3/21/2010

Uma cena dos infernos

Banquete pantagruélico
De elogios,

Capetinhas saciados
Anões vermelhos – vendedores
De enciclopédias
Tocam fogo nos dicionários

Restando apenas uma palavra
Nessa caixa de pandora pós-moderna:

Esperança, não,

Parabéns.

3/18/2010

***

Estilhaços, anterior
Flor de vidro:

Ele diz que perdeu-
Se nos filhos.
Ela se diz protegida
Por astros.

Ele diz que leva o desastre
No bolso:
(Credibilidade mongol
Caco de lesma elétrica
Céu de vidro ensebado)

Ela diz que a morte
Memoriza fotográfica.

Ele diz que os coqueiros
São ventiladores.
Ela diz qualquer coisa
Calada.

Ela diz ter más línguas
Sanguessugas
Grudadas na carne.

Ele ouviu que seu sangue
É podre, ou mineral –
De areia suja do litoral
Da Bahia.

Ela observa o céu
Vermelho,
Ele observa o céu
Vermelho,

Alegria de olhos
Duplicados no céu vermelho:

Ele observa nos olhos dela
Ela observa nos olhos dele
O céu vermelho.

Eu os observo, escuto - recolho
Os fragmentos, compor
A nova flor de vidro,
Flor vermelha, sanguínea
Translúcida, flor de mal
Entendido, flor de areia
E música sutil.
Flora.

3/14/2010

o passado olha pra si mesmo no espelho de breu de seu corpo, essa massa amorfa e esburacada, o passado é um corpo cheio de crateras, cheio de vazios que lhe cortam a carne por dentro, infinitos canais, caminhos, corredores tortos cercados da matéria escura de que ele é feito.

o presente se perde por caminhos tortos, corredores, o presente é um vazio sitiado pela massa escura, são milhares de poros por onde a vida corre, como raízes do vazio esburacando a matéria do tempo a cada segundo que você arranca à toda, e neste avanço incerto o lixo da sua vida adere à massa negra da memória e pulsa

o futuro espreita de fora.

Ainda o anacronismo

1

O futuro não foi
Aquele presente
Que seu passado

Prometeu.



2. Um homem à frente do seu tempo


Ele corre –
As pernas quase
Não movem.

Atrás de si
A respiração, ressonância
De fantasmas.

Ele alcança
A chave, bate a porta
Na cara do perseguidor.

3/10/2010

Anacronismo

O que era anacrônico, futuro de um passado estagnado como água morta, fantasma dentro da garrafa

Agora


É ainda mais anacrônico, passado tão remoto que jamais aconteceu no futuro que é outro

Definitivamente.


Tempo é criança –

Curtição de jogos cruéis.

3/07/2010

o que é o presente?

tinha 20 e poucos anos
sabia muito pouco ainda
deu todos os passos certos

os caminhos do mundo não estavam lá

3/04/2010

Anarquizar

Mãe, conheço bem esse medo de morrer e esse medo de não ser amado e como o medo vem do suspense, por incrível que pareça a certeza de morrer, escondendo a vida sob sombras, a certeza de não ser amado, devolvendo de antemão o ódio que ainda não foi criado, tudo isso diminui o medo e reconforta. Eu sei que isso é óbvio e que o óbvio é o ópio do povo, então se o que eu dissesse mudasse alguma coisa eu te diria pra anarquizar.

Anarquizar com o passado, tudo pode ser embrulhado num pacote misturado e sorteado de novo – anarquizar a mania de perseguição, que se justifica até certo ponto, o mundo é infestado de filhos da puta, mas se somos sapos peçonhentos é porque humor paralisado e aquecido lentamente vira veneno, o lance é soltar o veneno, deixar o veneno correr, apostar em qualquer tipo de alquimia que faça do veneno em movimento outra coisa, fogo líquido vermelho da fraternidade ou luz líquida do êxtase. Deixar o veneno correr é um conselho prático.

Anarquizar com a percepção e com a consciência mediante um regime regular de drogas, claro que com metodologia, objetivo e justificativa, ou então, se as drogas forem ilegais e fizerem mal à saúde, mãe, pelo menos anarquizar com algo do tipo respiração alotrópica, ou ainda anarquizar com a lucidez – se o problema é o entorpecimento organizado, os demônios mudaram de nome e agora se chamam Wyeth, Rroche Sélavy, Patrulha da Felicidade, uma gota de lucidez para eles funciona quase como água benta, aliás,

Anarquizar a felicidade – uma vez cheguei a pensar que morava numa cidade de fantasmas, mas observando as sutis engrenagens de prazer e dor que fazem o mundo funcionar rangendo, não, tudo é real, é que o real precisa ser arrancado de dentro de nós e de dentro do mundo como se arrancássemos raízes presas em nossas pernas.

Não mãe, tudo é real. Daí todos os gestos e palavras que ferem: melhor ignorar o que não se entende, quem vai buscar explicações só encontra os seus fantasmas disfarçados de silogismos. A coerência da vida é que não é real, o entendimento, as palavras, essas então, pobres coitadas.

