Quando você é vulgar: apenas negocia convenções, não domina os segredos, qualquer um pode dizer que árvore é o nome de uma cidade, que cidade é o nome de uma arma, que arma é um sentimento, que sentimento é o nome de um faraó. A língua epistolar é a conversa vulgar no desentendimento, mesmo que este ocasione encontros repentinos e imprevistos. É quando uma criança autista diz pra você: se o mundo gira, porque você não fica tonto?
11/03/2008
Um cão agoniza na rua, em frente à janela da sala coletiva da unversidade onde uso o computador. Até me esqueço da tagarelice em pequenos chiados que me cercam aqui, em meio a esta estética decadente de computadores velhos como vestígios arqueológicos precoces, usados por muitas mãos. Porque o cão tem os olhos amarelos, a língua esbranquiçada e a respiração funda de quem morre lentamente. Dolorosamente. Sua pele lacerada deve estar cheia de carrapatos, eles têm o dorso tatuado com listras negras que formam pequenos roteiros geográficos, pontilhados de flores amarelas. A pele do cão está grudada no asfalto. Sei que nas poucas vezes em que ele tentou se movimentar, o asfalto arrancou um bom pedaço de couro, e mais uma ferida se abriu na pele do cão. Eu sinto a dor deste cão porque seus nervos se misturaram aos nervos do asfalto e o asfalto está ligado a mim por meio dos raios de calor constantemente jogados na minha cabeça. Eu sinto a dor deste cão e por alguns momentos sinto que sou este cão. Da mesma forma que o asfalto, o sol também brinca de arrancar a dor da minha pele. Também vivo lentamente, ou morro lentamente o que dá no mesmo.
11/01/2008
nº 91

Lugar nenhum. “Se as palavras tocassem
o real (servido sempre
em postas”, ele disse, “às vezes
quente como os hormônios turbilhonando
pelas veias) só me achariam
nas entrelinhas, fora
de tudo, ou
nem aí, deslocado
qualquer sentido que se deposita
sobre as coisas”. Foi quando,
abraçado aos fatos, você formulava
outra religião com os estilhaços que lhe vinham
olhos adentro, cravados um a um
na carne da alma, carne
de um nome, palavra, se isso for
a alma – desprezando
as distorções da imaginação até devastar
todas as cenas, até
não sobrar outra escolha a não ser o deserto
para erigir o templo, num
prolongado silêncio entre
as miragens.
o real (servido sempre
em postas”, ele disse, “às vezes
quente como os hormônios turbilhonando
pelas veias) só me achariam
nas entrelinhas, fora
de tudo, ou
nem aí, deslocado
qualquer sentido que se deposita
sobre as coisas”. Foi quando,
abraçado aos fatos, você formulava
outra religião com os estilhaços que lhe vinham
olhos adentro, cravados um a um
na carne da alma, carne
de um nome, palavra, se isso for
a alma – desprezando
as distorções da imaginação até devastar
todas as cenas, até
não sobrar outra escolha a não ser o deserto
para erigir o templo, num
prolongado silêncio entre
as miragens.
(das "Notas Marginais")
10/30/2008
lugar

AQUI,
margem de tudo
trono apodrecido de juncos
absurdo de águas
não posso escrever limpidamente
pois meu pensamento
é uma mistura
de mar, ressaca e lodo
meio deitado
ou de joelhos
na areia, presumo
azuis roxos e lábios
ave em esgar,
um ramalhete de peixes.
sem emprego
sem nome
sem espada
nem guerreiros para comandar
sem escudo
sem estupro
nenhum olho de rei
para comer.
Ilha, 29 Out. 2008.
10/27/2008
Coisa à toa
Mastigando perdas
Como se fossem pedras
Dentadas, lâminas polidas
Em cristalina
Água de esgoto, ou
Entre peixe e refração,
Anzol banzo
Quando estou onde estive
E não sou, &, enfim
Aquário de canibais
Ornamentais
É a cidade submersa
Em pensamentos alheios,
Cheia de si, e daí
Saio de mim.
Caio na real. E daí.
A cidade está fora de si.
Como se fossem pedras
Dentadas, lâminas polidas
Em cristalina
Água de esgoto, ou
Entre peixe e refração,
Anzol banzo
Quando estou onde estive
E não sou, &, enfim
Aquário de canibais
Ornamentais
É a cidade submersa
Em pensamentos alheios,
Cheia de si, e daí
Saio de mim.
Caio na real. E daí.
A cidade está fora de si.
10/25/2008
nº 89

Recriar o mundo à sua imagem, delírio,
câmara escura, tempestades
de sinapses, a 140 pelo asfalto ou
entre os espelhos do paraíso, o chão
do seu pensamento batido
como uma lua (superfícies
geladas) por detritos
em dispersão, no vazio
das coisas, quando não há
saída ou passaporte neste exílio
de desertos, via expressa sem
acostamento.
câmara escura, tempestades
de sinapses, a 140 pelo asfalto ou
entre os espelhos do paraíso, o chão
do seu pensamento batido
como uma lua (superfícies
geladas) por detritos
em dispersão, no vazio
das coisas, quando não há
saída ou passaporte neste exílio
de desertos, via expressa sem
acostamento.
(das "Notas Marginais")
10/24/2008
O criador de galinhas (mais sobre cidades)
Este aqui já tem uns anos. É sobre a cidade de Franca
+ leitura das cartas do Maquiavel.
1.
O dia esmigalha a noite
a noite retalha o dia
num vapor perfuro-cortante
insones olhos de areia,
lunaquáticos sob a névoa,
saindo pra dentro do lado de cá,
enquanto o criador de galinhas
parece vergar sob o peso da mala
como se mãos saídas de alguma caverna
algum poço de escuridão e palavras
e notas de rodapé e citações entretecidas
puxassem a mala ao chão,
como se a sombra, o pó e o nada
que preenchiam a mala
quisessem morrer, numa espiral
sangrar por ali mesmo
sobre o asfalto ou o chão com cheiro de flores químicas:
“papel sobre papel pesa mais do que pedra
mais do que chumbo
e não é por causa das palavras, que são etéreas,
mesmo as mais piegas,
é a matéria-prima vegetal,
sua capacidade de se espalhar no espaço,
de tomar tudo de assalto;
não é o saber que torna grave
o coração do pensador
é a brutal gravidade das coisas:
não são sem sentido os pesadelos de velhos bibliotecários
morrendo soterrados em livros
que despencaram das estantes”
matuta aquele que bem gostaria
de ser um mero criador de galinhas
enquanto conversa com o porteiro do hotel,
conversas simples e bucólicas
sobre um filho viciado, outro advogado,
a família de médicos e dentistas:
“Que a morte caia sobre todas as múmias egípcias!
E a professora maldita que me fez decorar
a lista dos malditos presidentes desta Merdepública!”
Como é bom falar com o povo simples,
saído das neo-pastorais policialescas puritano-paulistas,
embora este,
diz pra si mesmo o criador de galinhas,
não passe do figurante de cocheiro no Banquete dos Canalhocratas.
2.
