Você não vem novamente. Alegou
desta vez a chuva intermitente há
dias persistindo sobre os telha-
dos da sua cidade e da minha. Sou
refém de um animismo primitivo
e me queixo às coisas quando, em repouso,
penso dizerem verdades que ouço
e simulo crer, como no destino
ou na maior parcela das pessoas:
é uma solidão este tumulto
que me ladeia. Em vão,frente à arisca
face do amor, quero o abismo e todas
as vertigens desse filme inconcluso
onde estou só, sem luz, sem roteirista.
Quando você é vulgar: apenas negocia convenções, não domina os segredos, qualquer um pode dizer que árvore é o nome de uma cidade, que cidade é o nome de uma arma, que arma é um sentimento, que sentimento é o nome de um faraó. A língua epistolar é a conversa vulgar no desentendimento, mesmo que este ocasione encontros repentinos e imprevistos. É quando uma criança autista diz pra você: se o mundo gira, porque você não fica tonto?
6/29/2008
6/26/2008
70 personagens de um romance inacabado de Lima Barreto
O medíocre aponta o dedo pra lua,
pra melhor ver o próprio dedo.
Citação tirada da placa inaugural da rodoviária de Uberlândia.
Primeiro Movimento
É tudo sempre o mesmo
Marlon.
Eles vivem no mundo
Da lua e escrevem
Por encomenda, nos rigores do método
Taylorista enfiam a viola no saco e tomam
O café
Melado de açúcar.
Paus pra toda obra
Fazem de tudo
Pra “introjetar”
Que a corporation é uma corporação
De ofício: de fato
Se vê romantismo
Nesse lance de relatório
Artesanal.
(Mas num ônibus ninguém
Os distinguiria
De uma excursão de gerentes de bingo).
São fodidos
Pedindo emprego,
A missão da empresa é dizer que:
A cidade é boa, a terra
É fértil; ubérrima
Diria Policarpo Quaresma,
Um sonho tornado real.
Segundo Movimento
No coro dos infelizes
Você pensa que é
Especial porque usa um blog
Como escarradeira e não quer
Ser confundido
Com os gerentes de bingo:
“Minha camisa
Amarrotada
É minha bandeira” ou
A estátua tem
Uma cabeça grande
E brilhante
E um corpo de dar
Inveja
Aos cães amestrados
Com seus diplomas iluminados
Pelo luar do sertão
Mas as notas de rodapé
São de barro
(O sonho apocalíptico
De Daniel).
Terceiro Movimento
Uberland – Ubermensch,
É latim, é inglês
É alemão
É a finitude
Do homem ocidental
É a hermenêutica pós-moderna
É o festival de citações
A carta na manga e o bolso vazio
À sombra dos clones
De Roberto Justus.
É o lirismo
Do pesadelo acadêmico.
É a poesia
Sem charme
Dos concursos, escrita
Com os tipos dos carimbos[1]
Que não deveria ter sido
Escrita,
Não merece ser lida.
[1] Carimbo: etimologicamente, o ferro em brasa usado pra marcar os escravos que saíam de Luanda. Escravos como Aristóteles, mas sem o consolo da filosofia, fechada para o balanço. Falida.
pra melhor ver o próprio dedo.
Citação tirada da placa inaugural da rodoviária de Uberlândia.
Primeiro Movimento
É tudo sempre o mesmo
Marlon.
Eles vivem no mundo
Da lua e escrevem
Por encomenda, nos rigores do método
Taylorista enfiam a viola no saco e tomam
O café
Melado de açúcar.
Paus pra toda obra
Fazem de tudo
Pra “introjetar”
Que a corporation é uma corporação
De ofício: de fato
Se vê romantismo
Nesse lance de relatório
Artesanal.
(Mas num ônibus ninguém
Os distinguiria
De uma excursão de gerentes de bingo).
São fodidos
Pedindo emprego,
A missão da empresa é dizer que:
A cidade é boa, a terra
É fértil; ubérrima
Diria Policarpo Quaresma,
Um sonho tornado real.
Segundo Movimento
No coro dos infelizes
Você pensa que é
Especial porque usa um blog
Como escarradeira e não quer
Ser confundido
Com os gerentes de bingo:
“Minha camisa
Amarrotada
É minha bandeira” ou
A estátua tem
Uma cabeça grande
E brilhante
E um corpo de dar
Inveja
Aos cães amestrados
Com seus diplomas iluminados
Pelo luar do sertão
Mas as notas de rodapé
São de barro
(O sonho apocalíptico
De Daniel).
Terceiro Movimento
Uberland – Ubermensch,
É latim, é inglês
É alemão
É a finitude
Do homem ocidental
É a hermenêutica pós-moderna
É o festival de citações
A carta na manga e o bolso vazio
À sombra dos clones
De Roberto Justus.
É o lirismo
Do pesadelo acadêmico.
É a poesia
Sem charme
Dos concursos, escrita
Com os tipos dos carimbos[1]
Que não deveria ter sido
Escrita,
Não merece ser lida.
[1] Carimbo: etimologicamente, o ferro em brasa usado pra marcar os escravos que saíam de Luanda. Escravos como Aristóteles, mas sem o consolo da filosofia, fechada para o balanço. Falida.
6/18/2008
A medalha milagrosa
Na varanda do hotel
A moça vestida
De sibila
Desencantada fala em esquecimento
Como gotas sutis que
Caem de sua boca &
Apagam
Pouco a pouco
A paisagem, enquanto isso
Na suíte sacerdotal
Um peixe
Na garrafa de vinho
Cheia de sangue
Insiste
No direito de ser lembrado
Por laudos periciais
Para todo o sempre,
amém.
A moça vestida
De sibila
Desencantada fala em esquecimento
Como gotas sutis que
Caem de sua boca &
Apagam
Pouco a pouco
A paisagem, enquanto isso
Na suíte sacerdotal
Um peixe
Na garrafa de vinho
Cheia de sangue
Insiste
No direito de ser lembrado
Por laudos periciais
Para todo o sempre,
amém.
6/14/2008
outro relato, nem tão imparcial
Fala e sombra no deserto, onde tudo acontece. E o deserto ficou líquido de repente, afogando os peixes, que não sabiam morrer de improviso e cuspiam palavras que se colaram num céu de chumbo apenas superfície, impenetrável. Como não aprendi o que fazer com elas, acordei, e a mão negou-se a sair do sonho: ainda acariciava a areia e a água. O céu não, apenas pesava e era uma lembrança de que não se sai inteiro, não se sai inteiro do trânsito simultâneo de dois mundos.
6/13/2008
o tempo no tempo
disse uma
única
vez
ao amigo!
mas eu não tenho tempo!
e caminhou cansado
de volta pra casa
vendo aquele mesmo
mar que agora é
o outro
sem fim
sem mim
e depois disso
não mais disse
está mergulhado
em algo que não
ama
nem mesmo
sabe
o quê.
indefinível.
e volta pra.
e caminha.
