9/22/2013

Perpetuamente encoberto por nuvens corrosivas e densas: a dor e a luta criadora enviam sinais para captar em troca alguma ressonância que aplaque nossa condição ínfima: já que a proximidade do sol interdita a visão direta: o chão cavernoso de Vênus: o universo é um palácio de vozes desejantes:
espelhos em forma de conchas capturando ecos obscuros de nossa condição: sacerdotes bendizem, exorcizam, dizem que curiosidade é pecado: que os ecos denotam um serpentário e que a febre vem de veneno e não do perfume: ainda assim nós caímos, indefinidamente – curtindo a sedução de uma língua onde palavras sempre estão por nascer: e colhemos os frutos impossíveis que brotam daquele solo inóspito e nos tornamos a carne daquele solo: só lamentamos que não sejamos mais fortes para provar toda sua força corrosiva e renascer, perpetuamente:


que vontade louca e muito humana de se mandar dessa terra sem graça, com leis e com reis. 

9/14/2013

A clivagem é real: de um lado, o cotidiano, de outro você que tá vendo é quem me diz. Desde o começo, os observadores viram os cometas com sinal de mau agouro, porque eles simplesmente atravessam a geometria desejada por testemunho da racionalidade do mundo, como arranhões na consciência de deus. Só que é o seguinte: quando eu enlouquecer não será como essa situação patética de pessoas tentando se agarrar a qualquer pedaço de realidade, como se despencassem de um barranco e misturassem terra e sangue em suas unhas, despertando piedade de quem está acima, aparentemente seguro no chão. Não: vai ser de uma vez: não interessa mais se as portas estão abertas ou trancadas, não interessa mais saber se você foi rude com a vida ou a vida foi rude em você: se o mundo desmorona à sua volta, você deve desmoronar mais profundamente, até romper o chão e abrir uma cratera, se as pessoas enlouquecem, você deve procurar a loucura mais definitiva que faça, da loucura alheia, prova de sanidade, é deixar que as pedras que guardam estilhaços de sentimentos sejam polidas na água fria de um fluxo qualquer no éter cósmico até se tornarem pontiagudas e perigosas, que todos se mordam e arranquem pedaços de carne com seus dentes de granito, você deve assumir a sua condição e o seu destino acéfalo e chutar a parede até que as bocas que vomitam pequenas ofensas sangrem nos seus pés, você deve ser o primeiro a reconhecer que todos os muros gravitacionais são indestrutíveis e se afundar em gestos tão irrisórios de doido que bate a cabeça e que as manchas de sangue não transmitam qualquer mensagem, isso se ainda te resta alguma dignidade.

9/09/2013

Ventania vermelha por dentro
            Da alma, torvelinho
            Vazando as pálpebras
            O tempo lacrimeja orvalho
            À superfície vazia de rosto.

            Até pensaria ser um fantasma
            Não fosse a faca
            Estilo corvo
            Enfiada na carne.


9/04/2013

Alguns espelhos do tempo

O campo de visão se fecha, mas não no sentido habitual de quando fechamos os olhos, de cima para baixo e de baixo para cima, mas lateralmente. Os olhos são ampulhetas que funcionam numa lógica não gravitacional, a areia, a passagem do tempo, corre dos lados para o centro. A poeira vai além, chega até a mente e onde o corpo faz conexões com a alma. Apago-me. Não sei ao certo se ainda enxergo qualquer coisa quando começo a cair. Acordo com o queixo aberto, dentes molares arrebentados. Que despertador foi esse que usaram para me acordar, uma porrada como se estourassem bumbos por dentro do cérebro: é minha cabeça batendo no chão.

            Caio em mim como alguém que cai em si.  

*

No dia em que Napoleão nasceu eu acordei com uma pequena dose de mau humor. A luz atravessava Brasília como uma névoa translúcida – um clima de sonho. Eu era perseguido, em cada fantasma havia um coração alheio que era meu também e estranhos pulsavam em meu coração. Alguém planejava um atentado terrorista contra a biblioteca da universidade enquanto um jornalista ensinava como se precaver contra a meningite: poder é perversão de senadores dendrofílicos. Nunca me esquecerei desse dia em que Napoleão nasceu, acontece sempre, sempre retorna – era uma terça-feira. O calendário às vezes me deixa doido da vida.  Se Napoleão Bonaparte era um louco que acreditava ser Napoleão Bonaparte, eu é um poeta que acredita ser um louco desejando ser um poeta louco à deriva pelo calendário enquanto se escreve isso, numa terça-feira, dia de nascimento do Napoleão Bonaparte na sua loucura, leitor.

