9/30/2008

nº 86




Cidades são reais, o pensamento
não se sabe, cidades são
reais, meu chapa, sejam fossas
geladas ou panelas de pressão, chapa quente,
tanto faz, ruas emaranhadas ou largas
avenidas, são labirintos (“algumas toneladas
de pedras ao alto
”, ele disse)
porque espelham o que se forma
por dentro por precipitação (aqui você
repete o delírio recorrente
de encontrar explicação
onde não existe, de arremessar fora de si
a paisagem da imaginação – não, estas
paredes que o pensamento ergueu
por dentro são outra
formulação alucinada
do seu desespero, o mesmo
que arriscou metamorfoses, uma
atrás da outra, até
desembocar no espanto de ser
outra vez não mais que o mesmo
do princípio).


(das "Notas Marginais")

9/29/2008

N. 85. Ou, o sonho de Gregor

1

Anuncio ao interfone uma carta
Num envelope tão branco,
Quase translúcido.

Na carta, ainda que num texto
Repleto de linhas negras
De um plástico indecifrado
Ofereço o seio canceroso
De minha mãe:

A ser levado num tupperware,
A qualquer funcionário dedicado
E indiferente.

Ou quem sabe
Ofereço trechos da minha carne
Ao grande açougue
Dos robôs sanguíneos –

Tanto faz, afinal
Qualquer carne é branco-rosa
E repulsiva,
Como a dos peixes
Quase podres entre as pedras
De gelo.

O envelope, contudo,
É quase translúcido
E tem que passar pelas mãos
De Oito-Olhos (desta vez
Convertido numa velha de cabelos vermelhos,
Responsável pela comodidade
Do condomínio).




2

Oito-Olhos interrompe o laborioso serviço de faxinar o asfalto com torrentes de água, aperta a vista como o senhor de sua atenção que ele é, tenta desembaraçar o conteúdo, as linhas negras que amarram a carne da carta.

Oito-Olhos sorri com indisfarçável alegria:

Ali,
Onde não sou digno
De confiança
É onde sou fraco.

nº 84








Nenhum amor pela cidade, muito
pelo contrário, rancores
cuidadosamente cultivados como
flores, feridas
expostas ao mesmo ar que alisa
a superfície de tudo, contínua,
como se a beijasse, ar
que nunca ampara ainda que envolva
gelado ou turvo, tanto faz, neste mundo
estreito – você formula
absurdos como erguer paredes contra o ar
tornado vento quando imagina
ele trazendo mensagens do passado em forma
de lâminas ferozes, mas lembra
que paredes são memória
dura; formula então
torná-las labirinto, emaranhado
onde se possa encapsular
esta brisa que lhe arranha
a pele, e pensa mais, grafites
que apontem vertigens onde perder
o corpo,
grafites por toda a superfície
alçada contra o ar, pura
vertigem, nenhum
amor pela cidade, nenhuma cidade
possível.




(das "Notas Marginais")

9/27/2008

nº 83




Retirados os sonhos você se ergue sobre o nada, eles eram
uma escada alucinada de apoio
sobre o real, e agora
quando representa seus papéis-
moeda, vendendo barato
o que quer que seja (“tenho os dias contados
como notas velhas na carteira, fora os inconfessáveis delírios
de absoluto
”, ele disse,”à espreita,
até que o destino se distraia
”), vê tão claro
no espelho uma embalagem seriada, anônima (“e prolixa”, ele disse)
enquanto luzes frias como a razão que se esquiva lembram
que palco e platéia, lado a lado, estão juntos
dentro do mesmo
teatro, mundo.


(das "Notas Marginais")

9/24/2008

O olhar oblíquo do mundo virtual

Só espero que não
Estejamos construindo o novo
Arranha-céu
Sobre um abismo,
Palavras melodramáticas do engenheiro
Sobre a cratera do World Trade Center.

Na fossa gelada
De Uberlândia, jamais pensei que aqui
Precisaria de um casaco,
Penso nisso enquanto leio a notícia
Distraído e depois
Me desculpo teorizando sobre o nosso
(meu, seu e dele) egoísmo, sobre a arte de representar
Que é como andar armado,
Um canastrão justiçador, fazendo sermões
Inócuos, online, e como foram
Necessários 500 anos de aporrinhações & palmatórias
Pra que os ocidentais aprendessem a regular
Seus peidos.

