Mar, cor de
Cobre
Espuma da loucura
Cura-me
Da praia, fogueiras
Ao luau à beira
Da vida,
Os olhos
Estranhos dos animais
Que habitam
Teu ventre, dentes
Ondas mastigam
A sanidade dos turistas
(Iluminam, de dentro
Pra fora)
Os restos
De sentimentos mortos
Ao mar noturno comendo
Castelos de areia
Onde sonhamos
Estarmos despertos.
Em torno
Anjos voam
Como insetos.
Memória do mar
No primeiro desdobrar-se
Do coração
Na primeira lágrima
Desperdiçada.
Quando você é vulgar: apenas negocia convenções, não domina os segredos, qualquer um pode dizer que árvore é o nome de uma cidade, que cidade é o nome de uma arma, que arma é um sentimento, que sentimento é o nome de um faraó. A língua epistolar é a conversa vulgar no desentendimento, mesmo que este ocasione encontros repentinos e imprevistos. É quando uma criança autista diz pra você: se o mundo gira, porque você não fica tonto?
2/19/2013
2/11/2013
Artesanato morto-vivo
1.
Estou sentindo novamente.
O chão do apartamento é de areia e está todo marcado por pegadas de estranhos.
Me deito e flutuamos no vazio, numa cama barco esquife trancada por fora.
O universo é uma pétala transparente, ilimitada cápsula.
2
O pensador embalsama a jovem mulher e guarda a múmia num caixote, depois coloca o caixote num barco-esquife e solta o barco num rio qualquer. E é isso que se chama de artesanato zumbi – conceito essencial para a correta compreensão da história das idéias.
3.
Sempre que imaginamos, contra a intuição, estarmos num planeta em movimento é como se girássemos lateralmente. Nunca pensamos que estamos num movimento de roda gigante, subindo e caindo. Evitamos a respiração suspensa no ponto mais baixo da queda – e seria pior uma queda livre? Ou o pior é saber que a queda é apenas o recomeço e lá em cima teremos novamente que olhar para baixo e puxar o ar com força – antes de cair outra e outra vez?
Estou sentindo novamente.
O chão do apartamento é de areia e está todo marcado por pegadas de estranhos.
Me deito e flutuamos no vazio, numa cama barco esquife trancada por fora.
O universo é uma pétala transparente, ilimitada cápsula.
2
O pensador embalsama a jovem mulher e guarda a múmia num caixote, depois coloca o caixote num barco-esquife e solta o barco num rio qualquer. E é isso que se chama de artesanato zumbi – conceito essencial para a correta compreensão da história das idéias.
3.
Sempre que imaginamos, contra a intuição, estarmos num planeta em movimento é como se girássemos lateralmente. Nunca pensamos que estamos num movimento de roda gigante, subindo e caindo. Evitamos a respiração suspensa no ponto mais baixo da queda – e seria pior uma queda livre? Ou o pior é saber que a queda é apenas o recomeço e lá em cima teremos novamente que olhar para baixo e puxar o ar com força – antes de cair outra e outra vez?
1/24/2013
Elegia ao meu amigo cineasta
Deixo que a sanfona fumegante sopre as palavras desta elegia. É pra meu amigo cineasta, cujo coração é uma aranha vermelha. Neste mundo em que tudo é câmera, ele enquadra a cena com as mãos vazias e assim é o diretor e único espectador do seu filme. Os personagens carecem de corpo, já que ali a onde a palavra cria teias o corpo secreta espírito, a solidariedade é uma pantera morta. Ouro, prata, lápis-lazúli, cristal, coral, ágata e madrepérola: nem que de todas as galáxias fossem colhidos tais tesouros, tudo é sem motivo. Meu amigo, tu é chato pra caralho
eu também sou chato, a gente poderia ter organizado uma conspiração dos chatos pra provar pras pessoas que ninguém é tão legal quanto pensa. Mas, pelo menos produzimos de seis a sete filmes em coisa de quinze minutos,
naquele aquário, como era irreal a luz vermelha sobre a aranha vermelha na camisa preta, psicose de bolso trazida pelo correio, desenhos projetados pela mente e só quem está dentro da sua cabeça pra saber o que você viu, ou seja, todo mundo e como as risadas explodiam como bolhas contra o palco e como os sete selos do apocalipse podiam ser ali improvisados, como o filme visto pelas crianças de Fátima, virgem Maria em 3D jogando dados apocalípticos com o acaso: a cidade antiga babando vermelho na madrugada; alguém na varanda comendo churrasquinho e fazendo comentários críticos sobre os transeuntes; virtudes abstratas e personificadas em versos antigos caindo pouco a pouco contra o céu vermelho da madrugada; um serpentário na garganta; pássaros estranhos e sem nome impedindo a passagem pela ponte; devaneio e batata chips no hotel; cadáveres de poetas simbolistas espalhados pelas jaulas de animais colecionados para deleite das crianças; e como as coisas ficam leves quando o cenário é desmontado e esse sensação de maldição evaporada, envolvente, sinuosa, brindando os breves contatos de nossa alegria.
No dia seguinte o filme seria outro, caminhando sob a chuva como uma sensação de cobre por dentro, sangue espesso como luz de igreja gótica, as escadarias em hélice e um sonho de vertigem – mas aí não havia mais o meu amigo cineasta, que sumiu para sempre, na mais santa incoerência. Assim seja.
eu também sou chato, a gente poderia ter organizado uma conspiração dos chatos pra provar pras pessoas que ninguém é tão legal quanto pensa. Mas, pelo menos produzimos de seis a sete filmes em coisa de quinze minutos,
naquele aquário, como era irreal a luz vermelha sobre a aranha vermelha na camisa preta, psicose de bolso trazida pelo correio, desenhos projetados pela mente e só quem está dentro da sua cabeça pra saber o que você viu, ou seja, todo mundo e como as risadas explodiam como bolhas contra o palco e como os sete selos do apocalipse podiam ser ali improvisados, como o filme visto pelas crianças de Fátima, virgem Maria em 3D jogando dados apocalípticos com o acaso: a cidade antiga babando vermelho na madrugada; alguém na varanda comendo churrasquinho e fazendo comentários críticos sobre os transeuntes; virtudes abstratas e personificadas em versos antigos caindo pouco a pouco contra o céu vermelho da madrugada; um serpentário na garganta; pássaros estranhos e sem nome impedindo a passagem pela ponte; devaneio e batata chips no hotel; cadáveres de poetas simbolistas espalhados pelas jaulas de animais colecionados para deleite das crianças; e como as coisas ficam leves quando o cenário é desmontado e esse sensação de maldição evaporada, envolvente, sinuosa, brindando os breves contatos de nossa alegria.
No dia seguinte o filme seria outro, caminhando sob a chuva como uma sensação de cobre por dentro, sangue espesso como luz de igreja gótica, as escadarias em hélice e um sonho de vertigem – mas aí não havia mais o meu amigo cineasta, que sumiu para sempre, na mais santa incoerência. Assim seja.
1/19/2013
Monástica
É na madrugada que o som se torna insuportável
E essa gota amarga na língua faz o estômago ranger.
Portas e mais portas sem tranca
São abertas com mão de ferro:
É o retorno do oráculo
Chafurdando o futuro nas margens
Do passado.
Ao lado, ele dorme como uma serra elétrica.
Lá fora, os pássaros falam a língua dos dias.
Meu rosto, papel de arroz,
Finge um origami plácido e esconde
Orientalmente
Esses olhos lúcidos e o escárnio que escorre
Dos cantos
Da boca.
1/15/2013
Soneto dos meus sonhos
Vejo a mim mesmo como uma ilusão refratada de mãos que se fecham contra o peito
Protegendo-se num silêncio e apto a enxergar a luz muito forte do sol como se fosse outro nosso planeta.
Vejo minha irmã mais velha como alguém que decidiu obsessivamente proteger a todos, o que é impossível dada a quantidade das feridas que tendem ao infinito – o universo é uma ferida em expansão.
Vejo meu irmão mais velho como o Sacrificado, a carta que foi lançada cedo demais contra o vento e o mero abismo irrisório da vida, aquele que teve que abrir caminho no labirinto obscuro e percebeu cedo demais que a pretensa ordem das galáxias é um triste concerto de palavras.
Vejo tudo isso e entendo os homens antigos que sonhavam com o perdão absoluto.
Vejo uma criança enviada ao seminário para estudar com os padres a sua podre sabedoria e tendo que encarar a inexplicável rejeição, vejo essa criança envelhecendo oscilando entre a pretensa santidade e a completa frustração, sob uma luz desconhecida.