única
vez
ao amigo!
mas eu não tenho tempo!
e caminhou cansado
de volta pra casa
vendo aquele mesmo
mar que agora é
o outro
sem fim
sem mim
e depois disso
não mais disse
está mergulhado
em algo que não
ama
nem mesmo
sabe
o quê.
indefinível.
e volta pra.
e caminha.
6/10/2008
Relato imparcial de um sonho
Ele, não me lembro de seu rosto ou outros sinais característicos, mergulhava no alto mar. Tudo leva a crer que era o mar quente da Bahia. Mas isso vinha mais da impressão causada pelo verde quase marrom, não era possível sentir a temperatura da água. Em seu jeito de olhar, ou na maneira como nadava, ou melhor, boiava, nada transmitia a sensação de desespero que por ali flutuava, meio ausente. Ausente, apesar de ele estar preso numa daquelas gaiolas que mergulhadores usam pra se verem livres
dos tubarões.
Ele estava lá na terceira pessoa. Vi tranqüilo, mas perplexo depois de acordado ao me lembrar de minha ausência neste sonho que, junto com o mergulhador normopata, dentro da gaiola, boiava um cadáver carcomido pela água salgada. O rosto do cadáver era marcante, tipo filme de terror B: dois buracos no lugar dos olhos, mas buracos que enxergavam, afinal de contas você sente quando está sendo observado; os dentes amarelos se destacavam na boca azulada.
6/03/2008
nº 18
Na impossibilidade de serem místicos
('ah, luzes da cidade,
por que, distraídas, não acendem meu destino?')
seus olhos colecionaram sexos que brilham à noite como flores planas e úmidas
de duas hastes.
O amparo do cético é o abismo, como se Deus
ejaculasse indiferente, em sua túnica violeta. Você, arlequim, só queria
despir o que é e se perder na fuzarca do mundo. Aqui
cada um escolhe o próprio veneno, mas não se sabe
que inseticida mata, definitivamente, os vermes
da paixão.
(das "Notas Marginais".)
('ah, luzes da cidade,
por que, distraídas, não acendem meu destino?')
seus olhos colecionaram sexos que brilham à noite como flores planas e úmidas
de duas hastes.
O amparo do cético é o abismo, como se Deus
ejaculasse indiferente, em sua túnica violeta. Você, arlequim, só queria
despir o que é e se perder na fuzarca do mundo. Aqui
cada um escolhe o próprio veneno, mas não se sabe
que inseticida mata, definitivamente, os vermes
da paixão.
(das "Notas Marginais".)
6/01/2008
Direto de Goiânia
Hospedado no inferninho
O sujeito reage bem
Ao cheiro de pequi
Impregnado nos lençóis
Lendo O Samurai Corporativo,
Vulgo
Pecuarista do ying yang.
"O mundo é rico
de inimigos".
No café da manhã
Sun Tzu apontou
O dedo indicador
Pra testa do discípulo
Usando o polegar
Como gatilho
Depois disse à recepcionista
"O seu chocolate
Está no frigobar"
& Sun Tzu disse:
"A buceta é a crise do liberalismo"
O sujeito reage bem
Ao cheiro de pequi
Impregnado nos lençóis
Lendo O Samurai Corporativo,
Vulgo
Pecuarista do ying yang.
"O mundo é rico
de inimigos".
No café da manhã
Sun Tzu apontou
O dedo indicador
Pra testa do discípulo
Usando o polegar
Como gatilho
Depois disse à recepcionista
"O seu chocolate
Está no frigobar"
& Sun Tzu disse:
"A buceta é a crise do liberalismo"
5/28/2008
Castelos
Como teu pássaro, sem ar, me perco.
Como vinho derramado em página envelhecida,
sou ardor de tempo,
madura e forte:
transbordante.
Sou castelo de areia estalando ao sol:
- intacto -
(por enquanto).
5/25/2008
nº 79
Quando não tem fronteiras a tristeza
e o olhar de dentro do olhar
(fora de si) anda em busca do tempo
perdido, sem medo das arestas,
você percebe que não há
margens onde se possa por
os pés e parar (‘riscar uns versos
com o corpo, no ar’) e que sua pele,
morta, restou além da fronteira
inevitável, no apagamento das bordas,
dos limites, no universo infinito e
agora contaminado por outro
infinito, o tempo, e a lama que carrega
o seu fluir, antes do fim da queda
você enxerga que o limite é só
você – cruzando a cidade, o vento
que toca sua pele já deslizou
pelos rebocos, folhas, espelhos, e aí
seu corpo é só outro objeto, carne
quente, fome, desejo, porque
o espírito é uma entre muitas
possibilidades, a que carrega
o espanto e a dor que você gostaria
de poder largar em qualquer
ferro-velho.
e o olhar de dentro do olhar
(fora de si) anda em busca do tempo
perdido, sem medo das arestas,
você percebe que não há
margens onde se possa por
os pés e parar (‘riscar uns versos
com o corpo, no ar’) e que sua pele,
morta, restou além da fronteira
inevitável, no apagamento das bordas,
dos limites, no universo infinito e
agora contaminado por outro
infinito, o tempo, e a lama que carrega
o seu fluir, antes do fim da queda
você enxerga que o limite é só
você – cruzando a cidade, o vento
que toca sua pele já deslizou
pelos rebocos, folhas, espelhos, e aí
seu corpo é só outro objeto, carne
quente, fome, desejo, porque
o espírito é uma entre muitas
possibilidades, a que carrega
o espanto e a dor que você gostaria
de poder largar em qualquer
ferro-velho.
(das "Notas Marginais").
5/21/2008
Séduction

Em meio às palavras e letras
suas mãos espalmadas pedindo as minhas.
Seu peito empavonado
bem à minha frente.
Escondo-me em minha situação,
conteúdo e forma combinados:
medo e tempo
tempo e medo
e o dia de sol ardendo em meus cabelos.
As crianças gritam ao nosso lado:
a vida vomitada em faces rosadas.
Até quando? - eu me pergunto,
e o eco se repete tantas vezes...
O espaço é grande.
Vai ser um tipo de tortura delicada e o torturador
Ah!
Adoro vê-lo.
- Odeio vê-lo -
(menino bonito)
Ele apenas me encara.
E se mostra.
