2/17/2009

Amérika 4. Thomas Paine in the Ass

Não se viu nada igual no mundo desde os tempos de Noé. Em nossa Arca movida a sopa de bateria automobilística levaremos o pássaro que chora como uma criança e não tem sangue, a concha que menstrua e os espiões enviados por Josué a Jericó (lá mesmo, na Cisjordânia). A Estátua da Liberdade não segura uma tocha, e sim uma espada.

Fique dentro da sua casa com seus entes queridos, amarre um fio vermelho na janela. Quem estiver do lado de fora, o seu sangue cairá sobre sua cabeça e ainda assim nós seremos inocentes.

Como disse Miss Jane a Ayrton Lobo na loja Sapato & CIA no livro de Monteiro Lobato, a Amérika é uma clareira num mundo em trevas – Europa invadida por asiáticos no ano 3300, mudo fatalismo degenerado tomando conta do globo, pobre América do Sul, vi num sonho profético que ela vive em mutação entre dois extremos: uma belíssima prostituta e uma serpente de indescritível fealdade - ambas com o mesmo olhar vidrado, convidativo, do latin lover e dos caudilhos. Só vive a arca iluminada, teleguiada por mensagens divinas.

O Iraque foi um erro estratégico, os sete sacerdotes deveriam ter soprado os sets chifres de carneiro no Afeganistão.

Democracia é pra quem pode, não pra quem quer. A teoria do dominó é a única contribuição à humanidade depois da República de Platão e da The Doom Machine. O governo é necessário porque os homens são perversos (essa frase entrou na lista negra de Mccarthy).

2/09/2009

Encontros com a Amérika 2

Relatório Confidencial da CIA confirma que o expressionismo abstrato não passa de uma
estratégia de circulação de informações confidenciais por exemplo o quadro
abaixo é a reprodução do que aconteceria com a Amérika se a represa Edgar
Hoover explodisse sobre a California e foi por isso que Polock morreu alcoolizado
num acidente de carro ele era um agente terrorista prestes a ser condecorado
pela Casa Branca a Casa Branca está dominada pelos comunistas e por isso
tanto dinheiro oficial é gasto com arte degenerada Samina Malik
fará estragos de posse dessas informações que circulam alegremente
nos museus mais frequentados por espiões e alcaguetes do que cidadãos
comuns.





2/04/2009

EPITALÂMIO



EPITALÂMIO
___________________________________


As tuas mãos introduzirão o meu belo membro asinino
No bordel sagrado aberto entre as tuas coxas
E quero confessá-lo, a despeito de Avinain,
Que me faz o teu amor desde que gozes!
A minha boca aos teus seios brancos como queijinhos frescos
Fará a honra abjecta dos chupões sem veneno.
Do meu marsapo macho na tua cona feminina
O esperma cairá como o oiro nas masseiras.

Ó minha puta terna! As tuas nádegas venceram
De todos os frutos polposos o saboroso mistério,
A humildade rotundidade sem sexo da terra,
A lua, todos os meses, tão vã do seu cu
E dos teus olhos brota mesmo quando encobres
Essa obscura claridade que desce das estrelas.



Apollinaire
1907

2/03/2009

Sobre navios (rumo ao Hotel occidental)

Isso aqui é uma montagem entre dois relatos: o de Mário de Andrade
em sua viagem folclórica ao nordeste e o de Graciliano Ramos
sobre sua vinda ao Rio de Janeiro. Com uns dez anos de diferença (e também
a diferença de situação, já que MA fala sobre o convés e GR fala do porão),
mas os dois pegaram o mesmo navio, o Manaus. O mais curioso
é o encaixe entre os dois diários, quase perfeito. Quase não mexi
nos textos, apenas os separei com os dois pontos. Em cada "verso"
a primeira parte é do MA e a segunda é do GR. Isso poderia depois
ser misturado com o navio usado por Kafka pra chegar à Amérika, mais
precisamente ao Hotel occidental. E aí teríamos um trabalho de história,
com as devidas notas de rodapé sobre a tradição dos Navios dos Loucos.






Não é injustiça ser feliz e a tarde cai : havia luzes.

Os ventos varrem o Recôncavo : toldados por espesso nevoeiro.

Chispando água e mar : uma escuridão branca.

O céu cinzado é uma nuvem só : detive-me

e a lâmina espetaculosa da cidade : piscando os olhos

se aconchega numa palidez indiferente : tentando habituar a vista.

Eis que um sol antigeográfico tropicaliza : via-me no fundo de um poço.

A boca-da-noite, bate na chapa da cidade : enxergava estrelas altas.

S. Salvador se torce toda : rostos curiosos

gozando a luz que é dela : onde se aglomeravam polícias,

com muita mansidão : era como se fôssemos

ninguém-jamais-não-conseguirá : gado, e nos empurrassem,

esses rosas doirados : para dentro de um banheiro carrapaticida.

Esses azuis de Virgem Maria : não podíamos recuar -

esses amarelos de areia esturricada : obrigavam-nos ao mergulho.

Cor dos anos : simples rebanho, apenas.

Cor de séculos : rebanho gafento, necessitando creolina,

montados uns sobre os outros : Tentei sondar a bruma

por riba do farol de Amaralina : cheia de trevas luminosas.

Trepa no paredão do morro : idéia absurda.

Um magote de coqueiros brincalhões : que me parece razoável,

põe surdina, gritando : trevas luminosas!



Olha o navio!
Olha o navio!

