7/30/2008

mandala




como um cachorro amarrado a um poste
por seu dono, como um cachorro preso
à trilha circular onde há um mesmo
rolar das horas até que o estoque
do tempo esgote, enfim, pulando casas
como um dado fadado a uma roleta
já viciada, assim como a cabeça
na vertigem de orbitar desusadas
trilhas, pela emoção mortal do salto
no abismo, e como se ainda voltando
a de novo saltar e querer nos
círculos infinitos, quando calmo,
apagar o sentido dispersando
quintessências no quinto dos infernos

7/28/2008

Miragem

Quê de arte existe
no ponto misterioso
onde me encontro?

A vida observa,
- estática -
o tempo que corre
circundando-me
cada vez mais rápido
cada vez mais rápido
cada vez mais rápido.

Os deuses riem,
e apontam seus dedos longos
bem para o meio de minha testa molhada.

Sopros de vida acordam-me.

Sou mãemulheresposa,
again.

O espelho nega.

Nega o espelho.

Again,
esposamulhermãe sou.

Me acordam vida de sopro.

Molhada testa minha de meio o para bem
Longos dedos seus apontam e
Riem deuses os.

Rápidos mais vez cada
rápidos mais vez cada
rápidos mais vez cada
me circundando
corre que tempo o
- estática -
observa vida a.

Encontro-me onde?
Misterioso ponto no
existe arte de quê.

7/24/2008

Digressões sobre a Lei Seca (ou O sujeito não tem carro)

1.
viva a bebida
chuva
amiga
de todos
os bêbados

viva a bebida
amarga
fadiga
viúva
de todos
os bêbados

viva a bebida
mãe
irmã
namorada
sogra e tia
de toda
a humanidade


2.
Nunca fiz um poema
Bêbado
Nunca fiz um poema
Sóbrio

Se estou sóbrio
O poema é bêbado
Se estou bêbado
O poema é sóbrio

Baudelaire já dizia
Hay muchos años atrás
Embriagai-vos
De vinho vício ou virtude

Eu corrijo:
Virtude é engano
Vício é pretensão
Só o vinho é real
Concreto e verdadeiro!


3. Aproximação a Homero:

Mar, cor de
Verde
Caipirinha


4.
Difícil é andar
se se está mareado
sobre a, da praia,
areia.

Como bolhas
saem as palavras,
quando, com o mar
na garganta, fala-se.

Entre coqueiros
o ar, circulando,
é aquário,
se se está mareado.

Meu nome,
o mar sabe,
quando estou mareado.


5. Aproximação a Pessoa:

Não sei se o mel
Do seu coração
É ilusão do azedo:

Com a cachaça
E o limão
Retempero meu medo.


6.
Puseram limão
No estruturalismo
Cachaça
No pós-modernismo,
Gelo e açúcar
Na lista de citações

A verdade talvez mergulhe
Em sua meiga embriaguez.

7.
A cidade se banha
no azul líquido
das televisões.

- noite de domingo –
nos bares
bêbados recordam
suas antigas noivas.

7/20/2008

Liquidação



O tempo,como uma etiqueta, cai
indiferente, preso ao pé da alma
perdida em seu departamento. Sai
do fundo desta loja a sempre falsa
balbúrdia insana que irradiam tantas
bugigangas, imóveis ou não, só
a esperar das etiquetas brancas
novos sentidos, não apenas pó,
o que acumula sobre as superfícies
quando o tempo desaba, ainda que
pareça imóvel etiqueta e ria
ao pé das coisas tontas, insensíveis,
mudas: nunca se perguntam porque
essa luz fria instala o eterno dia.

7/19/2008

Aproximação a um poema de Creeley

Eu cresço entre tensões
como flores
num bosque onde
ninguém põe os pés.

Cada ferida é perfeita,
fecha-se num minúsculo
botão imperceptível
doendo fundo.

A dor é uma flor como esta
como aquela
como esta
como aquela.

7/13/2008

nº 4




Olhos que perseguem a urdidura do caos e, desembainhado o punhal,
a cega mão o agita excessivamente - mas é tarde.
Foi-se o presente em delicado papel depositado, posto que
nada de novo funda os horizontes vastos.
Entre esperança e memória
só uma imprecisão é o que nos define. Você não sabe qual perversão desenvolveu
o tempo
e se esta autoriza tão grande inconseqüência e a banalidade
das horas.


