Quando você é vulgar: apenas negocia convenções, não domina os segredos, qualquer um pode dizer que árvore é o nome de uma cidade, que cidade é o nome de uma arma, que arma é um sentimento, que sentimento é o nome de um faraó. A língua epistolar é a conversa vulgar no desentendimento, mesmo que este ocasione encontros repentinos e imprevistos. É quando uma criança autista diz pra você: se o mundo gira, porque você não fica tonto?
11/09/2007
Novo Pequeno Dicionário de Aproximações
Todo mundo escreve um ao longo da vida, mesmo que não utilize qualquer tipo de caracteres convencionalmente entendidos como escrita. O que muda é a quantidade de certezas (leia-se: mentiras) em que se acredita e o estilo da prosa. Os dicionários que explicitamente ostentam este rótulo são os mais enfadonhos e presos a coisas nem um pouco importantes. Quase nada é importante.
Mapa(s) – (s.m.)
São registros de impressões, através das quais você tenta articular uma lógica para os caminhos que percorreu, com maiores ou menores danos. Mas não tem lógica mesmo. Assim como as órbitas constroem a falsa sensação de ordem e não passam de elaborações de um desejo de fixidez que sua mente (ou seu corpo) produz para não arrojar-se em definitivo pelos vazios que se sucedem infinitamente. Os mapas podem doer como as fotografias, talvez porque tentem capturar um instante que flui nesta vertigem, e não adianta rasgá-los, eles se fixam em seus olhos como areia. Os mapas podem doer porque trazem pedaços da geografia, representam lugares onde você ficou como um detrito e ainda assim foi em frente, a despeito dos pedaços pulsando sobre o pavimento.
Novo (adj.)
Rótulo aplicado às mesmas coisas, repetida e sucessivamente ao longo da História, para iludir os outros de que se está criando algo diferente. Muitas vezes para iludir a si mesmo, o que é sempre mais fácil e rápido, mas não menos doloroso. No primeiro caso existem sempre motivações mais políticas (leia-se: poder) do que estéticas, embora sua cartilha nunca mencione a palavra “poder” ou mesmo a desqualifique (como algo não desejável). As poucas pessoas que de fato criaram qualquer coisa de diferente não ligavam pra isso porque tinham assuntos mais importantes e sérios a tratar e, talvez por este motivo, tornaram-se clássicos.
eu, Éluard e alguns unanimistas
Poema tirado de uma notícia de e-mail
Pode-se não sentir nunca uma primeira dor no peito, durante um ataque cardíaco. Muitas pessoas que tiveram um ataque cardíaco enquanto dormiam nunca mais se levantaram. Mas a dor no peito pode acordá-lo do sono profundo e livrá-lo do sono eterno.
Se assim for, dissolva imediatamente duas Aspirinas na boca e engula com um bocadinho de água. Ligue para o 193 e diga “ataque cardíaco!” e que tomou 2 Aspirinas. Sente-se numa cadeira ou sofá e espere pelo 193. NÃO SE DEITE!!!!
Pense no poeta confinado num quartel, o livro aberto sobre o criado-mudo, o ilegível Território Humano. Pense nas bitucas de cigarro que se acumulavam ao redor da cama. Pense no poeta que andava sem rumo na cidade circular, devaneando sobre como caberia no terreno de uma polegada quadrada; o poeta que foi encontrado morto depois de semanas, por causa do mau cheiro. Pense no detalhe patético dos pacotinhos de sopa Knorr em seu apartamento.
11/08/2007
nº 64

profundos, sem fundo, que você
enche e esvazia de tristeza, desespero,
amor, esperança, desesperança, alegria,
solidão, entre afogamento e
asfixia. Ainda que sem fundo, tudo
parece transbordar a certa hora, aquela
em que as mãos deviam poder se cravar
bem no centro e rasgar o invólucro do peito.
