lenços de seda e outros meios menos suaves como lixas e luvas de prego, conforme a tara de cada um. Elites às vezes são tão pequenas que podem se resumir a uma só pessoa. Aí o jeito é se masturbar sozinho, o que é melhor do que uma foda mal dada (como sempre a Arte vindo em auxílio à Vida).

Erro (s.m.)
Nome dado, individual ou coletivamente, aos atos ou procedimentos que uma pessoa pratica ao longo de sua vida. Em geral são praticados tendo como alvo o seu oposto, uma entidade metafísica conhecida pelo nome de “acerto” - mas esta parece ter vida apenas lá no céu de Platão. Muitas sociedades se aproveitam de seu aspecto lúdico e o instituem sob a forma de jogos, muito apropriadamente denominados “de azar”.

12/21/2007

Eu não creio em anos novos. Mas que eles existem, existem

eu disse uma
eu disse duas
eu disse três

você não ouviu?
- rio


outra vez

eu disse uma
eu disse duas
eu disse três

nada?


mais uma vez

eu disse uma
eu disse duas
eu disse três

na mesma?
a esmo.



“mesmo duas vezes o devido é belo dizer” (e quem disse isso outrora foi menino,
menina, arbusto, passarinho e, nadando em verde mar, peixe mudo)

12/18/2007

nº 52

(foto de Lipe Russo)


Não é proibido falar mas ninguém fala, tão fácil
mudar uma letra na superfície líquida, agitar
a água, espelho que não reflete
mais coisa alguma em seu mover-se cheio de um arbítrio
silencioso e por isso mesmo
violento.

Só você fica aí parado, fica aí parado
de bobeira, esperando
de uma boca um pouco mais
que não dizer
palavra.
(das "Notas Marginais")

Fazer o quê?

O branco persegue o azul. O branco assassina o azul
e a vista cansada ao
sol de dezembro injetado na veia -

Areia quente e branca nos olhos.

* * *


Mal saio de casa
e a poesia me persegue;
a poesia não cabe
em qualquer teoria, a teoria
persigna a poesia.

* * *

Meu irmão me disse que só sabe que amo porque escrevo. Fazer o quê, prezado leitor?

* * *

Não diante do senso, do Juízo
de Oito-Olhos
basileu desta cidade
esburacada pelas crias
de um buraco-negro

(o Aleph não,

o Aleph é teologia barata e falando nisso não sei porque tanto se diz que o diabo pressupõe a existência de deus. Pode ser que apenas o diabo seja, ou deus esteja

usando silenciador em seu revólver)

* * *

Uma cratera pode se abrir
e te tragar em cada esquina,
há no subsolo de Campinas
uma porção de ampulhetas
sedentas de areia branca.

Fazer o que, prezado leitor?
Calar-se?


Olha olha
O silêncio
cala fundo
cava fendas
cria calos
em tudo o que digo, além disso

não há silêncio &
silenciamento é o que há

o que há é o silenciamento
apenas,

e seus mandamentos
gritantes, por sinal.

* * *

Tudo o que você deixou de dizer virou um carrapato nesta língua
anêmica,
onde a palavra
jaz esquecida

(na ponta da língua)

ou numa tradução
equívoca
de Philip Larkin:
a roda
da vida
é foda
mas se pode
escolher
se outro inocente
vai se foder
com a gente.

* * *

O verbo não se fez carne
para o cala-te boca.

O terminal rodoviário cria musgos pelos desejos perseguidos
e assassinados, enquanto trocamos impressões sobre o clima
alguém jogou uma pedra na janela do 331,
minha linha,
ainda se vê a mancha de sangue onde o menino foi atropelado
que lembra a marca do corpo do jovem que se suicidou aos pés da rádio muda.

e alguém me dizendo mil vezes que no mundo se fala demais.


Um texto de Flávio Amoreira sobre Santiago

‘’ SANTIAGO SEGUNDO JOÃO.’’

‘’Santiago’’ ‘sou eu, mas também é muita gente’.

João Salles, cineasta.


‘’ João Salles é nobre gênio da Alma, feito Ozu filmando Bachelard. Câmera, pincel ou pena : o mestre embaralha gêneros e suportes transfigurando a realidade crua naquilo denominamos Grande Arte. ‘’Santiago’’ é um épico da subjetividade: mais importante documentário brasileiro que tenha assistido; não sou hiperbólico: trata-se de um depoimento filmado que extrapola, excede o meramente registrado: a trajetória contada sem aparatos que não somente a memória e imagética duma existência profundamente sentida e pensada. O entusiasmo é reação ao reducionismo: ‘’Santiago’’ é tudo além daquilo que seria mera estória do mordomo de Walter Moreira Salles ou mimetização miniaturizada da relação ‘patrão’ e ‘criado’ : não é ato circense ou alvo pitoresco para sociólogos ou socialites, trata-se de perfeitamente inacabável experimento formal apartir dum personagem de conteúdo inenarrável. João Salles maturou 15 anos entre feitura e exibição da obra-prima: nesse interlúdio dirigiu contundente retrato da violência urbana (‘’Notícias de uma Guerra Particular’’), acompanhou modo revelador o vitorioso candidato Lula em 2002 (‘’Entreatos’ ) e levou às telas um reticente virtuose do piano (‘’Nelson Freire’’ ); sua marca é zona de sombra, os interstícios, as frestas da imagem, ritmo e sensibilidade: capta o que Walter Benjamin dizia ter-se perdido com a modernidade: o senso de ‘aura’. Santiago Badariotti Merlo é um protagonista de conto borgeano, ‘’Funes, o memorioso’’ discorrendo proustianamente sobre a História humana apartir do mundo detalhadamente encantado seja nos salões da Casa da Gávea ou no claustrofóbico cômodo-locação onde se desencadeia esse ‘making-off’ da existência. Sob a mirada instigante de João, Santiago discorre sobre absurdo da fugacidade, intermitências do coração, as epifanias como resistência ao frágil argumento de finalidade diante da perenitude do vazio ou do nada. Só a fenomenologia poética, a emulação sensorial é capaz de reter o saber que salva do esquecimento. Não há um feixo na revivência, no sonho, no enigma. A tela amplifica literariamente ‘’ santiagogramas’’: apontamentos sobre dinastias persas ou tribos dakotas, reflexões acerca de Dante, Lucrécia Borgia, dum cemitério genovês ou a corte dos Visconti; o monge nefelibata recita Lorca, dramatiza uma fala de Bergman, pontuando digressões gostosamente eruditas ao som de Bach e Beethoven que emolduravam sua Alma refletida em poética veemência, ademanes e Cultura como forma de sobrevivência ante crueza da impermanência: cultivo, não adorno. Intertextual e multicultural: passa das monarquias renascentistas às lendas de Hollywood, não dissocia tons ritualísticos: num flash louva madonas de Rafael noutro enternece com Fred Astaire dançando com Cyd Charise. Quando Santiago tenta expor o que seria mais íntimo, João percebe que toda essencialidade teria sido exposta estando sua ‘diferença’ contida na argúcia de sua intuição. Não resenho, transponho a percepção do impacto: a Grande Arte é essa simbiose entre motivo, expressão e participação do espectador num quadro ou espetáculo que se doa sem síntese: ‘’Santiago’’ ‘é’ João Salles, também sou eu e de qualquer atento, agudo interpretante. O comentário sobre um filme não é antecipá-lo : nem ‘só’ vendo ‘’Santiago’’ se estará identificando o plano metafísico em que se instala um homem rememorando, um diretor poetizando e a montagem tentando dar nexo ao que buscamos cotidianamente: resposta precária que seja ao que vivenciamos. Em época de elites em tropa, ‘enochatos’ e glamourização da burrice, ‘’Santiago’’ é um registro eterno da verdadeira aristocracia, a do espírito : que é de João e seus espelhos: o artista dá vida ao que nomeia quanto mais belo é o efeito ambíguo do que produz.’’


