6/16/2010

Vida
De robô sanguíneo,
Discórdia, além disso.

Dar de cara contra o muro
E chamar o sangue de:
Produção. Alegria.

Atrás do muro, dentro
Do muro, o coração
Das coisas?
O coração
Do girassol? A nitidez
Tem coração? O coração nublado
Das coisas, o obscuro
Coração da vida.

Onde está Renata no coração
Do Brasil? Onde está o Brasil no coração
De Renata, onde estão Brasil e Renata
No coração de um sujeito
Sem coração – não confundir o sangue
A mancha no muro.

Hoje de manhã a luz estava fria
E um estigma era a tatuagem
Do frio em minha pele, e a pele
Não é proteção pra alma
É a própria alma exposta, a contrapelo
Que o desamor fere como uma pancada
No muro –

(Ele que não me deixa relaxar,
Não é você, girassol)

O muro é a pele da alma das coisas e eu
Sentia apenas um frio no lugar onde seria esperado
Um coração
Enquanto me lembrava do meu velho desamor
Que me atingia
Como um soco na boca do estômago
Na súbita ilusão de que o coração
Inexiste, o coração
Ausente, delira e tenta se criar
Com ar e palavras, morrendo
De medo de ser um não-coração
Num mundo em desacordo:

E ali estava o coração,
aqui.

6/11/2010

Tempestade Intempestiva?

Tempestade Intempestiva?

I
Escravo de mim mesmo
Vivo em círculos de poucas retas
Vivo fenecendo em rodas de sânsara
(de forma sacana penso:o que me falta é a punheta trântrica?)
A cobra que morde o próprio rabo: quem é?

Vivo? Nunca sabemos se realmente vivos: eis a ambigüidade da vida-morte
Morte do corpo? Morte da alma?
Guerras internas: em busca de alguns armistícios?
Poesias, natureza, artes e fisolofias:
não sou digno delas, apenas contemplo um vinho vagabundo.

Talvez tente ser um bom pai e um bom filho: quero algo mais?
Talvez um grande amor... ilusão romântica? Eterno apaixonado?
Pelo menos leio em um título de um livro do Rubens Alves:
Ostra feliz não vira perola? Conforta meu ego em guerra.

Queria eu livrar-me do meu ego e apenas ser: é possível?
Ego-ego-ista-ista-egoi-como sair da roda: sansara é a cobra do mato: tatarna! Ops: tatarana! Que fica perto da gruta do Rei do Mato.


II
Por vezes, creio que é o lance da tragédia é a comédia da vida alheia.
Meu sofrimento é a comédia do mundo.
Vivo, sofro: procuro não viver a melancolia da acídia:
Resistir sem a complacência com a tristeza é minha meta.

Mas, contudo, todavia, porém...
O vinho corre sobre a tinta...
A tinta da vida: como lidar com o choque da morte?
Como lidar com a alegria de uma filha que apenas balança em uma rede?
Como lidar comigo mesmo?
Ao menos a lida tece urdiduras que duram: eterna vontade de permanecer?
Como aceitar o que flui, o que não flui, o que é, e o que não é:
Recordação maravilhosa de uma dependência absoluta:
Ao absoluto? Ao amor? Ao prazer? A vida? A minha pequenez egoísta?

III
Vivo fenecendo, apesar da ilusão de renascer
Talvez escrevo dos baixos-altos desejos:
Como encarar a moral-imoral?

Preso em teias da subjetividade (esse mar sem fim)
A procura de algo, do outro, da vida e do amor romântico-subjetivo
Da família talvez falida? Fragmentações da experiência de um tempo e do tempo
Retenções simétricas e propensões de horizontes que fogem:
Horizontes de lapsos da memória, perdidos no buraco negro do meu esquecimento

Perdido-encontrado; encontrado-perdido
Jogos de palavras: superfície-liso-estriado-profundidade-superficial:
Aqui não é mais o agora e o presente não é mais futuro: foi-se e fui:
não habitamos a própria casa?
Dúvidas involuntárias: in-nega tudo?

Plun-ti-plati-zun: não vai a lugar nenhum: nem mesmo ao zoológico:
Hoje é domingo: dia de pipocas!

IV
Faz quatro anos:
No mesmo lugar
Entre um mais que possível
E um outro mais que (im)parfait

Entre tempos, temps
Entre temps, tempos verbais
Tempos da história e da experiência: queria poetizar minha própria experiência
(talvez a única saída pra uma alma vazia.
Como aceitar a falta de talentos?
Falsos poetas podem entrar no jardim das delícias?
Ao menos sou um bom mentiroso: ironizo meu ego e ao mesmo tempo o alimento: eterna ambigüidade!)
(Um ar ecoa com o tempo dos trilhos que gritam ao escutar as locomotivas:
automóveis do minério.
Entendo Drumond: retirar minérios da terra é edificar nosso próprio sepultamento!)

Entre tempos verbais, um delírio:
Paixões passadas, ilusões futuras: um presente solitário?
A solidão me angustia: não angústia, é claro, o leitor não solitário
Solidão, como se sabe, rima com otário!

Vinícios: o que é viver um grande amor?
Para um coração que quer viver o sossego, mas vive desassossegado?
Hoje observando o silêncio do mundo entendi o sentido de sossego:
Mas depois disso a cobra sibilou e o gavião resolveu comer o ou ri ço:
Ver a natureza é ver nós mesmos: tememos!

Eis aí uma psique singular e gregária: possuidora de paradoxos contínuos
Ao menos há o afeto da família e os amigos...
Apesar de toda a ode a amizade e dos muitos amigos sinto o terror de me ver
De me sentir: ver a venerabilidade da existência
E depois? Seguir, edificar, verbiar: não sucumbir a tristeza:
A acídia é parente do demônio do meio-dia.


V

Doendo, apesar da vida burguesa
Apesar, do vinho
E do vinho, apesar
Não luto pelo pão!