As mãos são frágeis e não podem mudar
destinos, elas se iludem ao fabricar
artifícios, se iludem moldando vasos, tirando
som de cordas tensas, riscando
versos, acenando, acariciando – elas são frágeis
e não podem nada, nem rasgar o peito até
a bomba que pulsa por detrás, o que seria
o único suicídio bom e justo, rasgar-se
sem o recurso de qualquer artefato.
Resta então resignar-se à sua cota
de dor e admirar a ilusão dos outros de que
o Abismo é distante, lá onde desapareceram
embarcações e monstros, além da linha
do horizonte - ou então
é o vazio depois da última estrela.
11/07/2007
Novo Pequeno Dicionário das Aproximações
Se você não sabe o que é isto mas teve a percepção de que não é boa coisa, talvez não seja um idiota (ou pelo menos não seja um Idiota Absoluto, pois existem idiotas que, apesar de sua condição, conseguem por períodos curtíssimos de tempo elevar os olhos um pouco além da lama que os rodeia). Sair no arroz é como ir a uma rave e não pegar ninguém, sair com uma mulher que você está a fim e não comê-la ou ainda realizar qualquer coisa meritória (uma ação, um afeto, um gesto, uma palavra) e não receber a contrapartida por este gesto (um romance histórico, a Bíblia, defende em meio a suas estórias a idéia deturpada da não necessidade de contrapartida, contrariando os princípios da própria Natureza que teria sido criada pelo Deus que inventaram ali - talvez por este motivo o autor não quis se identificar e ainda colocou uns fakes como co-autores pra tumultuar). Provavelmente esta expressão venha do Oriente, onde hordas de miseráveis têm apenas o arroz como alimento e ainda ficam com aquela cara de que não está acontecendo nada (e de certo modo, pensando bem, não está mesmo) – aqueles que deixam de ser miseráveis adicionam coisas no arroz, feito algas, peixes, legumes, frutas e especiarias (por exemplo, o gengibre que, para quem não sabe, é afrodisíaco), e aí já não saem no arroz. Como os do primeiro grupo poderiam ter destino pior, ou seja, não terem nem o arroz, sair no arroz não é a última escala do fracasso. Você podia nem ser convidado para a rave (e ainda pegarem a mulher da sua vida por lá).
O Marginal no Museu da Língua
Tenho medo da noite porque meu sangue é noturno. Na minha cabeça arde uma estrela desenhada por uma criança que sonha com ventiladores, com estrelas que giram e produzem vento, como se impulsionassem as mãos renascidas de um deus morto. Quando fecho os olhos sou toda a noite por dentro. A noite me reconhece porque sonho com olhos opacos e cegos que me olham e não me encontram no quarto escuro. Tenho medo destes olhos porque são os olhos da noite quando me enxerga e sabe que sou uma sombra oculta sob outras sombras, outras sombras ainda, em direção ao passado, ao mar noturno, ao castelo de areia em que dormem anjos noturnos mastigados pelos dentes noturnos do mar. A noite não se contenta com a profundidade das coisas ocultas, arma-se com visão infra-vermelha, joga um brilho azul berrante na sala do apartamento, torna a madrugada piegas e colorida. Tudo é deserto. Mas tudo tem que ser aceso e tudo tem que falar na noite desta cidade que já matou sua raposa há tempos imemoriais, esta cidade solar como o trono dos tiranos, como a andorinha absurda e obesa que nos vigia em seu pedestal dourado.
11/06/2007
Novo Pequeno Dicionário das Aproximações
Pode ser você, ou não. Se você acha que não é, muito provavelmente é; se sabe que não é, ainda assim corre grande risco, porque entre achar e saber o limite é nebuloso: tem gente que acha que sabe quando apenas acha, e tem gente que sabe mas acha que não sabe e às vezes até com razão. Para todos estes casos só a ajuda de Deus, que a gente acha que existe. ( O autor destas linhas não se exclui, em absoluto, desta categoria – afinal, entre achar e saber, etc.).
Maluco (s.m.)
