3/09/2007

nº 6




Rezava um verso, ele não era meu, mas raptava todo meu amor em seus enigmas,
mais que suas luzes seus enigmas e eu só pensava em roubá-lo, roubar
o verso e ir pra Calicute, Serendipity ou qualquer destino de nome impronunciável,
tanto que lhe impedisse o acesso às almas não iniciadas,
almas que batem portas quando passam, olhando a si mesmas
não vêem que delicadeza lhes estende um gesto. E por me disfarçar
na viagem, vesti o verso roubado até perceber que nele me tornara,
sua melodia na música de meus dias, seus silêncios em meu silêncio e
seu enigma em meus olhos. Agora, no meio do caminho,
Serendipity não existe, Calicute, ou que Oriente pra lá de nunca termos sido –
só esta lembrança do verso que rezava um mistério, e nunca houve mistério
decifrado –o mais é uma lembrança de peixes
aos quais nada importa, o futuro em que tornados fósseis
farão visada à poeira das estrelas
e seu olhar será apenas um oco onde se irá perscrutar imagens tão belas,
imagens belas, abissais e belas, e sal e areia
e espuma.




(das Notas Marginais)

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