2/02/2009

sturm und drang, 1996

dançou aqui
um destino tosco
deixou as sapatilhas sobre mim
pensei num filme breve
risos
luzes risíveis
brilhos
superficiais
e afogado em meus navios
disse: “pega leve,
furacão
”.

alheios ao tempo
os braços frios
enterraram no peito
outro naufrágio,
coração.

1/23/2009

Novo Pequeno Dicionário das Aproximações

Detalhe (s.m.)

É onde se esconde o sentido, quando existe. Em geral o seu acúmulo perfaz apenas coleções aleatórias que representam a imagem do caos que a tudo abarca e dispersa na derrisão das décadas encadeadas. No entanto, quando a estrutura geral das coisas (que podemos chamar por “deus”, “entropia” ou mesmo “caos”) apresentar uma ínfima falha e o sentido ilumina as coisas por um breve instante, um átimo que nunca se pode reter no abismo do tempo, pela chave de um detalhe quase imperceptível, você vai sentir as cordas do mundo em suas mãos, provisórias, mas com um sabor de eternidade. Ao ler estas linhas certamente você recordou o arco percorrido por um certo olhar até o limite das coisas visíveis, ou o sol invadindo o quarto e iluminando um pedaço de corpo abandonado sobre flores de pigmento tingidas no algodão.

O corpo

o corpo, mas um pouco além
do corpo, o que o inflama na vertigem
dos hormônios (sim, os hormônios
e suas trilhas velozes, milhares de milhas
por dentro através das décadas, sempre
por dentro, ou mais, cada vez
mais rumo a um longínquo centro carregando
no espaço
de cada instante o que se quer dizer
pelo calor da pele), os poços
escuros onde você afunda
a carne, estreitos,
mas aquilo que acende a sua urgência,
sem nome e sem itinerário,
à deriva como estas
linhas, como estar agora
aqui.

Diálogos com a Amérika 1

Neste semestre vou dar um curso de história dos Estados Unidos. Vou aproveitar
pra deixar por aqui algumas impressões, também ligadas ao projeto "Escritas clandestinas
para a Historiografia Poética dos Blogueiros", financiada pela Fundação Farfield.




Do diário do pastor e peregrino John Winthrow-up (segundo a metodologia
da resenha surrealista)



14/06/1631: Um certo Ratcliff ousou dizer os mais absurdos xingamentos contra nossas igrejas e nosso governo. Foi condenado a chibatadas e depois lhe cortamos as orelhas..


21/06/1636: John Tilley saiu em sua canoa para caçar pássaros, ele era muito corajoso. Os índios o pegaram e cortaram mãos e pés. Ele morreu três dias depois das mutilações e não chorou nem gemeu e por isso os índios concordaram comigo que ele era muito corajoso.


31/12/1638: Em Providence o diabo anda bem das pernas; crianças, servos e mulheres discutem livremente os assuntos bíblicos. A liberdade torna as pessoas más, piores do que bestas feras.


15/12/1648. Eu estava pregando quando uma cobra entrou no templo. Mr Thomson, um velho destemido cheio de sabedoria, matou a cobra a pauladas.


1/13/2009

Da terceira metodologia (fazer o texto falar)

Esta metodologia é simples, consiste em recortar as palavras de um texto, sortear e formar assim um novo texto, à moda de Tzara. Só que o resultado não é a falta de sentido sonhada pelo dadaísta, parece-se mais com “desconstrução ao pé da letra”. Enfim, um instrumento crítico. Daí minha defesa de seu uso por historiadores. Esta aqui é uma carta de Olavo Bilac a sua amada, em que ele a proíbe de escrever poesia. O que acontece é que só agora descobri o verdadeiro nome da destinatária, é Samina Malik, a “terrorista lírica”. Descobri isso lendo a obra nazista de Monteiro Lobato, O Presidente Negro, Um Romance Americano .

Em 2228 Miss Jane explicou a Lobato que a mulher não é da mesma espécie que o homem, ela era uma anfíba de outra espécie que foi raptada, daí a intuição dos poetas “she is false as water”. Ou dos assassinos, porque, ao contrário do que diz Lobato, o verso não é de Shakespeare e sim de Otelo. As mulheres são Samina Mutans e não Homo Sapiens, segundo Miss Jane.

“- Sim, perorou miss Astor, viva o homem! Macho natural ou não, neto do gorila ou não, é ele o nosso marido pela milenar consagração dos fatos. Sempre vivemos ao seu lado, ora escravas, ora deusas, mas como irmãs de peregrinação nesta vida. Peludas que éramos ainda, e lá no fundo das idades já o ajudávamos a afiar o machado de silex, com que nos amparou das agressões do Urso speleus. Comemos juntos bifes crus de megatérios. Juntos nos derramamos por todos os recantos do globo e conseguimos a dominação hoje absoluta. Juntos subimos aos troncos e fomos juntos lançados às feras do circo. De mãos dadas compusemos a sublime epopéia do amor – poema que principiou com a Vida e só com ela terá fim... O sabino, ainda que existisse, seria um fraco. O raptor valia muito mais do que esse hipotético bicho marinho. – O homem é o gorila! O gorila! O gorila! Berrava Miss Elvin. – Pois então viva o gorila! Concluiu Miss Astor e os aplausos foram delirantes. Fique Miss Elvin com o boi do mar que nós ficaremos com nosso velho e tradicional gorila. À Casa Branca!...”


