11/11/2011

Por dentro do teu ódio

O ódio da horda caçadora por dentro do teu ódio
dentro do teu ódio o ódio das ratazanas contra outras de outra ninhada por dentro do teu ódio ninharias milenares dentro do teu ódio o ódio de gerações por dentro do teu ódio as guerras que estão sendo planejadas dentro do teu ódio todo sentimento é lenha pra fogueira do teu ódio por dentro do teu ódio quanta alegria alheia como uma pedrada na boca do teu ódio por dentro do teu ódio a nostalgia dentro do teu ódio por dentro do teu ódio uma mistura de remorsos e respostas afiadas teu ódio por fora

floresta de dentes ou por fora teu ódio macio como caninos disfarçados de pétalas fora do teu ódio quantas palavras bonitas em teu ódio por fora ou severas: lágrimas, castiçal, fato, flora, metalinguagem por fora teu ódio também se arma de conceitos e as pétalas afiadas e brancas são viscosas de veneno gorduroso por fora do teu ódio o aroma de perfume

excessivo

dentro do teu ódio toda descoberta é tardia por dentro do teu ódio a soma alucinante de desistências e sacrifícios dentro do teu ódio algumas boas verdades dentro do teu ódio que cresce em você como um feto de dentes afiados que você acaricia com unhas de ferro por dentro do teu ódio a certeza do desejo da vitória e como é mesmo o nome daquele sábio chinês que mandou decapitar os covardes por dentro do teu ódio você pensa que seu dia vai chegar de dentro do seu ódio quem mandou você nascer por dentro do ódio neste maldito mundo de ódio por dentro de um elevador com serviçais carregando as malas do teu ódio por dentro do teu ódio nadando como um peixe num aquário de ódio e fora do ódio você sabe


é o absurdo e nada
te deixa mais por dentro do teu ódio quanto


o absurdo.

11/08/2011

Sua história não é minha (uma carta)

1.
Nada mais assegura a integridade do eu

do que a composição orgânica única e refinada que o sustenta e faz de cada corpo uma totalidade reconhecível no mundo, entre outros. Isso, apesar de a pele descamar constantemente, os fios de cabelo descerem pelo ralo, o sangue sair da aorta na velocidade de um conversível esportivo (vide a echarpe de Isadora Duncan presa nas rodas do veículo) –

p. ex. leio as palavras impressas num livro qualquer e é como se elas não entrassem olhos adentro perfurando o cérebro; não, elas fazem uma curva ao redor do meu crânio, são como o vento, circundam a cabeça, o pescoço: a integridade

fictícia

do corpo.


2.
Querida família:

Andar de Jet Ski nas bordas de uma privada de luxo no Terminal Rodoviário de EsgotoCity, usar as fezes expelidas pelos intestinos irritados dos viajantes como creme de proteção solar, o catarro das Múmias entubadas do cu ao nariz nas catacumbas cheias de esqueletos à guisa de loção pós-barba para a night na boate, a cruz de prata usada pelo Capuchinho Cavazzi num ritual de exorcismo serve de colherinha pra adoçar o capuccino numa tarde em Casablanca, igual ao Steven Seagal recorrer ao cartão de crédito como estilete para cortar o pescoço do guardador de carro do estacionamento, algas marinhas na cabeça fazendo uma peruca, concreto armado por dentro do terno – só pra manter a atitude. Sai caro, mas vale a pena.


3.
O seu passado

não me pertence, nem sei onde eu estava quando meu passado aconteceu ou quem era aquele com ar de ausente na fotografia, não sinto calor algum no simples fato de empunharmos um álbum de fotografia como se fosse um salvo-conduto e um domingo dedicado a tais memórias não seria inspirador, enfim, venho por meio desta pra dizer porque não irei ao encontro e nem me sinto compelido a agradecer

não sou dos seus, ainda assim me empenho a explicar: entre vocês sou um estranho sem nome que caiu de pára-quedas, um figurante que atravessa o melodrama e a heráldica com olhos vidrados, perdidos & sempre que digo feliz natal bom ano novo o faço

M-A-Q-U-I-N-A-L-M-E-N-T-E

11/03/2011

Quando soltas as palavras são como cães de caça

Quando soltas as palavras são como cães de caça:


sangue sangue sangue sangue plástico sangue carbonizado flor de laranjeira sólido cristal mancomunado com as forças ocultas do orgasmo natal porque tantos peixes nesse campo viscoso seminal saber se Jesus ejaculava a lua ri cheia de dentes na minha imaginação um ímã atraindo os cães do pesadelo notívago lustres flores capturas de repente me lembrei do padre Ivo

veia de arame farpado aranhas sobre a pele adormecida estátua sonora de vulto inconstante espaço aberto gelo ventania, confessar-se e dez ave marias

pétalas facadas um revólver na mão do abominável homem de neve Jesus cristo e os santos uma assembléia de cães gatos e sapos ornitorrincos no campo solto do sonho de onde vem a luz do sonho uma lanterna um leão agoniza uma sombra uma caverna um vulto sem nome uma enxada cortando a cabeça do herói medusa rasteja sob o orvalho o longo fio de cabelo do pássaro morto na memória é tão fácil lutar contra uma abstração onde esqueci a coleira o refúgio a nota de rodapé o produto interno bruto o Sr ministro advoga uma causa perdida entre os escombros

nevoeiro lama respiramos fumaça na cidade incendiada fogo pelos poros pela pele foi a vodka que matou a moça e agora pastor pinguço e sua palestra premiada e seu cartão de ingresso na Festa Absoluta e o rigor da vestimenta a capa vermelha a espada o escudo o míssil a bomba a tiracolo no lugar da pasta e seus papéis e todos os carimbos e os títulos de inspetor do esgoto abúlico do fruto proibido faminto de nozes mordidas pela casca dura dentes quebradiços como uma folha de parreira cobrindo o Ivo viu a vulva de Eva:


Você vai ver como a memória trabalha a seu favor.


