10/29/2007

nº 55




Na paisagem flores de concreto a prumo brotam ostensivas
da areia num ímpeto veloz, com ou sem
vista para o mar, desnecessárias, ao lado de mensagens
extramuros, fora
de qualquer porta, mais
lá fora que você agora, luminosas
ou sem luz são só eclipses
do sentido em sua vida
sem adornos dentro de uma cápsula, num bólido de lata
sobre rodas que arrasta a pique seu corpo
para o esquecimento e a ruína, no frio
artificial em que suas retinas amplificam
tudo que vaga abaixo da pele
do mundo, enquanto
você insiste e segue avulso
como uma caixa da qual ignoram
o destino, no extravio
desta tarde.

(das Notas Marginais)

10/28/2007

nº 56



Hoje pela primeira vez, como se inaugura
um porto ou um jardim, você
disse a palavra, 'é inaudível, eu sei', você disse sem resposta, sem
estoques de esperança ou mapas, não rola
pela ponte cediça em que você está
sozinho, não rola
aquilo que reverbera, e então,
olhando ao largo, arrisca: “arregaça, arregaça
os punhos, paixão, e termina logo
com este estupro, como quem
não quer nada
”, mas no deserto o som
atravessa a miragem, que diz “não sei mais
como lidar com isso
” e segue, na vertigem
do infinito.
(das Notas Marginais)

10/26/2007

nº 54



Curvar-se até o chão diante
da inocência, ou mais além do pavimento
duro, se fosse tão gasosa assim
a matéria da alma que num ponto
nunca definido arranca um grito
ao ar quando atravessa os tais
dos campos vastos, triscando balizas do tempo, lentamente,
fingindo obedecer a relógios
e, neste empuxo,
despenhar-se junto aos dias e às promessas
só pra aumentar o monturo e os escombros
a seus pés.
(das Notas Marginais)

10/25/2007

Partido, o erro é meu

A vida gira em torno de eixos muito simples.

Domingo. Brasília é uma tarde parada entre carros e o quase silêncio de seus reflexos na pista. Mas trancado no quarto eu finalmente mergulho na moça que me cativou o dia inteiro com uma cumplicidade displicente. Ela se liquefaz num rio que me suga para suas águas turvas. O quarto é um aquário e somos sua matéria-prima densa.

Ou uma tarde qualquer. A invasão mascarada sob condomínio fechado, a gaiola para os abutres de garganta seca é silenciada por uma luz singular. Um sol que não fere a vista, mas desce sobre o dorso das coisas e suaviza em tudo levemente dourado. Pela primeira vez, a cidade aérea tem profundidade. Meu irmão olha a paisagem. Minha mãe olha meu irmão e a paisagem. Eu, pela janela, vejo a varanda, minha mãe, meu irmão e a paisagem.

Há ainda a manhã se expandindo em azul-marinho dentro de outro quarto, quando Giovana abre a janela e o dia apenas começa, e o azul invade a tonalidade de seu rosto, dos seus braços. Os porta-retratos, até então escondidos no escuro, ganham os contornos de uma vida desconhecida.

Existem outros momentos, situações dispersas como túmulos na areia da praia. Ou a certeza de que a parede quente do apartamento aprisiona gritos, em voz baixa. Ou em frente ao muro, próximo ao mar noturno, a memória melodramática de um moleque mijando e chorando ao mesmo tempo.

Nada disso é perdido pelo Semprevigilante Oito-Olhos. O renegado Oito-Olhos e sua coleção de crianças mortas. Mas num dia de muita chuva eu jogo uma semente alucinada em sua consciência universal. Eu sou uma semente alucinada na consciência universal, mas ela não precisa de mim e segue seu curso. Ao contrário, eu é que me alimento dela como um autêntico parasita.

A poesia é um fruto delicado oferecido às garras de rapina da consciência universal. Por isso, ó senhora cansada e moralista, não renegue a merda da consciência universal, simplesmente. Não parodie a palavra merda. A merda está cheia de sementes alucinadas na consciência universal. A classe média fantasia-se de consciência universal em seu ninho de abutres mas abriga em seu refugo algumas sementes alucinadas.

O que fazer ó deuspai barbudo ó filho guerrilheiro impoluto ó espírito crítico se o máximo que sou é este miasma da história? Já joguei dardos na cara do cartaz do presidente. Já corri atrás da Perestroika no Itamaraty. Mas tudo isso ao lado de presidiários libertos, punguistas, trapaceiros, realejos, amoladores de facas, todos liderados por um velho saltimbanco.