Anarquizar com essa regra: tudo o que se entende está errado, tudo o que se conhece é delírio coletivo, tudo o que escapa mas fere, tudo o que está represado mas é movimento, toda a força e toda a lucidez tratada como doença, desvio, mas que é alegria querendo explodir, tudo isso é real. E o real é de onde se começa a anarquizar.

2/22/2010

O mercado é madrasta

1.
as roldanas haroldianas

(seu sacana, filhodaputa e derridá)

os derrisórios derridianos
os freiráticos freyrianos
o amar marioandradiano

(fodeu a árvore, seu malandro)


o mad max marxiano
a grama gramisciana
a bodurna bourdiana
a foca foucaultiana
o heil heideggeriano

(coçando o queixo qualquer
publicitário vira artista ao passo que eu
claudico sem uma nota de rodapé)



2.

acumulação primitiva de citações:

(meu estilo é cheio de si,
quem escrevi isso aqui?
é meu tudo o que pioneiramente
tive a idéia de copiar,)


3.
o cu do cool do caderno cultural

deleuze me livre!
kafka é uma comida árabe,
cabala é uma boate no rio de janeiro,
drummond é uma estátua sem óculos,
homero foi um cego que nunca existiu,
machado de assis enchia lingüiça
pedro álvares cabral de melo neto era gago
(conforme Sebastião Nunes)

Goethe escreveu um livro chamado Faustão

(“um século de leitores e até o espírito
vai feder”, Nietzsche &
quando eu disser que procuro um amor
leia-se
procuro um tema pra meu novo livro)

para o interior do contra a história oficial
a moderna reflexão da complexa questão
do sim do não talvez como o fio condutor
da poética das fricções do silêncio
do nada do vesgo do vazio
caindo no abismo do indizível.

2/21/2010

Sem título

Eu diria coisas interessantes, te elogiaria na medida certa, sem aquela coisa de ficar babando, você riria bastante, não haveria nada nas entrelinhas, no final de tudo você me beijaria e me daria o pouco de carinho a que eu fizesse jus. Eu não comentaria aquela coisa sem nexo que gente e cachorros é que podem ser filhos da puta, gatos não. Eu não acordaria numa ressaca daquelas, a situação é cômica baby. Na vida real não chamo ninguém de baby, é brega pra cacete, mas pensei nisso por causa daquela música, você precisa saber da piscina, da carolina, da margarina, baby eu sei que é assim etc. Você ia gostar se eu cantasse pra você? Ou ia achar uma puta xaropada? Na vida real eu não canto, não precisa se assustar. Hoje de manhã a gata que mora comigo, gato da espécie dos felinos mesmo, estava miando de um jeito meio esquisito, fui olhar e ela estava miando pro espelho. Será que ela está passando por aquela fase lacaniana? Pensei. Mas que papo mais sei lá, hein baby. Então como eu ia dizendo, a situação é cômica. Eu, numa ressaca escrotíssima e tenho que sair de casa. Por quê? Dá um pouco de vergonha falar, mas vá lá, você precisa saber do que se trata, acho que sou um otário, é porque minha ex-mulher quer ficar umas horas com a gata e usar a impressora. Minha ex, a gente se separou tem umas três semanas, ela saiu de casa me dizendo que meu sangue não presta, que não devo reproduzir minha miséria. Ela disse que queria ter filhos comigo, apesar disso. Não entendi a segunda parte, porque meu sangue não presta mesmo. Você acha que eu pensei que ia te fazer rir com essa autocomiseração? Não pensei nisso, conversaríamos sobre outra coisa. Também sou contra ressentimento e detesto quem usa literatura como álibi, to pensando numa merda de um livro que li tem pouco tempo e como o escritor pediu pra comentar falo aqui, só pra você, ele tem a cara de pau de dizer que só escreve obra-prima, tudo bem, ele escreveu duas e isso bastaria pra qualquer um e tirando o clichê que o fulano também usa pra se esconder eu até diria que isso não é literatura, é uma carta. O papo é que não me deu vontade de falar nada e hoje estou aqui de ressaca e por isso imaginei como seria se a gente tivesse conversado e você me beijasse somente a título de boa noite. Pois é, não sei se curti aquela sinuca subterrânea. A música era boa, mas tive um ataque de piedade por todos que estavam lá. Tudo muito escuro, o ambiente meio avermelhado, os jornalistas comentando que a juventude de Brasília já foi melhor. Deve ter sido na época deles, como os mortos gostam de dizer. Pois é, catacumba. Mas, tirando isso, foi divertido. Uma hora eu estava sentado pensando em nada e você me olhou e sorriu, fez uma mímica como se estivesse tomando uma pílula, você achou que eu estava drogado?, eu sou assim mesmo baby. Na hora que você foi embora apontou o dedo pra mim e sorriu de novo. Não entendi a mensagem, só achei tudo muito bonito. Não quero interpretar, pra não parecer pretensioso ou expor autopiedade – vivo nesses extremos, baby. Melhor deixar quieto. Todos de ressaca, estou fodido. Vou ter que sair de casa, não sei pra onde, nem com quem. Domingo sozinho é foda, só tem famílias nos restaurantes você sabe. É dia de ficar em casa. Mas eu tenho que sair, não sei pra onde. Acho que vou dar um pulo na biblioteca, mas estou completamente sem cabeça pra ler. Eu cheguei em casa umas seis da manhã, dirigindo, pensando numa poesia que escrevi tem um tempo, digo que é uma merda talvez por vaidade, não é tão ruim assim, mas também não tem nada demais, a poesia termina assim: a única beleza espontânea desse dia foi aquela que aumentou sua solidão.