É você, naquele exato momento em que está acreditando em alguma coisa, qualquer coisa. Se esta afirmativa o incomodou, relaxe: são muitos os malucos e talvez todo mundo o seja por mais ou menos tempo.
Miragem (s.f.)
Tudo aquilo que você ama, ou amou. As miragens têm a incrível propriedade de se travestir em coisas sólidas, palpáveis, reais. Mas são miragens. Talvez você também seja uma.
o sumido (e outros xingamentos)
e quebraram
a merda do muro
pensei: vou re-tornar
a ser e(x)spontâneo
nunca ganhei nada
em ser_
SENDO
para colocar a bosta
de um registro
da cia. de água
sinto que tudo
está sujo
sinto-me sujo
ao fundo mais
destroços
e entulhos
aceita-se mais entulhos
mais 1 ano
1 ano
e todos ao sul
mais sós
ainda cantam.
cantamos.
11/05/2007
Feliz Aniversário, Epistolares!!!!

Novo Pequeno Dicionário das Aproximações
Significa que você não está lá. Significa o desejo de entrar, como quando se penetra um corpo atrás de alguma outra coisa além do corpo (que pode não existir ou ter se mudado, não há garantias nem mapa). A tal da raposa que atravessa o grande rio e molha a cauda: infortúnio – ou algo feito morder as bordas da boca, limite. Perder-se.
nº 63

de exilado, ‘as paredes estão cansadas, cara’, ela disse, e as gaivotas
fingem não ouvir a ladainha aqui na praia
onde no ar estas linhas riscam pela concentração
da pólvora do seu ímpeto no mesmo circo
aéreo onde hoje afloram estoques do passado, amor, fracasso, silêncio, tudo
a favor da combustão que torna tórrida a terra
seca, a terra fria
e seca em que antes floresceram (em você) dúvidas
e primaveras.
11/04/2007
Novo Pequeno Dicionário das Aproximações
Parece que a principal questão aqui é refutar as abordagens dimensionais e acercar-se do conceito de densidade. Podemos nos afastar da compulsão de sermos exatos e recorrer àquela imprecisão comum a crianças e poetas: não se trata de vastidão ou profundidade, mas de peso e dureza. Alguém já deve ter utilizado a imagem do camelo em desalinho sobre a areia escaldante, arfando sob o massacre da força que o esmaga em direção ao solo, no seu olhar vazio a dúvida sobre o porquê lhe teriam aplicado tamanho fardo. O escritor contemporâneo Lalo Svoboda praticou esta visão num livro esgotado (“Você se fodeu, amigão”), onde se evidenciam algumas elaborações em torno deste conceito: impenetrabilidade, atrito, campo de gravidade.
Diálogo (s.m.)
Farsa habilmente desenvolvida desde os primórdios, causa forte impressão de que duas (ou mais) pessoas se comunicam. Um poeta e ficcionista grego (que gostava de se esconder sob outra denominação), na Antiguidade, tentou sistematizar sua forma e extrair-lhe novos usos, em vão: tudo não passava de sua visão deturpada de poeta (opróbrio acrescido pela tentativa de ser fake de um poeta maior em sua loucura, o suicida) Provavelmente sua função se atém aos organismos e sua preservação, no sentido de expressar as necessidades mais básicas como comida, sexo, calor, repouso, do mesmo modo como o vôo das moscas não tem outro sentido que o de moverem-se sem direção rumo a coisa alguma, extraindo da improbabilidade a surpresa provisória do alimento. Uns loucos já acreditaram, por maiores ou menores porções de tempo, que serviria para expressar indagações metafísicas, amor ou amizade. Contemporaneamente desenvolveram-se variantes deturpadas desta prática, utilizando-se os dedos no lugar das cordas vocais, o que não cumpre sua função orgânica e dá causa a outras tantas confusões, numa seqüência de simulacros sucessivos, embora sem relação aparente uns com os outros. Sem falar da L.E.R., o que denotaria o deslocamento de função. Ter lido todas estas linhas acima também não adianta nada: você só vai entender o que você quiser entender, caso queira.