Uma mula
Mais a mala
Uma roupa de veludo
E uma faca catalã
Um sobretudo
Mas sobretudo um porém,
esta cidade detona o meu desejo:
em cada esquina um príncipe maquiavélico
de cabelo nem preto nem branco, mas cinza turvo,
com pulgas passeando sobre a calvície evidente,
e no meio da testa uma cicatriz vermelha,
(marca visível dos proscritos enforcados nos postes públicos)
os olhos úmidos, de tamanhos diferentes,
o nariz protuberante, cheio de muco,
a boca torta como a de um tirano qualquer,
Um Lorenzo de Garrastazu Medici Vargas da Silva Bush,
de queixo pontudo e curvo,
acusando-me da conspiração
de que sou vítima
entregando-me a brutal carcereiro
intitulado macunaíma.
- Bom mesmo era criar galinhas...
Suspiro com saudade ao porteiro do hotel.
Mas de noite, fechado em meu quarto sujo,
quando abro minha mala
ela ganha a leveza de pássaros brancos
folhas de papel ao vento
munidas de telescópios pra imaginação,
cheias de vozes de antigos incendiários mortos,
pássaros conspiradores, sabotadores, bêbados,
exilados,
malditos como um príncipe esquecido num pedaço de papel.
+ leitura das cartas do Maquiavel.
1.
O dia esmigalha a noite
a noite retalha o dia
num vapor perfuro-cortante
insones olhos de areia,
lunaquáticos sob a névoa,
saindo pra dentro do lado de cá,
enquanto o criador de galinhas
parece vergar sob o peso da mala
como se mãos saídas de alguma caverna
algum poço de escuridão e palavras
e notas de rodapé e citações entretecidas
puxassem a mala ao chão,
como se a sombra, o pó e o nada
que preenchiam a mala
quisessem morrer, numa espiral
sangrar por ali mesmo
sobre o asfalto ou o chão com cheiro de flores químicas:
“papel sobre papel pesa mais do que pedra
mais do que chumbo
e não é por causa das palavras, que são etéreas,
mesmo as mais piegas,
é a matéria-prima vegetal,
sua capacidade de se espalhar no espaço,
de tomar tudo de assalto;
não é o saber que torna grave
o coração do pensador
é a brutal gravidade das coisas:
não são sem sentido os pesadelos de velhos bibliotecários
morrendo soterrados em livros
que despencaram das estantes”
matuta aquele que bem gostaria
de ser um mero criador de galinhas
enquanto conversa com o porteiro do hotel,
conversas simples e bucólicas
sobre um filho viciado, outro advogado,
a família de médicos e dentistas:
“Que a morte caia sobre todas as múmias egípcias!
E a professora maldita que me fez decorar
a lista dos malditos presidentes desta Merdepública!”
Como é bom falar com o povo simples,
saído das neo-pastorais policialescas puritano-paulistas,
embora este,
diz pra si mesmo o criador de galinhas,
não passe do figurante de cocheiro no Banquete dos Canalhocratas.
2.
Uma mula
Mais a mala
Uma roupa de veludo
E uma faca catalã
Um sobretudo
Mas sobretudo um porém,
esta cidade detona o meu desejo:
em cada esquina um príncipe maquiavélico
de cabelo nem preto nem branco, mas cinza turvo,
com pulgas passeando sobre a calvície evidente,
e no meio da testa uma cicatriz vermelha,
(marca visível dos proscritos enforcados nos postes públicos)
os olhos úmidos, de tamanhos diferentes,
o nariz protuberante, cheio de muco,
a boca torta como a de um tirano qualquer,
Um Lorenzo de Garrastazu Medici Vargas da Silva Bush,
de queixo pontudo e curvo,
acusando-me da conspiração
de que sou vítima
entregando-me a brutal carcereiro
intitulado macunaíma.
- Bom mesmo era criar galinhas...
Suspiro com saudade ao porteiro do hotel.
Mas de noite, fechado em meu quarto sujo,
quando abro minha mala
ela ganha a leveza de pássaros brancos
folhas de papel ao vento
munidas de telescópios pra imaginação,
cheias de vozes de antigos incendiários mortos,
pássaros conspiradores, sabotadores, bêbados,
exilados,
malditos como um príncipe esquecido num pedaço de papel.
10/22/2008
nº 88

Toda cidade tem os abismos que você necessita, olhos
errantes, bocas, labirintos, mapas de engano, cada vez
mais fundo, abandonadas
pra sempre todas as ilusões de quem vê
metafísica na pedra – paredes
não são coisa do espírito, cara, são
carne sem hormônios, mero cenário, fundo
disperso, e no palco a cena é do sangue que pulsa e invade
os tecidos, sem direção, aleatório como os cardumes,
como as moscas.
errantes, bocas, labirintos, mapas de engano, cada vez
mais fundo, abandonadas
pra sempre todas as ilusões de quem vê
metafísica na pedra – paredes
não são coisa do espírito, cara, são
carne sem hormônios, mero cenário, fundo
disperso, e no palco a cena é do sangue que pulsa e invade
os tecidos, sem direção, aleatório como os cardumes,
como as moscas.
10/19/2008
2 anos
Pessoal, salvo engano fazemos dois anos de blog este mês. Masé reaparecendo com um poema dos bons, Anderson e Eliana meio longe (tudo bem com vcs?), Löis desaparecido. Daniel e eu teimosos como nunca.
No entanto acho que vou comemorar, dois anos são dois anos. E estamos indo para a marca de 15000 acessos, a maioria dos quais de nós mesmos, fora os nossos 2,5 inusitados leitores espalhados pela blogosfera - eram 3,5, mas um parece que, caindo em si, desistiu....Estes sim -os 2,5- merecem um troféu.....
Proponho que eles se cadastrem (se é que se revelarem leitores desta espelunca não vai lhe queimar irremediavelmente o próprio filme...), para que enviemos mensalmente para seus endereços uma mariola especial, daquelas de tacho, sem açúcar grudadinho por cima. Pensei também num picolé "Dragão Chinês", mas chegaria derretido...
abraços/beijos a todos os epistolares e leitores.
nº 21
10/18/2008
Relatório de mais um colóquio (ou, Porque trabalhar como caixa bancário deve ser mais gratificante)
“Começando pelos verbos: atravessar, repensar, instigar, inserido e focar.”
“é legal que o Vesúvio tenha inserido suas lavas em Pompéia, porque agora temos um sítio arqueológico intacto e instigante”
“a lava preservou o salão das pinturas eróticas”
“mas focou a pica do prefeito de Pompéia, pão e circo de auditório cultural”
“e se o Vesúvio tivesse estourado sobre Uberlândia, repensaríamos os vestígios que restariam, por exemplo a lista telefônica (o instigante mapeamento da cidade)
AÇOUGUES/ACRÍLICO AÇÚCAR/ADVOGADOS
ADVOGADOS/ALARMES AR/AREIA BISCOITOS/BLOQUEADORES BOMBAS/BOUTIQUES CABELEIREIROS/CAÇA
CAMINHÕES/CAMISETAS CHURRASQUEIRAS/CIRURGIÕES COFRES/COLCHÕES CONTROLE/CÓPIAS CÓPIAS/CORTINAS DEDETIZAÇÃO/DEMOLIÇÕES DESENTUMPIMENTO/DIGITAÇÃO ENTULHO/ENXOVAIS ESCOLAS/ESPUMAS
EVENTOS/FACULDADES FACULDADES/FANTASIAS
FERRO/FESTAS FLORICULTURAS/FOGÕES
FRANGOS/FUNERAIS GUINDASTES/HOSPITAIS
LIMPEZA/LINGERIE MÉDICOS/METAIS
MOTOCICLETAS/MOTOSSERAS NOIVAS/ÓCULOS
PAPELARIAS/PÁRA-CHOQUES PROTÉTICOS/PSICÓLOGOS
SELF/SEX TANQUES/TATUAGENS TERAPIA/TERRAPLANAGEM TURISMO/ULTRASSONOGRAFIA
VIGILÂNCIA/ZÍPERES”
“os cus carbonizados de Pompéia. Mas, como um buraco pode ser carbonizado? Tem aí um problema de método.”
