6/30/2010

Bustrofédon


Escrevendo
Loucamente preencher o vazio da tela
Esvaziar a cabeça na tela cheia
Cartas pra você
Mesmo, pra ninguém, preencher
Remover, limpar, excluir,
Apagar o redemoinho do peito
Rasura em cima de rasura
Como de pétala sobre pétala
Se faz se desfaz se refaz um girassol.
Escrever pra sobreviver, pagar pra ver
Apagar os vestígios, driblar as armadilhas
Escrita de animal encurralado
Escrever pra não ter que responder
A pergunta impossível, a vida impossível
Como fazer de tristes letras negras
Uma flor amarela, que não nasceu
Jamais nascerá de meras palavras
Escrever pra preencher a vida
Vazia, paradoxalmente vazia e pesada.
Escrever pra exorcizar o inferno, depois
De escrever o inferno, exorcizar o inferno
Da escrita – o erro
Tentar conter o sangue, impedir as lágrimas
De fluírem como as palavras aqui, agora – o outro erro
Deixar correr solta a língua, o ar pesado e frio do peito
Deixar vazar o sangue – escrever sem parar
Porque a vida é o mais improvável:

6/27/2010

As sombras na parede movimentam
Os olhos,
Um mosquito passeia em seu rosto imóvel
Você não vê
Quando foi que o cachorro parou de berrar
Você pensa nela não
Pensa nela, tudo passa, o sim e o não: o mesmo:

Aprender nada:

Nada a desejar.

6/25/2010

O inesperado retorno ao Inferno

Tem dias em que a vida é inviável. É como descer ao inferno mais uma vez, e você se pega pensando se vai dar conta do recado. Se vai conseguir sair dali de novo. Não aquele papo de auto-ajuda que diz: o que não me mata me torna mais forte. Mas, sair dali como sobrevivente mesmo. No inferno acontecem coisas engraçadas, pra quem vê de fora. Por exemplo, você é obrigado a comer girassol em pó. Dá uma sede insuportável. Todo o tempo você pensa que alguém está falando com você e você pergunta: é comigo que você está falando? A pessoa responde: não é com você. No inferno as pessoas são estrábicas, você inventa qualquer desculpa pra explicar porque as pessoas não falam com você olhando nos olhos. Quando é muito menos do que isso: elas não falam com você. As palavras vão passando por cima da sua cabeça, passam de raspão, arrancam pedaços de carne, vão em frente manchadas de sangue. Vão regar, bem ao longe, um grotesco girassol vermelho. E tem mais que isso. Você pode passar horas, dias, conversando com alguém e de repente você descobre que aquela conversa nunca existiu. Você entrou ali como estrangeiro, sentiu que uma hospitalidade ia criando um lugar familiar, confortável, mas é devolvido como estrangeiro mesmo. Que você nunca deixou de ser. E você acorda no inferno – de onde, se você tivesse prestado atenção, você não tinha saído. No inferno as pessoas repetem os mesmos erros e dizem que não querem mais isso, pedem seu auxílio, mas depois você descobre que o próprio pedido de auxílio fazia parte do erro, era o início da repetição. No inferno é como andar na rua de uma cidade em que as placas existissem, mas estivessem todas apagadas. Você chega perto da placa, é claro então que você está perdido, e vê que não tem nada escrito. E você pensa que é o único, que o inferno é seu e singular. Mas é desse mesmo jeito que seus companheiros de vida infernal te vêem. Você é um idiota robotizado que comete os mesmos erros. Você não fala com ninguém e não olha ninguém nos olhos. Você também parece estrábico. O pior disso tudo, porém, é que cada um tem que suportar o mesmo inferno, na mesma solidão, no mesmo buraco, no mesmo barco, mas é impossível, sabe-se lá como, que as pessoas saibam que estão no mesmo lugar. Você já esteve no inferno, então sabe muito bem onde está entrando, quando a sua guia, que antes parecia tão delicada, te conduz até aquelas portas, aquelas terríveis portas, que rangem como alguém que não consegue respirar direito e procura o ar com violência. Vamos ser claros, como alguém que chora além das próprias forças. A sua guia, mas tudo parecia estar se tornando tão seguro, ela tinha um girassol nas mãos, você se lembra?, tudo parecia tão seguro; você estava distraído (olhando-a nos olhos? Você tem certeza disso?), quando ela disse: é aqui que você fica - você sabe que ela não fez de propósito, talvez ela também esteja sendo levada ao inferno por alguém. Quem sabe, o guia dela não é você mesmo? Por uma espécie de magnetismo ainda mais lamentável é você que terá que abrir a porta, entrar no inferno, como se essa fosse a sua escolha. A única saída é atravessar o inferno, você puxa o ar e reza pra sair de lá vivo.