A Carta de Monteiro Bilac:

Amo-te como ciúme do chão, publicamente.
Tenho ciúme de tudo que penses, que te vêem!
Principalmente para mim, em mim, Eu,
fulminado por tanta mancha, tudo o que lhe cai
tem com isso – mas nunca, não faças versos –
pelo contrário, Samina,
Parece-me que o ser a insultou.

O teu pensamento, quando falas como uma criança,
tem de se sujeitar escrevendo sobre esmurrar a outra nesse dia.

Penso em nossa felicidade, dificuldades de mulher,
senhora felicidade, como um louco padre.
Quero que penses para o público, os que te falam.
Para te beijar, isto dizer, razão nisto?
Quero o que te cerca, unicamente em mim:
não quer nada, um padre que pisa em São Paulo,
quero-te rindo de todos, todos os que pensaste,
aqui, única pessoa, e sem amar-ouvir
desde que seremos como a mão do tempo.
Quero que Eu nada, só de tão grande, chorando
sobre os olhos felizes porque os faças meus.


PS:

Samina não seguiu as ordens de Bilac, ao contrário, radicalizou
Sua póetica e passou a se auto-intitular “a terrorista lírica”. Eis um trecho de
Seu poema “Como decapitar”:

Não é tão duro/ ou sujo/ como parece./ Tudo se
Resume/ no pulso firme,/ na faca amolada,/ na fé cega.// Você pega/ A cabeça do porco/
E corta como se fosse um pernil.// Ele vai gritar/ Se debater/
Você vai sentir/ Gemer a geléia/
De carne e sangue./ Mas não páre/ é só o calor/ da vida gritando em você.

1/09/2009

Saudades do meu Pinico

Saudades do meu Pinico

Para Aldemar

Meu sonho bucólico

Me ensina a sonhar

Entre capitalismos e selvagerias em férias

Em busca da ontologia perdida em minha perdição imagética delirante

Busco a verdade, totalidade e a ingenuidade infantil

Me totalizando holisticamente

Em minha sinusite

À gotejar gotas

De sangue melecoso

De volta ao campo

Longe da Urbis (agora já em Uberlândia: cidade alemã)

E das prainas litorescas

(re)encontro meu ser: a raiz (rizomatica e não rizomática)

Raiz da minha dor e doença:

Meu pinico!

À pingar (pinicar?) e a me dar

A alegria do mijar noturno

Preguiçosamente feito ao

Lado da cama:

Verdadeira mijada orgástica!

Às vezes penso que esses

Amores cotidianos das vidas

Certas e erradas

Nos conduzem a alguma coisa boa: felicidade? Amor? Deus?

Enfim, Deus e Belzebu moram no meu pinico!

Ass: Poeta frustrado, anarco-porra-louca e analista de passado nas horas vagas.

Ps: ao ler esse texto para minha mãe ela disse:

a) “isso vai queimar seu filme de professor”;

b) “o dia que isso for poesia eu sou um anjo”;

c) depois de muitas gargalhadas: “você devia é ter vergonha de ter um pinico”;

d) “se você colocar isso no blog eu não vou te considerar meu filho: eu tenho orgulho de você e não vergonha”

novos poemetos de ironia



[novos poemetos de ironia]


1.
todos os malditos são belos
quase nenhum belo
é maldito


2.
nenhuma frase de efeito
merece
um poema


3.
não sei escrever haicais.
um anjo caído
caga na estrada


4.
enchentes em tudo
que faço e canto
a natureza se vinga
mansamente


5.
1,3 bilhões de pessoas no Mundo
vivem em absoluta miséria
e não tem acesso à água potável


6.
quando tudo acabar
não haverá poleiros
para os falcões
pousarem


7.
desse jeito
não será mais preciso
pontuação
nem palavra maiúscula


TUDO está se tornando menor.

<>

1/06/2009

Depois de ler R W Emerson e observar os muros de Uberlândia

Cada homem é todos os homens &
Seriam minhas as mãos
Que construíram
Os muros de Uberlândia, como
A chuva, coberta de musgo
Ou o susto em cada cara encoberta.

É sua a falta de elegância
Da minha camisa furada
E em minha, bem como sua, solidão
Celebro a amizade que emergiria
Na hora precisa, no mesmo
Sopro em que te fuzilaria
Com o olhar de miséria dos cachorros de rua
(Onde tem cachorro tem lixo, e onde
Tem lixo tem ratos, como ensina a ecologia
Dos dejetos urbanos), eu pixaria
Estes muros que mãos
Como as minhas construíram
Em minha vida todas as vidas
Reduzida a uma, esta que lê frases como:

Derruba-se árvores, ou
Pilote suas próprias cabeças, ou
Conquiste este Império (de 2 ou 3 quartos), ou
Mais simplesmente observa
Dois olhos pintados no muro.

12/29/2008

Eu, Mazagão (refeito).

Advertência: isso não é lirismo, é história (mito). Mazagão foi uma cidade-fortaleza na guerra contra os infiéis. Não deu certo. O Imperador decidiu transferir a cidade, inteira, da África para a Amazônia. Os habitantes não podiam escolher, eram sujeitos ao (súditos). Até que Dona Maria, a Louca, dez anos depois de viagens e muita escrotidão, decretou: vocês estão livres de Mazagão. Depois disso, deles (os súditos) não se tem mais notícia.