“O cu é uma mistura de carne e veias extremamente sensível, você só focou no buraco. É isso o que aconteceria se o Vesúvio explodisse em Cuberlândia”
“O sonho do hospital próprio”
“Boca inserida na cloaca do caixa eletrônico: finalizando, finalizando, finalizando.”
“E nunca perder o gancho de vista”
“é legal que o Vesúvio tenha inserido suas lavas em Pompéia, porque agora temos um sítio arqueológico intacto e instigante”
“a lava preservou o salão das pinturas eróticas”
“mas focou a pica do prefeito de Pompéia, pão e circo de auditório cultural”
“e se o Vesúvio tivesse estourado sobre Uberlândia, repensaríamos os vestígios que restariam, por exemplo a lista telefônica (o instigante mapeamento da cidade)
AÇOUGUES/ACRÍLICO AÇÚCAR/ADVOGADOS
ADVOGADOS/ALARMES AR/AREIA BISCOITOS/BLOQUEADORES BOMBAS/BOUTIQUES CABELEIREIROS/CAÇA
CAMINHÕES/CAMISETAS CHURRASQUEIRAS/CIRURGIÕES COFRES/COLCHÕES CONTROLE/CÓPIAS CÓPIAS/CORTINAS DEDETIZAÇÃO/DEMOLIÇÕES DESENTUMPIMENTO/DIGITAÇÃO ENTULHO/ENXOVAIS ESCOLAS/ESPUMAS
EVENTOS/FACULDADES FACULDADES/FANTASIAS
FERRO/FESTAS FLORICULTURAS/FOGÕES
FRANGOS/FUNERAIS GUINDASTES/HOSPITAIS
LIMPEZA/LINGERIE MÉDICOS/METAIS
MOTOCICLETAS/MOTOSSERAS NOIVAS/ÓCULOS
PAPELARIAS/PÁRA-CHOQUES PROTÉTICOS/PSICÓLOGOS
SELF/SEX TANQUES/TATUAGENS TERAPIA/TERRAPLANAGEM TURISMO/ULTRASSONOGRAFIA
VIGILÂNCIA/ZÍPERES”
“os cus carbonizados de Pompéia. Mas, como um buraco pode ser carbonizado? Tem aí um problema de método.”
“O cu é uma mistura de carne e veias extremamente sensível, você só focou no buraco. É isso o que aconteceria se o Vesúvio explodisse em Cuberlândia”
“O sonho do hospital próprio”
“Boca inserida na cloaca do caixa eletrônico: finalizando, finalizando, finalizando.”
“E nunca perder o gancho de vista”
10/12/2008
A viagem de Jean-Marie
Rio. Ipanema. Começo de agosto.
Ele chega
de avião.
O esforço da máquina
as rodas raspam o chão
a borracha adere ao asfalto.
Depois o carro atravessa
a cidade engarrafa as minúsculas
os casebres. O túnel
os grandes edifícios em torno
freiam o ar o som dilata
ao longe as montanhas iluminadas invadem
estraçalham a placidez
da lagoa.
Ele carrega o centro em si uma luz branca atravessa seus poros.
Ele ainda não chegou. Carrega sua
lógica intacta. A mala
cada peça de roupa usada guardará por um tempo o suor.
O trabalho com as mãos. O corpo. Perturbado.
E quando ele voltar
os olhos para trás
suas mãos trêmulas
resto de areia sob as unhas.
Quando ele voltar
então não haverá mais nada
entre ele e nós.
Quando ele voltar
a cabeça ainda para trás
O corpo que atravessou as ruas
passou as pernas pela água
salgada.
Quando ele voltar
retomará sua vida regular
seu croissant molhado no café
com leite.
Sua vida regular estará ainda
mais regularizada
a cabeça já estará virada
a origem.
Quando ele voltar
a cabeça ainda um pouco para trás
a enorme foto no metrô
a água azul
a areia branca longe
pelas mãos.
Ele chega
de avião.
O esforço da máquina
as rodas raspam o chão
a borracha adere ao asfalto.
Depois o carro atravessa
a cidade engarrafa as minúsculas
os casebres. O túnel
os grandes edifícios em torno
freiam o ar o som dilata
ao longe as montanhas iluminadas invadem
estraçalham a placidez
da lagoa.
Ele carrega o centro em si uma luz branca atravessa seus poros.
Ele ainda não chegou. Carrega sua
lógica intacta. A mala
cada peça de roupa usada guardará por um tempo o suor.
O trabalho com as mãos. O corpo. Perturbado.
E quando ele voltar
os olhos para trás
suas mãos trêmulas
resto de areia sob as unhas.
Quando ele voltar
então não haverá mais nada
entre ele e nós.
Quando ele voltar
a cabeça ainda para trás
O corpo que atravessou as ruas
passou as pernas pela água
salgada.
Quando ele voltar
retomará sua vida regular
seu croissant molhado no café
com leite.
Sua vida regular estará ainda
mais regularizada
a cabeça já estará virada
a origem.
Quando ele voltar
a cabeça ainda um pouco para trás
a enorme foto no metrô
a água azul
a areia branca longe
pelas mãos.
10/10/2008
pulp poetry
1.
Entre os meus planos mais secretos está o de me tornar assassino serial. Sei que isso não encontra eco nas teses de Freud, segundo as quais todo homem deseja (e precisa, metaforicamente) matar o pai – o meu resolveu aliviar este trabalho para mim: se suicidou, lenta e dolorosamente, como se estivesse coadjuvando um filme B. Anos depois descobri que todos estão, mesmo eu e você.
2.
Numa de minhas vidas paralelas escrevo e publico revistas populares com informações rápidas, banais e desnecessárias. Como quase toda literatura.
3.
No capítulo “Ditados Cretinos” escrevi à mão: “os olhos são as janelas da alma” e “os olhos são o espelho do mundo”. Para o primeiro caso soterrar cuidadosamente cada órbita. Para o segundo, furar os olhos, vazar os olhos, esfacelar os olhos. Como uma recusa.
4.
Furtivamente penetrar esferas privadas – se necessário lamber as partes mais sujas, como quem reconhece algo, pois é aí que se concentra qualquer história.
5.
Já fui também elefante, pantera, ornitorrinco. Agora me dedico às artes da sombra e emulo bichos peçonhentos.
6.
Ela escreve por aforismos, como se fundasse civilizações na bruma. Persigo encantado, sem chance de aproximação.
7.