10/30/2011

Álbum de perfis

Álbum de perfis. Será que estas efígies que me dirigem nos olhos seus rostos olhando pro lado

pra onde?

Essas múmias cujas faixas são sinais elétricos, entenderão a intensidade desse gesto passado, este sorriso sem pé nem cabeça, uma lembrança sem antes nem depois: o sorriso de expectativa do lado do terreiro noturno da dona Dalva, por exemplo

à espera de quê? Será que ainda? Gravado não sei como não me lembro o motivo, na alma e

onde ficaria a alma, afinal?

Se a memória não é mármore é mar rarefeito no tempo, água-viva, o passado arde na pele do presente, será que estas estrelas

-marinhas que me vivem no sangue algum dia vão entender por que isso é tão nítido, como se agora mesmo eu estivesse sonhando com você aqui sorrindo ao que nunca vai suceder, e outros, tantos outros tão mínimos, nas suas cabeças talvez

não pra mim. Pra mim nada é mínimo. Ou sou um homem feito de mínimos.

Cada mínima ferida
Alegrias menores e o resto
É vazio – vazio de mar

E o cadáver chegou à praia inchado de água, todo marcado por pequenas mordidas de peixe:

a pequena voracidade do tempo.



E como entender que nessas lembranças tão nítidas não há nada

de decisivo, ou que elas são sustentadas por coisa alguma, um duradouro quase nada e mesmo assim elas saltam aos olhos como peixes coloridos e silenciosos e outra:

como entender que apesar disso, elas não são vagas indiferentes. São como feridas que passaram e não deixaram cicatriz e sangram

indolores.

O fodão do colégio que me jogou na lata de lixo, não era bullying, isso não existia, hoje é fotógrafo de casamento – é o que me diz sua múmia. Você, que me disse que os professores me odiavam e isso era sinal de que meu “trabalho” estava sendo bem feito e eu devia continuar. Aquela coisa que ia acontecer na Casa dos Padres e não rolou, Paulinha. Andar de carona no carro velho depois do curso de formação política – comunista aos 13 anos de idade. Qualquer coisa, uma frase, um gesto e um desejo



de sair perguntando: você também se lembra disso? Você também se lembra disso? Se só eu me lembrar então quem sabe

tudo não passou

mesmo de um sonho e querer sair do sofrimento é como se esquecer que se mora numa casa que está

pegando

fogo:



água salgada é fogo condensado,
tudo nessa história é refração,
cenas soltas

não

compõem uma vida.


De quê então
uma vida é composta? Uma vida

é composta?

A memória é um mar iridescente de gestos e frases
irrisórios que emergem
do nada.



ou pensarão

que este xarope pirou porque lembra demais?

10/26/2011

sábado em copacabana

a menina olha o mar
do outro lado da avenida Ela está parada
no calçadão enquanto
os carros passam
as noites passam
as suas chances
passam enquanto seus olhos
trilham o meio do breu das águas
e se perguntam onde foram parar
os dólares e os euros
que clientes americanos e italianos
largavam em cima
do lençol molhado de suor
e esperma Ela não sabe que a máquina
de fabricar notas verdes
está emperrada no além
do breu das águas e os gringos
andam agora com as mãos
nos bolsos no olho
da rua Ela tem sonhos
psycho em que dança
nua com as colunas de uma igreja
abandonada entre
espasmos
numa batida trance
numa batida trance
numa batida trance Ela
tem sonhos ácidos em que seus dedos
gozam quando tocam as notas
verdes que saltam de uma pauta
como cédulas de cinqüenta
na batida
do funk Ela tem sonhos
mínimos em que seu corpo
acende feito neon quando milhões
de mãos se esfregam
em suas pernas
perfeitas de cleópatra
do subúrbio
e seus poros aspiram moedas
que douram seus pelos
como água oxigenada e vão
direto para uma conta
bancária através de cabos
subterrâneos Copacabana
é um delírio nas retinas, este lugar
é um sonho em que você
não consegue dormir uma noite
que seja, ela
pensa de dentro
do inferninho da beira da praia
à meia-luz Ela tem sonhos
turvos com um paraíso
cheio de lojas que seu dinheiro
pode comprar porque Copacabana
tatuou em sua pele
com saliva
todas as línguas
que o mundo fala
quando não quer
dizer nada

Considerações sobre um questionário

A minha área:
Aérea.

Meu território:
Onde estive
E não estou.

Meu recorte temporal:
Um caso crônico.

Minha especialidade:
Especiarias
Etéreas.

Minha escola:
Escória na tua mente
Profissional.

