2/11/2013

Artesanato morto-vivo

1.
Estou sentindo novamente.
O chão do apartamento é de areia e está todo marcado por pegadas de estranhos.
Me deito e flutuamos no vazio, numa cama barco esquife trancada por fora.
O universo é uma pétala transparente, ilimitada cápsula.


2
O pensador embalsama a jovem mulher e guarda a múmia num caixote, depois coloca o caixote num barco-esquife e solta o barco num rio qualquer. E é isso que se chama de artesanato zumbi – conceito essencial para a correta compreensão da história das idéias.

3.
Sempre que imaginamos, contra a intuição, estarmos num planeta em movimento é como se girássemos lateralmente. Nunca pensamos que estamos num movimento de roda gigante, subindo e caindo. Evitamos a respiração suspensa no ponto mais baixo da queda – e seria pior uma queda livre? Ou o pior é saber que a queda é apenas o recomeço e lá em cima teremos novamente que olhar para baixo e puxar o ar com força – antes de cair outra e outra vez?






4 comentários:

Arnold disse...

Daniel, fiquei curioso...

Poderia me explicar essa ideia que você colocou na segunda parte? Sobre o artesanato zumbi como conceito essencial para a correta compreensão da história das ideias.

Daniel F disse...

não pensei em história das ideias como a área de história das ideias e não sei se foi por aí sua pergunta. é a história da vida das ideias, de como elas passam entre as gerações e de como elas "entram" em nossas mentes. ideias são os mortos falando com a gente ou mesmo na gente.

Arnold disse...

Entendi. Só o que é morto desprende matéria, deixa vestígios. Por isso tenho um problema vertiginoso em relação às instituições mentais... tem tanta gente que lida com esse "mundo das ideias", de um jeito, como se pegasse o defunto a toda hora e retocasse a maquiagem, desse um perfume que esconde o cheiro de osso decomposto. Lembrei do provérbio: "move teu carro e teu arado sobre os ossos dos mortos".

Sei que esse meu problema não encerra a solução do próprio, nem a verdade, assim como ocorre com qualquer problema em relação a qualquer coisa. A resposta que consegui para isso encontrei no Tao Te King/Ching: a anarquia, ao modo do Tao, dispõe de uma "autoridade natural na vertical-horizontalidade da existência humana", que estaria corporificada no bom governante, que não governa como ego-vivente, mas cosmo-vivente.

Enfim, dei uma viajada, mas é isso mesmo.

Arnold disse...

Essa ideia na qual toquei, da autoridade natural, acho bem complicada, porque apesar de eu detestar autoritarismo, acho a ideia válida. É o poder que mantém o fractal fractal, e não círculo ou quadrado. Acho um assunto bem fértil e prazerozo, talvez por um fetiche meu com o poder. Não sei bem em que tipo de relação com o poder, mas acho que no sentido de "meu poder" mesmo.