(das "Notas Marginais").

7/11/2008

a folga, a estante, o pó e o calcanhar



(ainda estou de folga
8h30 e ergo da cama
em sobressalto.
quero dizer algo como se o amor
não valha a pena
ou mesmo, talvez, não exista.
após tomar café,
vou tirar o pó
da estante e abro aleatoriamente
o livro do nauro na página 223:
e eis que:)

BRASÃO

Sem ninguém para amar é feliz a alma.
Sobre ela a funda e igual noite descer
ainda mais fundo que um túmulo pode:
pode feliz descer a noite nela.

Não amar ninguém: um bicho amar e, ao menos,
nesta infelicidade de uma só alma
ter a certeza - ao menos - de amar poder!
Mas nada amar. Ser como um rio só.

Ser do rio as águas do mar. Ser do peixe
o instante dele. Da água, o esquecimento.
Nada amar pode a alma que feliz é.
Sem nada amar, pode a alma se esquecer.


(Nauro Machado, O Calcanhar do Humano)

nº5




(Qualquer espaço é contra o espírito, extensão e ausência de sentido
- mas sem ele como há de ser a dança?
O espírito se agita no não-espírito, de onde vaza
toda tensão do movimento, a dança, caminho perene. Almas de dervixe,
carne acesa e pedra, pulsares de granito,
labaredas, por onde você vai.
)
(das "Notas Marginais")

7/10/2008

Da primeira metodologia: colagem de vestígios

A história do Brasil em 4 monólogos:



No primeiro, Graciliano Ramos fantasiado de prefeito lê um trecho de seu relatório. No último, Dyonélio Machado travestido de Dr Oito-Olhos avalia a situação, lendo o seu Uma Definição Biológica do Crime. No meio, Vidas Secas e O Louco do Cati.


1. Cuidei bastante da limpeza pública. As ruas estão varridas, retirei da cidade o lixo acumulado pelas gerações que por aqui passaram; incinerei monturos imensos, que a Prefeitura não tinha recursos suficientes para remover. Houve lamúrias e reclamações por se haver mexido no cisco preciosamente guardado no fundo dos quintais, lamúrias, reclamações e ameaças porque mandei matar algumas centenas de cães vagabundos; lamúrias, reclamações, ameaças, guinchos, berros e coices dos fazendeiros que viram bichos nas praças.


2. A cachorra espiou o dono desconfiada, enroscou-se no tronco e foi-se desviando até ficar no outro lado da árvore, agachada e arisca, mostrando apenas as pupilas negras. Aborrecido com esta manobra, o prefeito de Palmeira dos Índios saltou a janela, esgueirou-se ao longo da cerca do curral, deteve-se no mourão do canto e levou de novo a arma ao rosto. Como o animal estivesse de frente e não apresentasse bom alvo, adiantou-se mais alguns passos. Ao chegar às catingueiras, modificou a pontaria e puxou o gatilho. Baleia saiu depois sem destino, aos pulos. Defronte do carro de bois faltou-lhe a perna traseira. E, perdendo muito sangue, andou como gente, em dois pés, arrastando com dificuldade a parte posterior do corpo.



3. Agora: só poderia ser um cachorro fantástico. Bem que sentira sempre a sua sofreguidão canina, quando engolia o seu tassalho de carne... os seus silêncios invencíveis de cão... uma vez que fora encerrado num quarto – como um cachorro! Entrava como um cão na crise da sua vida. Avançando, num trote e ladeado, ia pondo os olhos nas flores – mas uns olhos muito deslavados, de cão. Nem valia a pena lutar – ou fugir, como sempre vinha fazendo, como o fizera ali ainda no meio do campo, na véspera, diante do vulto negro que tinha uma capa negra – e que lhe lembrara aqueles outros homens vestidos de preto, de dólmãs pretos onde luziam reflexos metálicos de botões, ou de dólmãs pretos ensopados de sangue.