8/25/2013

Onça anda em círculos
            na jaula abafada do zoo
e parece neurose:

            (movimento interrompido
            torna patético
            mesmo o animal mais lindo)


            *

            Quando o tempo se enovela
            Dando voltas e voltas em si mesmo
            Isso deve ser visto com a atenção de um eclipse –
            Mundos são criados
            Espirais giram palavras até sedimentar
            Uma dor, um satélite, uma forma de vida:

            A onça anda em círculos
            Por dentro da jaula –
            Seus rastros desenham
            Uma rosa
            Uma galáxia
            Uma pulsação silenciada.
           

           


            

8/20/2013

Espero tornar-me um louco muito mau

Os influxos de um planeta todo verde
            por dentro, no sangue.

            O sangue circula do coração
            aos olhos e alimenta os movimentos
            das mãos que escrevem
            circulando em torno das palavras
            à espera de que, enfim,
            não sejam mais necessárias como placebo
            para filhos de um planeta muito leve,
            muito lento, todo verde e vazio
            por dentro.
           
            Tento contornar a solidão
            com uma rede de palavras
            mas caio atravessando-as e quando me dou conta
            dou de cara com o sempre mesmo chão
            paradoxalmente duro e inexistente
            um chão cortante de esmeraldas pontiagudas
sem solidez.
           
(De vez em quando a vida manda notícias
com uma lâmina verde na jugular

            escrevo para não ver
            o que existe e é real:

            Nada.

            *
            
            Caem gota a gota
            no meu sangue
            quase estrelas muito silenciosas
            e muito mórbidas
            elas corroem a língua, vampiras
            brincam de carrapatos na garganta
            ou sanguessugas crescendo por dentro
            do cérebro:

            e meu corpo explode como um grotesco
            pacote de fogos de artifício –
            e meu corpo não interessa nessa comédia
            a não ser enquanto máquina de expelir letras.

            Depois elas tomam o primeiro arame farpado
            como andaime
            e sobem aos céus, aos planetas
            e todos os outros rudes maquinismos
            obras de um deus de mau humor
            que elas vão alimentar de amor
            com o sangue anêmico que me foi roubado
            e elas flutuam, como pedaços de carne
            penduradas em ganchos
num açougue celestial:

            - é a primavera que está chegando?

            e elas me deixam falando sozinho.
           

           

            

8/17/2013

Todos um dia vão cair


Ismália vai à lua –
                cai no muro.

                Puta vestida de onça
                sentada em desolação
                de gasolina me pede um cigarro
                - não fumo.

                Um caminhão atravessa
                o céu de cachaça envelhecida
                no carvalho:
                hagiografia de coveiros
                e cracudas fazem amor no cemitério:

                - Entre o pernil e a vida
                o morto ficou com o pernil.
               
Temos ainda a procissão
                o andor é estudante e nossa senhora
 jovem envolta em lençol com sêmen.

                Protege-se no sarcasmo o pensamento dividido
                a oração de um cético
                na igreja só para abrir trilhas no facão.

                É tudo assim
                tão irrisório iridescente
como a ilusão de um desejo alheio:
               
                A língua furiosa do amor e do desamor
                embriaga os mitos.
               
Eu, vampiro, alimenta-se
                do pó dos muros.
               
Ismália vai à lua –
cai no rio
                fermentando de vida.


8/10/2013

Da série: Planetário de bolso

            Netuno

Uma fome nasce no mundo. Uma fome a mais. Procuram domá-la impondo-lhe um nome. João (amava) Teresa (que amava) Raimundo. Netuno. Ali onde havia uma equação. Onde cairia a maçã, se não houvesse um campo de forças à procura da maquinaria do universo, abstraindo-a. Sangue verde, formando uma pedra de gelo onde haveria a matriz de um coração. Despertar para o sonho é como inspirar antes de um mergulho: com os olhos ainda molhados, a luz azulada do dia. Para sempre ser intempestivo. Soprar verbos no horizonte demiurgo. Aqui começa a revolta: ventania contra as grades de um nome. Inútil procurar uma ordem entre essas frases. Um tridente, como toda invenção, antes foi objeto de sonho.