10/22/2011

É um cristal ou melhor: cristalização. Quase. Uma estrela
Do mar, na ponta de cada tentáculo
Dentes, de lobo: animal faminto
Devorando as bordas
Do mundo.

Oito-Olhos no centro: aranha cravada no eixo
Do nada
Patas caçando
Um porto seguro
No vazio, raízes em expansão:

Pensar num besouro caído com o dorso
No chão quente: movimentos descoordenados no ar:
Membros de uma pessoa jogada do terraço de um arranha
Céu.

Tudo isso.

Um corpo que sente a vida ser criada
Apaixonadamente, como dor, feridas
Que se cristalizam, mineralizando-se:

Assim o desejo se cristaliza em poema.
Assim o lodo se cristaliza em história.
Assim o caos se cristaliza em cosmo.

10/17/2011

inútil paisagem imóvel

diante de seu corpo, da alma
nem pensar: ela pegou
um táxi em direção
ao centro da cidade
abandonada ou se perdeu
nas revoluções
por minuto [você vai
falar de novo no eixo
inexistente, cara?] ou
se desintegrou quando viu
no espelho a própria imagem e ela parecia
antimatéria ou ainda
seu corpo, isso que produz
pensamentos, irrigado por sangue
quente, hormônios e linfa, isso
que pulsa e expele
secreções, não se reconhece
na idéia de alma As fachadas
mudaram de cor, pântanos
aterrados, flores de concreto
e vidro brotaram da terra, mas
a paisagem permanece
imóvel, áspera [não tem
negócio, meu chapa],

cenário Enquanto isso, mercadorias
incandescentes inauguram
cultos efêmeros, catedrais
instantâneas em que séquitos
depositam almas planas em suaves
prestações num jogo
de corpos imolados em epopéias
controladas por relógios
de ponto e catracas biométricas,
à espera, sempre à espera
de uma rave
tão ácida que dissolva a cápsula
impermeável da alegria
pra que ela penetre em todas
as rachaduras
dos muros
e suma
Toda manhã o sol emerge
Vomitando sinais
Cuspindo matilhas
De rancor, tantas palavras
Engrenagens

Rodas dentadas
Portando armas,
Marcas. Multidões.

Desenhar, com finos traços
Como a safira sobre os sulcos
De um disco
O azul inútil de asas
Transparentes, contra o céu.

Elucidar, na mente de tudo
O giroscópio (vazio) de anjos
Os abismos ínfimos
Onde sobrenadamos:

Que o ódio atravesse tua alma
Como as partículas sem peso
Que o universo vomita ao explodir
O sol.

10/10/2011

Como responder à objeções de um rato 2

Ratos de laboratório submetidos a eletro-choque ficam paralisados – de medo. Nem sequer procuram a saída do labirinto ou farejam a isca visível e apetitosa no centro da caixa.

Ratos também passam pela experiência

narcísica de olharem pra água à procura de si mesmos. Além de se reproduzirem em grande velocidade, os ratos se multiplicam porque tendem a ver o mundo como um amplo viveiro de fantasmas-ratos: ratos voadores com asas de anjos, ratos mutantes com flores plantadas no dorso. Todo rato real prolifera no mundo imaginário, ocupando-o com seus duplos, seus gêmeos, seus irmãos siameses, formando redes entrelaçadas por dentes finos e excrementos.

(Ai de você se um rato te tomar por espelho!)

É por isso que, mesmo que tomado de pavor, um rato sempre acredita que vence.

Entre os animais, somente dois matam outros de sua mesma espécie: o ser humano e o rato. Isso está começando a parecer uma aula de biologia. Mas não é isso. Existe um heroísmo de ratos. Uma coisa estilo pancadaria de desenho animado. Os ratos curtem andar coroados por seus próprios excrementos. Os ratos emitem sinais, guinchos: eles falam por dentro de você, da sua língua viscosa de betume, seus olhos de fio elétrico desencapado.

Você, o vencedor. Você, o coroado. Você, o que se agachou – para fora da possibilidade do soco. Você, o espancador de mendigos que viu seus finos dentes caídos no chão quando um deles revidou. Você, o que superou os traumas de infância se agarrando à tesoura como objeto-fetiche e parâmetro de astúcia e agora vomita estratégias imaginárias no mundo virtual, imobilizado no seu canto da caixa do laboratório.

10/09/2011

aquelas flores que sangram se abrindo por dentro em sua carne

para helena n.



foi numa primavera hostil que deixei de te entender
e semeando ausências nos teus calendários
não via as flores mortas nos jardins
onde depositei o simulacro de outro drama
em que anjos distraídos se dissimulavam em pedra
ou em cedro dourado nos crepúsculos dos adros
e das naves escuras e vazias

já não me importa mais que as células sãs enlouqueçam
ou teçam abismos pelo corpo
abismos sangrando névoa e nuvem
e descompassem a música das esferas
nem que o silêncio venha carregado
das palavras
esquecidas num tempo em que ainda amanhecia

neste mesmo lugar deixei o mapa
que nos traria de volta a um presente que não termina
e agora
depois de todas as pontes arruinadas
vi pelo espelho dos metais que andei forjando
um rosto
que representa a ilha
num mar que transborda cinza bruma e gelo

nos acalenta agora nesta outra primavera
o fio que abre a ferida sem resposta
aquela em que
[lançando imprecisões nas cartas do destino]
finalmente
eu
não sei

10/05/2011

"Só o (palavra proibida) nos une"

Como é bom ter de novo
O silêncio
Não o mero cala-te
Boca, ou o estado definido
Do silêncio como um peso, um aperto
De mãos na garganta
Da alma.