2/17/2010

Carnaval na caverna

Alegria desesperada
No ar, passa ao largo,
Sobrevoa
Como um avião furtivo ao radar

Sobre seu alvo.

Cheirando o etéreo num lenço
Aspiro a alegria de um sopro
No coração
O nada que me desobrigará
Da sua felicidade plena
De violência das risonhas dentaduras
Desenhadas no radiador do avião

Alegorias mordendo minhas canelas
Minas subterrâneas do prazer imposto:

Vomito o carnaval na caverna.

2/15/2010

O que não quero dizer sobre os anjos

Enquanto tagarelo, estrangulando as coisas do mundo para experimentar a distinção entre certo e errado, antes de tudo quem está certo e quem está errado, cuspindo convicções –

É nas palavras que finjo acreditar na vitória

Das derrotas, a arte da guerra para um falido na fragilidade das palavras que recobrem o mundo como uma fina superfície – a sua realidade, talvez,

E invento desculpas para explicar porque somos fora de foco e só como discursadores vencemos ou julgamos vencer, à revelia do resto

Que é tudo o mais.

Quanto aos anjos, é da natureza dos anjos falar pouco, quase que por sinais, o passo leve, toda a atenção dedicada à lanterna que acendo na noite como pedagogia da distância, enquanto o anjo me ensina a suave proximidade de quem finge aprender, ainda mais que anjos não aconselham, escutam.

Enquanto vocês precisam de seres alados impossíveis, auras e demais pretextos teológicos e éticos, a vida ou a morte, o caminho reto, não vendo a proximidade dos anjos, em simplicidade, silêncio e ausência

De promessas ou perguntas e negamos a clara existência dos anjos, só por não serem

Sobrenaturais – da mesma forma que o milagre é direto e simples, a mão estendida para a amizade, a chuva que transforma este habitat de underground supralunar em leve paisagem marinha.

2/10/2010

Sanguezinho de merda (ou, ela disse-me assim)

No início, deve ter rolado
A transfusão de sangue de um buraco negro.
Sangue verde-escuro, de musgo, sangue frio
De anfíbio.

Sabe-se lá quantos estupros nas gerações de orgulhosos
Masoquistas, melancólicos de sangue de sombra, um litro
Gostoso de sangue de mitômanos, místicos, seres sem imaginação,
Da repetição, sangue sem tragédia, sangue de beata virgem,
Afinidade eletiva com álcool, com os excessos, sangue compulsivo,
Bipolar, histérico e esquizofrênico, sangue de puta, sangue amarelo
De bílis, sangue de papel, de alegria desesperada, que cultiva
A tristeza como se a derrota fosse um tipo de retiro espiritual,

Não basta ficar contente, tem que destruir o bar com os amigos,
Não basta ficar triste, tem que contabilizar jazigos,
O show não está bom? Joga latas de cerveja nas backing vocals.

Nem mesmo o hábito saudável da leitura
É saudável quando imerso num sangue porcaria desses,
É leitura compulsiva, delirante, desordenada e degenerada

(Ao invés de Sítio do Picapau Amarelo, por onde começaram
Todos os colunistas culturais, O Presidente Negro e os tratados
Eugênicos do Monteiro Lobato, sangue de chacota, só pra
Dizer que Lobato e Xou da Xuxa é a mesma merda)

Sangue ácido, sangue pinguço, a mãe natureza vai
Acabar com isso recitando a fábula da semente, mas no seu caso
É a semente que é seca, imprestável e pecadora.

2/06/2010

...

um labirinto que a vida lhe propôs no instante mesmo em que você andava e via no horizonte um ponto aceso - não tem saída agora: de um lado a verdade; do outro, o esquecimento, a desrazão, o incêndio que rouba o sentido ao passado e aí você desconfia que as duas saídas são a mesma, refletida - a verdade lança seus urros de fera e pelos ecos você pode adivinhar a sua essência - não o sentido, porque este não existe - não há também surpresas e é quase como se sentar ou caminhar fossem o mesmo - seriam essas as obras de deus? forjar enigmas que nos lança convertidos em labirintos, como se uma coisa pudesse sempre desdobrar-se em outra, ser outra, parecer outra? talvez por isso você se vingue escrevendo nas paredes grafites mesmo que no labirinto a língua seja de cada um, só de cada um, e ninguém decifre o que pulsa embaixo dos traços – é aí que você berra pros céus mandarem mais paredes cinzas, mais paredes cinzas, mais paredes