Perdido à beira das mortes (antônio das mortes bem sabe)
O problema é que aceitei o contrato hobesiano e nunca matei ninguém!
Nunca senti a morte: só algumas assepsias funerárias
Mortes naturais e a-naturais

Tudo se resume a isto: aos 32 dois anos aceito o envelhecer!
Sair de um lado e entrar em outro: passando por outro, que nunca é meia
Nesse frio da roça uma meia é um entre - lugar entre a pele e o frio penetrante
(amanhã vou comer a rapadura do Carcunda e curiosamente agora é meia-noite)

À beira da morte: morte alheia que também é minha
Lucidez embriagada à procura da luz da serenidade

Ser de idade: natalidade!
É duro renascer sempre!
Não se renasce com o tempo lógico: não há lógica no tempo!

Enfim, serenidade: um bêbado equilibrista?
Dessassussegado (com s é bonito, não?) perto de São Brás do Suaçuí

VI
Prisioneiro das paixões? Phatos afetados
A fé e a liberdade são os textos ocultos?
Ou a prisão das palavras? Pq escrevo? É um gostar-desgostar: loucura infantil?
Ao menos as crianças sorriem e vêm algumas estrelas:
Depois vêm à adolescência e acaba com tudo?

Depois vêm à sexualidade e deixa a cabeça perturbada:
Por isso que Riobaldo aconselha casar, apesar de Diadorim...
Mendigo-afeto e mendigo do afeto:
Eis aí uma fotografia real desse instante!

VII
Um olhar me acompanha por esses dias
Sentir o sublime amor? Mundo, vasto mundo do meu coração:
O pior é que essa coisa de sentimento não é uma bobagem!
Queria eu ser um insensível: sensível apenas as flores... e ao belo definido nos livros

O sublime amor: uma experiência de Deus?
O sublime amor: apenas uma experiência...
Entre os pais e os filhos quem habita?

Embaralhamento: isto me prejudica quando jogo cartas!
Palavra bonita! Talvez a serenidade e o tempo estejam nas mãos
dos jogadores de cartas...
Não se pode duvidar de tudo!
Queria simplesmente ver: apostar no amor. Em um amor!
Sentir o fluir sentido de um olhar cigano fugidio.

Um dos meus maiores êxtases foram com os ipês e as paineiras: loucura?
O problema das misteriosas ciganas é que elas não gostam de se fixar!
E talvez estejam certas
A fixação é uma ilusão confortante que busco, mas não atinjo:
Minha alma atormentada precisa de sossego: como?
É realmente um dilema: até que ponto a vida autêntica não nega a vida burguesa?
Autenticidade sem cartório é uma travessia que atravessa o corpo: cheio de dor

VIII

Repetições?
Novo-velho?
Ou simplesmente novo?

Frente ao amor filial e paternal nenhuma dúvida:
O problema é a horizontalidade: fuga de horizontes...
Talvez seja a saudade do mar

Mas, uma amiga angolona (e seu pai) quando vêem o mar
Não vêem o infinito, mas, justamente o contrário...
O contrário da alegria? Ao menos, um passado que foi...

Quando me apaixono quero acelerar o tempo: não gosto de esperar
Sinceramente não sei... é preciso viver várias vidas numa só?
Até que ponto ser sereno é um fim? Apaziguado, certamente?
A eterna busca do colo da mãe? (colo fetal? Retal? Anal? Colos corpóreos: nossa busca? E nosso fim?)

Quando escrevo no papel: vejo a tinta
Vejo o outro que é a palavra
Quando imprimo o stilo na tela, sobretudo, quando o sol raia
Vejo a mim mesmo na tela
Na verdade quase não vejo a tela, nem a palavra

Aceitar a paz é bom,
Mas, vejo (se vejo)
que difícil é construir a paz! Somos pequenos e queremos ser grandes...
Às vezes para lembrar minha pequeneza sofro a esperar uma mensagem de celular
Sofro como as amantes de outrora: pior ainda em tempos de guerra!
A esperar uma carta do outro lado do atlântico

Talvez eu esteja preso a esse instante presente/passado da vida
Na ânsia de viver muitas vidas numa só
Durmo com culpa de não ter escrito o artigo, de não ter lido, de não ter sido

Não sei se é pq viagem de canoa ou se o mar é bravo mesmo...
Mas, a tempestade parece que deu um tempo...
On vera...

A poesia, ou melhor, a palavra, não cria:
apenas transborda no excesso de mim, o excesso de mim
apesar de mim,
mas, sobretudo, para mim.

6/09/2010

Sem nada

Pra escrever, enquanto
Penso nas metamorfoses
Da musa,

De tema, lema, problema ao retorno
Ao mais puro sopro
De poesia no ouvido,

(Quando a musa não é mais
Assunto, espera ou procura)

Quando ela respira
No ritmo exato dos traços negros
Que vão colorindo a tela:

Quando, mudando
Sob uma luz sutil
Mas mundana,
De pétala a pétala
A musa
Muda de girassol
Como se a poesia rompesse
Num súbito claro de dia.

6/08/2010

Girassol

Primeiro frio de junho –
Um calor impreciso
No girassol ao longe.

* * *

O girassol que vai
O girassol que volta:
Delicadeza!

* * *


Suave calor, cheio de anjos
Sente-se, não se entende:
Nítido girassol!

6/04/2010

Anotações de uma viagem a Estância - SE (nos 100 anos do meu avô Oscar, homenageado pela criação da primeira escola de ensino médio da cidade)


1. Homenagem na igreja

A credibilidade dos anjos foge aos saduceus:

Eles perguntam ao cordeiro
Qual dos 7 irmãos desposará a mulher amada no além-morte.

Mas o cordeiro tem ódio no sangue e é o ódio do leão
Que responde:

Raça de víboras, como vocês pensam escapar à ira?
Se os anjos usam controles remotos
E microfones sem fio pra soprar a dúvida em seus corações
Soberbos, ostensivos!
Como saberão?