Como é bom ter de novo
O silêncio em que palavras
Se dissolvem depois de partir
O silêncio, ínfimas
Somem, consomem-se
Quase inaudíveis como a areia
De uma ampulheta ou
O silêncio dos pássaros
Que voam alto depois de um grito
De fome:

O silêncio que segue
Pensando alto – algo como:
Não é com você
Nem comigo
Que eu estava falando.

10/02/2011

cinco ou seis maneiras de se perder na cidade

você tem cinco ou seis maneiras de se perder
na cidade Numa delas
o Livro dos Espíritos é um oráculo
tatuado em braile na pele
de meninas mestiças que dançam
nuas sobre lençóis grená
um cântico sufi enquanto
o sentido arde em suas vísceras e seus pés
escrevem um livro chamado
motel nosso lar Em outra
o labirinto de memórias detona
a dessublimação feroz
que você rasura no Breviário
das Horas, estação
por estação, como se isso
criasse qualquer âncora
entre você e o mundo E ainda uma
que repete ao infinito a metamorfose
em que diante do abismo você
é um poema escrito numa língua
estranha cujo último verso
esconde uma
chave As outras não
interessam


9/30/2011

Adianta dizer a minha lucidez
E avançar meu argumento contra
O caráter precário da minha existência
Uma existência canina
De cão sem dono nunca resignado porém
Aqueles campeões em tudo produtivos e nem por isso saudáveis
E aqui reclamo minha agonia a ausência de obra nada saudável
A obra precária inexistente
Uma não obra
Uma mão na roda
Aquela alegria dos que obram e impõem-se
Os que respaldam a obra aqueles elogios nunca conheci
O reconhecimento e reclamo
Reclame
Publicitário

9/27/2011

Aqui estou de novo
O tendão do dedo indicador pedindo descanso, como se eu tivesse passado horas assinando meu nome meu nome meu nome e de novo meu nome. Os mesmos traços no papel, sempre recomeçar: como um leão neurótico andando em círculos numa pequena jaula. Como se a caneta fosse capaz de tatuar a pele de celulose. Mas, nada é mais exterior ao sujeito que seu nome. Todo nome é uma fatalidade, quando não é uma citação, ou pior, um prenúncio de lápide. Então por que estou aqui de novo? Porque os anjos, com asas que um dia ainda brotarão desses traços negros na tela luminosa voando para a imaginação de quem fala a minha língua, ainda não estão prontos. Se é que um dia ficarão: suspeito que a matéria-prima dos anjos é o instante. Então, por que estou aqui de novo? Porque as flores, quando morrem, perdem o dom de agir criando elos. E o tempo das flores é curto: a morte das flores é visível a cada segundo. E assim preciso prosseguir desenhando novas e novas flores na sua mente, se você fala a minha língua. Você não vê, agora, uma flor surgindo tão real na sua imaginação? Ainda está muito abstrato? Pense num girassol vermelho, num lírio azul, se debruce sobre flores negras e sem nome. Sinta o gosto do girassol em pó, que te servem no Inferno para matar, piorando, a sua sede. Você não vê, agora, flor alguma? Você não se tocou que essa flor seria um anjo? Você não vê? Não viu?

9/24/2011

Remixagem dos meus poemas sobre o ipê amarelo

O ipê amarelo dos meus sonhos teria flores sem elos com cores quaisquer a não ser
o amarelo em sua pureza de flores se abrindo
ao sol:
amarelo de face metálica, sem outro nome ou mistura
(mesmo o avesso das pétalas ainda teria o mesmo
amarelo, onde eu poderia deitar minha sombra. Ele seria plantado no coração vertiginoso do continente, onde eu repousaria, longe do mar e seu rumor.

O ipê amarelo que tenho diante de mim, porém, é um tronco seco, fino,

um poste
um fio
um dedo
uma forca

Flores amarelas, sem alegria, sem esperança, desmemoriadas, absortas,

absurdas.

Sonhar é fogo. O amarelo mais puro é filho do instante. O ipê se acende e se consome na imaginação, como asas (de anjos): labaredas pétalas.

9/20/2011

A ciclovia

A CICLOVIA

"— Meu caro, você conhece o terror que tenho de motos e carros.
(e dos pedestres)"

Um passante de
bicicleta
se destaca no horizonte.
Sua intenção é atingir a ciclovia perfeita.
Ele reclama:
— “A pista da ciclovia é inútil, ela termina, ela desemboca na rua”.

O ciclista sabe que precisa
passar pelos carros para atingir a
ciclovia.

O ciclista sabe que precisa
passar pelas motos para sair da
ciclovia.

Ele pedala altaneiro
por alguns minutos respira a sensação
enfim esse espaço.

O espaço da ciclovia se confunde com a calçada.
O pedestre flana.
O pedestre invade a
ciclovia.
Na superioridade de sua preferência
sua prioridade absoluta facilita o acidente [alguém adverte].