Flávio Viegas Amoreira.

12/16/2007

Comentários ao REDOR de redor


Para Masé Lemos



1. não estudo teoria literária.
não sou crítico literário.
intuitivamente pressinto a poesia.
perplexidade. deslumbramento.
loucura. silêncio.
lógica & matemática profunda.
o que me escapa.

2. sua dicção às vezes me lembra
Sylvia Plath, às vezes Ana Cristina Cesar.
às vezes não me lembra ninguém.
nem você.

3. se as xícaras quebrarem
ainda lembraremos o gosto
do café.

4. quanto ao sentimento
de pertencer.
inventamos o doce hálito.
imaginamos que.
supomos.
cremos.
doce.

5. quem é Tarkos?

6. a mariposa
entrou no ônibus
e derrubou os cadernos
da minha colega. Ela tem
uma cor linda.
(a minha colega)

7. nada tenho
a declarar
Do amor.
estando sem e com.
líquido e incerto.

8. o poeta é um poeta
e mesmo assim
ninguém lembra
dele.

9. já esquecemos
de tudo.
e assim
escrevemos.

10. desolados
o branco
um muro
e depois
mofo e flor

11. aqui vai chover
começo
a olhar janelas

12. e ainda
ao redor
moscas, merda.

13. de todas
as coisas
a única coisa
que importa: palavra
a coisa viva!



12/15/2007

nº 20




Foi um pedaço bruto de carvão, não diamante,
o que sobrou depois de comprimir a dor. Tudo bem,
qualquer um pode escrever nas paredes do mundo, armar seu grafite estranho,
ilegível, corrosivo,
ruminando pérolas opacas. Ao fundo, a angústia
de não reconhecer os códigos, mas isto se torna quase um alívio:
incompreensível, ninguém lhe tocaria.
Encontrar dói.

12/12/2007

Foda-se O poema

Foda-se a palavra

do momento

verbo agindo
Foda-se
verborragia

(você, por exemplo,
dizendo sins e nãos com as mãos,
de uma furtiva lágrima
ao gesto cheio de alma
ao soco da linguagem que se

Foda-se)

na ausência
de um tema
de um lema

problema?
Foda-se a resposta

maniFoda-sefesta-se a palavra


nº 1




É uma voz imprecisa – ela anuncia que há no Tempo uma foz
e um retorno. Os anos se esfacelam em olhos de arrebentação,
seus olhos, tantos calendários,
e trazem uma certeza de nada, certezas de nadas entrelaçados
que lhe dizem coisas, nunca revelações, mas coisas
– e elas serão lixas por uns olhos em que a terra, olhos que foram lanterna, farol,
lume de estrela
e hoje apenas espreitam, ilha, recife, atol,
olhos de ver pra dentro
e sendo escuro.



(das "Notas Marginais")

12/10/2007

Novo Pequeno Dicionário das Aproximações




Peixe (s.m.)
Animal, é claro, mas arremessado a um estrato completamente inferior na escala dos animais (incluídos aqui os chamados peçonhentos, sempre tão belos e livres) por uma estranha característica completamente sua e observável sem o suporte de nenhum tipo de aparelho: ao contrário da girafa (que ocuparia o ponto máximo da escala, cf. Marianne Moore em “To a giraffe”) os peixes não possuem diferenciação entre cabeça, corpo e alma - se considerarmos a teoria que define ‘alma’ como a massa crítica formada pela explosão milionária de impulsos elétricos no cérebro. No peixe tudo se confunde e permeia, daí talvez seu uso como metáfora do embotamento, limitação. Todas as outras metáforas são questionáveis e não passam de elaborações vazias.

12/09/2007

Blues + Lupicínio = (Ou, Babe, não se esqueça da teoria da narrativa)

Você tem que entender
É todo um clima criado, não por você,
Que não está procurando nada,
A não ser o caminho de casa.

É toda uma cidade que se prepara
Para uma bela sexta-feira de beijos na praça
E a intervenção divina de uma noite quente
E o som da viola sobre o coreto.

São os casais, é, os casais, como são jovens e belos,
As moças que se arrumam, que se perfumam,
É todo o circo armado para a azaração,
Arte na qual você nunca foi especialista, mas não por querer.

A noite, literalmente quente – é o contrário do que todos afirmam,
É mais fácil dormir sozinho no frio, isso é certo -
Mais a cerveja que você nem pediu
Mas lhe foi oferecida de uma maneira inesperada.
Onde já se viu num show gratuito
Pessoas andando com latinhas geladas em bandejas?
Ah sim, e tem a seleção musical, o repertório,
Você se esforçou muito pra sair de casa, observe bem,
Apesar de, o que parece contraditório, não aguentar mais ficar dentro dela.

O repertório, cantado por Renato Teixeira, ninguém menos,
E o som de uma viola melancólica:
Ele começa cantando de barcas que atravessam o rio Paraguai,
Canta de sabedoria, a merda de uma sabedoria fajuta,
Mas que naquele clima convence quase até as lágrimas.
Aí vem o momento mais perigoso, aquela música da amora,
Aquela que atravessa o seu coração como um punhal,
Que você sempre quis cantar pra todas as meninas
pelas quais se apaixonou: as três paixões federais,
as quinze estaduais e as quinze mil municipais.

Mas tudo isso nada seria sem outra pessoa.
Afinal você tinha planejado sair sozinho, lembre-se disso.
Você está lá na sua, e chega a moça meiga e sua irmã mais nova,
Moça que você conheceu a pouco tempo, poucos dias,
Esse detalhe é importante, porque sempre tem o encanto inicial
Dos primeiros dias quando você conhece alguém.
Uma pessoa que tem tudo para ser uma boa amiga, mas que
Numa hora dessas...
Diga a verdade: se você estivesse solteiro você gostaria de
Fazer coisas com a moça,
Não, mesmo casado, você gostaria, não seja hipócrita.
Mas você ainda acha a fidelidade importante,
Você se lembra que não trocaria sua amada por ninguém,
Nem mesmo numa noite como essa.
E que isso é ser fiel, querer e mesmo assim não fazer,
E que isso é totalmente absurdo e cristão, mas o amor é absurdo.

Voltando ao clima, bela palavra essa: clima,
É um lance que está no ar, que te envolve,
Que você sente, uma certa tensão no ar, uma espera,
E ao mesmo tempo uma certa disposição, uma facilidade.
E o acaso foi cruel com você:
É no ônibus, numa sala de aula, numa praça lotada de gente,
É nesses lugares que você encontra a moça sem combinar nada.
E ela e a irmã são muito simpáticas com você,
E depois ficam cochichando e dando risadinhas,
E tudo que você diz é legal, como você é um cara sensível
E inteligente, tudo elas acham graça, comovente.
Os outros caras em volta olham pra elas,
Não entendem, parecem se perguntar,
Por que essa Mané não pega a menina?
Pior, na saída, você ouve um cara dizendo
Que gostosa!
Nessa hora quase ajoelha, “por favor, fique com ela,
você vai me livrar dessa?”

Mas você é forte, vai resistir,
Inventa recursos:

Isso é fantasia da minha cabeça (o mais fraco, você sabe que é mentira)

Tem conhecidos na praça (o mais covarde)

Ela é ex-namorada do meu amigo (o mais cruel e sensato)

Eu vou para casa, ouço um blues daqueles,
If I have been a bad boy baby I declare I’ll change my ways
Lord have mercy on me
Sento diante do computador, escrevo uma coisa parecida com poesia,
Mando aos meus amigos por e-mail,
Solidariedade nessas horas é fundamental,
Eles não mostrarão isso para suas consortes,
Mulher é foda, não entende nada,
Tomo meu remédio e vou dormir
(o definitivo)


12/08/2007

Luv









Sou aquilo que estou

aquilo que estamos.