Se eu aprender a rezar para o deus que deve estar por perto, já que o pressinto como um pássaro em minhas veias me ensinando que tudo pode ser leve porque todos têm o poder de voar e fazer sangrar a dita consciência universal, estes serão os elementos que me darão força para apostar numa nova fraternidade. O resto é o fluxo indiferente da vida, um peso morto que anda por aí e carrega meu nome sobre o mundo.

10/22/2007



Quando foi que nos seduzimos tanto
- e tanto -
até nos transformarmos em ar:
doces suspiros?

Quando foi que me deixei levar por suas mãos
- dedos -
olhos
língua
e derreti em calores no meio do peito?

Nem antes.
Nem agora.
Nem depois.

O desejo escapa no tempo
do poderia.

10/21/2007

nº 51



Difícil acreditar na luz, ela
não é nada mais do que outro lado
da treva: e mais que duvidar, você suborna
o coração com lances baratos, em surdina, até
que a iridescência perca sua autonomia,
em ciclos declinantes, sucessivos, como um prazer
ao contrário, bruto, até o chão. Deserto é tanto
o que sobrou quanto
o que estava antes, coalhado
de abismos escavados na planura. Quem foi
que ergueu esta montanha aqui?
, ele disse quando galgou
ao cume, diante
da miragem do absoluto, o riso
apontando para onde o coração (deviam
inventar um nome melhor
pra estas deformações
, ela disse, que se assemelham muito
a florações
) insiste
em construir cenários
imprevisíveis, andando rente,
tentando descobrir porque miragens
nunca reencarnam.
(das Notas Marginais)

10/20/2007

nº 53




Atravessar o deserto de carne, tantos
relevos de pele, numa aventura
da cor e do som, do gesto (tudo
é deserto
, ele disse), na terra trêmula,
e a salvação vem daí, é parte
dele ou erra exilada pelas paredes
ácidas de uma dúvida
que não cauteriza e nem
percebe ao certo. É sua alma o que vaza quase
todo dia em jatos e estertores, na hora
em que pesa mais, um pouco mais
que o corpo possa suportar. Salvação,
abrigo, redenção,
caminho, o que for,
veio tarde: seus pés
afundam no chão duro
e é aí que você vai ficar, convulsivo,
quando a miragem passar.
(das Notas Marginais)

10/17/2007

Convite


Queridos epistoleres
vou lançar meu livro de poesia e desde já quero agradecer vocês pelas leituras e sugestões!

espero todos no lançamento

beijo

Masé

10/16/2007

A escuta da história

O que pra vocês é história do Brasil chega aqui em casa pela linha telefônica. Uma voz interrompida, entre os chiados da ligação ruim e os da dor que se expande no corpo até desejar saltar pra fora em lágrimas, tão finas e profundas como as que já me tatuaram com agulhas fabricadas nos laboratórios dos Anjos Convulsivos. Lágrimas que faíscam como se o telefone fosse uma serra circular roendo minha cabeça, por fora e por dentro.

Mais além do que o aparelho alcança há um velho que fala sozinho em língua desconhecida e forjada por estilhaços que parecem ter sido um belo vitral, em tempos sem memória.

O velho está debruçado sobre o mapa de um lugar esgarçado, onde a desgraça é vendida, trocada e usada como matéria-prima na fabricação de moedas e churrascos.

A rede puída em que o velho espera a morte é o pergaminho da desgraça dos mortos insepultos, dos gritos torturados sob a castanheira grande e das crianças que ainda morrem de fome ou são sufocadas por latas de cerveja.

Meu cérebro é vidro moído, nele há uma bonita e muito triste mulher enterrando sonhos que não são apenas seus à beira de um rio silencioso. Rio que de tarde é vermelho, no anoitecer é roxo, à noite é negro e na madrugada uma cidade sem luz invadida por sereias com garras de aves de rapina.

Com esta matéria perfuro-cortante os anjos convulsivos preenchem livros adotados no Colégio Saber é Vencer. O professor digere as letras para as crianças o importante é o exercício cerebral. O senso crítico se lamenta, queixa-se patrioticamente do país que deu errado, fecha a cortina e apresenta uma alternativa de V ou F para o próximo vestibular.

10/11/2007

No lugar em que você está




aquilo que se diz avança no espaço
a 360 m/s
e assim, se você estivesse aqui
agora,
meu verso saltaria no ar, num átimo
e como um bólido rasgaria o ar
até surfar em seu ouvido,
amargo ou doce, do jeito
que ele quiser.

o que você está olhando
agora, neste deserto
branco, é uma voz
suspensa, no meio
do salto, esperando você
chegar.

onde você está agora?

Nova metodologia para o Autoconhecimento

Fazer coisas inúteis dá muito mais
trabalho. Isso é pra quem te acusar
de desocupado.

