7/16/2010

Alegria existe - está de passagem num albergue por aí. Aos poucos seu sangue denso e escuro vira verde água-marinha. Os dias leves, como bolhas, saem palavras das bocas de duas lindas garotas de óculos laranjas e antenas, dois anjos ou dois aliens. E mesmo quando você encontra a moça russa e espera um daqueles extremos literários dostoievskianos e se depara apenas com uma neurótica muito assustada com o Rio, você sorri para os seus olhos azuis que sorriem de volta.
Dias de alegria num aquário, pela leveza, pela água que está a caminho de se rarefazer, tornar-se ar. A gravidade das coisas inexiste enquanto você sobe os degraus íngremes do casarão, ou enquanto você se deita em frente ao mar cor de verde caipirosca. Seu destino, impreciso, está conectado com o dos animais estranhos que vivem no fundo do mar. De fato, você se tornou um deles. Esta é a alegria do mergulho ao ar livre.

7/14/2010

Do caminhar à encruzilhada

Do caminhar à encruzilhada

Adoecer, ser, sendo...
Frente à frente ao inferno, ao paraíso e ao purgatório ao mesmo tempo.
Frente à frente ao nosso inferno:
Nossos demônios se sentem mais livres nessas horas.

Belzebu ri, Deus ri, os arcanjos riem: os vizinhos fingem que choram.
Nenhuma imortalidade, nenhuma alma, nem chão.
Somos reduzidos ao que realmente somos. E o que somos?

Frente à morte as coisas talvez simples, pequenos gestos.
Por exemplo, uma massagem no cotovelo.
O som da voz se vai...

O toque reduz a dor dos dois lados.
O toque torna a coisa mais coisa.
O toque reduz o devaneio.
O toque alimenta dois moribundos.

Frente à morte o combate?
A coragem, o carinho, a paz do bem morrer: onde está a boa morte?
As artes de morrer ressuscitadas.
Não temê-la: estar diante, como um samurai.
Olhar a partir dos olhos já sem vida.

Vê-la, sentir, experimentar o som da música.
Sentir a falibilidade, perceber a frágil condição.
Escutar o harmônio, mas também a furadeira.

Diante da morte: a realidade se mostra mais nua.
Um peitinho talvez...
Deixar a tristeza sair e só!
Temor e medo de morrer no meio do caminho. Ou longe do fim pensado.
Impotência do agir, do fazer. Só o sentimento pode, apesar de.

Agora e na hora da nossa morte
Deixai a poesia e a música sair e entrar pelos poros:
Sopros de vida, quietude e amor.

Amor eis a palavra e gesto que finalmente sai...
Entrai também pelos poros.
Agora e na hora da nossa morte.

Minha alma neste instante se transmuta em um espírito cristão.

Senhor, tende piedade de nós.
Morte, tende piedade de nós.
Vida, tende piedade de nós.
Agora e na hora da nossa morte!
Na verdade, tudo parece ser mesmo impermanente!

7/13/2010

Distinguir

1.

O que você não ouve, mas escuta (a música grudada na cabeça, a conversa com o Ausente, conversa com alguém consigo mesmo, como no sonho).

O que você ouve, mas não escuta (o blablabla, o alarme, a canção do vendedor de gás).

O que você ouve e escuta (quando se é “todo ouvidos”, raramente)

O que você nem ouve nem escuta (a respiração lenta, o ar rarefazendo as conversas, até que elas passam)


2.

O rarefeito e o raro: ainda que com os olhos marejados. As lágrimas podem ser mais sutis do que o ar. A leveza de viver num mundo-aquário. (Como a água é mais instável, as lágrimas também podem ser brutas).

7/12/2010

O Ponto do Silêncio

O Ponto do Silêncio

Para meu amigo Estrada

Lembro-me da conversa sobre a pontuação... Ponto.
Tenho que trabalhar, mas a poesia clama: desce e sobe...
Minha mãe acamada pede uma massagem.
Uma massagem na dor da doença.
Quem está doente?

Phatos, atos, ação, pontuação.
Phatos, afeição, afetação: afeto.
Um dia fui feto desta que agora luta e pede um afeto.
Ato. Ponto. Pontuação: ação e finitude.
O que vem depois do ponto?

Ela precisa de contato para que eu sinta
Meu coração.
Pontuação, ritmo para sentir o misterioso
Silêncio.

Pergunto e exclamo, mas o silêncio (confortante e angustiante) passa rápido...
O que fica? Talvez a interrogação invertida.
O som do sono, a voz dos sonhos?

A música transborda
O som penetra a presença
O som penetra o olhar com dor
Sinto o ponto.
A linha, a curvatura das palavras, o ritmo de algo misterioso:
A calma, a pausa. Meditação.
O que continua? As reticências.

A luta pela vida e a aceitação da morte.
A triste contemplação da dor.
A força contra a acídia de onde vem?
Da amizade e do amor.

Rodopio dervixe: dança, desaceleração.
Por instante sinto a pontuação.
A vida e sua suspensão: estar entre parêntese
É aceitar estar entre
e para além do mar da subjetividade subjetiva.
Talvez o gostoso seja um dia penetrar, inscrever uma marca no
Misterioso ponto de todos os pontos:
Nada melhor que um mergulho no infinito das palavras que ainda não existem!

Tenho que parar: ela pede mais uma massagem.

7/06/2010

O quarto é um inteiro girassol
Movendo-se na penumbra, luz amarela
Na parede, pétalas.

No chão acima do meu teto
Uma criança faz soar o hokku
Jogando bolas de gude.

Por um momento, recordo o menino
Sozinho no quarto, concentrado
Como se nada
Estivesse em jogo, a não ser um lance
Preciso.


Isso também passa. A luz
Se acende e o girassol
Se apaga.

7/04/2010

Um amor em Ipês

Um amor em Ipês?