Exílio (s.m.)
É o lugar onde você está. Algo como a fila do lado andar sempre mais depressa, sem importar em qual você entre. Não adianta mudar de fila. Nem de lugar. Poderia ser chamado de “deserto” mas é bem pior, o que se acentua progressivamente com a aproximação da morte (real ou metafórica).
Sexo (s.m.)
Tudo que pode ser dito se resume a uma palavra: memória. Passa por este território deixando profundos sulcos e todo o resto é acessório ou fetiche, deambulações em torno do nada, com maiores ou menores contradições. Desde a memória da pele (com ou sem a metáfora da “Rosa Tatuada”) aos estragos que o desejo possa imprimir numa alma permeável, no fim esta palavra é fonte e foz, nascente e desembocadouro.
11/03/2007
nº 60

de uns olhos, talvez agora mais deserto
pela ausência de corpos, sem a ilusão
do calor da pele contra a pele úmida. “Sossega, apara
o maremoto, a parada aqui
é pós-moderna , cara”,ela disse, logo pra você
que odiava esta palavra tão cheia de requintes
como a crueldade, a mesma
com que avançava em riste, sedento,
de encontro a moinhos trêmulos
e febris só pra ver se, enfim,
algum deles, qualquer um, despedaçava
a sua carne e a alma ia embora
de roldão.
(das Notas Marginais).
Pro dia nascer feliz
11/02/2007
nº 45

Você segue conectado e traz na agenda
ou nos bolsos 5 ou 6
telefones colhidos ao acaso, no mesmo passo
com que arrancaria flores de canteiros. Atrás
de cada número caminha um corpo que só quer afundar
no próprio espanto,
depois que a chave da língua desenhar códigos de acesso
úmidos
no pergaminho da pele até chegar à orla
do abismo
onde se verte uma primavera líquida
sobre si mesma, sempre
sobre si mesma, no vazio
de qualquer promessa. Não há como dizer isso, tudo
se precipita, mesmo que além dos limites
da pele, em um sobrevoar
de corpos estendidos, a memória devastada se arvore
na guarda do silêncio. Depois, os trens
que rasgam os subúrbios entre silvos
aportam numa estação
de sombras, carregados
de outros dias
amputados, no bojo reluzente
dos vagões.
11/01/2007
LER*
A fachada do hotel neoclássico internacional está ruindo.
No pontiagudo elegante da cidade ao som de vidro espelhado digerido e cagado pessoas andam com as mãos sobre as cabeças:
um tijolo lançado pela fúria do hotel é morte quase certa, ou no melhor dos casos internação de uma semana no Spa Kkhativo.
À sombra dos tijolos matadores costureiras anêmicas comedoras de miojo representam o botão de rosa que inevitavelmente cairá do pano de prato, representam também a lamentação do beija-flor contra a morte precoce da rosa.
Na calçada, com seu guarda-chuva de açougueiro, o síndico com sua roupa preta de jargão publicitário, com os oito óculos escuros e as pupilas dentadas ruminantes afirma que tudo não passa de hotel, estação de trem, reclama um edifício mais sólido.
Ambulantes anunciam tacos de beisebol, porretes de visão infravermelha e muita muita dettera pra você comer domingo de manhã.
* Lesão do Esforço Repetitivo
10/29/2007
nº 55

da areia num ímpeto veloz, com ou sem
vista para o mar, desnecessárias, ao lado de mensagens
extramuros, fora
de qualquer porta, mais
lá fora que você agora, luminosas
ou sem luz são só eclipses
do sentido em sua vida
sem adornos dentro de uma cápsula, num bólido de lata
sobre rodas que arrasta a pique seu corpo
para o esquecimento e a ruína, no frio
artificial em que suas retinas amplificam
tudo que vaga abaixo da pele
do mundo, enquanto
você insiste e segue avulso
como uma caixa da qual ignoram
o destino, no extravio
desta tarde.