E me esquivo novamente assim:
No dia em que as torres gêmeas
Ruíram, futuros cientistas
Sociais celebraram, virando ruidosamente copos
De cerveja sobre as mesas de plástico
Vermelho, é mesmo um mundo de ponta-cabeça
Quando ficamos bêbados
Logo de manhã.

9/22/2008

nº82


Estende um infinito entre você e a paisagem, tão perto,
cortinas de vidro se liquefazendo à frente
dos seus olhos e de camadas de asfalto: cada uma
contém em seus mapas impressões do absurdo
que teve por destino transportar, surdamente,
na treva ou sob o sol – “seu corpo”, ele disse,"não ouvia
as coisas todas gritando em desespero
à sua passagem, as coisas
aturdidas diante da agressão
dos seus olhos
”. Limites, exílios, silêncios,
viagens sem retorno, abismos
entre as coisas e as palavras, você
pulou porque quis.


(das "Notas Marginais")

9/19/2008

Novo Pequeno Dicionário das Aproximações

Vida (s.f.)
Relaxe, é apenas um jogo e, de forma geral, em função da natureza da maior parcela dos jogadores envolvidos, tem um cunho absolutamente banal, supérfluo e superficial. Tem ainda contra si os seguintes aspectos: você não pede para jogar, quando dá por si está no meio do jogo, e geralmente perdendo; por um dispositivo desconhecido (provavelmente sua limitadíssima percepção), você nunca sabe se é jogador ou uma simples peça, ou os dois, simultanea ou individualmente; você não escolhe em que parte do tabuleiro será lançado no início da partida, o que pode significar enorme desvantagem, o que acontece na maioria dos casos (ou seja: você pode ser um príncipe encantado ou um sapo, sem que para isso concorra o mérito ou escolha sua). Como se não bastasse, só há um resultado possível: você vai perder, amigão, não importa o que faça – pode até estar, provisoriamente, em vantagem sob um ou outro aspecto, mas no final você se fode. Talvez o melhor que se possa fazer seja aproveitar as vertigens circunstanciais e igualmente provisórias que certos lances proporcionam.

La Boetie (Ou Network Canastrões Iltda)

O segredo do Um
Está escondido nas festas
E jogos que ele promove, está
Escondido nas sentinelas
Que o protegem, contudo
O segredo do Um
Não é o mesmo que suas armas
Por bem dispostas que estejam
Nem o mesmo que seus cavalos,
Por mais velozes, o segredo do Um
Não tem a transparência das taças
De vinho, nem é plano
E frio como os tabuleiros de xadrez;
O Um sempre é servido por 4 ou 5
Que o sustentam
Como os canhões de ar
Que mantêm o suspense
Dos números nas loterias nacionais e
Estes 5 ou 6 são os favoritos do Um,
Os sócios dos bens de suas pilhagens,
Cúmplices de suas crueldades
E estes 5 ou 6 são sustentados
Por outros 600 que crescem às suas sombras
E são coletores de impostos, corsários
Em miniatura
E quem se divertir em tecer esta rede
Logo chegará aos 1.000 aos 100.000
Aos milhões que com estas cordas
Se agarram ao Um, quando um simples
Não bastaria,
E assim visto ao revés
5 ou 6 suportam os males
Causados pelo Um para poderem
Causar outros males aos 600
Que calam o sofrimento para causarem
Outros males aos milhares que restam
E estes se entredevoram
Em torno do espólio que lhes sobrou, enfim
Este é o segredo do Um,

Sua lastimável fraqueza e seu (quase)
Indevassável poder.

9/18/2008

nº 80

Interpretando em erro a chama do instante, o mesmo
instante que cai, passa, muda, rompe, incinera, avança, some, perde-se
e já não é mais e seu brilho
ainda na curva acende o olhar de quem fica largado
olhando feito um pacote entregue no endereço
errado a orla do presente e as ondas
de vida batendo, batendo, batendo, tombando contra a membrana do corpo,
tão frágil,onde cada poro, aberto ou não, quer
dizer ao mundo e não diz: sublimação feroz, passagem
de um estado a outro, do peso
ao que flutua, gás, fumaça, décadas hostis,
asfixia.