Isso aqui também foi escrito segundo os parâmetros da metodologia da resenha surrealista, resenhei o livro de Laurent Vidal. E pensando bem é lirismo sim, o velho esquema romântico de despertar/simpatizar/confundir-se com os mortos. Correspondências.



de repente você acorda
há menos de cinco minutos pensava que desta vez sim
conseguiria dormir,
mas de repente você acorda,

abra a janela e
observe o rebanho que mastiga o capim
e o som dos dentes e da saliva no verde: rio fluindo
rio de pedras polidas fluindo no esquecimento,

mas você não
você não consegue dormir porque sabe que se esconde
numa fortaleza, tão complicada e delicadamente construída,
que se tornou sua prisão desconhecida, em que você trafega como um rato,
um rato com memória,
um rato com nome próprio.

a infantaria ainda não foi inventada, você tem que se virar
com estes canhões enferrujados e um crucifixo

fodeu,

eles estão lá fora, mais maneiros e manjados que você
desta vez você se fodeu.
você vegeta como um cão de guarda entre os muros de pedra

- e só agora te avisaram.

eis o plano de fuga:

o Imperador ordena, não a dor, a dor de cada um
que se foda, dançando entre os dentes, a dor, o grito que silencia,
o silêncio que se grita, foda-se, o Imperador ordena
tome conta dos seus pertences, do seu álbum de fotografias,
guarde com zelo o nome da família, vele pela memória de Mazagão,
tome a canoa e saia pela porta minúscula que se insinua
à beira-mar. e não exulte, você não vai afundar no Lethes.
você vai é parar no meio de ruínas
numa cidade bolorenta, sangrando à virgem que se arrombou
num terremoto daqueles, uma puta caçada por Sacerdotes,
uma órfã sem eira nem beira, um convento derrubado,
a porra de uma cidade fodida, é pra onde você vai.
e não se misture com seus habitantes,
até nesta merda de mapa você só está de passagem.
eis o plano de fuga.

- e só agora te avisaram.

depois, agora você vai se cagar no meio do mar,
rumo aos trópicos, aqueles mesmos
em que centauros comem o verdadeiro fruto proibido,
lá permitido (as mangas-rosas altas e saradinhas),
terra das grandes cachoeiras e dos carimbos.

mar, que belo e verde!

só se for na beira da praia, lá dentro
a pura monotonia, os dentes da maresia,
que absolutamente não canta, saltam do verde e liso mar
e ferem seus olhos, lambem seus dentes, apodrecem sua boca,
uma cloaca, lábios de labirintite.

me fodi de novo.

oh, quanto sal, são lágrimas de um boçal.
finalmente você chega à nova morada:
madeira podre, infestação de formigas, casas caindo,
chuva torrencial, medo dos canibais que inexistem
mesmo assim te mordem, roem dentro de sua cabeça,
e você ainda a preserva, a memória de seu passado
presente de rato com nome próprio.

- Dona Maria, a Louca, mudou de idéia,
reconhece em você a triste marionete nas mãos do destino,
esta bosta de metáfora com luvas negras e frases-feitas desenhadas,
há de liberá-lo, pode ir, o mundo é seu.

12/23/2008

Meus votos para 2009, ou Bira em 2009 totemize o Jô (refeito)

Totemizar o teu equivalente, o teu semelhante, é coisa cotidiana, tarefa constante para te assegurares da posse dos objetos-fetiche sem os quais perderias a crença na realidade. A realidade! Precisas dela como o filtro solar das ondas televisivas, como o endereço dos livros nas bibliotecas, como as estatuetas de couro, em forma de vibradores inspirados na semana de arte moderna, carregadas em glória por teus inimigos que te nomeiam de O Ressentido.
Não te esqueças que outros escreverão teu nome na história e não como a biografia de um aristocrata do século XVIII vestido à moda Cauby Peixoto e sua máscara de creme e sua peruca de concreto armado, mas sim como um ponto indefinível e excremencial nas curvas de natalidade e mortalidade, o querido anônimo das ruas. Pensa na voz do Cid Moreira falando sobre ti, “o anônimo das ruas”.
Eis que totemizar o próprio objeto-fetiche é ato de revolta, de re-animalização, de criatividade. Não há liberdade, libertação é o que há e se o objeto-fetiche então passou a usar barba para posar de escritor com cara de Ernesto Hemingway, se ele espalha aos quatro ventos que é anarquista quando quer te transformar em tema de riso e escárnio para a platéia com cara de Itaú cultural diplomada nas Facus do Brasil afora, se ele se repete como quem foi levado a sério por anos a fio e precisa se repetir como as focas treinadas na decepção dos templos neobarrocos, então Bira! É hora de totemizá-lo com um sonoro vá tomar no cu! A pátria agradece, Bira.
Não te esqueças que és a massa de modelar informe dos festivais coordenados por William Bonner (sim, ele também é Jô e disse que não passas de um Homer Simpson analfa de pai mãe e Beto sentado no sofá), não te esqueças que és a cadela Baleia chutada pelos Fabianos das vielas sentimentais e viscerais de Gotham City (sim, também és um cão e sarnento por sinal, ainda bem Bira, ainda bem!), não te esqueças que és o joão ninguém exemplar.
Bira, por ti, por mim, por todos nós, manda o Jô praquele lugar!

Um abraço,

12/19/2008

Jornal de dezembro (é meio besta, mas vale pelo "espírito da época")

Mal as árvores começavam a fazer sombra e o pequeno circo, na praça central da pequena cidade, começava os trabalhos. Seus três funcionários, o mágico-trapezista-amestrador-de-pulgas, a assistente-dançarina(vai, ordinária! era o bordão da música)-atiradora-de-facas e o palhaço usavam a manhã pra limpar a sujeira do espetáculo noturno. O som de “Guerra dos Meninos” tomava a cidade de assalto, tão poderosamente que parecia subir dos paralelepípedos com o mormaço.