2/02/2010

Entrar - sair - do - no - inferno

Você é um pretenso filósofo um pretenso poeta um pretenso outsider um pretenso professor um pretenso qualquer coisa da mesma forma que os outros estão pretensamente alegres pretensamente tristes pretensamente na sua, quer dizer na deles, em suma o Inferno é mera pretensão como outra qualquer, não interessa qual é a sua das máscaras que são pretexto de música que é pretexto de vida que é pretexto de longas caminhadas que são pretexto de morte que é um pretexto do Inferno que é um pretexto de você que é um mero pretexto, quer dizer talvez um mágico faça sumir o gato do apartamento como pretexto tardio e isso vai se repetir inúmeras vezes sempre como pretexto de outra coisa, você vai dizer que não era bem isso o gato pode ter sido enforcado, deixa eu dizer de novo de outro jeito, agora vai mas vai se repetir como os erros de uma máquina estressada, assim:

A sua língua é subliminar, todas as línguas são subliminares na montanha-russa supralunar, não estamos falando de torre de babel, certo?, não tem nada a ver, estamos falando de onde tudo o que se diz é pretexto de uma música inexistente, não há música nos ruídos, mas eles querem dizer alguma coisa ou você quer dizer alguma coisa naquilo que eles poderiam querer dizer, você não é um compositor sacramentado, você às vezes não suporta os ruídos, quer dizer “conversas”, eles têm que ser combinados como se alguém mudasse aleatoriamente a sintonia do rádio e isso, no final das contas, desse como resultado alguma música, algum esboço de música que é, aí está, quer dizer o Inferno, esta música dos diabos

Você pode inventar algo assim como uma montanha russa platônica e tecer comentários sobre a esfera de cristal, o éter, isso como alegoria, será mesmo que não é literal?, sobre a natureza líquida do tempo etc, os outros pensam que ele deve estar mentindo, cheio de pretensões ou pretextos, vão te filmar e colocar no youtube pra você ver lá o seu fantasma que (como todas as aparências) não mente, quer dizer mas a questão não é quem está fingindo e sim o que está sendo fingido quando todos estão fingindo, se todos não caíram, com você, dentro daquela velha história do mentiroso que só engana a si mesmo, o mais dantesco dos otários

Outros vomitam. Você sabe: é seu o vômito deles e as aparências (por isso, os fantasmas) não mentem, quer dizer

Você pode caminhar à vontade neste lugar em que nada muda de lugar você vai ter a sensação de caminhar em círculos mas aqui não há círculos você caminha em linha reta, para onde?, com sede, uma sede tão profunda que te faz criar caretas, taí, você virou uma caricatura, mas é aquela velha história da máscara que esconde o que mesmo? nada e do pesadelo de uma pessoa que bebe água, mas a água é ar e a sede continua e a pessoa acorda e percebe aliviada que era apenas sede mesmo e vai beber água e percebe que a água virou ar de novo, quer dizer as tais máscaras que ficam grudadas na cara, como as aparências (por isso os fantasmas) não mentem

O Inferno não está para além da vida, está logo abaixo da vida, é o que sustenta a vida e permite suas caminhadas e devaneios, o Inferno não é um castigo, é mais um pretexto para redenções súbitas e passageiras, isto é, pequenas passagens para o Paraíso, que também, por si mesmo, não é nada, sendo o Paraíso um pretexto do Inferno – ambos, pretextos da Realidade que por fim não é nada além de ruídos que solicitam, conclamam, forçam a barra no sentido de que alguma melodia saia desse vômito todo

Por exemplo, e isso é literal, você pode pensar em mergulhar observando com a devida concentração os olhos que ficam negros quando ocultos por uma máscara dourada – não se trata de uma máscara “poética” de um carnaval veneziano – e a garota que está usando a máscara não simboliza nada, além de ser bonita, nada de metáforas, por favor, trata-se apenas de uma forte variação de eletricidade, um curto-circuito como aquele que te fez desviar os olhos quando você ainda estava pretensamente em si, no pleno controle de suas (risíveis) capacidades então você resolveu se preservar, quer dizer hoje não, ainda sinto uma pedra, quer dizer uma perda, na boca do estômago e agora momentos depois você caiu no limiar dos olhos que devem estar por trás da máscara, já que é pra brincar de pop cult cite o campo gravitacional das naves em guerra nas estrelas, você se lembra quando ela tirou a máscara, foi antes de tudo, naquela hora em que tudo era pretexto, mas no exato instante em que, em que mesmo?, alguém grita e os seus (quer dizer, não os dela) olhos explodem

Você por um momento pensa em como seria bela uma recaída romântica, numa hora dessas?, e cantar a luz negra de um destino cruel ilumina esse teatro sem cor onde estou representando o papel de palhaço do amor e ri notando o que poderia ter de literal nisso tudo

Agora se o seu amigo te revelar que enfim você está morto há uns dez minutos, e um seu brother não mentiria numa hora dessas, e você sabe muito bem no que isso vai dar, em nada, porque tudo é alegoria (principalmente o Paraíso, o Inferno e a Realidade), aí você está frito rapaz, você definitivamente estará morto, até quando