Júpiter
        Corpo lento em pesadelo, imenso e leve se move no espaço girando velozmente ao redor de si mesmo. A mania persecutória do escritor sabe que seus amigos não acreditam na sua escrita, que os outros poetas não acreditam na amizade ou se acreditam na escrita é por piedade amiga e que portanto como bons amigos não acreditam na sua escrita e que ele, apesar de todo ceticismo e auto-sabotagem, vai prosseguir escrevendo sem acreditar em nada, nem nos amigos e nem nos poetas e muito menos na própria escrita. O estranho paradoxo de um demônio inseguro. Giro ao redor de mim mesmo e me movo frontalmente, não saio do encalço de alguma coisa parecida com uma tempestade vermelha que dá o tom dos meus sonhos em que fujo de outra coisa ou tento capturar a vida, que sempre está à frente, afrontando-me adiantada em estado de miragem perpétua. O que se vê de mim são as garras tentando capturar o vazio, a fraqueza do soberano que se retira e parte para o exílio no oceano noturno.   

8/08/2013

                                  
            O excesso de luz, imensurável – se luz é a medida das coisas;

            Imagine uma régua que se encolhesse – dilatasse – vertiginosamente;
           
            Terra, por dentro, incandescente – por fora, desolação lunar;

            Como se o sol expelisse uma semente – uma espiral de seiva;

            Todo um clima a ser observado – sem atmosfera, por olhos inorgânicos.

8/05/2013

Noites Brancas

1.       
O fim continua após o corte
no se consumir paradoxal da energia que se alimenta
depois da última cena

(Um girassol plantado na lua
na lapela do homem que se retira sozinho
dentro da cena ou fora, na sala de cinema):


                        2.
A neve segue seu serviço
de compor um cenário para a sensação
interminável quando a luz se acende
e o filme enquadra o sonho
ou a vida, trancada em aquário de luz
para consumo e alívio do tédio –
                       

                        3.
Dia e noite se misturam
                        no homem e no personagem
modulando-se por tempos a fio
quando sai do cinema para entrar na cidade
real, no choque da realidade:

Variações do mesmo, apenas
e as pétalas estão mortas
vivas, pulsando, roubando-lhe ar,
são dentes muito finos sugando o coração,
estão mortas, vivas, cantam,
ondulam-se espumas de um mar amável,
são asas, bilhetes, alimentam, consomem,
dão coragem e medo da vida: tudo isso

Um girassol plantado na lua
na lapela de um homem que se vê
no cinema
                        na brancura da noite, em meio à vida social 
                        e sente um calor impreciso
                        fugindo da lapela inexistente.
.

                        4.
                        Quando o filme acaba
                        e você tem que voltar para casa
                        e depois do desfecho
                        o fim prossegue por horas, dias
                        toda uma vida cultivando o interminável
girassol lunar – e a flor está enraizada
no coração

e seu coração, portanto, é de pedra
da lua, com sua parte iluminada, diurna
e uma noite que não termina.

E você segue seu caminho
                        sem destino
                        com um girassol colido numa ponte
                        toda branca
cravada na lembrança.


5.
E o desejo podado de dormir por 6 meses
acordar sem esse girassol na lapela

- mas ele é tão esdrúxulo
quantos não gostariam de ter
um girassol lunar na lapela?

- este girassol lunar
me faz leproso, inimigo da ordem pública
quero ser sensato, saber medir a ficção
entrar e sair do cinema
como um cidadão qualquer.

- mas o girassol está enraizado
em seu coração, como arrancá-lo?

- este girassol lunar
me impede de dizer bom dia, boa noite
como vai, como está, tudo bem,
quais são as novidades, que tempo seco,
frio, que dia quente, você viu que choveu,
o que você vai fazer hoje,
dá uma olhada na fotografia,
mande notícias, depois a gente se fala
tudo o que todos podem dizer
mas não eu
quanto tempo, por onde andou,
vamos ao cinema,
você já viu o filme chamado noites brancas?

- este girassol lunar
que brota da lapela inexistente
enraizado em seu coração
sugando seu sangue até a expressão da brancura
é uma antena voltada para as mais imperceptíveis
forças cósmicas
sem ele como você falaria com flores e planetas?


8/04/2013

So it goes

E se ao invés de comer pedras
            lunares
            poeira fria e cinza
            você se alimentasse
            de cometas?

            Cometeriam corações – rastros incendiários
            na espinha dorsal da vida


7/30/2013

Quando uma estrela morre esparge pólen no espaço.
            Ocasionalmente o pólen se condensa em elementos água terra fogo e ar
            Ocasionalmente os elementos se enovelam no tecido sensível da vida
            Ocasionalmente uma fina camada de pólen entardece o dia nos cristalinos olhos de vinho das coisas vivas
            Do pólen de estrelas mortas vem a carne, vêm os ossos, vem a pele e o sopro que anima, como um istmo, alma nos robôs sanguíneos
            (há um fundo de pólen em todos os olhos, num sorriso e há um fundo de pólen no espaço escuro do universo)
            Ocasionalmente o tecido sensível da vida esparge pólen na tarde, num diminuto clarão estelar contra os padrões do dia.
            Ocasionalmente vemos uma estrela morrer no céu distante.