Para a minha figueira

Tenho que parar o carro (não estou embriagado)
Desacelerar em um segundo
Parar e ouvir o som
O som dos Ipês

Confundi o tempo dos Ipês
Os vi como paineiras
Não percebi em seu(s) silêncio(s) que evoca(m) a vida
A beleza pura-híbrida dos Ipês

A cidade em comunhão com o céu
Azulado e anulado pelo anil celeste-brigadeiro
O brilho do sol toca
Cada flor dos Ipês perdidos pelas ruas: Ipês talvez sejam as ruínas do flâneur

Condenados a uma duração quase-vazia
Preenchidas apenas por seu breve desabrochar
Momentos de cor, qualquer cor ultrapassa minhas possibilidade de contemplar
Me lembro dos tucanos do Ora-pro-nobis

Agora são os Ipês das Minas
Ao lado de um tesouro recém descoberto: encoberto estava...
Tesouro: guardado, partido, legado.

Presentes da natureza
Alegrias que iluminam os dias de inverno: quase-raios dos dias
Alegrias que justificam a permanência da via e do viver

Se não fosse o amor e os Ipês da natureza
Só veria tragédia e ruínas:
Esperança, espera, esperma das nascentes
Nos fazem sonhar em plenitude fraterna

Os Ipês aliados ao amor que desabrocha
Devolvem a vida a ingenuidade infantil:
Vontade de simplesmente acreditar, de ter esperança
Ao pelo menos, brincar com as palavras sem esperar
Algum efeito e forma
Apenas uma tentativa de comunhão com as flores que já caem

A doença materna ganha, assim, poesia e poiesis
Lembro-me
Ainda bem que o tempo não é ainda das paineiras
Os frutos e botões das paineiras ainda são como figos
Ainda desabrocharam
O tempo das paineiras ainda não é
Em breve o tempo das paineiras chegará
E até lá é tempo de amar, pois é também tempo dos Ipês

É tempo de pescar as pérolas dos Ipês
E as outras poucas que existem por aí
É tempo de (pre)enchimento das fissuras
Dos nossos vazios floridos
Pena que seja sempre incompleto e instável:
As belas fores caem e há que se ver a beleza do vazio e da rua florida:
desafios incertos e tortuosos como os galhos a esperar o próximo inverno

2010

O tempo dos Ipês (Reedição)
Para Igraine

Em pleno ritual sagrado
as palavras seguintes baixaram
como uma pomba-gira.
Hoje de supetão minha filha perguntou:
"o que é o tempo"?
ela disse que para ela o tempo era o relógio
mesmo antes do relógio mecânico já existia o de
sol ela me disse.
O tempo é o relógio? (acho que ela queria me perguntar também)
Tentei explicar que sim e não. Fiquei sem saber o que fazer
foi aí que disse: o tempo são as flores do Ipê amarelo.
O tempo é relativo: qual é o tempo das flores do Ipê amarelo?
Acho que ela pensou: as horas do relógio do Ipê amarelo duram um ano
para florir,
os minutos uns meses florindo e os segundos são as flores caindo.
Fiquei com a imagem e a pergunta:
qual é o tempo dos Ipês?
qual é o tempo das suas flores?
belas flores
que florem o céu e a terra
Não há palavras e explicações!
queria ensiná-la a sentir os tempos
queria sentir os tempos
Pelo menos aprendi a desconfiar
e desconfio que o tempo caleidoscópico
dos Ipês é:
amarelo, branco, roxo e madeira.
2009
Você caminha entre girassóis.

Se tudo é novo sempre
Inversamente
Tudo é sempre despedida.

Você não caminha entre girassóis,
Você está parado
Sentado, olhando a parede:

A luz movente de uma vela
A impressão de girassóis, dançando
Aproximando-se, desaparecendo
Na parede.

Você não colherá os girassóis.
Eles não são nítidos

Nem você é nítido

É a sua própria sombra
Projetada na parede
Que cria a impressão de pétalas amarelas.

Você caminha entre girassóis
Eles foram regados com lágrimas:
A mais pura e nítida água.

Girassóis renascem,
Entre sombras e sempre novo
Adeus:

Ainda assim,

Girassóis.

6/30/2010

Bustrofédon


Escrevendo
Loucamente preencher o vazio da tela
Esvaziar a cabeça na tela cheia
Cartas pra você
Mesmo, pra ninguém, preencher
Remover, limpar, excluir,
Apagar o redemoinho do peito
Rasura em cima de rasura
Como de pétala sobre pétala
Se faz se desfaz se refaz um girassol.
Escrever pra sobreviver, pagar pra ver
Apagar os vestígios, driblar as armadilhas
Escrita de animal encurralado
Escrever pra não ter que responder
A pergunta impossível, a vida impossível
Como fazer de tristes letras negras
Uma flor amarela, que não nasceu
Jamais nascerá de meras palavras
Escrever pra preencher a vida
Vazia, paradoxalmente vazia e pesada.
Escrever pra exorcizar o inferno, depois
De escrever o inferno, exorcizar o inferno
Da escrita – o erro
Tentar conter o sangue, impedir as lágrimas
De fluírem como as palavras aqui, agora – o outro erro
Deixar correr solta a língua, o ar pesado e frio do peito
Deixar vazar o sangue – escrever sem parar
Porque a vida é o mais improvável:

6/27/2010

As sombras na parede movimentam
Os olhos,
Um mosquito passeia em seu rosto imóvel
Você não vê
Quando foi que o cachorro parou de berrar
Você pensa nela não
Pensa nela, tudo passa, o sim e o não: o mesmo:

Aprender nada:

Nada a desejar.