Poemas do jeito do Francisco Alvim

1. Terceira Pessoa


- Não é com você.



2. Abaixo Assinado, ou o Conformismo do Revoltado

- Deixo aqui meu protesto.


3. Blasé de copa do mundo

- Por que tem gente gritando?


4. Dando o fora
Não é que eu não queira.
É melhor pra você.


5. Doublé Bind

- Contente-se e se contenha.Você precisa saber que:
a. não aconteceu mas era possível
b. agora ficou mais improvável
c. amanhã não vai dar
d. outro dia poderia ter acontecido.
e. ontem, não hoje
f. hoje não, quem sabe amanhã
g. se hoje fosse ontem e quando amanhã for hoje, aí então
h. como sempre, não vai ser hoje
i. amanhã nunca vai ser hoje, sempre
j. espere por mim, mas não espere por nada
l. sempre saiba de ontem, amanhã se recorde, mas por enquanto esquece.

6/24/2010

Fugindo ao estilo do blog

Pra mim essa merda, essa coisa fajuta de copa do mundo acabou de uma vez hoje. Gosto de futebol, muito. Mas já deu. Depois da quantidade ofensiva de dinheiro que o "jogo de pontapés" desperdiça, como o chamava corretamente o Lima Barreto, depois das idiotices não só do Galvão Bueno mas de praticamente todos os locutores e comentaristas, não bastasse o militarismo psicótico do Dunga, agora usado pra vender cerveja, não bastassem os panacas de Brasília que andam agora com bandeirinhas do Brasil nos carros, não bastasse o fato de os jogos serem umas porcarias, agora a FIFA virou instância de decretação de estado de exceção. Estado de sítio, no sentido próprio do termo. A diversão já virou um circo dos horrores faz tempo. E de lambuja, vejam a alegria do Waack comentando a "bela" iniciativa.

E o Millor estava certo também. Ele diz que se um artista talentoso fosse tratado com as mesmas regalias que esses pernas de pau do futebol, ele pintaria uma capela sistina por semana.

A notícia: http://g1.globo.com/jornal-da-globo/noticia/2010/06/fifa-exigiu-mudancas-na-justica-da-africa-do-sul.html

6/23/2010

Do ser(tão) rumo ao (des)centramento do céu

Do ser(tão) rumo ao (des)centramento do céu
Hoje, e não amanha
Hoje, e não amanhã/
Hoje, e por que não amnhã?

Hoje entrei no céu
(como já havia vivido com uma paineira e um ipê)
Hoje escrevo apenas para mim
Hoje apenas hoje senti o céu de anil
Hoje senti o tempo ultrapassante do céu
Hoje ex-perimentei em fragmentos o instante-presente
Hoje, nesta tarde de outono, tive uma noção do plainar

Hoje, vi as montanhas que em geral, não vejo
Hoje, antes de tudo vi e vivi a luz e penumbra do alegria celeste
Hoje, escrevo por falta de palavras: tento inscrever o êxtase na memória?
Hoje, falta dor e sobra felicidade: parece que a alegria é apenas para ser vivida...

Mesmo sem dor fui curado pelo céu de anil
Apenas hoje, amanhã já não sei
Mas, agora a pouco experimentei uma parte do ser refletido e enigmático

Hoje, agora a pouco mergulhei no céu!
Hoje o céu já é outro, pois hoje já é ontem!
20/06/2010

6/20/2010

Nada demais (poema em 3 fases)

Primeira fase

As pessoas não

Estão dormindo.