Foi quando adotei o “Método das Realidades Paralelas”. Não posso dizer que o desenvolvi, não seria exato nem honesto, embora o tenha construído a partir de indícios que recolhi e sem qualquer auxílio exterior – mas esta revelação não possui qualquer relevância, uma vez que aquilo que apreendemos do real é quase sempre distorcido mesmo se nos movermos dentro dele como num plano único. Cada um de nós é um feixe de esforços que atravessa a sua superfície verticalmente, num sítio aleatório, e daí não se pode observar com precisão muito mais do que o entorno circundante e aparente. Como se não bastasse, o real se move: daí que o explodi em planos paralelos que se podem atravessar sucessivamente, não sem esforço. Apesar de fragmentar nossa já limitada percepção a um ponto praticamente insuportável, amplia fantásticamente a visão.
8.
Num plano sou um homem comum, refém do destino. Em outro penso sobre mais esta limitação. Num sou quem domina, noutro sou domado. Ora sou o que se esquiva. Num dos últimos sou “O Cisne”, mas este plano é nublado de modo intermitente pela metafísica.
9. Ainda na série Ditados Cretinos: “As portas da percepção etc...”.
10.
Não há regras aqui, e isso já foi dito.
Entre os meus planos mais secretos está o de me tornar assassino serial. Sei que isso não encontra eco nas teses de Freud, segundo as quais todo homem deseja (e precisa, metaforicamente) matar o pai – o meu resolveu aliviar este trabalho para mim: se suicidou, lenta e dolorosamente, como se estivesse coadjuvando um filme B. Anos depois descobri que todos estão, mesmo eu e você.
2.
Numa de minhas vidas paralelas escrevo e publico revistas populares com informações rápidas, banais e desnecessárias. Como quase toda literatura.
3.
No capítulo “Ditados Cretinos” escrevi à mão: “os olhos são as janelas da alma” e “os olhos são o espelho do mundo”. Para o primeiro caso soterrar cuidadosamente cada órbita. Para o segundo, furar os olhos, vazar os olhos, esfacelar os olhos. Como uma recusa.
4.
Furtivamente penetrar esferas privadas – se necessário lamber as partes mais sujas, como quem reconhece algo, pois é aí que se concentra qualquer história.
5.
Já fui também elefante, pantera, ornitorrinco. Agora me dedico às artes da sombra e emulo bichos peçonhentos.
6.
Ela escreve por aforismos, como se fundasse civilizações na bruma. Persigo encantado, sem chance de aproximação.
7.
Foi quando adotei o “Método das Realidades Paralelas”. Não posso dizer que o desenvolvi, não seria exato nem honesto, embora o tenha construído a partir de indícios que recolhi e sem qualquer auxílio exterior – mas esta revelação não possui qualquer relevância, uma vez que aquilo que apreendemos do real é quase sempre distorcido mesmo se nos movermos dentro dele como num plano único. Cada um de nós é um feixe de esforços que atravessa a sua superfície verticalmente, num sítio aleatório, e daí não se pode observar com precisão muito mais do que o entorno circundante e aparente. Como se não bastasse, o real se move: daí que o explodi em planos paralelos que se podem atravessar sucessivamente, não sem esforço. Apesar de fragmentar nossa já limitada percepção a um ponto praticamente insuportável, amplia fantásticamente a visão.
8.
Num plano sou um homem comum, refém do destino. Em outro penso sobre mais esta limitação. Num sou quem domina, noutro sou domado. Ora sou o que se esquiva. Num dos últimos sou “O Cisne”, mas este plano é nublado de modo intermitente pela metafísica.
9. Ainda na série Ditados Cretinos: “As portas da percepção etc...”.
10.
Não há regras aqui, e isso já foi dito.
10/09/2008
nº 9
Isso não vai durar-
foi uma (cena) roubada, eu sei.
“Você não vai chegar a nada, nada”, disse um anjo que caiu
e não se recobrou do estrago.
Retirando (o passado) do gancho: “isto não vai doer” diz
outro anjo entre sorrisos,
e o silêncio agora vicia (e incomoda) tanto
quanto aquele frio
na espinha do amor que nunca se rende.
O ocaso, esse não: ele apenas emerge das cinzas, um navio
aponta no horizonte ('menos se espera'), um espocar de auroras
entre um gozo e outro tatuado no reboco.
O amor gravura um claro-escuro nos intervalos rasos do que não vai ser dito.
(das "Notas Marginais")
foi uma (cena) roubada, eu sei.
“Você não vai chegar a nada, nada”, disse um anjo que caiu
e não se recobrou do estrago.
Retirando (o passado) do gancho: “isto não vai doer” diz
outro anjo entre sorrisos,
e o silêncio agora vicia (e incomoda) tanto
quanto aquele frio
na espinha do amor que nunca se rende.
O ocaso, esse não: ele apenas emerge das cinzas, um navio
aponta no horizonte ('menos se espera'), um espocar de auroras
entre um gozo e outro tatuado no reboco.
O amor gravura um claro-escuro nos intervalos rasos do que não vai ser dito.
(das "Notas Marginais")
10/06/2008
Pobre lobo
Vou por em link, pra não ocupar muito espaço no blog. Não que seja longa, pelo contrário, é uma fábula curta, mas mesmo assim achei melhor.
O autor é Mikhail Saltykov-Schredrin. Cheguei a ele porque num dos raros textos lúcidos sobre o Graciliano Ramos, o Otto Maria Carpeaux disse que o Graciliano escrevia como um fabulista russo do século XIX.
Já pensei que a fábula poderia ter a ver com o estresse do senhor mercado. Mas é claro que vai muito além disso, é sobre a condição humana. Então também é sobre o estresse do senhor mercado.
Lê aí, Aldemar, leiam queridos sumidos epistolares: Pobre lobo.
(Traduzi do inglês, não do russo. Ou seja: é a tradução amadora da tradução da tradução. Ainda assim acho que vale a pena).
O autor é Mikhail Saltykov-Schredrin. Cheguei a ele porque num dos raros textos lúcidos sobre o Graciliano Ramos, o Otto Maria Carpeaux disse que o Graciliano escrevia como um fabulista russo do século XIX.
Já pensei que a fábula poderia ter a ver com o estresse do senhor mercado. Mas é claro que vai muito além disso, é sobre a condição humana. Então também é sobre o estresse do senhor mercado.
Lê aí, Aldemar, leiam queridos sumidos epistolares: Pobre lobo.
(Traduzi do inglês, não do russo. Ou seja: é a tradução amadora da tradução da tradução. Ainda assim acho que vale a pena).
10/02/2008
N. 87

A cidade é de carne
Seu sangue é lodo, tubulações
Subterrâneas onde circula
O rio canalizado
(Assassinado), o rio onde nada
Meu avô, que morreu delirando
Com pescarias.
Seu sangue é lodo, tubulações
Subterrâneas onde circula
O rio canalizado
(Assassinado), o rio onde nada
Meu avô, que morreu delirando
Com pescarias.
A cidade é a terra
Das minhas pernas
Crivadas de raízes e pequenas plantas
Que arranco, pacientemente.
Se tento fugir
Da cidade é em mim
Que encontro refúgio, e se completo
Minha saída do labirinto
De carne e lodo e musgo que sou
Eu me encontro novamente
Na cidade.
Sou um emaranhado
Infértil
De lodo urbano, mas
Infértil
De lodo urbano, mas
Que minha carne seja salva
Junto com a carne da cidade
Que me habita, que eu seja
Condenado como um verme
Roendo sua carniça, qualquer coisa
Menos a ilusão de um nome próprio.