6/25/2010

O inesperado retorno ao Inferno

Tem dias em que a vida é inviável. É como descer ao inferno mais uma vez, e você se pega pensando se vai dar conta do recado. Se vai conseguir sair dali de novo. Não aquele papo de auto-ajuda que diz: o que não me mata me torna mais forte. Mas, sair dali como sobrevivente mesmo. No inferno acontecem coisas engraçadas, pra quem vê de fora. Por exemplo, você é obrigado a comer girassol em pó. Dá uma sede insuportável. Todo o tempo você pensa que alguém está falando com você e você pergunta: é comigo que você está falando? A pessoa responde: não é com você. No inferno as pessoas são estrábicas, você inventa qualquer desculpa pra explicar porque as pessoas não falam com você olhando nos olhos. Quando é muito menos do que isso: elas não falam com você. As palavras vão passando por cima da sua cabeça, passam de raspão, arrancam pedaços de carne, vão em frente manchadas de sangue. Vão regar, bem ao longe, um grotesco girassol vermelho. E tem mais que isso. Você pode passar horas, dias, conversando com alguém e de repente você descobre que aquela conversa nunca existiu. Você entrou ali como estrangeiro, sentiu que uma hospitalidade ia criando um lugar familiar, confortável, mas é devolvido como estrangeiro mesmo. Que você nunca deixou de ser. E você acorda no inferno – de onde, se você tivesse prestado atenção, você não tinha saído. No inferno as pessoas repetem os mesmos erros e dizem que não querem mais isso, pedem seu auxílio, mas depois você descobre que o próprio pedido de auxílio fazia parte do erro, era o início da repetição. No inferno é como andar na rua de uma cidade em que as placas existissem, mas estivessem todas apagadas. Você chega perto da placa, é claro então que você está perdido, e vê que não tem nada escrito. E você pensa que é o único, que o inferno é seu e singular. Mas é desse mesmo jeito que seus companheiros de vida infernal te vêem. Você é um idiota robotizado que comete os mesmos erros. Você não fala com ninguém e não olha ninguém nos olhos. Você também parece estrábico. O pior disso tudo, porém, é que cada um tem que suportar o mesmo inferno, na mesma solidão, no mesmo buraco, no mesmo barco, mas é impossível, sabe-se lá como, que as pessoas saibam que estão no mesmo lugar. Você já esteve no inferno, então sabe muito bem onde está entrando, quando a sua guia, que antes parecia tão delicada, te conduz até aquelas portas, aquelas terríveis portas, que rangem como alguém que não consegue respirar direito e procura o ar com violência. Vamos ser claros, como alguém que chora além das próprias forças. A sua guia, mas tudo parecia estar se tornando tão seguro, ela tinha um girassol nas mãos, você se lembra?, tudo parecia tão seguro; você estava distraído (olhando-a nos olhos? Você tem certeza disso?), quando ela disse: é aqui que você fica - você sabe que ela não fez de propósito, talvez ela também esteja sendo levada ao inferno por alguém. Quem sabe, o guia dela não é você mesmo? Por uma espécie de magnetismo ainda mais lamentável é você que terá que abrir a porta, entrar no inferno, como se essa fosse a sua escolha. A única saída é atravessar o inferno, você puxa o ar e reza pra sair de lá vivo.

Poemas do jeito do Francisco Alvim

1. Terceira Pessoa


- Não é com você.



2. Abaixo Assinado, ou o Conformismo do Revoltado

- Deixo aqui meu protesto.


3. Blasé de copa do mundo

- Por que tem gente gritando?


4. Dando o fora
Não é que eu não queira.
É melhor pra você.


5. Doublé Bind

- Contente-se e se contenha.Você precisa saber que:
a. não aconteceu mas era possível
b. agora ficou mais improvável
c. amanhã não vai dar
d. outro dia poderia ter acontecido.
e. ontem, não hoje
f. hoje não, quem sabe amanhã
g. se hoje fosse ontem e quando amanhã for hoje, aí então
h. como sempre, não vai ser hoje
i. amanhã nunca vai ser hoje, sempre
j. espere por mim, mas não espere por nada
l. sempre saiba de ontem, amanhã se recorde, mas por enquanto esquece.

6/24/2010

Fugindo ao estilo do blog

Pra mim essa merda, essa coisa fajuta de copa do mundo acabou de uma vez hoje. Gosto de futebol, muito. Mas já deu. Depois da quantidade ofensiva de dinheiro que o "jogo de pontapés" desperdiça, como o chamava corretamente o Lima Barreto, depois das idiotices não só do Galvão Bueno mas de praticamente todos os locutores e comentaristas, não bastasse o militarismo psicótico do Dunga, agora usado pra vender cerveja, não bastassem os panacas de Brasília que andam agora com bandeirinhas do Brasil nos carros, não bastasse o fato de os jogos serem umas porcarias, agora a FIFA virou instância de decretação de estado de exceção. Estado de sítio, no sentido próprio do termo. A diversão já virou um circo dos horrores faz tempo. E de lambuja, vejam a alegria do Waack comentando a "bela" iniciativa.

E o Millor estava certo também. Ele diz que se um artista talentoso fosse tratado com as mesmas regalias que esses pernas de pau do futebol, ele pintaria uma capela sistina por semana.

A notícia: http://g1.globo.com/jornal-da-globo/noticia/2010/06/fifa-exigiu-mudancas-na-justica-da-africa-do-sul.html

6/23/2010

Do ser(tão) rumo ao (des)centramento do céu

Do ser(tão) rumo ao (des)centramento do céu
Hoje, e não amanha
Hoje, e não amanhã/
Hoje, e por que não amnhã?

Hoje entrei no céu
(como já havia vivido com uma paineira e um ipê)
Hoje escrevo apenas para mim
Hoje apenas hoje senti o céu de anil
Hoje senti o tempo ultrapassante do céu
Hoje ex-perimentei em fragmentos o instante-presente
Hoje, nesta tarde de outono, tive uma noção do plainar

Hoje, vi as montanhas que em geral, não vejo
Hoje, antes de tudo vi e vivi a luz e penumbra do alegria celeste
Hoje, escrevo por falta de palavras: tento inscrever o êxtase na memória?
Hoje, falta dor e sobra felicidade: parece que a alegria é apenas para ser vivida...