4. Em todos esses casos, fica comprovado que o delito entre os animais, como no homem, é o efeito de ‘tendências individuais’, não representa o resultado de um ‘instinto específico e geral’, manifesta-se num ou dois indivíduos dentre cem da mesma espécie, sofre o impulso de vários móveis psicológicos ou patológicos. Mesmo o modo de execução do crime oferece a variedade que se encontra entre os delinqüentes humanos: animais existem que empregam a violência, outros a insídia, alguns se contentam com a simples eliminação da vítima, muitos levam a sua ferocidade até a sevícia do cadáver e ao canibalismo. A própria cumplicidade consciente e criminosa entre vários indívíduos de uma mesma espécie animal já foi observada. Encontram-se, com efeito, verdadeiras associações de malfeitores entre os animais. Figuier narra o caso de três castores que se associaram para matar um quarto companheiro; e exemplo semelhante é fornecido por outras espécies, segundo Darwin. Para completar o quadro, nem falta mesmo a punição, praticada já em germen entre animais de um desenvolvimento social mais acentuado, como se verifica entre os símios, segundo o testemunho de Brehm, ou entre as cegonhas, de acordo com o que nos conta Figuier.

7/07/2008

Justiça

Seus olhos quentes engolem cada brilho
De minha exposição.

Mas eles nada sabem.

Era uma tarde silenciosa
E o desassossego pousou em meu ombro
Esquerdo.

Era uma tarde, assim, azul,
E o frio veio e não sairá de meu ventre inútil
Nunca mais.

Deus...

Por que justo
- agora -
Des-espero?

7/06/2008

Motor




Esta pulsão de homem que me agita
e morde um pouco a alma enquanto, aceso,
penetro um outro corpo, ardendo, teso,
com o mesmo ímpeto que precipita

as águas rio afora – ou antes o
que empurra a lava encosta abaixo e anima
a fúria mineral que a âncora atrita –
esta pulsão me inflama e me tem preso.

Pulsão que busca um centro imaginado
por trás do limite úmido, oculto
ali onde deseja em vão achar

o centro da poesia, a alma, um vago
sentido que se esconderia em outro
corpo e não mais um vazio a arfar.

7/03/2008

Highway Star Nacional Expresso

Meu cérebro tritura essas palavras
Ele come o combustível
E respira gás garbônico
Na mesma velocidade desse ônibus
Faminto, lendo os anormais

Do livro de Foucault nas poltronas

Mais um velho bêbado
Enche o saco
De vômito, mais uma garota
Foge de casa, as janelas fechadas
Acumulam baratas e o cheiro
De mijo preso no banheiro.

São tantas coisas que
Ninguém vai me roubar:

O rosa e o azul
Do ovo cozido contrastando com a volátil
Cor das moscas, ou o
O homem que se arrasta no chão
E pede esmola, por exemplo.

Depois da próxima parada
Outro filme do Steven Seagal
Contra a paisagem das usinas de açúcar,

E a estrada esburacada
Me lembra sua língua
Cheia de carrapatos.

6/29/2008

circunstância

Você não vem novamente. Alegou
desta vez a chuva intermitente há
dias persistindo sobre os telha-
dos da sua cidade e da minha. Sou

refém de um animismo primitivo
e me queixo às coisas quando, em repouso,
penso dizerem verdades que ouço
e simulo crer, como no destino

ou na maior parcela das pessoas:
é uma solidão este tumulto
que me ladeia. Em vão,frente à arisca

face do amor, quero o abismo e todas
as vertigens desse filme inconcluso
onde estou só, sem luz, sem roteirista.

6/26/2008

70 personagens de um romance inacabado de Lima Barreto

O medíocre aponta o dedo pra lua,
pra melhor ver o próprio dedo.

Citação tirada da placa inaugural da rodoviária de Uberlândia.





Primeiro Movimento

É tudo sempre o mesmo
Marlon.

Eles vivem no mundo
Da lua e escrevem
Por encomenda, nos rigores do método
Taylorista enfiam a viola no saco e tomam
O café
Melado de açúcar.

Paus pra toda obra
Fazem de tudo
Pra “introjetar”
Que a corporation é uma corporação
De ofício: de fato
Se vê romantismo
Nesse lance de relatório
Artesanal.

(Mas num ônibus ninguém
Os distinguiria
De uma excursão de gerentes de bingo).

São fodidos
Pedindo emprego,
A missão da empresa é dizer que:

A cidade é boa, a terra
É fértil; ubérrima
Diria Policarpo Quaresma,
Um sonho tornado real.



Segundo Movimento

No coro dos infelizes
Você pensa que é
Especial porque usa um blog
Como escarradeira e não quer
Ser confundido
Com os gerentes de bingo:
“Minha camisa
Amarrotada
É minha bandeira” ou

A estátua tem
Uma cabeça grande
E brilhante
E um corpo de dar
Inveja
Aos cães amestrados
Com seus diplomas iluminados
Pelo luar do sertão
Mas as notas de rodapé
São de barro
(O sonho apocalíptico
De Daniel).