Rei Lear.


Para piorar você era aquela história do menino que se escondeu no quarto e que de tanto comer papéis acabou se tornando um sapo peçonhento. O sapo que de vez em quando se abrigava na idéia de que as páginas brancas poderiam ser asas de uma grande mariposa. Mas, no final das contas, um sujeito envenenado que foi migrando e se desfazendo em estilhaços, parcelas de histórias alheias.
Está escrito em algum lugar que o destino de cada um é sua cota no cosmos, moira, mas isso pressupõe a existência de harmonia. O destino pode ser uma quase-ausência no turbilhão dos destinos alheios ou mera doença da linguagem.
Daí aquela constatação óbvia: todos te conheceram melhor do que você mesmo, mas você não se reconheceu em qualquer retrato alheio. Sua imagem mais fiel pode repousar num site (www.danielfaria.org, por exemplo). Mas você desconfia que sempre teve o dom de irritar carolas. E desconfia que ateísmo é presunção ridícula. E desconfia que melhor seria agir como o bom demônio e dar porrada nos mendigos que penduraram seu retrato no interior das autobiografias só porque você é uma esmola suficientemente miserável para o sentimento de satisfação que lhes basta.
Você, ou seja: o que você é. Sua última desculpa seria então, não importa o que eu sou, mas sim quem eu sou. Um cara confuso. Um invejoso mesquinho. A promessa do ano. Uma pérola. Babaca pra caralho. O libertário. O revoltado. O trator acadêmico, “eu achava que você era normal”. O que desafiou os leões e suas frases de roteiristas de desastres aéreos. O amigo dos porteiros, dos gatos de telhado e dos jovens massacrados pela horda dos professores ressentidos. O que gostaria de ser qualquer coisa destas, mas não é nada disso.
Não é nada disso mas, por outro lado, a situação assusta. O que fazer se você não acredita em horóscopo, espírito de época, teologia ou materialismo dialético? Foi por isso que num momento de desespero você virou a história daquele homem que acreditou na metodologia Oito-Olhos para o autoconhecimento, “fazer de sua alma um livro aberto”? E anotou os números que te localizam no mundo (identidade, CPF, CEP, telefone, conta bancária, data de nascimento) e foi à biblioteca em busca dos livros correspondentes? E no livro situado no número do seu nascimento, 090, página 37, linha 6, deparou-se com ninguém menos do que Petrarca e estas dicas: “a turba vai zombar de sua busca, mas persista espírito gentil”, “você é o tipo do animal que não descansa nem de dia nem de noite”, “você mais parece um homem selvagem apaixonado por uma fera”, “baixe a bola, a morte não se esquece de você”, “humildade é para os trouxas, eu quero a Laura, a Laura que tem a lua minguante como brinco”? No CEP, lá estava John Wisdom, Problems of mind and matter, numa página sobre conteúdo, componente, constituinte e forma, discutindo uma coisa que pode estar na outra sem ser conteúdo? Afirmando que, sendo o fato uma relação entre coisas, estas podem se aproximar sem comporem necessariamente um fato? Uma coisa como uma direção no vácuo, sem forma? A página termina laconicamente com a frase “isto explicaria seu”, isto parece certo.
No telefone você achou Paz Alonso, um livro sobre a história de Cuba no século XIX? Você não entendeu direito, mas pescou as seguintes frases, “você é um espanhol de segunda classe”, “você é uma coisa entre o reformador irreflexivo, o inteligente mas desfocado e o preguiçoso”? No CPF você leu Joseph Boskin, Sambo, na página que fala de alguém vestido como um palhaço, montado num cavalo, um escravo que dava cambalhotas para alegrar o coração dos proprietários e ainda ouvia a crítica de Josiah Quincy sobre o possível enegrecimento da alma das crianças brancas que se divertiam? E o número da conta bancária, então? Esta caiu na prateleira de Serviço Social, que tem por objetivo o homem racional e procura ajustá-lo, reajustá-lo e educá-lo? O importante é inserir o vagabundo em algum grupo, tendo em vista a felicidade individual e a utilidade social?

Certas coisas da vida são tão arrumadinhas que não convencem. Por exemplo, o fato de as obras completas de Menotti DelPicchia terem sido publicadas no Edifício Mário de Andrade. Ou o fato de que foi impossível encontrar qualquer livro que correspondesse ao número de sua identidade, apesar de todos os esforços. O bom demônio que se esconde no livro inexistente ensina: identidade não vale o esforço, a única ilusão digna é a liberdade.