2. Homenagem na Câmara de Vereadores

“Qual dos 7 vereadores desposará a obra destruída
No aquém-vida?”

Porque as paredes da escola,
Desabitada, retém a alegria das crianças
Vozes de anjos, na parede azul
Pra quem sabe ouvir, mas de volta ao momento solene:

“Quem abrirá a caixa-preta, o tiroteio
Simulado nos discursos, a caixa-preta
Da chuva e da ventania, a caixa-preta
Do passado que não passa, que não passa
Mesmo quando morto,
A caixa-preta dos olhares sinuosos, do tempo, do silêncio insinuante,
Caixa-preta da morte e da insistência
Na vida, o próprio mar é uma imensa caixa-preta
Quem a abrirá, quem sabe dizer a sua língua?”:

Esta terra, Estância, Esta mar: Estamira?
(Invoco meu anjo predileto), quem abrirá
A caixa-preta do afeto: a anti-retórica, uma senhora
Que tapa o microfone com as mãos
E fala de lado e se perde na caixa-preta de sua própria vida
Enquanto os vereadores se contorcem nas cadeiras
Simulam ouvir entre risadas, procuram a metáfora perfeita
E aplaudem.


3. Agora podemos falar de anjos

Esta manhã está cheia de anjos, de uma beleza quase invisível:

Vejo crianças de 60 anos preparando uma peça de teatro no quintal,
Vejo uma velha chorar pelo filho morto em desastre,
Aos treze anos de idade.
Vejo uma luz intensa e fria brotar do cinza de veludo das nuvens
Que amortecem os coqueiros

Vi sanguessugas na estátua mutilada de Tiradentes
Vi um corvo bebendo a translúcida e fria água de coco
E vomitando bílis sobre a memória, e mesmo estas visões
Não embaçam o que vejo dos anjos
Através das gotas da chuva no vidro do carro
Enquanto passamos por Estância.

E vejo a memória e agora a memória é uma senhora vestida de estilhaços
Com a pele recoberta por tatuagens, nomes de todos
Os que passaram e que passam, e vão passando
Tentando cravar os dentes na pele macia da Memória
Dentes que vão se dissolvendo, sumindo,
Mesmo no dia da homenagem em que o pão se transmuda em carne
Em que senhoras de 60 anos viram crianças de 13
Em que a luz é fria em pleno verão e quando os urubus
Finalmente
Vomitam bílis pelos olhos, mesmo nesse dia
A carne da memória é tenra demais pra estes dentes e
Demais ácida e quando eles a mordem, eles e não ela vão sendo digeridos:

E por isso vejo que essa é a natureza dos anjos,
Não quero só “dizer paisagens, porém sonhos
Nada de saudades, porém esperança e desejo,
E falarei da amada”, Mário Faustino,
Porque um beijo seria mais natural à beiramar.

Vocês viram a ressurreição
Da infância no jardim?
Vocês viram o ritmo impecável
Do cinza e do branco na manhã?

Mesmo os saduceus, com a medida certa de quintal e alegria
Viram anjos nesse dia.

6/01/2010

Aproximação a ee cummings

há tanto tempo meu coração esteve com o seu

dentro de nossos braços entrelaçados
numa escuridão onde novas luzes se acendiam
e se intensificavam,
desde que sua mente caminhou rumo ao
meu beijo como um estranho
rumo a ruas e cores de uma cidade -

que talvez eu tenha esquecido
como, sempre (por estas
cruezas velozes
do sangue e da carne)o Amor
cunha Seus gestos graduais

e esculpe a vida em eternidade

- depois do que nossas almas são museus
cheios de memórias habilmente amontoadas.

5/26/2010

Chuva fora do tempo
Desperta o gato
Que dormia no bueiro.



4 dias no bueiro
Meia hora de chuva:
E o gato acorda pra vida.


Som de chuva fora
Silêncio felino em casa:
Maio também tem suas alegrias.


A chuva, metamorfose
Do verde em festa
Ensina o gato a miar.


Da luz avermelhada de brasília
Ao escuro do bueiro,
A chuva ensina o caminho de casa.

5/23/2010

A valsa do amigo do Impera(dor)

“ é a história de um imperador chinês que guardava muitos tesouros, um dia um amigo o visitou e pediu pra ver o tesouro guardado. O imperador o levou e na hora de sair ele agradeceu por ter ganho o tesouro de presente. O imperador disse que não tinha dado nada pra ele. Então, o cara respondeu que tinha desfrutado o mesmo prazer que o imperador ao contemplar a beleza das jóias, por isso a diferença entre eles não era grande. E ainda o imperador tinha o trabalho e o ciúme de guardar, tomar conta. Acho que entendi isso como uma história sobre como amar sem querer a posse, um amor puro que aceita a gratuidade da vida. Amar sem padecer com o medo da perda.” (A.)

Meu amigo A. me deu um presente
Chego ao hospital para ver a enferma mãe
E recebo outro: ela levanta e me convida para bailar
Dançar uma valsa que flui da vida

Frente a minha dor da perda
A minha tristeza tristeza de um aparente fim: horizonte fugidio
Me reconforta por um instante de alegria e esperança

Uma guerrilha do amor é travada
Minhas lágrimas caem: o real da presença me conforta
Nossa fragilidade nos abraça: o instante respirado e transpirado pela corporeidade da valsa

Um instante fora do tempo e já agora dentro de minhas lembranças
Lembranças de um instante de amor
Puro (purgatório da purificação de um luto inexistente)
Um fragmento da essência do perfume da vida.

Aqui e agora choramos juntos: compartilhamos
a dor da alegria e a alegria da tristeza
pureza impura que brota em minas perdidas: penumbras de mim

Deixar a tristeza sair!
Sem de perguntar por quê?
Cada dia pode ser uma surpreza
Em busca do milagre da presença
A espera de novas valsas!