Não é nada disso o que ele diz

Não me venha com essa você pode se lembrar do Dom Quixote que não via um elmo no lugar de um penico ele dizia que aquilo era um elmo enquanto para os outros aquilo era um penico, aquilo não é nada além de aquilo, mas aquilo não presta pra nada, é como vômito, ao contrário de elmo ou penico que não existem, mas, sei lá, servem pra alguma coisa, você não serve pra nada como a perda não serve pra nada e nem mesmo as máscaras servem pra nada, o que não impede que Dom Quixote seja ou aja como ou fingisse ser um louco, como numa doença psiquiátrica cujo sintoma é fazer-se de louco, a loucura de quem pretende ser louco, ou aquela frase tipo Napoleão Bonaparte foi um louco que acreditou ser Napoleão Bonaparte, ou como diria um desses psicólogos de poltronas televisivas, cada um vive a sua fantasia

Para os outros você e seus erros visíveis e risíveis é um lance inesperado, do seu ponto de vista, você e seus erros risíveis e visíveis, ah não, isso é inacreditável, quer dizer, por fora a surpresa e por dentro a perplexidade com as suas cagadas e você sempre achou canastrão e ridículo o choro simulado sem lágrimas e agora você está no Inferno e não tem lágrimas para chorar e melhor não falar de perdas, quer dizer derrotas, mas é só disso que você está falando, certo?, nas entrelinhas é isso, ponha mais essa na conta do vômito, de qualquer coisa que seja aquilo, melhor não comentar, aí é que você se engana, o Inferno não é o amor que ainda ontem se enforcou com o próprio cinto e deixou um bilhete tão cheio de revelações como não se esqueça de pagar a conta da luz etc, o papo é outro

Você estará grunhindo quando disser que são todos porcos

E todo esse egocentrismo, peraí, não vai dar em nada, você vai sair do Inferno como entrou, de mãos vazias, e quanto aos pequenos paraísos e pelo menos a eletricidade, é isso aí, nada vai dar em nada, você vai ser, na pior das hipóteses, uma paródia, um pretexto, algo assim como o sábio da montanha, na melhor uma sabedoria possível seria ficar nos ruídos sem procurar uma música, mas a partir de então você só falará por ruídos e mais uma vez sua sabedoria será inútil, e se isso fará de você um santo, um otário ou um xarope tanto faz

A festa foi boa, uma festa dos infernos

1/28/2010

My dear félas

Com medo pelas beiradas
O anônimo das tuas
Obras literárias, uma vida a mais, uma vida a menos
Uma obra a mais uma vida a menos duas vidas
A menos uma obra
Uma ova.

Precisar de um bode expiatório
É uma fuga, a arte da perda ao menos
Pode ser escrita, as coisas trazem
Um vácuo por dentro que nos destina
Às perdas. O poeta não
Perdoa mais.

E daí se o livro é uma merda?
Adia-se a aposentadoria, é-se a mentira
De si mesmo, um dia a mais um dia a menos
Pelo menos.

1/24/2010

Terapeuta Abjeção

"Você é a doença, eu sou a cura." (Stallone Cobra).




ESTAMOS AQUI PRA MELHORAR SEU AUTO-ESTIGMA, VOU TE CURAR DA MINHA DOENÇA ESPALHANDO UMA EPIDEMIA, DA MESMA FORMA QUE SUA MÃE COLOCAVA LODO NA MAMADEIRA, O MUNDO VAI SE CURAR DE VOCÊ, O MUNDO É UM FOSSO ONDE FORAM JOGADOS OS DEUSES MORTOS DA MITOLOGIA ANTIGA, ASSASSINADOS PELA OBSESSÃO FAMILIAR DO TERAPEUTA ABJEÇÃO, O PRÓPRIO DEUS É NEVROPATA E O MESMO PSICÓLOGO QUE VAI AOS PROGRAMAS DE TV COMENTAR A ABERRAÇÃO DO ALCOOLISMO DO SUICÍDIO E DAS MÁQUINAS VICIANTES DE BINGO ESFREGA OS OLHOS E JOGA SUA BABA VERDE SOBRE A SOBRINHA DE 15 ANOS NOS CHURRASCOS ONDE O QUE SE COME É PICANHA COM SABOTAGENS TRIANGULARES EDIPIANAS, A PRÓPRIA NATUREZA É PERDULÁRIA, CLEPTOMANÍACA E SOFRE COM DELÍRIOS DE PERSEGUIÇÃO, O IMPÉRIO DOS PSIQUIATRAS É UM BURACO NEGRO QUE SUGA A LUZ À SUA VOLTA E SOLTA DIAGNÓSTICOS, A LUZ ESTÁ DOENTE, O CÉU É UM INSULTO, TODO DIAGNÓSTICO É UM INSULTO, SE VOCÊ NÃO ENTENDE A ALEGRIA DA BOSSA NOVA, EU PODERIA DIZER EU SOU NAPOLEÃO BONAPARTE, TENHO UM COMPLEXO DE MAX WEBER, EU É UM MONOSSÍLABO, EU SOMOS UM ANIMAL GREGÁRIO COMO AS RATAZANAS QUE DEVORAM OS INIMIGOS RECONHECIDOS PELO CHEIRO ALHEIO, EU SOU UM ANFÍBIO DE MONDRAGON, EU FINALMENTE É UMA DOENÇA INCURÁVEL.