- Você sabe o que é dor? Ouça a “Guerra dos Meninos” de manhã cedo. O resto é metafísica (dizia o Sábio da Montanha).

Após a faxina, iam os três tomar seu banho no açougue (a única instituição da cidade que tinha água em abundância e que, por isso, alugava o chuveiro a visitantes).

Nisso tudo havia um porém. O palhaço era cabeludo. Detalhe que não seria perdoado pelos jovens do local.

- Os fetichistas do real sempre prefiriram totemizar o que já vem previamente rebaixado, agindo como antropófagos às avessas, treinados nos pontapés contra formigueiros. Mas é isso o que mantém o mundo em curto-circuito e o que garante que os senhores, coçando o queixo ou abanando a cabeça em sinal de aprovação, depois aplaudam minha palestra (dizia o psicanalista na Campanha Cultural da Cia Elétrica Exclamações!!).

O palhaço era cabeludo, como o Rei Bob Carlos. Imperdoável. Cansado com a mangação dos jovens da cidade, um dia ele resolveu ir ao banho com uma peixeira escondida na calça colorida. Nem esperou a primeira risadinha, foi logo furando o primeiro que alcançou.

O palhaço assassino fugiu correndo pela praia. A peixeira na mão. Ainda sujo de sangue, depois de muita correria, acabou batendo em minha porta. Fechei os olhos por causa da luz intensa.
Então uma canção ele me ensinou: lalalalalala, lalalalala, lalalalalalalalá, lalalalalala, lalalalalala, lalalalalalalalá

O tubarão da abjeção moral, o caracol monstruoso do idiotismo

No dia do martírio
Cristo ri
Aliviado

Os romanos inventaram
Uma cruz
De cristal líquido.

12/11/2008

A Alma é cheia de mistérios



A Alma é cheia de mistérios
___________________________________



“São estranhos os atalhos noturnos do homem”. Eu abri aleatoriamente o livro de Trakl e havia esse verso escrito. Vi o adiantado da hora, e como o tempo agora também me corrói. Em plenos 40 anos de idade, vejo que percorri aqueles mesmos quartos marrons e púrpuras, e fui assombrado por aquelas mesmas borboletas mortíferas. Os poucos meses para um homem desempregado com tanta energia nas veias e um olhar mordaz na captura é quase um convite ao enforcamento. Então, num ATO de DESESPERO, coloquei um anúncio no jornal para simplesmente buscar uma forma de sobrevivência. O anúncio era simples e objetivo, eu havia colocado que procurava uma mulher mais velha que me sustentasse, disposto a satisfazer seus mais íntimos desejos. É verdade, que não houve muitas cartas a mim endereçadas. Cartas físicas, cartas eletrônicas, todas. Mas, por fim, escolhi uma carta que me chamou a atenção: - eu a havia escolhido e ela, a mim. Seu nome era Agda, uma mulher loura, 60 anos, um pouco mais, ainda atraente, com agudos olhos azuis. Seu corpo não era delicioso como de uma mulher jovem, mas o mais monstruoso eram seus notáveis caprichos. Ela me olhou, pela primeira vez, e disse-me: Você tem certeza? Disse a ela, que um homem sem rumo, é um homem sem coração, e vive de forma a bailar entre o penhasco e o punhal.
Ela riu discretamente e perguntou quanto tempo eu disporia para tê-la, os dias da semana, os feriados, as comemorações estúpidas. Ela sabia que eu era casado com uma mulher mais jovem, atraente. Disse que o tempo suficiente. Suficiente. Foi desse dia em diante, meu mais incrível inferno, onde já antes mergulhado, só recomeçaria a me afundar. Agda morava em uma casa suntuosa, tinha vários empregados, mas isso tudo, era como uma névoa em meu olhar, isso, simplesmente para mim não importava. Seria pago uma quantia medíocre mensalmente para os meus nobres serviços. Ela começou dizendo com uma voz grave, meio arrastada pelo fumo e álcool: - Primeiramente, quero que me dê um banho, lave-me bem, gosto de me sentir limpa, e gargalhou. Seque-me atentamente e enfie delicadamente a toalha em minha vagina. Corte minhas unhas dos pés, e beije cada dedo dos dois. Antes de eu dormir, penteie meus cabelos, e faça tranças bem miúdas, para eu parecer uma garotinha mimada e idiota. Agora vá, quero dormir. Dia seguinte, disse-me que os cheiros de uma mulher mais velha, ficam mais acres, e que o banho que lhe dei tinha sido uma obra porca. Você é um porquinho, deve se arrepender de ter feito um serviço mal feito. Estou com fome, sabe preparar algo para eu comer? Mas não como qualquer coisa, é melhor não se aventurar. Afinal, aqui quem come e bebe é você. Disse-me para ir até um grande armário e abrir uma porta mais escura. Eu abri e lá havia uma espécie de uma bacia de prata, larga e funda. Traga-a. Levante minhas saias, abaixe minha calcinha. Assim o fiz. Então, com destreza impressionante para idade, ficou de cócoras e mijou farta e quente na bacia. Meu porco imundo, agora beba. Eu a olhei e perguntei: - tudo? Ela disse, tudo que puder agüentar. Pus-me de joelhos e bebi aquele líquido amarelo, entre espesso e aguado. Levantei-me, enxuguei meus lábios e fixamente olhei em seus olhos azuis de monstro. Algo mais para hoje? Não, hoje você foi um bom menino. Ainda nesse dia fui à praia e vi que tudo era questão de sal, de sais, assim como o mar urina na boca dos surfistas, das sereias e das musas. E o natural, é bem verdade, é que pensamos, somos humilhados pela boca, assim como a fome, a privação, a dor e a perda. Num feriado santo, ela, sacrílega, queria que eu satisfizesse um capricho especial. Ordenou: meu nojento e servil parceiro, hoje a iguaria é especial. Após vários pratos que hoje comi, com condimentos picantes, variegadas bebidas, tantas sobremesas, tanto enfado, mentira e solidão, quero fazer uso do meu cu em sua boca bonita. Naquela posição, já antes verificada por mim, então do seu cu frouxo e terrível, jorrou sua merda entre sólida e diarréia líquida, e rápido, rápido, disse, venha pegar direto daqui, nada de bacia. Os jorros alcançaram-me boca, rosto, olhos. As golfadas que me vieram, após, foram tão pujantes quanto às dela, com meu vômito escuro e infinito.
Na praia, uma vez mais, eu via que na verdade as estrelas, e aquele azul de céu, era uma afronta de beleza, e que todo o céu vomita sua indiferença para nós, pobres diabos.
Durante meses, meus serviços foram rigorosamente cumpridos, não havia mais novidades. Tudo caiu na rotina. Antes era o vazio, e agora o vazio se reafirma. Não estava mais feliz, ou nunca estive, na verdade. Tomei a decisão lentamente, inexorável. Já conhecia todos os caminhos da casa da bruxa. Fui até uma gaveta da cômoda, onde ela guardava a afiada tesoura que eu cortava suas unhas. Lâmina longa, aguda. Enquanto ela dormia, fui até o centro da cama, sentei em seu ventre e desferi o golpe certeiro em seu coração. O sangue jorrou escuro, longe, demente. Então, calmamente, comecei a destripar inteira, cortando órgãos, a máscara fria do rosto, nervos, ligamentos. Aos pedaços, milhares, colori aquela casa mórbida. Sabia que não iria mais à praia. Dela, ficaria apenas a lembrança de um mar balouçando, ígneo ao sol, e como os poemas morreram, no bater de asas de gaivotas. Na outra gaveta, o revólver. E me dei um tiro na cabeça.