A praça, simplesmente,

Está vazia.

O eco da música

Perdida

Não se esconde no inconsciente

Das pedras – o silêncio

É,

Só isso.

Segunda fase

É do espelho retrovisor

Que entrevejo a praça,

No vazio

Um girassol (anjo)

Perdido

No meio do concreto, ali

Não está, na superfície

Mineral do espelho, aqui

Onde o espelho está –

Na alma da praça.

Terceira fase

Inverificável:

A matéria-prima do girassol

É o espelho, mas o girassol

Não está no espelho – o girassol

É

No espelho.

Só isso.

6/18/2010

Green Mile

Entro na Green Mile. Fico parado, observando a sua longa extensão, que leva nada a lugar nenhum. Parece estar sempre encerada, limpa, brilhante. O rumor que ouço dos calabouços – daqueles que esperam por sua hora – não são gritos de desespero ou de raiva. São ruídos muito leves, de baratas que passam só quando as luzes se apagam. No mais, vejo olhos. Olhos distantes, às vezes fugidios, que captam qualquer vibração, pensamento ou gesto. Qualquer movimento que possa sinalizar uma ajuda a alguém que está marcado para morrer é sempre muito mal visto em Green Mile. Não pode haver nenhum sentimento ali. Talvez só justiça. Justiça, tal como ela nos é ensinada dentro de casa: com labaredas pelos olhos. Sempre os olhos. Em todos os lugares.
Cada passo que faço pela Green Mile ecoa quilômetros. Ela me lembra que muitos morreram por aqui. Será que morrerei aqui também? Quando falo com alguém de algum calabouço, noto em seus olhos uma superficialidade de quem não espera mais por nada. Frio. Muito frio.
Tenho a sensação que, daqui a algum tempo – nunca saberei quanto – entrarei novamente em Green Mile para morrer. O que fiz de tão grave? Não sei, muitos falam que quem vive em Green Mile vendeu sua alma ao diabo. Mas eu só conheci o diabo agora, que não tenho mais esperanças. Não importa o que se faça: quando você está em Green Mile, morrer é pouco. Muito pior são os ruídos das baratas – será que elas já passaram por cima da minha comida? – e os olhos. Muitos olhos. Pergunto quando chegará minha hora. Ouço apenas o eco por toda a Green Mile. Ninguém ousa responder a perguntas por aqui. Você que descubra, se for capaz. Ouvi, há um tempo atrás, de alguém que disse que ouviu de alguém que ouviu em outro lugar que não a Green Mile – tudo se decide fora daqui – que esperarei muito, muito mais que qualquer pessoa, para morrer. Esperar, novamente esperar. O frio se intensifica. Mas não há vento. Não há sequer ventilação em Green Mile – como as baratas sobreviveriam? Esperar, esperar. Enquanto isso, os olhos, grandes, brilhantes. Talvez seja por isso que Green Mile parece sempre tão brilhante.

6/16/2010

Vida
De robô sanguíneo,
Discórdia, além disso.

Dar de cara contra o muro
E chamar o sangue de:
Produção. Alegria.

Atrás do muro, dentro
Do muro, o coração
Das coisas?
O coração
Do girassol? A nitidez
Tem coração? O coração nublado
Das coisas, o obscuro
Coração da vida.

Onde está Renata no coração
Do Brasil? Onde está o Brasil no coração
De Renata, onde estão Brasil e Renata
No coração de um sujeito
Sem coração – não confundir o sangue
A mancha no muro.

Hoje de manhã a luz estava fria
E um estigma era a tatuagem
Do frio em minha pele, e a pele
Não é proteção pra alma
É a própria alma exposta, a contrapelo
Que o desamor fere como uma pancada
No muro –

(Ele que não me deixa relaxar,
Não é você, girassol)

O muro é a pele da alma das coisas e eu
Sentia apenas um frio no lugar onde seria esperado
Um coração
Enquanto me lembrava do meu velho desamor
Que me atingia
Como um soco na boca do estômago
Na súbita ilusão de que o coração
Inexiste, o coração
Ausente, delira e tenta se criar
Com ar e palavras, morrendo
De medo de ser um não-coração
Num mundo em desacordo:

E ali estava o coração,
aqui.