Estamos isso
isso
e isso

um sem fim
desencadeado
pelo borrado

pelo desconexo

pelo plexo

pelo sexo.

Uma fatia retirada do acaso
transparente e fluída
um teco de loucura
monstro de duas cabeças

frame de um filme

cena amplificada

"Amor".

12/07/2007

nº 69



A um passo do espelho, ou menos, por um estranho
mecanismo, você
explode em versos, cartas, cálculos, silêncios ritmados,
palavras não, elas são só o que atravessa
a lâmina de prata, só isso, ou nela imprimem, ou
na imagem que retorna torta, distorcida (‘a culpa
é toda sua, babaca
’, ele disse ali parado), na corrosão
que as bordas destas linhas (é tudo sem
disfarce e tão secreto), em surdina,
dizem - ou não, não
importa.


(das "Notas Marginais")

Oito-Olhos, traficante de colchões

Parabéns! Você acaba de adquirir um produto único, autêntico, visceral, enraizado na vida verdadeira e real, como se comprova pelos ajuizadores ISO-30000 da sinceridade ainda disponível no mercado.

Mas antes siga o Manual de Instruções:


1. Ao contrário da eternidade prometida quando se está deitado, nossos colchões são perecíveis.

2. Se a cada geração a propriedade tivesse que ser redistribuída, o resultado seria o caos dos lobos hobbesianos, mas felizmente a natureza estabeleceu parâmetros descontínuos e aleatórios para a morte e a humanidade deu sua mãozinha quando inventou a Lei da herança.

3. Manchas de mijo ou porra, mesmo sendo etapas naturais na formação do caráter, fazem a família pensar que “há algo de podre no reino da Dinamarca”.

4. O solvente usado para dar a singular característica esponjosa de nossa espuma, suave e paradoxalmente firme, também pode ser usado, em quantidades cavalares, para derreter produtos não contabilizados e burlar o fisco.

5. Nunca esquecer o truque do travesseiro atropelado.

6. Após a morte do tuberculoso, incinerar o colchão imediatamente.

7. Kafka escreveu uma novela em que um percevejo habitava um de nossos colchões, nos labirintos formados pelas porosidades de nosso fantástico produto. Mas isso só será útil para aqueles que, cansados da vida verdadeira e real, procurarem um lenitivo literário.

8. Deu no jornal que o senhor Jesus Maria escondeu milhares de cruzeiros no colchão. Depois de anos saiu às compras, mas a moeda já fora substituída há anos pelo Real.

9. Você nunca se esquecerá do efeito levemente tóxico da moça que se dissolvia no colchão, de como as palavras saíam lentamente de sua boca, da sensação espumosa da labirintite.

10. Nosso colchão atrairá lentamente suas veias, elas sairão de seu corpo como tentáculos e penetrarão a espuma. Seremos carne de sua carne. A separação será, se não impossível, ao menos dolorosa.

11. Quando você sonhar que apagou o fogo do Apocalipse com uma simples mijadinha, nosso colchão será como uma fortaleza para o seu Complexo de Onipotência.

12/05/2007

nº 68



Expulsos do paraíso, ‘agora
é tarde
’, ela disse sem deter
o olhar, como se o tempo não fosse este delírio
circular – ruínas se precipitam em silêncio
veloz como as âncoras
cravadas no corpo que se afasta. O paraíso
tem muitos quartos, escadarias,
longos corredores, vozes sem dono, espelhos,
e tanta coisa e ao mesmo tempo nada
que possa deter a felicidade, ‘ela
não se detém nem amarrada, cara
’, o paraíso talvez
seja conhecer as coisas do mundo e o chão
duro onde elas se apóiam, e abraçar
o delicado tormento tão colado
ao desespero, às suas dívidas, metais, desassossegos,
enquanto os carros
vêm e vão e param nos sinais e avançam
e você considera
que estar numa praia distante ou
num pequeno porto entre salinas quando
se percebe que olhar o horizonte
é ser feliz, ou no paraíso, ou
no inferno, ou
na rua mais turbulenta do planeta ou numa casa
de loucos dialogando
com os ratos, não importa, seu destino
vai estar no seu encalço e vai dizer assim: 'o labirinto
é encontrar a alma na vertigem
do corpo, o minotauro
é perdê-la'
.

(das "Notas Marginais")

12/03/2007

nº 67




Fechar as janelas da casa, por dentro,
e rebocar
com aspereza a mesma superfície em que ontem
havia um vão. E quando a vontade
de sair lhe asfixiar (insuportável), lançar-se
contra os pregos que ameaçam
a carne - suas pontas indicando uma vertigem
insuportável - até
rasgar o coração de onde escaparam
mitos, um após outro. E não falar,
nem que todas as manhãs despetaladas escorram
lábio afora,
intermináveis, enquanto
você
espera.


(das "Notas Marginais")

12/02/2007

nº 10




Estes são os dias de verão
que, corrosivos, nunca trouxeram o Sol que você esperava.
Viver era uma comunhão dos olhos com a chuva
e no quintal, agora,
o coração cercado por neblina despreza os sofismas de março,
que vai de novo ao meio e quase atinge
o avesso do logro em seus gorjeios de pássaro:
secretamente ainda espera o dia consagrado
e sua vindima.



(das "Notas Marginais")

11/30/2007

nº 66




Não há mais rosa ou girassol. Para um outro
jardim deslocado, o aroma da pétala
ainda paira no ar rarefeito.
Seca, a terra - entregue à solidão dos astros
que nunca respondem – agarra-se ao espinho
e o emoldura: dele é que faz a pena
e risca em si, como se tatuasse auroras na agonia,
uns versos, íntimos
do espanto.
(das "Notas Marginais")

Navio Manaus

O texto que segue é história, nada de literatura. Nele investigo, a partir de uma montagem sobre dois diários de viagem (O Turista Aprendiz e Memórias do Cárcere), o significado do Navio Manaus para o Brasil contemporâneo. Há a base factual, comprovada de acordo com os mais rigorosos métodos positivistas, de que Mário de Andrade e Graciliano Ramos tomaram o mesmo navio (o Manaus). O primeiro foi em busca do "Brasil autêntico" nos idos de 1920. O segundo foi levado sob a acusação de "inimigo da brasilidade". As duas viagens consagraram os dois escritores (cada um à sua maneira). Há quem acredite que a história é o Império da Conciliação.

Apenas justapus trechos dos dois diários, o que, diga-se de passagem, foi muito fácil: eles se encaixaram direitinho. E não se engane: não há aqui a menor sombra de pós-modernismo, desde o século XIX a história repousa como uma sanguessuga sobre a literatura.


Mário de Andrade Graciliano Ramos


Não é injustiça ser feliz.

A tarde caía, havia luzes.

Os ventos varriam o Recôncavo, toldados por espesso nevoeiro:

chispando água e mar, uma escuridão branca.

O céu cinzado era uma nuvem só. Detive-me,
e a lâmina espetaculosa da cidade, piscando os olhos,
se aconchegava numa palidez indiferente, tentando habituar a vista.

Um sol antigeográfico tropicalizava. Via-me no fundo de um poço.
A boca-da-noite batia na chapa da cidade, enxergava estrelas altas,
S. Salvador se torcia toda em rostos curiosos,
gozando a luz que é dela, onde se aglomeravam polícias
com muita mansidão.

Era como se fôssemos ninguém-jamais-não-conseguirá, gado, e nos empurrassem,
aqueles rosas doirados, pra dentro de um banheiro carrapaticida.

Aqueles azuis de Virgem Maria - não podíamos recuar -
aqueles amarelos de areia esturricada obrigavam-nos ao mergulho.