Talvez a experiência dessa guerra
Seja simples como a história de A.
Apenas ser e estar diante da vida e da morte
Ver, aceitar e viver o Real e as Verdades desconhecidas

Invejo os samurais e o amigo do Impera(dor)

Compartilhar a dor

Da morte em vida: lapsos de lucidez


Para aqueles que não estão me deixando afogar


Depois de 6 meses sem escrever,
De 6 meses preso no buraco de Sumidouro (sem mesmo ir até lá)
Sumi, Desapareci: morri defendendo a vida!

Perdido nas névoas de um estilo etílico e,
Eventualmente, salvo por amigos e também por mendigos
Mais perdidos do que eu.

A morte deflagrou uma estranha inquietude: um pesar, uma melancolia-louca
Vontade de morrer junto
Desacompanhado e só, mesmo acompanhado, viver a tristeza do fim é ou foi
Se mutilar: tuer môi-mêmme!
Perder a perda?

Passar no portal: simplesmente atravessar cada fragmento da vida
Em busca da beleza da penumbra.
Obcecado pelo nada, esqueci do vazio
Frente ao nada-vazio
Preenchi a mim mesmo de embriaguez
Do vinho
Esqueci a poesia e a virtude

Só o barulho confortante do desassossegado córrego que some
Conseguiu me deixar passar
Passar pela vida sem sofrer: eis minha utopia!

Um alento vem do céu: o prazer e a alegria da gente humilde,
O retorno a mim e as árvores: a selva de pedra, me prende
Nada como uma expedição a mina d’água de Sumidouro:
Possibilidade de desassossegar em aconchego: já não acredito mais na salvação!
Ao menos habitar alguma morada...
Fonte de vida?

Deixarei a morte em paz, a fim de viver em paz?
Equilíbrio desequilibrado: me presenteei com a deusa Serenidade que
serei um pássaro.
Um pequeno e soberbo vôo: apenas isso. Não quero mais o mergulho, mas
a tranqüilidade das alturas!
Quanta arrogância! Reparar e mudar a rota: onde está o privilégio?

Talvez não quereira mais dormir, nem esquecer:
peço, então, uma escada pois já me cansei desse buraco.
Casei da dor, da tristeza e da ressaca.
Gostaria de retornar dessa viagem a minha casa, ao menos voltar a caminhar...

Uma coisa fica agora e aqui no peito que sofre:
Mesmo sendo um mal-mau poeta
Esse brincar com as palavras chamado escrita, ajuda
É melhor escrever
Escrever para suportar
Escrever atrás da leveza prometida!

Três quase haikais e Os Dois Estranhos

Sob a velocidade das noites
A praça vazia, o ponto de ônibus
A sensação estranha da despedida.

*

Último olhar de adeus,
A praça vazia, o ponto de ônibus
Entre dois estranhos.

*

Sob a velocidade das noites
Persiste um sabor de amora:

Ela diz que o tempo não perdoa.


*

Dois estranhos,
Entre si, mal
Se conhecem.

Dois estranhos
Cada um por si
Com sua estranheza
Muito própria.

Vida estranha:
Eu estranho
Ela me estranha

Sujeito estranho
Com idéias estranhas
Ela e seus medos
Estranhos: medos de
Estranhos.

Tudo é muito estranho
E impossível

O inacreditável simplesmente
Acontece
Entre dois estranhos.

5/20/2010

Ibn Arabi e Nizam

Amar sem padecer
Desejar o que deseja
O coração de quem se ama
Mesmo que lhe diga

Adeus

Amar o que ama
Outras paisagens
Outras vidas
Sem você

Amar a ressonância
Branca, o vazio
E a sutil resposta
Que dança nessa música
Inaudível.

Amar, azar,

No coração do azar
A flor da laranjeira.

5/12/2010

(o andarilho tapa o ouvido com mel
presta atenção no caminho
pra não tropeçar e despertar

o falatório, tantos olhos.

de noite pensa na morte como uma coisa azul
e dorme como um girassol doente;

sonha que voa invisível sobre a sonora cidade)

5/10/2010

Canção de re-despedida

Madrugada: ela faz as malas. Mas tem meses que suas coisas não estão aqui. O fantasma pega objetos fantasmagóricos, sonho. Despedida ao quadrado. Você esqueceu a máscara, não é minha, é meu rosto, um rosto é um texto a quatro-mãos e vice-versa. Leve esta persona também na sua mala.
Sei lá, queime, jogue no lixo, como quiser. Também farei minhas malas e
vou sair daqui de dentro, dar adeus em cima de adeus, à enésima potência.

&

Uma história Sufi: "Você veio pegar de volta o cavalo puro-sangue que criávamos e só agora me avisa! Da primeira vez não o levou porque não cabia na sua bagagem? Mas, darling, você sabe que estou sem grana. Infelizmente, o cavalo já era. Como eu te ofereceria estas almôndegas com que, com o perdão da palavra, te refestelas, se não tenho dinheiro pra comprar carne? A hospitalidade vem em primeiro lugar."

5/07/2010

Preciso aprender a rezar

Mais além das ilusões
A redenção.

O véu do mundo rasgado
A semente, o fruto imediato
O conhecimento ácido adocicado,
A morte além da morte,
Observando-se
Como se vida fosse
Outro véu rasgado,

O fruto semente é outro véu,
Uma ilusão adormecida
Despertada quando rasgamos
A velha ilusão.

Dentro da semente a luz
Por dentro a semente é água
Água que brilha como num rio

O sol

Sol líquido, mas frio, bom de beber
Como vida além da vida
O círculo, além da morte
A infravida,

Outra ilusão

O rio é um tecido, a leveza
Outro véu. Águassol, pobre
Palavra como outra
Qualquer, a iluminação
Cega, não vemos o véu
Mas ouvimos seu rumor

Rumor de tecido que se move
Transparente,

Lentamente, rumor de palavras
Como se o mundo,
Aquém do véu, falasse.

As palavras não criam
O véu, as palavras
São outra ilusão.

