2/21/2010

Sem título

Eu diria coisas interessantes, te elogiaria na medida certa, sem aquela coisa de ficar babando, você riria bastante, não haveria nada nas entrelinhas, no final de tudo você me beijaria e me daria o pouco de carinho a que eu fizesse jus. Eu não comentaria aquela coisa sem nexo que gente e cachorros é que podem ser filhos da puta, gatos não. Eu não acordaria numa ressaca daquelas, a situação é cômica baby. Na vida real não chamo ninguém de baby, é brega pra cacete, mas pensei nisso por causa daquela música, você precisa saber da piscina, da carolina, da margarina, baby eu sei que é assim etc. Você ia gostar se eu cantasse pra você? Ou ia achar uma puta xaropada? Na vida real eu não canto, não precisa se assustar. Hoje de manhã a gata que mora comigo, gato da espécie dos felinos mesmo, estava miando de um jeito meio esquisito, fui olhar e ela estava miando pro espelho. Será que ela está passando por aquela fase lacaniana? Pensei. Mas que papo mais sei lá, hein baby. Então como eu ia dizendo, a situação é cômica. Eu, numa ressaca escrotíssima e tenho que sair de casa. Por quê? Dá um pouco de vergonha falar, mas vá lá, você precisa saber do que se trata, acho que sou um otário, é porque minha ex-mulher quer ficar umas horas com a gata e usar a impressora. Minha ex, a gente se separou tem umas três semanas, ela saiu de casa me dizendo que meu sangue não presta, que não devo reproduzir minha miséria. Ela disse que queria ter filhos comigo, apesar disso. Não entendi a segunda parte, porque meu sangue não presta mesmo. Você acha que eu pensei que ia te fazer rir com essa autocomiseração? Não pensei nisso, conversaríamos sobre outra coisa. Também sou contra ressentimento e detesto quem usa literatura como álibi, to pensando numa merda de um livro que li tem pouco tempo e como o escritor pediu pra comentar falo aqui, só pra você, ele tem a cara de pau de dizer que só escreve obra-prima, tudo bem, ele escreveu duas e isso bastaria pra qualquer um e tirando o clichê que o fulano também usa pra se esconder eu até diria que isso não é literatura, é uma carta. O papo é que não me deu vontade de falar nada e hoje estou aqui de ressaca e por isso imaginei como seria se a gente tivesse conversado e você me beijasse somente a título de boa noite. Pois é, não sei se curti aquela sinuca subterrânea. A música era boa, mas tive um ataque de piedade por todos que estavam lá. Tudo muito escuro, o ambiente meio avermelhado, os jornalistas comentando que a juventude de Brasília já foi melhor. Deve ter sido na época deles, como os mortos gostam de dizer. Pois é, catacumba. Mas, tirando isso, foi divertido. Uma hora eu estava sentado pensando em nada e você me olhou e sorriu, fez uma mímica como se estivesse tomando uma pílula, você achou que eu estava drogado?, eu sou assim mesmo baby. Na hora que você foi embora apontou o dedo pra mim e sorriu de novo. Não entendi a mensagem, só achei tudo muito bonito. Não quero interpretar, pra não parecer pretensioso ou expor autopiedade – vivo nesses extremos, baby. Melhor deixar quieto. Todos de ressaca, estou fodido. Vou ter que sair de casa, não sei pra onde, nem com quem. Domingo sozinho é foda, só tem famílias nos restaurantes você sabe. É dia de ficar em casa. Mas eu tenho que sair, não sei pra onde. Acho que vou dar um pulo na biblioteca, mas estou completamente sem cabeça pra ler. Eu cheguei em casa umas seis da manhã, dirigindo, pensando numa poesia que escrevi tem um tempo, digo que é uma merda talvez por vaidade, não é tão ruim assim, mas também não tem nada demais, a poesia termina assim: a única beleza espontânea desse dia foi aquela que aumentou sua solidão.

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