Cor dos anos, simples rebanho, apenas.
Cor de séculos, rebanho gafento necessitando creolina,
montados uns sobre os outros...

Tentei sondar a bruma por riba do farol de Amaralina, cheia de trevas luminosas.
Trepava no paredão do morro (idéia absurda)
um magote de coqueiros brincalhões (que me parece razoável)
em surdina, gritando nas trevas luminosas:


Olha o navio!

Olha o navio!

11/29/2007

nº 2




A linha sinuosa do amor atravessou sua pele
e você,
noite sem luz, todo por dentro um escuro sem tamanho,
não pode perceber em que parte do corpo foi escavado este caminho estreito e suas margens difusas.
Fora é sempre dia e as manhãs se repetem encadeadas
quando luzem sobre a linha que se afasta e inaugura outros territórios, acolhendo peregrinos pelo que se segue, curso aberto.
O tempo atrapalhou-se no seu fluxo e lhe ancorou a este entreposto,
presente que nunca se afasta:
os propósitos desencontrados são projéteis contra a pedra à sua frente
e agora sim, agora é o meio do caminho,
você está no meio, mesmo que algo lhe diga,
qualquer coisa lhe diga
que não seja assim.
(das "Notas Marginais")

11/28/2007

nº 15




Sumidouro das coisas, espiral
que tudo abarca – as emoções
no varal quarando sob o sol das décadas enquanto a pele
esturrica.
Se lhe chegasse o Bem, ávido, indeterminado, frio como um tição
iniciaria o primado da esperança e, em torno da fogueira,
sem ás na manga – observem bem, senhores – seria mesmo o paraíso.



(das "Notas Marginais")

11/27/2007

Arquicenas 2 (ou Conversa de Sauna Politizada com GF, SBH, PP, CPJ, OC, RA, DM, FHC e Lula Mendonça) ou Síndrome da Fala Reacionária

este país não esste país aponto os dedos no apontador de lápis e desenho sua própria canalhice e$te país é o reino indigente da burrice eSSte país me desafoga e( )te país não tem jeito jeitinho jetom jetset gente e$$te país não tem genitivo na língua neZte país falta inteligência como definir uma cadeira a um marciano dizendo-lhe o que uma cadeira não é eSte país uma cadeira não serve pra saltar uma cadeira não ilumina o mato escuro uma cadeira não se toma em sete gotas eSHIt país é o que falta a ele mesmo na definição d'Eiste país muito me envergonho de suas barganhas eUSte país corrupto infecto inseticida CHiste país de exilados na beira da praia chupando a manga maldita como o vendedor de caranguejos ou o próprio caranguejo arranhando suas costas (litorâneas) numa clima de acupuntura neo-pentecostal eIS-te país e seu presidente bêbado eXtase país e seu povinho sórdido MeUste país arde na língua como uísque queimando afta NestLe país não desinfeta eStIll país um mar de insetos ainda ontem caguei um besouro que se misturará à lama do Tietê HeilSte país e seus devaneios com preás gordos e seus montes de cuscuz e o atraso medido no meu relógio de pulso Restinpeace país dele ainda me salvo com zelo no elevador com Ronald Azevedo, Diogo Cão Mainardi e Oliva de Carvalho este país quanto é mesmo o preço do quilo.

11/25/2007

Ordem

Enquanto as páginas do jornal são meticulosamente folheadas,
os olhos vermelhos do garoto balançam a bandeira,
a mesma bandeira da mãe,
aquela que não dorme há 3.650 noites.

Em contrapartida, a velha senhora engole mais um barbitúrico
e mais um
e mais um
e sonha com seu paraíso das flores de plástico
e do mar de pouco sal.

As toalhas delicadas estão todas limpas
e a mesa escorre pelos cantos:
saladas
frutas
sucos
desenham arcos-íris transparentes que se perdem por aí.

Felizes, as meninas dançam nos pés de seus pais,
homens amargos encharcados de álcool,
verdadeiros james bonds
que só esperam a hora de trepar.

Eu tinha 20 nos 80



11/24/2007

A menina morta (a fé perdida, a inocência etc)

O corredor
Parece não ter fim
Nos passos das sombras
Sonâmbulas
Velas acesas na parede
Dançam verdes
No espaço viscoso.

O corredor da casa grande
Labirinto de 7 saídas
Como

os passos

de uma criança
- Entre flores e tecidos
brancos -


Transparente.


11/23/2007

Novo Pequeno Dicionário das Aproximações

(s.f.)
É uma ficção muito bonita e sutilmente elaborada que, ao perder-se, não se encontra nunca mais (algumas pessoas pensam que a perderam quando apenas realizaram uma transferência: passam a ter fé em sua falta de fé – aqui pode acontecer nova transferência ou deslocamento: para qualquer outro deus). Você nunca mais a encontra porque ela costuma desaparecer junto com a inocência, em mais uma prova de que realidade e ficção caminham sempre de mãos dadas. Neste caso (e tão somente neste caso) é besteira pensar que as duas se entregarão a práticas que têm como resultado o prazer, o êxtase e o delírio e sofrer o desespero rubro do ciúme em função disso. Não, mesmo não sendo nenhuma das duas assexuada, as suas taras se deslocam em territórios não comuns e o que as une se expressa exclusivamente na flor da metafísica, apesar das mãos. Perder pode ser um começo.

11/22/2007

Novo Pequeno Dicionário das Aproximações

Felicidade (s.f.)
Imagine um oceano. Águas, encapeladas ou planas (ou suavemente ondulantes, daquele balanço faz do barco um jogar sem fúria e sem descanso). A brisa e o sal na brisa. Fora do silêncio só o barulho das vagas, marulho. Céu azul ou negro e pesado, não importa – a felicidade não é aí.
Imagine a profundidade da água, o mais profundo que sua imaginação possa formular. A espessura da água e sua pressão crescente, a falta de ar, o silêncio que se amplia a cada jarda. Podem passar peixes ou não e decerto nenhum escafandrista altera o curso do imenso volume líquido que se desloca, você não sabe pra onde. Deslocar-se e ir, é o que a água faz. Você tem que se manter quieto diante da determinação do que flui, incessante. Aqui o panorama mudo e chegamos ao solo duro, frio e submerso. Impassível, o solo. Imóvel. Os grãos de areia que parecem pender em suspensão não representam mais que a ilusão de leveza, aqui nada é leve, nem dócil, nem fácil. Aqui os crustáceos desarticulam o rumo de suas presas e as entregam ao destino. A felicidade também não é aqui. Imagine ferozes perfuratrizes solo abaixo, rasgando tudo, imagine a pulsão das perfuratrizes solo abaixo, seu desespero em penetrar profundidades abaixo, profundidades abaixo, profundidades abaixo até encontrar. São bolsões subterrâneos, cavernas ocultas. A felicidade está ali. Alguns, na superfície, se contentam com a suposição da força destes lençóis, com imaginar – enquanto deslizam sobre o espelho das águas – o quanto de energia se move nestes reservatórios fechados. A estes chamamos ‘místicos’ quando estabelecem mapas e organizam rituais onde se pretende apreender o espanto do encontro com o que se esconde. Outros perdem a vida no esforço de perfurar, sem ciência, sem potência, sem direção – estes são a maioria. Alguns poucos talvez, talvez ninguém, quem sabe apenas lenda, mas só estes poucos conseguem, num ímpeto, arrojar-se solo abaixo, ainda que sob o risco de morte ou dissolução, até onde o tesouro se encontra: de seu êxtase nada escapa que possamos apreender. Ele é solitário, ausente, errante e talvez sem retorno. Talvez apenas quimera.