(das Notas Marginais)
10/28/2007
nº 56

um porto ou um jardim, você
disse a palavra, 'é inaudível, eu sei', você disse sem resposta, sem
estoques de esperança ou mapas, não rola
pela ponte cediça em que você está
sozinho, não rola
aquilo que reverbera, e então,
olhando ao largo, arrisca: “arregaça, arregaça
os punhos, paixão, e termina logo
com este estupro, como quem
não quer nada”, mas no deserto o som
atravessa a miragem, que diz “não sei mais
como lidar com isso” e segue, na vertigem
do infinito.
10/26/2007
nº 54

da inocência, ou mais além do pavimento
duro, se fosse tão gasosa assim
a matéria da alma que num ponto
nunca definido arranca um grito
ao ar quando atravessa os tais
dos campos vastos, triscando balizas do tempo, lentamente,
fingindo obedecer a relógios
e, neste empuxo,
despenhar-se junto aos dias e às promessas
só pra aumentar o monturo e os escombros
a seus pés.
10/25/2007
Partido, o erro é meu
A vida gira em torno de eixos muito simples.
Domingo. Brasília é uma tarde parada entre carros e o quase silêncio de seus reflexos na pista. Mas trancado no quarto eu finalmente mergulho na moça que me cativou o dia inteiro com uma cumplicidade displicente. Ela se liquefaz num rio que me suga para suas águas turvas. O quarto é um aquário e somos sua matéria-prima densa.
Ou uma tarde qualquer. A invasão mascarada sob condomínio fechado, a gaiola para os abutres de garganta seca é silenciada por uma luz singular. Um sol que não fere a vista, mas desce sobre o dorso das coisas e suaviza em tudo levemente dourado. Pela primeira vez, a cidade aérea tem profundidade. Meu irmão olha a paisagem. Minha mãe olha meu irmão e a paisagem. Eu, pela janela, vejo a varanda, minha mãe, meu irmão e a paisagem.
Há ainda a manhã se expandindo em azul-marinho dentro de outro quarto, quando Giovana abre a janela e o dia apenas começa, e o azul invade a tonalidade de seu rosto, dos seus braços. Os porta-retratos, até então escondidos no escuro, ganham os contornos de uma vida desconhecida.
Existem outros momentos, situações dispersas como túmulos na areia da praia. Ou a certeza de que a parede quente do apartamento aprisiona gritos, em voz baixa. Ou em frente ao muro, próximo ao mar noturno, a memória melodramática de um moleque mijando e chorando ao mesmo tempo.
Nada disso é perdido pelo Semprevigilante Oito-Olhos. O renegado Oito-Olhos e sua coleção de crianças mortas. Mas num dia de muita chuva eu jogo uma semente alucinada em sua consciência universal. Eu sou uma semente alucinada na consciência universal, mas ela não precisa de mim e segue seu curso. Ao contrário, eu é que me alimento dela como um autêntico parasita.
A poesia é um fruto delicado oferecido às garras de rapina da consciência universal. Por isso, ó senhora cansada e moralista, não renegue a merda da consciência universal, simplesmente. Não parodie a palavra merda. A merda está cheia de sementes alucinadas na consciência universal. A classe média fantasia-se de consciência universal em seu ninho de abutres mas abriga em seu refugo algumas sementes alucinadas.
O que fazer ó deuspai barbudo ó filho guerrilheiro impoluto ó espírito crítico se o máximo que sou é este miasma da história? Já joguei dardos na cara do cartaz do presidente. Já corri atrás da Perestroika no Itamaraty. Mas tudo isso ao lado de presidiários libertos, punguistas, trapaceiros, realejos, amoladores de facas, todos liderados por um velho saltimbanco.