Terceiro Movimento

Uberland – Ubermensch,
É latim, é inglês
É alemão
É a finitude
Do homem ocidental
É a hermenêutica pós-moderna
É o festival de citações
A carta na manga e o bolso vazio
À sombra dos clones
De Roberto Justus.

É o lirismo
Do pesadelo acadêmico.

É a poesia
Sem charme
Dos concursos, escrita
Com os tipos dos carimbos[1]
Que não deveria ter sido
Escrita,
Não merece ser lida.






[1] Carimbo: etimologicamente, o ferro em brasa usado pra marcar os escravos que saíam de Luanda. Escravos como Aristóteles, mas sem o consolo da filosofia, fechada para o balanço. Falida.

6/18/2008

A medalha milagrosa

Na varanda do hotel
A moça vestida
De sibila
Desencantada fala em esquecimento
Como gotas sutis que
Caem de sua boca &
Apagam

Pouco a pouco

A paisagem, enquanto isso

Na suíte sacerdotal
Um peixe
Na garrafa de vinho
Cheia de sangue

Insiste

No direito de ser lembrado
Por laudos periciais
Para todo o sempre,

amém.

6/14/2008

outro relato, nem tão imparcial

Fala e sombra no deserto, onde tudo acontece. E o deserto ficou líquido de repente, afogando os peixes, que não sabiam morrer de improviso e cuspiam palavras que se colaram num céu de chumbo apenas superfície, impenetrável. Como não aprendi o que fazer com elas, acordei, e a mão negou-se a sair do sonho: ainda acariciava a areia e a água. O céu não, apenas pesava e era uma lembrança de que não se sai inteiro, não se sai inteiro do trânsito simultâneo de dois mundos.

6/13/2008

o tempo no tempo

disse uma
única
vez

ao amigo!

mas eu não tenho tempo!

e caminhou cansado
de volta pra casa

vendo aquele mesmo
mar que agora é
o outro

sem fim

sem mim

e depois disso

não mais disse

está mergulhado

em algo que não
ama

nem mesmo
sabe

o quê.

indefinível.

e volta pra.

e caminha.

6/10/2008

Relato imparcial de um sonho

Ele, não me lembro de seu rosto ou outros sinais característicos, mergulhava no alto mar. Tudo leva a crer que era o mar quente da Bahia. Mas isso vinha mais da impressão causada pelo verde quase marrom, não era possível sentir a temperatura da água. Em seu jeito de olhar, ou na maneira como nadava, ou melhor, boiava, nada transmitia a sensação de desespero que por ali flutuava, meio ausente. Ausente, apesar de ele estar preso numa daquelas gaiolas que mergulhadores usam pra se verem livres

dos tubarões.
Ele estava lá na terceira pessoa. Vi tranqüilo, mas perplexo depois de acordado ao me lembrar de minha ausência neste sonho que, junto com o mergulhador normopata, dentro da gaiola, boiava um cadáver carcomido pela água salgada. O rosto do cadáver era marcante, tipo filme de terror B: dois buracos no lugar dos olhos, mas buracos que enxergavam, afinal de contas você sente quando está sendo observado; os dentes amarelos se destacavam na boca azulada.

6/03/2008

nº 18

Na impossibilidade de serem místicos
('ah, luzes da cidade,
por que, distraídas, não acendem meu destino?'
)
seus olhos colecionaram sexos que brilham à noite como flores planas e úmidas
de duas hastes.
O amparo do cético é o abismo, como se Deus
ejaculasse indiferente, em sua túnica violeta. Você, arlequim, só queria
despir o que é e se perder na fuzarca do mundo. Aqui
cada um escolhe o próprio veneno, mas não se sabe
que inseticida mata, definitivamente, os vermes
da paixão.

(das "Notas Marginais".)

6/01/2008

Direto de Goiânia

Hospedado no inferninho
O sujeito reage bem
Ao cheiro de pequi
Impregnado nos lençóis
Lendo O Samurai Corporativo,
Vulgo
Pecuarista do ying yang.

"O mundo é rico

de inimigos".