10/06/2007

O outro convite

Sempre fui um penetra em minha própria festa. Na única ocasião em que usei casaca irlandesa, num jantar em minha homenagem pela vitória na competição de comer palavras emendadas e vomitar notas de rodapé, fui pego em flagrante ao roubar pedaços de rosbife e esconder no bolso. Era pra curar a ressaca do leite em pó com vodka, mas os seguranças armados com paranóia elétrica e distorções de Robert Musil não acreditaram.

E foi desse mesmo jeito que, à porta da casa em que fui escolhido pra morar como invasor, bateram os convidados de uma festa à fantasia não-programada. Desconfio que os convites tenham sido enviados pelo famoso vírus virtual que expande as telas dos computadores e forma uma cúpula azul sobre desavisados.

Agora estão comigo: Mairowi, meu famoso pequeno amigo verde; as Quatro Pombas com os óculos infravermelhos de astronauta; a Garota Língua-Seca de Papagaio e seu colete à prova de balas feito com pele de porco-espinho; São Capeta dos Espelhos. Eles não foram convidados. Eu também nem sequer me convidei quando entrei nesta festa alheia. Mas fazemos um brinde triste enquanto Campinas derrama asfalto derretido em nossas gargantas. E como somos orgulhosos, cada um bebe por conta própria.

Mas não faço de conta que todos são bem-vindos. Disfarço com o canto do olho e vejo figuras que me causam ressaca antecipada: Maria Bentham, Oito-Olhos, a Babaca P.S. Silva, o Boca Seca Chupadora de Pirulito de Pimenta e o Iconoclasta de Taubaté. Eles são muito escrotos: é uma festa à fantasia, mas vieram com suas roupas de ofício. Acho que é por preguiça que eu não.

Desconfio que a festa é deles, que eles são sócios do escritório dos Advogados com Terno de Embalagem de Miojo: ou seja, que eu, além de tudo, sou inquilino destes filhos da puta. Isso explicaria os nuggets frios servidos como petisco, à moda do porto (que eu não encomendei). Me vingarei deles com a surpresa escondida no fundo da geladeira: Schincariol de Alagoinhas, a cerveja visceral.

10/04/2007

nº 50



Alguma coisa que não se resolve, e nem
é mistério, num monolito em suspenso
o rótulo todo rabiscado onde
está inscrito 'alma' entre outras besteiras (espia,
tudo aqui é fissura
), essa conjunção
de partículas de treva parece ser
sua - aí, ele disse,
a crise atinge a página
do tempo, agora mesmo, e num instante você
se sente ligado ao presente mas
é só um efeito das palavras, na seqüência
de rajadas, e empena
acima o olho estoura
diante da luz
simulada.
(das "Notas Marginais")
imagem: acrílico sobre tela de Eduardo Iglesias.

10/02/2007

Verde verde vômito como amarelo – amor amor o caralho solidão – meu ego é minha cela meu sétimo selo ainda ontem uma criança desenhava em traços grosseiros o que bom dia ser uma forca mas era uma chave duas chaves voando ao redor de um trem tosco o que me fez pensar no corpo no corpo no cadáver no resto que era silêncio nos restos mortais no porque agora sim agora não agora sim agora não eu te amo meu bem ve se sai do meu caminho peste se eu entrasse naquele trem que mais parecia um funerária ferroviária desenhada num caderno verde verde como vômito amarelo bem que eu veria todas as faces pétalas podres num ramo seco

Agora outra questão é se o rancor tembém tem dedos como as palavras de amor – o rancor as palavras entrando como um cotonete na uretra como agulhas nas veias – tudo o que passamos juntos meu bem teus sonhos me dão náuseas ah messias menina civilizadora e seus colegas cafajestes fantasiados de sentidos embaralhados mas sabendo que cada coisa em seu lugar a luz acesa os copos sobre a mesa as palavras certeiras o a ser dito e a não ser dito – ai esta maldita coceira no ânus

da burguesia que palavra mais antiga –

a primavera começou o frio ainda é forte muitas indefinições palpáveis pelo menos é o que diz o meu horóscopo acho que odeio campinas que odeio brasilia que odeio o que amo que amo o que odeio que fico rodeando o que sinto como mosca na merda atrás de que alguma pureza

bem não vou pensar nos dias perdidos no alarme do despertador no que devia ter lido o que está escrito no que ainda não li? Talvez a mesma a mesma letra morta escrita à margem das citações e se eu me tornasse um agente da expansão civilizadora? Se eu ensinasse as artimanhas do corte e costura da postura boa ou má tanto faz se eu me vestisse de lobo pra entrar nos teus sonhos e te dizer liga pra liga pra mim estou muito sozinho mas pedir já seria demais pra nossa paciência tão gasta não é minha gérbera?

e se eu te levasse no trem desenhado grosseiramente pelo menino ontem à noite (ele mal acabou de desenhar e já estava dormindo) acho que lá dentro depois da fina parede de papel entre o papel e a mesa dentro do trem deve haver outra chave um rabisco apenas que eu chamo de chave por comodidade mas que é outra coisa outra coisa ainda

não era bem isso que eu estava dizendo

9/30/2007

Mapeando os circos. Circular do Ministério da Cultura.