Manoel me disse que o carro deve manter a distancia de dois metros da
bicicleta.
Qual a distância que o pedestre deve manter da
bicicleta?

O pedestre vive seu estado de exceção.
O pedestre turista vive seu estado de imposição.
— Ele tem Razão! Isso não é uma razão, diz Michel.
—
[Outro dia Marília esbarrou com Deguy de bicicleta]

João quer pedalar continuamente mesmo não sendo um atleta.
Sem interrupções, de ponto a ponto, da esquina até Ipanema, até a Lagoa.

As pernas retraídas
esticam-se continuadamente.
Se esforçam formando
ondulações.

Elásticas
as pernas
na bicicleta
ondulam.

[Marília depois me contou]

Deguy saiu da
ciclovia
chegou na avenida de
bicicleta.

Naquele momento interrompido em que
caía.
Ridículo na lama.
Quando o poeta se estatelava no
chão.

9/17/2011

liserg

(tela de Lucien Freud, falecido em julho deste ano)


ouvir so lonely em 1978 num pub londrino
olhando o calendário marcar 2011
sem nunca ter pisado em londres
falar com as paredes falar com as paredes
falar com as paredes
escrever um poema com palavras que sejam
só suas
riscar a pele dos dias com uma fratura
exposta querendo que disso façam
teoria nas tardes do conservatório
discar para os desconhecidos que lhe conhecem
bem e inserir mentiras no roteiro
que eles estão representando
dançar de novo dançar de novo
dançar de novo
escondendo no bolso um bilhete sem volta
pra pasargada
sabendo que ela foi bombardeada
olhar bem dentro dos olhos da fera
e amar a fera entre os escombros do seu dia
resetar o passado em doses insuportáveis
mas sem desferir o último golpe
antes que a chuva umedeça os corpos
antes que o mundo role como uma cabeça
antes que os dados do destino escapem pra sempre
dos seus dedos

Uma aproximação ao poema de Creeley (Numbers)

Números, de Creeley


Um

Que condição singular
de florescimento
vertical…
vai por aqui,
vem por aqui.

*

quem eu era que
pensava ser
outro um por
si mesmo dividido ou somado
produz um

*

esta hora, este
lugar, este
um.

*

você não é
eu, eu não você.

*
me todos

*

como pau,
pedra, dada

coisa tão
fixada que tem

uma cabeça, caminha,
conversa, leva

uma vida.


Dois

Na primeira vez
em que foram feitos
toda terra deve
ter sido seus corpos
refletidos, num instante –
um fluxo de impressão
de que uma curva no tempo
voltava ao brilho da água –
a ternura em que vieram.

*

O que você quis
eu senti, ou senti que senti.
o que já é mais que um.

*

o estado da assim chamada
consciência é sempre
uma palavra perfazendo
este mundo de mais
ou menos do que é.

*
não me abandone.
me a me. um a um.

*

como se próximo
a mim outro alguém
se aproxima. Só

para fazer você
minha, na mente,
decifrar você.








Três


Eles, agora, mais
um entre dois –
seja de um lado seja
de outro. Será

que eles sabem quem é
quem, ou simplesmente vão
com este pivô de entremeio.
Aqui as formas têm potencial.

*

Quando isto ou
aquilo se torna
escolha, este estado

das coisas trespassa.
Aquilo que foi
agora acordado

alterna entre
dois e um,
me todos.

*

O primeiro
triângulo, de geometria,
de pessoas,

soou como
ocasião única, eu
acho – começa

aqui, intangível,
o círculo –
um nascimento.







Quatro


Este número vale
como conforto, fato
seguro. Qual

mesa firme
sobre quatro. O cão
confortavelmente caminha,

e dois a dois
não perfaz militares
mas amigos amáveis

mãos dadas. Quatro
é uma praça,
ou círculo pacífico,

celebrando o retorno,
o encontro,
o triunfo do amor.

*

A carta que traz
o quatro de copas
é signo de experiência
de vida. Que outro
sentido haveria.

*

Uma porta
quatro – todavia
quem entra.

*

Abstrato – sim, qual
dois e dois
dados, quatro dados –
um e três.




Cinco

Dois a
dois mais
outro agora

no meio
ou então do
lado.

*

De cada
um dos quatro
cantos trace

uma linha
indo ao ponto
oposto. Ali

na intersecção
faz-se o
cinco.

*

Quando mais novo este era
o número requerido
para contas, e para

imaginar um conjunto
útil. De algum jeito o extra-
-um – que é mais que quatro –

me assegurava que havia
o que bastava. Dois e três
um e quatro está completo.

*

Como desenhar estrelas.






Seis


Misturando-se
tais formas
entre
dois e três –

no sexto
dia findara
a criação –

íntegra –
ou que o sol
é pleno

no equador & parece
parar, depois
retornando...

ou que isto contém
o primeiro número
(2), e o primeiro excesso

do número (3), o primeiro sendo
o membro do macho, o último
muliebris pudenda...

Ou dois triângulos entrecruzados.
Sete


Somos sete, ressoa dentro
da cabeça como pesadelo de
responsabilidade – sete
dias na semana, sete
anos para a sarna
do envolvimento irreversível.

*

Olha
a
luz
desta
hora.