5/19/2008
nº 77

Outono ardente (tantos anos
depois de outro verão, gelado
até a medula, mas como se
coladas, por um estranho salto
da história, uma estação
na outra), pura sangria, ainda
que não se saiba se haverá
espetáculo todo dia em seu
circo particular de horrores,
os olhos querem desgastar
imagens, repetir, repetir,
no disco arranhado do tempo
em que a lua gira sem eixo
e você pretende, mais uma
vez, desarmar a metafísica
por dentro e expor a carne
à sua natureza e seu destino.
depois de outro verão, gelado
até a medula, mas como se
coladas, por um estranho salto
da história, uma estação
na outra), pura sangria, ainda
que não se saiba se haverá
espetáculo todo dia em seu
circo particular de horrores,
os olhos querem desgastar
imagens, repetir, repetir,
no disco arranhado do tempo
em que a lua gira sem eixo
e você pretende, mais uma
vez, desarmar a metafísica
por dentro e expor a carne
à sua natureza e seu destino.
Notícias de uma cidade barroca
1.
Anjos brotam
como bolhas, gritando quase
esmagados pelo peso dos santos
cravejados de caveiras,
mortos a quatro balas
Corpos enterrados
Nas pizzarias:
Guias turísticos e garçons
Negros, velhas moedas de cobre
Negras, terra ocre
Nas mãos negras
Fotografam velhos ruidosos &
Grupos escolares:
Anjos brotam
como bolhas, gritando quase
esmagados pelo peso dos santos
cravejados de caveiras,
mortos a quatro balas
na estrada que liga Ouro Preto a Mariana.
2.
Velhos se escondem
no teto da nave central,
sentados à mesa
de jacarandá misturam o chantilly ao chocolate
meio amargo
usando a cruz
de prata como colherinha.
3.
Cidade macabra, roída
De minas, esburacada –
2.
Velhos se escondem
no teto da nave central,
sentados à mesa
de jacarandá misturam o chantilly ao chocolate
meio amargo
usando a cruz
de prata como colherinha.
3.
Cidade macabra, roída
De minas, esburacada –
Corpos enterrados
Nas pizzarias:
Guias turísticos e garçons
Negros, velhas moedas de cobre
Negras, terra ocre
Nas mãos negras
Fotografam velhos ruidosos &
Grupos escolares:
Conjurados e ex
escravos.
4.
Poesia em colunas
Vertebrais salomônicas
Nos cartões postais
Pinturas neobarrocas são ilustrações
Neoparnasianas à venda
O ouro escondido dentro
Das unhas. Daqui não se vê
A diferença entre ornamentos
E uma parede que grita.
escravos.
4.
Poesia em colunas
Vertebrais salomônicas
Nos cartões postais
Pinturas neobarrocas são ilustrações
Neoparnasianas à venda
O ouro escondido dentro
Das unhas. Daqui não se vê
A diferença entre ornamentos
E uma parede que grita.
5/14/2008
nº 78
5/13/2008
Dialetos de Brasília 1 (Gueto da margem central dos excluídos na praça dos poderes)
Pois é
Véi
Tipo assim
A gente
Hiponegoçado
Meio que
Talvez
A veia velha
Véi
Fechada
A boca aberta
Do extintor de incêndio
Mesmice no maor
Mormaço
Ei
Mas que papo
Mais
Sei lá
Eu hein
- heil - Véi
Véi
Tipo assim
A gente
Hiponegoçado
Meio que
Talvez
A veia velha
Véi
Fechada
A boca aberta
Do extintor de incêndio
Mesmice no maor
Mormaço
Ei
Mas que papo
Mais
Sei lá
Eu hein
- heil - Véi
5/09/2008
Explicação do dia
a véspera do fim já pulsa em outro calendário
futuro e postergado,
e o sol que cruza o céu desse futuro
arde na carne e acentua
o seu zinabre
este dia de sal e de fuligem
tem os pés em outro espanto, outra
véspera,
na insônia que vestiu a madrugada
e a prata de seu som
incendiou o que era só, a flor,
flor desbotada, o riso na sacada
não revelou o que lhe ornava e o que
lhe precedia
e o que lhe precedia lhe negava, a voz
de um outro dia, antes,
repetido, a véspera,
conseqüência de nãos e de auroras,
de procurar a fonte em terra seca
este deserto foi o que seguiu
a uma outra dor
na face anterior da via estreita,
folha arrancada a frio na espiral
onde o futuro ardia
e incinerava
a semente do deserto era vazia
e foi lançada ao chão despedaçada
no dia anterior,
e seu adubo é a página extraída
e o erro, o erro de nascer e de arriscar
uns passos tão precários
e um desejo
e esta manhã, esta pulsão
de carne e de desejo, esta agonia,
foi subtraída à flor de um outro dia
ainda prévio e sem pacto
com a esperança
mas sua raiz, o caule
que o vento dobra, o frio
efêmero, era só aspiração da terra
de alcançar a flor
que levitava
o caule era produto de outras horas, anteriores,
mais outra véspera
e sua secura nunca vi de onde vinha,
que cais de pedra em vínculos com a noite
ansiava por naus de ar que não tornariam
o oceano, o sal, a tempestade,
a baixa da maré, o casco de corais, ventos contrários,
e velas enfunadas,e cordame,
atravessaram a alba, sua parede,
a luz noturna ou
sua ausência, o crepúsculo, a tarde, o meio-dia
e outra manhã
até chegar às âncoras de agora
e ao extravio aqui nesta manhã, hora absurda,
superfície, agora, e o que sobrar
é subsolo, água abissal, desterro,
espelho de silêncio,
vão, degelo.
2005
futuro e postergado,
e o sol que cruza o céu desse futuro
arde na carne e acentua
o seu zinabre
este dia de sal e de fuligem
tem os pés em outro espanto, outra
véspera,
na insônia que vestiu a madrugada
e a prata de seu som
incendiou o que era só, a flor,
flor desbotada, o riso na sacada
não revelou o que lhe ornava e o que
lhe precedia
e o que lhe precedia lhe negava, a voz
de um outro dia, antes,
repetido, a véspera,
conseqüência de nãos e de auroras,
de procurar a fonte em terra seca
este deserto foi o que seguiu
a uma outra dor
na face anterior da via estreita,
folha arrancada a frio na espiral
onde o futuro ardia
e incinerava
a semente do deserto era vazia
e foi lançada ao chão despedaçada
no dia anterior,
e seu adubo é a página extraída
e o erro, o erro de nascer e de arriscar
uns passos tão precários
e um desejo
e esta manhã, esta pulsão
de carne e de desejo, esta agonia,
foi subtraída à flor de um outro dia
ainda prévio e sem pacto
com a esperança
mas sua raiz, o caule
que o vento dobra, o frio
efêmero, era só aspiração da terra
de alcançar a flor
que levitava
o caule era produto de outras horas, anteriores,
mais outra véspera
e sua secura nunca vi de onde vinha,
que cais de pedra em vínculos com a noite
ansiava por naus de ar que não tornariam
o oceano, o sal, a tempestade,
a baixa da maré, o casco de corais, ventos contrários,
e velas enfunadas,e cordame,
atravessaram a alba, sua parede,
a luz noturna ou
sua ausência, o crepúsculo, a tarde, o meio-dia
e outra manhã
até chegar às âncoras de agora
e ao extravio aqui nesta manhã, hora absurda,
superfície, agora, e o que sobrar
é subsolo, água abissal, desterro,
espelho de silêncio,
vão, degelo.