6/11/2010

Tempestade Intempestiva?

Tempestade Intempestiva?

I
Escravo de mim mesmo
Vivo em círculos de poucas retas
Vivo fenecendo em rodas de sânsara
(de forma sacana penso:o que me falta é a punheta trântrica?)
A cobra que morde o próprio rabo: quem é?

Vivo? Nunca sabemos se realmente vivos: eis a ambigüidade da vida-morte
Morte do corpo? Morte da alma?
Guerras internas: em busca de alguns armistícios?
Poesias, natureza, artes e fisolofias:
não sou digno delas, apenas contemplo um vinho vagabundo.

Talvez tente ser um bom pai e um bom filho: quero algo mais?
Talvez um grande amor... ilusão romântica? Eterno apaixonado?
Pelo menos leio em um título de um livro do Rubens Alves:
Ostra feliz não vira perola? Conforta meu ego em guerra.

Queria eu livrar-me do meu ego e apenas ser: é possível?
Ego-ego-ista-ista-egoi-como sair da roda: sansara é a cobra do mato: tatarna! Ops: tatarana! Que fica perto da gruta do Rei do Mato.


II
Por vezes, creio que é o lance da tragédia é a comédia da vida alheia.
Meu sofrimento é a comédia do mundo.
Vivo, sofro: procuro não viver a melancolia da acídia:
Resistir sem a complacência com a tristeza é minha meta.

Mas, contudo, todavia, porém...
O vinho corre sobre a tinta...
A tinta da vida: como lidar com o choque da morte?
Como lidar com a alegria de uma filha que apenas balança em uma rede?
Como lidar comigo mesmo?
Ao menos a lida tece urdiduras que duram: eterna vontade de permanecer?
Como aceitar o que flui, o que não flui, o que é, e o que não é:
Recordação maravilhosa de uma dependência absoluta:
Ao absoluto? Ao amor? Ao prazer? A vida? A minha pequenez egoísta?

III
Vivo fenecendo, apesar da ilusão de renascer
Talvez escrevo dos baixos-altos desejos:
Como encarar a moral-imoral?

Preso em teias da subjetividade (esse mar sem fim)
A procura de algo, do outro, da vida e do amor romântico-subjetivo
Da família talvez falida? Fragmentações da experiência de um tempo e do tempo
Retenções simétricas e propensões de horizontes que fogem:
Horizontes de lapsos da memória, perdidos no buraco negro do meu esquecimento

Perdido-encontrado; encontrado-perdido
Jogos de palavras: superfície-liso-estriado-profundidade-superficial:
Aqui não é mais o agora e o presente não é mais futuro: foi-se e fui:
não habitamos a própria casa?
Dúvidas involuntárias: in-nega tudo?

Plun-ti-plati-zun: não vai a lugar nenhum: nem mesmo ao zoológico:
Hoje é domingo: dia de pipocas!

IV
Faz quatro anos:
No mesmo lugar
Entre um mais que possível
E um outro mais que (im)parfait

Entre tempos, temps
Entre temps, tempos verbais
Tempos da história e da experiência: queria poetizar minha própria experiência
(talvez a única saída pra uma alma vazia.
Como aceitar a falta de talentos?
Falsos poetas podem entrar no jardim das delícias?
Ao menos sou um bom mentiroso: ironizo meu ego e ao mesmo tempo o alimento: eterna ambigüidade!)
(Um ar ecoa com o tempo dos trilhos que gritam ao escutar as locomotivas:
automóveis do minério.
Entendo Drumond: retirar minérios da terra é edificar nosso próprio sepultamento!)