Vejo uma criança que vê sua mãe morrer afogada ou que precisa disso para aplacar as vozes que gritam coisas contra ela, contra sua fragilidade, contra a derrota predestinada dos astros negativos que cumprem um papel absurdo na ordem cósmica.
Assim vejo meus pais, mas apenas hoje, em que penso sobre sua absurda fragilidade.
Vejo tudo isso e entendo os homens antigos que sonhavam com o perdão absoluto.
Meu irmão mais novo surgiu, para mim, como uma estrela inesperada e sonha com cataventos à beira do tempo.
Mas não se iludam, ele aprende a controlar sua fragilidade
E dará as respostas na hora certa, no momento preciso, contra a arrogância dos homens que fazem a história como quem tece um pesadelo.
Minha irmã mais nova surge como uma perplexidade que observa perplexamente a vida, um espelho cheio de sentimentos e melancolia.
E em seus olhos todas essas vidas se desencontram, ou sou eu que vejo tudo isso, todos nós na tristeza de seus olhos, desde o dia em que ensinei, com uma lanterna, que o milagre das estrelas é a distância.
Vejo tudo isso e entendo os homens antigos que sonhavam com o perdão absoluto.
Protegendo-se num silêncio e apto a enxergar a luz muito forte do sol como se fosse outro nosso planeta.
Vejo minha irmã mais velha como alguém que decidiu obsessivamente proteger a todos, o que é impossível dada a quantidade das feridas que tendem ao infinito – o universo é uma ferida em expansão.
Vejo meu irmão mais velho como o Sacrificado, a carta que foi lançada cedo demais contra o vento e o mero abismo irrisório da vida, aquele que teve que abrir caminho no labirinto obscuro e percebeu cedo demais que a pretensa ordem das galáxias é um triste concerto de palavras.
Vejo tudo isso e entendo os homens antigos que sonhavam com o perdão absoluto.
Vejo uma criança enviada ao seminário para estudar com os padres a sua podre sabedoria e tendo que encarar a inexplicável rejeição, vejo essa criança envelhecendo oscilando entre a pretensa santidade e a completa frustração, sob uma luz desconhecida.
Vejo uma criança que vê sua mãe morrer afogada ou que precisa disso para aplacar as vozes que gritam coisas contra ela, contra sua fragilidade, contra a derrota predestinada dos astros negativos que cumprem um papel absurdo na ordem cósmica.
Assim vejo meus pais, mas apenas hoje, em que penso sobre sua absurda fragilidade.
Vejo tudo isso e entendo os homens antigos que sonhavam com o perdão absoluto.
Meu irmão mais novo surgiu, para mim, como uma estrela inesperada e sonha com cataventos à beira do tempo.
Mas não se iludam, ele aprende a controlar sua fragilidade
E dará as respostas na hora certa, no momento preciso, contra a arrogância dos homens que fazem a história como quem tece um pesadelo.
Minha irmã mais nova surge como uma perplexidade que observa perplexamente a vida, um espelho cheio de sentimentos e melancolia.
E em seus olhos todas essas vidas se desencontram, ou sou eu que vejo tudo isso, todos nós na tristeza de seus olhos, desde o dia em que ensinei, com uma lanterna, que o milagre das estrelas é a distância.
Vejo tudo isso e entendo os homens antigos que sonhavam com o perdão absoluto.
1/04/2013
Clio
E lá vem Clio, toda chapada dobrando a esquina. Cabelos esvoaçantes de medusa, vem tocando a trombeta, que som insuportável crianças não adianta tapar o ouvido. E vem Clio, vestida de branco, ela é o velho do saco, saco de lixo de lona preta, vai raptando crianças e fabricando espuma em seu esconderijo, espuma gosmenta e vermelha, a baba venenosa do tempo, que Clio toma e fica chapada, que bad trip crianças, o velho do saco está convencido de que somos meros obstáculos.
12/22/2012
História, aborteira de utopias
A luz do dia filtrada por uma fria substância lunar, fina película cobrindo os olhos.
Alguém deitado em campo aberto pede ajuda apenas pra dizer qualquer coisa
porque esta é apenas a figura irreal do pânico: uma mulher deitada em campo aberto com despojos lunares
não faz o menor sentido, como pensar que astros sombrios projetam forças estranhas que formam um véu sobre a sua beleza e que por isso você é irremediavelmente triste.
Brasília, cidade grave, dos tons graves em punk-barroco aqui não há como ser lúcido sem a sensação constante de náusea, você não faz sentido, é uma coisa estranha nessa paisagem de funcionários públicos, pedra melancólica que parece constantemente cair, vinda de um lugar muito distante.
Nesta noite sonhei com uma alegria vislumbrada em plena sombra.
Alguém deitado em campo aberto pede ajuda apenas pra dizer qualquer coisa
porque esta é apenas a figura irreal do pânico: uma mulher deitada em campo aberto com despojos lunares
não faz o menor sentido, como pensar que astros sombrios projetam forças estranhas que formam um véu sobre a sua beleza e que por isso você é irremediavelmente triste.
Brasília, cidade grave, dos tons graves em punk-barroco aqui não há como ser lúcido sem a sensação constante de náusea, você não faz sentido, é uma coisa estranha nessa paisagem de funcionários públicos, pedra melancólica que parece constantemente cair, vinda de um lugar muito distante.
Nesta noite sonhei com uma alegria vislumbrada em plena sombra.
12/14/2012
Pietá
Desata em tangos, menino
Solta os cabelos e vem
Fluido
Sacudir as árvores brancas
Cantar os males aos berros
Cortar os dedos do homem
Jogar a bandeira fora
Vibrar
Tira a camisa e vem
Aflito
Seus olhos vidrados
Vertentes
Tangenciam os ventos
E sulcos
Da paisagem
Lunar
Lunar
Somos suas
Todas
Todas as mães e irmãs
Suas
Cantamos seu desalinho
Fazemos sua cama
Seu leito
Para que venha, enfim,
Descansar.
12/05/2012
A última semana da minha vida
Minha força é a fraqueza
Arranco fibra a fibra os meus músculos
Até que só restem
Dois olhos opacos como cal
Dois ouvidos que captam as vibrações do calendário
E uma boca tão derrotada que dele só brotam
Os sons imateriais da mente.
Meus inimigos são anjos
E não sabem.
* * *
Tempo é gestos que abrem precipícios
Você vira o volante à direita pensando no cd que vai gravar
O celular toca na hora em que o médico ia receitar o anticoagulante
Ela desceu mais rápido do que normalmente, eu a encontro no meio do caminho quando o normal seria eu ter passado por ali só
Amanhã pode ser que eu coincida – se houver amanhã
* * *
Com os dois olhos que brotam gotas de pus na extremidade de dois canudos cheios de cerda e lodo, o molusco tateia a realidade externa ao seu exoesqueleto, sua carne frouxa não seria páreo para a força bruta dos peixes e suas bocas de centenas de dentes e por isso ele se esconde por trás de algo que simula a impassibilidade mineral – ele tateia, gira os olhos pelo ambiente, antes de sair de dentro de sua caverna óssea para a caçada. Pois é, o nosso torpe amigo também é predador.
Há predadores em toda parte, inclusive por dentro de sua carne viscosa, nojenta de engolir como um chiclete. Se não foi hoje, vai ser amanhã.
Oceano é destino bruto e sem lei.
Arranco fibra a fibra os meus músculos
Até que só restem
Dois olhos opacos como cal
Dois ouvidos que captam as vibrações do calendário
E uma boca tão derrotada que dele só brotam
Os sons imateriais da mente.
Meus inimigos são anjos
E não sabem.
* * *
Tempo é gestos que abrem precipícios
Você vira o volante à direita pensando no cd que vai gravar
O celular toca na hora em que o médico ia receitar o anticoagulante
Ela desceu mais rápido do que normalmente, eu a encontro no meio do caminho quando o normal seria eu ter passado por ali só
Amanhã pode ser que eu coincida – se houver amanhã
* * *
Com os dois olhos que brotam gotas de pus na extremidade de dois canudos cheios de cerda e lodo, o molusco tateia a realidade externa ao seu exoesqueleto, sua carne frouxa não seria páreo para a força bruta dos peixes e suas bocas de centenas de dentes e por isso ele se esconde por trás de algo que simula a impassibilidade mineral – ele tateia, gira os olhos pelo ambiente, antes de sair de dentro de sua caverna óssea para a caçada. Pois é, o nosso torpe amigo também é predador.