Mesmo sem dor fui curado pelo céu de anil
Apenas hoje, amanhã já não sei
Mas, agora a pouco experimentei uma parte do ser refletido e enigmático

Hoje, agora a pouco mergulhei no céu!
Hoje o céu já é outro, pois hoje já é ontem!
20/06/2010

6/20/2010

Nada demais (poema em 3 fases)

Primeira fase

As pessoas não

Estão dormindo.

A praça, simplesmente,

Está vazia.

O eco da música

Perdida

Não se esconde no inconsciente

Das pedras – o silêncio

É,

Só isso.

Segunda fase

É do espelho retrovisor

Que entrevejo a praça,

No vazio

Um girassol (anjo)

Perdido

No meio do concreto, ali

Não está, na superfície

Mineral do espelho, aqui

Onde o espelho está –

Na alma da praça.

Terceira fase

Inverificável:

A matéria-prima do girassol

É o espelho, mas o girassol

Não está no espelho – o girassol

É

No espelho.

Só isso.

6/16/2010

Vida
De robô sanguíneo,
Discórdia, além disso.

Dar de cara contra o muro
E chamar o sangue de:
Produção. Alegria.

Atrás do muro, dentro
Do muro, o coração
Das coisas?
O coração
Do girassol? A nitidez
Tem coração? O coração nublado
Das coisas, o obscuro
Coração da vida.

Onde está Renata no coração
Do Brasil? Onde está o Brasil no coração
De Renata, onde estão Brasil e Renata
No coração de um sujeito
Sem coração – não confundir o sangue
A mancha no muro.

Hoje de manhã a luz estava fria
E um estigma era a tatuagem
Do frio em minha pele, e a pele
Não é proteção pra alma
É a própria alma exposta, a contrapelo
Que o desamor fere como uma pancada
No muro –

(Ele que não me deixa relaxar,
Não é você, girassol)

O muro é a pele da alma das coisas e eu
Sentia apenas um frio no lugar onde seria esperado
Um coração
Enquanto me lembrava do meu velho desamor
Que me atingia
Como um soco na boca do estômago
Na súbita ilusão de que o coração
Inexiste, o coração
Ausente, delira e tenta se criar
Com ar e palavras, morrendo
De medo de ser um não-coração
Num mundo em desacordo:

E ali estava o coração,
aqui.

6/11/2010

Tempestade Intempestiva?

Tempestade Intempestiva?

I
Escravo de mim mesmo
Vivo em círculos de poucas retas
Vivo fenecendo em rodas de sânsara
(de forma sacana penso:o que me falta é a punheta trântrica?)
A cobra que morde o próprio rabo: quem é?

Vivo? Nunca sabemos se realmente vivos: eis a ambigüidade da vida-morte
Morte do corpo? Morte da alma?
Guerras internas: em busca de alguns armistícios?
Poesias, natureza, artes e fisolofias:
não sou digno delas, apenas contemplo um vinho vagabundo.

Talvez tente ser um bom pai e um bom filho: quero algo mais?
Talvez um grande amor... ilusão romântica? Eterno apaixonado?
Pelo menos leio em um título de um livro do Rubens Alves:
Ostra feliz não vira perola? Conforta meu ego em guerra.

Queria eu livrar-me do meu ego e apenas ser: é possível?
Ego-ego-ista-ista-egoi-como sair da roda: sansara é a cobra do mato: tatarna! Ops: tatarana! Que fica perto da gruta do Rei do Mato.


II
Por vezes, creio que é o lance da tragédia é a comédia da vida alheia.
Meu sofrimento é a comédia do mundo.
Vivo, sofro: procuro não viver a melancolia da acídia:
Resistir sem a complacência com a tristeza é minha meta.

Mas, contudo, todavia, porém...
O vinho corre sobre a tinta...
A tinta da vida: como lidar com o choque da morte?
Como lidar com a alegria de uma filha que apenas balança em uma rede?
Como lidar comigo mesmo?
Ao menos a lida tece urdiduras que duram: eterna vontade de permanecer?
Como aceitar o que flui, o que não flui, o que é, e o que não é:
Recordação maravilhosa de uma dependência absoluta:
Ao absoluto? Ao amor? Ao prazer? A vida? A minha pequenez egoísta?

III
Vivo fenecendo, apesar da ilusão de renascer
Talvez escrevo dos baixos-altos desejos:
Como encarar a moral-imoral?

Preso em teias da subjetividade (esse mar sem fim)
A procura de algo, do outro, da vida e do amor romântico-subjetivo
Da família talvez falida? Fragmentações da experiência de um tempo e do tempo
Retenções simétricas e propensões de horizontes que fogem:
Horizontes de lapsos da memória, perdidos no buraco negro do meu esquecimento

Perdido-encontrado; encontrado-perdido
Jogos de palavras: superfície-liso-estriado-profundidade-superficial:
Aqui não é mais o agora e o presente não é mais futuro: foi-se e fui:
não habitamos a própria casa?
Dúvidas involuntárias: in-nega tudo?

Plun-ti-plati-zun: não vai a lugar nenhum: nem mesmo ao zoológico:
Hoje é domingo: dia de pipocas!

IV
Faz quatro anos:
No mesmo lugar
Entre um mais que possível
E um outro mais que (im)parfait

Entre tempos, temps
Entre temps, tempos verbais
Tempos da história e da experiência: queria poetizar minha própria experiência
(talvez a única saída pra uma alma vazia.
Como aceitar a falta de talentos?
Falsos poetas podem entrar no jardim das delícias?
Ao menos sou um bom mentiroso: ironizo meu ego e ao mesmo tempo o alimento: eterna ambigüidade!)
(Um ar ecoa com o tempo dos trilhos que gritam ao escutar as locomotivas:
automóveis do minério.
Entendo Drumond: retirar minérios da terra é edificar nosso próprio sepultamento!)

Entre tempos verbais, um delírio:
Paixões passadas, ilusões futuras: um presente solitário?
A solidão me angustia: não angústia, é claro, o leitor não solitário
Solidão, como se sabe, rima com otário!

