10/26/2011

sábado em copacabana

a menina olha o mar
do outro lado da avenida Ela está parada
no calçadão enquanto
os carros passam
as noites passam
as suas chances
passam enquanto seus olhos
trilham o meio do breu das águas
e se perguntam onde foram parar
os dólares e os euros
que clientes americanos e italianos
largavam em cima
do lençol molhado de suor
e esperma Ela não sabe que a máquina
de fabricar notas verdes
está emperrada no além
do breu das águas e os gringos
andam agora com as mãos
nos bolsos no olho
da rua Ela tem sonhos
psycho em que dança
nua com as colunas de uma igreja
abandonada entre
espasmos
numa batida trance
numa batida trance
numa batida trance Ela
tem sonhos ácidos em que seus dedos
gozam quando tocam as notas
verdes que saltam de uma pauta
como cédulas de cinqüenta
na batida
do funk Ela tem sonhos
mínimos em que seu corpo
acende feito neon quando milhões
de mãos se esfregam
em suas pernas
perfeitas de cleópatra
do subúrbio
e seus poros aspiram moedas
que douram seus pelos
como água oxigenada e vão
direto para uma conta
bancária através de cabos
subterrâneos Copacabana
é um delírio nas retinas, este lugar
é um sonho em que você
não consegue dormir uma noite
que seja, ela
pensa de dentro
do inferninho da beira da praia
à meia-luz Ela tem sonhos
turvos com um paraíso
cheio de lojas que seu dinheiro
pode comprar porque Copacabana
tatuou em sua pele
com saliva
todas as línguas
que o mundo fala
quando não quer
dizer nada

5 comentários:

Daniel F disse...

me fez pensar no João do Rio.

Aldemar Norek disse...

e isso é bom ou ruim????
ahahaha
Abraço!
Aldemar

Daniel F disse...

o que voce acha?

hahaha

brincadeira, não quero bancar o silencioso psycholacaniano: eu acho ótimo.

Marceli Andresa Becker disse...

Poema inteiro muito visual, coisa de cinema... e o final é pra decepar mesmo, "as línguas que o mundo fala quando não quer dizer nada"...

Gosto muito da versificação, dos cortes surpreendentes... A maneira como tu conduz pra que o leitor vá entrando neste silêncio-vazio-aspereza-funda que é a cabeça-de-sonhos-tolos-de-todas-as-línguas da menina que olha o mar do outro lado da avenida...

Curti muito, Aldemar :)! Deu vontade de pôr tbm no De Ter de Onde se Ir, daqui uns tempinhos. Pode?

Beijo!!!
Mar

Anônimo disse...

Mar, é uma alegria pra mim o modo como você e o Daniel conversam com estes troços que escrevo, e mais ainda porque me identifico demais com o que você e ele escrevem, pelo que é dito e pelo modo como é dito. Daí que estar no De ter onde onde se ir vai ser uma multiplicação desta alegria. Obrigado, Mar! Beijo :)