Há predadores em toda parte, inclusive por dentro de sua carne viscosa, nojenta de engolir como um chiclete. Se não foi hoje, vai ser amanhã.
Oceano é destino bruto e sem lei.
11/28/2012
Você pode dizer que escolheu a solidão. Mas e as pessoas translúcidas neste fim de tarde, e a certeza noturna de que o mundo flutua sobre um oceano sustentado pelos seres mais inverossímeis, e os fantasmas que andam armados pelas escolas, e as crianças lendo Mein Kampf nos bueiros, e o amor que se esfacela em ritmos desencontrados. E quando você se senta, olhando para a parede, e o quarto todo é uma inteira pétala incendiada – e só assim, nessa cápsula de silêncio, existe uma vaga promessa de sentido.
11/14/2012
OS CARALHOS DE SHARON OLDS
OS CARALHOS DE SHARON OLDS
os caralhos de Sharon Olds
são iguais
aos caralhos de Ginsberg?
estes que fedem e morrem
a tempo, em New York, Kansas
que são chupados
e esquecidos
em quartos podres
de motéis baratos
estes feridos
pela passagem
das águas
que se sabem
a cetins escarlates
cobertos de algodão branco
estes homens nus
que respiram
como peixes em vidro
sufocados pelos céus
marchetados de fumaça negra
que aqui, não se são
se sabem pau, cacete
um membro-falácia
uma glória esquecida
para quem foi mulher
filha, mãe
loba mal-fodida
que em ti,
sobram caralhos na boca
falantes, molhantes
mas que agora,
pendem das mãos
escritos, descritos
soçobrando
em Kansas, Nova York
no vácuo,
em quartos rançosos
em lençóis negros
de sangue e sêmen
no vazio,
no nada, como uma guelra.
(Anderson Dantas, Ilha de SC, 14/11/2012)
11/13/2012
Os sete matizes da suspeita
A mão cheia de anéis tira a máscara com rosto de mulher – outra máscara com rosto de criança – outra máscara com rosto de bandido – outra máscara com rosto de louco – outra máscara com rosto de lobisomem,
animal, pura voz
de dor.
Mão sem veias, com fios elétricos desencapados ao redor dos ossos. Sete anéis em cinco dedos, por trás de tudo isso um matiz de rosa impossível, cor de rosa contraindo-se como sangue sugado por buraco-negro de sete estrelas conjugadas: a cidade é pintada com as cores delirantes do general lírico.
Seu nome consta nas listas de torturadores.
animal, pura voz
de dor.
Mão sem veias, com fios elétricos desencapados ao redor dos ossos. Sete anéis em cinco dedos, por trás de tudo isso um matiz de rosa impossível, cor de rosa contraindo-se como sangue sugado por buraco-negro de sete estrelas conjugadas: a cidade é pintada com as cores delirantes do general lírico.
Seu nome consta nas listas de torturadores.
11/05/2012
Jogo do Um Acerto
"Para que eu, um prisioneiro em Uqbar no longínquo século do Levante da Codorniz, pudesse chegar até você, por quantas bocas, ouvidos e línguas este lamento não passou, mudando completamente suas palavras e sentido? Você acredita mesmo que algo sobrou do que acabo de escrever na parede desta cela com meu próprio sangue, e está sendo lido por seus olhos nessa tela de computador?"
10/26/2012
Minha conversa com Fante
Neste ano desci duas vezes ao inferno. Descer talvez não seja a melhor palavra, porque o inferno não está abaixo da superfície, no porão do mundo, o inferno é apenas um certo ritmo da vida, uma desorientação fundamental que procuramos esconder sob o véu da realidade. Deixar o inferno subir até você tem um teor libertário, você não é uma presa fácil da realidade e seus artifícios. Por outro lado, o inferno é irrespirável: pensei numa imagem assim, uma sede de quem comeu girassol em pó e pra quem a água se tornou tão imaterial quanto o ar. Quem conhece o inferno precisa de três coisas (todos precisam, mas quem conhece o inferno precisa com mais intensidade): amor, amizade e arte. E aí entram os shows da Banda RioClaro neste ano. Um, em especial, num domingo seguinte ao dia em que eu pensei que queria dormir por uns 10 meses. Estar acordado pra certos encontros da vida é um primeiro passo: o encontro entre uma certa tonalidade do céu de vermelho a azul contra o lago quase dourado e a música que anima duas meninas, duas pequenas dançarinas sobre a grama intensamente verde. Depois de estar acordado, despertar. Iluminar-se. Respirar. Enfim, por isso resolvi escrever, como agradecimento, essa conversa imaginária com John Fante, seguindo uma dica do Ray (um puro devaneio, sem pretensão, não finjo dar conta de um nome consagrado, um livro que esmaga aqueles que tentam copiar o seu estilo, enquanto escrevo isso em meu computador empoeirado).
Eu: Tenho alguns textos, umas coisas meio parecidas com livros, vou soltando meio aleatoriamente porque não tenho essa convicção que vejo em você sobre duas coisas: o meu talento literário e o sentido de ser alguma coisa na vida como um escritor. A minha dúvida é: existe algum lugar adequado para os livros?
Fante: O deserto.
Eu: As cascas de laranja jogadas no chão, as velhas solitárias, os casais brigando, as crianças que nascem a contragosto, os taxistas; isso tudo não é estética, certo?
Fante: São sinais, indícios de alguma coisa parecida com salvação.
Eu: As coisas estão cheias de anjos, ouvi dizer.
Fante: Eu preferia bons charutos, uma noite com aquela mulher de pele cor de raposa, eu preferia ser o autor.
Eu: Isso você conseguiu, ser autor. Tem até seus porta-vozes oficiais e imitadores.
Fante: É uma ironia da história.
Eu: Uma mentira, e não um desejo. O sujeito começa a se levar a sério.
Fante: Do mesmo jeito, o dinheiro é bom porque liberta, mas dinheiro deve ser amado apenas platonicamente.
Eu: Também li isso em algum lugar. Também ando em torno dessa questão do amor, do amor que só faz sentido pra quem é solitário, os momentos de brilho intenso, sempre passageiros, uma recordação depois da outra, até um ponto em que tudo mal se inicia e já é despedida. A memória cansa mais do que a esperança.
Fante: De vez em quando, interrompo as divagações inventando uma perspectiva diferente, por exemplo: um rato observando um escritor debruçado sobre a poeira, sonhando com sua maravilhosa namorada mexicana. Isso dá mais densidade pra realidade, mas também indica que o tempo não é só esse em que estamos presos, esse apocalipse sem fim.
Eu: Aquela princesa que não vai se importar com o fato de você não ser um vencedor, aquela que foi menosprezada como nós. Palmeira, palmeira, palmeira, palmeira. Dois dias seguidos?
Fante: Acreditar em palavras é a pior forma de loucura.
Eu: Alberto Caeiro, Zaratustra (que é melhor do que Jesus), Bandini, muitos dos melhores sujeitos dos últimos tempos são fictícios.
Fante: A realidade asfixia. Mas a ficção não é mentira, não é o oposto do real porque é desejo.
Eu: Nesse sentido é que eu queria entender de anjo. Um anjo me trazendo uma boa garrafa de vinho. Pra te dizer a verdade, não me interesso pela literatura. Acho isso meio bobagem. Não quero um livro que não seja um bilhete premiado pra reinventar o desejo por uma boa namorada e um bom vinho.
Fante: Devaneios. Deus devia ter lido Nietzsche antes de criar o mundo.
Eu: Quando o Bandini diz que poderia ser qualquer coisa, um milionário, um jogador de beisebol, um escritor, eu, diferente de muita gente, acho que é a sério. Ele poderia ser qualquer coisa mesmo, e por extensão, você. Mas você não é Bandini, do mesmo jeito que ele não é o jogador de beisebol. Ele e você e eu somos o que poderia ser qualquer coisa dessas, pessoas comuns. Essa é toda diferença, que acho que alguns confundem quando pensam que fazendo de conta que são Bandini (por exemplo, reclamando da falta de grana) vão virar John Fante. Eles se esquecem, acho, que tudo é possível, incluindo Zaratustra e Caeiro, por conta desse poder ser mesmo, são prisioneiros do ser. Uma coisa é um cara que aspira a ser milionário, outra é o que é milionário, que se confunde com esse papel, a mesma merda rola com o sujeito que se convence que é escritor.
Fante: Eles não reconheceriam um gigante nem que um moinho de vento estivesse indo pra cima deles com tudo.
Eu: Falando em Dom Quixote, a falta de grana transforma o dinheiro numa coisa metafísica?