(das 'Notas Marginais')

9/16/2008

Seu Mercado tem problemas psiquiátricos (manchetes do dia)

Bovespa sofre com a percepção &

A crise financeira muda o foco &

O mercado monitora os desdobramentos

Para aliviar o estresse do mercado.




É sintomático que

Bancos injetam milhões para acalmar mercados &

Hurricane also hits financial markets

An obviously desperate seller

In a sign of significant stress.



Maybe, only a tropical storm, ou

Un lunes negro en el mercado sigue golpeando hoy

Las malas expectativas sobre la situacion del gigante.




(Fazendeiro questiona como é possível manter a espécie piripkura se os 2 índios
são homens, "não tem índios não, são só dois moleques lá", "um indigenista
disse que tinha que preservar a espécie, mas índio não cria, como vão reproduzir
se são dois machos?")

9/15/2008

descartes

a obscuridade das distinções
e dos princípios de que se servem
é a causa de alguns poderem
falar de todas as coisas
como se as soubessem
e de sustentarem o que dizem
contra os capazes e os mais sutis
sem que se tenham meios de os convencer

por isso
tornam-se comparáveis a um cego
que para lutar sem desvantagens
contra alguém que não é cego
levasse o adversário para o fundo
de um subterrâneo
muito escuro

9/14/2008

Uma fábula

O mundo é um jovem
Desajustado, precoce
E ao mesmo tempo
Um velho imaturo e ao
Mesmo tempo uma garota
Que passa os dias
Trancada numa biblioteca,
Não gosta, não tem, não quer ter
Amigos, a tola esclarecida.

A vida é uma senhora lúcida
E rebelde, por tudo,
Quase nada, qualquer coisa,
Um êmbolo e ela se sente
Sufocada, a vida sofre
De mania de perseguição.

A vida enterra sementes
Com raiva e brotam
Folhas verdes e ruidosas que dizem não
Dizem sim, dizem sim ao não,
Dizem não à liberdade, dizem sim
Ao libertário, dizem não ao anarquismo,
Dizem sim a tudo o que é anárquico &
Da terra revol
vida e revoltada
Brotam frutas selvagens
Pequenas feras doces e coloridas


O tempo, por sua vez, está grávido
De anacronismos. É um jogo,
Mortal, de crianças.

Mas as crianças não, estas
São insatisfeitas,
As crianças querem os cães
Domesticados, as crianças são pacientes
Quando o assunto é a ordem
Visível, evidente:

As crianças fabricam
Usando seus próprios corpos como engrenagens
Um imenso boneco, cheio de balas
Não, cheio de porretes &
Relógios & tesouras de jardinagem, mas
Esse boneco é um tirano
Vazio, chamado Oito-Olhos.

E ninguém sabe, ou finge não saber,
Num faz-de-conta, como o oco
Pode ser assassino, de onde vem
O pequeno
Poder de matar se
O boneco é um morto, mas
À sua sombra
As crianças dormem
Tranqüilas e livres
Do mundo, da vida e do tempo.


Moral da história: é de meter medo.

9/10/2008

Novo Pequeno Dicionário das Aproximações

Mundo (s.m.)
Conjunto indistinto de forças cujo único objetivo é deixar você com cara de babaca, custe o que custar. Possui o dom de penetrar na mente das pessoas e através delas imprimir sua marca, seja na pele, na memória ou em sua biografia (quando assim é possível chamar a seqüência de fatos sem sentido ao longo de sua vida e se pode chamar de vida a seqüência de fatos sem sentido ao longo do tempo que lhe é concedido). Suas maiores armas são o dinheiro, o poder, a libido e instintos derivados, como o de matar, geralmente em grupos de dois ou mais. Escritores mais ou menos geniais têm a mania recorrente de compará-lo a labirintos, o que dá a perceber sua natureza não muito amigável (labirintos são, em geral, freqüentados por minotauros e outros tipos de caráter duvidoso...). No século XVII, um escritor tcheco, Comenius (1592-1670), representou-o como um caminho que se bifurca em seis outros, sendo que estes desembocam sempre no mesmo lugar, onde se alcançaria o conhecimento sobre a razão última de todas as coisas, e por isto torna-se evidente que tal poema foi escrito sob o efeito de algum poderoso alucinógeno ou meramente faltavam-lhe elementos mais objetivos para análise – talvez porque no referido poema o “herói” fazia-se acompanhar por outros dois personagens denominados “Engano” e “Sei-tudo” (o que demonstra serem duas faces da mesma moeda) e utiliza em sua odisséia lentes que lhe distorcem a compreensão das coisas. Como na vida, assim como ela é.

