12/18/2007

Fazer o quê?

O branco persegue o azul. O branco assassina o azul
e a vista cansada ao
sol de dezembro injetado na veia -

Areia quente e branca nos olhos.

* * *


Mal saio de casa
e a poesia me persegue;
a poesia não cabe
em qualquer teoria, a teoria
persigna a poesia.

* * *

Meu irmão me disse que só sabe que amo porque escrevo. Fazer o quê, prezado leitor?

* * *

Não diante do senso, do Juízo
de Oito-Olhos
basileu desta cidade
esburacada pelas crias
de um buraco-negro

(o Aleph não,

o Aleph é teologia barata e falando nisso não sei porque tanto se diz que o diabo pressupõe a existência de deus. Pode ser que apenas o diabo seja, ou deus esteja

usando silenciador em seu revólver)

* * *

Uma cratera pode se abrir
e te tragar em cada esquina,
há no subsolo de Campinas
uma porção de ampulhetas
sedentas de areia branca.

Fazer o que, prezado leitor?
Calar-se?


Olha olha
O silêncio
cala fundo
cava fendas
cria calos
em tudo o que digo, além disso

não há silêncio &
silenciamento é o que há

o que há é o silenciamento
apenas,

e seus mandamentos
gritantes, por sinal.

* * *

Tudo o que você deixou de dizer virou um carrapato nesta língua
anêmica,
onde a palavra
jaz esquecida

(na ponta da língua)

ou numa tradução
equívoca
de Philip Larkin:
a roda
da vida
é foda
mas se pode
escolher
se outro inocente
vai se foder
com a gente.

* * *

O verbo não se fez carne
para o cala-te boca.

O terminal rodoviário cria musgos pelos desejos perseguidos
e assassinados, enquanto trocamos impressões sobre o clima
alguém jogou uma pedra na janela do 331,
minha linha,
ainda se vê a mancha de sangue onde o menino foi atropelado
que lembra a marca do corpo do jovem que se suicidou aos pés da rádio muda.

e alguém me dizendo mil vezes que no mundo se fala demais.


3 comentários:

Aldemar Norek disse...

Isso aqui é genial, Daniel - embora não goste da palavra "genial", pelo conceito (esterilizante) que embute, e seus jogos (antiquados) de poder.
abração.

Daniel F disse...

Eu também não gosto da palavra, Aldemar. Mas porque pra mim genial é aquela versão antiga da Maria Bethania cantando Tres Apitos, ou Nara Leao cantando o Cuitelinho, ou um blues, sei lá, BB King cantando pra Lucille, ou aquela música Los Mareados.

mas vindo de você, sei que vem cheio de amizade, então recebo assim.

Grande abraço,

Daniel.

Aldemar Norek disse...

a gente podia incluir aqui todo o Noel Rosa ("pra que mentir/ se tu ainda não tens/ esse dom de saber iludir"), o Cartola e o Nelson Cavaquinho. O Bukowski. E todos os que não seguiram exatamente as regras.
Quanto à amizade, podes crer amizade.
abração