Vinícios: o que é viver um grande amor?
Para um coração que quer viver o sossego, mas vive desassossegado?
Hoje observando o silêncio do mundo entendi o sentido de sossego:
Mas depois disso a cobra sibilou e o gavião resolveu comer o ou ri ço:
Ver a natureza é ver nós mesmos: tememos!

Eis aí uma psique singular e gregária: possuidora de paradoxos contínuos
Ao menos há o afeto da família e os amigos...
Apesar de toda a ode a amizade e dos muitos amigos sinto o terror de me ver
De me sentir: ver a venerabilidade da existência
E depois? Seguir, edificar, verbiar: não sucumbir a tristeza:
A acídia é parente do demônio do meio-dia.


V

Doendo, apesar da vida burguesa
Apesar, do vinho
E do vinho, apesar
Não luto pelo pão!

Perdido à beira das mortes (antônio das mortes bem sabe)
O problema é que aceitei o contrato hobesiano e nunca matei ninguém!
Nunca senti a morte: só algumas assepsias funerárias
Mortes naturais e a-naturais

Tudo se resume a isto: aos 32 dois anos aceito o envelhecer!
Sair de um lado e entrar em outro: passando por outro, que nunca é meia
Nesse frio da roça uma meia é um entre - lugar entre a pele e o frio penetrante
(amanhã vou comer a rapadura do Carcunda e curiosamente agora é meia-noite)

À beira da morte: morte alheia que também é minha
Lucidez embriagada à procura da luz da serenidade

Ser de idade: natalidade!
É duro renascer sempre!
Não se renasce com o tempo lógico: não há lógica no tempo!

Enfim, serenidade: um bêbado equilibrista?
Dessassussegado (com s é bonito, não?) perto de São Brás do Suaçuí

VI
Prisioneiro das paixões? Phatos afetados
A fé e a liberdade são os textos ocultos?
Ou a prisão das palavras? Pq escrevo? É um gostar-desgostar: loucura infantil?
Ao menos as crianças sorriem e vêm algumas estrelas:
Depois vêm à adolescência e acaba com tudo?

Depois vêm à sexualidade e deixa a cabeça perturbada:
Por isso que Riobaldo aconselha casar, apesar de Diadorim...
Mendigo-afeto e mendigo do afeto:
Eis aí uma fotografia real desse instante!

VII
Um olhar me acompanha por esses dias
Sentir o sublime amor? Mundo, vasto mundo do meu coração:
O pior é que essa coisa de sentimento não é uma bobagem!
Queria eu ser um insensível: sensível apenas as flores... e ao belo definido nos livros

O sublime amor: uma experiência de Deus?
O sublime amor: apenas uma experiência...
Entre os pais e os filhos quem habita?

Embaralhamento: isto me prejudica quando jogo cartas!
Palavra bonita! Talvez a serenidade e o tempo estejam nas mãos
dos jogadores de cartas...
Não se pode duvidar de tudo!
Queria simplesmente ver: apostar no amor. Em um amor!
Sentir o fluir sentido de um olhar cigano fugidio.

Um dos meus maiores êxtases foram com os ipês e as paineiras: loucura?
O problema das misteriosas ciganas é que elas não gostam de se fixar!
E talvez estejam certas
A fixação é uma ilusão confortante que busco, mas não atinjo:
Minha alma atormentada precisa de sossego: como?
É realmente um dilema: até que ponto a vida autêntica não nega a vida burguesa?
Autenticidade sem cartório é uma travessia que atravessa o corpo: cheio de dor

VIII

Repetições?
Novo-velho?
Ou simplesmente novo?

Frente ao amor filial e paternal nenhuma dúvida:
O problema é a horizontalidade: fuga de horizontes...
Talvez seja a saudade do mar

Mas, uma amiga angolona (e seu pai) quando vêem o mar
Não vêem o infinito, mas, justamente o contrário...
O contrário da alegria? Ao menos, um passado que foi...

Quando me apaixono quero acelerar o tempo: não gosto de esperar
Sinceramente não sei... é preciso viver várias vidas numa só?
Até que ponto ser sereno é um fim? Apaziguado, certamente?
A eterna busca do colo da mãe? (colo fetal? Retal? Anal? Colos corpóreos: nossa busca? E nosso fim?)

Quando escrevo no papel: vejo a tinta
Vejo o outro que é a palavra
Quando imprimo o stilo na tela, sobretudo, quando o sol raia
Vejo a mim mesmo na tela
Na verdade quase não vejo a tela, nem a palavra

Aceitar a paz é bom,
Mas, vejo (se vejo)
que difícil é construir a paz! Somos pequenos e queremos ser grandes...
Às vezes para lembrar minha pequeneza sofro a esperar uma mensagem de celular
Sofro como as amantes de outrora: pior ainda em tempos de guerra!
A esperar uma carta do outro lado do atlântico

Talvez eu esteja preso a esse instante presente/passado da vida
Na ânsia de viver muitas vidas numa só
Durmo com culpa de não ter escrito o artigo, de não ter lido, de não ter sido

Não sei se é pq viagem de canoa ou se o mar é bravo mesmo...
Mas, a tempestade parece que deu um tempo...
On vera...

A poesia, ou melhor, a palavra, não cria:
apenas transborda no excesso de mim, o excesso de mim
apesar de mim,
mas, sobretudo, para mim.

6/09/2010

Sem nada

Pra escrever, enquanto
Penso nas metamorfoses
Da musa,

De tema, lema, problema ao retorno
Ao mais puro sopro
De poesia no ouvido,

(Quando a musa não é mais
Assunto, espera ou procura)

Quando ela respira
No ritmo exato dos traços negros
Que vão colorindo a tela:

Quando, mudando
Sob uma luz sutil
Mas mundana,
De pétala a pétala
A musa
Muda de girassol
Como se a poesia rompesse
Num súbito claro de dia.

6/08/2010

Girassol

Primeiro frio de junho –
Um calor impreciso
No girassol ao longe.

* * *

O girassol que vai
O girassol que volta:
Delicadeza!