O dom de ser observado

O sol te fisgou
No flagrante delito
De caminhar pelas ruas.

O sol tem dedos
Azuis, e unhas afiadas
No ofício das sanguessugas.

O sol se retorce por dentro
Do meu couro cabeludo
Como se o seu cérebro
Fosse massa de modelar.

O sol é uma puta, ou melhor
O sol é um olho vigilante
Que joga o clarão sobre você,
Imigrante ilegal, atrás
Dos muros da cidade qualquer.

O sol está grudado em sua pele
E nas paredes quentes do meu apartamento.

O sol torrou meus olhos
E se esconde no capuz preto
Porque sabe que é culpado
Porque, no íntimo,
Reconhece que o sol é um justiceiro
Cheio de razão, apesar

De você ser frio e verde escuro
Por dentro.

9/03/2008

Um poema só links (em esperanto)

Apresento aos senhores a mais nova realização do neo-inutilismo. Com pitadas de ultra-regionalismo, é bom que se diga.
Assumir a mais completa e definitiva inutilidade da cultura, dedicando-se a uma tarefa suficientemente estúpida: aprender esperanto, por exemplo. De preferência usando o dinheiro suado do contribuinte, que talvez preferisse mais policiamento, mais clubes, asfalto mais liso etc etc etc. Mas, por que não esperanto?
Isso ainda não é suficientemente inútil. Renegar os avisos dos inventores desta bela língua e escrever um poema em esperanto. O ideal seria apresentar ao Mais! Ou à revista Bravo, pra sair com aqueles comentários: “mais um livro sobre o desespero”, “uma história de amor fracassado”, “a angústia, o nada, a desistência, nem a morte como consolo, a dor cultivada, a estética da miséria humana, o fim das esperanças, o mais desgraçado dos livros etc etc etc”, com uma foto do autor na página ao lado (um rosto pensativo e triste pra caralho atrás de um pouco de fumaça, a melancolia profunda dos cachimbos e por aí vai).
Não vai rolar, então faça você mesmo.


Taí o poema:


Nulo nokto estis, sed Noktuo.


Dio!

Mi marsas, sed la Hundoj kuras.

Cu la infantoj amas?

Sercu la pomjn tuj!

Mi estas varmeta, li estas varma
Li estas tre varma, sed neniu estas varmega.

Kie diablo no povas, tien viniron le sovas.

De peko kaj mizero estas pleno la tera.

8/31/2008

prosa rala



Fui diluindo a idéia de seu corpo
no céu do meu tesão: assim fiz, tanto
que congelei, no lastro dos enganos,
o fogo que me ardia em dias mornos.
Não sei em que se funda o gesto humano
de amar alguém, porque estando absorto
neste exercício vago armei um curso
e arremessei a quilha já sem planos
até errar de labirinto - o amor
perdeu-se nos desvios da cidade,
vários desvarios, e a noite está de
acordo, ou parece estar, que a tor-
turante cilada que ronda a carne
insana de quem ama nunca é arte.

8/21/2008

nº 81




Mundo estranho, miragens
em movimento sob o sol
natural, vasto mundo plano
e você deu tantas voltas ao redor
sem perceber qualquer falha, seguindo
sem cosmologias no universo
circunstancial, acidental (“se calhar,
se calhar
”, alguém disse), restando
amorfo como este século de luzes
intermitentes, ou como quem errou
de endereço indo ao lugar
certo, ou devorando miragens
à margem de todo sentimento,
em larga escala, em alta
rotatividade, ou bancando
um vinho forte para cada alma
que sobrou dentro de sua cabeça
depois do desastre.
(das "Notas Marginais")
Um cafezinho
Com ódio de manhã.