Se eu aprender a rezar para o deus que deve estar por perto, já que o pressinto como um pássaro em minhas veias me ensinando que tudo pode ser leve porque todos têm o poder de voar e fazer sangrar a dita consciência universal, estes serão os elementos que me darão força para apostar numa nova fraternidade. O resto é o fluxo indiferente da vida, um peso morto que anda por aí e carrega meu nome sobre o mundo.
10/22/2007
10/21/2007
nº 51

não é nada mais do que outro lado
da treva: e mais que duvidar, você suborna
o coração com lances baratos, em surdina, até
que a iridescência perca sua autonomia,
em ciclos declinantes, sucessivos, como um prazer
ao contrário, bruto, até o chão. Deserto é tanto
o que sobrou quanto
o que estava antes, coalhado
de abismos escavados na planura. Quem foi
que ergueu esta montanha aqui?, ele disse quando galgou
ao cume, diante
da miragem do absoluto, o riso
apontando para onde o coração (deviam
inventar um nome melhor
pra estas deformações, ela disse, que se assemelham muito
a florações) insiste
em construir cenários
imprevisíveis, andando rente,
tentando descobrir porque miragens
nunca reencarnam.
10/20/2007
nº 53

relevos de pele, numa aventura
da cor e do som, do gesto (tudo
é deserto, ele disse), na terra trêmula,
e a salvação vem daí, é parte
dele ou erra exilada pelas paredes
ácidas de uma dúvida
que não cauteriza e nem
percebe ao certo. É sua alma o que vaza quase
todo dia em jatos e estertores, na hora
em que pesa mais, um pouco mais
que o corpo possa suportar. Salvação,
abrigo, redenção,
caminho, o que for,
veio tarde: seus pés
afundam no chão duro
e é aí que você vai ficar, convulsivo,
quando a miragem passar.
10/17/2007
Convite
10/16/2007
A escuta da história
O que pra vocês é história do Brasil chega aqui em casa pela linha telefônica. Uma voz interrompida, entre os chiados da ligação ruim e os da dor que se expande no corpo até desejar saltar pra fora em lágrimas, tão finas e profundas como as que já me tatuaram com agulhas fabricadas nos laboratórios dos Anjos Convulsivos. Lágrimas que faíscam como se o telefone fosse uma serra circular roendo minha cabeça, por fora e por dentro.
Mais além do que o aparelho alcança há um velho que fala sozinho em língua desconhecida e forjada por estilhaços que parecem ter sido um belo vitral, em tempos sem memória.
O velho está debruçado sobre o mapa de um lugar esgarçado, onde a desgraça é vendida, trocada e usada como matéria-prima na fabricação de moedas e churrascos.
A rede puída em que o velho espera a morte é o pergaminho da desgraça dos mortos insepultos, dos gritos torturados sob a castanheira grande e das crianças que ainda morrem de fome ou são sufocadas por latas de cerveja.
Meu cérebro é vidro moído, nele há uma bonita e muito triste mulher enterrando sonhos que não são apenas seus à beira de um rio silencioso. Rio que de tarde é vermelho, no anoitecer é roxo, à noite é negro e na madrugada uma cidade sem luz invadida por sereias com garras de aves de rapina.
Com esta matéria perfuro-cortante os anjos convulsivos preenchem livros adotados no Colégio Saber é Vencer. O professor digere as letras para as crianças o importante é o exercício cerebral. O senso crítico se lamenta, queixa-se patrioticamente do país que deu errado, fecha a cortina e apresenta uma alternativa de V ou F para o próximo vestibular.
10/11/2007
No lugar em que você está

a 360 m/s
e assim, se você estivesse aqui
agora,
meu verso saltaria no ar, num átimo
e como um bólido rasgaria o ar
até surfar em seu ouvido,
amargo ou doce, do jeito
que ele quiser.
o que você está olhando
agora, neste deserto
branco, é uma voz
suspensa, no meio
do salto, esperando você
chegar.
onde você está agora?
Nova metodologia para o Autoconhecimento
Fazer coisas inúteis dá muito mais
trabalho. Isso é pra quem te acusar
de desocupado.