Porque precisamos subvencionar e por isso fiscalizar, administrar – auferir, tudo com o firme propósito de incentivar a disseminação das mais autênticas raízes brasileiras por todo o solo nacional, fazendo dele um emaranhado multicolorido de brasilidade sempre vista, ouvida, sentida: Cidadania. Mas não somos apenas Getúlio Vargas, somamos hinos pós-tropicalistas, recorremos ao planejamento estratégico, à gestão ética voltada para pessoas vencedoras de óculos de aros grossos e pequenas lentes e por fim preferimos quase sempre os verbos no gerúndio. Decidimos que precisamos saber aonde vai o dinheiro. Precisamos de mapas. Mapas. Mapas. Mapas. E roteiros.

Pra ser circo tem que seguir o seguinte script:

Atrações tradicionais mínimas: mágico, palhaço e malabarista.

O mágico é aquele que usa truques para ludibriar o público em suspensão de descrença – se não forem constatados truques, a magia recai no âmbito da feitiçaria: o circo passando a ser arena de demônios.

O palhaço deve usar maquiagem, necessariamente: o riso da platéia não é de modo algum suficiente (isso é preciso ficar muito claro para nossos agentes): quem faz rir sem maquiagem não é de modo algum palhaço.

O malabarista é mais fácil de ser identificado, desde que se saiba que uma possível queda não o desqualifica como tal, que o malabarista é quem tenta executar saltos de alto grau de dificuldade – não qualquer salto, note-se bem, propomos uma medida de pelo menos 2 metros de distância do chão.

Não devem ser aceitas figuras ambíguas, como mágico-palhaços ou palhaço-malabaristas, para fins de mapeamento dos circos brasílicos. No limite deste caso, corremos o risco de jogar toda nossa pró-atividade num circo com um só artista, o que seria um acinte à opinião pública. Assim, um circo, para ser circo de direito (ninguém está proibido de dizer que trabalha num circo, mas o Ministério não endossa devaneios sem metodologia), deve ter pelo menos três especialistas em cada uma das artes básicas mínimas tradicionais do autêntico circense nacional brasileiro.

O circo não pode, em hipótese alguma, ser ao ar livre. Deve ter uma tenda, com no mínimo duas cores (excluindo-se o preto, o cinza e o branco). Ao ar livre não é circo, é bando de rufiões, trapaceiros improvisados, arruaceiros, sendo caso de polícia e não de Ministério. Se for uma tenda branca será workshop, preta não terá o quantum mínimo de alegria necessária para o definitivo reconhecimento de um circo como tal.

Os circos precisam, por fim, adotar as diretrizes do planejamento estratégico, apresentando ROTEIROS e MAPAS para suas viagens. Como os circos não têm endereço fixo, o planejamento é necessário para que eles não SUMAM DO MAPA (aliás, um circo que permaneça mais de um Mês no mesmo local será considerado BOTECO ou BORDEL, caindo visivelmente no conceito social). Mas não se deve confundir vida circense com nomadismo (característica, aliás, incompatível com a cultura nacional, tão apegada aos valores do lar).

O Ministério não deve financiar artistas de um dia, ex-prostitutas, fantasmas, vultos sem sombra ou magos. E, sobretudo, os circos podem até tocar Roberto Carlos para atrair as multidões, mas jamais, em caso algum, rock’n roll cantado em outra língua que não a luso-brasileira.

9/25/2007

A dança




Isto aqui é música: você tem
que arrancar do vento um jeito
de fazer o pensamento dançar, corpo
vagando congelado
sobre a superfície, a fina membrana é uma blindagem
branca, protege você
do Mistério
e aí se pode ler vazio, plenitude,
entreposto, cais
de rejeitos, entropia, qualquer
coisa. Isto aqui é música, o pensamento
tem que dançar com seus sapatos
cinzas até que apareça
uma rasura na pele
do Mistério que seus olhos
estão tocando neste instante, esta
aí, em suas
mãos, e isso seja roteiro,
mapa, acesso
ao que vibra em suspensão, como se respirasse,
muito além da fronteira
dura.