No café da manhã
Sun Tzu apontou
O dedo indicador
Pra testa do discípulo
Usando o polegar
Como gatilho

Depois disse à recepcionista
"O seu chocolate
Está no frigobar"

& Sun Tzu disse:
"A buceta é a crise do liberalismo"

5/28/2008

Castelos



Como teu pássaro, sem ar, me perco.

Como vinho derramado em página envelhecida,
sou ardor de tempo,
madura e forte:

transbordante.

Sou castelo de areia estalando ao sol:

- intacto -

(por enquanto).

5/25/2008

nº 79








Quando não tem fronteiras a tristeza
e o olhar de dentro do olhar
(fora de si) anda em busca do tempo
perdido, sem medo das arestas,
você percebe que não há
margens onde se possa por
os pés e parar (‘riscar uns versos
com o corpo, no ar
’) e que sua pele,
morta, restou além da fronteira
inevitável, no apagamento das bordas,
dos limites, no universo infinito e
agora contaminado por outro
infinito, o tempo, e a lama que carrega
o seu fluir, antes do fim da queda
você enxerga que o limite é só
você – cruzando a cidade, o vento
que toca sua pele já deslizou
pelos rebocos, folhas, espelhos, e aí
seu corpo é só outro objeto, carne
quente, fome, desejo, porque
o espírito é uma entre muitas
possibilidades, a que carrega
o espanto e a dor que você gostaria
de poder largar em qualquer
ferro-velho.




(das "Notas Marginais").

5/21/2008

Séduction













Em meio às palavras e letras
suas mãos espalmadas pedindo as minhas.

Seu peito empavonado
bem à minha frente.

Escondo-me em minha situação,
conteúdo e forma combinados:

medo e tempo

tempo e medo

e o dia de sol ardendo em meus cabelos.

As crianças gritam ao nosso lado:
a vida vomitada em faces rosadas.

Até quando? - eu me pergunto,
e o eco se repete tantas vezes...

O espaço é grande.

Vai ser um tipo de tortura delicada e o torturador

Ah!

Adoro vê-lo.
- Odeio vê-lo -

(menino bonito)

Ele apenas me encara.
E se mostra.

5/19/2008

nº 77




Outono ardente (tantos anos
depois de outro verão, gelado
até a medula, mas como se
coladas, por um estranho salto
da história, uma estação
na outra), pura sangria, ainda
que não se saiba se haverá
espetáculo todo dia em seu
circo particular de horrores,
os olhos querem desgastar
imagens, repetir, repetir,
no disco arranhado do tempo
em que a lua gira sem eixo
e você pretende, mais uma
vez, desarmar a metafísica
por dentro e expor a carne
à sua natureza e seu destino.

Notícias de uma cidade barroca

1.
Anjos brotam
como bolhas, gritando quase
esmagados pelo peso dos santos
cravejados de caveiras,
mortos a quatro balas

na estrada que liga Ouro Preto a Mariana.

2.
Velhos se escondem
no teto da nave central,
sentados à mesa
de jacarandá misturam o chantilly ao chocolate
meio amargo
usando a cruz
de prata como colherinha.

3.
Cidade macabra, roída
De minas, esburacada –

Corpos enterrados

Nas pizzarias:

Guias turísticos e garçons
Negros, velhas moedas de cobre
Negras, terra ocre
Nas mãos negras
Fotografam velhos ruidosos &
Grupos escolares:
Conjurados e ex
escravos.

4.
Poesia em colunas
Vertebrais salomônicas

Nos cartões postais

Pinturas neobarrocas são ilustrações
Neoparnasianas à venda
O ouro escondido dentro
Das unhas. Daqui não se vê
A diferença entre ornamentos
E uma parede que grita.

5/14/2008

nº 78



O mundo é plano, enfim, e cada vez
mais superficial – não há, descobridor, mais nada
sob o verniz nem música nenhuma
de esferas que afinal
são só formulações de quem, perplexo,
espera imóvel em seu lugar, embora
ausente, porque partiu
em busca de si mesmo e isso
é em nenhum
lugar.