Arquicenas 1

sob sorrateiro falatório, em


re


finado


re


feitório


apressados, pressurosos,
(porque, eis o pressuposto:
ter não é re

ter)


apresentam-se os dois
sub(canalhas)prefeitos do Centro
de Campinas:

Conde Hermann Von Keyserling com seu cérebro de volutas intestinais
de capivaras mortas
Barão Ernest Seillière e o séquito de andorinhas verde-abacate
amestradas no abate das matronas do Cambuí:

orientalistas de plantão
no fim de semana
rabiscam no vidro fumê
da sauna verde
anauê:

desta vez
o sábio chinês
não sabia se era

a mão
o ventilador
ou a merda


11/20/2007

Bonecas

Espalhadas por entre as folhas, galhos, gramas,
e nós,
pequenas ninfas,
jardineiras de bonecas feito flores:
cabelos sintéticos,
pele de plástico,
olhos de vidro.
Ríamos e ríamos e ríamos.
E nem percebíamos
os males que nos cercavam
- e cercam -
dessa cidade aos pedaços.
E eu tocava sua alma,
minha irmã,
minha irmã.

11/18/2007

Novo Pequeno Dicionário das Aproximações

Piada (s.f.)
É o sentido mais profundo e subjacente da maior parte dos atos de sua vida. Às vezes toda a sua vida pode ser uma grande piada, ainda que sem nenhuma lógica - depois de 1913, não sei bem quando (pois saber às vezes cansa), impuseram o surrealismo por decreto e a lógica foi definitivamente exilada, embora pareça retornar eventualmente, como cabe às mentiras muito arraigadas (sobre este assunto, ler o conceito de ‘inconsciente coletivo’ em C.G. Jung). Dizem que rir é o melhor remédio, mas quase sempre dói. Se sua vida inteira lhe parecer uma única e grande piada, você pode ser o que se chama de um “Grande Autor” (nada demais, existem mais exemplares deste tipo do que já ululam nas livrarias, nas editoras e mais modernamente nos sites de literatura; se você além de ser um Grande Autor se acha um, é também um Idiota Absoluto ou um Cretino Perene, conjunção perfeita de onde se extraiu aquele ditado popular que diz que merda pouca é bobagem, o negócio é penico cheio. No final, como se sabe, vai tudo pelo esgoto – até você).

O Saber Inflacionado (Oito-Olhos e seu texto utópico: uma nota de rodapé pra cada palavra)

E a justificação1 biológica2 da violência,3 aparentemente tão nova,4 não equivale5 em nada aos seus substitutos, cuja combinação poderia no entanto produzir6 o mesmo sentido.7 Em suas transações8 com seus concidadãos,9 pode misturar-se a eles, sem no entanto vê-los; toca-os mas não os sente; existe10 apenas em si mesma e para si11 mesma.12 Reduzida ao estilo,13 ela trai seu segredo, 14 a obediência à hierarquia15 social.16


1 Jusitificação como topos retórico, no sentido de argumento que visa a legitimar outro conjunto argumentativo, indiretamente relacionados. Não se tratanto, portanto, de coerência lógica, mas de plausibilidade. CF. Perelman, Chaim e Olbrechts-Tyteca. Tratado da Argumentação. A nova retórica. São Paulo: Martins Fontes, 1993.
2 A delimitação de um história natural, com a inclusão do homem como parte orgânica da natureza, foi exemplarmente estudada por Michel Foucualt em: As palavras e as coisas. São Paulo: Martins Fontes, 1995. É no sentido proposto pelo pensador francês que uso aqui o termo “biológica”.
3 Sobre o conceito de violência, uma referência fundamental é: René Girard. A violência e o sagrado. São Paulo: Editora UNESP, 1990. Uma visão alternativa sobre o mesmo tema pode ser encontrada em: Georges Sorel. Reflexões sobre a violência. São Paulo: Martins Fontes, 1992. Ambos os autores, no entanto, justificam a seu modo a violência, e estão como contraponto à minha teoria.
4 Até aqui, esta frase é uma reprodução de um trecho de Hannah Arendt, in: Crises da República. São Paulo: Perspectiva, 1999, p. 145.
5 Falo de equivalância no sentido proposto por Wittgenstein, que demonstrou a falência lógica dos modelos de identidade no sentido matemático. Equivalência é, portanto, apenas uma semelhança possível num determinado jogo de linguagem. Cf. Petrópolis: Vozes, 1994.
6 Para uma discussão mais recente do conceito de “produção”, cf. Michael Hardt e Antonio Negri. Império: Rio de Janeiro: Record, 2000.
7 Entre o final do trecho citado de Hannah Arendt e a palavra “sentido”, acompanhamos de perto a obra de Roland Barthes. Fragmentos de um discurso amoroso. Francisco Alves: Rio de Janeiro, 2003, p. 150.
8 Notar a ambigüidade das transações, uma idéia de troca que pode ser pensada bem no veio da tradição liberal. Mas pode ser também a idéia de “transa”, no vocabulário para alguns desbundado da curtição marginal dos anos 1970. Cf. Torquato Neto. Torquatália. Obra reunida. Rio de Janeiro: Rocco, 2004.
9 Entendo por concidadão a versão sobre as comunidades imaginadas de Benedict Anderson, in: Nação e consciência nacional. Rio de Janeiro: Petrópolis: Vozes, 1987. Mas devidamente complementado com: Claudine Haroche. “O que é um povo? Os sentimentos coletivos e o patriotismo do final do século XIX”, in: Jacy Seixas, Maria Stella Bresciani e Marion Brepohl (orgs). Razão e paixão na política. Brasília: EdUnB, 2002.
10 Claro que não pode se tratar aquí do conceito heideggeriano de existência. Expresso em: Ser e tempo. Petrópolis: Vozes, 1989.
11 Em si e para si, corresponde à fórmula clássica de Hegel. Mas não é neste sentido que a empregamos aqui, mas numa acepção mais livre. Cf. Fenomenologia do espírito. Petrópolis: Vozes, 1981.
12 Frase tomada de Tocqueville, apud. Richard Sennett. O declínio do homem público. As tiranias da intimidade. São Paulo: Companhia das Letras, 1999, p. 7.
13 Sobre a noção de estilo, apenas como breve indicação: Carlos Reis. Dicionário de teoria narrativa. São Paulo: Martins Fontes, 1990.
14 Uso o termo segredo no sentido proposto por Alain Corbin, in: “Bastidores. O segredo do indivíduo”, in: Michele Perrot (org.). História da vida privada. Vol. 4. São Paulo: Companhia das Letras, 1995, p. 419-502.
15 Aqui a referência é Louis Dumont. Homo hierarquicus. São Paulo: Martins Fontes, 1995.
16 Frase final reproduzida a partir de Adorno/Horkheimer. Dialética do esclarecimento. Jorge Zahar, Rio de Janeiro, 1997.

11/17/2007

nº 65



Secar, secar até ultrapassar
a fronteira da pele, para dentro, e ver como numa vertigem
o limite do que você era lá fora, onde
ainda verdejam campos e umas flores
desnecessárias e trêmulas ao vento aspergem
seu perfume sem ligar pra nada. Aí,
quando quer encontrar-se, você
tem que sair de si em busca de outra esfera, aliás
você mesmo ali além do nada entre o que pulsa
e o que seca ainda mais, cada
vez mais, na fervura
desta tarde em que parece tudo um buscar
ao outro, mas o outro
é mais longe, depois
dos vazios paralelos
em que se perdem as coisas, na sua maioria
distraídas.

(das "Notas Marginais").