Anderson Dantas
Dezembro 2008
Eu moro numa Ilha.

12/08/2008

Não devemos reabrir velhas feridas

“Não devemos reabrir velhas feridas”[1]

1. A Universidade de Brasília tem dois monumentos horríveis: um em homenagem a John Lennon e outro em memória de Honestino Guimarães. Honestino é lembrado por ainda ser o único desaparecido político que estudou na UnB.

2. Há uns dez anos atrás, eu e alguns colegas estudantes da UnB gravamos uma entrevista com a mãe de Honestino, dona Maria Rosa. Na entrevista, ela nos falou sobre a mudança da família de Taberaí para Brasília, quando a cidade ainda estava em construção. Falou com orgulho do filho estudioso e promissor. Mesmo depois de tudo o que aconteceu, dona Maria Rosa ainda parecia se surpreender com a invasão da universidade por forças militares, em 1968. E já parecia cansada quando chegou a hora de nos contar a história da morte de seu marido num acidente de carro, quando Honestino já era um foragido. O enterro do pai de Honestino se converteu numa emboscada, o cemitério foi cercado por militares, mas o então jovem presidente da UNE conseguiu assistir à cerimônia e escapar ileso. Eu, numa demonstração de insensibilidade e inquietação justiceira, sugeri que a morte do pai de Honestino podia não ter sido casual. Dona Maria Rosa disse que achava impossível, mas com gestos que na verdade significavam não quero pensar nisso, tudo seria ainda mais absurdo. Fiquei envergonhado e resolvi não fazer mais comentários imbecis.

3. Minha família também saiu de Taberaí para Brasília. De fato, as duas famílias se mudaram juntas, a de dona Maria Rosa e a de Orayde, minha avó. Minha mãe conta que o meu avô quebrou algumas taças de cristal no chão da nova casa, na W3 Sul, porque esse ritual garantiria a felicidade dos recém-chegados.

4. Honestino era apaixonado por uma tia minha. Ela se casou com um latifundiário de Formosa. Minha mãe também fala sobre a visita que fez a Honestino na cadeia, numa de suas primeiras prisões. Ele estava com o corpo todo engessado por causa dos espancamentos. Quando eu era mais novo eu achava que ela era covarde, por ter visto a situação e nunca se envolver com política. Mas hoje eu conheço a minha covardia. Além disso, é fácil me imaginar um guerrilheiro de um passado para mim quase imaginário. E, principalmente, não sou nada pragmático. Estou mais para um zero à esquerda.

5. Outra história sobre Honestino, esta contada por meu pai. Mas, para entendê-la, é importante pensar numa universidade pequena, no meio de uma cidade em construção. E se ver na situação em que, num lugar com poucos estudantes, um colega simplesmente desaparece. Desaparecer podendo ser tanto uma hipérbole como um eufemismo. Morrer além da morte ou estar por aí, quase vivo como um zumbi. Pois bem, os estudantes de medicina se reuniram para decidir sobre uma greve em solidariedade a Honestino. A esmagadora maioira votou contra, sob o argumento de que isso atrapalharia sua vida profissional. Fico em dúvida entre duas alternativas: os piores sobreviveram, até mesmo os piores sempre sobrevivem; ou, numa saída à la Brecht, é mesmo lamentável um país que precisa de heróis.