Porretes quânticos
E místicos oferecendo
Muita, muita dettera
Pra adoçar com vidro
O café velho e requentado
Após o almoço.

(Notícias dão conta
De que o segredo do vidro
Mais transparente
Que toda a lucidez
Das furadeiras elétricas

É que o vidro inexiste se
Dilata e se vomita
Em nossas mentes
E nossos corpos)

8/17/2008

mais um lance




Descendo mais um lance em espiral
da escada, traço rápido um grafite
com um sorriso do gato de Alice
- enigmático e superficial -
simulando um motivo metafísico
no que risquei, afastado da arte,
nessas paredes. Não: é só da carne
que falo, mesmo escondido num mínimo
enigma e agarrado ao corrimão
no mergulho áspero rumo ao centro
inatingível, sem provar qualquer
profundidade, luminosa ou não,
nas coisas - e a escada vai descendo
abrupta e sem volta como viver.

Melancolia é a musa que come uma esfirra de carne (e tem o cerrado como paisagem)

A mensagem está gravada
No balcão de fórmica vermelha:



"Cale a boca como quem respira
O mistério

Mergulhado em seu silêncio
Se deixe levar
No maravilhoso território
Dos martelos e das rodas dentadas,
Das tosses e do rumor
Confuso dos pássaros etiquetados,
Do bater dos carimbos nos papéis que descansam
Como folhas mortas.

Não corra, não se atropele
Não faça como aqueles que despertam
As folhas em redemoinhos insanos
Espirais de ruídos, feridos desejos vivos
Tagarelice viscosa de
Pessoas mortas que falam,

Ausentes ou distantes como você –
Blasé de ponto de ônibus
Remoendo seu silêncio."

8/13/2008

circunstância, 2




Você não vem novamente. Alegou,
por último, qualquer outra razão
que tenta demonstrar que as coisas são
como devem, e elas, no fundo, estou-
ram à frente de nossos olhos sem
motivo que explique o repetido
espetáculo banal, sem estilo,
desta fantasmagórica miragem.
Sua cidade e a minha ainda seguem
no seu ritmo - eu não: me afundo mais
na anestesia ácida que o corpo
arranca dos hormônios em vertigens
provisórias e circunstanciais,
bem como dos poemas e do amor.

8/12/2008

em torno de




Tempo demais perdido nestes versos,
sua passagem traçando novas linhas
em folhas que foram brancas e em certos
lugares por onde nunca andei - minhas
certezas de então, ilusões, desejos,
sonhos sem chão que um dia os apoiasse,
ainda vibram, turvos mais que plenos,
entre as letras sem rumo, quer me atrase
ou não para jogar todas as fichas
na banca do destino, crupiê
ou gigolô, não sei, enquanto ouço
ela dizer “meu bem, coma as salsichas
antes que esfriem!
”, sem me entender
ou à vida, este calabouço doce.

8/08/2008

Mais um da série Livros Insanos e Proféticos. Hoje, com vocês: A Terceira Guerra Mundial; por: General Sir John Hackett e outros generais

"Na sociedade mais viciada em televisão da Europa, o Reino Unido, o vídeo desempenhou um papel curiosamente discreto. Em 1985 ele havia se tornado, sob todos os aspectos, a principal fonte de informação e de entretenimento para o povo. Os vários sistemas de dados tele-impressos que à aquela altura se haviam tornado lugar-comum haviam-lhe emprestado a dimensão de um jornal diário, desenvolvimento esse que enfraqueceu ainda mais o impacto da imprensa escrita. Quando a guerra chegou, o público voltou-se para a televisão para obter notícias, orientação e informação, bem como a obtenção daquele MÌNIMO DE ENTRETENIMENTO do qual o espírito humano, por mais perto que esteja da CATÀSTROFE, tem necessidade. As primeiras, as organizações de televisão podiam fornecer copiosamente. Durante os primeiros dias de luta os vídeos foram entregues quase que inteiramente a programas noticiosos, entremeados com mensagens a respeito de assuntos como racionamento e evacuação. Havia também freqüentes discursos de líderes governamentais.