Novo Pequeno Dicionário das Aproximações

Merreca (s.f.)
É uma espécie de moeda universal, uma forma que o mundo utiliza para nos dizer que pouca coisa com efeito tem valor. Até o seu valor pode ser o de umas poucas merrecas. Ou muitas - é tudo merreca. Não há lógica no câmbio. O dinheiro, seja qual moeda for, em todos os casos se sobrepõe às merrecas como um decalque tão perfeitamente adesivo que ninguém levanta para ver o que está debaixo, a etiqueta verdadeira. A relação entre as duas é em tudo estranha: uma coisa que vale muito dinheiro pode valer apenas umas poucas merrecas furadas (esta é uma forma simbólica de traduzir o momento em que uma coisa que não tem valor algum vale menos ainda) e vice-versa, e pode-se também inverter a ordem dos fatores, porque a merreca enquanto padrão monetário vale tão pouco que entre mil merrecas ou um milhão delas e uma só não se vê qualquer diferença (talvez daí tenha derivado a noção de limite em Leibniz e Newton). Consoante à tendência de ver no dinheiro algo espiritual, poderíamos esboçar a teoria de que nossa alma é constituída de merrecas (cada um teria uma quantidade diferente, é óbvio). A merreca seria assim uma espécie de célula ou mônada do espírito, o salto quântico entre o mundo metafísico e o físico, exatamente o que Platão não soube perceber quando escreveu aquele poema em prosa inventando um céu dos universais (ou algo assim, é tudo poesia mesmo), no dia em que estava organizando uma rave dentro de uma caverna com uns rapazes legais e virou-se para mijar tendo uma fogueira atrás de si (ou foi virado por um dos mancebos, de encontro à parede rochosa, para outros fins - mas isto a História não registra exatamente, embora o êxtase subseqüente pudesse explicar a iluminação). Isto aconteceu muito provavelmente porque não existia o Capitalismo (ou existia, em formas muito primitivas), a religião que tem a chave dos corações humanos, mesmo quando estes são socialistas (onde ocorre apenas uma substituição de moeda, por exemplo, dinheiro por poder – aos anarquistas é dado o benefício da dúvida, embora aqui a moeda possa ser o niilismo). Se você achar qualquer coisa (qualquer uma mesmo) que não possa se traduzir em merrecas, agarre-se a ela com furor e não solte nunca mais. Parece que foi isso que fizeram alguns dos grandes místicos do passado e também Don Juan, embora dentre as inúmeras tenham passado tantas merrecas em sua cama. Não se pode ganhar todas, nem em merrecas.

11/16/2007

Psicografias e outros maculelês do espírito (2)

(este aí esqueceu de se deitar...)

DATADO

O Tempo errou’, penso, aqui no chuveiro.
Vou escrever um soneto e provar
que sou antigo e aí argumentar
com a noite, com a TV, com o desespero,
no caminho entre o quarto e o banheiro
como um cego que, ao par de não enxergar,
vê as horas despencarem do ar
com o pensamento, o amor e o desejo.
Não! O Tempo não erra, erramos nós
quando, frente ao espelho, sonhamos alto
sabendo o que é o mundo e que são belos
ou feios os caminhos. Não são. Pós-
tudo, agora, outra questão me assalta:
onde foi que perdi os meus chinelos?
video

Novo Pequeno Dicionário das Aproximações

Perdeu, maluco! (exp.)
É um “sair no arroz” à máxima potência, às últimas conseqüências (se você não sabe o que é ‘sair no arroz’ consulte o verbete específico; se puder passar a vida sem saber será melhor). E não adianta ficar com cara de idiota mesmo que você seja um: as raves continuam. Apesar de você. “Amanhã há de ser outro dia” é uma boa mentira onde se agarrar para esquecer que os desbastes do tempo amputam em definitivo partes suas e as largam por aí você nem sabe onde, longe de tudo e talvez junto às certezas, que já estavam todas por aí. Nem adianta ir depois a todas as raves e pegar todas as mulheres que puder, mesmo que você possua o desembaraço e talento para este fim, além daquela febre que só os que sabem que vão morrer possuem. Seria ridículo, aliás como você (explicando aos néscios, parvos e nefelibatas: ‘rave’ comparece aqui com um sentido metafísico, assim como ‘pegar’ e ‘mulheres’; ‘idiota’ e ‘ridículo’ não: são isso mesmo, como quando lhe dão um “perdeu,maluco!”). Nada adianta nesta situação, mas eventualmente uma súplica pode ser bela como a música estranha que a água produz em sua passagem pelas cordas vocais do afogado que assim canta seu último cântico, em desespero, geralmente olhando para um céu impassível e frio: não serve para nada, não o salva, mas pode até produzir beleza e mesmo Arte. Ou pode ser ridículo como o são os poemas em sua maioria, ou excessivo, ou dirigido apenas às aparências no rastro da quase totalidade dos atos e das coisas. Você tem duas opções: sentar e esperar (assim aconselhava aquele sábio chinês, e você sabe que sábios chineses estão sempre certos, mesmo quando estão errados), ou enfiar o próprio dedo em algum orifício de seu corpo e rasgar com violência. Difícil saber qual o mais doloroso. Quem escreve estas linhas desconfia que seja o primeiro porque não está inclinado a experimentar o segundo.

11/15/2007

Cagaram na tua cabeça (Ou Síndrome Coletiva do Poder)

Por causa do seu significado característico, preciso ainda fazer algumas observações sobre a pergunta mencionada: 'Por que o senhor não caga?', por menos decente que seja o tema de que sou constrangido a tratar. Como tudo o mais no meu corpo, também a necessidade de evacuação é provocada por milagre; isso acontece da seguinte maneira: as fezes são empurradas para a frente (às vezes também de novo para trás) e, quando, em conseqüência da evacuação já efetuada, não há mais material suficiente, lambuza-se o orifício do meu traseiro com os poucos resíduos do conteúdo intestinal. Trata-se de um milagre do deus superior, que se repete pelo menos muitas dúzias de vezes por dia. A isso se liga a idéia quase inconcebível para o homem e só explicável pelo completo desconhecimento que Deus tem do homem vivo como organismo - a idéia de que o cagar seja, de certo modo, o último recurso, isto é, de que por meio do milagre de cagar se atinja o objetivo da destruição do entendimento e se torne possível uma retirada definitiva dos raios. Para chegar aos fundamentos da origem dessa idéia, parece-me necessário pensar na existência de um equívoco com relação ao significado simbólico do ato de evacuar, ou seja: quem chegou a ter uma relação correspondente à minha com os raios divinos, de certo modo está justificado a cagar sobre o mundo inteiro.

Mas ao mesmo tempo se revela toda a perfídia da política que se seguiu em relação a mim. Quase toda vez que se provoca em mim, por milagre, a necessidade de evacuar, envia-se – estimulando os nervos da pessoa em questão – uma outra pessoa do meu ambiente para me impedir de evacuar; esse é um fenômeno que durante anos observei um sem número (milhares) de vezes e de um modo tão regular que fica eliminada a idéia de casualidade. Então, à pergunta 'por que o senhor não caga?' me é dada a brilhante resposta: 'porque sou burro, algo assim'. A pena quase se recusa a escrever o nome absurdo, segundo o qual Deus, em sua cegueira, causado na realidade por seu desconhecimento da natureza humana, chega ao ponto de supor que possa haver um homem que, por burrice, não consiga cagar – coisa que qualquer animal consegue. Quando, então, no caso de uma necessidade, efetivamente evacuo – para o que me sirvo de um balde, dado que quase sempre encontro o banheiro ocupado -, isso se associa toda vez a intensíssimo desdobramento da volúpia da alma. A libertação da pressão provocada pela presença de fezes no intestino tem como conseqüência um intenso bem-estar, que é provocado aos nervos da volúpia, o mesmo acontece no ato de urinar. Por esse motivo, sempre e sem exceção, os raios ficavam unidos durante o ato de evacuar e urinar; e, justamente por essa mesmo razão, toda vez que me disponho a essas funções naturais procura-se, embora quase sempre em vão, desfazer por milagre o impulso à evacuação e à micção.”