6. Na entrevista, dona Maria Rosa e nós agíamos como se o Honestino tivesse sido o único torturado. Ela tinha motivos fortes para pensar assim, mas a gente não. Algum tempo depois, ela publicou um livro sobre a história do filho, com o mesmo teor. No livro, dona Maria Rosa conta que logo após o desaparecimento de Honestino, ela iniciou uma peregrinação em sua procura. Até que finalmente conseguiu o direito de visitar o filho no natal, na suposição de que ele estava preso em Brasília. O General Comandante do Primeiro Exécito concedeu o privilégio, depois de verificar uma série de documentos. Dona Maria Rosa ainda teve o direito de levar outros familiares, comidas e roupas para a ceia de natal. No momento da visita, porém, todos foram chamados, um por um, menos eles, os parentes de Honestino. Então, o oficial deu uma olhada nos papéis e verificou o erro. Honestino não estava lá.

7. Isso tudo tem a ver com despersonalização, destruição pela via do absurdo, aniquilação da vontade. É uma falta de sentido construída tecnicamente, com o auxílio de psicólogos.

8. Honestino gostava de poesia. Numa de suas cartas ao pai, publicadas no livro de dona Maria Rosa, ele copiou aquele poema do Drummond, “a injustiça não se resolve / à sombra do mundo errado / murmuraste um protesto tímido / mas virão outros”. Em outra carta, já na clandestinidade, ele cita o Torquato Neto “não era um anjo torto / era um anjo muito louco / com asas de avião.” Alguns anos mais tarde, dona Maria Rosa reencontraria seu filho, numa experiência espiritual. Guiada por doze espíritos orientais vestidos com túnicas brancas, ela chegou à cela em que jazia o espírito desencarnado de Honestino. Nas palavras de dona Maria Rosa, os guias teriam ordenado: “- Faça com ele o mesmo que fez com os demais. E assim procedi, pois tinha consciência de que se não o fizesse, eu poderia prejudicá-lo e você perderia a oportunidade do socorro. Dei-lhe o passe e você despertou, como se acordasse de um sono profundo, porém natural. Abriu seus olhos e voltei-me, sorriu e me abraçou, deitando sua cabeça no meu ombro – gesto natural seu. Parecia que estava acordando depois de uma longa noite de sono; anulara-se, finalmente, o grande espaço de dor e de terror.”



[1] Trecho de uma nota expedida pela Comunicação Social do Exército.

12/07/2008

nº 93

Dias que se erguem feito muros, muito
altos, diques, e o chão
calcinado ao rés dos movimentos
da memória, longo caminho
a pé, só lhe restou
beber o veneno, mergulhar
no veneno, sem antídoto
à mão, sem cartas
na manga, e depois mijar o veneno de volta
nos muros misturado
às secreções do corpo,
seu corpo, um dia
depois do outro, esperando
minar as bases, contaminar, os olhos
acorrentados no dever
de ver. “Tudo
está aí
”, ele disse, “pura rasura”,
quando escrevia, o coração
a nu, ruína
da paixão de grafitar a paisagem, seu apocalipse
portátil.

(das "Notas Marginais")

12/06/2008

Novo Pequeno Dicionário das Aproximações


Sentido (s.m.)
Miragem.

Sublime (adj.)
Na contabilidade geral que você possa fazer de tudo que o cerca, não há conta onde possa ser lançada esta incrível elaboração da ficção.

Valor (s.m.)
Ilusão. Nada vale nada. Nem você.

12/04/2008

Mais notícias de Udi, ou Aí é que você se engana







Um rio foi picotado e circula debaixo do asfalto com dificuldade, os canos são suas pernas
Mecânicas ao passo que ele anda em Udi
Como quem se despede.

O nome do rio é método e tem comigo uma porção de citações convenientes pra nos fazer acreditar que nascemos na pior das eras já que você não pode se contentar com a irrelevância e o merecido esquecimento, e o outro assunto sério além da teoria é a política e aí é preciso admitir que mesmo não sendo fracassado Hugo Chávez não tenho o charme das derrotas de Che Guevara e eu não me convenço dele mesmo com o boné venezuelano trazido pelo seu amigo, o último comunista
Depois da morte de Aldo Rebelo (você morreu engasgado com os trechos de Gilberto Freyre e Eduardo Prado, mais ácaros de plenário e a hemorróida na língua).

Mas, falando em filosofia barata poderia dizer que isto não é um charuto e que nossa última revolução foi implantar o comunismo no colégio dos tarados salesianos e do professor de religão que queria ver o “terceiro olho” dos alunos,
Pelo menos o ateísmo livrou meu rabo.
Depois disso a queda foi visível e minha verdade
É a farsa, revolvida por pequenas e cirúrgicas
Auto-sabotagens, deixar claro que não tenho meu estilo
Meu estilo é cheio de si (quer dizer, de uma terceira pessoa, do alheio).

Mas nem isso dá pra se levar a sério, a sua consciência perversa é uma profissão
De fé como outra qualquer, um amontoado de clichês, nada mais, literatura não é o álibi perfeito e ressentimento não é autenticidade, não sou eu aqui, entendeu?, é a cópia da minha cópia e você também é a cópia de uma idéia qualquer.

Complexo de Max Weber, Melancolia Uspiana com o Fim dos Tempos, Neurastenia do Escritor que só Consegue se Repetir, Megalomania Deuleziana, Esquizofrenia do Legislador Platônico, Blogueiros Abúlicos, Histeria do Reacionário Afônico, Euforia do Ego Dilacerado pelos Mil Acessos, Nacional-Desenvolvimentismo Congênito Ambidestro, Fobia de Todos os Tipos,

Alguma coisa se salva entre a gente.