Entre tempos verbais, um delírio:
Paixões passadas, ilusões futuras: um presente solitário?
A solidão me angustia: não angústia, é claro, o leitor não solitário
Solidão, como se sabe, rima com otário!

Vinícios: o que é viver um grande amor?
Para um coração que quer viver o sossego, mas vive desassossegado?
Hoje observando o silêncio do mundo entendi o sentido de sossego:
Mas depois disso a cobra sibilou e o gavião resolveu comer o ou ri ço:
Ver a natureza é ver nós mesmos: tememos!

Eis aí uma psique singular e gregária: possuidora de paradoxos contínuos
Ao menos há o afeto da família e os amigos...
Apesar de toda a ode a amizade e dos muitos amigos sinto o terror de me ver
De me sentir: ver a venerabilidade da existência
E depois? Seguir, edificar, verbiar: não sucumbir a tristeza:
A acídia é parente do demônio do meio-dia.


V

Doendo, apesar da vida burguesa
Apesar, do vinho
E do vinho, apesar
Não luto pelo pão!

Perdido à beira das mortes (antônio das mortes bem sabe)
O problema é que aceitei o contrato hobesiano e nunca matei ninguém!
Nunca senti a morte: só algumas assepsias funerárias
Mortes naturais e a-naturais

Tudo se resume a isto: aos 32 dois anos aceito o envelhecer!
Sair de um lado e entrar em outro: passando por outro, que nunca é meia
Nesse frio da roça uma meia é um entre - lugar entre a pele e o frio penetrante
(amanhã vou comer a rapadura do Carcunda e curiosamente agora é meia-noite)

À beira da morte: morte alheia que também é minha
Lucidez embriagada à procura da luz da serenidade

Ser de idade: natalidade!
É duro renascer sempre!
Não se renasce com o tempo lógico: não há lógica no tempo!

Enfim, serenidade: um bêbado equilibrista?
Dessassussegado (com s é bonito, não?) perto de São Brás do Suaçuí

VI
Prisioneiro das paixões? Phatos afetados
A fé e a liberdade são os textos ocultos?
Ou a prisão das palavras? Pq escrevo? É um gostar-desgostar: loucura infantil?
Ao menos as crianças sorriem e vêm algumas estrelas:
Depois vêm à adolescência e acaba com tudo?

Depois vêm à sexualidade e deixa a cabeça perturbada:
Por isso que Riobaldo aconselha casar, apesar de Diadorim...
Mendigo-afeto e mendigo do afeto:
Eis aí uma fotografia real desse instante!

VII
Um olhar me acompanha por esses dias
Sentir o sublime amor? Mundo, vasto mundo do meu coração:
O pior é que essa coisa de sentimento não é uma bobagem!
Queria eu ser um insensível: sensível apenas as flores... e ao belo definido nos livros

O sublime amor: uma experiência de Deus?
O sublime amor: apenas uma experiência...
Entre os pais e os filhos quem habita?

Embaralhamento: isto me prejudica quando jogo cartas!
Palavra bonita! Talvez a serenidade e o tempo estejam nas mãos
dos jogadores de cartas...
Não se pode duvidar de tudo!
Queria simplesmente ver: apostar no amor. Em um amor!
Sentir o fluir sentido de um olhar cigano fugidio.

Um dos meus maiores êxtases foram com os ipês e as paineiras: loucura?
O problema das misteriosas ciganas é que elas não gostam de se fixar!
E talvez estejam certas
A fixação é uma ilusão confortante que busco, mas não atinjo:
Minha alma atormentada precisa de sossego: como?
É realmente um dilema: até que ponto a vida autêntica não nega a vida burguesa?
Autenticidade sem cartório é uma travessia que atravessa o corpo: cheio de dor

VIII

Repetições?
Novo-velho?
Ou simplesmente novo?

Frente ao amor filial e paternal nenhuma dúvida:
O problema é a horizontalidade: fuga de horizontes...
Talvez seja a saudade do mar

Mas, uma amiga angolona (e seu pai) quando vêem o mar
Não vêem o infinito, mas, justamente o contrário...
O contrário da alegria? Ao menos, um passado que foi...