2005
5/06/2008
Estação Tietê
Uma das experiências marcantes da minha infância foi entrar no Rotor da Feira Agropecuária de Anápolis. O brinquedo era completamente enferrujado e quando começava a girar rangia, num som parecido com o da chegada do metrô. A velocidade aumentava e você ficava grudado nas bordas de ferro do Rotor. O pessoal da feira o chamava de Rotor Visceral por causa dos vômitos, mas principalmente pelo contraste com os bonecos de papelão do trem fantasma, ridiculamente mal feitos, os pobrezinhos não enganavam ninguém. Penso nisso agora como um tipo de exorcismo, porque o trem fantasma era muito mais apavorante do que o Rotor. Triste verdade para o brinquedo sincero.
Agora, um dos meus sintomas neuróticos é precisar tocar o metrô sempre que chego a São Paulo. E isso para ver se ele não é de papelão. Sei também que todas as paulistanas que me esperam no Tietê são de fato engrenagens vazias. Escondido atrás das paredes, um bando de garotas blasé de carne e osso, cabelos vermelhos e coroas de arame estilo miss Brasil controla os interruptores de luz. Tudo preparado como uma armadilha para a ilusão da minha chegada triunfal (mais à frente o que vem é o banho de sangue e os modismos barrocos, sei disso porque já me cansei de ler os poemas do Mário de Andrade e vi todos os filmes sobre Gotham City). Foi neste mesmo jogo de espelhos que Cornélio Pires se fez de caipira, sou um cara precavido. Mas se alguma destas paulistanas, não as de mentira, mas as reais que moram dentro das paredes da estação Tietê, pelo menos me desse um sinal de vida! Eu enfrentaria os guardas municipais e os vendedores de discos piratas de Elton John, só para transar com minha paulistana de fato e de direito nas águas do Tietê e eu teria na boca um gosto entre o amargo e o salgado, definitivo, visceral. Mas por enquanto entro no metrô, observo os morcegos de isopor, os vampiros luminosos de terno e gravata, e na saída penso em comprar uma maçã do amor numa daquelas máquinas de livros e refrigerantes.
Agora, um dos meus sintomas neuróticos é precisar tocar o metrô sempre que chego a São Paulo. E isso para ver se ele não é de papelão. Sei também que todas as paulistanas que me esperam no Tietê são de fato engrenagens vazias. Escondido atrás das paredes, um bando de garotas blasé de carne e osso, cabelos vermelhos e coroas de arame estilo miss Brasil controla os interruptores de luz. Tudo preparado como uma armadilha para a ilusão da minha chegada triunfal (mais à frente o que vem é o banho de sangue e os modismos barrocos, sei disso porque já me cansei de ler os poemas do Mário de Andrade e vi todos os filmes sobre Gotham City). Foi neste mesmo jogo de espelhos que Cornélio Pires se fez de caipira, sou um cara precavido. Mas se alguma destas paulistanas, não as de mentira, mas as reais que moram dentro das paredes da estação Tietê, pelo menos me desse um sinal de vida! Eu enfrentaria os guardas municipais e os vendedores de discos piratas de Elton John, só para transar com minha paulistana de fato e de direito nas águas do Tietê e eu teria na boca um gosto entre o amargo e o salgado, definitivo, visceral. Mas por enquanto entro no metrô, observo os morcegos de isopor, os vampiros luminosos de terno e gravata, e na saída penso em comprar uma maçã do amor numa daquelas máquinas de livros e refrigerantes.
5/01/2008
Tango
levantado do chão
as retinas dormitam
onde o sangue bate mais forte
e a carne pulsa
por conseqüência:
dos quatro estados da alma
nenhum serenou
tangido feito um boi
no matadouro
o coração sem opções
vasculha o fundo e
lentamente
rumina
1996
as retinas dormitam
onde o sangue bate mais forte
e a carne pulsa
por conseqüência:
dos quatro estados da alma
nenhum serenou
tangido feito um boi
no matadouro
o coração sem opções
vasculha o fundo e
lentamente
rumina
1996
4/29/2008
Conexões
Evidentemente
Tudo tem relação com tudo, a questão são os vários mecanismos da relação.
Isso sem contar a presença do Trio Los Angeles no segundo filme
Da série Superman.
Se não, vejamos:
“há um certo clima anticonstitucional no ar porque as bactérias gozam no calor e alguém tenta, em vão, traduzir um texto ilegível para o francês castiço das academias (‘eu entendo as palavras, isoladamente, mas o conjunto não tem sentido’). Mas este alguém é meu amigo e vou disposto a ajudar, mesmo com o peso no fígado e as ressacas que ficam cada vez piores, na sensação de ter comido todas as chumbadas que usei nas pescarias da infância”
relaciona-se com
“comenta-se no café Anauê a homenagem recebida pelo escritor. No banquete, os títulos de seus livros, sobre mulheres que na hora do banho esfregam a pele até sangrar, foram anexados ao cardápio. Anos antes, na prisão, entre incontáveis bitucas de cigarro e depois das doses de potassa oferecidas pra amortecer o corpo, ele tenta ler, sem sucesso, a história melodramática de uma criança. A criança mora com a mãe e fica horas observando o aquário com o peixe canibal. Tudo lento e triste, porque o despropósito do livro tem mais de oitocentas páginas”
que por sua vez remete a
“no convés do navio, o poeta segurando a Bíblia canta Somos todos prisioneiros. Do tempo, da carne, da mente que segura o mundo com mãos de ferro (as mãos do sentido). Talvez os prédios tombados pelo Patrimônio Histórico de Campinas entendam o que ele queira dizer com isso. Mas eu, péssimo entendedor, fico surpreso quando me dizem que o bairro onde Oito-Olhos se diverte multiplicando-se em matronas de óculos escuros foi, num passado longínquo, habitado por costureiras e operários”
relacionado a
“e no tédio infernal dos geladinhos de uva saímos à procura da cola de sapateiro, imprescindível. Mas o sujeito que teria sido meu cunhado numa outra vida nos ‘salva’. Vamos andar pelas dunas de jipe. Mas cuidado com o túmulo de Asclepíades, o velho morreu trepando e seu fantasma corre de pau duro pela praia”
tudo misturado com
“minha cara saindo de dentro da multidão é um espetáculo bizarro, um lance tipo assim zoológico”
Tudo tem relação com tudo, a questão são os vários mecanismos da relação.