1/12/2010

Os sapos do Manicomio de Mondragon (poema de Leopoldo M Panero)

1.
Ausentes de um plano, os sapos
existem sem objeto.
O sol quente da manhã os envolve,
o vento os acaricia suavemente.
Como a vida da árvore
ou do vento,
assim é a vida do sapo
sem objeto.

2.
Não procure olhos no sapo,
não os tem.
Não procure orelhas
que não tem.
Pra que serve a boca
não sabe.

3.
Um sapo é um círculo, um sol virado pra dentro.
Caminha como os bois – lento como o tempo.
Não há céu que não se vire
de costas quando ele volta
para cima o seu olhar.

4.
Os sapos do Norte
vêm buscar os do Sul.
Encontram o mesmo rosto
e a mesma baba azul.


5.
Não falam dos sapos os homens
que vivem na cidade.
Refugiam-se em suas casas
quando os ouvem passar.

6.
Como um gerânio apodrece
os sapos vivem suas vidas.
Escutam passar as moscas
espantam-nas quando podem.
Como aos corvos a noite
Lhes é sempre favorável.

7.
Têm medo de crianças
e aves, os sapos.
Uma cor pode matá-los
acostumados ao negro.

8.
Surge a aurora no céu,
o sol se esconde atrás dos montes.
Como o passo do sapo
pelos bosques.

9.
Os sapos e as cobras
levantam a pedra e saem
quando o dia escurece
e chove fogo do céu.

10.
São irmãos dos abutres,
assemelham-se a corvos,
conversam com serpentes,
e emudecem
diante de um pássaro preto.

11.
Não têm fé no futuro
os sapos como as aves.
Caminham sobre túmulos
deixando neles suas babas.

12.
Em dias de lua cheia
o sapo se esconde nos bosques.
Quando amanhece, a aurora
o persegue pelos montes.

13.
O jasmim invade os campos
enquanto o sapo se arrasta
com uma espinha no flanco.

14.
Os sapos não têm nome
Quando morrem no monte.

1/04/2010

Em Salvador com Leopoldo Maria Panero



A luz filtrada pelas nuvens é ainda mais avessa aos olhos – a criança grita como se a certidão de nascimento estivesse em jogo e as nuvens fossem a porra de seu pai – édipo destronado – jesus vai se enforcar com a corda de um violão – os pescadores esculpiram a sereia com dendê, fezes e esperma – o segredo da espuma – o mar verde cor de detergente – crianças brincam na espuma, bolhas de sabão, porra e limpol, para os pais apenas o choque natural entre sal e água – o mar da história é felicidade de espuma – o medo é ar parado, pesado de salitre, verde onde os escravos nunca estiveram – são francisco come os pássaros e mergulha no ouro – onde os escravos nunca estiveram, como a espuma da história, a lenda germina e cria um vazio de lodo, um colchão de ar que sustenta o comércio – os paralelepípedos são de sangue coagulado – o coração vivo do oligarca dorme na estátua erigida com esperma de seus descendentes, eles se espalharam pelo estado e são donos de pousadas, contrabandistas, escroques e estupram Mnemosine – Mnemosine é uma cachorra, uma puta que proclama lições de moral em frente ao mar.

12/24/2009

Poema de Natal

A noite e o silêncio já penetraram no lar
O vazio reina solitário entre lisos e estriadas noites
Angústias coloridas

È natal
Ainda antes de dormir
A embriaguez passou
É muito ruim dormir lúcido e solitário no natal

A morte materna se aproxima
Uma ópera, uma ostra e um sonho podem me tranqüilizar?
Eu quero?
Tento ler: nada!

Só me resta, novamente, tentar poetar
No meu caso a escrita é sempre um dor nômade de parcos resultados
Mas continuo
É um exorcismo onde algumas palavras se salvam!

Ser-para-a-morte e ser-para-a-vida
(Escuto gritos na rua: alguns embriagados)
Deixar luminosa a lua fortuna?
Me valeu um ou dois sorrisos e carinhos das crianças que vi!

Queria estar alegre!
Não estou triste
Mas, a melancolia me chamou para deitar

Também queria morrer aprendendo
A tocar uma ária.

"Natal sem Cristo", com Samuel Rawet*

Um dos temas que marcam a literatura de Rawet é o da condição do judeu. O que faz com que sua obra seja uma instigante intersecção entre biografia e história contemporânea. Corretamente ou não, o holocausto (que os estudiosos hoje preferem chamar de Shoah, devido à carga de martírio santo embutida na outra palavra) é considerado o marco por excelência da barbárie do século XX. Por outro lado, o assunto do anti-semitismo no Brasil é menos comentado. Afinal, o único país do mundo totalmente livre de preconceitos, de violência, formado por um povo totalmente pacífico não poderia trazer o grande estigma da perseguição aos judeus... Porém, a mitologia nacional não é confirmada pela história. Sobretudo nos anos 1930, houve no Brasil um intenso controle policial sobre a presença de estrangeiros – vistos como potencialmente perigosos para a segurança nacional. Sobre a questão dos judeus, veja-se por exemplo o que disse um dos grandes formuladores da teoria da democracia racial, Gilberto Freyre:

“Técnicos da usura, tais se tornaram em quase toda parte por um processo de especialização quase biológica, que lhes parece ter aguçado o perfil no de ave de rapina, a mímica em constantes gestos de aquisição e posse, as mãos em garras incapazes de semear e de criar.”