* * *


Suave calor, cheio de anjos
Sente-se, não se entende:
Nítido girassol!

6/04/2010

Anotações de uma viagem a Estância - SE (nos 100 anos do meu avô Oscar, homenageado pela criação da primeira escola de ensino médio da cidade)


1. Homenagem na igreja

A credibilidade dos anjos foge aos saduceus:

Eles perguntam ao cordeiro
Qual dos 7 irmãos desposará a mulher amada no além-morte.

Mas o cordeiro tem ódio no sangue e é o ódio do leão
Que responde:

Raça de víboras, como vocês pensam escapar à ira?
Se os anjos usam controles remotos
E microfones sem fio pra soprar a dúvida em seus corações
Soberbos, ostensivos!
Como saberão?

2. Homenagem na Câmara de Vereadores

“Qual dos 7 vereadores desposará a obra destruída
No aquém-vida?”

Porque as paredes da escola,
Desabitada, retém a alegria das crianças
Vozes de anjos, na parede azul
Pra quem sabe ouvir, mas de volta ao momento solene:

“Quem abrirá a caixa-preta, o tiroteio
Simulado nos discursos, a caixa-preta
Da chuva e da ventania, a caixa-preta
Do passado que não passa, que não passa
Mesmo quando morto,
A caixa-preta dos olhares sinuosos, do tempo, do silêncio insinuante,
Caixa-preta da morte e da insistência
Na vida, o próprio mar é uma imensa caixa-preta
Quem a abrirá, quem sabe dizer a sua língua?”:

Esta terra, Estância, Esta mar: Estamira?
(Invoco meu anjo predileto), quem abrirá
A caixa-preta do afeto: a anti-retórica, uma senhora
Que tapa o microfone com as mãos
E fala de lado e se perde na caixa-preta de sua própria vida
Enquanto os vereadores se contorcem nas cadeiras
Simulam ouvir entre risadas, procuram a metáfora perfeita
E aplaudem.


3. Agora podemos falar de anjos

Esta manhã está cheia de anjos, de uma beleza quase invisível:

Vejo crianças de 60 anos preparando uma peça de teatro no quintal,
Vejo uma velha chorar pelo filho morto em desastre,
Aos treze anos de idade.
Vejo uma luz intensa e fria brotar do cinza de veludo das nuvens
Que amortecem os coqueiros

Vi sanguessugas na estátua mutilada de Tiradentes
Vi um corvo bebendo a translúcida e fria água de coco
E vomitando bílis sobre a memória, e mesmo estas visões
Não embaçam o que vejo dos anjos
Através das gotas da chuva no vidro do carro
Enquanto passamos por Estância.

E vejo a memória e agora a memória é uma senhora vestida de estilhaços
Com a pele recoberta por tatuagens, nomes de todos
Os que passaram e que passam, e vão passando
Tentando cravar os dentes na pele macia da Memória
Dentes que vão se dissolvendo, sumindo,
Mesmo no dia da homenagem em que o pão se transmuda em carne
Em que senhoras de 60 anos viram crianças de 13
Em que a luz é fria em pleno verão e quando os urubus
Finalmente
Vomitam bílis pelos olhos, mesmo nesse dia
A carne da memória é tenra demais pra estes dentes e
Demais ácida e quando eles a mordem, eles e não ela vão sendo digeridos:

E por isso vejo que essa é a natureza dos anjos,
Não quero só “dizer paisagens, porém sonhos
Nada de saudades, porém esperança e desejo,
E falarei da amada”, Mário Faustino,
Porque um beijo seria mais natural à beiramar.

Vocês viram a ressurreição
Da infância no jardim?
Vocês viram o ritmo impecável
Do cinza e do branco na manhã?

Mesmo os saduceus, com a medida certa de quintal e alegria
Viram anjos nesse dia.

6/01/2010

Aproximação a ee cummings

há tanto tempo meu coração esteve com o seu

dentro de nossos braços entrelaçados
numa escuridão onde novas luzes se acendiam
e se intensificavam,
desde que sua mente caminhou rumo ao
meu beijo como um estranho
rumo a ruas e cores de uma cidade -

que talvez eu tenha esquecido
como, sempre (por estas
cruezas velozes
do sangue e da carne)o Amor
cunha Seus gestos graduais

e esculpe a vida em eternidade

- depois do que nossas almas são museus
cheios de memórias habilmente amontoadas.

5/26/2010

Chuva fora do tempo
Desperta o gato
Que dormia no bueiro.



4 dias no bueiro
Meia hora de chuva:
E o gato acorda pra vida.


Som de chuva fora
Silêncio felino em casa:
Maio também tem suas alegrias.


A chuva, metamorfose
Do verde em festa
Ensina o gato a miar.


Da luz avermelhada de brasília
Ao escuro do bueiro,
A chuva ensina o caminho de casa.

5/23/2010

A valsa do amigo do Impera(dor)

“ é a história de um imperador chinês que guardava muitos tesouros, um dia um amigo o visitou e pediu pra ver o tesouro guardado. O imperador o levou e na hora de sair ele agradeceu por ter ganho o tesouro de presente. O imperador disse que não tinha dado nada pra ele. Então, o cara respondeu que tinha desfrutado o mesmo prazer que o imperador ao contemplar a beleza das jóias, por isso a diferença entre eles não era grande. E ainda o imperador tinha o trabalho e o ciúme de guardar, tomar conta. Acho que entendi isso como uma história sobre como amar sem querer a posse, um amor puro que aceita a gratuidade da vida. Amar sem padecer com o medo da perda.” (A.)

Meu amigo A. me deu um presente
Chego ao hospital para ver a enferma mãe
E recebo outro: ela levanta e me convida para bailar
Dançar uma valsa que flui da vida

Frente a minha dor da perda
A minha tristeza tristeza de um aparente fim: horizonte fugidio
Me reconforta por um instante de alegria e esperança

Uma guerrilha do amor é travada
Minhas lágrimas caem: o real da presença me conforta
Nossa fragilidade nos abraça: o instante respirado e transpirado pela corporeidade da valsa

Um instante fora do tempo e já agora dentro de minhas lembranças
Lembranças de um instante de amor
Puro (purgatório da purificação de um luto inexistente)
Um fragmento da essência do perfume da vida.