Dois Patinhos na Lagoa

Os urubus que esperavam pelo tédio dos turistas enfim acostumados ao fedor da baleia morta na praia


Os escorpiões que arranhavam a janela do quarto, fazendo-se passar por estilhaços do vento


O brilho ofuscante do azul que saiu de sua boca quando riu com ferocidade do fracasso alheio


É com isso (não tenho outro matéria) que jogo minha consciência como um dardo mirando um momento de lucidez.

Eu poderia dizer que sou um sintoma.
Ou um ponto de intersecção das infinitas mediocridades contidas na viagem do engenheiro responsável pelo projeto do porão alfandegário onde se amontoavam os escravos.
Ou uma nota de rodapé a mais na história do mundo que é um artigo acadêmico escrito por Babaca P.S. da Silva visando a apresentação no Congresso Universal dos Gerentes da Teoria e Narrativa do Bingo. Ou ainda que o mistério da existência se concentra no Currículo Lattes do tal personagem.


Mas, quer saber? Eu não acredito em espírito de época.

9/21/2007

Paisagem de Cidades Imaginárias (versão remix 1.0)




Amhearst,
Stratford-upon-Avon, Nishapur,
Lisboa, Itabira, Buenos Aires, São Paulo,
Málaga, Nova York, Salvador, Pasárgada,
Recife, Rio de Janeiro,
e você aí nessa cidade-fantasma
com o braço erguido
em frente ao muro, no espaço
do instante em que o grafite
incompreensível que sua mão
projeta é toda
a sua vida.

(na foto, Snupi - grafiteiro de Brasília)

9/20/2007

nº 49



E se dissesse a verdade ninguém
acreditaria, você disse, à espera
naquele espaço rápido
entre o olhar e o sorriso, isso
é besteira, ela disse, displicente,
sem a frieza que é sua e do céu que
é só dispersão
de estilhaços de outra coisa
que explodiu faz tempo e que ainda
arde sob o nome fantasia
de "estrelas", é certo, mas sem o aparato
da memória acesa, em carne viva,
latejando: “Vou falar de mim
pra ver se me esqueço
ou me ultrapasso, sem
retrovisor
”.





(das "Notas Marginais")

Sem título

Quero despertar minha amiga Nadir, que dorme há uns quarenta anos com os olhos abertos, num túnel de esgoto que liga a Universidade de Brasília ao Lago Paranoá. Quero de volta a solidariedade dos dois bêbados que se arrastavam na 204 Sul, no único dia em que aquele terreno amaldiçoado pela profecia do santo pedófilo assistiu à explosão da mais pura inocência. Mas meu amigo Fábio é daqueles que sofrem de amnésia alcóolica e a triste verdade é que não tenho nada a ver com os carneiros sedentos de sangue ou com os psiquiatras candidatos a vedetes no microgueto cultural que naquele dia riram de nossas caras.

A Guerra Absoluta sempre foi a verdade teórica das guerras, limitada apenas por restrições mundanas, enquanto os redatores oitomãos de aranha caminhavam com o cérebro de Keyserling sobre suas cabeças. Eles traficavam dentes de um sorriso imaginário, dentes arrancados de suas próprias caveiras ressecadas na areia do deserto que foi, é e será porra mineralizada.

Nas guerras de descolonização da África uma técnica de tortura contra intelectuais consistia em forçá-los a apresentar palestras exaltando as glórias francesas. Ou então organizava-se uma brincadeira do tipo polícia-e-ladrão em que eles agiam como policiais. Depois de um tempo eles repousavam numa esquizofrenia acomodada, no conformismo de anestesiados depois dos sucessivos psicodramas. Eles eram forçados a ver a futilidade das opiniões, em face da brutalidade seus rostos eram espelhos estilhaçados.

É por isso que não tenho vergonha ou remorso de rezar pela manifestação festiva da palavra num foda-se conclusivo que acabaria com este carteado imbecil, em que faço o papel de croupier cordial e hipócrita.

9/15/2007

Então mais aproximações a Emily Dickinson

1

Miragem acesa, adiós –
Grato pela conversa –
Tão longa – tão breve
Guardiã de tudo –
Ninfa ímpar –
Volta – Revolta
Vai – Esvai

2
Me escondo dentro da minha flor
Que murchando num vasinho
Você, insuspeitadamente, sente –
Quase uma solidão.


3

Casa surrada – de quem?
Sepultura ou harém?
Ou teto de vermes –
Ou portal de duendes -
Ou catacumba de elfos?

4

Entre o meu país - e os outros –
Um oceano –
Mas flores – indo e vindo –
Embaixatrizes.



9/11/2007

Aproximações (não são traduções) a Emily Dickinson

1

Nada tenho – pra te dar Agora –
Então insisto oferecendo Isto –
Tal como a noite ofertando Estrelas –
A nossos olhos –
Cansados de ver o sempre
Mesmo filme.