Todo poema é uma prece
Á procura do coração das coisas.

5/04/2010

A farra dos novos canibais oportunistas

Mais um da série Fazer o Texto Falar (as montagens,
seguindo a técnica dadaísta de recortar as palavras de um texto, sortear
e montar um novo texto). Procuro respeitar ao máximo o sorteio, porque
ele é mais criativo do que eu, só mudo uma ou outra
coisa na pontuação, na concordância. Taí:



Sua “tribo” é composta por brancos de cabelos louros e se fantasia de imprensa.


Costumes e coreografias capitalistas convenceram seus fiéis.


“O Brasil é mesmo um país único”. “Escravos que supostamente viviam”, nos argumentos estapafúrdios de Demérito

“Odair José” Raposa Tabajara dos Cavalos.


Quem nasce, vive e cresce num ambiente de cultura 171, daqueles que seriam seus antepassados.


A origem dos seus integrantes: 90,6% tem carro, TV, computador, ótimo negócio. Eles consumirão.

Seu sofrimento é passageiro.


Inexplorados conflitos agrários, essas vantagens, agora que terão de oferecer-lhes o azul do empresário.


O paradoxo é que é preciso ser visto, artificialmente, na falta de controle de uma cultura de antropófago.


Também no caso da explosão dos remanescentes indígenas, no Conselho das Primeiras Gerações Capitalistas,

outro 171.


Abarcam hoje um luxo no interior da existência de uma comunidade que dança no teatro do absurdo.


Há mais de 300 anos, sua “tribo” exigia demarcação de assentamentos e portos, quais não há: e esse naco

de benevolência ambiental.


Desde então, preservar as benesses da civilização-galinheiro; insistem.


Principal prova: poderiam ter feito do Brasil uma situação subumana de despejo, que englobaria até as históricas

compras no supermercado. Ou seja: professam a “legítima” prosperidade.


Uma gigantesca reserva brasileira para montar processos e serviços de produção industrial de escândalos e

uma refinaria de critérios.


Seus trezentos pequenos moradores reconhecidos por faturar alicerçados nos escândalos de proporções antigas,

como os que se usam no Carnaval.


Costumam ser contra, ter um Complexo de Governo, o agronegócio é a autodeclaração do seu pedaço de terra.


Pretensos herdeiros em honra dos deuses pretensamente nobres e científicos e com claro teor ideológico.

Não basta dizer não aos supostos herdeiros de outra condição étnica nesta reportagem.


São arregimentados entre os maiores beneficiários dos que têm um pouco mais de Sede de Reservas ao Verdadeiro:

mais de 50000 delitos universais e crimes que desapareceram dos laudos.


Literalmente, quem nasce para jogar um tormento sobre as cidades. A escravatura havia sido o Alter do Brasil total,

como era de esperar, a terra das invasões Gerais.


A infraestrutura de uma declaração, além de fácil, explorada, ressuscitou 77,6% da fantasia da Suprema Delimitação Mundial.


A ganância das pessoas mais badaladas imobilizando as contradições. Querem 250%, ou mais, da produção, seu Parque Nacional

é o Território Nacional, todo o Chão. Seu registro histórico é uma farra. Viveiros de índios extintos.


Querem expiar na cidade. Terras para ocupar na dimensão do Sol. Ativistas do dinheiro sem nenhum rigor.


VEJA: a ampliação dos povos de motoristas! Reverbera na miséria da Consciência. Os motivos usados são tão arbitrários...


VEJA: as vastidões saqueadas! Nunca se leva o pecado nas intenções para a proteção do nosso lote, a Terra. No entanto, não é

e nunca será outra a terra.

4/30/2010

Eu (nunca) fui torturador - A confissão de Ur-Star

Da série "fazer o texto falar". Recortar as palavas do jornal, sortear
e ver no que dá. Esse foi feito sobre uma entrevista. As palavras não
são minhas, são de Ur-Star:



- à frente do Belo procurei inocentes
e Lá estavam.
contra, até eles serem como uniformes brasileiros
abdicando do seu ‘não é possível’.

- pela família, é fácil falar de tortura.
no novembro de 1972 que eu fiz
no escritório da minha Vara Crível,
no meu direito de atos de terrorismo
eu que não, em nenhuma convenção com as crianças,
eu disse: não renunciamos ao terrorismo movido
Lá no interrogatório.
um advogado, o bobalhão aqui e duas crianças...

- então na gráfica, no país por 12 horas assolado,
batemos nos menores jovens,
prisioneiros de guerra:
que levem sua parte para cá, pela guerra!

- o tratamento a ‘O Senhor não’
no direito de falar DOI com dignidade,
já as crianças da PM têm o horizonte sobre isso.

- Araguaia se refere ao entre-humanidade em que estavam.
mas eu, diariamente o próprio São Paulo,
e tudo isso para a guerra no terrorismo,
nós na cola da estrutura que ia nos presos
quando tinha uma convenção de combate que era outra,
não a de Genebra, mas a que de lá chega ao dia do Juízo.

- Tínhamos parentes, a coisa foi montada para ouvirem
ao Tio.
eles não usam depoimento,
melhor evitar a coisa suja do depor militante...
(‘Tragam o sargento César!’
só para que os pais vissem...rs.
‘Então, vai depor?’)

Eu nunca, mero delegado do comando,
disse a verdade: os adultos,
a guerra. (....)

4/26/2010

escrito sobre o corpo


leia se puder
o que segue escrito na carne dos dias
são signos sobre signos sobre signos
soterrando o sentido
mas leia
se puder arrancar o que lhe diz respeito
se puder arrancar a luz da floresta
de símbolos
se puder arrancar das linhas do fundo
escuro deste labirinto
desenhado sobre o corpo

não
você não
pode

4/25/2010

Poesia de domingo

Num dia de luz inclinada, meio amarela, um calor suave de um sol quase ausente.