Nessa área, as televisões pisavam em terra firme, porém seu toque era muito menos seguro quando se tratava de entretenimento. Recaíram, a princípio, na música, tocada por trás de cartões com os títulos. Porém, a moderna música do ROCK parecia estranhamente deslocada. O entretenimento leve e a comédia escrachada soavam como notas falsas que, depois de um canal após outro ter usado como forma de alívio para a tristeza reinante, foram abruptamente abandonados. Uma estação regional britânica recebeu reação imediata e calorosamente entusiasta quando passou sem relutância para grandes quantidades de música francamente patriótica. Porém, há um limite para o número de vezes que até mesmo a BOSSA NOVA pode ser tocada num espaço de 24 horas. Uma solução logo encontrada foi a exploração de novelas sentimentais. Reapresentações de Rua do Coração e Encruzilhada foram excepcionalmente bem aceitas, talvez por relembrarem a normalidade que outrora existia e que, com sorte, voltaria a existir novamente. E os filmes de faroeste, aquele indestrutível bastião da televisão desde os seus primeiros dias, também foram bem aceitos na guerra, com sua receita de fantasia baseada na realidade e suas confortadoras mensagens de que, no fim, os bons e os justos sempre triunfam."

8/03/2008

Opereta (pra ser encenada em qualquer hotel)

Ubu-Estilista entra no saguão do Uberplace. Oito olhos na cabeça grande, muitas bocas, línguas grandes, cabelo arrepiado. Sobe lentamente pela escada. Em cada andar deixa um dos seus quatro pares de óculos escuros, como se fossem oferendas e ele um tipo de sacerdote. No quinto andar entra na Suíte Penitencial e da varanda proclama, naquele ritmo tipicamente papal, de canto falado:
- Vocês sabiam que:
- Pobre prefere pepsi-cola porque é mais doce?
- A classe média prefere o amargo
Da coca-cola?
- Os 2 princípios são a sanca e a cerca elétrica? Os pequenos e escuros labirintos?
- Certas perguntas não devem ser feitas num açougue?




Nas outras varandas surgem as Capivaras, usando bigodinhos à Castro Alves, vestidas como aquelas crianças da serenata de natal:
- Ó preclaro mecenas, prometemos:
- Estourar miolos de estudantes. Celebrar nossos aniversários bêbados, caídos em frente às padarias. Mostrar nossas certidões de nascimento à polícia.




Ubu-Estilista responde:
- Que figuras exemplares!
- Vocês levarão dois brindes: um círculo dourado (no formato de um dos andares do inferno) com o desenho de um mapa em traços negros. O mapa da mina pra vocês, soldados rasos, pendurarem no pescoço. E ainda mais, um grosso e reluzente supositório da Unimed, no modelo Maiêutica a Fórceps.




Uma das capivaras responde, depois de limpar os restos de strogonoff de frango do bigode:
- Magnífico, sempre sonhei com esse dia top de linha, com secretárias obesas que guardam poemas nas gavetas, desde minha infância imito o típico rastejar do calango do Planalto Central, nada me impede de, um pouco mais colado ao chão, chegar ao nível da lagartixa, tenho minh’alma carimbada pelas flores espinhosas do cerrado.



Ubu-Estilista encerra a cerimônia:
- Vocês têm um grande futuro pela frente, eu barganho com o presente. Quando aqui cheguei, esta merda era só estrada de terra. Nenhum clubezinho sequer. Com minhas mãos comecei a cavar esta vala, quer dizer lavar este vale, quer dizer gravar esta mala que vocês de hoje em diante carregarão, sempre mais fundo, cavando uma boquinha se me permitem a expressão. Só não vos chamo de cordeiros porque cordeiros são apetitosos e não causam ânsia de vômito.