Isso sem contar a presença do Trio Los Angeles no segundo filme
Da série Superman.
Se não, vejamos:
“há um certo clima anticonstitucional no ar porque as bactérias gozam no calor e alguém tenta, em vão, traduzir um texto ilegível para o francês castiço das academias (‘eu entendo as palavras, isoladamente, mas o conjunto não tem sentido’). Mas este alguém é meu amigo e vou disposto a ajudar, mesmo com o peso no fígado e as ressacas que ficam cada vez piores, na sensação de ter comido todas as chumbadas que usei nas pescarias da infância”
relaciona-se com
“comenta-se no café Anauê a homenagem recebida pelo escritor. No banquete, os títulos de seus livros, sobre mulheres que na hora do banho esfregam a pele até sangrar, foram anexados ao cardápio. Anos antes, na prisão, entre incontáveis bitucas de cigarro e depois das doses de potassa oferecidas pra amortecer o corpo, ele tenta ler, sem sucesso, a história melodramática de uma criança. A criança mora com a mãe e fica horas observando o aquário com o peixe canibal. Tudo lento e triste, porque o despropósito do livro tem mais de oitocentas páginas”
que por sua vez remete a
“no convés do navio, o poeta segurando a Bíblia canta Somos todos prisioneiros. Do tempo, da carne, da mente que segura o mundo com mãos de ferro (as mãos do sentido). Talvez os prédios tombados pelo Patrimônio Histórico de Campinas entendam o que ele queira dizer com isso. Mas eu, péssimo entendedor, fico surpreso quando me dizem que o bairro onde Oito-Olhos se diverte multiplicando-se em matronas de óculos escuros foi, num passado longínquo, habitado por costureiras e operários”
relacionado a
“e no tédio infernal dos geladinhos de uva saímos à procura da cola de sapateiro, imprescindível. Mas o sujeito que teria sido meu cunhado numa outra vida nos ‘salva’. Vamos andar pelas dunas de jipe. Mas cuidado com o túmulo de Asclepíades, o velho morreu trepando e seu fantasma corre de pau duro pela praia”
tudo misturado com
“minha cara saindo de dentro da multidão é um espetáculo bizarro, um lance tipo assim zoológico”
4/26/2008
nº 76

Sublimação feroz, a estocadas
de carne em outra carne, e a tentação
de ser moderno enquanto no desenho
do firmamento estrelas sugerem velhas
tramas para o mesmo enredo, elas
já estavam ali quando outros olhos alçados
do mesmo precipício se perguntavam
“porque?” entre os grãos de asfalto batendo
no cristalino ante a velocidade dos dias
enfurecidos pela ânsia dos calendários
em arremessar-se ao nada junto com as horas:
sublimação feroz, sem mapa, sem retorno,
este desajustar-se até que bem perto
do fim esteja só o fim.
de carne em outra carne, e a tentação
de ser moderno enquanto no desenho
do firmamento estrelas sugerem velhas
tramas para o mesmo enredo, elas
já estavam ali quando outros olhos alçados
do mesmo precipício se perguntavam
“porque?” entre os grãos de asfalto batendo
no cristalino ante a velocidade dos dias
enfurecidos pela ânsia dos calendários
em arremessar-se ao nada junto com as horas:
sublimação feroz, sem mapa, sem retorno,
este desajustar-se até que bem perto
do fim esteja só o fim.
4/24/2008
A partir de um poema de Swift
Por cinco horas Célia
Se enfeitava
(E quem seria mais rápido?)
Com camadas e camadas
De cremes, pomadas, óleos
Perfumes e pós
De todos os tipos.
Estefânio, aproveitando-se
Da folga da criada
Entrou no quarto de Célia e
Fez as devidas anotações,
E pra que não restem
Dúvidas, o que segue
É um inventário:
De cara, Estefânio deu com
Um avental engordurado,
Mas apostando em mera
Coincidência seguiu em frente.
Sobre a penteadeira viu
Uma escova com creme
Caspas e fios de cabelo,
Tudo tão misturado
Entre pedaços amarelos
De seborréia que mais parecia
Um prato de exóticas
Comidas tropicais.
Ali ainda
Entre frascos de perfumes, óleos e
Infusões cheirando a hortelã
Um recipiente
Com os restos de comida
De entre os dentes
De um ogro talvez
Nadando entre gosmas
Espessas de catarro: ali a dama
Cuspia o refugo
De seu hálito floral.
Pra melhor inspecionar
Estefânio recorreu às virtudes
Da poderosa lente
De aumento usada por Célia,
Capaz de multiplicar
Por mil o tamanho
Dos pontos de pus
Ocultos em seu rosto delicado
E agigantar a meleca
Que pendia recôndita
Em seu nariz, compondo
O piercing de esmeralda.
Indo ao canto do quarto
Atrás do biombo
Estefânio sentiu
O fedor mais intenso,
Lento e adocicado
De sua vida, como
Se ele tivesse aberto
A Caixa de Pandora
Com seus vapores maléficos.
Não acreditando
Estefânio trouxe à luz
O penico,
Que por negligência,
Da criada, guarnecia
Um troço parecido
Com um bom naco
De carne assada.
Os arabescos fedorentos
Causavam náusea
Como se saídos do fundo
Da garganta do demônio,
E seu tamanho mais lembrava
O produto de um fila brasileiro,
E por isso
Lamentando-se Estefânio
Canta:
“Meu coração é uma piscina
De sangue e merda
E porra onde Célia nada,
Porque, ai de mim!
Célia caga!”
O pior pra Estefânio
É que todas cagam
E não há perfume que
Não o lembre do quarto de
Célia, nem máscara de creme
Que não o assombre
Com a massa de seborréia
E caspas.
Ele ainda aprenderá
A abençoar a ordem que brota
De tamanha confusão,
As tulipas que repousam
Sobre o monte de estrume,
A beleza arrancada
Com afinco por cada
Musa-yahoo, como se lê
Nas viagens de Gulliver.
Se enfeitava
(E quem seria mais rápido?)
Com camadas e camadas
De cremes, pomadas, óleos
Perfumes e pós
De todos os tipos.
Estefânio, aproveitando-se
Da folga da criada
Entrou no quarto de Célia e
Fez as devidas anotações,
E pra que não restem
Dúvidas, o que segue
É um inventário:
De cara, Estefânio deu com
Um avental engordurado,
Mas apostando em mera
Coincidência seguiu em frente.
Sobre a penteadeira viu
Uma escova com creme
Caspas e fios de cabelo,
Tudo tão misturado
Entre pedaços amarelos
De seborréia que mais parecia
Um prato de exóticas
Comidas tropicais.