Fante: É estranho você dizer isso, parece papo acadêmico, porque é uma metafísica que dói no estômago.
Eu: É como se escrever fosse uma coisa suja, uma dedicação a uma atividade até ofensiva, como, por exemplo, procurar beleza e encantamento numa cidade por mais sórdida que ela seja, e você precisasse de um álibi razoável do tipo: escrevo, mas com uma finalidade, ganhar dinheiro.
Fante: Pode ser, mas a falta de grana é real, no meu caso. A vida é a continuação da literatura por outros meios.
Eu: É que a poesia separada do resto é uma coisa sórdida.
Fante: Que resto?
Eu: A vida.
Fante: Por isso eu odeio cadernos culturais.
Eu: Você imaginava que ia ser usado como pretexto pra um tipo exibicionista de literatura confessional?
Fante: Seja como for, eu não tenho nada a ver com isso. Eu não disse que prefiro Zaratustra a Jesus ensangüentado na cruz?
Eu: E a culpa que corre no seu sangue? Eu, por exemplo, depois de um ano de merda, estou começando uma nova história, um novo amor. Às vezes me flagro pensando que essa história toda vai dar merda, vai dar merda, vai dar merda. Mas não sei se faço isso só pra não perder o orgulho quando der merda, eu dizendo: pelo menos eu sabia que ia dar merda.
Fante: Você não viu pra quem eu dediquei meu livro? To falando de mim, não do Bandini. Tem gente que confunde experiência com experimentação. Experimentação é coisa de sociólogo, gente sem imaginação ou sentimento. Experiência é outra coisa. A vida pode dar um romance, mas a vida não é arrumadinha como um romance. Ou você vive o seu tempo, a sua condição e mergulha nisso, ou vai fazer outra coisa. Caso contrário, todos os roteiros estão traçados pelo conjunto de lixo que você leu e ouviu. Inclusive o meu livro pode virar lixo numa situação dessas.
Eu: Camisa pólo, sapatos brancos e óculos escuros, não é por aí? Nunca fui a Los Angeles e o que me impressiona é a variedade e o número de formas de destruição da cidade. Terremotos, maremotos, animais selvagens perdidos devido à expansão das avenidas, especulação imobiliária, um ar meio apocalíptico que torna a beleza mais urgente, a vida sempre está logo ali, a um passo, mas nunca é real porque sempre está à beira da morte.
Fante: Você não devia se gabar disso, você é de Brasília. Você deve entender alguma coisa de deserto. Poeira também não falta, cada palmo de terreno conquistado à moda turbulenta do velho oeste, tempestades de areia cobrindo a cidade inteira, o céu vermelho, azul de sanguessugas, branco, translúcido e você ali sozinho, debaixo dessa luz que nunca está parada, afundando nos monumentos paranóicos, você também ali sonhando com a sua princesa maia ou pelo menos acreditando que um dia vai encontrar a palavra certa, o percurso que vai fazer da poeira e do brilho uma coisa só, ao mesmo tempo bela e decadente. Que vai dar um pouco de alegria para os solitários e perdidos.
Eu: Tenho alguns textos, umas coisas meio parecidas com livros, vou soltando meio aleatoriamente porque não tenho essa convicção que vejo em você sobre duas coisas: o meu talento literário e o sentido de ser alguma coisa na vida como um escritor. A minha dúvida é: existe algum lugar adequado para os livros?
Fante: O deserto.
Eu: As cascas de laranja jogadas no chão, as velhas solitárias, os casais brigando, as crianças que nascem a contragosto, os taxistas; isso tudo não é estética, certo?
Fante: São sinais, indícios de alguma coisa parecida com salvação.
Eu: As coisas estão cheias de anjos, ouvi dizer.
Fante: Eu preferia bons charutos, uma noite com aquela mulher de pele cor de raposa, eu preferia ser o autor.
Eu: Isso você conseguiu, ser autor. Tem até seus porta-vozes oficiais e imitadores.
Fante: É uma ironia da história.
Eu: Uma mentira, e não um desejo. O sujeito começa a se levar a sério.
Fante: Do mesmo jeito, o dinheiro é bom porque liberta, mas dinheiro deve ser amado apenas platonicamente.
Eu: Também li isso em algum lugar. Também ando em torno dessa questão do amor, do amor que só faz sentido pra quem é solitário, os momentos de brilho intenso, sempre passageiros, uma recordação depois da outra, até um ponto em que tudo mal se inicia e já é despedida. A memória cansa mais do que a esperança.
Fante: De vez em quando, interrompo as divagações inventando uma perspectiva diferente, por exemplo: um rato observando um escritor debruçado sobre a poeira, sonhando com sua maravilhosa namorada mexicana. Isso dá mais densidade pra realidade, mas também indica que o tempo não é só esse em que estamos presos, esse apocalipse sem fim.
Eu: Aquela princesa que não vai se importar com o fato de você não ser um vencedor, aquela que foi menosprezada como nós. Palmeira, palmeira, palmeira, palmeira. Dois dias seguidos?
Fante: Acreditar em palavras é a pior forma de loucura.
Eu: Alberto Caeiro, Zaratustra (que é melhor do que Jesus), Bandini, muitos dos melhores sujeitos dos últimos tempos são fictícios.
Fante: A realidade asfixia. Mas a ficção não é mentira, não é o oposto do real porque é desejo.
Eu: Nesse sentido é que eu queria entender de anjo. Um anjo me trazendo uma boa garrafa de vinho. Pra te dizer a verdade, não me interesso pela literatura. Acho isso meio bobagem. Não quero um livro que não seja um bilhete premiado pra reinventar o desejo por uma boa namorada e um bom vinho.
Fante: Devaneios. Deus devia ter lido Nietzsche antes de criar o mundo.
Eu: Quando o Bandini diz que poderia ser qualquer coisa, um milionário, um jogador de beisebol, um escritor, eu, diferente de muita gente, acho que é a sério. Ele poderia ser qualquer coisa mesmo, e por extensão, você. Mas você não é Bandini, do mesmo jeito que ele não é o jogador de beisebol. Ele e você e eu somos o que poderia ser qualquer coisa dessas, pessoas comuns. Essa é toda diferença, que acho que alguns confundem quando pensam que fazendo de conta que são Bandini (por exemplo, reclamando da falta de grana) vão virar John Fante. Eles se esquecem, acho, que tudo é possível, incluindo Zaratustra e Caeiro, por conta desse poder ser mesmo, são prisioneiros do ser. Uma coisa é um cara que aspira a ser milionário, outra é o que é milionário, que se confunde com esse papel, a mesma merda rola com o sujeito que se convence que é escritor.
Fante: Eles não reconheceriam um gigante nem que um moinho de vento estivesse indo pra cima deles com tudo.
Eu: Falando em Dom Quixote, a falta de grana transforma o dinheiro numa coisa metafísica?
Fante: É estranho você dizer isso, parece papo acadêmico, porque é uma metafísica que dói no estômago.
Eu: É como se escrever fosse uma coisa suja, uma dedicação a uma atividade até ofensiva, como, por exemplo, procurar beleza e encantamento numa cidade por mais sórdida que ela seja, e você precisasse de um álibi razoável do tipo: escrevo, mas com uma finalidade, ganhar dinheiro.
Fante: Pode ser, mas a falta de grana é real, no meu caso. A vida é a continuação da literatura por outros meios.
Eu: É que a poesia separada do resto é uma coisa sórdida.
Fante: Que resto?
Eu: A vida.
Fante: Por isso eu odeio cadernos culturais.
Eu: Você imaginava que ia ser usado como pretexto pra um tipo exibicionista de literatura confessional?
Fante: Seja como for, eu não tenho nada a ver com isso. Eu não disse que prefiro Zaratustra a Jesus ensangüentado na cruz?
Eu: E a culpa que corre no seu sangue? Eu, por exemplo, depois de um ano de merda, estou começando uma nova história, um novo amor. Às vezes me flagro pensando que essa história toda vai dar merda, vai dar merda, vai dar merda. Mas não sei se faço isso só pra não perder o orgulho quando der merda, eu dizendo: pelo menos eu sabia que ia dar merda.
Fante: Você não viu pra quem eu dediquei meu livro? To falando de mim, não do Bandini. Tem gente que confunde experiência com experimentação. Experimentação é coisa de sociólogo, gente sem imaginação ou sentimento. Experiência é outra coisa. A vida pode dar um romance, mas a vida não é arrumadinha como um romance. Ou você vive o seu tempo, a sua condição e mergulha nisso, ou vai fazer outra coisa. Caso contrário, todos os roteiros estão traçados pelo conjunto de lixo que você leu e ouviu. Inclusive o meu livro pode virar lixo numa situação dessas.