7/24/2013

Existem ínfimas estrelas
            subatômicas
            vagando ocultas nesta dimensão
           
Se uma delas explode contra um rosto
em fim de tarde
            aprisiona quem estiver olhando este instante –
           
            Quero beber chá alucinógeno de estilhaços
desta mínima supernova:
           
Raízes em rizoma proliferam dentro
do meu globo ocular
            Pólen desidrata minha boca
            Um céu de bronze cresce por dentro
            Da alma lunar, cheia de crateras.





7/19/2013

Vênus

O ar denso gruda na pele em gelatina corrosiva. À luz difusa, estourada, não se vê depois do céu. Estrelas e o próprio sol inexistem, a não ser como efeitos de especulação teórica, ocultos pelo excesso de claridade.
Carrego comigo um espelho onde julgo poder observar a luz em reflexo, fixamente, pra entender o fogo: de onde vem e como cai sobre a vida, sob a forma de pétalas róseas. Os olhos ardem mais do que o calor retido no espelho e sobre as pálpebras, como numa tela, emerge um novo espetáculo cósmico, astros multicores sob o vermelho das veias – só, o coração permanece o mesmo mistério ofuscado.

Fecho-me num quarto escuro por três dias, para reaprender a caminhar entre sombras.    

7/10/2013

Da ilusão do sujeito como agente de si mesmo.

Vou me salvar tirando lodo de mim como quem se cava com uma escavadeira. Lodo etéreo visto de fora (por dentro, quantos animais mortos) – vermelho translúcido que vai se abrindo nas feridas, na superfície densa. E mais de longe um brilho distante, como uma transparência que pudesse te abraçar, leitor, e sua pele toda uma pétala a ser contemplada pelos que procuram a verdade na beleza e na ternura.
Ou: se ao menos alguém se salvasse dessa forma, esse jogo demente teria sentido.

*
Você sai para caminhar e sem aviso – chove. A chuva atravessa a camisa, toca a pele, o frio passa dos nervos para a alma que está sendo criada nesse instante e é toda uma perspectiva que se abre, tátil (a mente também é pele e tenta sentir o encantamento do dia, um calor impreciso no fundo do frio). Sabe-se que não se deve perguntar se a chuva tem um propósito a seu respeito. Mas a pergunta inversa também é um erro: qual o seu propósito ao dizer a chuva como um acontecimento que te envolve, de corpo e alma.  Você chega em casa, olha pela janela e o céu está aberto, claro – o asfalto está completamente seco. Você olha perplexo para os seus braços, que parecem ramos orvalhados.

           



Corações partidos (ao pé da letra)


Nasço como um bêbado que entra num quarto escuro com peças de cristal. Não tenho o direito de estar ali onde me “vejo”, mas sinceramente, quem está falando em direito depois do fato consumado. Quando dou por mim, a porta está trancada não sei a quanto tempo. Como vim parar aqui, é inútil pensar – o que havia antes da porta, já que ter nascido é estar num quarto escuro com peças de cristal antes mesmo de aprender a pronunciar a palavra eu. Talvez se eu me encolhesse, alguns desastres seriam evitados – mas mesmo escolher um canto exige alguma movimentação prévia e alguns objetos serão quebrados. É inevitável, como disse o escorpião da piada: é a nossa natureza. E mais: também sou frágil como uma peça de cristal, como você descobre rapidamente. Talvez seja essa a natureza de que fala a piada: isso que chamamos de pessoas são fantasmas de cristal, bêbados num quarto escuro, sonhando estar entre peças de cristal. Então, preste atenção: você nasce como um bêbado que entra num quarto escuro com peças de cristal – mas elas não estão paradas e sim em movimento – e vamos chamar esse movimento de caótico para não humilharmos a fraqueza de nossa razão que simplesmente não reconhece padrão algum, apenas estilhaços. E você é uma peça de cristal entre outras – e mesmo que você diga: “eu tenho um coração, não sou um mero estilhaço” – olhe bem, seu coração é tão invisível para você quanto o coração alheio. Quem sabe se aquela ou esta peça que vai ser quebrada quando você realizar seus desastrosos movimentos é parte sua ou alheia? Se você mesmo não passa de um estilhaço de uma peça quebrada? Se isso que você chama tão orgulhosamente de meu coração não passa de um caco afiado voando sem direção? Quem disse que você não pode ser seu próprio terceiro, o seu ele? E você pode dizer: mas o movimento é resposta a um impulso natural e tudo o que é natural tem seus direitos – mas quem está falando em direito depois do fato consumado.
Moral da história: Sempre que um intruso invade uma história alheia – como saber se o intruso não é justamente o que estava ali antes, ou se a história alheia não é a de um intruso que invadiu uma outra história alheia anterior e assim por diante? Como sair dessa terrível solidão, se a saída também é movimento e só existe movimento porque existe espaço alheio? Se mesmo a ilusão de ficar parado é estar no caminho de alguém, uma vez que só existe espaço em função de um traçado – chamo de meu território ali onde julgo poder me movimentar (e só existe movimento porque existe espaço alheio)? Os sujeitos mais racionais já disseram que a resposta está no começo, no que vem antes (a aliança original), outros tão racionais quanto, que a resposta está no final, o direito é de tudo o que vem depois (só depois de mortos saberão o que fomos e dirão se somos dignos de nossos estilhaços de felicidade), outros tão racionais quanto, que a resposta está no próprio movimento (supondo que sejam livres). Mas eu li em versos da Orides Fontela:  não há piedade nos signos e nem no amor: o ser é excessivamente lúcido e a palavra é densa e nos fere (toda palavra é crueldade).  