Ali ainda
Entre frascos de perfumes, óleos e
Infusões cheirando a hortelã
Um recipiente
Com os restos de comida
De entre os dentes
De um ogro talvez
Nadando entre gosmas
Espessas de catarro: ali a dama
Cuspia o refugo
De seu hálito floral.
Pra melhor inspecionar
Estefânio recorreu às virtudes
Da poderosa lente
De aumento usada por Célia,
Capaz de multiplicar
Por mil o tamanho
Dos pontos de pus
Ocultos em seu rosto delicado
E agigantar a meleca
Que pendia recôndita
Em seu nariz, compondo
O piercing de esmeralda.
Indo ao canto do quarto
Atrás do biombo
Estefânio sentiu
O fedor mais intenso,
Lento e adocicado
De sua vida, como
Se ele tivesse aberto
A Caixa de Pandora
Com seus vapores maléficos.
Não acreditando
Estefânio trouxe à luz
O penico,
Que por negligência,
Da criada, guarnecia
Um troço parecido
Com um bom naco
De carne assada.
Os arabescos fedorentos
Causavam náusea
Como se saídos do fundo
Da garganta do demônio,
E seu tamanho mais lembrava
O produto de um fila brasileiro,
E por isso
Lamentando-se Estefânio
Canta:
“Meu coração é uma piscina
De sangue e merda
E porra onde Célia nada,
Porque, ai de mim!
Célia caga!”
O pior pra Estefânio
É que todas cagam
E não há perfume que
Não o lembre do quarto de
Célia, nem máscara de creme
Que não o assombre
Com a massa de seborréia
E caspas.
Ele ainda aprenderá
A abençoar a ordem que brota
De tamanha confusão,
As tulipas que repousam
Sobre o monte de estrume,
A beleza arrancada
Com afinco por cada
Musa-yahoo, como se lê
Nas viagens de Gulliver.
4/21/2008
Manual Técnico da Dispersão e do Esquecimento
Coloco Kafka num vidro vazio de maionese. Tampo hermeticamente. Kafka tem muitas pernas e muitos pelos nas pernas. Ele não imagina o que pretendo fazer, destino. Cerebral, gelado, recolho os fósforos que descansam no parapeito de mármore e apóio o vidro com cuidado sobre a grelha do fogão. Planejo o movimento de minha mão no volante do gás com precisão, é necessária a mínima abertura para se obter a mais branda e uniforme chama. Kafka anda por toda a superfície interna do vidro de maionese, ele quer sair. É impossível, não está em suas mãos. Fora isso, as paredes são muito lisas e ele deve sentir extrema dificuldade em fixar-se a elas. Não sei como ele irá perceber o aumento da temperatura, que já começa na base do vidro – ele está próximo à tampa, na extremidade oposta, e não tem arquivos para avaliar a extensão do que irá ocorrer, do que lhe está acontecendo neste exato momento. Mas é inevitável, ele se movimenta instintivamente à cata de saídas e acaba tocando o vidro que começa a arder, em progressão geométrica, pela comunicação das moléculas em feroz movimento vibratório. O ar se rarefaz e turbilhona, aquecido e sem nenhuma emoção. Kafka demonstra desespero em seu instinto de permanecer vivo, e pula enlouquecido tentando subir pelas paredes cada vez mais lisas e ardentes da embalagem lacrada, mas não há lugar onde possa repousar as pontas de seus pés, não há pouso nem lenitivo para o que acontece. Não está em suas mãos. Por fim o vidro parece querer explodir e Kafka tomba sobre a parte mais quente, sobre a chama, destino. Ainda descreve pequenos círculos no ar, intermitentes, inarticulados, com duas de suas pernas, antes de cessar para sempre o que antes era vida. Não tenho um sentimento particular por Kafka, nem mesmo agora que jaz no fundo da embalagem de vidro, não me interessa o seu desespero inaudível, e talvez por tais motivos foi esta a melhor maneira de representar a angústia íntima que alguns versos produzem e o espanto de certas tardes, quando o coração arranhava a argila fria das paredes querendo escapar, sem ar, sem ar, sem ar.
4/20/2008
Do delírio
Eliana PougyShiva, Ganesh
Hino-versículo-mantra
Hino-versículo-mantra
Esclarece
Revela a limitação, o alcance
Revela a limitação, o alcance
Ilumina-(e)-me-clareia
Esse monte de nada, quebrada,
Essa curva
Essa estrada
O deserto coberto de mato, o cabelo
Movimento inexato,
O parto
- Repique -
Budas e orixás
Macumba-rito-oração
Cobre-me de luz, corroa
Desmancha a resistência passiva
O grito agudo, mudo
Estandarte
Arre
Divide ao meio, reparte
Risca o chão e separa o
Antes/
Depois
Faça-(o)-me-escolher
Faça-(o)-me-escolher
Encosta-me, parede
Cobre-me com suas asas
Toca sua lira
E a minha
Alcança o céu e me leva
Longe
Lois Lancaster
Entre figuras
Entre figuras
Uma paralela se separa
Estando evidente
Enquanto grama me absorve
E isso, que em tudo fica
Planeja o passado pra morar.
Estrondei um grito
Esmigalhado em grilos
Tomando então célere fluxo,
Rápidos a estarem onde estão.
A dor doa
E se acha
Uma vala a insistir
Tomada por fósseis de estima.
Encanta a distância ao impacto
E germinar, lá chegando, como
Palafita na maré
Se torna premente
Ao olhar.
É a área constraída
Com cheiro, canteiros de cimento
Sólido
Pastoso
É saber que um dia vai se erguer
O grande buda fetal
De cada casa
Numa escultura sem arte -
Estarei no almoço
Um guincho entre figuras
Invadindo o restaurante
Como flecha de horizonte
Você.
Hino-versículo-mantra
Uma paralela se separa
Uma paralela se separa
Esclarece
Estando evidente
Estando evidente
Revela a limitação, o alcance
Enquanto grama me absorve
Enquanto grama me absorve
Ilumina-(e)-me-clareia
E isso, que em tudo fica
E isso, que em tudo fica
Esse monte de nada, quebrada,
Planeja o passado pra morar.
Planeja o passado pra morar.
Essa curva
Estrondei um grito
Estrondei um grito
Essa estrada
Esmigalhado em grilos
Esmigalhado em grilos
O deserto coberto de mato, o cabelo
Tomando então célere fluxo,
Tomando então célere fluxo,
Movimento inexato,
Rápidos a estarem onde estão.
Rápidos a estarem onde estão.
O parto
A dor doa
A dor doa
Repique
E se acha
E se acha
Budas e orixás
Uma vala a insistir
Uma vala a insistir
Macumba-rito-oração
Tomada por fósseis de estima.
Tomada por fósseis de estima.