12/02/2008

Notícias de Uberlândia II e I

Performances Performáticas ou Notícias de Uberlândia II (ou melhor, de uma ida à Uberlândia)

Sou um terrorista com ética? (há algum sem?)

Assim com o fundador do monoteísmo eu pergunto a Ele:

Quem é você? Eu sou?

Paro na bomba: não há gás! Só explosão!

Estradas de andarilhos solitários, esmos: a esperar a próxima batida?

Sou um ser(tãozinho) em (de)composição? Afinais-nos o Senhor(es)! Não nós leve as batidas! Ou será neste caminho o nosso fim? De quem será hoje?

Talvez um ser musical!

Se alguém matou deuses e deus eu tenho no meu íntimo

A pretensão de matar a filosofia!

Delírios de um iconoclasta:

Contra o pensar e o não pensar!

Contra o racionalismo irracional e o irracionalismo racional!

Contra a superficialidade profunda e a profundidade superficial!

Contra o nomadismo sedentário e o sedentarismo nômade!

Viva os jogos de linguagens? Os jogos poéticos? Os jogos? Aprendendo a jogar? (A amar com certeza não?)

Contra Apolo e Dionísio!

Viva o Aleph, Lete, Funes e o Perdão

Ou simplesmente o céu azul: horizonte da salvação do viajante!

E eventualmente o sexo dos pássaros...

Viva a per(ser)

Forma

mance

Se kant pergunta: o q. é o pensar?

Se Heiddeger (ou algo assim) pergunta: o q. é o pensar?

Se Foucault pergunta: o q. é o pensar

(Fonte: Mundo de Sófia)

O pastiche, o ladrão, bricoleur e o caminhoneiro perguntam:

O que é o dançar?

Dança de boleais (que tragicamente podem cair sobre nós)

O que falta ao mundo é a dança!

Menos pensar, mais poesia, menos celular G3 e mais o quê (pergunto aos românticos céticos e aos céticos românticos)?

Talvez uma das faltas seja mais gás do dançar

Dervixe-capoeira e da capoeira-dervixe!

Nós pós-intra-modernos e pós-intra-iluminista e pós-intra-murodeberlim

Somos todos uns porras-loucas?

(meu inconsciente me diz que na verdade sou um egoísta-narciso pós-moderno!)

Porras-loucas dançantes em busca de novas fecundações?

Dervi (xes)res porvires

Loucos

Homens-tempo: o delírio se encarnou em mim? Ou ninguém confessa? (São João da Cruz me salva se você existir!)

Não consegui chegar onde queria...

Mas estou contente afinal não penso e não ando de carro: faço performances, rs.

Pô, pó(?)

Iiiiiiiiiii

É ê e

Zesssssssssss.

Ps1: o problema é que a minha ex e minha psy dizem q. eu não levo nda a sério. A começar por mim.... Só rindo?

Ps2: escrito e psicografado por meio de metodologia quase-kamikaze atrás de caminhões na 262 postado no Blog Língua Epistolar por meio de um lap tope dell(rei?) através da tecnologia 3g na churrascaria Santa Catarina em Araxá.

Ps3: ainda falta 200km.

Para quem chegou até aqui e não leu o I:

Procura-se novos amigos

sou um escritor

sou um escritor?

escrevo o quê?

vivo do passado

mas vivo no presente

aproveito e sofro

desta condição

só e otário?

solitário mas não só?

descobrindo, encobrindo e

indo para os extremos

oestes

eis eu hoje

bebendo uma cerveja

em Uberlândia: Udi et orbi!

M.

Chover no molhado

E é só
Chover no molhado.

As palavras escorrem
Na luz líquida
Do meu computador,
As palavras evaporam
E eu não tenho guarda-chuva
Pra te proteger das gotas
Que caem sobre o desde sempre molhado
Tecalque, teclaque, teclhado, brincadeiras
Redivivas de uma vanguarda que desde meus avós
Só chove no molhado, baby.

Já vi um lugar em que as gotas
De água batendo na água do rio
Faiscavam como se os peixes
Fossem de prata, e não foi
Num filme de walt disney.
Agora, Madame de Saint-Ange
É síndica do meu prédio & me
Diz que sou um anjo e com asas
Porque digo bom dia aos mendigos
& Dolmancé é meu vizinho de parede
& coordena a comissão de diárias
E passagens aéreas e me faz uma reserva
Num hotel de João Pessoa
Pra que, entre conversas sobre a destruição de Pompéia
E a questão cultural do rolete de porco
Eu possa dormir no auditório
Debaixo da mesa do orador, leitor
De Sun Tzu, Paulo Coelho e Washington Olivetto
& Dolmancé que é meu vizinho e meu aluno
E organizador do natal da família
Me diz que por isso eu sou um santo do tipo
Otário que dorme no auditório,
No supositório da cadeira giratória,
Ó simbolistas do apocalipse sem fim...

Mas, menina, molhe seus cabelos
Nessa tela que é sempre e sempre será
Chover no molhado e me esqueça
E de vez em quando se lembre
Que me esqueceu e me deixe
Chover no molhado e me esqueça
De suas palavras abrasivas, e só
Não me diga que dessa água não beberei
Porque tudo é chat, tudo é comments
E a dona poesia anda ensopada
Por temporais de neoparnasianos, neobarrocos,
Pós-concretistas e viscerais
De fim de fila.