*
Eu nasci às sete
da matina e meu
pai tinha um monumento
de pedra, pedestal na
porta de entrada
do hospital de que ele era
o cabeça.

*
Às seis
às sete – a caneta
perdida, o papel:

embriaguez
de noite morta. Por que
a morte de algo tão

próximo a este
número é total.
Tudo não
passa de um
único número?
contar,
sempre e novamente.

*
Aqui jaz o número sete.


Oito

Dizer “oito” –
paciência.

Dois quatros
indicam o método.

*

Este número, nenhum outro,
demarca o ciclo –

intervalo de oito anos –
pois tal confluência

faz a lua cheia brilhar
no mais longo
ou mais curto
dia do ano.
*
A seca está quase no fim.
O mês é agosto –
este intervalo.
*
Ela tem
oito anos
segura o gatinho
e olha pra mim.
*
Onde você está.
A mesa.
A cadeira.
*
Traços luminosos demarcam o intervalo.
Oito faz o tempo passar em silêncio.
*
Não tem volta –
apesar da metade
ser quatro
e a metade,
dois.
*
Oct-
ago-
na-
l.

Nove

Aqui não
se repousa.
Agita-se,
reflete-se múltiplo
o três
vezes três.
Como espelho:
volta aqui,
ali estando.
*

Talvez na
ênfase implícita –
a mais que a mais que –

“tríade das tríades,”
“triplamente sagrado
e perfeito” – o que se

resolve –
na mutante
cadente destinação?
*

De certa forma, o jogo
em que algo se esconde
na casca da noz, uma

pedra ou moeda, e
a mão mais veloz
que os olhos –

como podem ser nove,
e não três
alternativas, a não ser

que sejam
três imaginações,
e são dois jogando –

o que dá seis, mas
o mundo é real,
mesmo em si.
*

Mais. Nove meses
da espera à descoberta
de vida ou morte –

outra vida - outra morte –
não a sua, não
a minha, como se vê.

*

A diminuição gra-
dativa da progressão
dos produtos que

me fez lembrar:
nove vezes dois é um-oito
nove vezes nove é oito-um –
de cada termo,

atrás, adiante,
então, o mesmo
número.

*

Que lei
ou
mistério

que ama
se
ocultar.

Zero

Onde está você – que
por não estar aqui
aqui está, mas aqui
por não estar aqui?

Não tem atalho pro real –
a mente,
qualquermente,
o perfaz. Você

passa os anos
nonada, nenhum
lugar que eu saiba tanto
quanto o ar

que aspiro, soprando a fumaça
pra fora da boca
também dá no nada,
e este é o destino.

*

Estudando sistemas primitivos
parece natural, desde o dez,
o retorno do um –
mas isto não é dez – saído
do nada, o um, retorna –
brasileiros têm um jeito meigo –
alguém já disse isso –
de “não fazer nada” – Que mais
devem, conseguem, fazer?

*

O que
por não ser
é – e não
por ser.

*
Apreciamos no queijo
Os vazios saborosos.

A arte de ver, em 3 passos

1
Deixar o sol entrar nos olhos:
Um pequena bolha azul nas pálpebras,
A manhã tecida nas veias



2
Olhos de prata:
Ao dormir aninhar-se
Nas asas da águia.



3
E pensar que se é uma flor
Que nos olhos-pétala
Traz a fria substância lunar

Ficando racional

1
Eu, de preto,
Escalpelo cachoeiras,

Rumino pétalas,
Aqui com meus botões.


2
Reparo no jardim:
Sua verde geometria
São cabelos de alguém.

A flor azul do delírio
Não cede à tentação
Amarga de provar seus sabores.

Tudo o que sei é de uma estrela negra e fria
Cravada em meu peito
E que quando a estrela se acende
Rebrilha de violeta a azul
E flore em minhas mãos, cheias de pétalas.
E embora nada neste momento o diga
Uma estrela negra virou uma flor azul
Que virou um pássaro:
O pássaro é branco e amarelo
E vive no fundo do mar
O pássaro absolutamente não canta
Mas salta com seu bico pontiagudo
E fere meus olhos.

E isto no exato momento em que eu ia perigosamente
Me aproximando de alguma palavra perdida.

Antes de eu reparar no jardim
Me lembro de outra flor preta que havia
Apenas notada quando alguma caminhada banal
Trazia um incômodo a meus pés.
A florzinha logo se mulitplicou
Rápida e discretamente
E eu só percebi a proliferação
Quando as feras já alcançavam minha garganta
E em tudo o que digo
Sinto
Um odor de flores azuis.




9/15/2011

Do meu caderno de experimentações - XLVI

Sento-me no parapeito do silêncio. Se estender o braço para fora, cederei ao peso das mãos.

Porque mãos pesam quilos e quilos. Toneladas.

O amor rumina dentro dos dedos.

É muito difícil baixar o volume ou gritar alto, mais alto, em noites assim.

Eu?

Nem ouso empinar a cabeça. Estou ensopada pela bruta sanguinolência dos ursos, que se espreguiçam e bocejam devagar.

(Pouso a mão sobre este sono. Peso.)

O amor rumina dentro dos dedos.

Nem ouso...

Em breve o meu rosto há de ser uma flor a se abrir ao meio-dia, implacável.

Sei que a música, o hino sulfúrico da morte, há de esbofetear — os dedos longos, longos, tanto amor — a minha face direita.