Aqui e agora choramos juntos: compartilhamos
a dor da alegria e a alegria da tristeza
pureza impura que brota em minas perdidas: penumbras de mim

Deixar a tristeza sair!
Sem de perguntar por quê?
Cada dia pode ser uma surpreza
Em busca do milagre da presença
A espera de novas valsas!

Talvez a experiência dessa guerra
Seja simples como a história de A.
Apenas ser e estar diante da vida e da morte
Ver, aceitar e viver o Real e as Verdades desconhecidas

Invejo os samurais e o amigo do Impera(dor)

Compartilhar a dor

Da morte em vida: lapsos de lucidez


Para aqueles que não estão me deixando afogar


Depois de 6 meses sem escrever,
De 6 meses preso no buraco de Sumidouro (sem mesmo ir até lá)
Sumi, Desapareci: morri defendendo a vida!

Perdido nas névoas de um estilo etílico e,
Eventualmente, salvo por amigos e também por mendigos
Mais perdidos do que eu.

A morte deflagrou uma estranha inquietude: um pesar, uma melancolia-louca
Vontade de morrer junto
Desacompanhado e só, mesmo acompanhado, viver a tristeza do fim é ou foi
Se mutilar: tuer môi-mêmme!
Perder a perda?

Passar no portal: simplesmente atravessar cada fragmento da vida
Em busca da beleza da penumbra.
Obcecado pelo nada, esqueci do vazio
Frente ao nada-vazio
Preenchi a mim mesmo de embriaguez
Do vinho
Esqueci a poesia e a virtude

Só o barulho confortante do desassossegado córrego que some
Conseguiu me deixar passar
Passar pela vida sem sofrer: eis minha utopia!

Um alento vem do céu: o prazer e a alegria da gente humilde,
O retorno a mim e as árvores: a selva de pedra, me prende
Nada como uma expedição a mina d’água de Sumidouro:
Possibilidade de desassossegar em aconchego: já não acredito mais na salvação!
Ao menos habitar alguma morada...
Fonte de vida?

Deixarei a morte em paz, a fim de viver em paz?
Equilíbrio desequilibrado: me presenteei com a deusa Serenidade que
serei um pássaro.
Um pequeno e soberbo vôo: apenas isso. Não quero mais o mergulho, mas
a tranqüilidade das alturas!
Quanta arrogância! Reparar e mudar a rota: onde está o privilégio?

Talvez não quereira mais dormir, nem esquecer:
peço, então, uma escada pois já me cansei desse buraco.
Casei da dor, da tristeza e da ressaca.
Gostaria de retornar dessa viagem a minha casa, ao menos voltar a caminhar...

Uma coisa fica agora e aqui no peito que sofre:
Mesmo sendo um mal-mau poeta
Esse brincar com as palavras chamado escrita, ajuda
É melhor escrever
Escrever para suportar
Escrever atrás da leveza prometida!

Três quase haikais e Os Dois Estranhos

Sob a velocidade das noites
A praça vazia, o ponto de ônibus
A sensação estranha da despedida.

*

Último olhar de adeus,
A praça vazia, o ponto de ônibus
Entre dois estranhos.

*

Sob a velocidade das noites
Persiste um sabor de amora:

Ela diz que o tempo não perdoa.


*

Dois estranhos,
Entre si, mal
Se conhecem.

Dois estranhos
Cada um por si
Com sua estranheza
Muito própria.

Vida estranha:
Eu estranho
Ela me estranha

Sujeito estranho
Com idéias estranhas
Ela e seus medos
Estranhos: medos de
Estranhos.

Tudo é muito estranho
E impossível

O inacreditável simplesmente
Acontece
Entre dois estranhos.

5/20/2010

Ibn Arabi e Nizam

Amar sem padecer
Desejar o que deseja
O coração de quem se ama
Mesmo que lhe diga

Adeus

Amar o que ama
Outras paisagens
Outras vidas
Sem você

Amar a ressonância
Branca, o vazio
E a sutil resposta
Que dança nessa música
Inaudível.

Amar, azar,

No coração do azar
A flor da laranjeira.

5/12/2010

(o andarilho tapa o ouvido com mel
presta atenção no caminho
pra não tropeçar e despertar

o falatório, tantos olhos.

de noite pensa na morte como uma coisa azul
e dorme como um girassol doente;

sonha que voa invisível sobre a sonora cidade)

5/10/2010

Canção de re-despedida

Madrugada: ela faz as malas. Mas tem meses que suas coisas não estão aqui. O fantasma pega objetos fantasmagóricos, sonho. Despedida ao quadrado. Você esqueceu a máscara, não é minha, é meu rosto, um rosto é um texto a quatro-mãos e vice-versa. Leve esta persona também na sua mala.
Sei lá, queime, jogue no lixo, como quiser. Também farei minhas malas e
vou sair daqui de dentro, dar adeus em cima de adeus, à enésima potência.

&

Uma história Sufi: "Você veio pegar de volta o cavalo puro-sangue que criávamos e só agora me avisa! Da primeira vez não o levou porque não cabia na sua bagagem? Mas, darling, você sabe que estou sem grana. Infelizmente, o cavalo já era. Como eu te ofereceria estas almôndegas com que, com o perdão da palavra, te refestelas, se não tenho dinheiro pra comprar carne? A hospitalidade vem em primeiro lugar."

5/07/2010

Preciso aprender a rezar

Mais além das ilusões
A redenção.

O véu do mundo rasgado
A semente, o fruto imediato
O conhecimento ácido adocicado,
A morte além da morte,
Observando-se
Como se vida fosse
Outro véu rasgado,

O fruto semente é outro véu,
Uma ilusão adormecida
Despertada quando rasgamos
A velha ilusão.