7/01/2013

...

A grade na parede parecia uma prisão, depois mão de dedos longos e finos saía como se a sombra estivesse se soltando do concreto num gesto ameaçador, depois os dedos se alongavam tanto a ponto de parecerem linhas horizontais cruzando o meu peito, como traçados de projéteis, de repente tudo sumia, ficava escuro e depois a sombra surgia novamente, na sua forma original de grade (eu não devia, mas pensava, que prisão etérea é essa? são apenas sombras na parede).Nas horas de escuridão, é como se chamas de um fogo frio tocassem meu rosto. Me levantei com as pernas doloridas e vi que a grade, a mão e as linhas eram efeito da luz da lua e do movimento das folhagens de uma palmeira sobre a janela. Peguei o darmapada para ler: abro justamente na parte que fala em morte e que diz o que louco ama os obstáculos que o sábio evita (porque querer ser feliz nesse mundo é como querer morar tranquilamente numa casa em incêndio). O louco está em toda parte. Eu sou esse louco.

6/23/2013

Tento entender a natureza paradoxal do vazio. Não por intelectualismo, mas por acreditar que o entendimento pode ser a última alegria que resta. Vazio voraz habitado por dentes, dentro e fora, acima do visível imaginável e no mais profundo de si. Escavando emoções, corroendo corpos, limando o tempo – dentes de matéria sólida ou luminosa, indiferentes à natureza do seu alimento.
No abrigo escuro do meu sangue, no coração hermético, um peixe sacia sua fome cravando seus dentes muito finos, enquanto eu respondo sempre igual: “tudo legal”.


***

Eu e Torquato caminhamos por uma rua, chão de areia, luzes amarelas, leve ladeira. Ouvimos o rumo do mar. Uma civilização extinta nos observa pelo telescópio. Pergunto se o excesso de vitalidade pode matar alguém. Quando não há o que ser acusado por nosso destino. Esses observadores são tão impassíveis quanto nós, quando olhamos as pedras no fundo de um rio de águas muito frias. Poderiam ser nossos antepassados. Ou suicidas paralisados no último segundo. É como o caminho de mão única de uma música composta por um morto que te conhece tão bem: porque o ouvinte vivo devolve a aparência de vida para a voz que se consome – que se consumou.
De vez em quando passo por essa rua. Quando eu morrer, toda essa fantasmagoria vai comigo para o túmulo

6/12/2013

Cidade sitiada por enchente

1.
Caninos reluzentes e anéis de ouro brotam
do lodo, do rosto oval do Absoluto,
homens sujos de terra com máquinas de nomear,
criaturas do Trocadilo de unhas bem cuidadas.

Terra de cova, de cadáver, de lamaçal amazônico, de apodrecido cerrado, poeira de garagem, fuligem de ministério, maquiagem brutal
do terror; seus oficiantes são sacerdotes que dão murros nas mesas em síndrome de visceral denegação.