Eu: Camisa pólo, sapatos brancos e óculos escuros, não é por aí? Nunca fui a Los Angeles e o que me impressiona é a variedade e o número de formas de destruição da cidade. Terremotos, maremotos, animais selvagens perdidos devido à expansão das avenidas, especulação imobiliária, um ar meio apocalíptico que torna a beleza mais urgente, a vida sempre está logo ali, a um passo, mas nunca é real porque sempre está à beira da morte.
Fante: Você não devia se gabar disso, você é de Brasília. Você deve entender alguma coisa de deserto. Poeira também não falta, cada palmo de terreno conquistado à moda turbulenta do velho oeste, tempestades de areia cobrindo a cidade inteira, o céu vermelho, azul de sanguessugas, branco, translúcido e você ali sozinho, debaixo dessa luz que nunca está parada, afundando nos monumentos paranóicos, você também ali sonhando com a sua princesa maia ou pelo menos acreditando que um dia vai encontrar a palavra certa, o percurso que vai fazer da poeira e do brilho uma coisa só, ao mesmo tempo bela e decadente. Que vai dar um pouco de alegria para os solitários e perdidos.
10/17/2012
O blues do rato de biblioteca
Você não esperava tanta ternura
de um rato de biblioteca e o silêncio dos planetas
e o infinito que assusta e tanta especulação
barata, assim à toa passo os dias conversando com mortos
em páginas de livros, microtelescópios, tabuleiros espíritas
e a luz do sol batendo nas páginas, uma cartela
de ácido lisérgico como calendário.
Você não esperava mas um coração de papel é mais inflamável
apesar de tão remoto que o silêncio dos planetas ali se inflecte
e cada livro é uma faísca adormecida esperando na estante
em que se escuta por um instante a lendária confabulação
entre dor e esperança, toda filosofia quer ser música
e toda música: blues.
Quando o blues faz até as paredes pulsarem nas capas coloridas
dos livros, como há algo de blues nos contrastes das cores dos planetas
e nas cores anímicas das emoções desencontradas
o blues é mais azul que toda melancolia de um coração vermelho
faço de conta que não é comigo e pergunto sobre a metafísica
de tudo isso o que pensavam os antigos
sobre o conceito de alma e invento a metáfora desprevenida
um peixe azul que brilha no aquário obscuro da vida, ressonâncias
de vidro e água, o blues é uma luz de cobre, é tudo que se entreouve
nos vestígios deixados pelas gerações que compõe uma única
e incoerente música no modo como o filósofo caminha
na solidão do poeta, na posição dos planetas
compondo um invisível e atuante cenário para os atos funestos,
o percurso da lágrima pelo rosto Entristecido, entretido em sua profunda tristeza.
O romantismo é azul celeste e gruda na alma como uma rima
nas paredes do quarto – existe na dor ancestral
da idade da árvore arcaica e blue da lamentação
onde os velhos cantores concentravam a dor de tantas gerações
e gerações: toda dor, afinal anônima como a invenção do blues
sob a mesma antiqüíssima árvore, de acordo com a história
que li num livro qualquer blues é seiva espessa e lenta
misturada ao sangue é como se desde criança
você tivesse comido a lua em pedaços mínimos numa colher
e meu sangue então é frio e reflete o brilho do seu coração
no escuro.
E tudo isso é música, o blues é o comum dos lugares-comuns
a faísca que acende o fogo no coração de papel.
Meus amigos intelectuais não se enganam comigo
eles sabem que quando os vejo eles são como peixes num aquário
e o cosmos é mesmo uma cúpula de vidro de onde deuses observam
e nossas verdades são bolhas que logo estouram contra a superfície
que quando os escuto eles não dissertam, mas cantam
um canto sem letra ou mensagem, uma entonação
de arrogância, frustração e miséria pedante.
A desolação, Bárbara é mais criativa que todos nós
e até merece um nome
próprio, Desolação, escoadouro de brilho estrelar
pra onde todo fluxo vital é banido e retorna, como um filho pródigo
aproveitável: sem o quê não haveria cores para planetas
e nem olhos que registrassem tais cores e nem almas se perguntando
por meio do blues, sobre o sentido de tudo isso.
(Garotos cantam o hino nacional
olhos vermelhos dentro de um camburão –
porque cantavam um blues no ponto de ônibus:
venho da cidade mais desolada onde até os punks são blue).
É por isso que sou um rato de biblioteca e mesmo assim ouço o blues.
ou queria cantar, o que dá no mesmo e fecho o livro
porque o canto do blues é o canto
um gole de vinho
derramado sobre o conceito de quem procura o blues
Saturno está mais forte nesta noite
o céu é uma cúpula líquida que filtra o brilho de estrelas
quanto mais azuis mais incandescentes
Mexico city blues repousa na estante
estando no blues desde antes do início.
de um rato de biblioteca e o silêncio dos planetas
e o infinito que assusta e tanta especulação
barata, assim à toa passo os dias conversando com mortos
em páginas de livros, microtelescópios, tabuleiros espíritas
e a luz do sol batendo nas páginas, uma cartela
de ácido lisérgico como calendário.
Você não esperava mas um coração de papel é mais inflamável
apesar de tão remoto que o silêncio dos planetas ali se inflecte
e cada livro é uma faísca adormecida esperando na estante
em que se escuta por um instante a lendária confabulação
entre dor e esperança, toda filosofia quer ser música
e toda música: blues.
Quando o blues faz até as paredes pulsarem nas capas coloridas
dos livros, como há algo de blues nos contrastes das cores dos planetas
e nas cores anímicas das emoções desencontradas
o blues é mais azul que toda melancolia de um coração vermelho
faço de conta que não é comigo e pergunto sobre a metafísica
de tudo isso o que pensavam os antigos
sobre o conceito de alma e invento a metáfora desprevenida
um peixe azul que brilha no aquário obscuro da vida, ressonâncias
de vidro e água, o blues é uma luz de cobre, é tudo que se entreouve
nos vestígios deixados pelas gerações que compõe uma única
e incoerente música no modo como o filósofo caminha
na solidão do poeta, na posição dos planetas
compondo um invisível e atuante cenário para os atos funestos,
o percurso da lágrima pelo rosto Entristecido, entretido em sua profunda tristeza.
O romantismo é azul celeste e gruda na alma como uma rima
nas paredes do quarto – existe na dor ancestral
da idade da árvore arcaica e blue da lamentação
onde os velhos cantores concentravam a dor de tantas gerações
e gerações: toda dor, afinal anônima como a invenção do blues
sob a mesma antiqüíssima árvore, de acordo com a história
que li num livro qualquer blues é seiva espessa e lenta
misturada ao sangue é como se desde criança
você tivesse comido a lua em pedaços mínimos numa colher
e meu sangue então é frio e reflete o brilho do seu coração
no escuro.
E tudo isso é música, o blues é o comum dos lugares-comuns
a faísca que acende o fogo no coração de papel.
Meus amigos intelectuais não se enganam comigo
eles sabem que quando os vejo eles são como peixes num aquário
e o cosmos é mesmo uma cúpula de vidro de onde deuses observam
e nossas verdades são bolhas que logo estouram contra a superfície
que quando os escuto eles não dissertam, mas cantam
um canto sem letra ou mensagem, uma entonação
de arrogância, frustração e miséria pedante.
A desolação, Bárbara é mais criativa que todos nós
e até merece um nome
próprio, Desolação, escoadouro de brilho estrelar
pra onde todo fluxo vital é banido e retorna, como um filho pródigo
aproveitável: sem o quê não haveria cores para planetas
e nem olhos que registrassem tais cores e nem almas se perguntando
por meio do blues, sobre o sentido de tudo isso.
(Garotos cantam o hino nacional
olhos vermelhos dentro de um camburão –
porque cantavam um blues no ponto de ônibus:
venho da cidade mais desolada onde até os punks são blue).
É por isso que sou um rato de biblioteca e mesmo assim ouço o blues.
ou queria cantar, o que dá no mesmo e fecho o livro
porque o canto do blues é o canto
um gole de vinho
derramado sobre o conceito de quem procura o blues
Saturno está mais forte nesta noite
o céu é uma cúpula líquida que filtra o brilho de estrelas
quanto mais azuis mais incandescentes
Mexico city blues repousa na estante
estando no blues desde antes do início.