(Daniel Paul Schreber, em Memórias de um doente dos nervos)


11/14/2007

Psicografias e outros maculelês do espírito (1)

(algum parnasiano cretino passou por aqui e me ditou isto. Não consegui evitar, nem explicando que nos tempos ultramodernos, etc. Deve ter morrido tuberculoso, falando com as paredes sobre epos e mythos).

SÓ À ESPERA

O medo de amar, de um certo modo
(e todo meu), achei ter sido a minha
defesa inteligente contra o estorvo
de sentir. Não. Não percebi que eu ia
a um labirinto escuro, acorrentado
e até feliz, tendo a meu lado o dia,
achando que com teoria e estudo
não perderia o espírito. Não via
as úmidas paredes e pisava
um aparente céu: já movediça
era a areia em que hoje me engano
ao pretender sair. Quebrei as asas.
O minotauro vem. Quer sua carniça.
Agora sento aqui e espero o dano.

11/13/2007

Novo Pequeno Dicionário das Aproximações

Inocência (s.f.)
A única coisa no mundo diante da qual vale a pena curvar-se. Todas as demais coisas, cuspa nelas. São iguais a você, ou quase (“apedreja esta mão vil que te afaga/escarra nesta boca que te beija”), no sentido de que ainda não deterioraram ao mesmo ponto que você. Ao deparar-se com a inocência jogue-se imediatamente ao chão da forma mais abrupta possível: a idéia é machucar-se na queda, mas sem assustá-la - e lamba o chão na parte mais suja que houver para lembrar-se de sua baixeza e inferioridade diante do que está à sua frente. Se puder não levante nunca mais, isso é o bastante para o que resta de sua vida.
Existem dois tipos de inocência: aquela que assim é por não ter entrado em contato com a sordidez do mundo e a que sobrevive e até se aprofunda mais ainda em contato com a mesma sordidez. A primeira é preciso preservar o máximo de tempo possível, a fim de que não se contamine logo e consiga comunicar suas qualidades a quem puder perceber. A segunda é a mais importante, pois conseguiu ser assim em contato com o mundo, o que em tese é impossível. Caso não encontre nem uma nem outra, prossiga em seu caminho de ignomínia e esquecimento.
Atente apenas para o fato de encontrar e não perceber, ela por vezes veste o manto do mundo nos seus estratos mais inferiores. Seria cruel. Com você.

11/12/2007

Entre poetas


1.
Daniel
Paul Schreber esteve no Brasil. Veio erigir o castelo capaz de resistir ao pus amarelo que brotava do mar e invadia o país.

Daniel
Paul Schreber, o afogado na potência dos raios divinos, poderia cagar no mundo inteiro

uma vez que

seus sonhos duravam séculos:

a fortaleza neogótica neoqualquercoisa labiríntica, a imensa torre citada e recitada em prosa e verso, o fosso de mijo e feras marinhas, a estátua do poeta-monumento Oito-Olhos declamava:

Qualqu er m er da que Eu diss er
Com c er teza Ali-
T
er ada Poesia
Pode s
er
Pois poeta é meu
S
er)

2.
Daniel
Faria:

O monge
O sábio
O sereno
O morto poeta português

O concurso literário
& a fraude do concurso

Grafitou na fortaleza:

Não escreva
Merda, Cague
No escrever.

11/11/2007

Novo Pequeno Dicionário das Aproximações

Macaquear (vb.)
Prática adotada por indivíduos ou grupos na falta de imaginação, talento ou coragem para coisa melhor. Muito praticada nos centros de saber das periferias. Nestes casos o sujeito, diante de algum pensamento fascinante que lhe chegue engarrafado de outras praias (de preferência as do centro, mas não necessariamente) experimenta uma sensação extática e vê seu pensamento realizar circunvoluções em torno de si mesmo ao som de um mantra (“É na boquinha da garrafa/ é na boquinha da garrafa...”) e desce em conformidade com a lei que rege os corpos mais pesados que o ar. Alguns se contentam com a simulação do ato, outros necessitam dos estímulos do gargalo em regiões mais cheias de florações nervosas do próprio pensamento e há também os que entubam tudo vorazmente. Não que sexo anal não possa ser praticado de outras maneiras, mais criativas, prazerosas e românticas, até porque o romantismo e a dor são territórios muito próximos e às vezes em tudo coincidentes; mas para isso desaconselham-se gargalos. Ainda sob o influxo do êxtase que ocorre neste momento alguns cantam “allons enfants de la Patrie, le jour de gloire est arrivé...”, ou “we are the champion, my friend...”. Alguns balbuciam “eu sou a filha da Chiquita Bacana, nunca entro em cana porque sou família demais”, mas na hora do sapeca iaiá adicionam a este sampler um esquema rígido de citação onde importam até as maiúsculas e minúsculas de uma forma que a forma se torna mais significativa que o conteúdo (que por vezes nem existe mesmo), ou seja, o macaquear em estado supremo como em geral o praticam os Idiotas Absolutos. Aí é o fim definitivo da ginga ("você tem que fazer o pensamento dançar..."). No meio dos bandos de macacos às vezes um se destaca, como é o caso da macaca que deu com uns cocos na areia da praia vizinha à mata onde morava e descobriu que se quebrasse a casca e rebentasse a sapucaia chegaria à carne branca e tenra lá de dentro. Este destacar-se eventual pode servir apenas à perpetuação da espécie, o que é um desejo do impossível, obviamente. Nunca se percebe que a água do coco, a seiva, se perde na areia quando ele é quebrado deste modo. Uma característica importante quando se formam grupos afeitos a esta prática é o estabelecimento de um dialeto que forme uma parede dura e espessa onde está escrito: “Não entre, boçal!”; é melhor não entrar mesmo. Este que rabisca as presentes linhas, se for macaco, com certeza é um macaco-prego. Porque prego não bóia, afunda. Atentar que macaco e merda não são a mesma coisa, embora possam se parecer às vezes sob algumas condições, ou até serem a mesma coisa, apesar do que foi dito anteriormente, provavelmente em causa própria. O macaco-prego, mesmo quando é um merda, afunda, comprovando novamente que mesmo as coisas absolutas são relativas.

11/10/2007

Novo Pequeno Dicionário das Aproximações

Calar (vb.)
É o melhor que você pode fazer em qualquer situação. Quase ninguém pratica esta arte: uns falam desbragadamente até a ruína entregando seu ouro sem exigir sequer uns cobres de troco, outros escrevem poemas e ainda há os que fazem dicionários. Mas como não faltam malucos no mundo, poderíamos listar incontáveis formas de não calar, todas insensatas.

Dinheiro (s.m.)
É o deus mais cultuado pela humanidade, por mais de uma cabeça. Em segundo lugar, embolados na segunda raia, vêm Deus mesmo, Alah, Buda e outras ficções, como o Tao. Seu poder de arrebanhar fiéis é tão grande que muitos dos pretensos fiéis dos outros deuses cultuam na verdade apenas o Dinheiro que, num lance impressionantemente sutil de astúcia, coloca-se como uma dádiva dos outros, sob o codinome “Prosperidade”. Os mais descolados nas outras religiões admitem uma “energia” por trás do Dinheiro. Como Ele foi uma invenção da humanidade (ou terá sido o contrário, na medida em que esta serve àquele?) são grandes as possibilidades de que os outros deuses não passem também de invenções, embora algumas pessoas insistam que já falaram com eles – sem bem que fala-se até com as paredes, que até hoje também nunca responderam. Mas quem fala mais alto aos corações humanos é o Dinheiro mesmo e por Ele são cometidos todos os tipos de ato, dos mais puros aos mais vis. Faça a sua aposta, se bem que aposta é outra onda.

Pequeno (adj.)
Diz-se das coisas que são menores que outras a partir de quem julga, ou da escala que se estabelece. Assim sendo, é um conceito em tudo relativo. As coisas absolutas também são relativas. Muitas coisas podem ser pequenas – como, por exemplo, você por dentro.