Cobre-me de luz, corroa
Encanta a distância ao impacto
Encanta a distância ao impacto
Desmancha a resistência passiva
E germinar, lá chegando, como
E germinar, lá chegando, como
O grito agudo, mudo
Palafita na maré
Palafita na maré
Estandarte
Se torna premente
Se torna premente
Arre
Ao olhar.
Divide ao meio, reparte
É a área constraída
É a área constraída
Risca o chão e separa o
Com cheiro, canteiros de cimento
Com cheiro, canteiros de cimento
Antes/
Sólido
Sólido
Depois
Pastoso
Pastoso
Faça-(o)-me-escolher
É saber que um dia vai se erguer
É saber que um dia vai se erguer
Encosta-me, parede
O grande buda fetal
O grande buda fetal
Cobre-me com suas asas
De cada casa
De cada casa
Toca sua lira
Numa escultura sem arte -
Numa escultura sem arte -
E a minha
Estarei no almoço
Estarei no almoço
Alcança o céu e me leva
Um guincho entre figuras
Um guincho entre figuras
Longe
Invadindo o restaurante
Invadindo o restaurante
Onde deuses fazem
Como flecha de horizonte
Como flecha de horizonte
Amar
Você.
Você.
ars poetica, 4
a poesia fica entre a paranóia (tudo está ligado)
e a anti-paranóia (nada está ligado) – você
tem que encontrar seu lugar no meio
do caminho.
e a anti-paranóia (nada está ligado) – você
tem que encontrar seu lugar no meio
do caminho.
4/17/2008
meus acessos e eu(s)

kalau: quem és kadosh?
kadosh: ... ?
alguma pergunta, um raio >>>
dorso amarelo e fúria, parque sem sol, terrífica sobrancelha
arqueado duque, duro aqueduto
duto, indulto
divórcio de águas, pássaro aleijado
esforço de ser palavra
reforço do NADA
kadosh: porque eu?
shiva-kadosh
machofêmea, espaço e gozo
brutal e silente
lâmina e salto
quem és?
respondo: kadosh em mim
sempre fui eu: para sempre!
Anderson-kadosh
livre e prisioneiro
da alma NADA
que nem o Sol
se levanta.
adeus.
kadosh: ... ?
alguma pergunta, um raio >>>
dorso amarelo e fúria, parque sem sol, terrífica sobrancelha
arqueado duque, duro aqueduto
duto, indulto
divórcio de águas, pássaro aleijado
esforço de ser palavra
reforço do NADA
kadosh: porque eu?
shiva-kadosh
machofêmea, espaço e gozo
brutal e silente
lâmina e salto
quem és?
respondo: kadosh em mim
sempre fui eu: para sempre!
Anderson-kadosh
livre e prisioneiro
da alma NADA
que nem o Sol
se levanta.
adeus.
Celebração a Dona Ana Rosa (Rasurada e guardada pra dias sem chuva, como hoje)
Hoje, nesta manhã esquisita,
venho celebrar o seu gesto, Dona Ana Rosa,
não posso dizer: o seu mais belo gesto,
seria muita pretensão,
porque celebrando o seu gesto
me vanlgorio de minha única vitória
na prosaica vida de professor,
minha também por ser compartilhada
com meu amigo Oliver Lira, seu professor de filosofia,
você se lembra Ana Rosa?
você está viva, Ana Rosa, seis anos depois?
me lembro quando te vi pela primeira vez
naquela faculdade de classe média alta
como ensina nossa vã sociologia
dizendo a mim mesmo, o que esta velha faz aqui?
é Dona Ana Rosa, você era mesmo muito velha,
e logo foi adotada pelas patricinhas como vovó,
uma doce vovó
que não entendia nada de nada.
quem te ouvia, porém, intuiu que o seu silêncio
e, por que não dizer?, a sua burrice
tinha tudo a ver com o verme do seu marido,
um filhadaputa que te chamava de burra na frente de todos,
mandava a senhora calar a boca e como te ensinaram
a ser doce, Ana Rosa, você simplesmente vestiu a carapuça
aliás, por que a senhora ia pra faculdade, Ana Rosa?
mentira! nossa mentira!
sim, como desgraçadas marionetes
respondíamos aos gestos do velhaco seu marido,
soube disso naquele dia, não posso precisar a data,
naquela cantina fétida, em meio às gordurosas esfirras, em que
você nos contou: “ontem respondi ao meu marido, você
é que não sabe de nada. você sabe alguma coisa de Platão?”
os alunos presentes se entreolharam, quase a dizer
como pode esta doce velhinha responder assim ao pobre marido?
eu não, eu me rejubilei,
pois sabia que você, como todos nós, não sabia que não sabia
nada de Platão, apesar de usar seu nome como elogio ou ofensa,
como o mais assíduo dos frequentadores de chats literários,
mas que depois de anos de encheção de saco
você simplesmente dissera o mais belo foda-se ao imbecil
dissera ainda no seu jeito manso e doce
e acredito que na sua vida nada mudou depois disso
mas quando você nos contou a história, vovó Ana Rosa,
seus olhos brilhavam, na mais pura Alegria,
e aqui vai a única referência literária deste relato:
brilhavam como os olhos do mendigo de Baudelaire,
só é digno da liberdade quem a conquista,
dizia o demônio... deixa pra lá, Ana Rosa.
depois de ter sido julgada pelos alunos jovenzinhos colegas
“olha a velha mostrando as garras”
a senhora bem que poderia um dia virar tema de entreveros
intelectuais.
pode crer, Ana Rosa, tergiversaremos sobre esta história,
perguntando-nos: isto lá é poesia? era mesmo Ana Rosa uma douta
platônica, independentemente das intenções do autor?
qual o significado desta alegoria?
alegoria cousa nenhuma, nem sequer poesia,
se fosse poesia seria inclusive uma poesia de merda,
(nós diremos, essa estratégia já foi usada,
é pra reforçar o efeito de realidade, uma saída
retórica como outra qualquer, não usemos esta
palavra, mas o autor deve sim ter uma intenção dissimulada)
mas Dona Ana Rosa, é aqui que o professor
aprende com o aluno, quero que se Fodam,
não as pessoas, porque delas gosto muito, mas nossas perguntas.