Paro pra abastecer o carro e a frentista me pergunta se fui eu o sujeito que apareceu hoje no jornal. Não sei que sujeito é esse. Ela me explica: um músico qualquer.

É a segunda vez que me confundem com isso. Em João Pessoa um garçom me perguntou se eu era um cantor de rock. Sei lá, queria ser, se bem que não, músico talvez, cantor de rock não, não do jeito que o garçom falou.

Hoje é sair com minha mãe e meu irmão e durante o almoço minha mãe calada. Algumas vezes perguntamos se ela está bem. Ela é sempre assim, olhando pra baixo, olhando pra qualquer coisa. Eu falo com meu irmão que queria comprar pra ele o livro Os vagabundos iluminados, que é sobre a procura da Iluminação em viagens de trem e longas viagens solitárias em montanhas. Digo ao meu irmão que isso apenas é possível nos Estados Unidos onde, ao menos segundo o mito, e mito não é o mesmo que mentira, um andarilho sempre encontrará alguém que o ajude, penso, e não falo com ele, no filme Into the wild, penso, e não falo com ele, em Henry Thoreau. Digo ao meu irmão que no Brasil um vagabundo iluminado se tornaria, inevitavelmente, um mendigo isolado, olhando pros lados e pra baixo como quem foge. Aqui só tem espaço pra turmas e pra alegria desesperada. E, tudo bem, eles tiveram Whitman, nós, Gonçalves Dias, e tudo bem, eles são os porcos imperialistas e nós somos a primeira democracia racial do universo. Meu irmão discorda, sobre a questão de virar mendigo, ele me diz que Deus sempre vai arrumar alguém, um anjo qualquer, pra te ajudar no caminho (minha mãe, ainda calada).

Paramos numa farmácia. Eu e meu irmão ficamos no carro, ele me pergunta se já estou melhor, depois da separação, se já esqueci, respondo que tem horas em que esqueço e horas em que me lembro, penso, não falo com ele, se isso quer dizer que esqueci ou não. Eu ia dizer pra ele que o mais difícil não é me separar dela é me separar das coisas que ouvi, mas minha mãe volta ao carro e não falo sobre o assunto, ela não vai querer ouvir, porque o que ouvi é uma acusação contra várias gerações, aquele lance grego de miasma de sangue familiar que não presta. Um papo meio nazistinha, ou pelo menos inspirado em eugenia, a psicóloga da minha ex-mulher deve ser um misto de Walter Mercado (o sotaque espanhol) com Renato Kehl.

O que falo com meu irmão é que estou com muita preguiça de parecer interessante e as mulheres em geral ficam esperando isso, não que você seja interessante, não sou interessante, mas que você mostre que está se esforçando em parecer interessante. E a única pessoa que parece valer a pena mora muito longe e deixou de responder meus emails.

Depois disso, sigo sozinho, mas não posso voltar pra casa, minha ex-mulher quer visitar a gata e me disse por email que outro dia seria impossível porque ela, palavras dela, “tinha um compromisso” no sábado. Dou um volta um pouco maior de carro por Brasília, escolho um caminho que me permita ver o lago. Fico pensando se eu usaria essa expressão com alguém, uma pessoa que tivesse de sair de sua casa pra que eu entrasse. “Tenho um compromisso”, no mínimo eu seria mais específico, uma reunião de trabalho, um almoço com amigos, qualquer coisa. (Uma vez eu estava num banco, uma yuppie entrou na minha frente e me disse exatamente isso: “Licença, mas eu tenho um compromisso”, eu respondi: “tenho certeza de que o seu compromisso é mais importante que o meu”, sei lá, eu devo mesmo ter cara de cantor de rock ou vagabundo ainda não iluminado).

Mas não, neste caso eu apenas disse amém, assim seja, e saí pra dar uma volta de carro por Brasília. No caminho ouço aquela música do Bob Dylan, most of the time she ain’t even in my mind, I wouldn’t know her if I saw her she’s that far behind. Most of the time.

Não disse pro meu irmão, mas pensei em como eu gostaria que o poema fosse um tipo de oração, comprei um livro sobre sufismo e imaginação criativa. E no sufismo a poesia é uma oração e só há oração com poesia, mas poesia cheia de prosaísmo, o prosaísmo da vida, os problemas singulares comuns, que é como penso em deus. Não alguém que faz planos pra gente, mas como o puro prosaísmo da vida: uma luz meio amarelada, um sol quase ausente em seu calor frio, o som ligado, um pouco de vagabundagem. Não uma coisa inteira, plena, mas aquilo que foi quebrado, os estilhaços, as rachaduras no muro (caso contrário, não veríamos a luz) e isso no momento em que toca aquela outra música Everything is broken.

E tem dias em que a poesia bate na sua cara, é difícil de explicar, tem dias em que um prosaísmo mais intenso quase vira poesia e você se pega pensando em como gostaria de ser um poeta melhor pra dizer as coisas necessárias.

4/23/2010

nº 94


O meu desejo vagou por cada sombra
do labirinto, quer dizer, do paraíso
e se contaminou, riscando
com as unhas mensagens nos muros
até que escorresse o sangue, não sei
se do muro, das letras ou
da pele – se elas sangram não importa
mais, as dores
eram outras e esperavam
congeladas dentro do corpo, bomba
subterrânea que murmura “a qualquer
momento, a qualquer
momento
”.