Tragédia (s.f.)
É o grito do bode durante o sacrifício. O sacrifício é inevitável, incontornável e às vezes iminente. O que varia é a potência do bode ao berrar e sua ânsia de criar sentido. Sentido é outra miragem.

11/09/2007

Novo Pequeno Dicionário de Aproximações

Dicionário (s.m.)
Todo mundo escreve um ao longo da vida, mesmo que não utilize qualquer tipo de caracteres convencionalmente entendidos como escrita. O que muda é a quantidade de certezas (leia-se: mentiras) em que se acredita e o estilo da prosa. Os dicionários que explicitamente ostentam este rótulo são os mais enfadonhos e presos a coisas nem um pouco importantes. Quase nada é importante.

Mapa(s) – (s.m.)
São registros de impressões, através das quais você tenta articular uma lógica para os caminhos que percorreu, com maiores ou menores danos. Mas não tem lógica mesmo. Assim como as órbitas constroem a falsa sensação de ordem e não passam de elaborações de um desejo de fixidez que sua mente (ou seu corpo) produz para não arrojar-se em definitivo pelos vazios que se sucedem infinitamente. Os mapas podem doer como as fotografias, talvez porque tentem capturar um instante que flui nesta vertigem, e não adianta rasgá-los, eles se fixam em seus olhos como areia. Os mapas podem doer porque trazem pedaços da geografia, representam lugares onde você ficou como um detrito e ainda assim foi em frente, a despeito dos pedaços pulsando sobre o pavimento.

Novo (adj.)
Rótulo aplicado às mesmas coisas, repetida e sucessivamente ao longo da História, para iludir os outros de que se está criando algo diferente. Muitas vezes para iludir a si mesmo, o que é sempre mais fácil e rápido, mas não menos doloroso. No primeiro caso existem sempre motivações mais políticas (leia-se: poder) do que estéticas, embora sua cartilha nunca mencione a palavra “poder” ou mesmo a desqualifique (como algo não desejável). As poucas pessoas que de fato criaram qualquer coisa de diferente não ligavam pra isso porque tinham assuntos mais importantes e sérios a tratar e, talvez por este motivo, tornaram-se clássicos.

eu, Éluard e alguns unanimistas




eu

a cidade,
e por fim

a cidade.

luz, campana

entulho e merda.

eu, enfim
carne

e desonra

umas 2
ou 3 pombas
mortas

mar morto
que esbate

esbato

olhos
de cobalto

lâmina
e lágrima

agora seus olhos
por si

e por mim

e por fim

Leurs Yeux Toujours Purs

Poema tirado de uma notícia de e-mail

Fique sabendo que há outros sintomas de ataques cardíacos, para além da dor no braço esquerdo. Deve-se também prestar atenção à dor intensa no queixo, às náuseas e aos suores abundantes, pois estes também são sintomas vulgares.

Pode-se não sentir nunca uma primeira dor no peito, durante um ataque cardíaco. Muitas pessoas que tiveram um ataque cardíaco enquanto dormiam nunca mais se levantaram. Mas a dor no peito pode acordá-lo do sono profundo e livrá-lo do sono eterno.

Se assim for, dissolva imediatamente duas Aspirinas na boca e engula com um bocadinho de água. Ligue para o 193 e diga “ataque cardíaco!” e que tomou 2 Aspirinas. Sente-se numa cadeira ou sofá e espere pelo 193. NÃO SE DEITE!!!!

Pense no poeta confinado num quartel, o livro aberto sobre o criado-mudo, o ilegível Território Humano. Pense nas bitucas de cigarro que se acumulavam ao redor da cama. Pense no poeta que andava sem rumo na cidade circular, devaneando sobre como caberia no terreno de uma polegada quadrada; o poeta que foi encontrado morto depois de semanas, por causa do mau cheiro. Pense no detalhe patético dos pacotinhos de sopa Knorr em seu apartamento.


11/08/2007

nº 64




O Abismo é você. São poços
profundos, sem fundo, que você
enche e esvazia de tristeza, desespero,
amor, esperança, desesperança, alegria,
solidão, entre afogamento e
asfixia. Ainda que sem fundo, tudo
parece transbordar a certa hora, aquela
em que as mãos deviam poder se cravar
bem no centro e rasgar o invólucro do peito.
As mãos são frágeis e não podem mudar
destinos, elas se iludem ao fabricar
artifícios, se iludem moldando vasos, tirando
som de cordas tensas, riscando
versos, acenando, acariciando – elas são frágeis
e não podem nada, nem rasgar o peito até
a bomba que pulsa por detrás, o que seria
o único suicídio bom e justo, rasgar-se
sem o recurso de qualquer artefato.
Resta então resignar-se à sua cota
de dor e admirar a ilusão dos outros de que
o Abismo é distante, lá onde desapareceram
embarcações e monstros, além da linha
do horizonte - ou então
é o vazio depois da última estrela.


(das Notas Marginais)

11/07/2007

Novo Pequeno Dicionário das Aproximações

Sair no arroz (expr.)
Se você não sabe o que é isto mas teve a percepção de que não é boa coisa, talvez não seja um idiota (ou pelo menos não seja um Idiota Absoluto, pois existem idiotas que, apesar de sua condição, conseguem por períodos curtíssimos de tempo elevar os olhos um pouco além da lama que os rodeia). Sair no arroz é como ir a uma rave e não pegar ninguém, sair com uma mulher que você está a fim e não comê-la ou ainda realizar qualquer coisa meritória (uma ação, um afeto, um gesto, uma palavra) e não receber a contrapartida por este gesto (um romance histórico, a Bíblia, defende em meio a suas estórias a idéia deturpada da não necessidade de contrapartida, contrariando os princípios da própria Natureza que teria sido criada pelo Deus que inventaram ali - talvez por este motivo o autor não quis se identificar e ainda colocou uns fakes como co-autores pra tumultuar). Provavelmente esta expressão venha do Oriente, onde hordas de miseráveis têm apenas o arroz como alimento e ainda ficam com aquela cara de que não está acontecendo nada (e de certo modo, pensando bem, não está mesmo) – aqueles que deixam de ser miseráveis adicionam coisas no arroz, feito algas, peixes, legumes, frutas e especiarias (por exemplo, o gengibre que, para quem não sabe, é afrodisíaco), e aí já não saem no arroz. Como os do primeiro grupo poderiam ter destino pior, ou seja, não terem nem o arroz, sair no arroz não é a última escala do fracasso. Você podia nem ser convidado para a rave (e ainda pegarem a mulher da sua vida por lá).

O Marginal no Museu da Língua


Tenho medo da noite porque meu sangue é noturno. Na minha cabeça arde uma estrela desenhada por uma criança que sonha com ventiladores, com estrelas que giram e produzem vento, como se impulsionassem as mãos renascidas de um deus morto. Quando fecho os olhos sou toda a noite por dentro. A noite me reconhece porque sonho com olhos opacos e cegos que me olham e não me encontram no quarto escuro. Tenho medo destes olhos porque são os olhos da noite quando me enxerga e sabe que sou uma sombra oculta sob outras sombras, outras sombras ainda, em direção ao passado, ao mar noturno, ao castelo de areia em que dormem anjos noturnos mastigados pelos dentes noturnos do mar. A noite não se contenta com a profundidade das coisas ocultas, arma-se com visão infra-vermelha, joga um brilho azul berrante na sala do apartamento, torna a madrugada piegas e colorida. Tudo é deserto. Mas tudo tem que ser aceso e tudo tem que falar na noite desta cidade que já matou sua raposa há tempos imemoriais, esta cidade solar como o trono dos tiranos, como a andorinha absurda e obesa que nos vigia em seu pedestal dourado.