Claro – você somente
Percebe as estrelas
Quando o céu está
Delas vazio –
Então talvez seja obscuro
O caminho de volta pra casa.

2
Água se aprende na sede.
Terra – cruzando mares.
Trilhas – ruas fechadas.

Paz - guerras memoráveis –
Amor, nas garras da memória.

Pássaro – à Neve.

3
Flores – Bem – se alguém
Souber dizer o êxtase –
Quase posição –
Quase transposição –
Com que flores cativar
Pessoas:
Se alguém achar a fonte
Do fluxo e do contrafluxo
Eu lhe darei as Margaridas
Que brotam depois do rio.

Mas olhos espantados –
Por este pão singelo –
Borboletas de São Domingo
No horizonte violeta
Têm um sistema estético –
Bem superior ao meu.

4
Bom dia – meia noite –
Voltei pra casa –
O Dia – está farto de mim – mas
Como eu podia esquecê-lo?

A Alvorada era estrada perdida –
De que eu gostava –
Mas a manhã não me queria – agora –
Então – Boa Noite – Dia!

Posso olhar – não posso –
Quando o leste é Violeta?
O asfalto – então – tem um jeito
Que faz o coração – largo –

Você – é meio obscura – Meia Noite –
Por mim, prefiro o Dia –
Mas – por favor aceite o pobre rapaz –
Que ele repudia!

5
Tão tímida quando a vi!
Tão linda – tão envergonhada!
Tão escondida em sua folha de caimbé
Pra que ninguém a visse –

Tão leve a respiração quando passei –
Tão desamparada quando me virei
E invadi seu resistente, enrubescido,
Tão simples esconderijo.

Pra quem eu roubei o Recanto –
Por quem eu traí o Abrigo –
Muitos, sem dúvida perguntarão,
Mas isso eu não digo!

9/08/2007

nº 8



Dedico-me a escrever sobre limitações: é tudo o que existe. Nada
sobre como sacar o mundo do interior da caixa preta. Há uma outra linguagem,
não detectada, fora de mim. Não saber mais o que se é,
quando tudo que se é não passa de um deslocamento. Fora de prumo
o mundo gira e arranha a pele nas paredes. De novo o coração, aplicadinho, se deixa fotografar
no exercício de pulsões neoliberais – contudo, por dentro
soa a frágil certeza de ser gauche. Lemos todos os metafísicos,
mas desta varanda o que se assiste são sentimentos médios, pensamentos médios,
tudo em plano-seqüência e sem alarido: entre o que se move e nós,
que aqui nos abandonamos, só um ponto é certo
– e jaz oculto.
(das "Notas Marginais")

9/05/2007

Lirismo em terceira pessoa (De Holderlin a Diotima)

O vulto
No quarto escuro
Procura-se no espelho
E não se enxerga

(Amor é sombra cega)


*

Alguém soube um segredo

Sabe que soube um segredo

Acredita saber que soube
Um segredo

Almeja acreditar saber
Que um dia soube
Um segredo.

*

Como a palavra
Mortaviva
Na ponta da língua.

(O amor que se perdeu)


*

Um lírio
Que da noite pra o dia
Ficou azul.

9/02/2007

Lord have mercy on me

Acredite, pessoa triste que me acompanha, a sua devastação pessoal é única e também cota no mercado comum das dores banais, tudo é o mesmo blog.

A alegria do Hotel em que te vegetaram, o Hotel neoclássico com letreiros dourados, ofende como se tudo fosse planejado contra você, como se cada lance de luz viesse ao mundo unicamente pra te deixar no outro lado, à sombra.

Você teria que acreditar que neste jogo o Hotel é a verdade, mas você sabe que aquela alegria só pode ser falsa, por ser impossível e você espera que as coisas tenham alguma coerência. Ainda mais “Alegria desesperada” sendo o tema da sua predileção.

(“Alegria desesperada”, ou seja: a vida em gotas caindo sobre a terra a 7 palmos de altura dando forma a paralelepípedos enquanto o Padre Vieira anuncia a libertação definitiva da cloaca do mundo pelo consumo de sangue em cápsulas de carnaval; ou ainda os coágulos votivos deixados pelos corsários aos pés de Nossa Senhora de Copacabana após o massacre fundador, um banquinho e um violão).

Você se justifica dizendo isso porque não encontra alternativa e é de uma ingenuidade brutal, apesar da malícia fingida. Você queria inventar um modo de se queimar por dentro, de sair deste círculo infernal de coisas que somente dizem que não, sem cair no ridículo da alegria desesperada que te ofereceram entre as várias opções do cardápio:

vai o afirmativo comum das filosofias de farmácia, ou o rótulo que diz outra e mesma coisa no rapto cotidiano da felicidade (otimismo que se lê), abre a boca e fecha os olhos.