4/20/2010

Sentença

Numa classificação incerta entre ambigüidade, duplo sentido e dois sentidos claramente distintos, sentença pode ser uma proposição qualquer, uma frase lapidar ou uma decisão de magistrado ou autoridade científica (ex., sentença de morte e diagnóstico à distância). Qualquer coisa que se disser é uma sentença, mas algumas sentenças têm sentido, outras, além disso, são memoráveis e encerram sabedorias e burrices milenares. Outras são qualquer coisa que se diz, têm sentido, são memoráveis e ainda por cima são destino. Estigma, ou seja: tatuagem, as agulhas de Kafka.
Apesar de qualquer um poder dizer qualquer coisa e assim produzir uma sentença, com ou sem sentido, nem todos detêm o instrumento mágico que transforma essa qualquer coisa em sentença estigma. É o poder de nomear que Jeová outorgou a Adão (dê o nome dos animais etc) e que, mesmo depois da Queda, prosseguiu como testemunho de que o homem já andou pelo Éden. Professores, psiquiatras, juízes, médicos, policiais, todos desfrutam dessa pequena parcela do Paraíso. O pequeno poder de matar, simplesmente emitindo sentenças. E quem não se deixa levar por esse gozo? Que no fundo remete a dois termos: culpado e inocente (de fato, um desafio lógico, porque são proposições extremamente sintéticas, mas, nesse caso, toda palavra a mais seria um luxo desnecessário).
Agora, vejamos as sentenças:

- Foi você que botou dentes nas amebas?

- Foi você que dançou lambada com George Bush?

- Foi você que lambeu pastel antes de atravessar a rua?

- Foi você que piscou o olho antes de vomitar?

- Foi você que assaltou o banco de espermas?

- Foi você que viu o capeta vendendo acarajé na Santa Sé?

- Foi você que pediu x-nada sem bacon na barraquinha de cachorro quente?

- Foi você que bebeu água do Tietê?

- Foi você que cuspiu em cima da bandeira do Nepal?

- Foi você que entrou sem pedir licença no salão de beleza falido?

- Foi você que pôs uma formiga pra andar em cima do pau duro?

- Foi você que transmitiu raiva pros cachorros?

Como se pode imaginar, a lista de sentenças poderia ser interminável. E o abuso é um caminho perigoso: a maioria achará incômodo e sem graça, outros, aqueles, os pequenos Adões, poderão até te destinar a um internamento definitivo. Mas, se você olhar bem, é lá no fundo dessa baboseira toda que repousa o pouco de milagre que te restou. Finalmente, saberemos entre deus e o diabo quem é o sacana nessa história toda. Sabe aquela sentença mais ou menos “escolhi as coisas loucas pra confundir as sábias”? Por fim, é claro, a fraternidade, a verdadeira, sonhada fraternidade, a eterna inocência: “porque quem ama nunca sabe o que ama, nem sabe por que ama, nem sabe o que é amar”.

4/17/2010

corpo, mas


o corpo, mas um pouco além
do corpo, o que o inflama na vertigem
dos hormônios (sim, os hormônios
e suas trilhas velozes, milhares de milhas
por dentro através das décadas, sempre
por dentro, ou mais, cada vez
mais rumo a um longínquo centro carregando
no espaço
de cada instante o que se quer dizer
pelo calor da pele), os poços
escuros onde você afunda
a carne, estreitos,
mas aquilo que acende a sua urgência,
sem nome e sem itinerário,
à deriva como estas
linhas, como estar agora
aqui.

4/13/2010

Prescrições médicas do Dr Parasquavedequatriafobia

Num caso como esse só mesmo:

Glossectomia total
Extração radical da bílis negra
Trepanação craniana pra instilar, ou seja

O medo, fobofobia & suas variantes:

Hidrofobia: Hidrofobofobia.

Sendo o Rhabidovirus um agente
Clandestino da felicidade, sendo assim:

Xantofobia como cura da cólera

Logofobia pra evitar a fuga do poder performativo
Dos diagnósticos (lá vai
O canceroso, cá está
O aidético, mais além
O deprimido e depois
O revoltado com tapinofobia)

E melofobia como antidepressivo.

Sarmossofobia pra curar o romantismo
Encruado, ripofobia pra curar a sarmossofobia
E paranóia pra curar todas as outras
(desde que com doses reguladas de oneirofobia).

(Não quer ir ao psiquiatra? Iatrofobia
Também é doença catalogada:

Hipopotomonstrosesquipedaliofobia, está entendendo?
Uma explicação não-técnica é muito demorada
Mas um pouco de catagelofobia pode funcionar no seu caso)

Se o poder de não ser é a liberdade
Negativismo é doença e ser feliz dos males
O menor.

Agora vamos à descrição da sua personalidade:
O senhor é paranóico, esquizóide, anti-social e instável.
Histriônico, anancástico, evitativo e dependente.

Com episódios de Transtorno Tripolar.

4/11/2010

prosa completa

Se, como quem não quer
nada, sobre os lençóis (neste momento
os dedos se perderiam na maranha
reluzente e tão negra como o artifício
de um céu noturno um átimo
depois da explosão
dos fogos) fossem mencionadas ruínas
sob o azul, tão brancas
em sua opacidade
aflitiva sem dar
conta do sol
que as ilumina, e explodir (quando os mesmos
dedos se perceberem
úmidos e quentes) a lembrança
do púrpura e do carmim
que as revestia, o que se quer dizer é vertigem
do corpo, e isso quer dizer
labirinto, ou a cara do anjo que agora
fecha os olhos, e se uma palavra
como amor for mencionada
foi por apuro ou mera
distração – não se fala mais
nisso, e isto agora quer dizer clímax,
anticlímax, retorno das horas,
espera, segredo,
surdina.

4/09/2010

A banda RioClaro no Feitiço

É difícil tocar com os braços
Colonizados por sanguessugas.

Não há pureza na música, nem piedade
Apesar do cansaço dos garçons
E apesar dos dedos engordurados do fiscal
Que compara os direitos autorais ao óleo
Reutilizado na fritura dos croquetes.