(das "Notas Marginais")

5/13/2008

Dialetos de Brasília 1 (Gueto da margem central dos excluídos na praça dos poderes)

Pois é
Véi
Tipo assim
A gente
Hiponegoçado
Meio que
Talvez

A veia velha
Véi
Fechada
A boca aberta
Do extintor de incêndio

Mesmice no maor
Mormaço

Ei
Mas que papo
Mais
Sei lá
Eu hein
- heil - Véi

5/09/2008

Explicação do dia

a véspera do fim já pulsa em outro calendário
futuro e postergado,
e o sol que cruza o céu desse futuro
arde na carne e acentua
o seu zinabre

este dia de sal e de fuligem
tem os pés em outro espanto, outra
véspera,
na insônia que vestiu a madrugada
e a prata de seu som
incendiou o que era só, a flor,
flor desbotada, o riso na sacada
não revelou o que lhe ornava e o que
lhe precedia

e o que lhe precedia lhe negava, a voz
de um outro dia, antes,
repetido, a véspera,
conseqüência de nãos e de auroras,
de procurar a fonte em terra seca

este deserto foi o que seguiu
a uma outra dor
na face anterior da via estreita,
folha arrancada a frio na espiral
onde o futuro ardia
e incinerava

a semente do deserto era vazia
e foi lançada ao chão despedaçada
no dia anterior,
e seu adubo é a página extraída
e o erro, o erro de nascer e de arriscar
uns passos tão precários
e um desejo

e esta manhã, esta pulsão
de carne e de desejo, esta agonia,
foi subtraída à flor de um outro dia
ainda prévio e sem pacto
com a esperança

mas sua raiz, o caule
que o vento dobra, o frio
efêmero, era só aspiração da terra
de alcançar a flor
que levitava
o caule era produto de outras horas, anteriores,
mais outra véspera
e sua secura nunca vi de onde vinha,
que cais de pedra em vínculos com a noite
ansiava por naus de ar que não tornariam

o oceano, o sal, a tempestade,
a baixa da maré, o casco de corais, ventos contrários,
e velas enfunadas,e cordame,
atravessaram a alba, sua parede,
a luz noturna ou
sua ausência, o crepúsculo, a tarde, o meio-dia
e outra manhã
até chegar às âncoras de agora
e ao extravio aqui nesta manhã, hora absurda,
superfície, agora, e o que sobrar
é subsolo, água abissal, desterro,
espelho de silêncio,
vão, degelo.


2005

5/06/2008

Estação Tietê

Uma das experiências marcantes da minha infância foi entrar no Rotor da Feira Agropecuária de Anápolis. O brinquedo era completamente enferrujado e quando começava a girar rangia, num som parecido com o da chegada do metrô. A velocidade aumentava e você ficava grudado nas bordas de ferro do Rotor. O pessoal da feira o chamava de Rotor Visceral por causa dos vômitos, mas principalmente pelo contraste com os bonecos de papelão do trem fantasma, ridiculamente mal feitos, os pobrezinhos não enganavam ninguém. Penso nisso agora como um tipo de exorcismo, porque o trem fantasma era muito mais apavorante do que o Rotor. Triste verdade para o brinquedo sincero.
Agora, um dos meus sintomas neuróticos é precisar tocar o metrô sempre que chego a São Paulo. E isso para ver se ele não é de papelão. Sei também que todas as paulistanas que me esperam no Tietê são de fato engrenagens vazias. Escondido atrás das paredes, um bando de garotas blasé de carne e osso, cabelos vermelhos e coroas de arame estilo miss Brasil controla os interruptores de luz. Tudo preparado como uma armadilha para a ilusão da minha chegada triunfal (mais à frente o que vem é o banho de sangue e os modismos barrocos, sei disso porque já me cansei de ler os poemas do Mário de Andrade e vi todos os filmes sobre Gotham City). Foi neste mesmo jogo de espelhos que Cornélio Pires se fez de caipira, sou um cara precavido. Mas se alguma destas paulistanas, não as de mentira, mas as reais que moram dentro das paredes da estação Tietê, pelo menos me desse um sinal de vida! Eu enfrentaria os guardas municipais e os vendedores de discos piratas de Elton John, só para transar com minha paulistana de fato e de direito nas águas do Tietê e eu teria na boca um gosto entre o amargo e o salgado, definitivo, visceral. Mas por enquanto entro no metrô, observo os morcegos de isopor, os vampiros luminosos de terno e gravata, e na saída penso em comprar uma maçã do amor numa daquelas máquinas de livros e refrigerantes.

5/01/2008

Tango

levantado do chão
as retinas dormitam
onde o sangue bate mais forte
e a carne pulsa

por conseqüência:
dos quatro estados da alma
nenhum serenou
tangido feito um boi
no matadouro
o coração sem opções
vasculha o fundo e
lentamente
rumina

1996