Quando me apaixono quero acelerar o tempo: não gosto de esperar
Sinceramente não sei... é preciso viver várias vidas numa só?
Até que ponto ser sereno é um fim? Apaziguado, certamente?
A eterna busca do colo da mãe? (colo fetal? Retal? Anal? Colos corpóreos: nossa busca? E nosso fim?)

Quando escrevo no papel: vejo a tinta
Vejo o outro que é a palavra
Quando imprimo o stilo na tela, sobretudo, quando o sol raia
Vejo a mim mesmo na tela
Na verdade quase não vejo a tela, nem a palavra

Aceitar a paz é bom,
Mas, vejo (se vejo)
que difícil é construir a paz! Somos pequenos e queremos ser grandes...
Às vezes para lembrar minha pequeneza sofro a esperar uma mensagem de celular
Sofro como as amantes de outrora: pior ainda em tempos de guerra!
A esperar uma carta do outro lado do atlântico

Talvez eu esteja preso a esse instante presente/passado da vida
Na ânsia de viver muitas vidas numa só
Durmo com culpa de não ter escrito o artigo, de não ter lido, de não ter sido

Não sei se é pq viagem de canoa ou se o mar é bravo mesmo...
Mas, a tempestade parece que deu um tempo...
On vera...

A poesia, ou melhor, a palavra, não cria:
apenas transborda no excesso de mim, o excesso de mim
apesar de mim,
mas, sobretudo, para mim.

6/09/2010

Sem nada

Pra escrever, enquanto
Penso nas metamorfoses
Da musa,

De tema, lema, problema ao retorno
Ao mais puro sopro
De poesia no ouvido,

(Quando a musa não é mais
Assunto, espera ou procura)

Quando ela respira
No ritmo exato dos traços negros
Que vão colorindo a tela:

Quando, mudando
Sob uma luz sutil
Mas mundana,
De pétala a pétala
A musa
Muda de girassol
Como se a poesia rompesse
Num súbito claro de dia.

6/08/2010

Girassol

Primeiro frio de junho –
Um calor impreciso
No girassol ao longe.

* * *

O girassol que vai
O girassol que volta:
Delicadeza!

* * *


Suave calor, cheio de anjos
Sente-se, não se entende:
Nítido girassol!

6/05/2010

Sonho proletário – diálogo com Jacques Rancière

Não consigo escrever e pensar durante a noite. Sou um animal diurno, como os proletários. Talvez por isso, quis fugir ao máximo de me tornar um deles. Meu pai, bom operário, acabou no hospital, onde sua vida também acabou. Minha mãe, que já costurou muito, agora definha nos dias de sua solidão. Nascido no centro escuro e perigoso da cidade, sonhei muito desde criança. Já quis ser desenhista, poeta, músico. Já inventei meus próprios brinquedos, recortando em papeis o que jamais ganhei. Como não podia ser nem desenhista, nem poeta, nem músico, contentei-me com a ideia de ser professor. Achei que não me tornaria um proletário. Mas como é infeliz a nossa época, que faz do professor um poeta mudo, ignorado pela estupidez humana ao falar aquilo que não se lê nos livros! O professor virou proletário! Sua fala é roubada e suas noites não são mais suas: ele dorme o sono dos cansados, para, no dia seguinte – com o corpo e a esperança revigorados – esperar que seu chefe lhe dê uma promoção, um aumento, ao menos uma esmola. Mas nada disso chega. Resta a espera. Enquanto isso, no chão próximo à cama, um livro que fala dos sonhos possíveis, da reapropriação da vida. Bobagem. O que resta de meu sonho proletário de ser artista é poder ficar em casa enquanto o mundo trabalha nas ruas. Calado, sozinho, espero que amanhã eu tenha disposição para o trabalho...

6/04/2010

Anotações de uma viagem a Estância - SE (nos 100 anos do meu avô Oscar, homenageado pela criação da primeira escola de ensino médio da cidade)


1. Homenagem na igreja

A credibilidade dos anjos foge aos saduceus:

Eles perguntam ao cordeiro
Qual dos 7 irmãos desposará a mulher amada no além-morte.