De acordo com os testemunhos de Rawet, sua relação pessoal com a condição judia não era tranqüila. Se ele herdara as marcas do estigma e não tinha como se livrar delas, por outro lado, Rawet não se dava bem com a vitimização da comunidade judaica. Para o escritor, o sacrifício não era prova de santidade, muito menos de predestinação de povo escolhido. Em suas próprias palavras:

“Meu maior conflito, e não sei se isso me enriquece ou empobrece, é pessoal e ligado à minha condição de judeu, ou de ex-judeu, que mandou o judaísmo e a ambiência judaica às favas. De repente percebi que estava sendo vítima de minha própria chantagem afetiva: o judeu, a eterna vítima das perseguições injustas, o mártir do nazismo alemão, o horror dos campos de concentração, etc..., etc....”

A partir da tensão entre sua identidade, sua história pessoal e familiar de imigrante polonês perdido no Brasil e depois em Brasília, e o desejo de se libertar tanto do estigma quanto da aura de vítima, Rawet escreveu uma série de contos. Um dos mais ricos é “Natal sem Cristo”, publicado em Diálogo, no ano de 1963. É a história de uma ceia de natal, promovida por uma família brasileira. A história é contada na perspectiva de um judeu presente à comemoração, Nehemias Goldemnberg.
Nehemias queria apagar os seus laços com a tradição, procurando o esquecimento absoluto. Seu desejo de libertação residia na esperança da perda da identidade. Desejo travado em primeiro lugar pela falta de controle sobre seu próprio mundo interior, que trazia o peso dos pesadelos conhecidos como História. Mas o drama de Nehemias não era apenas íntimo, psicológico. Ele era marcado pela presença dos outros, vivos e mortos. Outros que durante a ceia de Natal elegeram a questão judaica como tema de conversa.
A discussão se passaria diante de um Nehemias calado, “diante do Cristo eternizado no espasmo da última dor terrena.” Um dos presentes, Luís, um político iniciante, elogiava a simpatia e o senso político aguçado dos judeus, citando enfaticamente nomes como os de Disraeli, Rotschild e Marx. Albino, importador e representante de empresas norte-americanas, elogiava-lhes a argúcia financeira. A situação era insuportável para Nehemias. Nada mais incontornável do que o preconceito escondido nos elogios, que reafirmavam sua condição de pessoa excepcional.
Porém, num dado momento, os elogios foram interrompidos pela ingênua Lenita, com a seguinte pergunta: “-Mas não foram os judeus que mataram Cristo, papai?”. Somente a partir daí os participantes da ceia começaram a notar o incômodo da presença de Nehemias, tentando desfazer o nó criado pela ingenuidade da criança. Num momento tragicômico, Malu diria a Nehemias que ele nem sequer parecia um judeu, uma vez que estava comendo leitão.
Nehemias se tornou ainda mais introspectivo, fixando seu olhar no Cristo crucificado. Eternamente em agonia, Jesus era a representação de uma vítima que se apresentava para a humanidade como bode expiatório. Não o Messias, mas a vítima de um equívoco, uma pessoa comum santificada pela brutalidade alheia. Equívoco que aproximava Cristo e o judeu, na corrente da memória celebrada naquela noite de natal. Os dois eram ornamentações cruéis para o cotidiano banal. Escolhidos aleatoriamente para figurarem como faces extremas das agressões corriqueiras, banais e irrelevantes de uma família qualquer.


Pós-escrito: Se posso ter a ousadia de chamar alguma coisa de obra-prima, reservo o termo para outro conto de Rawet, “O terreno de uma polegada quadrada”. A última frase do conto diz que Deus está no futuro. Não penso nisso como a promessa de um Apocalipse, mas sim como a possibilidade de despertarmos do pesadelo, no dia em que nos tornaremos finalmente seres sem-identidade, em que a máquina de violência que criamos será interrompida.

12/21/2009

Elegia ao CPF defunto

Pra onde vão
os CPFs dos mortos?

Números cheios de júbilo
ou vergonha,
às vezes rodas metálicas dentadas,
ou orgânicos e doloridos dentes finos e afiados
de quando em quando números mordidos, dilacerados
em praça pública, agora
calados – eles que foram como retratos
abstratos de nossos dorians grays interiores,
eles que gozaram e nunca souberam
o motivo do gozo, eles que brincaram
como bichinhos de estimação ao teu redor, eles que franquearam
o acesso a todo tipo de comida e embriaguez,
eles que se exibiram na tua indignidade
diante de todos, na loja de filtros, na cia
telefônica, no self service – carapuças
tão ajustadas ao nosso ego quanto o elmo
de dom quixote, logins para o id, do id –
o login da sua identidade, e estes números
não, estes números têm cu
e podem cagar sobre o meu nome
como perversas consciências morais.