Ou sou eu que me refugio atrás do som
Como numa barricada ou
Seus aplausos não me comovem

Repercutem

O barulho de uma chuva rala sobre a grama
Que repercute o barulho de uma pequena fogueira
Apagando-se em fim de festa
Que repercute o barulho de um pequeno inseto
Arranhando com as patas
A janela de um quarto fechado

Quando

Melhor seria o barulho do vidro estourando
A janela se abrindo num golpe
Os parafusos depois recolhidos e guardados numa caixa
Como recordação do espaço que foi abolido:

Porque isso é a sua vida interior, o que você supõe vir de dentro
E a música não está do seu lado de fora

Não

Você pensa que está gritando quando a música está gritando você
E esse grito não vem de outra pessoa,
O músico inexiste quando é o sangue
Estourando as sanguessugas
Uma porrada na boca das janelas
Uma risada que implode por fora seu corpo mortal

Quando você é uma engrenagem vazia e os sons
Convertem sua alma

Quando a música se toca
E é o coração de um mundo sem coração.

4/04/2010

A monja atéia, de L. M. Panero

As monjas adoram a seu Deus que não existe
enquanto o Papa aperta o gatilho
e diz Deus não existe
é imaginação da Igreja
que está morrendo aos poucos
os ateus choram aos pés de uma estátua.
E o mundo diz Deus não existe
é imaginação do Papa
enquanto os ateus
choram e choram pela beleza perdida
e Deus já não existe
está chorando no Inferno.

Esta é a estátua inteira do nada.

4/02/2010

Serenidade, de L M Panero

a Martin Heidegger

1.
Só existem duas coisas: meu rosto desfigurado
e a dureza da pedra.
A consciência se acende
Somente quando o ser está contra si:
e assim todo conhecimento
e a matriz de toda figura
é uma ferida,
e só é imortal
o que chora.
E a noite, mãe da sabedoria
tem a forma interminável do pranto.

2.
Luz, a luz
quando estava demasiado perto do mar
limite do deserto
do deserto em que florescem rosas cruéis
famintas do homem.

3.
As palavras
constroem o bosque
uma árvore só é árvore
quando tocada pelo poema.

4.
Os sinos varrem o som
enunciam letra a letra o deserto
em que uma flor apodresce entre as mãos
murchas de uma velha
que chora por ter perdido o nome.

3/29/2010

Meus amigos

Meus amigos, alegria
Em desespero, festa
Pela falta de motivo
De festejar – felicidade
Como desafio e provocação
Arrancada à fórceps
Dos pesadelos suicidas.

Meus amigos, como vocês serão
Sóbrios? Não sei, não quero saber
E tenho raiva de quem sabe.

Meus amigos, beber
Até cair no meio do caminho
Como as pedras
Chutadas pelo poeta.

Meus amigos, tudo
Deu em nada
Menos ainda
Quase nada: sempre resta
Alguma coisa, um vestígio
Dos projetos inconcluídos
E o amor, sempre,
Será aquele prato
Servido frio.

Meus amigos não são
O áspero edifício, menos
Ainda, o muro:
A rachadura, a fresta
A goteira, o terreno baldio.
Não são também o asfalto,
O caminho: o interstício
Entre a sola do sapato e o chão
O vazio que ressoa
Uma despedida e um sopro
No coração.

Meus amigos, sem nome
Próprio, o que pulsa
É o que há
De anônimo em tudo,
Espuma, superfície fina
Do oceano, da vida
A qualquer coisa
E o quase nada, o nunca
Serão ninguém, a falta
De rumo, o que se define
Pelo que se não é.

Meus amigos, cabelos azuis
E o fogo-fátuo
E as pedras agudas
Polidas na frieza
Do rio
E o merecido esquecimento.

3/25/2010

Mais um poema de L. M. Panero. O lamento do vampiro

Vocês, todos vocês, toda
essa carne que na rua
se acumula, são
alimento para mim
todos os olhos
cobertos de remela, como de quem
jamais acaba de acordar, como
quem olhando sem ver ou apenas pela espera
da aceitação absurda de um outro olhar,
todos vocês,
são para mim alimento, e o espanto
profundo de ter como espelho
único esses olhos de vidro, essa névoa
cruzada por mortos, esse
é o preço que pago por meus alimentos.

3/24/2010

Dois poemas de L. M. Panero

1. Peter Punk

Peter Punk é o amor e Sininho sua princesa
no céu estão buscando o segredo do nada
todos os Garotos Perdidos.
Peter Punk é o amor e Sininho sua princesa
Capitão Gancho procura, em vão, o segredo de sua mão
e Sininho chora ao pé da Árvore Perdida
onde os anões e onde as sereias
Peter Punk tenta em vão seu amor explicar,
numa praia deserta Sininho o deixou.


2. Canção para um pub

Não temos fé
do outro lado desta vida
só nos espera o rock and roll
me diz a caveira que tenho entre as mãos
dança, dança o rock and roll
para o rock o tempo a vida são miséria
o álcool e o haxixe não dizem nada sobre a vida
sexo, drogas e rock and roll
o sol não brilha por causa do homem
o mesmo para o sexo e as drogas:
a morte é a buceta do rock and roll.
Dance até que a morte te chame
e diga suavemente vem
entre no reino do rock and roll.

3/23/2010

Post-Scriptum

Parabéns, metabéns, hiperbéns,
nenhures algures aqui sórdido
coió dissender
congratulações dês-
graças a deus agradado
magnífico, aqui só con-
tributos positivar pra cima
sempre acima empre
endorismo cultural empre
sidiário planetário colateral aqui
o novo começa de novo
o novo sentir pena ou desprezo
aqui nunca humilhar magoar jogar pra cima o
desapego
aqui não latir ver caninos de chacretes-rodapé
ao parapeito do escritor parâ-
metro de astúcia, objeto-fetiche a própria desacontecida
realidade

aqui não metodologia aplacar o amargor
o derrotismo o obstáculo aqui só
vitória no melhor dos temp
los parabéns guardabéns muchas
gracinhas sacadinhas, nada como eu
comigo mesmo,

elogio preciso
como um relógio só pesar desprezar
aqui não cuspir contrainformações
só saber o dissabor o resto guarde
pra si, só soltar-se farpas se autoridades
consolidadas

nada contra
o objeto-fetiche, o lamuriento
congratulador, desprazer
em conhecê-lo & cuidado
com o que diz.