9/27/2012
Ainda resta explicar porque num ou noutro ano, nalguns meses, dias (por exemplo, entre setembro a outubro de 1973) o céu se converte num calabouço, escuridão de bronze e tantos girassóis impossíveis cultivados com sangue procuram por um sol que recua para além da dor, porque o tempo reflui contínuo em todas as direções mas de repente parece resolver se adensar, viscoso, nauseante e nós, que vivemos a luz vaporosa azul tão bela e banal, nós, os irreais, só de o olharmos nesse estado sentimos em calafrio que a realidade só sabe falar a língua do terror.
9/16/2012
Redor para Masé
um escritor viaja de trem,
a letargia faz querer avançar.
sem chumbo nem a ironia do vinho.
Masé Lemos
não se pode avançar.
porque tudo
é recusa
da pedra
tempo, tempo, tempo
todos
ouviram a delicadeza
do lisianto
na brisa
abalada
calados,
feios e nus, não tivemos
fogo
quando o ventre
anoiteceu
e acordamos
ancorados
na dor da sombra.
pedra, pedra, pedra
origem da voz,
orgia de pássaros
grão e assobio
gelo e espanto.
não se pode avançar.
tempo, dor, pedra
9/14/2012
Porvir para Eliana
Porvir transfigurado.
O que é Teu Ser,
o que é tua carne,
e a chegança
de cartas ao vento
o que é tua linguagem
passagem
pelas águas
tentativas,
filosofias fracassadas
lassitude, lentidões
uma bala
que te fere
de raspão
o que é teu Ser
o que é tua Língua
Ilha Deserta
onde se penduram
escolhos,
manhãs,
coisas mortas
tesouras,
cadelas,
mulheres
de pernas abertas
um corpo aberto
decomposto
no asfalto
o que é teu Ser
o que é tua Língua
no lilás de tudo
que subverte.
9/13/2012
Morador de Brasília, Vírgula
Céu vermelho. Céu, dourado. Azul irradiando-se entre traços, de nuvens. Vênus brilha mais, do que a lua.
Imagine que você está num teatro, na obscuridade da platéia. A orquestra se prepara para tocar mas sem, o violonista. O violinista levou uma, porrada de fuzil, no cotovelo. A orquestra se prepara. Um cadeado, inútil resguarda porta enferrujada. Sem motivo de existência, a porta.
Céu vermelho – luminoso que se expande, ao contrário, como se ele se, contraísse, uma luz em fuga ao avesso.
Imagine que sob, as calçadas sob, a terra sob as raízes (uma) voz quase, inaudível – só ouvida por quem se imagina ossada de operário da construção – esquecimento asfaltado, ali se abafa. Monumentos árvores de todos, os cantos ipês: jazigos.
Imagine que a Esplanada e sobre a, Esplanada o céu que nesta hora tende ao violeta nada mais são, do que imensa lápide de cemitério, de indigentes. Vocês foram, mortos porque reclamaram da comida, estragada.
Agora se imagine encostado, na parede tranqüilamente. Um livro está sendo lido. Não há frio, alguém, esteve ali encostado muito antes de, você. De frente para a parede a testa, colada no concreto com suor de medo. De onde virá a próxima, porrada? Saber isso já seria, um alívio. Sem saber o motivo você pegou, o livro de Lautreamont, justamente, naquela página em que ele diz: “sou, sujo” como uma voz voltada para, dentro como se a brutalidade fosse o fulcro de todos os livros que, jamais, foram escritos.
Céu azul escuro, apagado. Como um azul brotando, da transparência.
A luz, agressiva do dia ilumina unhas bem, feitas cheias de anéis, esmalte, transparente: você as entrevê sob o breu do capuz dos dias vividos no mais escuro da dor e do esquecimento, pelo menos é o que você gostaria, de esquecer. Você chega em casa e a coisa não te larga mesmo, em tua vida confortável.
Você olha a janela um ipê amarelo cujas folhas são unhas reluzentes e o calor perfaz auras em torno dos galhos: feche a janela, rápido!, para essa beleza sufocante.
- Seja bem-vindo, à sua cidade.
Imagine que você está num teatro, na obscuridade da platéia. A orquestra se prepara para tocar mas sem, o violonista. O violinista levou uma, porrada de fuzil, no cotovelo. A orquestra se prepara. Um cadeado, inútil resguarda porta enferrujada. Sem motivo de existência, a porta.
Céu vermelho – luminoso que se expande, ao contrário, como se ele se, contraísse, uma luz em fuga ao avesso.
Imagine que sob, as calçadas sob, a terra sob as raízes (uma) voz quase, inaudível – só ouvida por quem se imagina ossada de operário da construção – esquecimento asfaltado, ali se abafa. Monumentos árvores de todos, os cantos ipês: jazigos.
Imagine que a Esplanada e sobre a, Esplanada o céu que nesta hora tende ao violeta nada mais são, do que imensa lápide de cemitério, de indigentes. Vocês foram, mortos porque reclamaram da comida, estragada.
Agora se imagine encostado, na parede tranqüilamente. Um livro está sendo lido. Não há frio, alguém, esteve ali encostado muito antes de, você. De frente para a parede a testa, colada no concreto com suor de medo. De onde virá a próxima, porrada? Saber isso já seria, um alívio. Sem saber o motivo você pegou, o livro de Lautreamont, justamente, naquela página em que ele diz: “sou, sujo” como uma voz voltada para, dentro como se a brutalidade fosse o fulcro de todos os livros que, jamais, foram escritos.
Céu azul escuro, apagado. Como um azul brotando, da transparência.
A luz, agressiva do dia ilumina unhas bem, feitas cheias de anéis, esmalte, transparente: você as entrevê sob o breu do capuz dos dias vividos no mais escuro da dor e do esquecimento, pelo menos é o que você gostaria, de esquecer. Você chega em casa e a coisa não te larga mesmo, em tua vida confortável.
Você olha a janela um ipê amarelo cujas folhas são unhas reluzentes e o calor perfaz auras em torno dos galhos: feche a janela, rápido!, para essa beleza sufocante.
- Seja bem-vindo, à sua cidade.
9/06/2012
LÁGRIMA para ALDEMAR
Hão
de ser tristes os teus
e os meus dias
quando os relâmpagos rasgam
o silêncio de tua
varanda
e passos de medo
preenchem o bosque.
A raça
declina uma vez mais
e arrefece junto
com a ceifa
de um podre trigo.
Nem águas nos salvaram
para refrescar
nossos pés
e nossas andanças
lavradas no negrume
Inventamos umas estórias
absurdas
para fazer
nossas filhas dormirem
elas tiveram a idade do sono
no berço
ou numa redoma
de vidro
onde inocentes
não desconfiaram
a desgraça do mundo.
hão de ser tristes
os meus
e os teus dias
malditos,
vamos andar
rumo
ao rubro dos outonos
e de um pequeno clarão
que se abre
toda vez
que se apunhala
a esperança.
hão de chorar
todos
na aspereza do mundo
(porvir transfigurado) -
9/01/2012
sutra, 1
O centro não existe,
amores
marginais arfam
convulsivamente
enquanto gemem orações
hard na penumbra de templos
com letreiros de neon O
menino
que olha pra você de
dentro
dos espelhos só escuta o
silêncio, décadas
de silêncio nos olhos
velhos
do menino que guarda
negativos
de tantos corpos e
gestos de comunhão
úmida e ardente pulsando
carne adentro, olhos
nômades que leram escrituras
de esperma sobre papiros
microirrigados
por sangue e linfa Sim,
você cobre
os espelhos com lençóis
tatuados por suor
e secreções, tocados
pela poesia das luzes
artificiais, mas isso
não cala o menino
que recita sutras
intermináveis: ‘santa
tereza
salvai-me desse mar
de
gozo e de melancolia que nunca ninguém vai
saber
o nome, são joão da cruz, acende
qualquer
lume que desencante o espelho’
O centro
não existe, mas o
holofote de outros
olhos lança você no
universo sem deus
onde flores sem caule
espreitam
na terra amiga o desejo
da seiva,
da casa, ao som do
cântico dos cânticos tangido pelos anjos
do inferno e da última
esperança O abismo da
orla desses olhos é um
dos orifícios por onde
você avança
8/25/2012
Silêncio par(a) Mar
Silêncio par(a)
Mar
O Silêncio é de pedra.
Pedra, pedra, pedra.
Imenso é o silêncio do jardim devastado,
Quando o jovem noviço coroa a fronte com folhagem marrom,
E seu hálito bebe ouro gelado.