Pra onde vão estes números ;
a seqüência singular e sua aura–
pode a distância entre duas estrelas e a terra
ser a mesma, pode se repetir
a combinação de um sorteio lotérico,
mas o CPF não, ele é tão exclusivo quanto você
e seu cadáver e seus algarismos,
onde vão parar estes não mortos,
exatamente, mas indisponíveis
números melancólicos, esquecidos
ou, pior, transplantados por vis falsários
que recorrem às imunidades dos zumbis
até se tornarem alvo fácil e rotineiro das perseguições
policiais e das risadas de um William Bonner qualquer.

E aquela combinação
única, aquele encaixe perfeito
e memorizável de uns e oitos e cincos não tem mais uso
e o mais absurdo: não morre na mesma hora que o morto
vai mais tarde, depois das últimas transferências
nas derradeiras seqüelas das heranças
nos últimos giros bancários, nos registros
que pulam, rodam, tremem no pós-morte como corpos de galinhas
recém-decepadas.

Sim, onde irão parar
O meu e o teu CPF quando tua e minha alma
Nada forem além de carniças? Em meus sonhos
vejo a vida secreta do guardião
amoroso dos números perdidos
por excesso de delicadeza, sua pele
tem um tom esverdeado, seus olhos são sensíveis
à luz, ele habita o arquivo morto, tem uma relação
erótica com as manivelas que movimentam
as estantes, sabe onde estão os velhos
enfeites de natal e nos feriados os usa no pescoço
como colares havaianos, domina os registros de compra
de umidificadores pra residência do senhor ministro,
e, claro, lembra de cor e salteado
onde jazem, inertes, os CPFs dos falecidos
indivíduos,
porque a Ordem
repudia dois raios que caem no mesmo lugar
defenestra irmãos siameses
impõe aos números uma vida limitada
mortal e antinatural, tal como
a de seus proprietários, a Ordem, meus senhores,
exige o tempo irreversível.

12/17/2009

(caim matou abel)















o princípio do sexo
é o mesmo
do princípio da morte

o único prazer
possível
é espiritual

quando escutamos
uma canção
do led zeppelin


(Ilha, 05 Dez 2009, 00:32)

Tudo o que se repete

Tudo o que se repete
se perde.

Um sorriso repentino
guardado nos olhos
é como a sombra do não-acontecido
como se as pálpebras fossem pétalas
guardando um gesto delicado
contra a mesma a mesma e a mesma
cidade petrificada em branco.

Sol e chuva compõem um clima de sonho,
em que um anjo daria coca-cola a um escravo
ou vice-versa, em play e replay,
como se existissem anjos na rede
e eles habitassem em silêncio
o vazio de um espelho (onde o tempo
não passa, não se paralisa, não parte):

um detalhe a mais ou a menos não permitiria
que a imagem abstraísse o desejo
e se encontrasse plena de si e de pedra.
Tudo o que se repete se perde:

Voltar a um gesto que passa
E se apaga é como partir
Ao mesmo sonho, ao mesmo lugar vazio
Que nunca se repete porque é sempre
O primeiro, mais uma vez esquecido.

12/10/2009

Um novo busto pra entrar pra história

1.
De sangue e madeira,
Sangue coletado na resina
Da árvore sem folhas
Onde se amarravam corpos
Vivos quase mortos.

2.
A síndrome, o desmaio
A convulsão iminente,
Nosferatu te flagra
Na hora do jantar, a coleção
De ratos empilhados ao ritmo
Do bate-estaca,
Os olhos de Ozymandias
Ao molho pardo.

3.
Como cravar dentes na jugular
De um leviatã?

4.
JK reencarna Akhenaton
Encarna o disk-joquei holográfico
No pequeno fascismo requentado
Servido num self-service
Desenhado por Oscar Niemeyer.

5.
No cerrado, as baratas
Também doam sangue.

6.
Costa e Silva assinou
O AI-5, assinatura-mãe no
Tempo dos assassinos teria
Usado a mesma caneta-tinteiro
Do ato inaugural
De um Unindentified Flying Object, cu-
jo condutor não é nenhuma
Isabelle Adjani.

7.
Tinta de resina
De velhas feridas,
Bálsamo coagulado, sangue
Azul, de barata arrotando
URP!

12/02/2009

Heráldica do Covil das Figuras Insignes

O pequeno godzilla do bambuzal sorri, o olhar
Tristonho de gerente de bingo abduzido, sobre uma pilha

De livros que de fato são crachás porque os títulos

Das lombadas são marcos:

Coordenador do Rondó das Armadilhas
Condutor das Vítimas do Destempero
Mestre Sala das Siglas
Auditor Oficial dos Signos Alheios


Um traçado sinuoso nos livros sujos designa a escalada
Do pequeno godzilla.

Sua pança estufada, arrotos e peidos contendo verbos que são verbas prestes a explodir. O pequeno godzilla vai vomitar tanto que vai virar do avesso, vomitando-se a si mesmo, expelindo signos ao alto como se uma biblioteca sofresse um atentado terrorista. Ouve-se um grito partindo do emblema, mas não como no famoso quadro, é o grito de alguém que foi ao cabeleireiro e ficou insatisfeito com o resultado, é o grito implícito no sorriso que sublinha os argumentos de autoridade, é o grito de indignação perante um big mac sem picles, é o grito agudo de uma professora de química meio desequilibrada devido aos abusos da tabela periódica.