Oferecerei também a outra.

***

(Também publicado em De Ter de Onde se Ir)

9/11/2011

Combustão Humana Espontânea

Mesmo que eu me cale, as palavras continuarão me invadindo. Palavras sopradas, inoculadas, jogadas de todos os lados prosseguirão seu trabalho persistente de inflar a alma. O mero silenciamento não é capaz de deter o processo, tão natural quanto qualquer outro, em que as palavras se misturam à vida dando origem a um sujeito inchado e combustível. Se eu fechar a boca, paralisar os dedos, conter-me, apenas adiarei a explosão inevitável. Sem contar que as palavras não decantam como matéria inerte num canto escuro de você. Brisa cheia de dentes remoendo as sensações, água-viva queimando a mente, matéria inflamável na alma –


deus azul inexistente, me ensine a arte sutil das metamorfoses.

9/08/2011

cansei de escrever poemas, qualquer embriaguez
traz melhores resultados, pois é, cansei
de escrever poemas, os dias não passaram
mais lentamente ou mais rapidamente,
a cidade não se ergueu da anestesia, os diários
ainda não registram aquilo que na vida
acontece, uma sinfonia de vozes continua
vibrando sem dizer nada

cansei de escrever poemas, cansei das rimas,
da falta de rimas, da prosa, da invenção,
de ser barroco, de não ser barroco, de buscar
entre os poemas os que não mostram lugares
comuns, de tentar entender o que se move
entre o som e o sentido, de tentar ver o corte
que existe entre as palavras, de tentar mover
as palavras, moer as palavras

cansei de escrever poemas, cansei também
da embriaguez da poesia, mas não posso
dizer que já aceito o assalto do real e não
consigo ainda diferenciar uma coisa da outra
mesmo cansado da poesia e não aceitando por enquanto
os tributos que o real nos impõe às claras, cansei
de falar com as paredes, cansei de mover
outras vozes sobre o silêncio

cansei de escrever poemas, cansei da métrica,
do compasso, da palavra exata, do verso
livre, do cinismo da linguagem, da entrelinha
e, no entanto, não sei o que fazer no lugar
de poemas, não aprendi qualquer outro meio
de abrir fendas nos muros do mundo,
de pintar grafites nos desertos do mundo,
de não dizer sim com o silêncio

Depois de ler A Arte da Memória de Frances Yates


Você grava na mente o planeta que se expande como um vôo e

De leite a branco, de branco a ar, de ar a outono. Declinar-se frio e úmido. Alma evapora do mel, alimento de deuses. Semear o girassol vermelho. Fazer amor com a puta de olhos furados e orelhas cortadas. O leão é manso aos pés do mago. Um carneiro, de chifres fortes, vem em sua direção no escuro: melancólicos têm memória de elefante.

Você grava na mente a lua que se dissolve e cria musgo em seu sangue e

De lírio a azul, de azul a água, de água a inverno. Declinar-se frio e seco. Alma evapora do leite, alimento de deuses. Semear o trigo branco. Fazer amor com as chamas de um incêndio. O lobo é manso aos pés do mago. Um touro, de chifres fortes, vem em sua direção no escuro: melancólicos têm memória de leão.


Você grava na mente o planeta que se enrola em suas veias como arame farpado e

De sangue a ocre, de ocre a terra, de terra a primavera. Declinar-se quente e úmido. Alma evapora do trigo, alimento de deuses. Semear o lírio verde. Fazer amor com a princesa na cama de espinhos. O elefante é manso aos pés do mago. Um carneiro, de chifres fortes, vem em sua direção no escuro: melancólicos têm memória de lobo.

Você grava na mente o sol até que ela cada vez mais quente brilha e
De trigo a amarelo, de amarelo a fogo, de fogo a verão. Declinar-se quente e seco. Alma evapora do lírio, alimento de deuses. Semear o mel azul. Fazer amor com a virgem de dentes pretos e língua de serpente. O leão é manso aos pés do carneiro. Um touro, de chifres fortes, vem em sua direção no escuro: melancólicos têm memória de mago.

Tudo isso supondo que os caminhos são bifurcações em série a partir de um mesmo centro brilhante esquecido mas real e que o mergulho ou o vôo levam à mesma divindade, que a sua matéria-prima mais íntima pode ser vista se você olha para o alto e a dor ou a alegria na sua alma repercutem nos cristais celestes, quando por seu lado, melancólico leitor de livros de história, você olha pela janela e se depara com o nãocriado e persistente silêncio e o escuro, ou, mais que escuro, transparente silêncio que persistirá e não precisa de você e a memória é uma sangria desatada correndo para todos os lados enquanto se indaga sobre como harmonizar estilhaços do sol.