A história sibila como o rotor da pimentinha, seu corpo desintegrado se equilibra na paranóia com que o serviço secreto estuda as formas mais inventivas de tampar os cus de Médici, Ustra e Fleury – o tirano deve ser íntegro e precisa cagar por um buraco mais higiênico, nos sete matizes do rosa.

Um filete de sangue corre pela valeta da rua dos testemunhos dos comedores de mimeógrafos, depois de intensa busca panfletos homicidas atribuídos àqueles que serão mortos são extraídos dos rins de peixes envenenados pelos resíduos das usinas ao passo que o médico auxiliar receita um buscopan.

A foto do mito morto e uma cadelinha para estuprar.


2.
A mente es-
quece o choque guardado
no corpo, para todos os efeitos:

o engenheiro em Birmigham
o jovem no porão
pensam sobre o enigma –

a corrente
da eletricidade, o brutal
curto-circuito da história –
ser contemporâneo
de um gorila.

Na calçada, um homem de cotovelos
estraçalhados
executa Bach para os passantes.


6/05/2013

Verde viscoso emerge do obscuro, algas nas paredes, seu corpo se dissolvia na espuma

do colchão, a luz que antes caía num espaço sem altura onde toda queda é impossível, condensava-se e capturada num mundo todo nervos, luz curvando-se em olhos de

pálpebras pétalas da noite que via o mundo e voltava a dormir, apagando-se.


5/24/2013

Momentos



Eisenberg entendeu tudo errado.
Mas a pior praga é sempre a seguinte
Icebergs expulsam famílias da Escócia
O contrato eu não leria. Numa boa? Evite.
Se quer ganhar dinheiro, somos vinte.

Fala pra tua amante parar
De estraçalhar minha perna a bicadas
A pensão que eu tive, troco ela por nada
Prefiro zombar do trator do destino
A casar consigo.

Frases como esta fazem frio todo mês:
Agasalhos, sejam bonzinhos que eu me crio
Com vocês.

5/17/2013

Cápsulas vagam no extremo vazio, bolhas sopradas do que não tem começo ou fundo: a deusa noite é uma fenda no abismo do oceano de éter. A película é tão fina que não impede a travessia de estranhos influxos.
O seu modo muito particular de sorrir, o percurso das lágrimas que caem na sua blusa como estrelas que morrem.
Tudo tão sutil e transparente e oculto pelas distâncias infernais. O sublime é o que não pode ser medido. O universo é mais transparente do que o breu absoluto. O tempo estourará como uma água-viva contra os limites da realidade.
Dentro da mínima cápsula, o tirano presenteia o filósofo com um elefante. O dissecador de flores.
Não há ponte visível entre a realidade grotesca e a geometria desses corpos abstratos.

5/11/2013

A luz tateia meu rosto
sem olhos,
o vento me aninha

respiro pela pele.

Não há dor nas raízes
que arranham minhas pernas
mergulhadas no húmus

Vida é ritmo de pouso
e procura:
a terra será fecundada
com o pó alucinógeno
que brota dos meus cabelos.

Multidões marcham

eu nada testemunho.

De sangue e água
só conheço temperatura.

Tenho minha própria lentidão
e morro subitamente.

Da história,
nada sei nem saberei.


5/03/2013

Vistas planas do que é a Casa

1. Vingança gratuita

Em torno do homem, um casulo humano. Quando você sai à rua, a casa inteligente perde preciosa chance de te administrar. É o quarto do pânico, um desejo pueril de segurança. Confessá-lo parece despertar da súcia a malta, conjurar o que à alma baixa, e mesmo disso sentir falta.

Mas até uma casa inteligente tem pontos de treva nos sistemas, ausências em traumas terríveis. Se um dia o quarto o acondiciona na porta da geladeira de ovo virado, pode esperar: a vingança gratuita vem do ambiente, onde menos você se sente.

2. Para iniciantes

Esperava nesta sombra à parede um registro do espectro da lua, as águas todas nos copos da casa indo embora com a maré. Isso quando menos você vai encostada, salvando uma vida a dois na mobília da enchente. Você aprende! Cante com a gente.

Há muito tempo gente se casa, os pais da família reúnem dinheiro e dão dote. Tal hábito proliferou em tantas castas de casas gastas, atulhadas de desejos que cada filho fizesse o mesmo. Hoje todos compreendem por que cobram fazer isso, planos tão longe projetados como um eco a partir da boca: "patrimônio, tu és a mola-liga da família".