7/30/2008

mandala




como um cachorro amarrado a um poste
por seu dono, como um cachorro preso
à trilha circular onde há um mesmo
rolar das horas até que o estoque
do tempo esgote, enfim, pulando casas
como um dado fadado a uma roleta
já viciada, assim como a cabeça
na vertigem de orbitar desusadas
trilhas, pela emoção mortal do salto
no abismo, e como se ainda voltando
a de novo saltar e querer nos
círculos infinitos, quando calmo,
apagar o sentido dispersando
quintessências no quinto dos infernos

7/28/2008

Miragem

Quê de arte existe
no ponto misterioso
onde me encontro?

A vida observa,
- estática -
o tempo que corre
circundando-me
cada vez mais rápido
cada vez mais rápido
cada vez mais rápido.

Os deuses riem,
e apontam seus dedos longos
bem para o meio de minha testa molhada.

Sopros de vida acordam-me.

Sou mãemulheresposa,
again.

O espelho nega.

Nega o espelho.

Again,
esposamulhermãe sou.

Me acordam vida de sopro.

Molhada testa minha de meio o para bem
Longos dedos seus apontam e
Riem deuses os.

Rápidos mais vez cada
rápidos mais vez cada
rápidos mais vez cada
me circundando
corre que tempo o
- estática -
observa vida a.

Encontro-me onde?
Misterioso ponto no
existe arte de quê.

7/24/2008

Digressões sobre a Lei Seca (ou O sujeito não tem carro)

1.
viva a bebida
chuva
amiga
de todos
os bêbados

viva a bebida
amarga
fadiga
viúva
de todos
os bêbados

viva a bebida
mãe
irmã
namorada
sogra e tia
de toda
a humanidade


2.
Nunca fiz um poema
Bêbado
Nunca fiz um poema
Sóbrio

Se estou sóbrio
O poema é bêbado
Se estou bêbado
O poema é sóbrio

Baudelaire já dizia
Hay muchos años atrás
Embriagai-vos
De vinho vício ou virtude

Eu corrijo:
Virtude é engano
Vício é pretensão
Só o vinho é real
Concreto e verdadeiro!


3. Aproximação a Homero:

Mar, cor de
Verde
Caipirinha


4.
Difícil é andar
se se está mareado
sobre a, da praia,
areia.

Como bolhas
saem as palavras,
quando, com o mar
na garganta, fala-se.

Entre coqueiros
o ar, circulando,
é aquário,
se se está mareado.

Meu nome,
o mar sabe,
quando estou mareado.


5. Aproximação a Pessoa:

Não sei se o mel
Do seu coração
É ilusão do azedo:

Com a cachaça
E o limão
Retempero meu medo.


6.
Puseram limão
No estruturalismo
Cachaça
No pós-modernismo,
Gelo e açúcar
Na lista de citações

A verdade talvez mergulhe
Em sua meiga embriaguez.

7.
A cidade se banha
no azul líquido
das televisões.

- noite de domingo –
nos bares
bêbados recordam
suas antigas noivas.

7/20/2008

Liquidação



O tempo,como uma etiqueta, cai
indiferente, preso ao pé da alma
perdida em seu departamento. Sai
do fundo desta loja a sempre falsa
balbúrdia insana que irradiam tantas
bugigangas, imóveis ou não, só
a esperar das etiquetas brancas
novos sentidos, não apenas pó,
o que acumula sobre as superfícies
quando o tempo desaba, ainda que
pareça imóvel etiqueta e ria
ao pé das coisas tontas, insensíveis,
mudas: nunca se perguntam porque
essa luz fria instala o eterno dia.

7/19/2008

Aproximação a um poema de Creeley

Eu cresço entre tensões
como flores
num bosque onde
ninguém põe os pés.

Cada ferida é perfeita,
fecha-se num minúsculo
botão imperceptível
doendo fundo.

A dor é uma flor como esta
como aquela
como esta
como aquela.

7/13/2008

nº 4




Olhos que perseguem a urdidura do caos e, desembainhado o punhal,
a cega mão o agita excessivamente - mas é tarde.
Foi-se o presente em delicado papel depositado, posto que
nada de novo funda os horizontes vastos.
Entre esperança e memória
só uma imprecisão é o que nos define. Você não sabe qual perversão desenvolveu
o tempo
e se esta autoriza tão grande inconseqüência e a banalidade
das horas.


(das "Notas Marginais").