Rei Lear.
Para piorar você era aquela história do menino que se escondeu no quarto e que de tanto comer papéis acabou se tornando um sapo peçonhento. O sapo que de vez em quando se abrigava na idéia de que as páginas brancas poderiam ser asas de uma grande mariposa. Mas, no final das contas, um sujeito envenenado que foi migrando e se desfazendo em estilhaços, parcelas de histórias alheias.
Está escrito em algum lugar que o destino de cada um é sua cota no cosmos, moira, mas isso pressupõe a existência de harmonia. O destino pode ser uma quase-ausência no turbilhão dos destinos alheios ou mera doença da linguagem.
Daí aquela constatação óbvia: todos te conheceram melhor do que você mesmo, mas você não se reconheceu em qualquer retrato alheio. Sua imagem mais fiel pode repousar num site (www.danielfaria.org, por exemplo). Mas você desconfia que sempre teve o dom de irritar carolas. E desconfia que ateísmo é presunção ridícula. E desconfia que melhor seria agir como o bom demônio e dar porrada nos mendigos que penduraram seu retrato no interior das autobiografias só porque você é uma esmola suficientemente miserável para o sentimento de satisfação que lhes basta.
Você, ou seja: o que você é. Sua última desculpa seria então, não importa o que eu sou, mas sim quem eu sou. Um cara confuso. Um invejoso mesquinho. A promessa do ano. Uma pérola. Babaca pra caralho. O libertário. O revoltado. O trator acadêmico, “eu achava que você era normal”. O que desafiou os leões e suas frases de roteiristas de desastres aéreos. O amigo dos porteiros, dos gatos de telhado e dos jovens massacrados pela horda dos professores ressentidos. O que gostaria de ser qualquer coisa destas, mas não é nada disso.
Não é nada disso mas, por outro lado, a situação assusta. O que fazer se você não acredita em horóscopo, espírito de época, teologia ou materialismo dialético? Foi por isso que num momento de desespero você virou a história daquele homem que acreditou na metodologia Oito-Olhos para o autoconhecimento, “fazer de sua alma um livro aberto”? E anotou os números que te localizam no mundo (identidade, CPF, CEP, telefone, conta bancária, data de nascimento) e foi à biblioteca em busca dos livros correspondentes? E no livro situado no número do seu nascimento, 090, página 37, linha 6, deparou-se com ninguém menos do que Petrarca e estas dicas: “a turba vai zombar de sua busca, mas persista espírito gentil”, “você é o tipo do animal que não descansa nem de dia nem de noite”, “você mais parece um homem selvagem apaixonado por uma fera”, “baixe a bola, a morte não se esquece de você”, “humildade é para os trouxas, eu quero a Laura, a Laura que tem a lua minguante como brinco”? No CEP, lá estava John Wisdom, Problems of mind and matter, numa página sobre conteúdo, componente, constituinte e forma, discutindo uma coisa que pode estar na outra sem ser conteúdo? Afirmando que, sendo o fato uma relação entre coisas, estas podem se aproximar sem comporem necessariamente um fato? Uma coisa como uma direção no vácuo, sem forma? A página termina laconicamente com a frase “isto explicaria seu”, isto parece certo.
No telefone você achou Paz Alonso, um livro sobre a história de Cuba no século XIX? Você não entendeu direito, mas pescou as seguintes frases, “você é um espanhol de segunda classe”, “você é uma coisa entre o reformador irreflexivo, o inteligente mas desfocado e o preguiçoso”? No CPF você leu Joseph Boskin, Sambo, na página que fala de alguém vestido como um palhaço, montado num cavalo, um escravo que dava cambalhotas para alegrar o coração dos proprietários e ainda ouvia a crítica de Josiah Quincy sobre o possível enegrecimento da alma das crianças brancas que se divertiam? E o número da conta bancária, então? Esta caiu na prateleira de Serviço Social, que tem por objetivo o homem racional e procura ajustá-lo, reajustá-lo e educá-lo? O importante é inserir o vagabundo em algum grupo, tendo em vista a felicidade individual e a utilidade social?