Junto com a carne da cidade
Que me habita, que eu seja
Condenado como um verme
Roendo sua carniça, qualquer coisa
Menos a ilusão de um nome próprio.
E só
Mais um detalhe:
Traços negros, linhas negras amarrando
Um pedaço de carne, da carne
Da minha carne não é uma imagem
É um pesadelo, dolorosamente
Real.
Mais um detalhe:
Traços negros, linhas negras amarrando
Um pedaço de carne, da carne
Da minha carne não é uma imagem
É um pesadelo, dolorosamente
Real.
9/30/2008
nº 86

Cidades são reais, o pensamento
não se sabe, cidades são
reais, meu chapa, sejam fossas
geladas ou panelas de pressão, chapa quente,
tanto faz, ruas emaranhadas ou largas
avenidas, são labirintos (“algumas toneladas
de pedras ao alto”, ele disse)
porque espelham o que se forma
por dentro por precipitação (aqui você
repete o delírio recorrente
de encontrar explicação
onde não existe, de arremessar fora de si
a paisagem da imaginação – não, estas
paredes que o pensamento ergueu
por dentro são outra
formulação alucinada
do seu desespero, o mesmo
que arriscou metamorfoses, uma
atrás da outra, até
desembocar no espanto de ser
outra vez não mais que o mesmo
do princípio).
(das "Notas Marginais")
9/29/2008
N. 85. Ou, o sonho de Gregor
1
Anuncio ao interfone uma carta
Num envelope tão branco,
Quase translúcido.
Na carta, ainda que num texto
Repleto de linhas negras
De um plástico indecifrado
Ofereço o seio canceroso
De minha mãe:
A ser levado num tupperware,
A qualquer funcionário dedicado
E indiferente.
Ou quem sabe
Ofereço trechos da minha carne
Ao grande açougue
Dos robôs sanguíneos –
Tanto faz, afinal
Qualquer carne é branco-rosa
E repulsiva,
Como a dos peixes
Quase podres entre as pedras
De gelo.
O envelope, contudo,
É quase translúcido
E tem que passar pelas mãos
De Oito-Olhos (desta vez
Convertido numa velha de cabelos vermelhos,
Responsável pela comodidade
Do condomínio).
2
Oito-Olhos interrompe o laborioso serviço de faxinar o asfalto com torrentes de água, aperta a vista como o senhor de sua atenção que ele é, tenta desembaraçar o conteúdo, as linhas negras que amarram a carne da carta.
Oito-Olhos sorri com indisfarçável alegria:
Ali,
Onde não sou digno
De confiança
É onde sou fraco.
Anuncio ao interfone uma carta
Num envelope tão branco,
Quase translúcido.
Na carta, ainda que num texto
Repleto de linhas negras
De um plástico indecifrado
Ofereço o seio canceroso
De minha mãe:
A ser levado num tupperware,
A qualquer funcionário dedicado
E indiferente.
Ou quem sabe
Ofereço trechos da minha carne
Ao grande açougue
Dos robôs sanguíneos –
Tanto faz, afinal
Qualquer carne é branco-rosa
E repulsiva,
Como a dos peixes
Quase podres entre as pedras
De gelo.
O envelope, contudo,
É quase translúcido
E tem que passar pelas mãos
De Oito-Olhos (desta vez
Convertido numa velha de cabelos vermelhos,
Responsável pela comodidade
Do condomínio).
2
Oito-Olhos interrompe o laborioso serviço de faxinar o asfalto com torrentes de água, aperta a vista como o senhor de sua atenção que ele é, tenta desembaraçar o conteúdo, as linhas negras que amarram a carne da carta.
Oito-Olhos sorri com indisfarçável alegria:
Ali,
Onde não sou digno
De confiança
É onde sou fraco.
nº 84

Nenhum amor pela cidade, muito
pelo contrário, rancores
cuidadosamente cultivados como
flores, feridas
expostas ao mesmo ar que alisa
a superfície de tudo, contínua,
como se a beijasse, ar
que nunca ampara ainda que envolva
gelado ou turvo, tanto faz, neste mundo
estreito – você formula
absurdos como erguer paredes contra o ar
tornado vento quando imagina
ele trazendo mensagens do passado em forma
de lâminas ferozes, mas lembra
que paredes são memória
dura; formula então
torná-las labirinto, emaranhado
onde se possa encapsular
esta brisa que lhe arranha
a pele, e pensa mais, grafites
que apontem vertigens onde perder
o corpo,
grafites por toda a superfície
alçada contra o ar, pura
vertigem, nenhum
amor pela cidade, nenhuma cidade
possível.
pelo contrário, rancores
cuidadosamente cultivados como
flores, feridas
expostas ao mesmo ar que alisa
a superfície de tudo, contínua,
como se a beijasse, ar
que nunca ampara ainda que envolva
gelado ou turvo, tanto faz, neste mundo
estreito – você formula
absurdos como erguer paredes contra o ar
tornado vento quando imagina
ele trazendo mensagens do passado em forma
de lâminas ferozes, mas lembra
que paredes são memória
dura; formula então
torná-las labirinto, emaranhado
onde se possa encapsular
esta brisa que lhe arranha
a pele, e pensa mais, grafites
que apontem vertigens onde perder
o corpo,
grafites por toda a superfície
alçada contra o ar, pura
vertigem, nenhum
amor pela cidade, nenhuma cidade
possível.
(das "Notas Marginais")
9/27/2008
nº 83

Retirados os sonhos você se ergue sobre o nada, eles eram
uma escada alucinada de apoio
sobre o real, e agora
quando representa seus papéis-
moeda, vendendo barato
o que quer que seja (“tenho os dias contados
como notas velhas na carteira, fora os inconfessáveis delírios
de absoluto”, ele disse,”à espreita,
até que o destino se distraia”), vê tão claro
no espelho uma embalagem seriada, anônima (“e prolixa”, ele disse)
enquanto luzes frias como a razão que se esquiva lembram
que palco e platéia, lado a lado, estão juntos
dentro do mesmo
teatro, mundo.
(das "Notas Marginais")
uma escada alucinada de apoio
sobre o real, e agora
quando representa seus papéis-
moeda, vendendo barato
o que quer que seja (“tenho os dias contados
como notas velhas na carteira, fora os inconfessáveis delírios
de absoluto”, ele disse,”à espreita,
até que o destino se distraia”), vê tão claro
no espelho uma embalagem seriada, anônima (“e prolixa”, ele disse)
enquanto luzes frias como a razão que se esquiva lembram
que palco e platéia, lado a lado, estão juntos
dentro do mesmo
teatro, mundo.
(das "Notas Marginais")
9/24/2008
O olhar oblíquo do mundo virtual
Só espero que não
Estejamos construindo o novo
Arranha-céu
Sobre um abismo,
Palavras melodramáticas do engenheiro
Sobre a cratera do World Trade Center.
Na fossa gelada
De Uberlândia, jamais pensei que aqui
Precisaria de um casaco,
Penso nisso enquanto leio a notícia
Distraído e depois
Me desculpo teorizando sobre o nosso
(meu, seu e dele) egoísmo, sobre a arte de representar
Que é como andar armado,
Um canastrão justiçador, fazendo sermões
Inócuos, online, e como foram
Necessários 500 anos de aporrinhações & palmatórias
Pra que os ocidentais aprendessem a regular
Seus peidos.