Você queria isso tudo, essa outra coisa, sem perder a ingenuidade brutal (uma amiga um dia te disse, “você assusta as pessoas”). Pois é, mas você queria causar outro tipo de espanto. Por enquanto não consegue e deve ser por isso que se esconde na segunda pessoa.

8/30/2007

O plano B falhou, meu bem.



Todas as promoções deste supermercado escondem
armadilhas, ainda que os olhos
da mulher atrás do guichê de crediário
amplifiquem metáforas de sucesso:"como fazer amigos
e influenciar
pessoas
”. Seus olhos são verdes da cor do mistério, mas isto
não induz qualquer salto
para além da superfície. As coisas, a coleção
de coisas em oferta forma,
em estrépito cortante, o aparato de planos
onde é dado movimentar-se, meu bem, mas nunca
em plano-seqüência: alguém
grita “corta!” e você fecha os olhos, sonhando
com a próxima emulação de paraíso. (Deviam ter disponibilizado
nas gôndolas uma metafísica
de pássaros, qualquer uma,
para aquele que chegou
do campo agora e cuja memória
ainda vasculha sons
de primavera).
Caso você tente alcançar
o subterrâneo, o expediente se encerra e o mundo
fica parecido com uma calçada em frente às vitrines
depois das 22.

Adicionalmente, é bom saber que trocas
serão feitas apenas
às segundas e mediante
cupom fiscal, sempre das 9
às 11.

Com o seu aparecimento todo o céu ficou cinzento e São Pedro zangado

Dia nublado.

Você pensa que
A névoa é cinza
Mas outra camada
Do pensamento
Pressente a fumaça
Com pétalas e corpos
De animais carbonizados
Dançando no ar, em espirais
Caindo nos pratos
Nos copos de cerveja

Nas mesas dos funcionários.

*

As cinzas caem
Na mesa em que
Um sujeito reclama
Que o seu avatar
No second life
Ganhou vida própria
E gerou dívidas
No cartão de crédito:
Então é como se Deus
Estivesse fumando
E a cidade fosse o cinzeiro
Ou como se o Anjo
Caído vomitasse
Depois de ter passado
Toda a eternidade
Mastigando bitucas de cigarro.

*

A névoa cai na mesa
Em que o sujeito
Metido a professor
Com olheiras cinzas
Acredita que avatar
Remete a buda,
A cristo, ao nome
Que caiu sobre sua cabeça
Como restos de um paraíso
Incinerado,
Espalhados pelo vento.

*

Aqui o sol se põe
De um jeito especial.

8/27/2007

nº 44




Você não vai sair bem disto, o vício
de permanecer vivo. Fadado
a ser errante (despedacei com ela os melhores anos), a superfície
do planeta (sempre
me esforcei por adentrar a alma das coisas
) se obstina em manter o registro,
nas suas cartas (só queria imprimir na escrita os choques
do corpo, a explosão do corpo, até que alguma coisa
estremecesse
), de expectativas que se encerram
como ontem, quando bastava
olhar os beirais e suspeitar uma outra
ordem sob a tintura de tudo, sob o verniz
de máscaras. Agora,
o que era busca
de sentido virou-se em desespero de nunca
achar, na percepção
de que toda ação se passa vertiginosa
fora do campo, em laterais
que o olho nunca
alcança.
(das "Notas Marginais")

Sobre os nomes

Deixar minha sombra
neste amarelo

(Já nem sei se falo
de giovana ou gérbera)

:Pétalas se dissolvem
no colchão, um jardim
de movimentos lentos:

giovana.

:Sobre a mesa
repousa a memória
- Em que outro tecido
revi estas cores?:

gérbera.

deitar minha sombra
neste amarelo

(Já nem sei se falo
De gérbera ou giovana)

8/21/2007

Saudade da Giovana (Ou, lirismo mesmo, e daí?)

Se em sete sementes
Eu repartisse seu nome
E plantasse uma a uma
Em cada um
Dos sete dias da semana
Sete gérberas brotariam,
Entre junho e janeiro.

Cobrindo sete meses
Pétala a pétala,
Sol a sol,
Lua a lua:

Eu me esqueceria sete vezes
Do meu nome
E me chamaria asa, flor,
Flecha, manhã, tâmara, verde,

Domingo.

* * * *

Ontem sonhei ser
Um quarto escuro
Hermeticamente fechado
Onde você, meu amor,
Sonhava com seus brincos
Em forma de lua.