Mas o cordeiro tem ódio no sangue e é o ódio do leão
Que responde:

Raça de víboras, como vocês pensam escapar à ira?
Se os anjos usam controles remotos
E microfones sem fio pra soprar a dúvida em seus corações
Soberbos, ostensivos!
Como saberão?

2. Homenagem na Câmara de Vereadores

“Qual dos 7 vereadores desposará a obra destruída
No aquém-vida?”

Porque as paredes da escola,
Desabitada, retém a alegria das crianças
Vozes de anjos, na parede azul
Pra quem sabe ouvir, mas de volta ao momento solene:

“Quem abrirá a caixa-preta, o tiroteio
Simulado nos discursos, a caixa-preta
Da chuva e da ventania, a caixa-preta
Do passado que não passa, que não passa
Mesmo quando morto,
A caixa-preta dos olhares sinuosos, do tempo, do silêncio insinuante,
Caixa-preta da morte e da insistência
Na vida, o próprio mar é uma imensa caixa-preta
Quem a abrirá, quem sabe dizer a sua língua?”:

Esta terra, Estância, Esta mar: Estamira?
(Invoco meu anjo predileto), quem abrirá
A caixa-preta do afeto: a anti-retórica, uma senhora
Que tapa o microfone com as mãos
E fala de lado e se perde na caixa-preta de sua própria vida
Enquanto os vereadores se contorcem nas cadeiras
Simulam ouvir entre risadas, procuram a metáfora perfeita
E aplaudem.


3. Agora podemos falar de anjos

Esta manhã está cheia de anjos, de uma beleza quase invisível:

Vejo crianças de 60 anos preparando uma peça de teatro no quintal,
Vejo uma velha chorar pelo filho morto em desastre,
Aos treze anos de idade.
Vejo uma luz intensa e fria brotar do cinza de veludo das nuvens
Que amortecem os coqueiros

Vi sanguessugas na estátua mutilada de Tiradentes
Vi um corvo bebendo a translúcida e fria água de coco
E vomitando bílis sobre a memória, e mesmo estas visões
Não embaçam o que vejo dos anjos
Através das gotas da chuva no vidro do carro
Enquanto passamos por Estância.

E vejo a memória e agora a memória é uma senhora vestida de estilhaços
Com a pele recoberta por tatuagens, nomes de todos
Os que passaram e que passam, e vão passando
Tentando cravar os dentes na pele macia da Memória
Dentes que vão se dissolvendo, sumindo,
Mesmo no dia da homenagem em que o pão se transmuda em carne
Em que senhoras de 60 anos viram crianças de 13
Em que a luz é fria em pleno verão e quando os urubus
Finalmente
Vomitam bílis pelos olhos, mesmo nesse dia
A carne da memória é tenra demais pra estes dentes e
Demais ácida e quando eles a mordem, eles e não ela vão sendo digeridos:

E por isso vejo que essa é a natureza dos anjos,
Não quero só “dizer paisagens, porém sonhos
Nada de saudades, porém esperança e desejo,
E falarei da amada”, Mário Faustino,
Porque um beijo seria mais natural à beiramar.

Vocês viram a ressurreição
Da infância no jardim?
Vocês viram o ritmo impecável
Do cinza e do branco na manhã?

Mesmo os saduceus, com a medida certa de quintal e alegria
Viram anjos nesse dia.

6/01/2010

Aproximação a ee cummings

há tanto tempo meu coração esteve com o seu

dentro de nossos braços entrelaçados
numa escuridão onde novas luzes se acendiam
e se intensificavam,
desde que sua mente caminhou rumo ao
meu beijo como um estranho
rumo a ruas e cores de uma cidade -

que talvez eu tenha esquecido
como, sempre (por estas
cruezas velozes
do sangue e da carne)o Amor
cunha Seus gestos graduais

e esculpe a vida em eternidade

- depois do que nossas almas são museus
cheios de memórias habilmente amontoadas.