Falando nisso, Dona Ana Rosa,
ah sim: por que estou falando com a senhora se sei que não vai me ouvir?
deixa eu te dizer, Ana Rosa, é que solidão é foda.
alguém vai achar novamente que invento estórias,
(logo eu, cabeça tão fraca pra tecer tramas,
um escravo do que li e do que aconteceu)
diríamos: muito oportuno,
mas a senhora se lembra daquela aula que dei sobre o senso comum?
não sei porque, a aula era de História da Cultura,
o tema não tinha nada a ver,
recorri à, pode ser, poder ser, simplesmente não sei, superada filosofia
pra dizer que: o paladar por exemplo é a rigor indescritível,
posso te dizer isto é salgado, mas não fazer você experimentar
o salgado que estou provando, então por que acreditamos
que nos comunicamos? só mesmo a pergunta já deve revelar
alguma doença cultural, mas no meio dessa doença veio uma resposta,
é que temos um sexto sentido, o senso comum, sem o qual
não há nós, só mesmo eu, você, ele e ela.
entrego isto como quem envia embaixatrizes a outros países,
esta poesia ruim como aquelas flores compradas em bares,
entregues por um garçom manco e bêbado às mesas vizinhas.
espero que agora eu consiga dormir.
venho celebrar o seu gesto, Dona Ana Rosa,
não posso dizer: o seu mais belo gesto,
seria muita pretensão,
porque celebrando o seu gesto
me vanlgorio de minha única vitória
na prosaica vida de professor,
minha também por ser compartilhada
com meu amigo Oliver Lira, seu professor de filosofia,
você se lembra Ana Rosa?
você está viva, Ana Rosa, seis anos depois?
me lembro quando te vi pela primeira vez
naquela faculdade de classe média alta
como ensina nossa vã sociologia
dizendo a mim mesmo, o que esta velha faz aqui?
é Dona Ana Rosa, você era mesmo muito velha,
e logo foi adotada pelas patricinhas como vovó,
uma doce vovó
que não entendia nada de nada.
quem te ouvia, porém, intuiu que o seu silêncio
e, por que não dizer?, a sua burrice
tinha tudo a ver com o verme do seu marido,
um filhadaputa que te chamava de burra na frente de todos,
mandava a senhora calar a boca e como te ensinaram
a ser doce, Ana Rosa, você simplesmente vestiu a carapuça
aliás, por que a senhora ia pra faculdade, Ana Rosa?
mentira! nossa mentira!
sim, como desgraçadas marionetes
respondíamos aos gestos do velhaco seu marido,
soube disso naquele dia, não posso precisar a data,
naquela cantina fétida, em meio às gordurosas esfirras, em que
você nos contou: “ontem respondi ao meu marido, você
é que não sabe de nada. você sabe alguma coisa de Platão?”
os alunos presentes se entreolharam, quase a dizer
como pode esta doce velhinha responder assim ao pobre marido?
eu não, eu me rejubilei,
pois sabia que você, como todos nós, não sabia que não sabia
nada de Platão, apesar de usar seu nome como elogio ou ofensa,
como o mais assíduo dos frequentadores de chats literários,
mas que depois de anos de encheção de saco
você simplesmente dissera o mais belo foda-se ao imbecil
dissera ainda no seu jeito manso e doce
e acredito que na sua vida nada mudou depois disso
mas quando você nos contou a história, vovó Ana Rosa,
seus olhos brilhavam, na mais pura Alegria,
e aqui vai a única referência literária deste relato:
brilhavam como os olhos do mendigo de Baudelaire,
só é digno da liberdade quem a conquista,
dizia o demônio... deixa pra lá, Ana Rosa.
depois de ter sido julgada pelos alunos jovenzinhos colegas
“olha a velha mostrando as garras”
a senhora bem que poderia um dia virar tema de entreveros
intelectuais.
pode crer, Ana Rosa, tergiversaremos sobre esta história,
perguntando-nos: isto lá é poesia? era mesmo Ana Rosa uma douta
platônica, independentemente das intenções do autor?
qual o significado desta alegoria?
alegoria cousa nenhuma, nem sequer poesia,
se fosse poesia seria inclusive uma poesia de merda,
(nós diremos, essa estratégia já foi usada,
é pra reforçar o efeito de realidade, uma saída
retórica como outra qualquer, não usemos esta
palavra, mas o autor deve sim ter uma intenção dissimulada)
mas Dona Ana Rosa, é aqui que o professor
aprende com o aluno, quero que se Fodam,
não as pessoas, porque delas gosto muito, mas nossas perguntas.
Falando nisso, Dona Ana Rosa,
ah sim: por que estou falando com a senhora se sei que não vai me ouvir?
deixa eu te dizer, Ana Rosa, é que solidão é foda.
alguém vai achar novamente que invento estórias,
(logo eu, cabeça tão fraca pra tecer tramas,
um escravo do que li e do que aconteceu)
diríamos: muito oportuno,
mas a senhora se lembra daquela aula que dei sobre o senso comum?
não sei porque, a aula era de História da Cultura,
o tema não tinha nada a ver,
recorri à, pode ser, poder ser, simplesmente não sei, superada filosofia
pra dizer que: o paladar por exemplo é a rigor indescritível,
posso te dizer isto é salgado, mas não fazer você experimentar
o salgado que estou provando, então por que acreditamos
que nos comunicamos? só mesmo a pergunta já deve revelar
alguma doença cultural, mas no meio dessa doença veio uma resposta,
é que temos um sexto sentido, o senso comum, sem o qual
não há nós, só mesmo eu, você, ele e ela.
entrego isto como quem envia embaixatrizes a outros países,
esta poesia ruim como aquelas flores compradas em bares,
entregues por um garçom manco e bêbado às mesas vizinhas.
espero que agora eu consiga dormir.
4/16/2008
Pavio

1.
o dia dispara seus CONTRAtempos
CONTRA meus olhos lentos
- na marra
meu lábio seco finalmente toca
o hálito de teu sorriso ausente
essa aurora do meu sonho desatado
INDECENTE
2.
seu olho encarna então o tom sombrio
de quem sabe conjugar o verbo FRIO
como ninguém
esse pavio aceso ao meio-dia
sem ar/ OU
3.
BEM, você que sabe
traços de freios/ ERROS/ luzes/ GENTE
nos aproximam de um mar que estala
CONTRA meus olhos lentos
novamente
ao viajar pelo terreno urgente
do amanhã
gravado
a frio na pedra do presente.
1991
4/13/2008
rompemos a barreira dos 10.000 acessos
Devem estar distribuídos assim:
Daniel e Aldemar empatados com 2.500 acessos cada um (seria difícil precisar quem vence, por uma cabeça, como no tango de Gardel).
Eliana com 1.500 acessos.
Masé com uns 650.
Anderson lá pelos 800.
Nosso saudoso Löis não sei. E por falar em saudade, onde anda você, Löis? (extensivo à Masé)
O que sobra se divide entre os que entram por engano (muita gente, como os que procuram "o que é epistolar?" ou "coceira no ânus") e os nossos 2,5 leitores fiéis (nunca identificados, talez para não se comprometerem).
O visitante de númor 10.000 ganhará pela proeza uma mariola destas comuns.
O(a) felizardo(a) detém o IP 189.33.144 e é de São Paulo.
Favor indicar num post o endereço para remessa da mariola.
Espero que não tenha diabetes.
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