E me esquivo novamente assim:
No dia em que as torres gêmeas
Ruíram, futuros cientistas
Sociais celebraram, virando ruidosamente copos
De cerveja sobre as mesas de plástico
Vermelho, é mesmo um mundo de ponta-cabeça
Quando ficamos bêbados
Logo de manhã.
Estejamos construindo o novo
Arranha-céu
Sobre um abismo,
Palavras melodramáticas do engenheiro
Sobre a cratera do World Trade Center.
Na fossa gelada
De Uberlândia, jamais pensei que aqui
Precisaria de um casaco,
Penso nisso enquanto leio a notícia
Distraído e depois
Me desculpo teorizando sobre o nosso
(meu, seu e dele) egoísmo, sobre a arte de representar
Que é como andar armado,
Um canastrão justiçador, fazendo sermões
Inócuos, online, e como foram
Necessários 500 anos de aporrinhações & palmatórias
Pra que os ocidentais aprendessem a regular
Seus peidos.
E me esquivo novamente assim:
No dia em que as torres gêmeas
Ruíram, futuros cientistas
Sociais celebraram, virando ruidosamente copos
De cerveja sobre as mesas de plástico
Vermelho, é mesmo um mundo de ponta-cabeça
Quando ficamos bêbados
Logo de manhã.
9/22/2008
nº82

Estende um infinito entre você e a paisagem, tão perto,
cortinas de vidro se liquefazendo à frente
dos seus olhos e de camadas de asfalto: cada uma
contém em seus mapas impressões do absurdo
que teve por destino transportar, surdamente,
na treva ou sob o sol – “seu corpo”, ele disse,"não ouvia
as coisas todas gritando em desespero
à sua passagem, as coisas
aturdidas diante da agressão
dos seus olhos”. Limites, exílios, silêncios,
viagens sem retorno, abismos
entre as coisas e as palavras, você
pulou porque quis.
(das "Notas Marginais")
cortinas de vidro se liquefazendo à frente
dos seus olhos e de camadas de asfalto: cada uma
contém em seus mapas impressões do absurdo
que teve por destino transportar, surdamente,
na treva ou sob o sol – “seu corpo”, ele disse,"não ouvia
as coisas todas gritando em desespero
à sua passagem, as coisas
aturdidas diante da agressão
dos seus olhos”. Limites, exílios, silêncios,
viagens sem retorno, abismos
entre as coisas e as palavras, você
pulou porque quis.
(das "Notas Marginais")
9/19/2008
Novo Pequeno Dicionário das Aproximações
Vida (s.f.)
Relaxe, é apenas um jogo e, de forma geral, em função da natureza da maior parcela dos jogadores envolvidos, tem um cunho absolutamente banal, supérfluo e superficial. Tem ainda contra si os seguintes aspectos: você não pede para jogar, quando dá por si está no meio do jogo, e geralmente perdendo; por um dispositivo desconhecido (provavelmente sua limitadíssima percepção), você nunca sabe se é jogador ou uma simples peça, ou os dois, simultanea ou individualmente; você não escolhe em que parte do tabuleiro será lançado no início da partida, o que pode significar enorme desvantagem, o que acontece na maioria dos casos (ou seja: você pode ser um príncipe encantado ou um sapo, sem que para isso concorra o mérito ou escolha sua). Como se não bastasse, só há um resultado possível: você vai perder, amigão, não importa o que faça – pode até estar, provisoriamente, em vantagem sob um ou outro aspecto, mas no final você se fode. Talvez o melhor que se possa fazer seja aproveitar as vertigens circunstanciais e igualmente provisórias que certos lances proporcionam.
Relaxe, é apenas um jogo e, de forma geral, em função da natureza da maior parcela dos jogadores envolvidos, tem um cunho absolutamente banal, supérfluo e superficial. Tem ainda contra si os seguintes aspectos: você não pede para jogar, quando dá por si está no meio do jogo, e geralmente perdendo; por um dispositivo desconhecido (provavelmente sua limitadíssima percepção), você nunca sabe se é jogador ou uma simples peça, ou os dois, simultanea ou individualmente; você não escolhe em que parte do tabuleiro será lançado no início da partida, o que pode significar enorme desvantagem, o que acontece na maioria dos casos (ou seja: você pode ser um príncipe encantado ou um sapo, sem que para isso concorra o mérito ou escolha sua). Como se não bastasse, só há um resultado possível: você vai perder, amigão, não importa o que faça – pode até estar, provisoriamente, em vantagem sob um ou outro aspecto, mas no final você se fode. Talvez o melhor que se possa fazer seja aproveitar as vertigens circunstanciais e igualmente provisórias que certos lances proporcionam.
La Boetie (Ou Network Canastrões Iltda)
O segredo do Um
Está escondido nas festas
E jogos que ele promove, está
Escondido nas sentinelas
Que o protegem, contudo
O segredo do Um
Não é o mesmo que suas armas
Por bem dispostas que estejam
Nem o mesmo que seus cavalos,
Por mais velozes, o segredo do Um
Não tem a transparência das taças
De vinho, nem é plano
E frio como os tabuleiros de xadrez;
O Um sempre é servido por 4 ou 5
Que o sustentam
Como os canhões de ar
Que mantêm o suspense
Dos números nas loterias nacionais e
Estes 5 ou 6 são os favoritos do Um,
Os sócios dos bens de suas pilhagens,
Cúmplices de suas crueldades
E estes 5 ou 6 são sustentados
Por outros 600 que crescem às suas sombras
E são coletores de impostos, corsários
Em miniatura
E quem se divertir em tecer esta rede
Logo chegará aos 1.000 aos 100.000
Aos milhões que com estas cordas
Se agarram ao Um, quando um simples
Não bastaria,
E assim visto ao revés
5 ou 6 suportam os males
Causados pelo Um para poderem
Causar outros males aos 600
Que calam o sofrimento para causarem
Outros males aos milhares que restam
E estes se entredevoram
Em torno do espólio que lhes sobrou, enfim
Este é o segredo do Um,
Sua lastimável fraqueza e seu (quase)
Indevassável poder.
Está escondido nas festas
E jogos que ele promove, está
Escondido nas sentinelas
Que o protegem, contudo
O segredo do Um
Não é o mesmo que suas armas
Por bem dispostas que estejam
Nem o mesmo que seus cavalos,
Por mais velozes, o segredo do Um
Não tem a transparência das taças
De vinho, nem é plano
E frio como os tabuleiros de xadrez;
O Um sempre é servido por 4 ou 5
Que o sustentam
Como os canhões de ar
Que mantêm o suspense
Dos números nas loterias nacionais e
Estes 5 ou 6 são os favoritos do Um,
Os sócios dos bens de suas pilhagens,
Cúmplices de suas crueldades
E estes 5 ou 6 são sustentados
Por outros 600 que crescem às suas sombras
E são coletores de impostos, corsários
Em miniatura
E quem se divertir em tecer esta rede
Logo chegará aos 1.000 aos 100.000
Aos milhões que com estas cordas
Se agarram ao Um, quando um simples
Não bastaria,
E assim visto ao revés
5 ou 6 suportam os males
Causados pelo Um para poderem
Causar outros males aos 600
Que calam o sofrimento para causarem
Outros males aos milhares que restam
E estes se entredevoram
Em torno do espólio que lhes sobrou, enfim
Este é o segredo do Um,
Sua lastimável fraqueza e seu (quase)
Indevassável poder.