3. Onde foi mesmo que eu deixei a chave?

Apertem um botão pra checar se o milquicheike nessa casa não tem vida própria. Sem grana pra sequer pensar em cromaqui, objetos solitários se movem segundo a lei de sua atração: é pegar ou largar. Cumprindo o que trabalhos mais conscientizados não tentam porque não são devidamente valorizados, duvido que nessa noite fria sejam esquecidos de lado. Técnica, dai que esqueçamos que você existe. Até nas teorias.

Ficaremos, pois, com o resto. Uma noite, conosco fora para a semana, a casa pode dormir. Sonhar. E nós, imagina, fazendo o devido desespero dos garçons em certos restaurantes. Duvida? Bate um fio direto da minha residência, nem anota o endereço - porque eu vi um movimento ao sair, era você que chegava aqui.

4. Com cinco ou seis retas

Saiu pela escada da moça pelada. Consegue ouvir com essa droga? Tóing-tóing, é a mola. Perdida num degrau da escada, eu nem dou bola. Tou com fome e é uma praga, com esse tempo úmido até na barriga a comida estraga. A casa fica na beira de uma estrada. O mundo corre em volta, fluindo à revelia mas olhando de soslaio ao homem, seu eterno adversário.

Olha o crepúsculo na abóbada: é uma passagem - no casulo está pintada esta paisagem. Apenas uma concha de molusco à beira-mar.

5. Inventário

Está lavrada ao lado a escritura. Quem deterá o roteiro da minha figura? Ao contrário de todos os meus amigos, sou muito solitário. E silencioso. Falar de outros, com os outros, me dá nervoso. À minha chegada no advogado, mãos da família me recebem jogadas ao ar. "Ficar com a casa? Eu nunca vou deixar!!!"

O colarinho quase o sufoca. É medo de exagerar. Nunca lhe deram nada, um estrago no assunto dos outros - ah, isso sim ele tem de deixar. Leva sob os braços as memórias dos encontros, brincadeiras no quintal da infância. Pode parecer apenas um número nos papéis, e que o revolto episódio de herdeiros se deu por incidente. Mas o que é sério, mesmo fugidio, fingindo a gente sente.

(para Wlademir Dias-Pino)



5/02/2013

Mais do planetário de bolso


Marte
Toda vez que passo, uma mecha de cabelo de alguma mulher morta se gruda nas minhas costas. Ventosas: meu corpo cada vez mais anêmico, coberto de pelos vermelhos. Polvo bélico, cápsula de aço orgânico, tentáculos fisgando o seu pesadelo. Aranha vermelha em camisa preta, um leão agoniza no minizoo, lentamente feroz. O meu rastro é feito de partículas do meu corpo, mês desgasto e me renovo, sempre originário. Sou traiçoeiro como um monstro triste, uma flor cheia de dentes, escrevo como quem tatua gritos no papel. A cada vez que te assassino você se sente vítima de ódio, mas é a tristeza que me lança em agressões repentinas – deus me armou como quem monta uma armadilha.

Mercúrio
Só existo enquanto caricatura em teus olhos perspicazes, você inteiro em si mesmo. Existe um preconceito muito forte separando você de mim. Eu que entre a tristeza e a tristeza não encontro um caminho natural. Vou deixando heráldicas como rastro, vestígio e sinal de que nunca estive ali: mão de ferro empunhando um dragão (de pano). É o destino dos pequenos, ser uma lágrima a mais na face definida dos imensos, o seu riso invulnerável, um desperdício do tempo. Você íntegro, claro como um rosto nu, que nem mesmo precisa de máscara porque não há istmos abertos pelas unhas afiadas da vida entre seu juízo e o que vai entre seu juízo e o juízo final. Você, o monólito com uma sombra de falsidade: euzinho aqui, caricatura do humano. Seria você o caricaturista? Só o incriado não é caricatural, sou tua criatura, um animal de estimação, uma repugnância necessária antes de verniz do seu engodo, a falácia que convence sua verdade, a maldição exemplar que dá aos abençoados a certeza de que sua bênção não é uma desgraça camuflada? O que seria do mundo se todos fossem verdadeiros e solares como tu?

4/24/2013

olhos ardem, sal no rosto
máscara de areia
mínimos cristais
o céu espelha água
sem tempo de sorriso.

nuvens de pelica
luz implode, beleza dói,
água intensifica passagem
de corrente elétrica.

quantos torturados no ministério verde
persianas abertas, fechadas,
monumento feérico verdejando.

flores químicas
garagens por dentro,
sonho de pétalas transparentes
à paisana.

pálpebras de planetário
olho tem células de ver breu
dor desenha dentes raízes
de caule em lobo com rosto,
logo antes do desmaio.

pequenas pétalas no capim:
haste vermelha, fios brancos,
desvanecem ao toque do olhar.

capim adubado com sangue.
espasmo elétrico.
paisagem pura à beira do lago.
árvores simulam fuzilamentos,
sob luzes amarelas.