Certas coisas da vida são tão arrumadinhas que não convencem. Por exemplo, o fato de as obras completas de Menotti DelPicchia terem sido publicadas no Edifício Mário de Andrade. Ou o fato de que foi impossível encontrar qualquer livro que correspondesse ao número de sua identidade, apesar de todos os esforços. O bom demônio que se esconde no livro inexistente ensina: identidade não vale o esforço, a única ilusão digna é a liberdade.
10/06/2007
O outro convite
Sempre fui um penetra em minha própria festa. Na única ocasião em que usei casaca irlandesa, num jantar em minha homenagem pela vitória na competição de comer palavras emendadas e vomitar notas de rodapé, fui pego em flagrante ao roubar pedaços de rosbife e esconder no bolso. Era pra curar a ressaca do leite em pó com vodka, mas os seguranças armados com paranóia elétrica e distorções de Robert Musil não acreditaram.
10/04/2007
nº 50

Alguma coisa que não se resolve, e nem
é mistério, num monolito em suspenso
o rótulo todo rabiscado onde
está inscrito 'alma' entre outras besteiras (espia,
tudo aqui é fissura), essa conjunção
de partículas de treva parece ser
sua - aí, ele disse,
a crise atinge a página
do tempo, agora mesmo, e num instante você
se sente ligado ao presente mas
é só um efeito das palavras, na seqüência
de rajadas, e empena
acima o olho estoura
diante da luz
simulada.
10/02/2007
Verde verde vômito como amarelo – amor amor o caralho solidão – meu ego é minha cela meu sétimo selo ainda ontem uma criança desenhava em traços grosseiros o que bom dia ser uma forca mas era uma chave duas chaves voando ao redor de um trem tosco o que me fez pensar no corpo no corpo no cadáver no resto que era silêncio nos restos mortais no porque agora sim agora não agora sim agora não eu te amo meu bem ve se sai do meu caminho peste se eu entrasse naquele trem que mais parecia um funerária ferroviária desenhada num caderno verde verde como vômito amarelo bem que eu veria todas as faces pétalas podres num ramo seco
Agora outra questão é se o rancor tembém tem dedos como as palavras de amor – o rancor as palavras entrando como um cotonete na uretra como agulhas nas veias – tudo o que passamos juntos meu bem teus sonhos me dão náuseas ah messias menina civilizadora e seus colegas cafajestes fantasiados de sentidos embaralhados mas sabendo que cada coisa em seu lugar a luz acesa os copos sobre a mesa as palavras certeiras o a ser dito e a não ser dito – ai esta maldita coceira no ânus
da burguesia que palavra mais antiga –
a primavera começou o frio ainda é forte muitas indefinições palpáveis pelo menos é o que diz o meu horóscopo acho que odeio campinas que odeio brasilia que odeio o que amo que amo o que odeio que fico rodeando o que sinto como mosca na merda atrás de que alguma pureza
bem não vou pensar nos dias perdidos no alarme do despertador no que devia ter lido o que está escrito no que ainda não li? Talvez a mesma a mesma letra morta escrita à margem das citações e se eu me tornasse um agente da expansão civilizadora? Se eu ensinasse as artimanhas do corte e costura da postura boa ou má tanto faz se eu me vestisse de lobo pra entrar nos teus sonhos e te dizer liga pra liga pra mim estou muito sozinho mas pedir já seria demais pra nossa paciência tão gasta não é minha gérbera?
e se eu te levasse no trem desenhado grosseiramente pelo menino ontem à noite (ele mal acabou de desenhar e já estava dormindo) acho que lá dentro depois da fina parede de papel entre o papel e a mesa dentro do trem deve haver outra chave um rabisco apenas que eu chamo de chave por comodidade mas que é outra coisa outra coisa ainda
não era bem isso que eu estava dizendo