9/18/2008
nº 80
Interpretando em erro a chama do instante, o mesmo
instante que cai, passa, muda, rompe, incinera, avança, some, perde-se
e já não é mais e seu brilho
ainda na curva acende o olhar de quem fica largado
olhando feito um pacote entregue no endereço
errado a orla do presente e as ondas
de vida batendo, batendo, batendo, tombando contra a membrana do corpo,
tão frágil,onde cada poro, aberto ou não, quer
dizer ao mundo e não diz: sublimação feroz, passagem
de um estado a outro, do peso
ao que flutua, gás, fumaça, décadas hostis,
asfixia.
(das 'Notas Marginais')
instante que cai, passa, muda, rompe, incinera, avança, some, perde-se
e já não é mais e seu brilho
ainda na curva acende o olhar de quem fica largado
olhando feito um pacote entregue no endereço
errado a orla do presente e as ondas
de vida batendo, batendo, batendo, tombando contra a membrana do corpo,
tão frágil,onde cada poro, aberto ou não, quer
dizer ao mundo e não diz: sublimação feroz, passagem
de um estado a outro, do peso
ao que flutua, gás, fumaça, décadas hostis,
asfixia.
(das 'Notas Marginais')
9/16/2008
Seu Mercado tem problemas psiquiátricos (manchetes do dia)
Bovespa sofre com a percepção &
A crise financeira muda o foco &
O mercado monitora os desdobramentos
Para aliviar o estresse do mercado.
É sintomático que
Bancos injetam milhões para acalmar mercados &
Hurricane also hits financial markets
An obviously desperate seller
In a sign of significant stress.
Maybe, only a tropical storm, ou
Un lunes negro en el mercado sigue golpeando hoy
Las malas expectativas sobre la situacion del gigante.
(Fazendeiro questiona como é possível manter a espécie piripkura se os 2 índios
são homens, "não tem índios não, são só dois moleques lá", "um indigenista
disse que tinha que preservar a espécie, mas índio não cria, como vão reproduzir
se são dois machos?")
A crise financeira muda o foco &
O mercado monitora os desdobramentos
Para aliviar o estresse do mercado.
É sintomático que
Bancos injetam milhões para acalmar mercados &
Hurricane also hits financial markets
An obviously desperate seller
In a sign of significant stress.
Maybe, only a tropical storm, ou
Un lunes negro en el mercado sigue golpeando hoy
Las malas expectativas sobre la situacion del gigante.
(Fazendeiro questiona como é possível manter a espécie piripkura se os 2 índios
são homens, "não tem índios não, são só dois moleques lá", "um indigenista
disse que tinha que preservar a espécie, mas índio não cria, como vão reproduzir
se são dois machos?")
9/15/2008
descartes
a obscuridade das distinções
e dos princípios de que se servem
é a causa de alguns poderem
falar de todas as coisas
como se as soubessem
e de sustentarem o que dizem
contra os capazes e os mais sutis
sem que se tenham meios de os convencer
por isso
tornam-se comparáveis a um cego
que para lutar sem desvantagens
contra alguém que não é cego
levasse o adversário para o fundo
de um subterrâneo
muito escuro
e dos princípios de que se servem
é a causa de alguns poderem
falar de todas as coisas
como se as soubessem
e de sustentarem o que dizem
contra os capazes e os mais sutis
sem que se tenham meios de os convencer
por isso
tornam-se comparáveis a um cego
que para lutar sem desvantagens
contra alguém que não é cego
levasse o adversário para o fundo
de um subterrâneo
muito escuro
9/14/2008
Uma fábula
O mundo é um jovem
Desajustado, precoce
E ao mesmo tempo
Um velho imaturo e ao
Mesmo tempo uma garota
Que passa os dias
Trancada numa biblioteca,
Não gosta, não tem, não quer ter
Amigos, a tola esclarecida.
A vida é uma senhora lúcida
E rebelde, por tudo,
Quase nada, qualquer coisa,
Um êmbolo e ela se sente
Sufocada, a vida sofre
De mania de perseguição.
A vida enterra sementes
Com raiva e brotam
Folhas verdes e ruidosas que dizem não
Dizem sim, dizem sim ao não,
Dizem não à liberdade, dizem sim
Ao libertário, dizem não ao anarquismo,
Dizem sim a tudo o que é anárquico &
Da terra revol
vida e revoltada
Brotam frutas selvagens
Pequenas feras doces e coloridas
O tempo, por sua vez, está grávido
De anacronismos. É um jogo,
Mortal, de crianças.
Mas as crianças não, estas
São insatisfeitas,
As crianças querem os cães
Domesticados, as crianças são pacientes
Quando o assunto é a ordem
Visível, evidente:
As crianças fabricam
Usando seus próprios corpos como engrenagens
Um imenso boneco, cheio de balas
Não, cheio de porretes &
Relógios & tesouras de jardinagem, mas
Esse boneco é um tirano
Vazio, chamado Oito-Olhos.
E ninguém sabe, ou finge não saber,
Num faz-de-conta, como o oco
Pode ser assassino, de onde vem
O pequeno
Poder de matar se
O boneco é um morto, mas
À sua sombra
As crianças dormem
Tranqüilas e livres
Do mundo, da vida e do tempo.
Moral da história: é de meter medo.
Desajustado, precoce
E ao mesmo tempo
Um velho imaturo e ao
Mesmo tempo uma garota
Que passa os dias
Trancada numa biblioteca,
Não gosta, não tem, não quer ter
Amigos, a tola esclarecida.
A vida é uma senhora lúcida
E rebelde, por tudo,
Quase nada, qualquer coisa,
Um êmbolo e ela se sente
Sufocada, a vida sofre
De mania de perseguição.
A vida enterra sementes
Com raiva e brotam
Folhas verdes e ruidosas que dizem não
Dizem sim, dizem sim ao não,
Dizem não à liberdade, dizem sim
Ao libertário, dizem não ao anarquismo,
Dizem sim a tudo o que é anárquico &
Da terra revol
vida e revoltada
Brotam frutas selvagens
Pequenas feras doces e coloridas
O tempo, por sua vez, está grávido
De anacronismos. É um jogo,
Mortal, de crianças.
Mas as crianças não, estas
São insatisfeitas,
As crianças querem os cães
Domesticados, as crianças são pacientes
Quando o assunto é a ordem
Visível, evidente:
As crianças fabricam
Usando seus próprios corpos como engrenagens
Um imenso boneco, cheio de balas
Não, cheio de porretes &
Relógios & tesouras de jardinagem, mas
Esse boneco é um tirano
Vazio, chamado Oito-Olhos.
E ninguém sabe, ou finge não saber,
Num faz-de-conta, como o oco
Pode ser assassino, de onde vem
O pequeno
Poder de matar se
O boneco é um morto, mas
À sua sombra
As crianças dormem
Tranqüilas e livres
Do mundo, da vida e do tempo.
Moral da história: é de meter medo.
9/10/2008
Novo Pequeno Dicionário das Aproximações
Mundo (s.m.)