4/15/2013


Criei meus filhos na terra
Delineada com minhas unhas curtas.
Juntei água morna, sol, bacias e pás.
Enquanto eles brincavam,
Esculpi seus corpos com minhas verdades
Temporárias.
Hoje, ao vê-los assim, meio tortos,
Mes œuvres d'art abstrait,
Liberto-me do território,
Do museu.
Dou-lhes cinzéis e martelo
E espero netos,
Ensolarada.

4/10/2013

Da série planetário de bolso

Terra
Quanto mais cavo, mais pesada é a terra e mais próxima da leveza etérea. Quanto mais fundo é o túmulo, mais leve é o fantasma. As palavras nascem asas do lodo. Quem sonha com uma saída, sente os pés enraizados e é mais fácil romper os ossos que tocar as utopias que trago em meu ventre denso, obscuro, incandescente. Sou a morada mortal de poetas ainda mais mortais do que eu. Desistam, não há ouvidos para o seu lamento. E se ouvidos houvessem, inexistiria interesse. Lancem suas mensagens ao mar, mas o mar é duro e transparente como uma pedra. Desprezem a lama que lhes deu vida, como coisa viscosa que envolve suas palavras em podridão. Não existe aparelho perceptivo para a podridão que emana de seus corpos, sua solidão é sem remédio.

Vênus
A luz filtrada pelas nuvens é ainda mais avessa aos olhos – a criança grita como se a certidão de nascimento estivesse em jogo e as nuvens fossem a porra de seu pai – édipo destronado, estrela da manhã, diamante de esperma adornando a lua – o segredo da espuma – o mar verde cor de detergente, teu solo pegajoso onde se mergulha ao dissolver-se – crianças brincam na lava, bolhas de sabão, porra e limpol, no que seria apenas o choque natural entre sal e água – em torno do sol, o mar da história é felicidade de espuma onde a lenda germina e se cria um vazio de lodo – sangue coagulado – o coração vivo vaga pelo céu vazio – escroques estupram Mnemosine – Mnemosine é uma cachorra, uma puta que proclama lições de moral em frente ao éter.

4/01/2013

Da série Planetário de bolso 1

Saturno
Leveza mais pesada que todos os outros pesos somados, água viscosa escura e quente, de um quente frio gelando a alma, assim como a verdade migra de boca em boca até ficar irreconhecível esse é o movimento do velho sábio ao descobrir que não devia ter começado, mas agora não há volta e prossegue, lendo um livro atrás do outro, como se uma nova doença fosse necessária para curar a velha doença e assim por diante, irmão siamês da Terra conectado à sua dor por laços invisíveis como arames farpados mentais, não o filho pródigo e sim o irmão invejoso do filho pródigo, o que sempre ficou, o que nunca partiu e que apenas tarde demais entende que deveria ter partido para poder retornar, há uma lágrima repartida no horizonte de onde brota toda a beleza da singularidade, um desperdício de beleza vagando no espaço, este planeta é todo verde por dentro.

Urano
Quase parado, cúpula de gelo cobrindo o oceano. Tudo o que, suspeita-se, pende invisível no segredo noturno. A violência da vida nasce com marteladas que produzem sangue no que antes parecia um cristal impoluto. Labor de dentes mastigando o próprio ventre por dentro, matéria densa parteira de palavras antes de emergirem num sopro, ventania brotando do choque do vidro mais denso contra o sonho de estar vivo. Uma presença incerta, algo como um calafrio, uma visita inesperada. Olho pro teto: um pequeno cubo luminoso, semelhante a uma cigarreira com figuras humanas de perfil: azul claro em meio à escuridão. Digo: “não tenho medo e nem odeio”. Do cubo começam a cair pequenos losangos coloridos. Quantas cores: azul, verde, vermelho, amarelo: cada losango se abre e dele saem novos e menores losangos de cores diferentes: lilás, cinza, laranja, branco. É tudo tão lento: os losangos parecem se mover como se fossem animais marinhos, polvos abrindo seus tentáculos e procriando vidas de seda. Antes de os losangos desaparecerem ao tocar meu rosto, novos e novos se abrem, sempre menores – e cada vez mais coloridos. Uma sensação de tranqüilidade: ou a presença se foi ou ela se dissolveu em meu rosto, que brilha suavemente na escuridão enquanto desapareço.