As mãos tocam a idade da água azulada
Ou em fria noite os rostos brancos das irmãs.
Porque teu olhar é de pedra
Tua boca é de pedra
E dormes onde avançam
Hidras
De horas salobras
Sob galhos podres, por muros cheios de lepra,
Por onde antes passou o santo irmão
Mergulhado nos doces acordes de seu delírio.
Porque tua garra é de pedra
Teu quadril é de pedra
Teu ódio é de pedra.
Pedra, pedra, pedra.
Tudo passou onde antes era pedra
E tudo retornou
Onde agora é só pedra
Só pedra, pedra e pedra.
Assustador é o declínio da raça.
Neste momento, os olhos do contemplador enchem-se
Com o ouro de suas estrelas.
E agora o Mar
Choca-se contra as pedras
Raivoso e verdeazul
Porque teu silêncio é de pedra.
Pedra, pedra, pedra.
(Imagem: pintura de Karl Hofer)
8/18/2012
SALMO para DANIEL
Cala-te meu amigo!
Como todos os sinos se calam!
Na placenta do medo
a escória procura alimento novo.
Sexta-feira santa, pendurada no firmamento,
uma mão faltam-lhe dois dedos,
Mergulha no vermelho das nuvens
afasta os novos assassinos
e liberta-se.
Veja meu amigo!
Tudo é treva no rio laborioso
que nunca acaba
seu fluxo
ainda que na secura nosso
pranto se espraia.
Não tivemos ombro amigo
na hora dos invernos duros
dos outonos
morrentes
nenhum cálice de vinho
a saciar
nossa amarga garganta
É tempo amigo!
Tempo de orações
negras e sem Tempo,
Não há mais
tardar amigo!
Me calo!
(tempo de ossadas ausentes) -
8/16/2012
Venho de uma família de sírios com drogas
Não é ao ar livre de planície ou mar aberto
Que melhor se vê a idéia do infinito
É pela fresta aberta entre a grade da janela
E um rosto que se deixa atravessar por um raio azul de brilho intenso descendo sobre a manhã da cidade desértica
Um rosto transfigurado pelo céu: então é assim que o dia atravessa as paredes de um apartamento qualquer
Um topázio rasgando a pele de um rosto translúcido.
*
O mar é mais rápido que o pensamento –
No piso do apartamento vê-se
O mar.
Ou é o chão da realidade que ondula
Ou ainda a consciência que recua
E uma vontade sem sentido de soltar uma risada
Na cara do universo –
*
E no meio da loucura escutar a voz de Bárbara
Te dizendo como fazer do silêncio a sua casa:
Se há um templo se constituindo
Nesse momento, para dar espaço à avidez de absoluto
A cidade persiste como a moldura de uma janela
Aberta ao infinito: imagine-se como se amanhece
Um planeta muito próximo do sol.
*
É explicar ao seu amigo que você escreve
Porque não sabe falar
Nada, nem domina
A sua língua: oceano
Não abriga, nem a cidade
De ruas quadriculadas refugia
Inóspita paranóia, para além
Do azul que refulge nas ranhuras da parede
- Venho de uma família de sírios
Com drogas.
E ainda assim é com ela, a língua portuguesa
Que você vai encontrar
Uma saída – são essas pequenas coisas:
Ser um fantasma, por dentro, à procura de sua voz,
Sua cota de infinito, em meio à cegueira programada.
*
Da poesia, espera-se ser
Abrigo para sua pele de éter exposta a todo tipo de ignotas forças naturais e muito
Remotas e ainda desconhecidas ou sempre desconhecidas
Pela ciência: um itinerário sobre o abismo –
A poesia:
Produzir vácuo
Da consciência, avidez de palavras:
Grade de metal, vidro cortado pela luz
Fantasmas de topázio caminham sobre o mar
Refletem
Prismas de angústia e infinito.
*
Ranhuras dançam na parede,
Estamos na década de 50, 80, tanto faz
O absoluto invade a vida
O vidro da janela, as frestas da cidade, a voz,
O mar adormecido no piso: é por dentro
Do sonho que despertamos,
Sedentos de mar e infinito –
Que não se dá a ver, é entrevisto.
Que melhor se vê a idéia do infinito
É pela fresta aberta entre a grade da janela
E um rosto que se deixa atravessar por um raio azul de brilho intenso descendo sobre a manhã da cidade desértica
Um rosto transfigurado pelo céu: então é assim que o dia atravessa as paredes de um apartamento qualquer
Um topázio rasgando a pele de um rosto translúcido.
*
O mar é mais rápido que o pensamento –
No piso do apartamento vê-se
O mar.
Ou é o chão da realidade que ondula
Ou ainda a consciência que recua
E uma vontade sem sentido de soltar uma risada
Na cara do universo –
*
E no meio da loucura escutar a voz de Bárbara
Te dizendo como fazer do silêncio a sua casa:
Se há um templo se constituindo
Nesse momento, para dar espaço à avidez de absoluto
A cidade persiste como a moldura de uma janela
Aberta ao infinito: imagine-se como se amanhece
Um planeta muito próximo do sol.
*
É explicar ao seu amigo que você escreve
Porque não sabe falar
Nada, nem domina
A sua língua: oceano
Não abriga, nem a cidade
De ruas quadriculadas refugia
Inóspita paranóia, para além
Do azul que refulge nas ranhuras da parede
- Venho de uma família de sírios
Com drogas.
E ainda assim é com ela, a língua portuguesa
Que você vai encontrar
Uma saída – são essas pequenas coisas:
Ser um fantasma, por dentro, à procura de sua voz,
Sua cota de infinito, em meio à cegueira programada.
*
Da poesia, espera-se ser
Abrigo para sua pele de éter exposta a todo tipo de ignotas forças naturais e muito
Remotas e ainda desconhecidas ou sempre desconhecidas
Pela ciência: um itinerário sobre o abismo –
A poesia:
Produzir vácuo
Da consciência, avidez de palavras:
Grade de metal, vidro cortado pela luz
Fantasmas de topázio caminham sobre o mar
Refletem
Prismas de angústia e infinito.
*
Ranhuras dançam na parede,
Estamos na década de 50, 80, tanto faz
O absoluto invade a vida
O vidro da janela, as frestas da cidade, a voz,
O mar adormecido no piso: é por dentro
Do sonho que despertamos,
Sedentos de mar e infinito –
Que não se dá a ver, é entrevisto.
8/06/2012
Quando um sujeito cansado chuta o balde, taí uma coisa digna de nota.
Espasmos de lucidez intermitente, êxtase da barata escalando a parede, qualquer comparação soa compacta, um símile da vida em sua ausência de motivo. É sórdido. É bonito de se ver. É promissor. Fulgura. Incita. Que coisa linda de se ver, o horizonte escondido, atrás do vermelho das nuvens densas anunciando a noite, e ele ali: não menos ínfimo por isso. O problema é não ser uma centopéia pra não poder chutar tantos baldes, é o que ele parece dizer. Alguém tem que ser o Cristo, os justos pagarão pelos pecadores e nas redes sociais ainda se pagarão sapos pela atitude impensada. De fato, é um riso venenoso de um sapo daqueles peçonhentos que solta veneno quando pressionado. É a mãe natureza naturante, desnaturada. Não é edificante. Mas é bonito, ainda assim. Um evento gratuito, hermeticamente fechado em si mesmo. Um instante. Foi, e não volta. Se você pensa que a única transformação válida é aquela que deixa uma herança, isso aí não vale nada. Mas, eu digo e afirmo. E canto, nesse canto tosco que mais parece um ensaio de poema, um mero desabafo, a coisa mais baixa na escala dos enunciados: eu canto os pobres diabos que um belo dia e desabafo aparentemente do nada, chutem-se baldes e depois a vida se recolha e volte ao normal. Isso é o mito, eclodindo na tua cara, é o que resta da verdade, desde que ela fugiu, com os deuses, pra trás do horizonte vermelho.
7/27/2012
Poesia não é cavalo de batalha
Sinceramente não quero fazer da poesia, em torno da
poesia um cavalo de batalha, tantas gerações
de mortos se sucederam, antes desta e de outras que virão e o primeiro assassino
da poesia foi o antigo mitógrafo ao demonstrar às musas sua condição
de figura de linguagem e a morte da poesia é como a morte
das pessoas – algo que se repete.