Sem começo, sem fim: quer dizer, pelo menos sem começo pelo que eu me lembre e sem fim porque não adivinho o sentido. Quando eu era criança, tínhamos no apartamento um armário que me dava uma estranha sensação de mistério. Ele ficava na área de serviço, era embutido, pequeno, quadrado, baixo, muito escuro por dentro. Para piorar, em seu fundo a parede estava meio arrebentada: como se ele tivesse um buraco, uma outra porta, um portal. Mas ele era usado para guardar garrafas vazias, de cerveja, vinho, cachaça (um pouco mais ou menos do que 30, mas não exatamente 30). Ainda assim, tínhamos que ficar longe dele. Teia de aranha e cheiro de barata morta. Eu não o imaginava como um esconderijo, mas uma passagem. A fantasia mais apaixonante era que ali eu encontraria um túnel que me levaria ao terraço do prédio. Um túnel: as garrafas estavam ali fazendo o papel das coisas usadas pela banalidade da vida, tédio e rancor lento entre as paredes frias. Mas, eu poderia passar por elas, mesmo que me ferindo um pouco, eu não tinha medo da asfixia: minha própria respiração produziria, magicamente, o ar puro necessário. O escuro absoluto seria vencido por minhas pupilas que iluminariam por si mesmas minha própria visão.

Pos-escrito: Existe um novo modo de as palavras operarem mágicas: é o mundo que se desperta quando elas são pronunciadas, a vida que apreende seus próprios caminhos, cada nova enunciação é uma carta de intenções cósmicas enviada à sua memória pelos recantos em que a imaginação faz a passagem entre o seu destino e o coração perdido das coisas.
Esse é o meu Teatro da Memória.

9/04/2011

Quem disse que a liberdade é leve

Erros de datação interessam ao espírito
crítico. Quem respira Mistério sabe que dia inexiste ou hora: a mesma boca que profere é a boca que mastiga. Kronos é uma pantera que canibaliza a lógica do tempo.
Quem disse que a liberdade é leve
não tem volta ou abrigo: o calor estende a mim suas mãos, me agarra pela garganta, vem das paredes da minha caverna: fratura exposta rasgando a carne da cidade, fios elétricos ligando almas e letreiros luminosos.
O excesso de luz apagou as estrelas, o excesso de música banaliza todas as vozes, o esconderijo foi soterrado, o velho apartamento é habitado por outra
família.
Quem disse que é leve a liberdade?


8/31/2011

No fundo do convento, um jardim – depois do jardim, vemos um vale coberto de mato virgem e mais adiante encostas de morros com casas: varandas, roupas secando, carros velhos nas garagens. O jardim é dividido em três patamares de forma retangular, separados por muretas de concreto carcomido. No mais alto, alguns bancos que devem, um dia, ter sido azuis. Nos três níveis do jardim, a grama seca tem tons amarelados, de palha, em meio ao verde-pálido. No mais baixo, um fino cano metálico azul, vertical, parecendo um caule decepado, irriga a grama, sob o sol da manhã. Girando rapidamente, o irrigador esparge água, jogando grandes gotas para o alto e para todos os lados. Forma-se sobre o irrigador uma cúpula, uma esfera pontilhada de gotas que brilham e se apagam. Cada gota faz uma viagem veloz do caule de azul metálico ao alto, do alto gira num arco lateral e enfim cai sobre a grama. É esse movimento que, quando visto como um todo, dá a impressão de que observamos um lustre formado por vagalumes líquidos. A luz da manhã, oblíqua, entra em cada gota, fazendo dela um tipo de cristal efêmero. Não vemos o caminho que a luz faz antes de chegar às gotas: é como se ela viesse de dentro da água. Por trás da cúpula assim formada – uma flor abstrata – vemos uma árvore frondosa, para além da árvore, o vale com seu matagal e seus bambuzais, mais além – a cidade. Um tecido diáfano criado pela dança da irrigação funciona como um véu quase transparente sobre a paisagem, quando a miramos usando as gotas de água que giram no ar como foco. O mundo, assim, é revisto novamente: tudo muda de figura quando olhamos com atenção para um irrigador azul e suas pétalas de água sob o sol oblíquo.

8/28/2011

passagem


I
o barulho das máscaras caindo
me deixou surdo, não há nada
debaixo do chão e apenas
alguns mícrons nos separam
do abismo, mas ninguém esperava
o baque surdo de tantas
máscaras

as orações que eu escrevia, ela nunca
suspeitou que eram para o deus
ninguém, porque no fim, como já
desconfiava, ninguém viria me salvar
a pele como divindade que não perdesse
a lucidez enquanto o verdadeiro rosto
aparecia

II
‘vou deixar a cidade’, ela disse, ‘de vez
em quando as coisas se perdem
de vez
’, as cores deviam ser doces
e nunca soube porque elas ferem,
eu disse contraindo os olhos como sempre
faço quando minto,

mesmo tentando
pôr os cinco dedos por entre as barras
do código de barras, daí saber que não
é uma janela nem uma saída
da embalagem dos dias repetidos, avenidas
tristes, raptos de sentido, céus sombrios
de um verão iluminado

III
em que ninguém sabia o quanto de real
traziam os versos que escrevi nas margens
daquela embalagem

8/27/2011

algumas ironias













algumas ironias

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          (a felicidade plena)

quando eu tiver um loft novaiorquino

.*.


          (o amor pleno)

doze ninfas dançando ao redor de minha preferida

.*.


          (o sexo pleno)

quando eu tiver todas as beldades da cidade,
sem ter que pagar por isso
(nem tempo programado)

.*.


          (o escritor maldito)

tem tanta gente querendo ser diferente, que o diferente se tornou
igual, é uma peste de gafanhotos, dessa forma teremos que voltar
a rimar amar com luar.