Conjunto indistinto de forças cujo único objetivo é deixar você com cara de babaca, custe o que custar. Possui o dom de penetrar na mente das pessoas e através delas imprimir sua marca, seja na pele, na memória ou em sua biografia (quando assim é possível chamar a seqüência de fatos sem sentido ao longo de sua vida e se pode chamar de vida a seqüência de fatos sem sentido ao longo do tempo que lhe é concedido). Suas maiores armas são o dinheiro, o poder, a libido e instintos derivados, como o de matar, geralmente em grupos de dois ou mais. Escritores mais ou menos geniais têm a mania recorrente de compará-lo a labirintos, o que dá a perceber sua natureza não muito amigável (labirintos são, em geral, freqüentados por minotauros e outros tipos de caráter duvidoso...). No século XVII, um escritor tcheco, Comenius (1592-1670), representou-o como um caminho que se bifurca em seis outros, sendo que estes desembocam sempre no mesmo lugar, onde se alcançaria o conhecimento sobre a razão última de todas as coisas, e por isto torna-se evidente que tal poema foi escrito sob o efeito de algum poderoso alucinógeno ou meramente faltavam-lhe elementos mais objetivos para análise – talvez porque no referido poema o “herói” fazia-se acompanhar por outros dois personagens denominados “Engano” e “Sei-tudo” (o que demonstra serem duas faces da mesma moeda) e utiliza em sua odisséia lentes que lhe distorcem a compreensão das coisas. Como na vida, assim como ela é.
Conjunto indistinto de forças cujo único objetivo é deixar você com cara de babaca, custe o que custar. Possui o dom de penetrar na mente das pessoas e através delas imprimir sua marca, seja na pele, na memória ou em sua biografia (quando assim é possível chamar a seqüência de fatos sem sentido ao longo de sua vida e se pode chamar de vida a seqüência de fatos sem sentido ao longo do tempo que lhe é concedido). Suas maiores armas são o dinheiro, o poder, a libido e instintos derivados, como o de matar, geralmente em grupos de dois ou mais. Escritores mais ou menos geniais têm a mania recorrente de compará-lo a labirintos, o que dá a perceber sua natureza não muito amigável (labirintos são, em geral, freqüentados por minotauros e outros tipos de caráter duvidoso...). No século XVII, um escritor tcheco, Comenius (1592-1670), representou-o como um caminho que se bifurca em seis outros, sendo que estes desembocam sempre no mesmo lugar, onde se alcançaria o conhecimento sobre a razão última de todas as coisas, e por isto torna-se evidente que tal poema foi escrito sob o efeito de algum poderoso alucinógeno ou meramente faltavam-lhe elementos mais objetivos para análise – talvez porque no referido poema o “herói” fazia-se acompanhar por outros dois personagens denominados “Engano” e “Sei-tudo” (o que demonstra serem duas faces da mesma moeda) e utiliza em sua odisséia lentes que lhe distorcem a compreensão das coisas. Como na vida, assim como ela é.
O dom de ser observado
O sol te fisgou
No flagrante delito
De caminhar pelas ruas.
O sol tem dedos
Azuis, e unhas afiadas
No ofício das sanguessugas.
O sol se retorce por dentro
Do meu couro cabeludo
Como se o seu cérebro
Fosse massa de modelar.
O sol é uma puta, ou melhor
O sol é um olho vigilante
Que joga o clarão sobre você,
Imigrante ilegal, atrás
Dos muros da cidade qualquer.
O sol está grudado em sua pele
E nas paredes quentes do meu apartamento.
O sol torrou meus olhos
E se esconde no capuz preto
Porque sabe que é culpado
Porque, no íntimo,
Reconhece que o sol é um justiceiro
Cheio de razão, apesar
De você ser frio e verde escuro
Por dentro.
No flagrante delito
De caminhar pelas ruas.
O sol tem dedos
Azuis, e unhas afiadas
No ofício das sanguessugas.
O sol se retorce por dentro
Do meu couro cabeludo
Como se o seu cérebro
Fosse massa de modelar.
O sol é uma puta, ou melhor
O sol é um olho vigilante
Que joga o clarão sobre você,
Imigrante ilegal, atrás
Dos muros da cidade qualquer.
O sol está grudado em sua pele
E nas paredes quentes do meu apartamento.
O sol torrou meus olhos
E se esconde no capuz preto
Porque sabe que é culpado
Porque, no íntimo,
Reconhece que o sol é um justiceiro
Cheio de razão, apesar
De você ser frio e verde escuro
Por dentro.
9/03/2008
Um poema só links (em esperanto)
Apresento aos senhores a mais nova realização do neo-inutilismo. Com pitadas de ultra-regionalismo, é bom que se diga.
Assumir a mais completa e definitiva inutilidade da cultura, dedicando-se a uma tarefa suficientemente estúpida: aprender esperanto, por exemplo. De preferência usando o dinheiro suado do contribuinte, que talvez preferisse mais policiamento, mais clubes, asfalto mais liso etc etc etc. Mas, por que não esperanto?
Isso ainda não é suficientemente inútil. Renegar os avisos dos inventores desta bela língua e escrever um poema em esperanto. O ideal seria apresentar ao Mais! Ou à revista Bravo, pra sair com aqueles comentários: “mais um livro sobre o desespero”, “uma história de amor fracassado”, “a angústia, o nada, a desistência, nem a morte como consolo, a dor cultivada, a estética da miséria humana, o fim das esperanças, o mais desgraçado dos livros etc etc etc”, com uma foto do autor na página ao lado (um rosto pensativo e triste pra caralho atrás de um pouco de fumaça, a melancolia profunda dos cachimbos e por aí vai).
Não vai rolar, então faça você mesmo.
Taí o poema:
Nulo nokto estis, sed Noktuo.
Dio!
Mi marsas, sed la Hundoj kuras.
Cu la infantoj amas?
Sercu la pomjn tuj!
Mi estas varmeta, li estas varma
Li estas tre varma, sed neniu estas varmega.
Kie diablo no povas, tien viniron le sovas.
De peko kaj mizero estas pleno la tera.
Assumir a mais completa e definitiva inutilidade da cultura, dedicando-se a uma tarefa suficientemente estúpida: aprender esperanto, por exemplo. De preferência usando o dinheiro suado do contribuinte, que talvez preferisse mais policiamento, mais clubes, asfalto mais liso etc etc etc. Mas, por que não esperanto?
Isso ainda não é suficientemente inútil. Renegar os avisos dos inventores desta bela língua e escrever um poema em esperanto. O ideal seria apresentar ao Mais! Ou à revista Bravo, pra sair com aqueles comentários: “mais um livro sobre o desespero”, “uma história de amor fracassado”, “a angústia, o nada, a desistência, nem a morte como consolo, a dor cultivada, a estética da miséria humana, o fim das esperanças, o mais desgraçado dos livros etc etc etc”, com uma foto do autor na página ao lado (um rosto pensativo e triste pra caralho atrás de um pouco de fumaça, a melancolia profunda dos cachimbos e por aí vai).
Não vai rolar, então faça você mesmo.
Taí o poema:
Nulo nokto estis, sed Noktuo.
Dio!
Mi marsas, sed la Hundoj kuras.
Cu la infantoj amas?
Sercu la pomjn tuj!
Mi estas varmeta, li estas varma
Li estas tre varma, sed neniu estas varmega.
Kie diablo no povas, tien viniron le sovas.
De peko kaj mizero estas pleno la tera.
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