11/11/2011

Por dentro do teu ódio

O ódio da horda caçadora por dentro do teu ódio
dentro do teu ódio o ódio das ratazanas contra outras de outra ninhada por dentro do teu ódio ninharias milenares dentro do teu ódio o ódio de gerações por dentro do teu ódio as guerras que estão sendo planejadas dentro do teu ódio todo sentimento é lenha pra fogueira do teu ódio por dentro do teu ódio quanta alegria alheia como uma pedrada na boca do teu ódio por dentro do teu ódio a nostalgia dentro do teu ódio por dentro do teu ódio uma mistura de remorsos e respostas afiadas teu ódio por fora

floresta de dentes ou por fora teu ódio macio como caninos disfarçados de pétalas fora do teu ódio quantas palavras bonitas em teu ódio por fora ou severas: lágrimas, castiçal, fato, flora, metalinguagem por fora teu ódio também se arma de conceitos e as pétalas afiadas e brancas são viscosas de veneno gorduroso por fora do teu ódio o aroma de perfume

excessivo

dentro do teu ódio toda descoberta é tardia por dentro do teu ódio a soma alucinante de desistências e sacrifícios dentro do teu ódio algumas boas verdades dentro do teu ódio que cresce em você como um feto de dentes afiados que você acaricia com unhas de ferro por dentro do teu ódio a certeza do desejo da vitória e como é mesmo o nome daquele sábio chinês que mandou decapitar os covardes por dentro do teu ódio você pensa que seu dia vai chegar de dentro do seu ódio quem mandou você nascer por dentro do ódio neste maldito mundo de ódio por dentro de um elevador com serviçais carregando as malas do teu ódio por dentro do teu ódio nadando como um peixe num aquário de ódio e fora do ódio você sabe


é o absurdo e nada
te deixa mais por dentro do teu ódio quanto


o absurdo.

2 comentários:

Marceli Andresa Becker disse...

Preciso visitar mais seguidamente o Língua... Este texto dilacera os olhos, acaba com as ínguas (línguas?) do pescoço do leitor.
A repetição de 'o ódio', 'dentro do ódio', cria aquela atmosfera de espiral, sintoma de loucura, de absurdo. Nesta linha espiralada não há como chegar em algum lugar nem como voltar. Por isso, talvez, o texto todo seja claustrofóbico - e a sensação ao final é a de que um filha da puta roubou o teu fôlego, a miséria de ar que ainda guardava para sobreviver.

Muito bom, Daniel!
Beijo,
Mar

Daniel F disse...

era isso mesmo que eu queria, Mar. passar essa ideia de claustrofobia do ódio, como se o ódio existente no mundo fosse uma daquelas bonecas russas. mas de um jeito meio estranho: o ódio "maior" dentro do "menor" e assim por diante. como se os ódios que movem a história, as guerras etc estivessem contidos no ódio do vizinho.