Mas é que em Brasília alguma coisa faz as paredes falarem, não sei
se é a artificialidade
do lago que cria essa mescla de nostalgia e insólito
ou se a imensa múmia do faraó em que habitamos
como vermes petrificados respira pelo concreto. Alguma coisa
dá socos nas paredes
arrasta móveis para nos deixar insones e sempre que alguém
aproxima o ouvido das paredes de sua morada se ouve
nitidamente, gritos surdos, saídos não se sabe de que garganta.
Todos conhecem o centro monumental
de Brasília – mas, seus centros fugidios são outros:
a poltrona em que estava sentado Rawet morto
um livro e um pacote de sopa knorr no colo
o porão úmido onde foram parar os livros do homem que fundiu os horizontes,
único filósofo da cidade do sol parteiro de verdades, do invisível mar sem fim
no horizonte do cerrado plano e liso visto ao longe, mas cheio de detalhes, de
flores, pétalas finas, agudas e coloridas como gritos grudados
nas paredes quentes: paredes de palácios, de garagens, de ministérios
de apartamentos solitários – na cidade silenciosa, mas nunca muda.
poesia um cavalo de batalha, tantas gerações
de mortos se sucederam, antes desta e de outras que virão e o primeiro assassino
da poesia foi o antigo mitógrafo ao demonstrar às musas sua condição
de figura de linguagem e a morte da poesia é como a morte
das pessoas – algo que se repete.
Mas é que em Brasília alguma coisa faz as paredes falarem, não sei
se é a artificialidade
do lago que cria essa mescla de nostalgia e insólito
ou se a imensa múmia do faraó em que habitamos
como vermes petrificados respira pelo concreto. Alguma coisa
dá socos nas paredes
arrasta móveis para nos deixar insones e sempre que alguém
aproxima o ouvido das paredes de sua morada se ouve
nitidamente, gritos surdos, saídos não se sabe de que garganta.
Todos conhecem o centro monumental
de Brasília – mas, seus centros fugidios são outros:
a poltrona em que estava sentado Rawet morto
um livro e um pacote de sopa knorr no colo
o porão úmido onde foram parar os livros do homem que fundiu os horizontes,
único filósofo da cidade do sol parteiro de verdades, do invisível mar sem fim
no horizonte do cerrado plano e liso visto ao longe, mas cheio de detalhes, de
flores, pétalas finas, agudas e coloridas como gritos grudados
nas paredes quentes: paredes de palácios, de garagens, de ministérios
de apartamentos solitários – na cidade silenciosa, mas nunca muda.
7/21/2012
Um sax para a lua
Em sonhos, ele aquece minhas costas
Com seu quadril de fogo.
Contra a parede,
Me empurra e me puxa:
Cadência e milhares de mãos.
Entre as pernas,
Sou puro ai.
Adocicada,
Esgarço em suspiros mornos,
Escorro pelas paredes,
Gemo
Pelos vãos
Do piso de jacarandá.
Mas,
Ele se vai com o abrir dos olhos.
Quase.
Quase.
Foi quase.
7/11/2012
Saturno na esplanada
As baixas luzes amarelas, sua pele de cobre, as sombras retorcidas, música de toda parte se misturando sem criar um repouso nas pegadas marcadas, fundas, no concreto da calçada –
até se pode pensar que tudo parece um sonho, mas
não é sonho. Você pode surtar a qualquer momento. E quando você morrer e quando todos morrerem o jogo cósmico das imensas esferas incandescentes das ondas sonoras no colorido dos planetas vai continuar, indiferente.
2.
Brilhos de estrelas caem sobre nós como migalhas de pão varridas de uma mesa desabitada soprada pelo vento insciente.
Menos.
O universo prescinde de testemunhas.
3.
Veja (a palavra) estrelas – a palavra não é visível.
Estamos em pleno oceano tentando buscar alimentos com uma rede invisível (imaginária).
4.
Tanto faz se é boson de higgs ou partícula de deus. Persiste a hybris de que nós com nossa tosca linguagem podemos e devemos dar nome às coisas.
5.
Amoras esmagadas na calçada. Ela diz que o tempo não perdoa. Minha voz sustenta um canto soprado pela força emanada de algum planeta. Mas ele, por sua vez, sustenta-se em nada. Nada disso foi planejado. Como agora mesmo, do nada, veio a expressão: furiosamente lento.
As palavras, porém, nem sequer tocam a superfície de gelo e gás que se move na distância incalculável.
6.
Colha Saturno, com os olhos. Cole o planeta numa superfície apreensível pela vista. Bege em meio ao espaço negro. Dois pontos brilhantes. Um belo acidente captado à distância. A fome cega dos anéis em quem coleciona experiências.
O planeta não me deixa esquecer mais nada. Mas ele mesmo não se lembra nem se esquece de nada.
até se pode pensar que tudo parece um sonho, mas
não é sonho. Você pode surtar a qualquer momento. E quando você morrer e quando todos morrerem o jogo cósmico das imensas esferas incandescentes das ondas sonoras no colorido dos planetas vai continuar, indiferente.
2.
Brilhos de estrelas caem sobre nós como migalhas de pão varridas de uma mesa desabitada soprada pelo vento insciente.
Menos.
O universo prescinde de testemunhas.
3.
Veja (a palavra) estrelas – a palavra não é visível.
Estamos em pleno oceano tentando buscar alimentos com uma rede invisível (imaginária).
4.
Tanto faz se é boson de higgs ou partícula de deus. Persiste a hybris de que nós com nossa tosca linguagem podemos e devemos dar nome às coisas.
5.
Amoras esmagadas na calçada. Ela diz que o tempo não perdoa. Minha voz sustenta um canto soprado pela força emanada de algum planeta. Mas ele, por sua vez, sustenta-se em nada. Nada disso foi planejado. Como agora mesmo, do nada, veio a expressão: furiosamente lento.
As palavras, porém, nem sequer tocam a superfície de gelo e gás que se move na distância incalculável.
6.
Colha Saturno, com os olhos. Cole o planeta numa superfície apreensível pela vista. Bege em meio ao espaço negro. Dois pontos brilhantes. Um belo acidente captado à distância. A fome cega dos anéis em quem coleciona experiências.
O planeta não me deixa esquecer mais nada. Mas ele mesmo não se lembra nem se esquece de nada.
7/01/2012
A máquina de fazer sumiço. Ou, nem tanto hermético assim
1.
Não há no que acreditar
nem motivo, a vida é o que separa
pisa-se um degrau enquanto o outro pé
fica no ar: nos movemos
como uma máquina
que respira e circula
vento.
Trata-se de raspar a pele por dentro
cavar a carne com as pás tortas
de um ventilador
hermeticamente vedado
até a possível transparência
emergir do desgaste do corpo.
2.
Ele olha pro chão e esquece e olha pro chão e esquece: a situação humilhante, o motivo da tristeza é incerto, ele apenas nasceu assim, estranho aos seus olhos – como um cata-vento
jogado no chão, você não entende, acredita que a dor real precisa de uma retórica consolidada, ninguém pode ser tão
cabeça de vento. Ele apenas nasceu assim, desconhece o roteiro entre dor e lágrimas. Ele sabe rir –
mas ninguém entende suas piadas.
3.
Ela caminha arrastando-me os pés: suas longas e afiadíssimas garras arranham, arrancam minha carne de terra do chão em que ela pisa: o mundo sangra nos pés: ela diz que nada fez: é o seu natural: fazer passar e ferir. Suas unhas côncavas como pás fazem a ferida render mais: adia-se a cicatrização, dura o machucado como pedra. Surpreendo-me suturando minhas pernas. Sem anestesia: essa é a tarefa que a terra, pálida, herdou de mim.
4.
Os coqueiros são ventiladores
Seus braços girando – ventiladores
Ventila, ventila
A solidão, ventilam
Idéias, lâminas frias
Sobre o pensamento.
Como são atraentes as máquinas que engendram sinais.
5.
Me falta malícia para ventilar convictamente as tuas óbvias mentiras.
6.
Em algum canto
do tempo
alguém guarda:
a máquina de fazer nuvens;
o interruptor de luz solar;
a lua disfarçada de moeda
sem valor de moeda
as cores das penas de um passarinho
fugitivo
que me contou, sem cantar
que quando alguém gira os braços
sabe-se lá o quê
depois do depois do mar,
sente um toque suave,
suave como se a vida fosse mesmo um sopro
de um deus ex-machina
que gira, sem nome,
com suas hélices
por dentro da alma do ar
cavando, por dentro de si
o sonho comum
da fraternidade hermética.
- que a alma é ar, ar
que a si mesmo respira:
e poesia – poesia
é pra ventilar.
Assinar:
Postagens (Atom)


.jpg)