Dentro da semente a luz
Por dentro a semente é água
Água que brilha como num rio

O sol

Sol líquido, mas frio, bom de beber
Como vida além da vida
O círculo, além da morte
A infravida,

Outra ilusão

O rio é um tecido, a leveza
Outro véu. Águassol, pobre
Palavra como outra
Qualquer, a iluminação
Cega, não vemos o véu
Mas ouvimos seu rumor

Rumor de tecido que se move
Transparente,

Lentamente, rumor de palavras
Como se o mundo,
Aquém do véu, falasse.

As palavras não criam
O véu, as palavras
São outra ilusão.

Todo poema é uma prece
Á procura do coração das coisas.

5/04/2010

A farra dos novos canibais oportunistas

Mais um da série Fazer o Texto Falar (as montagens,
seguindo a técnica dadaísta de recortar as palavras de um texto, sortear
e montar um novo texto). Procuro respeitar ao máximo o sorteio, porque
ele é mais criativo do que eu, só mudo uma ou outra
coisa na pontuação, na concordância. Taí:



Sua “tribo” é composta por brancos de cabelos louros e se fantasia de imprensa.


Costumes e coreografias capitalistas convenceram seus fiéis.


“O Brasil é mesmo um país único”. “Escravos que supostamente viviam”, nos argumentos estapafúrdios de Demérito

“Odair José” Raposa Tabajara dos Cavalos.


Quem nasce, vive e cresce num ambiente de cultura 171, daqueles que seriam seus antepassados.


A origem dos seus integrantes: 90,6% tem carro, TV, computador, ótimo negócio. Eles consumirão.

Seu sofrimento é passageiro.


Inexplorados conflitos agrários, essas vantagens, agora que terão de oferecer-lhes o azul do empresário.


O paradoxo é que é preciso ser visto, artificialmente, na falta de controle de uma cultura de antropófago.


Também no caso da explosão dos remanescentes indígenas, no Conselho das Primeiras Gerações Capitalistas,

outro 171.


Abarcam hoje um luxo no interior da existência de uma comunidade que dança no teatro do absurdo.


Há mais de 300 anos, sua “tribo” exigia demarcação de assentamentos e portos, quais não há: e esse naco

de benevolência ambiental.


Desde então, preservar as benesses da civilização-galinheiro; insistem.


Principal prova: poderiam ter feito do Brasil uma situação subumana de despejo, que englobaria até as históricas

compras no supermercado. Ou seja: professam a “legítima” prosperidade.


Uma gigantesca reserva brasileira para montar processos e serviços de produção industrial de escândalos e

uma refinaria de critérios.


Seus trezentos pequenos moradores reconhecidos por faturar alicerçados nos escândalos de proporções antigas,

como os que se usam no Carnaval.


Costumam ser contra, ter um Complexo de Governo, o agronegócio é a autodeclaração do seu pedaço de terra.


Pretensos herdeiros em honra dos deuses pretensamente nobres e científicos e com claro teor ideológico.

Não basta dizer não aos supostos herdeiros de outra condição étnica nesta reportagem.


São arregimentados entre os maiores beneficiários dos que têm um pouco mais de Sede de Reservas ao Verdadeiro:

mais de 50000 delitos universais e crimes que desapareceram dos laudos.


Literalmente, quem nasce para jogar um tormento sobre as cidades. A escravatura havia sido o Alter do Brasil total,

como era de esperar, a terra das invasões Gerais.


A infraestrutura de uma declaração, além de fácil, explorada, ressuscitou 77,6% da fantasia da Suprema Delimitação Mundial.


A ganância das pessoas mais badaladas imobilizando as contradições. Querem 250%, ou mais, da produção, seu Parque Nacional

é o Território Nacional, todo o Chão. Seu registro histórico é uma farra. Viveiros de índios extintos.


Querem expiar na cidade. Terras para ocupar na dimensão do Sol. Ativistas do dinheiro sem nenhum rigor.


VEJA: a ampliação dos povos de motoristas! Reverbera na miséria da Consciência. Os motivos usados são tão arbitrários...


VEJA: as vastidões saqueadas! Nunca se leva o pecado nas intenções para a proteção do nosso lote, a Terra. No entanto, não é

e nunca será outra a terra.

4/30/2010

Eu (nunca) fui torturador - A confissão de Ur-Star

Da série "fazer o texto falar". Recortar as palavas do jornal, sortear
e ver no que dá. Esse foi feito sobre uma entrevista. As palavras não
são minhas, são de Ur-Star:



- à frente do Belo procurei inocentes
e Lá estavam.
contra, até eles serem como uniformes brasileiros
abdicando do seu ‘não é possível’.

- pela família, é fácil falar de tortura.
no novembro de 1972 que eu fiz
no escritório da minha Vara Crível,
no meu direito de atos de terrorismo
eu que não, em nenhuma convenção com as crianças,
eu disse: não renunciamos ao terrorismo movido
Lá no interrogatório.
um advogado, o bobalhão aqui e duas crianças...

- então na gráfica, no país por 12 horas assolado,
batemos nos menores jovens,
prisioneiros de guerra:
que levem sua parte para cá, pela guerra!

- o tratamento a ‘O Senhor não’
no direito de falar DOI com dignidade,
já as crianças da PM têm o horizonte sobre isso.

- Araguaia se refere ao entre-humanidade em que estavam.
mas eu, diariamente o próprio São Paulo,
e tudo isso para a guerra no terrorismo,
nós na cola da estrutura que ia nos presos
quando tinha uma convenção de combate que era outra,
não a de Genebra, mas a que de lá chega ao dia do Juízo.

- Tínhamos parentes, a coisa foi montada para ouvirem
ao Tio.
eles não usam depoimento,
melhor evitar a coisa suja do depor militante...
(‘Tragam o sargento César!’
só para que os pais vissem...rs.
‘Então, vai depor?’)

Eu nunca, mero delegado do comando,
disse a verdade: os adultos,
a guerra. (....)